Princesa Celestia, você tem umbigo?

Autor: Foals Errand

Tradução: Drason

SINOPSE: Após um discussão em sala de aula, Twilight tem uma importante pergunta para fazer à sua mentora.

Senhora Flower Petal batia seus cascos juntos, muitas vezes em vão tentando chamar atenção de seus vinte e dois alunos para retornarem aos seus lugares. O recreio havia acabado e eles precisavam terminar seus deveres antes que o sinal tocasse para irem embora. Não era surpresa que apenas uma de suas jovens estudantes voltassem para sua escrivaninha, embora o mais adequado seria afirmar que ela nunca saía de sua carteira em primeiro lugar.

Flower Petal não sabia exatamente o que pensar sobre sua aluna mais jovem. Ela tinha apenas quatro anos de idade em uma sala em que a média era de cinco a seis anos. Ela se encontrava mais uma vez olhando para sua marca especial, o que era bastante precoce para sua idade. Ela sacudia sua cabeça, observando enquanto a jovem unicórnio púrpura abaixava o livro que estava lendo e olhava para ela, lhe dando um breve sorriso antes de retornar seus olhos para o livro.

O chifre de Flower Petal emanava uma aura amarela enquanto um apito enchia a sala. Todas as crianças imediatamente paravam o que faziam e retornavam para seus assentos enquanto ela balançava sua cabeça.

Se apenas eles ouvissem quando eu batesse os cascos.

“Muito bem alunos,” Flower Petal dizia no momento em que a inquietação havia cessado. “O resto da aula estava reservado para nós estudarmos o capítulo um sobre levitação, no entanto, acho que deixaremos essa lição para a próxima segunda. Hoje nós teremos uma discussão muito importante.” Flower Petal sorria enquanto os pequenos unicórnios olhavam para ela curiosos.

“Hoje nós vamos aprender uma nova canção!” Flower Petal irradiava seu chifre antes de levitar seu violão, começando a tocá-lo. “Um unicórnio não tem asas em suas costas, mas um chifre em suas cabeças. Eles são pôneis mágicos.”

Os pequenos unicórnios hesitavam em começar a cantar antes que uma potranca azul se manifestasse, abrindo a boca. “Um unicórnio não tem asas em suas costas, mas um chifre em suas cabeças. Eles são pôneis mágicos!”

Os outros terminavam o verso um pouco mais em voz baixa e Flower Petal estava satisfeita em ver que até mesmo Twilight Sparkle estava murmurando as letras. “Um pegasus tem asas em suas costas, mas não chifres em suas cabeças, eles são pôneis voadores.”

Levou menos tempo para suas estudantes cantarem o verso. “Um pegasus tem asas em suas costas, mas não chifres em suas cabeças, eles são pôneis voadores!”

“…Pôneis voadores.” Flower Petal sorria ouvindo a pequena voz de Twilight terminar o verso.

“Um pônei terrestre não tem asas em suas costas, nem um chifre em sua cabeça, eles são pôneis amorosos.” Ela tocava o violão, com os pequenos alunos ávidos para cantarem.

“Um pônei terrestre não tem asas em suas costas, nem um chifre em sua cabeça, eles são pôneis amorosos!”

“Pôneis amorosos…” Twilight terminava, sua tímida voz ecoava em menor intensidade.

“Um alicornio tem duas asas em suas costas e um chifre em sua cabeça. Eles são os pôneis dominantes.” Ela sorria enquanto os olhos de Twilight iluminavam e sua boca abria em primeiro lugar.

“Um alicornio tem duas asas em suas costas e um chifre em sua cabeça. Eles são os pôneis dominantes!”

Os outros observavam o quão ansiosa Twilight estava e ela nervosamente se encolhia, levando sua calda em seus cascos, dando uma afagada.

Flower Petal suspirava baixinho mas sorria antes de terminar a canção. “E esses são os pôneis amigos de Equestria!”

Sem nem mesmo um momento de hesitação, os alunos cantavam o verso final com a força de seus pulmões. “E esses são os pôneis amigos de Equestria!”

Todos os alunos exceto um. Twilight Sparkle mantinha a cabeça baixa e parecia tentar evitar a sala de aula. Flower Petal suspirava.

Suponho que a Princesa pode estar certa. Talvez seja hora de Twilight ter todas as suas aulas com ela. Seus pensamentos eram interrompidos enquanto ela via um casco rosa acenando no ar. “Sim, Candy Drop?”

“Meu pai disse que unicórnios são su… super… os melhores pôneis. É por isso que estamos em primeiro lugar na música?”

A face de Flower Petal endurecia antes que ela forçasse os cantos da boca para cima. “Claro que não, Candy Drop. Depois de tudo, enquanto unicórnios têm chifres, pegasus são os únicos com asa e pôneis terrestres têm a maior força física de todas. Vamos fazer uma brincadeira, meus pequenos pôneis. Nós aprendemos uma canção sobre as diferenças dos pôneis, mas o que todos os pôneis têm em comum?

As crianças entreolharam antes que um unicórnio marrom levantasse um braço. “Os cascos?”

“Isso mesmo, Cinnamon! O que mais?” Flower Petal sorria enquanto escrevia “cascos” no quadro negro.

“Todos nós temos olhos!” Uma potranca azul sorria enquanto ela saltava de seu assento.

“Exatamente, Cloudy Sky!” Flower Petal escrevia no quadro animadamente. As respostas vinham uma atrás da outra: quatro pernas, orelhas, focinhos, caudas, até que finalmente um potro laranja sorria e gritava.

“Todos nós temos umbigos!”

A mágica de Flower Petal diminuía, fazendo o giz cair. “Ah… sim, sim, Orange Seed. Todos os pôneis têm umbigos.”

Após sua afirmação surpresa, ela pegava o giz para continuar a preencher a lista. Ela percebia que eles estavam começando a ficar entediados, então novamente levitou seu violão. Eles cantavam a música até que o sinal finalmente tocava, anunciando o final da aula.

“Bem, isso é tudo nesta semana.” Flower Petal dizia, para uma sala contente. “Vejo vocês segunda de manhã crianças!” Seus olhos seguiam até Twilight enquanto distraidamente levitava seus livros até seu alforje.

Exceto você, minha querida Twilight Sparkle. “Twilight, lembre-se de ficar em sua carteira até te buscarem.”

Um minúsculo aceno da unicórnio roxo era sua única resposta. Alguns momentos depois, um pegasus branco vestido com uma armadura amarela chegava.

“Senhorita Sparkle, você está pronta?” Seus lábios quase se contraíam em um sorriso enquanto Twilight se levantava fechando seu alforje depois de recuperar o equilíbrio. Ela trotava até o guarda real e olhava para cima.

“Tchau, senhorita Flower Petal. Vejo você na segunda.”

Flower Petal sorria. “Tenha um ótimo fim de semana, Twilight!” Espero que algum dia eu ouça coisas maravilhosas sobre você. Adeus, minha estudante.

Twilight acenava e seguia o guarda até a carruagem. Ela se sentava, olhando para o chão, dobrando subitamente seus ouvidos enquanto pensava em suas lições. O guarda olhava para ela franzindo a testa. Normalmente, a unicórnio roxo brincava com sua magia sempre que ele a escoltava para as lições com a Princesa. O guarda sacudia sua cabeça, ciente que a Princesa seria capaz de trazer o ânimo de Twilight de volta.

Princesa Celestia franzia enquanto ela percebia pela terceira vez que sua fiel estudante parava de prestar atenção. “Twilight? O que foi? Você sabe que pode me contar qualquer coisa.” Ela sorria de uma forma que esperava ser reconfortante.

Twilight olhava para cima, com seus ouvidos dobrados enquanto ela olhava para os olhos magenta de Celestia antes de olhar de volta para o chão arrastando seu casco. “Você vai achar que é bobo.”

Celestia sorria. “Twilight Sparkle, e se eu dissesse a você alguma coisa sobre mim que é muito bobo?”

A cabeça de Twilight levantava incrédula. “Boba, você? Mas Princesa, você é perfeita!”

Celestia riu. “Oh, Twilight, todos os pôneis têm algo de bobo, até eu! Quer saber o que é?”

Twilight sorria e acenava. “Tudo bem!”

Celestia olhava em volta para se certificar que não havia mais ninguém por perto além delas mesmas. Satisfeita se certificando que eram apenas ela e Twilight, a alicornio branca suspirava e engolia vários doces. Ela olhava para os grandes olhos púrpuras e confiantes de Twilight. “Isso é um pouco bobo, Twilight, então você precisa guardar segredo… mas você sabe o quanto eu adoro doces, certo?”

Celestia mal evitava os roncos enquanto ela via Twilight acenar, tentando não rolar os olhos. Infelizmente, Twilight ainda era muito jovem para controlar suas emoções como um adulto. Celestia permitiu uma risadinha.

“Sim, mas eu suponho que isso não seja exatamente um segredo, não é? Twilight balançava a cabeça. “Digo, definitivamente não é, Princesa Celestia.”

Celestia sorria. Oh, como eu adoro esta pequena pônei. Ela é tão honesta. “Bem, e você sabia que eu não sei cozinhar e nem assar?”

Twilight olhava e então sorria. “M-mesmo?”

Celestia corava enquanto sorria colocando um casco em seu peito. “Do fundo do meu coração. Eu tentei aprender mais vezes do que posso contar, mas nunca deu certo. Certo dia eu consegui congelar uma panela de água fervente, e ainda fiz diplomatas visitantes irem que nem um foguete para o banheiro depois de provarem minha sopa. Fui permanentemente banida da cozinha real.”

Twilight não aguentava mais; ela começava a rir. Celestia estremecia, mas então juntou-se a ela até que as duas começaram a chorar de tanto rir. Logo, no entanto, Twilight estava aconchegada no corpo de Celestia.

Celestia cobria a pequena unicórnio roxo com suas asas. Ela suspirava com um sorriso gentil. “Bem, minha fiel aluna, eu disse a você sobre minhas coisas bobas, agora é a sua vez.” Celestia abria suas asas e Twilight sorria entes de concordar.

Twilight abria sua boca e em seguida fechava. Franzindo a testa, ela finalmente abria sua boca e deixava sair. “Princesa Celestia, você tem umbigo?”

Celestia piscava. Ela estava viva por muito, muito tempo e várias perguntas haviam sido feitas a ela, mas esta foi a primeira vez que alguém perguntou se ela tinha um umbigo. Bem, Twilight estava certa, essa é uma pergunta boba. Ela sorria para Twilight, esperando obter um pouco mais de explicação.

“Hum… bem,” Twilight continuava, “na aula nós aprendemos uma canção interessante sobre como os pôneis são diferentes uns dos outros. Então, senhorita Flower Petal nos fez pensar até onde éramos semelhantes. Orange Seed disse que nós todos temos umbigos e eu estava apenas me perguntando. Digo, eu sei que você é um pônei e se você não tiver um isso não vai mudar nada mas… você tem?” As orelhas de Twilight se levantavam enquanto ela balbuciava, com sua calda entre as pernas.

Depois de um momento, Celestia ria e se deitava no chão da biblioteca. Ela rolava de costas com suas asas espalhadas, revelando sua barriga ligeiramente estufada. “Bem, minha fiel estudante, por que você mesma não me diz?”

Twilight inclinava a cabeça, e trotava mais perto olhando para a barriga de sua mentora, seus ouvidos balançavam enquanto ela engasgava de alegria. “Você tem! Você tem! Princesa Celestia, você tem umbigo!”

Celestia observava enquanto Twilight saltava ao redor. A barreira final entre nós foi perfurada. Estou tão orgulhosa de você.

Não levou muito tempo para Twilight ficar esgotada com seus saltos. Percebendo que sua lição estava feita, Celestia levitou Twilight até suas costas e a carregou até o quarto situado ao lado dela própria. Celestia a colocava cuidadosamente em sua cama enquanto um pequeno casco púrpura tocava seu focinho e Twilight bocejava. Celestia beijava sua testa. “Tenha uma boa noite, Twilight. Vou acordá-la para o café da manhã.”

“Boa noite Princesa.. te amo.” Twilight murmurava. Sua respiração desacelerava enquanto ela caía em um sono profundo.

Celestia pausava e sorria. “E eu te amo também, Twilight.” Ela olhava para o mural na parede do céu noturno de Twilight, seus olhos pousavam sobre a imagem da égua na lua. “E eu amo você também, Luna.”

Celestia assoprava a vela e trotava para fora do quarto enquanto ela sorria, pausando por um momento entes de fechar a porta do quarto de Twilight.

“Com umbigo e tudo.”

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Sem palavras para descrever – Livro I – Cap.08 – Amanhã

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Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

Equestria — Ponyville — Biblioteca, 13 de Fevereiro, 21:09. 

A Prefeita se aproximou de Twilight, meio preocupada — Boa noite novamente, Srta. Sparkle! Está bem recuperada? Não se sente mais… cansada?

— Estou, sim, bem recuperada, Srta. Prefeita. Realmente estou muito melhor agora! — respondeu Twilight com entusiasmo — Agradeço a preocupação, mas pode ficar tranquila. A reunião continuará, sem mais atrasos e interrupções! Estou confiante disso!

— Magnifíco, Twilight! — disse Rarity, batendo os cascos — Sua segurança é digna de se apreciar! Perfeito!

— Até que fim deixou de ser uma cabeçuda turrenta! — Rainbow Dash ergueu um sorriso maroto, seguido de um tapinha nas costas de Twilight. — Mas ainda falta muito para deixar de ser cabeçuda.

Rarity novamente fechou a cara, — “Ela ainda fica fazendo piadinhas. Hunf. Rainbow não muda nunca.” — pensou ela, bufando pelas narinas.

Mas para a sua surpresa, Twilight não se incomodou com a piadinha; até começou a dar uma risadinha junto com a Rainbow. Ela estava muito bem humorada; até parecia ser outra pônei que não a sua estressada amiga.

A Prefeita sorriu e deu espaço para Sparkle passar. A pônei de caqui trotou calmamente de volta ao seu lugar enquanto a pônei cor-de-lavanda se dirigia para o centro da mesa. Rarity a estava acompanhando logo atrás. Já Rainbow Dash planou levemente pelo ar e pousou em uma cadeira do outro lado da mesa.

Porém, Twilight encontrou um reconhecível corpo barrento que surgiu não mais que de repente ao seu lado. Rarity também percebeu e assustou-se um pouco. E, quando ela o reconheceu, conseguiu ficar mais pálida que sua própria pelagem.

Capitão Stubborn estava ereto, bem ao lado de Twilight Sparkle. Ele a olhava do alto, baixando levemente a cabeça, com os olhos baixos e nariz reto. Twilight encarava ele de volta erguendo a cabeça e um queixo suspenso. Seus olhos púrpuras alfinetavam os olhos sombrios de Stubborn, quem não esboçava uma sequer reação; como sempre. Rarity engoliu seco, meio nervosa. Ela não sabia realmente se Twilight estava preparada para conversar ou até mesmo olhar para o bruto convidado que apenas a prejudicava moralmente de seus atos mesquinhos e egoístas. Isso a preocupou um pouco, será que Sparkle vai se estressar novamente e se exaltar?

— Nossa Dedicada Aprendiz da Princesa parece recuperada. — disse Stubborn para começar. — Trouxe a responsabilidade e maturidade contigo?

— Não só isso: Boa noite, Capitão Stubborn. Vossa presença será importante para a reunião de hoje. Se possível for, após ela, gostaria de conversar com o senhor em particular. Acredito que tenha mesma coisa em mente.

Stubborn ergueu uma sobrancelha — Deveras tenho e desejo, Nossa Perceptível Aprendiz da Princesa. Terá minha total atenção após a reunião, caso queira. Espero receber o mesmo de Vossa Faladora Aprendiz da Princesa.

— Com a maior certeza receberá. Disso não terá a menor dúvida. Ficarei lisonjeada em ouvir o que tem a dizer. Se me der licença, preciso começar o que o senhor está atrasando. — ela assentiu cordialmente com a cabeça e se virou, trotando em direção a sua cadeira na ponta da longa mesa.

Stubborn ficou parado, olhando para a nuca de Twilight Sparkle conforme ela se distanciava dele. Ela impôs sua atenção no que era mais importante no momento: A reunião. O que quer que os dois queriam falar, isso era para mais tarde.

Rarity também ficou um pouco imóvel; seus olhos azuis-diamantes brilharam com uma certa intensidade. Esse pequeno encontro foi o suficiente para ela orgulhar-se de sua amiga e de seu novo autocontrole.

— Incrível como ela cresceu de uma hora para outra. — pensou Rarity, erguendo um esperançoso sorriso — Está realmente mais confiante de seus atos do que antes; ela tinha medo até de dar o primeiro passo. Até onde você vai, Twilight Sparkle?

Ela aproximou-se de Stubborn bem devagar, para não chamar atenção. Rarity se sentia resoluta por alguns momentos, meio receosa se ia levar ou não uma patada moral daquele montanhoso indivíduo.

— Acho que deu certo, Capitão. — disse Rarity, aos sussurros, com o casco ao lado de sua boca — Realmente achei que não ia funcionar o que o senhor pediu para nós fazermos. Estava enganada; gostaria de agradecê-lo por se preocupar e ter ajudado minha amiga.

Stubborn permaneceu sério, ainda encarando a unicórnio cor-de-lavanda sentada em sua cadeira que folheava os papéis, organizando seus pensamentos e planos. Rarity demonstrou-se um pouco nervosa por estar ao lado dele. Sua fronte branca começou a ficar um tanto oleosa por causa do suor frio.

— Saiba que eu mesmo poderia ter feito isso. — disse ele finalmente numa voz grave, mas baixa.

Rarity virou seu rosto, surpresa em ouvir uma resposta dele.

— Mas, para ela, eu não sou ninguém. Até porque seus atos de hoje fizeram com que tivéssemos uma relação muito atrita. Nossa Nervosa Aprendiz da Princesa não me ouviria, a não ser de suas mais próximas amigas. A Vossa Gentil Estilista e Nossa Atlética Pégaso eram as melhores opções para trazê-la ao bom senso. Não há mais nada com que se preocupar com ela. Vou assumir a responsabilidade por ela a partir de agora. Com licença. — Stubborn virou seu rosto para Rarity e assentiu levemente com a cabeça; uma singela despedida.

Rarity ficou sem ações, mas respondeu de volta com um mesmo aceno com a cabeça. Stubborn a deixou e foi se sentar em seu lugar, perto de Sparkle, onde ele possa ver e ouvir bem.

A pálida unicórnio ficou boquiaberta; aquele bruto simplesmente foi gentil com ela? “Vossa Gentil Estilista”? Finalmente ela conseguiu identificar um elogio daquele corcel barrento. De alguma forma, ela se sentiu realizada com aquele título. Não era um grandioso título como ela realmente gostaria que fosse, mas ainda assim era adorável.

Mas Rarity não podia parar para pensar: Por que ele estava sendo gentil agora? O que aconteceu para ele repentinamente mudar de comportamento, assim como sua amiga Twilight Sparkle? Como assim “assumir a responsabilidade por ela”? O que está havendo? E qual é o plano dele?

Twilight Sparkle chamou-lhe pelo nome com educação. Rarity se sobressaltou e olhou ao redor, saindo de um curto transe. Ela percebeu que apenas ela restava no espaçoso cômodo para se sentar; até a Pinkie Pie, que estava meio sumida desde que foram para a cozinha, estava lá sentada ao lado de Stubborn. Ela riu nervosamente, desculpou-se e foi se sentar em seu lugar.

Twilight Sparkle limpou sua garganta — Boa noite e agradeço a presença de todos. Perdoem-me pelo o que aconteceu esta noite se deixei muitos pôneis preocupados comigo. E digo-vos solenemente: Estou muito melhor agora e peço para que não se preocupem. — ela olhou nos rostos dos convidados presentes, alguns pareciam estar aliviados mas outros nem tanto.

— Já li os papéis que a Srta. Prefeita organizou para mim — Twilight agradeceu a Prefeita e a mesma agradeceu de volta, trocando acenos com a cabeça — e darei as funções e tarefas oficiais para todos. Mas antes preciso fazer a chamada para registrar suas presenças.

Twilight acendeu seu chifre com um brilho roxo. Ela levitou um pergaminho enrolado da mesa e o desenrolou. Com uma pena flutuante, começou a marcar as presenças pelo topo da folha. Os nomes estão organizados brevemente em ordem alfabética: Applejack; Pinkie Pie; Prefeita; Rainbow Dash; e Rarity. Cada nome citado foi perguntado e respondido com um “presente”; e Sparkle marcava-os ao lado. Twilight observou os convidados extras que estavam, no momento, fora de sua lista: Capitão Stubborn, que estava ao seu lado com a mesma expressão irritante de sempre, e Foreign Eye, que estava sentado na ponta do outro lado da comprida mesa entre os dois.

Sparkle olhou para Foreign com os olhos levantados e nariz apontado para o pergaminho. O rosto cremoso dele estava calmo, mas seus olhos celestes a encaravam com uma súbita dúvida. Ela não entendia essa atenção dele sobre ela, mas ainda acreditava que seja pelo vergonhoso ocorrido momentos atrás. Twilight abaixou os olhos com tristeza e escreveu os nomes manualmente na lista. Marcou-os em seguida, confirmando suas presenças, e descansou a pena no tinteiro.

Foreign percebeu que algo a incomodava. Ele ainda sentia preocupação pela saúde de Srta. Sparkle, novamente por causa do ocorrido, mas sua preocupação não era por pena. Estava apenas incomodado. O elegante corcel ia dizer algo, mas ficou resoluto. Encostou-se na cadeira e mudou sua atenção para as seguintes palavras de Sparkle.

— Todos estão presentes. — com um outro brilho mais intenso de seu chifre, o pergaminho se desfez no ar com um flash branco; suas energias realmente pareciam revigoradas — Vou começar a oferecer suas tarefas para amanhã.

Sparkle acendeu novamente seu chifre com um brilho roxo e papéis que estavam diante dela foram distribuídos numa roda reta e organizada; essa roda girou por sobre a mesa, diante dos convidados presentes. Cada papel flutuante estava destinado ao dono da tarefa; alguns receberam grandes maços, outros poucos. Applejack recebeu a menor pilha porque sua tarefa já era óbvia: ela cuidava dos mantimentos da cidade com a fazenda de sua família. Nas folhas que recebeu, apenas continha números de lotes e identificação para separar os produtos e endereços para entregá-los e armazená-los. Já Pinkie Pie ganhou a maior das brochuras, contendo vários preparativos, brincadeiras, aperitivos, receitas, drinques e guloseimas que ela tinha que providenciar com os Cakes. Ela bateu os cascos alegremente — não pela pesada pilha de tarefas diante dela, mas pela mágica que Twilight executou de forma surpreendente —. Uma pilha menor que a da Applejack foi entregue ao Stubborn e à Rainbow Dash: nenhuma folha foi passada para eles.

— Hã… Twilight? — perguntou Rainbow, confusa — E então? Cadê minhas tarefas? Vai me dizer que pretende me deixar de fora?!

— Sua tarefa creio que você já sabe, Rainbow. Não é necessário de papel para entregar-lhe. Apenas minha confiança e de todos é o suficiente.

Todos na mesa acenaram com a cabeça, concordando; juntamente com sorrisos, vindos dos mais íntimos.

Rainbow coçou um pouco a nuca, — Hehe. Tá certo, então.

— Além de, creio eu, que o Capitão Stubborn já possuí outras tarefas em mente para amanhã e nos próximos dias. Ele irá passar essas tarefas para você, já que os dois vão trabalhar juntos. Não é verdade, Capitão?

Stubborn suspirou com desdém — Sim, é verdade. — grunhiu ele — Portanto esteja bem preparada, Nossa Atlética Pégaso, — ele olhou para Rainbow ao seu lado pelo canto do olho — pois meus rapazes vão chegar aqui para organizar a segurança dos cidadãos e você irá me acompanhar. Isso se conseguir…

— Irei acompanhá-lo até a Lua, se Princesa Luna permitir! Quero ver é você seguir minha sombra! — Rainbow Dash riu com orgulho. Stubborn apenas bufou.

Twilight Sparkle falou por mais alguns longos minutos, tentando explicar o máximo possível sobre os planos para aquela semana e como começariam a pô-los em prática. No final, todos começaram um pequeno debate, oferecendo vossas opiniões; sejam elas pessoais ou não. Pinkie Pie era — surpreendentemente — uma dos poucos convidados a falar. E, quando falava, era com piadinhas, brincadeiras e até dava ideias “super-hiper-mega-divertidas” para os visitantes quando chegarem a Ponyville. Muitos não se irritavam ou ficavam nervosos com sua atitude infantil na reunião pois ela declarou que sabia perfeita, confiante e mirabolantemente o que tinha em mente e o que fazer amanhã. “Afinal, é amanhã que começa o trabalho; não há porque se preocupar com ele agora”, ela afirmava.

Rarity disse sua opinião quanto a organização e os preparativos dos eventos, citando assentos para o palco, hospitalidades para os visitantes, mesas numeradas e ordenadas para as reservas. Ela era bem cuidadosa nessa parte; queria o máximo de conforto e praticidade para eles. Rainbow Dash até ajudava em suas ideias mas também alertava quando Rarity queria enfeites e efeitos mirabolantes como tochas, grandes painéis, longos laços por toda vila ou mesmo fogos de artifício. Twilight escutava todos os argumentos; aprovava e rejeitava quando necessário. Alguns momentos Foreign Eye se pronunciava e dava sua opinião em itens que Twilight aceitava e rejeitava, refavorecendo e dando mais uma chance de ela, quem sabe, mudar de ideia.

A tarefa de Foreign era auxiliar Sparkle na organização para não ficar afobada e não tomar decisões precipitadas. Ela acatava o que Foreign argumentava, como também ignorava quando não havia sentido para mudar de ideia. Os dois pareciam meio receosos um com o outro ainda. Sparkle fazia o possível para não ser turrenta ou infantil na frente dele e tomar uma atitude mais madura; já Foreign não sabia ao certo se a ajudava manualmente ou se apenas a orientava de longe. De qualquer forma, ou um ou outro meio iria fazê-lo se aproximar de Twilight Sparkle; isso infelizmente o incomodava.

O debate perdurou pelos restos das horas que podiam usar naquela noite. Quando começaram eram 21:12 da noite — isso são mais de uma hora de atraso! —, mas, com êxito e sem mais interrupções, conseguiram pôr os assuntos a mesa e o carimbo nas folhas antes das 23:00. Algumas suspiraram cansadas, outros bocejaram num alívio momentâneo.

— Acredito que já deu por hoje, amigos. — disse Twilight com os olhos um pouco caídos, mas tentava mantê-los bem abertos — Estão dispensados. A reunião acabou. Vejo todos vocês amanhã bem cedo no Sweet Apple Acres. Temos, ao todo, alguns dias para quando começar o Grande Evento. Obrigada e uma boa noite a todos.

Pôneis aplaudiram com uma satisfatória alegria, mas já começaram a se levantar das cadeiras e tomar os seus rumos para a saída da biblioteca. Deram-lhes boa noite uns com os outros, tanto verbalmente como em abraços amigáveis. Rainbow Dash, Rarity e a Prefeita foram as primeiras a deixarem a biblioteca para trás e irem rumando para suas casas. Como iam na mesma direção, aproveitaram os últimos minutos para conversarem entre si na calada da noite.

— Que noite mais charmosa e adorável! — exclamou Rarity, olhando pro alto com admiração. — Uma pena que hoje eu prefira dormir mais do que apreciá-la. Foram um dia e uma noite cansativas, até para mim! Se meu sono permitisse e tivesse alguém para me fazer companhia nesta linda noite, faria de bom agrado. — terminou ela com um suspiro sonhador.

Rainbow Dash respondeu com a língua para fora, meio enojada. A Prefeita rolou os olhos com um sorriso torto, apesar de compartilhar da mesma falta e anseio.

Applejack permaneceu mais um pouco para certificar-se de que Twilight estava bem e se não ela não estava escondendo nada. Sparkle, após muita insistência, conseguiu convencê-la de que estava tudo realmente bem.

— ‘Noite, Tualáiti! Druma bem, visse?! — disse a pônei alaranjada, alertando-a uma última vez.

— Boa noite, Applejack. — respondeu ela. — Vou dormir, com certeza. Vou fazer questão de ir em sua casa e puxar seu casco para fora da cama, caso ainda insiste!

Applejack riu um pouco e foi se distanciando. Twilight fechou a porta da biblioteca e a trancou em seguida. Durante sua curta caminhada pela rua noturna de Ponyville, AJ encontrou com Foreign um pouco mais a frente, olhando ao redor. Parecia estar perdido e tentava procurar alguma coisa, mas era difícil enxergar no escuro, mesmo com as fracas luzes dos postes nas ruas.

— Está difícil de ler placas com essas luzes fracas! — pensou ele aos suspiros — Taí uma coisa para conversar com a Srta. Sparkle para resolver amanhã…

Applejack aproximou-se por trás sem ele perceber, — Tá perdido, Nhô Aiê?

Foreign assustou-se um pouco, mas reconheceu a voz de Applejack. Ele se virou para ela, meio envergonhado.

— Pois é, Sinhá Applejack! — riu ele — Acabei de chegar a cidade, mas não consigo descobrir que rua é esta para tentar achar a rua da casa onde estou hospedado. A Princesa Celestia me deu o endereço mas não pude passar lá ainda.

— Bah! Sem pôbrema, Nhô Aiê! Dêxa’vê o nomi da rua, posso ti guiá inté lá, si voismicê quisé.

— Muito obrigado, Sinhá Applejack! Ficaria muito agradecido! — Foreign xeretou um dos bolsos de seu terno com o focinho e mostrou um pequeno papel anotado para Applejack, segurando-o com a boca.

Applejack rapidamente leu o que estava escrito e riu com entusiasmo. — Haha! Conheço essa rua, sim, sinhô! I é caminho donde é minha casa! Podêmo acertá dois coêio numa cajadada só! Acumpanha mais eu! — ela terminou acenando com o casco.

Foreign guardou o papel com um sorriso no rosto e seguiu sua guia Applejack, que já estava um pouco a frente. Eles trotavam em um caminho fofo e campeado em grama verde-escura. Dos dois lados do largo caminho, as casas dos habitantes cresciam a uns dois ou três andares, variando conforme avançavam silenciosamente em trotes abafados sobre a grama irriquieta. As casas eram feitas de madeira, pintadas de branco ou em tom marfim. Pelas arestas ornamentavam com retas em cor madeira ou em vermelho indiano. Seus telhados eram cobertos por colmos secos; poucos deles tinham uma ou duas chaminés em tijolos. Moitas e pequenos arbustos acompanhavam janelas e portas térreas; em alguns tinham flores sonolentas em tons sombrios, outros faiscantes vaga-lumes que dançavam ao redor. Não era possível enxergar as placas que ficavam penduradas nas portas das vizinhanças, mas ainda podiam-se ver janelas abertas e acesas. Sombras fantasmagóricas atravessavam elas, assim como vozes em conversas amigáveis e música calorosa. As lamparinas espalhadas pela rua emanavam uma cor amarelada, o suficiente para abrir caminho pela escuridão das vielas e sombras dessas casas aglomeradas.

— Aliás, Nhô Aiê. — disse Applejack, puxando assunto — Percebi uma coisa quâno ocê chegô nim Ponyville: donde ocê deixô suas coisa; sua mala? Si o sinhô disse qui num havia passado na casa qui tava hospedado? Num mi diga qui o sinhô as deixô jogada puraí?!

— Não, não! Não as deixei por aí. — respondeu ele com uma risada — Veja: Quando a Princesa me chamou, tinha sido uma chamada de última hora. Nossa Majestade me deu a tarefa de vir para cá para auxiliar a Srta. Sparkle nos preparativos para o Grande Evento. Mas tive que vir para cá o mais rápido possível, antes das 20:00, que é quando começava a reunião.

— Hm, tô intendêno. — Istranho a Princesa fazê coisas di úrtima hora… Qui qui será qui tá assucedêno?

— Então: Quando eu cheguei aqui, — continou Foreign — eram quase 20:00; tive que ir direto para a biblioteca, mas ainda assim cheguei um pouco atrasado.

— Tá certo, Nhô Aiê. — ela acenava com a cabeça positivamente — Inté aí intendi, már i suas mala, criatura?! Ficô mi embromâno i num mi disse inté agora!

— Ah, sim! — ele se sobressaltou, com um relapso repentino em sua memória — Bom…. Eu não as trouxe, na verdade! — terminou ele com uma risada meio irônica.

— “Num trôxe”?! — AJ virou para ele, atônica — Oxênte, como ansim?!

— Foi como eu disse, Sinhá Applejack: Saí de Canterlot às pressas e não pude prepará-las. A Princesa me certificou que enviaria minhas malas prontas para Ponyville pela manhã. Então, tomei uma de suas carruagens e vim para cá.

— Hm, tá expricado. Már num tem pôbrema! Aminhã chega suas coisa bem cedinho, si conheço bem uma certa intregadora! — e ela lembrou também — Ah, sim, Nhô Aiê! Num sei si o sinhô já tinha prânos pra tomá café-da-minhã aminhã, már si quisé, pódi passar lá nim casa qui vai tê um bem caprichado pra todos qui tão trabaiando nas construção!

— Maravilhoso, Sinhá Applejack! Com o maior prazer irei! Assim que souber como chegar lá… — terminou com uma risadinha.

— Hehe! Num vai sê difícir! É só prêguntá pra quarquér um na vila: “Cum licença, donde Sinhá Applejack mora?”. Eles vão ti indicá o caminho!

— Hu-hum. Está certo. — disse ele, agradecendo a gentileza da anfitriã — Vou passar lá.

Os dois foram-se caminhando pela estrelada noite da Princesa Luna. Applejack ainda conversava um pouco sobre sua fazenda e sua família. Falou de seu irmão mais velho, sua irmãzinha e de sua avó querida. Também falou de seu trabalho com as safras de maçã quando estavam maduras e o que se podia fazer com elas. As receitas que ela mais adorava eram Cidra de Maçã, caramelizadas Maçãs-do-Amor e não mais que um belo Apfelstrudel. Foreign também falou de uns doces que gostava como Torta de Creme e Bolo de Rolo; uma delícia, até ficou com água na boca só de tentar lembrar o gosto. AJ perguntou mais sobre seu reino de origem, o Reino das Terras Férteis. Esse nome a interessou muito quando leu o livro e quis saber mais sobre seu significado. Muita coisa comentada no seu livro ela já sabia, Foreign percebeu que não adiantava comentar tudo o que já continha lá. Mas Applejack queria saber mais sobre as terras, os campos de lá; se eram tudo aquilo mesmo que ele descreveu naquela grandiosa obra. Seus olhos esmeralda faiscavam em ansiedade para conhecer mais sobre os terrenos férteis e vívidos daquele reino qual todos o titularam como “Mágico”. Foreign suspirou com um sorriso.

Applejack ergueu o casco ao longe para sua esquerda e Foreign seguiu-a amistosamente, enquanto contava sobre seu reino de origem e suas terras.

***

Com um brilho de seu chifre cor-de-lavanda, Twilight Sparkle fechou a porta de sua biblioteca após despedir-se de sua honesta amiga, Applejack, e a trancou logo em seguida. Descansou a chave na cômoda, onde sempre a deixa à vista para o seu fiel assistente abri-la novamente pela manhã, caso precise. Sparkle suspirou longamente e aderiu uma expressão séria em sua face. Ela se virou e trotou para o último convidado que ainda permanecia em sua residência; pois ambos prometeram que permaneceriam para uma conversa em particular.

— Aqui estamos, a sós para conversarmos. Sem interrupções, nem ouvidos enxeridos. Quer que eu comece ou que o senhor comece, Capitão? — ela já esperava que ele se autoproclamaria para dar a primeira palavra da conversa.

— É preferível que a senhorita comece, Nossa Hospitaleira Aprendiz da Princesa. — disse Stubborn com uma surpreendente educação.

Twilight ficou surpresa; uma súbita mudança de comportamento vindo dele. — P-pois muito bem, obrigada. — ela sentou e limpou a garganta, olhando para Stubborn na suspeita. — Após muita conversa com minhas amigas Rarity e Rainbow Dash, cheguei à conclusão que deveria agradecê-lo… pelo que fez por mim quando eu havia desmaiado pelo meu demasiado esforço.

— Fiz aquilo porque não havia mais ninguém para ajudá-la, Nossa Desesperada Aprendiz da Princesa. — disse Stubborn — Ninguém estava preparado para aquilo e você colocou todos numa situação muito desconfortável…

— Eu sei, Capitão, eu sei. — Twilight ergueu o casco, cortando-o — Por favor, não me venha com esses assuntos moralistas pois já escutei o suficiente vindo de minhas próprias amigas, as quais o senhor as enviou para me acudir quando eu mais precisava de atenção. Mas estou agradecendo o senhor porque minha amiga Rainbow Dash pediu para fazê-lo, não porque o senhor merece.

Ele apertou os olhos, aparentemente confuso — “Não mereço”?

— Sim. — respondeu ela com um aceno com a cabeça — Eu sei que o senhor fez toda aquela cena pra cima de mim de propósito; para me ensinar alguma coisa de um forma bruta e moralista. O senhor estava ciente do que estava fazendo naquela hora; diferentemente de mim, que não havia percebido pois estava meio fragilizada. Eu realmente estava com a guarda baixa mas só percebi depois de muito atrito entre nós. Entendo que aquilo foi necessário para eu aprender com alguns erros de minha parte, mas isso não quer dizer que houve apenas erros meus. Não concorda?

Stubborn não mudou de expressão, mas escutava atentamente aquela unicórnio em seu desabafo. — Concordo. — admitiu ele explicitamente.

Twilight contorceu-se por dentro; sua irritação crescente escapou num aperto entre os lábios — Seu… falso! Então você realmente sabia do que estava fazendo!? Grrr!! — grunhiu ela em seus pensamentos.

Twilight suspirou, tentando descontrair — Devo dizer: se não tivesse agido daquela forma para me ensinar, merecia meu sincero agradecimento. Mas não vou mentir pro senhor, Capitão. Aprendi muita coisa com aquilo, mas ainda assim foi bruto demais.

— Compreendo. — respondeu ele, inexpressivo.

— Mas tenho o direito de saber e espero que me responda: Por que fez aquilo? E como conseguiu fazer aquilo?

Stubborn encarou aquela unicórnio, que olhava para ele com uma expressão séria. Não de uma forma raivosa, mas atenta. Ele apenas suspirou, mas respondeu-a com uma voz grave:

— Como fiz aquilo não posso lhe dizer, apesar de Vossa Julgadora Aprendiz da Princesa dizer que merece ter esse direito. O que eu sabia só cabe a mim dizer, mas não direi. Vejo, escuto e conheço coisas que vão além do que Vossa Inteligentíssima Aprendiz da Princesa desejaria saber, mas não merece; para o seu bem. O que sei sobre Vossa Interessante Aprendiz da Princesa é somente o necessário e o que todos conhecem: Uma pônei com habilidades surpreendentes em magia e heroína de Equestria. Derrotou dois grandes e temíveis seres malignos que ansiavam cobrir nosso Reino com escuridão e caos. Possui um poder oculto que vai além de todas as expectativas, sejam elas para o bem… ou para o mal. Você, Twilight Sparkle, é mais desejada do que pensa.

Twiligh já estava impaciente com aquela ladainha toda de “O Escolhido”; “Aquele que vai puxar o mal pela raiz”; “dissipar todo a maldade de Equestria” que Stubborn estava criando para ela. Ela já sabia de tudo isso, com exceção de todos aqueles títulos imaginários e fantasiosos sobre “Poderes Ocultos”. Isso não passava de um mito, uma parábola. Ficar elogiando e limpando os cascos dos pôneis depois de humilhá-los e pisoteá-los é uma estratégia arcaica e sem fundamentos; ela não cairia nessa nem mesmo se ele estivesse sendo realmente honesto naquele momento.

Ele deve saber de muita coisa; Twilight percebia isso. E também se sentia indignada de ele não lhe contar o que realmente sabia sobre ela para ter feito aquele jogo com seus sentimentos. Mas aquele jogo realmente a ajudou muito, em controlar logicamente suas emoções e não prejudicar mais quem está perto dela. Ela não sabia se continuava com aquilo, indo até o fundo disso, mas também queria saber o que ele tinha a dizer sobre o lado dele da conversa.

— E quanto ao “Por quê”? Isso, ao menos, pode me dizer?

— Posso, mas não preciso. — respondeu ele — Vossa Detalhosa Aprendiz da Princesa já deve estar sabendo e muito disso, já que disse que suas amigas a aconselharam.

Twilight gruniu, juntamente com um suspiro forte. Stubborn estava mesmo enrolando para contar o que sabe. E parece que não irá contar a ela nem sob ameaça; se fosse possível. Mas, parando para pensar, ele tinha razão. O que suas amigas tinham dito e aconselhado a ela sobre as atitudes presunçosas e brutas de Stubborn realçavam o significado do “por quê aquilo tudo”. Justamente para eliminar de vez as ações orgulhosas de Twilight naquela e nas próximas noites. Mas, para isso, ele contava com a ajuda das amigas de Sparkle. Ao que tudo indicava, deu certo. Ela, de certa forma, deixou de ser “aquilo” que ela era e estava deveras pronta para enfrentar seu próximo teste.

— Mas ainda não entendo uma coisa: — disse Twilight Sparkle. — por que dessa brutalidade? Quero dizer, o senhor entrou aqui com anseio de conseguir inimizades e falta de confiança de seus companheiros, ou seja, nós. Ao meu ver, isso não é estratégia deveras inteligente para um Capitão, ainda menos para um General. Ainda não me esqueci do trombicão que o senhor deliberadamente causou a minha amiga Rainbow Dash e das suas palavras grosseiras sobre minha mentora.

— Deveras, não é, Nossa Jeitosa Aprendiz da Princesa. — concordou ele, mas alavancou o tom em seguida — Mas a senhorita não é nenhum Capitão ou General para dizer o que cegamente sabe o que é ser um deles. Sobre esse assunto em particular, não direi mais nada.

Twilight nada respondeu; apenas o encarou, meio irriquieta.

Stubborn mudou o tom, agora mais calmo — Quanto a minha brutalidade, esse sou eu agora. Ou adequa-se ou fique fora do caminho. Não tenho que me importar o que Nossa Orgulhosa Aprendiz da Princesa acha que é certo ou o que é errado. O certo é não me perguntar mais nada sobre isso e o errado é continuar a acusar-me de bruto e alteiro contra sua amiga, sendo que Vossa Esquecida Aprendiz conseguiu ser pior.

 Twilight olhou bem para aquele corcel barrento, tentando entender suas últimas frases — “Consegui ser pior”? “Eu contra a Rainbow Dash”? O que ele quis dizer com isso? — pensou ela.

Então ela lembrou. Percebeu no o que Stubborn estava se referindo entre elas. Um atrito, causado por Sparkle contra sua amiga quando ela estava tentando relaxá-la e acalmá-la por causa do atraso da Prefeita a reunião. Ela lembrou das palavras meio ríspidas que disse; lembrou também do rosto celeste e selvagem da pégaso quando sentiu algo formigar em seu peito pela sua desforra; e se lembrou do triste destino do pequeno banquinho de madeira quando ela descontou toda sua raiva nele. Essas lembranças estavam causando remorso a Twilight, algo que Stubborn já esperava.

Sparkle bufou irritada; “Como ele sabia disso?! Ele não estava aqui quando aconteceu… ou estava? O quê mais ele deve saber?”, ela se perguntou.

— Pois muito bem, Capitão Stubborn. — disse Twilight, tentando conter o tom nervoso — Compreendo que o senhor não pode e não pretende me contar o que sabe — por algum motivo… — mas já disse o que queria dizer ao senhor. Agora, o que o senhor tem a me dizer?

Stubborn adotou uma postura reta e encarou a unicórnio de cima — O que tenho a dizer é de extrema importância, Srta. Sparkle. Tanto vindo de mim como vindo de Nossa Preocupada Princesa. É um assunto extremamente restrito aos outros. Apenas eu; as Princesas; Spitfire, Capitã dos Wonderbolts; e você sabem disso. E ninguém mais pode saber. A senhorita tem minha atenção?

Twilight ficou meio resoluta por um momento. — “Extrema importância”? — pensou ela — Princesa Celestia está tão preocupada assim? Por que só agora ele está me chamando pelo meu nome? Seu comportamento está assustadoramente diferente. Estou começando a entender quando Rainbow Dash disse antes que ele não parecia o mesmo, quando se ofereceu a me ajudar. Isso tudo soa muito estranho; ainda mais vindo dele.

— Peralá! — Twilight ergueu o casco contra ele, na defensiva — O que me garante que o quê o senhor está me dizendo é verdade? Pode ser que o senhor tentou me dar alguma lição, até me ajudou quando eu estava desacordada, mas isso não quer dizer que confio completamente no senhor! Sua brutalidade explícita e o desrespeito em minha casa me alerta que você não é digno de confiança! Só porque o senhor “supostamente conversou” com a Princesa, não quer dizer que eu deva beijar o seu casco e dizer Amém!

— Deveras, não. — respondeu ele sem se alterar. Essa sua calmaria irritou Twilight, como se ele esperasse que ela tivesse essa reação. — Somente palavras não vão convencê-la. Muito menos atitudes pois já demonstrei o quê sou.

— Exatamente! — retrucou ela.

— Mas devo lembrá-la do motivo que de eu estar aqui: A Princesa me enviou aqui. Para quê? Para te ensinar, essa é uma das outras verdades. Além de que, se não me engano, ela fez um documento oficial, comprovando que sou um membro do grupo responsável pelo evento; de que conversei com ela; e de que ela sabe quem eu sou.

Isso era verdade; mais que verdade: um fato. Twilight teve que aceitar esse argumento dele. Stubborn estava começando a convencê-la. O seu cartão oficial como membro do grupo e seu nome na carta enviada pela própria Princesa comprovavam que ele estava dizendo a verdade; e sendo honesto — apesar de tudo —. Twilight também não pode esquecer de sua alta hierarquia militar: Capitão-General de Equestria. De fato, ele conhecia a Princesa e ela o enviou para dar suporte; de algum jeito que ela desconhecia.

— E antes que esqueça, Srta. Sparkle: a senhorita deve-me sua atenção, já que eu lhe entreguei a minha.

Para tudo! Twilight olhou bem para aquele meliante. Ele estava confiante de que, depois daquela revelação, ela faria tudo o que ele quisesse. Estava errado; aquilo, para ela, foi a gota d’água.

— “Atenção”?! O senhor não me deu atenção alguma! Não respondeu direito nenhuma das minhas perguntas! Minto! Desviou de minhas perguntas com respostas inúteis! E ainda quer a minha total atenção depois de sua esdrúxula atenção?!

— Minha atenção foi digna, Nossa Incompreensível Aprendiz da Princesa. Ouvi todas as suas perguntas e respondi todas elas; respeitosamente e de total conhecimento obtido para mim sobre elas.

— Mentiroso! — rosnou ela, apontando o casco novamente para o focinho dele. — Você sabe muito mais do que isso, isso eu sei! Só não quer responder!

— Como eu tinha dito: Só sei o que é necessário saber; mais nada além disso. — disse ele sem tirar os olhos de seu rosto, ignorando totalmente seu casco cor-de-lavanda em riste — Devo destacar que quem estava a procura de respostas era a Nossa Curiosa Aprendiz da Princesa. E fomentei sua curiosidade. Apesar de ser a minha vez de falar, a curiosidade continuou em Nossa Inquieta Aprendiz da Princesa; e ela ainda quer saber mais e mais. Então, se me permite, gostaria de continuar ter sua atenção, já que as respostas que procura só eu posso lhe oferecer no momento.

Twilight Sparkle estava se estribuchando por dentro, ela queria arrancar a verdade de uma vez daquela boca barrenta e cheia de cadeados. Ela percebeu que não vai conseguir respostas desse jeito, de forma bruta e rude, e ele não irá colaborar a não ser do seu próprio jeito.

Não havia mais nada do que fazer. Ela sentou no chão e suspirou, incomodada e rendida. Ergueu sua cabeça e o encarou seriamente; ele tinha sua atenção.

Com um aceno positivo com a cabeça, Stubborn tomou um pequeno fôlego.

— Minha real missão para esta vila, Twilight Sparkle, é, não só para proteger os cidadãos desta vila para o que quer que seja ou está vindo silenciosamente, mas para proteger todos os cidadãos expostos a ela aqui. Não estou sendo dramático pois a Princesa me enviou justamente para te mostrar que o assunto é sério. Essa é a minha primordial responsabilidade. Mas, no momento, tenho uma outra; ordenada pela própria Princesa: Te ensinar. Mas, para isso, preciso de sua fiel colaboração.

Twilight pensou um pouco; assimilou bem o que ele havia dito. O que ele poderia ensinar para ela? O que, afinal, ele poderia saber que a própria Twilight não saberia? E que a própria Princesa não poderia ensinar?

No final, acenou com a cabeça positivamente — Claro, Capitão. Tem minha fiel colaboração. — mas ela o alertou com um casco em riste — Mas quero que saiba que não faço isso pelo senhor: faço pelas minhas amigas e pela Princesa, pelo bem de ambas.

Ele assentiu com a cabeça — Não duvido. — Stubborn tomou um novo fôlego, agora num tom mais sério — Vou explicar o plano aprovado pelas próprias Princesas. Não será fácil concluí-lo e exigirá de muita coisa de você. Até mesmo do que a senhorita não tinha, terá de usar de alguma forma. Será perigoso; muito. É isso que irá acontecer daqui em diante…

***

Não se ouvia murmuros pelo lado de fora. Não havia ninguém na calada da noite trevalesca da Princesa da Noite. Apenas luzes artificiais dos postes e árvores e arbustos tremeluzindo à leve brisa; galhos ricocheteando e folhas ondulando. Morcegos voavam em voos rasantes sobre insetos que passavam transeuntemente ou cantavam apaixonadamente.

A Biblioteca, diferentemente, não estava silenciosa; na verdade, estava bastante irriquieta. As luzes e sombras bruxelantes que vazavam das janelas diziam uma conversa; ou uma fervorosa discussão. Eram duas sombras; uma singela e uma monumental, ao que se pode dizer. Não se ouvia nada pelo lado de fora; os grossos troncos em sua estrutura arbórea conservavam o barulho interno; os zumbidos e folhagem dominavam os arredores. Porém as sombras não mais se mexiam.

Um brilho roxo, fraco e delicado, emanou da testa do pequenino vulto. E se intensificava aos poucos, preenchendo as paredes amareladas num tom lavanda. Ela crescia; aumentava; evoluía, de uma maneira assustadora. De repente, um forte clarão púrpura transbordou das janelas e frestas da biblioteca; junto com um estrondoso som abafado pelas grossas paredes. Ele cresceu e se expandiu tanto naquele cômodo que aderiu uma claridade pálida. Rápido como o feixe de luz; brilhante como a mais frondosa estrela. Em segundos, o clarão se enfraquecia e perdia sua arrebatadora existência, deixando restos de claridade cor-de-lavanda e faíscas ondulantes; felizes e satisfeitas.

Algumas janelas que existiam próximas a Biblioteca se abriram e seus residentes deram uma espiada por fora. Acharam estranho aquele suspeito clarão púrpura emergir do nada, assim como desapareceu. Tentaram descobrir de onde vinha olhando pros lados e comunicando com outros vizinhos em outras janelas. Ninguém entendeu também. Infelizmente, não conseguiram descobrir; nem ver mais nada naquela rua. Ao julgar pelas suas sonolentas expressões em seus rostos, não estavam surpresos com o clarão; acontecia tantas coisas bizarras e absurdas naquela pequena vila que um simples flash não era grande coisa. Já estava tarde; estava muito escuro. Resolveram esquecer o que aconteceu e tentar dormir novamente.

Fim do Capítulo Oito

Sem palavras para descrever – Livro I- Cap. 7 – Algo a Mais

capítulo-sete

Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

Capítulo 8 – Amanhã

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

Equestria — Ponyville — Cozinha da Biblioteca, 13 de Fevereiro, 21:09.

Twilight Sparkle fez um incrível trabalho consigo mesma momentos atrás. Foi um autocontrole surpreendente. Digno de sua inteligência.

Ela percebeu que não havia motivos para descontrole emocional, nem em descontar essa sua descarga extrapolada em pôneis próximas a elas. “Pare, Twilight!”, ela gritou consigo mesma em sua mente, “Você não está pensando direito! Pare o quê está fazendo e pense com lógica!”. E foi o quê ela fez.

Não adiantava escrever incessantemente na mesma linha se havia outras linhas de sobra para serem preenchidas. Gastava o lápis, as energias para escrever teimosamente, a visão para tentar ler os garranchos grossos e violentos, e o papel acabava sendo rasgado rudemente. Ela apagou tudo o quê a deixava confusa e começou a organizar os itens presentes que aconteceram naquela noite. Por isso tinha fechado os olhos, relaxou os músculos e focou-se no que era apenas importante.

“Pronto, estou concentrada.”, pensou ela, extremamente confiante, “Agora vamos organizar os itens que tenho em cascos e que precisam de respostas! Devo focar no mais importante; o quê é mais importante agora?! Stubborn? Não, ele não está aqui para que eu possa tirar isso a limpo. Tenho Rarity e Rainbow Dash como testemunhas do quê quer que havia acontecido comigo durante meu desmaio; posso deixar esse item de lado, para mais tarde.”

“Por que a Princesa Celestia o enviou para “ajudar-nos”? Também não posso conseguir a resposta agora. Primeiro porque ela não está aqui; isso tornaria as coisas mais fáceis e rápidas. Segundo porque Spike está dormindo, o quê infelizmente me impede enviar uma carta neste exato momento para a Princesa, perguntando, e não posso atrapalhar o seu sono programado. Ele precisa de um descanso, fez um brilhante serviço por hoje. Posso riscar esse da lista, também. O quê me restou agora?”.

“O quê o Sr. Eye pensa de mim? Uma potranca mimada; carente por atenção e atração alheia. Acho que depois da minha infantilidade e exibicionismo explícito, que causou aquela queda de minha pessoa sobre seu perfeito corpo aerodinâmico, ele se sentiu motivadamente ofendido com minha transbordada teimosia. Claro que você, cabeçuda, machucou as costas daquele transeunte. Ele não vai respeitá-la se continuar desse jeito, jogando-se em cima de corcéis ondulantes! Como você vai conseguir algum respeito deste cremoso cidadão se– Não! Não dá para pensar nisso agora! Não tem como consertar isso! Eu… vou pensar nisso amanhã. Fez mais que o suficiente para ele hoje, Twilight Sparke…”

“Descobrir o quê havia acontecido comigo durante o desmaio? Isso posso conseguir com minhas amigas. Sim. Elas estão fazendo de tudo para me contar o quê houve. Estão até enrolando demais com isso porque… minhas emoções não permitem que elas me digam. Mas não podia evitar! Estava muito nervosa e confusa naquela hora… Na verdade, ainda estou… Você precisa se acalmar, Twilight! Foque-se no que é importante agora: Saber o quê aconteceu!”

Rarity acariciava delicadamente o casco direito de sua concentrada amiga unicórnio. Rainbow Dash também estava ao seu lado, segurando um copo de suco já tomado pela metade; ela olhava para ambas as chifrudas com atenção.

— Tem certeza que está bem, Twilight? — perguntou Rarity, ainda demonstrando-se preocupada com sua amiga — Sei que você está bem recuperada, mas preciso saber se você está apta em ouvir a história sem se exaltar. A última coisa que quero que você faça, querida, é se prejudicar ou ficar nervosa!

Twilight assentiu confiantemente com a cabeça — Não há necessidade de tal preocupação, Rarity. Como disse e confirmo para você: estou bem e disposta a dar toda minha atenção à vocês. Quero muito saber o quê aconteceu. Não me exaltarei, nem ficarei nervosa. Essa sensação já passou, obrigada.

Rarity juntou os cascos, animadíssima — Que bom, querida! Gostei de ouvir! Pois bem, contarei o quê houve. — Rarity limpou a garganta e comportou-se numa postura reta para começar seu discurso.

— Quando você desmaiou, novamente dizendo, ficamos todas desesperadas em ajudá-la da melhor forma possível, mas infelizmente não sabíamos como! Spike estava dormindo em sua aconchegante cama, mas nem pensamos no pobrezinho naquele segundo! Estávamos cobrando conhecimentos para o pônei errado: O Sr. Eye, que estava mais perdido que nós mesmas. Também não culpo o pobre cidadão, ele é um diplomata; e um escritor de primeira! Seria pedir demais de sua capacidade em saber socorrer pôneis desmaiados. Ficamos mais preocupadas e o tempo corria alucinadamente!

— Foi uma confusão total, fiquei olhando tudo lá de cima. — disse Rainbow Dash, querendo adicionar mais informações — Os pôneis correndo pro lado e pro outro, gritando ou falando alto. Não sei como Spike não acordou — o sonho deve estar ótimo para ele… —. Estava difícil tentar controlar a situação ou mesmo acalmar os pôneis ansiosos com gritaria e correria — ela olhou discretamente para Rarity, lembrando de um pônei em específico que mais deu trabalho para acalmar; a mesma apenas desviou o olhar, um pouco envergonhada — Eu mesma tive que descer e tentar fazer todo mundo ficar quieto e pensar numa solução. Afinal, ficar gritando não ajudaria em nada! Muito menos ficar trotando em círculos!

— Isso! — indagou Rarity — Rainbow tentou acalmar todos nós mas estávamos muito nervosas. Spikezinho não estava por perto; Sr. Eye também não sabia o quê fazer; a Prefeita tentou ajudar a acalmar o nervosismo dos pôneis presentes; Pinkie Pie sumiu misteriosamente, mas ainda assim não tínhamos pôneis para ajudar você, Twilight, querida. Queríamos ajudar você!

— E agradeço profundamente por essa preocupação, Rarity. — insistiu Twilight, tentando relaxá-la — Mas e aí? E quanto ao Capitão? Foi neste momento que ele apareceu?

— … Ainda não, Twilight. — respondeu Rarity com uma palmadinha no ombro de Twilight, como quem pede para um pequenino esperar para o climáx da estória.

Rarity estava até um pouco surpresa com Twilight neste momento. A unicórnio cor-de-lavanda citou um título do inominável sem exaltar; como ela havia prometido. Isso a deixou contente.

Ainda assim, Rarity continou — Pelo que me lembro durante minhas… peripécias, ele estava num canto, observando tudo. Ele não estava fazendo nada, só olhando o quê estava acontecendo.

Twilight pensou por um momento — Ele estava apenas observando? Ou será que ele estava… apreciando? — novamente sua desconfiança é demonstrativa.

— Não, Twilight. — discordou Rarity — Ele não parecia estar apreciando o quê estava vendo. Não havia sorrisos maliciosos nem expressões prazerosas em seu rosto.

— Mas não tem como ver suas expressões ou sorrisos, Rarity! Ele simplesmente não as têm! — exclamou Twilight.

— Mas você percebe o olhar. — entrou Rainbow Dash no meio — Ele estava num canto, observando todo mundo e o quê estava acontecendo. Sim, podia até parecer isso, mas você percebe que não estava apreciando nada, como você o acusa, Twilight. Ele estava realmente observando, avaliando a situação. Há mais coisas nele que a gente não sabe.

— Isso, Rainbow. Eu também percebi isso no Capitão. Ele ficou assim por vários minutos. — disse Rarity — Foi então que ele entrou em cena!

— E o quê ele fez? — perguntou Twilight com educação, mas demonstrando-se ansiosa.

Raibow Dash ergueu-se do chão e agiu exatamente o quê ela descreveu, conforme falava — Ele saiu das sombras das vielas da noite, todo posudo e ereto; deu duas poderosas patadas no chão conforme andava e bradou “SILÊNCIO”! — o grito da pégaso ecoou pela cozinha, machucando orelhas alheias — Twilight, te digo: Todos. Ficaram. Parados; como quem fica imóvel durante o bote de algum animal selvagem! Ninguém mexeu uma pata! Em um segundo, ele controlou a situação que eu mesma estava tentando controlar!

— Também te digo que fiquei chocada, querida! Abalou as crinas minhas. — comentou Rarity — Senti um frio na espinha subir como nunca senti antes!

— Aí que abalou geral mesmo: o Brutamontes parecia muito diferente de como era antes. — disse Rainbow Dash — Não sei que bruxaria ou ilusão ele usou na gente — se é que ele pode… — mas que não era ele… não era!

— A primeira coisa que ele fez depois que todos ficaram em silêncio — continuou Rarity — foi trotar em sua direção, Twilight. Você estava deitada meio que desajeitada e sua cabeça estava apoiada nas costas do Sr. Eye. No começo, pensamos que ele ia te fazer realmente algum mau! Queríamos agir contra, mas ficamos, de alguma forma, amedrontadas com ele e sem ação! Até que ele apenas ergueu seu queixo para cima e colocou o ouvido sobre sua boca. Creio eu que ele tentava ouvir sua respiração…

— “Minha respiração”? — pensou Twilight, enquanto passava o casco pelo pescoço, meio desconfortável.

— Depois, — disse Rarity — ele disse “Ela está respirando; isso já é bom. Sua respiração também não está ofegante, o quê é melhor ainda!”. Ele pediu para que o Sr. Eye continuasse deitado para te deixar mais confortável. Tirou um lenço escuro de um dos seus bolsos e enxugou sua testa. Applejack e eu estávamos por perto e ele chamou nós duas. Estávamos meio relutante quanto a bruscalidade, mas avançamos. Ele pediu a Applejack para tirar o chapéu e usar ele para abanar o seu rosto, para refrescar; explicou também que daria um pouco de alívio e “voltaria para nós” mais depressa. Na mesma hora, Applejack tirou o chapéu e fez o quê ele disse!

— Já para mim, — Rarity levou o casco para o peito, — ele pediu para eu dar a volta e apanhar um de seus cascos para massagear. Disse que, massageando uma de suas patas, faria seu sistema nervoso responder por estímulos. Mas não era para apertar de leve; era para apertar como se estivesse apertando uma massa de pão.

— Não sei se conseguiria, mas por você, Twilight, tinha que fazer! E lá me fui: trotando com todo o cuidado para não tropeçar e, de repente, cair em cima de vocês dois! Chegando no outro lado, fiz o quê ele pediu. Eu não sei por quê estávamos fazendo o quê ele pedia, mas, sinceramente, Twilight, eu sentia que era a coisa certa a fazer. Ninguém mais tinha ideias; acredito que valia a pena arriscar esta oportunidade!

— Foi após alguns longos minutos que você acordou — entrou Rainbow Dash — e ficamos todas aliviadas pelo seu retorno. Começamos seriamente a pensar que você ia ficar assim até amanhã!

    Twilight não sabia se ficava embasbacada pela mudança violenta de comportamento deste outeiro indivíduo ou se ficava perplexa pelo conhecimento que esse ser demonstrou para aquela situação. Por que essa mudança? Por que agora? Só porque ela estava em dificuldades? Precisava de ajuda? Mas então por que todo esse desrespeito em sua pessoa? Será que ele fez isso tudo por pena? Havia algum coração-mole naquele corpo de pedra? Ou havia um espírito-de-porco na forma de um bruto corcel? Novamente, isso não fazia sentido algum! Quem cargas d’água era esse pônei?!

 — Eu… — balbuciou Twilight — Realmente estou sem palavras… Não sei nem o quê dizer…

 — Eu já estava sem palavras naquela hora, Twilight. — disse Rarity — Você já deve ter perdido a boca, isso, sim! Coitadinha, desculpe se fomos muito bruscas ao lhe contar tudo isso. Sei que está te deixando muito confusa!

 — N-não, Rarity. Está tudo bem. — Twilight descansou o casco no ombro de sua amiga — Realmente estou meio confusa, mas não posso me deixar fragilizar. O quê vocês me contaram foi realmente inesperado e agradeço pela colaboração de vocês. Me sinto bem mais informada sobre o Capitão do que antes e já sei realmente o quê devo fazer daqui em diante. Algo mais que vocês queiram me contar sobre ele; algo que ainda não sei?

Rarity pensou por um momento. Já Rainbow Dash fez uma careta meio indiscreta e olhou para Rarity com relutância. Rarity completou o elo de olhares com a Rainbow.

Então as duas olharam para Twilight.

— Não, isso é tudo. — disse Rainbow Dash com um aceno negativo com a cabeça.

— Creio que não, querida. — completou Rarity — Como eu disse: Logo depois você tinha acordado e encontrado todas nós ao seu redor. Ah, sim! — lembrou ela de repente — Eu tinha dito que Pinkie Pie havia sumido do nada, não é? Pois bem, ela tinha retornado pouco antes de você acordar e pouco depois que a confusão tinha acabado. Ela estava usando um capacete-protetor vermelho que piscava um farolete em cima. E trouxe com ela a mangueira do jardim, perguntando “Onde é o incêndio?!”. Fiquei com a testa vermelha com a patada que dei em mim, constrangida.

— Vixe, nem me lembre, Rarity! — escarneou Rainbow Dash com desdém — Mas não foi bem isso que Twilight perguntou. Ela queria saber mais sobre o Capitão.

— Isso eu sei, Rainbow! Era só mais um detalhe que não contamos.

— Que, no final, não demonstrou-se muito importante… — terminou Dash.

Twilight suspirou mas sentiu uma fisgada — Ah! Sim! E quanto ao Sr. Eye? Ele está bem?

Twilight não tinha certeza se perguntava isso mas decidiu arriscar. Ela já havia pensado que, se suas amigas soubessem, elas lhe diriam. Mas, como elas não comentaram nada referente — apenas de pôneis que ela não desejava saber — , achou melhor lembrá-las perguntando de uma vez. Agora, ela só esperava que não pensassem em coisas absurdas com isso.

— Tsc, não se preocupe! — disse Rainbow com um sorriso maroto — As costas dele estão inteirinhas! Seu cabeção não causou muitos danos como deveria!

Rarity deu uma cotovelada na pégaso azulada enquanto a mesma dava risadas glorificadas. Twilight coçou a nuca meio constrangida.

— Devo ter parecido uma completa egoísta na frente dele. E irresponsável também. Eu deveria ter dado minha atenção à ele; ele era um convidado. E por causa de certos indesejados… — rosnou ela — deve estar pensando horrores sobre mim.

— É provável, querida. Mais que provável: é um possível! — disse Rarity logo de cara. Parecia nem se preocupar com o que tinha dito e nem evitou-o dizer, como sempre fazia.

Twilight até arregalou um poucos os olhos, ficou deveras surpresa pela inesperada indelicadeza de uma delicada amiga.

— R-rarity…!

— Como também é improvável, amiga. — continuou ela — Mais que improvável: é um impossível! Sinceramente, Twilight, nem você, nem eu, nem a própria Celestia ou Luna pode dizer o que esse ser corcelístico pensa de você. Ele pode estar pensando em mil coisas. Mas, te digo, não como você pensa.

Rainbow Dash acenou com a cabeça — Hu-hum, concordo com a Rarity. Nisso ela tem razão.

— Afinal: ele acabou de te conhecer! E ele já conheceu mil e outros pôneis em sua vida! Ele já deve estar careca de saber que não se deve deduzir de pôneis pelo que aparentam; mas pelo que fazem!

Rainbow Dash refletiu um pouco com essa afirmação de Rarity— Mas… o que Twilight mais tem feito desde que ela o conheceu foi desmaiar, gritar, estribuchar e se estressar! — exclamou ela num tom alto. — Só com isso, eu já pensaria que essa pônei era doida de pedra!

Rarity esqueceu-se disso e ficou meio perdida — N-não entre em detalhes, Rainbow Dash! Foi só por uma noite! Não deve ser grande coisa!

— Ai, por Celestia! — Twilight ergueu os cascos aos olhos, tentando esconder sua vergonha — Já deve estar pensando em trilhões de ofensas e acusações sobre meus atos desta noite…! Me sinto ridícula…

 — Pare de pensar assim, Twilight! Foi só por uma noite! Foram apenas incidentes que aconteceram de repente e você não estava preparada! Nenhum pônei é perfeito!

— Nem vereador… — comentou Rainbow com um olhar maroto.

Rarity bufou e ia dar mais uma patada nela mas Dash conseguiu escapar, desviando-se rapidamente aos arrastos e risadinhas.

— O que estou tentando dizer é, — continuou Rarity, após ajeitar sua crina já um pouco elétrica — Não fique pensando nessas coisas! Você não pode deduzir o que ele pensa. Espere até amanhã, quando o real trabalho de vocês dois começa. E você pode até perguntar a ele ou mesmo se desculpar de alguma coisa! Cavalos piram em éguas que se desculpam ou perguntam coisas!

— H-heim? Como assim? — perguntou Twilight já meio vermelha; bochechas ardidas eram bem visíveis em seu rosto púrpuro. Nem sabia se ria com o “piram”.

— Amiga, por-fa-vor! Sempre funciona! — Rarity demonstrava-se expert no assunto, bolinando nos corcéis formigantes por Ponyville — Eles ficam todos melecosos quando fazemos uma carinha inocente e uma voz fofinha. Deixa qualquer coração-de-pedra virar água, assim! — ela representou um “SNAP” com uma rápida batida com os cascos.

— Pode fazer isso e dizer “Você é um bundão” que eles nem vão notar a diferença! Até concordarão com “Claro, claro, sem problemas”. Uma coisa hilária de se ver! Ah! Uma vez, com aquele pônei com a cor de caramelo… o… o Caramel! Tadinho, teve um dia que me encontrei com ele. Ficamos conversando por vários minutos, adorei o papo dele, todo cuidadoso! Então, chamei ele para dar uma volta. O bichinho ficou todo torto, querida! Disse que não era certo uma dama jeitosa como eu chamar um pônei qualquer para “dar uma volta”; na verdade, ele que deveria fazer isso.

— Olhei bem assim pra ele. — ela apertou os olhos levemente e ergueu um sorriso malicioso, acompanhado de um “Hu-hum, sei”. — No final, fomos dar uma voltinha. Passamos lá na Praça Central para ver o que acontecia. Eram as obras para o palco da musicista que vem para cá, a Octávia. Fiquei com o maior dó! Não do palco, claro! Ele ia ficar divino, maravilhoso! Mas, sim, com os operários, tadinhos. Trabalhando em baixo daquele sol quente e ficando todos suados e… grudentos… Ai! Eca! Não aguento!

Twilight já ficou perdida novamente. Como foi que conseguiram chegar nesse assunto mesmo? Nem ela sabia! Foi bem rápido e cheio de bifurcações e ligações como vários regatos se espalhando por uma floresta de assuntos. O tema principal da conversa foi abruptamente deixado de lado para falar sobre o dia-a-dia cotidiano. Ou, pelo menos, apenas da dona da conversa.

— Tá, Rarity! Já chega! Isso não é hora de conversa! Foco na discussão! — reclamou Rainbow Dash, já impaciente.

Rarity, claro, ficou irritada com a interrupção. — Francamente, Rainbow Dash! — bufou ela — Isso não é jeito de interromper um discurso de quem está ditando! Estava no meio de uma pauta muito importante!

— “Inútil” mudou de nome, por acaso? Isso nem de perto pode ser chamado de “pauta”!

As duas continuaram discutindo conforme o tempo andava. Não de uma forma negativa ou agressiva, mas apenas uma pequena discussão entre amigos; o normal dentre elas. Só que Twilight não dava atenção a discussão delas; ainda estava preocupada com o que o Conselheiro e Diplomata Oficial do Reino das Terras Férteis, Foreign Eye, pensa sobre ela ou suas recentes ações diante e contra sua pessoa. Ainda se sentia envergonhada por ter caído em cima dele e se sentia reprimida por estar sempre demonstrando-se alguém vulnerável ou instável em situações embaraçosas e tensas. O que ele estaria pensando sobre ela? Ela não sabia; injustamente, só ele sabia. Mas a Rarity tinha razão. Ela não deveria se preocupar tanto com isso; agora. Ele mal a conhecia direito. Ainda tinha um longo evento pela frente, pela qual os dois vão ter que passar e enfrentar juntos. Momento essencial para ela saber mais sobre ele e também, se possível, desculpar-se de qualquer constrangimento que ela o proporcionou; ou proporcionará. Twilight suspirou e relaxou. Ela decidiu deixar essas preocupações para amanhã; o dia em que os dois começarão os trabalhos oficiais de seus cargos. Agora tinha que se preocupar com outras coisas que também são importantes: a Reunião de hoje; e o Capitão.

Twilight ergueu-se do chão, confiante. Um movimento brusco e ereto. Ela se viu impressionada que, pela primeira vez naquela noite, não ficou tonta nem perdeu o equilíbrio com esse esforço; suas forças estavam recuperadas. Isso soou dentro dela como uma notícia esperançosa para ela; sentia-se preparada para voltar as suas responsabilidades. Um brilho audacioso faiscou de seus olhos, como duas tochas luminosas de coragem em meio a escuridão de um duvidoso corredor.

— Bom, acho que já me sinto bem melhor agora. Bastante revigorada! E creio que já passamos tempo demais aqui na cozinha. É melhor regressarmos para a Biblioteca.

Rarity e Rainbow Dash pararam sua desinteressante discussão para mudarem o foco de sua atenção para a decisão da unicórnio cor-de-lavanda. Ficarem até surpresas que encontraram-na já de quatro patas. A unicórnio roxa decidiu voltar para aquele cômodo; isso preocupou um pouco a Rarity. Ela ergueu-se de imediato, para perto de Twilight.

— Tem certeza, querida? — perguntou Rarity, com o casco perto ao queixo — Não vai se exaltar quando ver o Capitão?

— Não vou, Rarity. Isso já passou. Obrigada por se preocupar. Não farei nada ilógico a partir de agora. Estou decidida e sob controle!

Rainbow Dash concordou com um sorriso — É isso aí, Twilight! Assim mesmo que se fala! — ela ergueu-se do chão e eriçou as penas e pêlos celestes — Brr! Isso! Vamos logo que o pessoal devem estar mais impacientes do que eu para finalmente dar início a essa reunião!

***

    “Sou vermelho, mas não sou fruta,

    Sou amarelo, mas não sou planta.

    Dou vida, mas também dou fim.

    Desço e subo todo dia,

    Oferecendo tristeza e esperança.”

Applejack coçou um pouco a cabeça, encarando confiantemente para o Sr. Eye — Ha-ha! Facinha essa! É o Sór!

Foreign deu com o casco na mesa, cruzou os dois sobre o peito e encostou-se na cadeira, derrotado — Hunf, correto! — disse ele bufando pelo nariz.

— Ponto pr’êu! Minha veiz, intonci! Xá’vê…

Foreign saiu do seu encosto e ficou de frente para AJ, olhando para ela com grandiosíssima atenção.

    “Gemas cai do cér, nem sempri, nem nunca.

    Rastejam pelo chão i pelos pônei.

    Aterrisam aos monte, nascêno novas i piquenas.”

Foreign coçou um pouco o queixo, mas já tinha a resposta na ponta da língua. Ele apontou o casco para ela — Já sei! Chuva!

Applejack gruniu — Báh! Seu chato!

— Haha! Agora sou eu! Vou inventar uma bem díficil…

— Díficir? Pfft, essa eu quero vê! — escarneou AJ com um tom desafiador. Ele só respondeu com um sorriso no rosto.

    “Círculos me apoiam, quadrados me atrapalham.

    Peso não é problema, aguento o quê me colocarem!

    Vou até onde me levarem, desde que o caminho sabem!”

Applejack riu gloriosamente — Isso é díficir?! Isso é o qui mais tem lá nim casa! É uma carroça!

Foreign se sentiu ingênuo, falar de carroça com uma pônei que vive cercado por elas todos os dias. Ele deu com o casco na testa — Caramba, é mesmo! Droga…!

— Agora se sigura qui vai sê pra valê!

    “Desço aqui, desço acolá.

    Num importa donde deito, ali eu fico!

    Levo anos pra oferecê, e quâno ofereço,

    Eu desço novamenti!”

Agora o bicho pegou; essa era realmente difícil! Foreign ia responder de imediato — competindo em quem responde mais rápido — mas não podia arriscar. Ficou babulciando surdamente por alguns segundos, virando e desvirando os olhos pela mesa. O que desce e permanece lá? E ainda demora anos para oferecer. Mas o oferecer o quê? E quando oferece, desce novamente? Essa o pegou de jeito.

Applejack já estava confiante — E aí? Diga si num é boa essa!

Foreign teve que admitir — Hehe, pois é, Sinhá Applejack! Díficil mesmo… mas eu vou responder! Preciso pensar um pouco…

Ele pensou novamente no texto. Há algo escondido no meio dessas palavras, como qualquer adivinha que fizeram até agora, mas essa era bem trabalhada. Não era à toa quando Applejack afirmou a ele que ela era uma expert nesse assunto. Sua família brincava e praticava isso desde sempre no vilamente comentado Sweet Apple Acres. Ela deve conhecer inúmeras adivinhas contra o escarço estoque de Foreign. Mas ele tinha que se concentrar nessa adivinha.

Como Applejack havia lhe contado, ela e sua família criavam adivinhas para brincarem durante o fim de semana, dias em que não havia trabalho com as safras de maçã e nem mesmo aulas para frequentar no colégio. Ela, seu irmão mais velho, sua irmãzinha e sua avó planejavam adivinhas durante a semana, mas também podiam criar adivinhas na hora com o quê estiver ao seu redor se, por algum momento, acabarem. Foreign pensou nesse recurso e olhou em volta. Ele olhava em volta e pensava no texto em sua cabeça. Livros, pergaminhos, estantes, mesas, cadeiras, lamparinas, Stubborn, vasos, flores, Prefeita. Nada combinava no texto; nem ao menos chegava perto de seu significado oculto.

— Ela não criou essa adivinha agora. — pensou Foreign — Nada que tem aqui faz sentido. A Sinhá Applejack já a tinha em seu repertório. Mas no que ela se inspirou para criá-la? E onde?

Foi então que ele sentiu uma fisgada, isso fez com que seus olhos brilhassem em êxtase. — Claro! Como foi que não pensei nisso antes! Faz todo sentido! — pensou ele.

Sr. Eye olhou para a Applejack como quem descobriu a verdade absoluta para todas as coisas. A mesma percebeu o seu olhar e não ficou feliz com isso.

— Maçã! — disse ele, com ar de vitória em seu peito — Essa é a resposta! Maçã!

Applejack emburrou-se na cadeira, — Báh! Ocê descobriu! Essa era uma das mais dífcir qui eu inventei! Vai, sua veiz di novo. Vô acertá di primêra!

— Desculpe, Sinhá Applejack. Mas meu repertório de adivinhas já acabou.

— Már já?! — disse ela num tom realmente surpreso — Már eu inda tinha uns vinte já preparado! Ocê num tem mais?

Foreign teria ficado boquiaberto, mas foi interrompido pela presença inesperada da Prefeita ao lado deles. Os dois se exaltaram por um segundo mas se recomporão.

A Prefeita olhava para eles com seus oclinhos meia-lua e uma sobrancelha erguida — As crianças já leram suas tarefas para estarem brincando? — disse ela, porém num tom educado.

Applejack ergueu o casco — Már é craro, Sinhá Perfeita! — disse ela, animada — Nóis tâmo cienti do qui devêmo fazê aminhã, már só tâmo passando o tempo até a vórta de Tualáiti. Afinar, num podêmo fazê o qui nus foi intréguê sem a provação dela!

A Prefeita acenou com a cabeça positivamente, — Está bem, Srta. Applejack.

— Már mi diga uma coisa, Sinhá Perfeita: I a Tualáiti? Cumé qui ela tá? Ela tá bem?

— Desculpe, Srta. Applejack. — respondeu a Prefeita tristemente — Não posso dizer ao certo. Srta. Rarity e Srta. Dash ainda não voltaram com ela desde que foram para a cozinha. Não estou querendo dizer nada, mas acho que a Princesa cometeu um erro ao colocar a Srta. Sparkle num cargo com tanta responsabilidade. Isso a deixou realmente estressada.

— Nisso eu caicordo, Sinhá Perfeita. Mas tamém discordo! Tualáiti é uma pônei bem isforçada e jeitosa. Eu quêrdito qui ela si sairá bem no qui tá passâno. Ocê vai vê!

— Queria mesmo acreditar nisso, Srta. Applejack. Mas não posso ser precipitada. A noite ainda não acabou e a reunião nem começou também. O jeito mesmo é esperarmos.

— Isso, Sinhá Perfeita! — ambas se despediram num aceno positivo e a Prefeita sentou-se em seu lugar, avaliando mais alguns papéis e separando-os.

— Acho melhor checarmos como a Srta. Sparkle está. — Foreign preparou-se para se levantar quando um casco alaranjado pousou em seu ombro, forçando a se sentar novamente.

— Sentá aê i si aquiéti, Nhô Impacienti! Num vá si ingraçá cum assunto di égua… — disse ela num tom brincalhão.

— Não, Sinhá Applejack! Com certeza, não pretendo! — defendeu ele com uma risadinha — Mas devo dizer que a Srta. Sparkle está demorando muito e me preocupo com seu bem-estar.

Applejack olhou para o cortês convidado e apertou as pálpebras, na suspeita — I pruquê ocê si percupa?

A pergunta dela soou meio estranho para Foreign, mas ele respondeu — Bom, por causa de seu estado há uns momentos atrás. Sinceramente, Sinhá Applejack, nunca vi isso acontecer a um unicórnio antes! Fiquei realmente surpreso.

— É di ficá surpreso, sim, Nhô Aiê. Essa Tualáiti é uma pônei muito isforçada, o sinhô já devi di ter precebido.

— Mas a senhorita fala como se ela fizesse isso o tempo todo. É normal isso?

— Ora, craro! Pruquê falaria o contrário?

— Esse é o porém que não compreendo, Sinhá Applejack: Por quê ela faz isso? Por quem? Há um motivo por trás de tudo isso que ela faz, a ponto de se desgastar daquele jeito?

— Agora sigura éssas rédea, sinhô! — AJ ergueu os cascos para ele, na defensiva — Isso num é coisa procê perguntá pra mim i nem é di eu respondê procê! Isso é coisa di Tualáiti i num tênho direito di falá essas coisas. Isso serve pro sinhô tamém! Discurpa a indelicadeza, mas o sinhô num é ninguém pra mi perguntá isso i nem do sinhô sabê! Portanto, num falarei um “A”.

Nesse momento, o rosto de Foreign ficou mais vermelho que um tomate maduro; ele foi muito indelicado e acabou perguntando coisas muito pessoais de Twilight Sparkle, e estava usando sua amiga para perguntar essas coisas — P-perdão, Sinhá Applejack! Fui muito intrometido perguntando essas coisas para sinhorita. Realmente eu não devia; e não irei. É que, como irei explicar…?

— Eu intenô qui o sinhô é curioso, Nhô Aiê. — respondeu ela num rosto assustadoramente calmo.

— Não, não é isso! Digo… pode ser também, mas não do jeito que a senhorita está pensando.

— I no quê tô pensanô? — perguntou ela, com uma sobrancelha erguida.

— Que eu sou um interesseiro; ou até mesmo um intrometido, me metendo na vida de outros pôneis sem dar nenhuma satisfação ou motivo aparente. Peço perdão pela indelicadeza…

— Si eu num conhecesse o sinhô, eu pensaria nisso, sim. Sem dúvida arguma. — ela respondeu com sinceridade — Mas eu conheço o sinhô, principalmente do qui o sinhô anseia i procura.

O corcel elegante olhou bem para ela, confuso — Como assim?

— Eu sei qui ocê preguntô isso por ser curioso, mas num bão sentido da palavra. Sei disso pois, como já comentei antis co sinhô, li seus livro, “Époluça É Logo Ali Adianti” i “Terras Fértil Pra Lá Di Absurda”. Ocê anseia pruma resposta di vida; motivacionar. Algo qui ti leva adianti. Foi por isso qui adorei seus livro e sei no qui ocê é curioso. — Applejack apoiou os cotovelos sobre a mesa, olhando bem para o rosto de Foreign — Már ocê só é curioso nim coisas qui ti interessam. I quâno o sinhô fingiu ficá lêno aquelis papér, fiquei bastante ofendida. Da próxima veiz, eu espero os papér oferecê um docím pro sinhô.

O rosto de Foreign caiu estapelado no chão, além de ficar mais vermelho do que já estava; não sabia mais por onde se enfiar. Applejack percebeu isso e levantou um sorriso malicioso. Ela o afagou com um tapinha no ombro, seguido por um aviso.

— Tamém digo: Conheço ocê o suficiente pra dizê qui o sinhô num é ansim. Ocê é muito inducado e gentir. Num careci de tê um sentimento tão ruim, már pareci qui arguma decisão vinda do sinhô o fez mudá. I foi uma decisão dificír.

Foreign respirou fundo. Antes suando frio e com a sua extinta elegância estatelada no chão, agora estava até mais calmo, mas relutante. Mas não podia negar da surpreendente gentileza de Applejack em sua pessoa. Ele acenou positivamente com a cabeça. — Claro, Sinhá Applejack. Peço perdão se a tratei daquele jeito meio rude. Mas creio eu que já te expliquei minha real missão para vila.

— Sim, já expricou, sim, sinhô. — respondeu ela com desdém — Qui o “sinhô tá nim negócio i num pretendi pulá a cerca”. Isso cumigo, Nhô Aiê, é cunversa pra boi drumí.

— Mas comigo não é, Stra. Applejack. — disse Foreign num tom duro — Decididamente, não quero me envolver com nenhum pônei.

— E, pro acauso, sê amigo di argum pônei é si involvê? — ela cruzou os cascos, visivelmente incomodada com aquela observação.

Foreign ficou uns segundos em silêncio, analisando o quê dizer depois — Sim, Sinhá Applejack. É se envolver a partir do momento em que a senhorita começa a se familiarizar com um pônei; ser amigo ou amiga dele ou dela.

— Qui era u qui nóis tava fazendo faz vários momento atráis. — lembrou Applejack, qual estava curtindo a diversão que ele também estava proporcionando para ela com as adivinhas — I o sinhô parecia bem alegre com aquilo, por sinar.

— Mas não deveria! Eu… eu não deveria ter continuado com aquilo! — Foreign levou um casco para a testa, tentando enxugar um pouco de suor com a manga do terno já que seu lenço pertencia a outro pônei. — Desculpe se estou te deixando confusa, Sinhá Applejack, mas… sinto que não é o melhor momento para isso! Não quero que pense coisas ruins quais não mereço. — seu rosto estava aderindo uma expressão triste e melancólica; orelhas e olhos caídos e aflitos.

Applejack percebeu isso e tentou acalmá-lo — N-nhô Aiê, sussega! — disse ela meio sem jeito. — Num percisa ficá nervoso.

— Sim, estou um pouco nervoso! Não mentirei para senhorita. Agradeço que nisso a senhorita acredita em mim. E vejo também que não adianta mais disfarçar o quê penso e o quê sinto. Mas… realmente não sei como te explicar porque… é pessoal.

Applejack ficou sem ação. Agora era ela quem se metia na vida dele, com perguntas capciosas e suspeitas. Uma dó emergiu em seu peito ao ver a aflição e derrota daquele corcel, que tentava ao máximo ser cortêz e gentil com todos. Seu rosto triste era de arder em pena; ambos não mereciam essa aflição.

Applejack apoiou seu casco alaranjado sobre o dele suavemente, — Discurpa, Nhô Aiê. Fui muito indelicada co sinhô. Fiz nim defesa de minha amiga pois mi pêrcupo cum ela. Már querdito no sinhô. I si tivê arguma coisa pra mi dizê, pode mi dizê sem medo. Num percisa sê agora; quâno tivê necessidade, é só mi percurá; sô toda ovido.

Foreign sentiu o toque suave do casco da Applejack; o contemplou por alguns segundos pensativo e em seguida vislumbrou seus olhos-esmeralda numa apreciação agradável de sua gentileza. Ele se sentia muito nervoso com as supeitas sobre sua pessoa, mas ele não era um, digamos, um “pônei mau”. Apenas sua escolha e decisão tomou essas acusações ao seu favor. Ele não queria mais essas suspeitas surgirem contra ele novamente; não as merecia. Foreign achou melhor parar com essa teimosia e acatar; pelo menos com ela.

Ele suspirou, de certa forma, aliviado — Claro, Sinhá Applejack. Procurarei por seus ouvidos e atenção quando for necessário.

— Com certeza. — uma voz seca surgiu entre os dois, como se uma assombração pairasse em meio deles. — Pois há coisas mais importantes a serem preocupadas agora.

Foreing e Applejack assustaram com a voz carrancuda que revelou-se do nada e olharam para sua fonte: descobriram um corcel em trajes sombrios, escondido em seus pontos-cegos. Estava olhando e escutando o que suspostamente estavam fazendo e conversando. Foreign se sentiu extremamente invadido e uma palidez atingiu seu rosto cremoso. Mas Applejack apenas fechou a cara e ergueu o rosto contra o gigantesco indivíduo.

— Êta, intrometido! — disse ela numa voz nervosa; ela não gostou nem um pouco desta invasão — Vá assustar ânsim na casa da vó! Qui qui ocê qué, qui num pudia si pronunciá antis, seu abelhudo?!

— Não tenho por que me pronunciar diante de um cochicho entre dois pôneis. — respondeu Stubborn, num tom calmo, mas rouco — Até porque pode ser útil para alguma coisa. Mas fazer sussurros ou conversar de algo pessoal num ambiente cercado por pôneis é burrice e verdadeira indelicadeza de ambos.

— Só si fô pra ocê, metêno o nariz donde num é chamado! — Applejack ainda estava ofendida pelas escutas indesejadas deste intrometido.

— Não se engane, Nossa Caipiresca Companheira: não vou usar o que quer que escutei ou pensei de vocês em vocês mesmos. Estou aqui para protegê-los; não para tirar vantagem.

— Acho bão, viu! — rosnou ela, com o casco apontado na fuça de Stubborn — A úrtima coisa qui quero é tê uma sombra extra rastejando atrais di mim! O sinhô tem um jeito muito istranho di portegê os pônei i num cunfio nisso nem um tiquinho.

— Não é preciso. — disse Stubborn, abaixando gentilmente o casco de AJ de seu rosto barrento — Mas digo que estarei de olhos e ouvidos bem abertos. Paras as boas e más bocas.

Applejack respondeu com uma bufada raivosa entre as narinas. Stubborn olhou no canto de olho para Foreign, o elegante ainda estava constrangido; até desviou o olhar fugitivamente. O grande corcel virou seu corpo e deixou os dois quietos finalmente. Foreign soltou um aliviado suspiro pelas narinas.

— Eu não entendo o Capitão. — disse Foreign, descontraindo — Nem sei se acredito no que ele acabou de dizer…

— U qui ele disse é vrêdade. — respondeu Applejack, porém com desdém.

Foreign olhou para ela na suspeita. — Sério? Tem certeza, Sinhá Applejack? Não creio que ele esteja realmente dizendo a verdade com aquelas atitudes presunçosas… e um tanto brutas, por assim dizer.

— Sim, tenho certeza. Ele tava sêno honesto, e isso me incomoda. Num sinti um pingo di mintira im seu discurso meia-boca.

Foreign se sentia confuso. — Mas não faz sentido, Sinhá Applejack. Se ele estava sendo honesto, por que dessas atitudes grosseiras? Creio que que a senhorita não esqueceu o quê ocorreu com a Srta. Dash quando ela “o recebeu”.

— Num, num mi esqueci. — disse AJ com sinceridade. — Már si ele agi assim, é pruque ele si tornô ansim; argo o fêz sê u qui é hoji.

Foreign aproximou de Applejack e perguntou aos sussurros — E o quê poderia ser? — isso estava ficando assustadoramente intrigante para ele.

— Num sei, Sinhô Aiê. Isso é coisa deli. Si quisé, pódi í lá mêrmo perguntá à ele…

— Por Celestia, não! — respondeu ele, nervoso e sacolejando os cascos negativamente — O-obrigado pela opção.

Os dois permaneceram em silêncio por um tempo. Não conversavam mais; já tinham conversado o suficiente naquela noite. Agora estavam refletindo o que aconteceu e o que acontecerá em seguida. Foreign ainda não parava de pensar na saúde de Srta. Sparkle. Ele, quando estava por perto para socorrê-la da queda, podia sentir a tensão que ela se encontrava e isso o afetou significativamente. Era a primeira vez que ele via isso acontecer a um unicórnio; afinal, ele mesmo é um e jamais o aconteceu algo assim. Foreign sentiu durante o desmaio de Twilight uma sensação de calor em sua nuca — grandes chances de ser febre —, além de que ela tremia um pouco. Foi uma aflição presenciar isso de perto e não poder fazer nada. Será que ela está bem? Ou vai ficar bem?

Applejack o conheceu hoje e já parecia que o conhecera há mais tempo. O seu jeito de cumprimentar os outros, com respeito e educação, demonstra que ele não tem desejos nem ambições maldosas ou egoístas. Ou ao menos aparentava não ter. Podia estar fingindo essas atitudes, enganando pôneis e distorcendo suas realidades. Mas AJ podia sentir mentiras de longe. As brincadeiras e o jeito amigável que ela possuí é efeito disso; é assim que ela descobre os reais sentimentos dos pôneis que ela conhece. Quando ela conversou com Foreign, percebeu que algo estava de errado com ele, apesar de toda a elegância e gentileza. Ele disse que estava apenas a negócios e não queria se “envolver” com ninguém. Mas isso foi uma decisão da mente dele; seu coração era contra. Tanto que ele aceitava suas brincadeiras com fervor e se divertia com elas. Isso quebrava a decisão que tomou; em ser ignorante e passivo. Mas ele não era assim; ele era alegre, divertido e muito amigável. Essa escolha amarga que fez quando chegou em Ponyville obviamente foi por causa de seu trabalho como Conselheiro e Diplomata Ofical do Reino das Terras Férteis. Applejack achava isso errado e definitivamente uma difícil e tola decisão. Mas era o que ela achava, não o que realmente dizia. Ela gostaria de conversar mais com Foreign a respeito disso, tentar ajudá-lo de alguma forma; como uma amiga.

— Boa noite a todos. — uma voz feminina e reconhecível pronunciou-se no cômodo.

Todos os pôneis presentes e atenciosos se viraram ao encontro da voz familiar. Era Twilight Sparkle, erguida de suas próprias patas, acompanhada de Rarity e Rainbow Dash logo atrás. Ela saía da batente do estreito corredor que ligava a cozinha e adentrava a larga sala principal de sua biblioteca, onde seria a reunião daquela noite. Suas amigas e companheiras responderam chamando-a pelo seu nome em felicidade. Muitas narinas suspiraram aliviadas e olhos brilhavam com alegria; mas apenas um rosto estava neutro dentre as demais.

Fim do Capítulo Sete

Sem Palavras para Descrever – Livro I – Cap. 6 – Recuperação

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Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 7 – Algo a mais

Capítulo 8 – Amanhã

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

———

Equestria — Ponyville — Interior da Biblioteca, 13 de Fevereiro, 20:48.

Houve um longo silêncio escuro para a unicórnio cor-de-lavanda. Estranhamente ela não sentiu nada quanto ao impacto contra chão de madeira morta. Acreditava que não tinha nem mesmo energias para sentir alguma dor. Quanto ao silêncio, ele logo se escondia com o surgimento de estranhos barulhos ínfimos em coro que estava surgindo em sua mente. Aos poucos, junto com o crescente número de vozes preocupadas, sua visão começava a ficar nítida. Já reconhecera o teto alto de sua biblioteca; as luzes das lamparinas voltaram para os seus olhos. Virando um pouco a cabeça, ainda que sua visão estivesse meio turva, encontrou os rostos de várias pôneis nervosas ao seu redor. Ela reconheceu Applejack, que estava com seu chapéu em bocas, abanando desesperadamente para lhe refrescar. Twilight sentia que algo apertava seu casco direito suavemente; quase como uma massagem. Aquilo a estava estimulando para despertar de alguma forma; seu sistema nervoso estava voltando à ativa. Em segundos, os rostos familiares tornaram-se uma expressão lívida de alívio. Todas suspiraram felizes ao mesmo tempo.

Twilight tentou erguer um pouco a cabeça, massageando-a com o casco meio trêmulo, mas preferiu ficar como estava: deitada e confortável.

— Opa… aconteceu de novo. Hehe — foi o que ela pôde comentar para descontrair.

— Que coisa, Twilight! Não nos assuste desse jeito! — indagou Rarity, obviamente indignada com a situação toda. — Esta é a última vez que você dispara feitiços complicados e desgastantes! Alguma hora você não vai conseguir levantar-se ou nem mesmo acordar!

Applejack largou e levantou o chapéu para sua cabeça — Ó, Tualáiti. — avisou ela, já com o casco apontado para o rosto de Twilight — É mió ocê si cuidá dessas macumba antis qui faça arguma bestêra das grandi!

— Não são macumbas! São mágicas! — disse Twilight com um tom meio irritado com o comentário de AJ. — E eu estou bem. Só fiquei um pouco zonza, só isso. — Onde já se viu comparar magia com macumba? pensou ela. Mas estava um tanto cansada para irritar-se.

— É, pódi inté tá bem agora! Már num istaria si num fosse o Nhô Aiê pra lhe acudí! Ocê istaria cas venta no chão si num fôsse por eli!

Twilight apertou os olhos, confusa. — O… Sr. Eye?

Bem que ela suspeitava em sentir-se confortável naquela posição; algo macio estava apoiando sua cabeça do chão. Tinha um cheiro agradável… e seu volume estranhamente crescia em intervalos aleatórios; como se estivesse respirando! Na mesma hora ergueu sua cabeça bruscamente e virou-a para ver quem estava apoiando ela. Para a surpresa dela, encontrou o corpo grande de um corcel em trajes elegantes. Virando mais a cabeça, ela vê o rosto cremoso de Foreign, acompanhado com os olhos calmos e celestes, e um sorriso suave em suas bochechas. Twilight olhava para ele de cima para baixo; duas vezes para confirmar; e uma terceira para ter certeza.

Seu cérebro inteligente estava a mil por hora. Uma chuva rápida de perguntas atravessou seu pensamento feminino: “Ele me segurou! Como ele conseguiu me segurar a tempo?! Ele estava tão perto de mim quando me agarrou? Minha nossa, será que eu o machuquei quando minha cabeça caiu em cima dele?! Peraí, então eu caí em cima dele?! Sua lezada!! Como pôde cair em cima de um Conselheiro e Diplomata Oficial do Reino das Terras Férteis?! Ele deve estar decepcionado com sua estupidez vergonhosa e… mas… por que ele está tão calmo e… passivo? Esse seu sorriso… esse sorriso irritante e bobo. Por que ele não está bravo? Ele tem que estar bravo! Quem mais cai em cima de Diplomatas alheios e não ficariam bravos ou machucados? Por que não há nenhuma expressão negativa e repreendedora quanto a minha estupidez? Até parece que ele está aprecian–”.

Foi com essa pausa que, numa ação meio em etapas, Twilight deu um curto e fino grito de espanto, erguendo-se bruscamente do chão, quase que num salto, e subiu um rosa ardente em seu rosto; sua cor-de-lavanda foi substituída por um tom rosado visível e suas palavras ficaram grudadas e quase ilegíveis.

— Milperdõessenhoreyeporminhaestupidezeunãoseioquedeuemmimdigoclaro

queseieuuseiumfeitiçocomplicadíssimoeacabeiexagerandonousodeminhasenergiasqueacabeidesmaiandoemcimadosenhordesculpadesculpadesculpa!

Foreign ergueu-se do chão com uma expressão mista de nervosismo, pois não entendia uma palavra do que aquela unicórnio estava falando, e de susto por causa de sua inesperada reação.

— C-calma, Srta. Sparkle! — disse ele, sacolejando os cascos. — “Por favor, se… se você estiver se desculpado, por favor, não se desculpe! E não se esforce tanto! Antes que–”

Twilight foi brusca demais, acabou cambaleando em seguida e ia novamente de encontro ao chão; suas energias ainda estavam escarças para dividi-las com suas pernas. Foreign ia segurá-la novamente, mas Applejack foi mais rápida, assim como sua repreensão.

— Óiaí! Tá vêno só?! — AJ ergueu Twilight com o corpo em baixo dela numa incrível facilidade; como se ela havia erguido um barril vazio — É disso qui tâmo falâno! Ô ocê cuméça a si cuidá ô eu mêrma vô sê a causa dos seus discuido!

— E-eu estou bem, AJ. Sério! — mentiu ela. — S-só me levantei rápida demais e acabei perdendo o equilíbrio no meio do processo. Mas obrigada por me segurar.

— Ói lá, visse? — Applejack deu um mínimo impulso para manter sua amiga em pé por si só e afastou-se aos poucos, dando-lhe espaço.

— Não se preocupe, estarei olhando. — Twilight ajeitou sua crina e intonou a voz — Já estamos perdendo tempo demais. A noite já começou há horas atrás mas a reunião não. — Twilight, com um pouco de esforço, acionou sua magia e levitou os dois cartões que foram invocados do pedaço de papel.

Ela os analisou com cuidado; virou-os frente e verso e confirmou cada informação contida naqueles cartões, incluindo nome, identificação, cargo e assinatura da própria Princesa; assim como os das demais convidadas oficiais e presentes. Twilight os levitou para perto da Rainbow Dash.

— Rainbow, pode confirmar que esses cartões são legítimos? — sua voz soava cansada, mas continuou firme.

Rainbow Dash olhou-os atentamente. Twilight virava e revirava os cartões diante dela com sua magia. A pégaso azulada confirmou num aceno positivo com a cabeça e um olhar sério.

Twilight acenou com a cabeça, agradecida — Perfeito. Foreign Eye e General Stubborn–

— Capitão Stubborn. — ele a corrigiu com um tom irritado.

Twilight o ignorou — … estão agora inseridos oficialmente na nossa equipe neste Grande Evento. Fiquem com os seus cartões e não os percam de vista; eles são importantes. — ela levitou os cartões para os respectivos donos.

Stubborn agarrou aquele cartão com uma mordida feroz. E o guardou dentro de um de suas dezenas de bolsos negros em seu uniforme. Já Foreign Eye ainda estava surpreso com a mudança absurda de comportamento daquela unicórnia. Poucos minutos ela estava desacordada, quase desgastada com o último feitiço que ela executou. Ele nunca viu isso acontecer antes a um unicórnio. E pelo comentário de Twilight, não era a primeira vez que isso aconteceu. Houve outras vezes; e essa foi bem de leve, pela calmaria da executadora ao acordar. Ele estava surpreso com a indescritível força de vontade desta unicórnio. Essa pônei era, sinceramente, interessante.

— Sr. Eye? — Twilight perguntou, sacudindo um pouco o cartão flutuante diante dele.

Ele percebeu que, desde que ela despertou, não havia parado de encará-la. Ele limpou a garganta para disfarçar, — Ah, sim. Perdão. — abocanhou o cartão e o guardou num bolso em seu terno.

— Caham. — A Prefeita declarou-se no meio das pôneis. — Bom, podemos dar início à reunião, eu presumo.

— Com certeza, Srta. Prefeita. — respondeu Twilight calmamente, apesar das visíveis gotículas de suor em sua testa chifruda — Temos muito com o quê discutir, então, vamos pôr as cartas e os planos à mesa–

— A reunião pode esperar mais um pouco. — intrometeu-se o Capitão Stubborn, com sua voz sonora e carrancuda.

Twilight suspirou nervosamente — Posso saber o motivo, Sr. Stubborn? — perguntou a irritada unicórnio chifruda.

— Contente-se apenas com Capitão ou Capitão Stubborn, Nossa Esquecida Aprendiz da Princesa. — ironizou Stubborn — E você não está em condições físicas, mentais e responsáveis para dar início e seguir adiante com esta reunião.

Twilight virou seu corpo de frente para Stubborn, quase cambaleando — E quem é você para dizer isso?! — indagou ela num tom firme — Você agora virou médico-psico-analista de um segundo paro outro, por obséquio?

Stubborn não se intimidou com aquela miniatura de unicórnio — Sou aquele Vossa Mandona Mentora enviou para evitar e solucionar problemas e balbúrdias causados pela Nossa Irresponsável Aprendiz da Mentora. E não preciso de um diploma médico e clínico para ver que você está acabada por causa daquele feitiço. Foi demasiado esforço; até mesmo para você, Nossa Exibida Aprendiz da Princesa. Sua teimosia e falta de senso pôs sua própria saúde em risco e pôneis próximos a você numa preocupação desenfreada.

Twilight olhou ao redor com o canto do olho para os rostos de suas amigas. Elas desviavam os olhares para o lado em constrangimento com o comentário de Stubborn, o que comprovava que ele estava falando a verdade. E Twilight também ficou constrangida com aquilo.

O enorme corcel amarronzado avançou pesadamente até a unicórnia roxa — E você não está em condições para seguir com a reunião neste estado, Nossa Destrambelhada Aprendiz da Princesa. — no momento em que ela estava distraída, Stubborn deu um leve empurrão com seu casco no peito de Twilight. Ele mal a encostou e seu corpo cor-de-lavanda já estava indo de volta à superfície de madeira abaixo dela. De um segundo para o outro, Twilight via os rostos de suas pôneis queridas desviados, e já estava vendo novamente o chão aproximando-se mais e mais de seu rosto. Mas Foreign conseguiu segurá-la a tempo ao apoiar seu lombo contra o dela. Algumas pôneis voltaram a olhar para Stubborn, outras mais dramáticas já estavam com o casco em suas bocas, suspirando.

— Capitão, por favor! — Foreign implorou para que ele parasse, mas o corcel não deu ouvidos.

Stubborn apenas olhou ferozmente para o pônei elegante. Aquilo o assustou de verdade; Foreign se calou na hora.

— Está vendo? — continuou Stubborn, olhando seriamente para a exausta unicórnio — Você mau aguenta nas quatro patas. Um sopro poderia derrubá-la e causaria mais estrago do que eu poderia com este toque.

Twilight juntou os pensamentos e voltou ao senso. Ficou meio zonza quando perdeu o equilíbrio, mas recuperou-se rapidamente. Outra vez se via resgatada pelo elegante convidado. Envergonhada, Twilight afastou-se imediatamente enquanto pedia desculpas. Mas já resmungava entre os dentes pela vergonha que aquela muralha a estava fazendo passar diante de suas amigas.

— Portanto, descanse e só volte quando estiver revigorada e responsável novamente.

Que absurdo! Quem essa montanha de chocolate pensa que era para falar desse jeito com a Aprediz Particular da Princesa Celestia, Governadora e Princesa Absoluta de Equestria?! Ela estava mais que preparada, confiante e consciente para dar início e acompanhar a reunião por horas, mesmo que seu corpo não colaborasse. Esse ser ignóbil duvidava das capacidades extrapolantes desta unicórnio mirabolante. Ele pode ser alto; pode ser forte; pode ser até um General ou Capitão ou o diabo a quatro, mas Twilight não vai admitir esse desrespeito em sua própria casa e na frente de suas amigas, que tanto confiam em seu esforço e dedicação.

Twilight estava prestes a explodir em palavras agressivas e pontiagudas contra essa rocha carbonizada diante dela, quando um casco branco reluzente atravessou seu caminho.

— Twilight, querida! — a voz era reconhecível, assim como seu rosto pálido e olhos azuis-diamantes. Cascos nevalescos se esfregavam ligeiramente no rosto cor-de-lavanda da unicórnio enfurecida — Olhe só para seu rosto! Todo molhado e oleoso! Que horror! E a sua crina, por Celestia e seus guardiões! Toda bagunçada e roxa! Não, roxo é sua cor natural– De qualquer forma, querida, precisamos dar um trato nisso e agora! — a unicórnio começou a empurrar Twilight enquanto fala— Vamos até a cozinha. Lá iremos dar uma ajeitada em você!

— Rarity! — exclamou Twilight nervosamente enquanto estava sendo empurrada para a cozinha — O quê está fazen–?

— Não, não, não! — Rarity a cortou antes que pudesse continuar — Não precisa dizer nada, querida! Eu sei o quê estou fazendo! Só confie em mim! Você estará em bons cascos! — a unicórnia pálida despreocupada virou-se para o corcel montanhesco, com um sorriso doce, mas nervoso. — Capitão Stubborn! Não se preocupe com a saúde de minha queridíssima amiga. Ela é esforçada e bem confiante no que faz. Mas simplesmente não posso deixá-la prosseguir a reunião com o rosto e crina nestas condições deselegantes! Se me permite, quero dar um trato nela antes de prosseguirmos. Só por uns minutinhos!

Stubborn encarou aquela unicórnio cor-de-neve, pensativo. Ele acenou com a cabeça.

— Não me preocupo, apenas alertava a responsável pelas suas próprias ações sobre sua real situação. Não precisa de minha permissão para cuidar de sua amiga, Nossa Enfeitiçante Estilista. Faça o que for preciso.

Rarity ficou em silêncio por um momento; não sabia se “enfeitiçante” era um elogio ou se, ao menos, era algo bom de se ouvir. Ela apenas levantou um sorriso torto — Hã… claro! Farei o quê puder. Com sua modéstia licença… — e voltou a empurrar Twilight para a cozinha gentilmente.

Twilight já estava ficando irritada por estar sendo forçada a ir para um lugar contra a sua vontade — Pare, Rarity! Me deixe ir–

Rarity sussurrou — Pra cozinha! Já! — um sussurro que mais pareceu com um rugido entre os dentes; e encarou a atônica unicórnio com olhar feroz e assassino. Aquela unicórnio nevalesca queria que a de cor-de-lavanda fosse para lá de qualquer jeito; poderia até arrastá-la até lá, se for preciso. Twilight engoliu seco.

— Vamos logo, Cabeção! — entrou a Rainbow no meio, já no ar e a empurrando com os cascos junto a Rarity — Não temos a noite inteira! Vamos dar “um trato” em você.

Twilight já se encontrava entre a batente da porta que ligava ao corredor para a cozinha. A pégaso e a outra unicórnio a empurrava ruidosamente e o som de seus cascos em ritmo e arrastantes foram se estinguindo ao longo do corredor até a chegada do outro cômodo.

Após um breve silêncio, os outros pôneis começaram a se espalhar para passar o tempo. A Prefeita voltou para a grande mesa para mexer nos papéis; Applejack sentou-se em seu lugar e enxugou um pouco do suor de sua testa; Pinkie Pie ficou cantarolando e saltitando alegremente ao redor de todos; os outros dois corcéis da sala ficaram apenas de pé. Stubborn virou seu rosto e encarou Pinkie Pie. Ela pulava e cantarolava ao redor dos dois. Pulava e cantarolava. E cantarolava e pulava. A alegria daquela pônei rosada o estava irritando.

— Você, Pônei de Algodão-Doce. — ele apontou para ela com o casco.

— Pinkie Pie às suas ordens, Capitão! — Pinkie saiu de seu estado alegre e posicionou velozmente perto de Stubborn, com um olhar sério e com um casco em sua testa, em continência.

Foreign ficou confuso com a absurda velocidade desta pônei, mas o corcel de chocolate não demonstrou reação.

— Não vamos dar mais nenhuma festa hoje. Quero que tire todos esses enfeites, balões e doces dessa sala. — ele apontou seu casco para os enfeites festivos ao redor dele — Eles são irritantes e não servem para nada menos do que atrapalhar a locomoção dos pôneis e os deixarem com dores de barriga com essas drogas açucaradas.”

— Permissão para não-contradizê-lo, Capitão! — disse Pinkie com educação.

— Permissão negada… — respondeu ele de imediato; percebeu seu erro pouco depois mas já era tarde demais.

— Esses doces não são drogas açucaradas, são doces normais como qualquer outro doce! Se você ainda não os provou, então não sabe do que está falando, pois estes doces são feitos com muito amor e esforço de Sr. e Sra. Cake. E um pouco de minha ajuda, para deixá-los mais doces e gostosos. — ela sorriu alegremente com satisfação — Posso tirar os enfeites, os balões e etc, mas os doces ficam, pois eu sei que há pôneis que estão com fome.

Stubborn encarava aquela pônei rosada com um olhar raivoso e sério. Foreign olhava nervosamente para o corcel truculento, com medo do que ele possa fazer àquela pequenina égua inocente. Pinkie estava assustadoramente calma, em continência e com um sorriso doce em seu rosto. Isso o incomodava e enfurecia Stubborn.

— Pois, então, faça. — finalmente disse o Capitão.

— Considere feito! — Pinkie acenou com o casco para o alto e virou o corpo para começar a arrumar o cômodo bagunçado, aos pulos e cantarolando.

Foreign ficou surpreso, já não entendia mais nada do que se passava entre esses dois. Cada um agia mais inesperadamente do que o outro. Era tudo muito confuso.

— E você irá ajudá-la. — apontou Stubborn diretamente para Foreign.

— H-heim? Como? — disse Foreign num tom nervoso.

— Você me ouviu: Quero que a ajude. Dois pôneis fazendo o mesmo serviço gera resultados mais rápido do que apenas um fazendo-o. Por isso, deixe de se fazer de desentendido e ajude-a.

O pânico instalou-se no rosto de Foreign. Suor frio começou a escorrer de sua testa e queixo se contorcia. “Mexer… nesses… nesses…?”, pensou ele, tremendo. Ironicamente, só agora havia percebido que estava cercado por balões de borracha; estavam ao seu redor; sobre sua cabeça, no teto; e no chão perto de seus cascos, arrastando-se. Seus olhos azuis percorreram pelo cômodo encarando aqueles urubus borrachudos circulando em volta dele e cobras esféricas rastejando por entre seus cascos. Ele apenas ficou imóvel sem fazer nada, com medo de que por qualquer movimento seu faça com que eles gritem num estouro aterrador em seus sensíveis ouvidos; deixando-o surdo temporária ou permanentemente. Foreign começou a sentir um desconfortável formigamento em suas orelhas, elas tremiam; e seus tímpanos vibravam em seus canais auditivos. Ele torcia as orelhas para tentar conter o desconforto, mas só o deixava mais nervoso ainda.

— Eu… eu… — Foreign tentava dizer alguma coisa, mas não conseguia com o Capitão o encarando impacientemente.

— Tudo limpo, Capitão! — declarou-se Pinkie Pie, fazendo uma continência.

Os dois corcéis olharam para a pequena pônei, surpresos, e, em seguida, viraram seus rostos para ao redor deles. Incrivelmente, todos os enfeites que estavam pendurados nas estantes e espalhados pela mesa e cadeiras sumiram; os confetes despedaçados pelo chão desapareceram; e os balões não estavam mais entre eles. Foreign soltou um suspiro de alívio e alegria, mas não se conformava que aquela pôneizinha arrumou toda a sala num piscar de olhos! Foreign olhou para a Prefeita e para Applejack que estavam sentadas na mesa. Estranhamente, nenhuma delas estavam pasmas com o quê aconteceu. Muito pelo contrário: agiam como se estivessem acostumadas com aquilo. Como assim? Isso sempre acontecia? Era normal aquela pônei rosada agir daquele jeito?!

Foreign olhou pasmo para Pinkie Pie. Ao contrário de Stubborn que, irritantemente, não estava surpreso; estava com o mesmo rosto passivo e sério como sempre tinha. “Será possível que nada afeta ele?!”, pensou Foreign indignado.

— Bom trabalho, Algodão-Doce. — ele respondeu num tom normal dele.

— Há mais alguma coisa que posso fazer, Capitão? — perguntou Pinkie na mais boa vontade possível.

— Não. — disse ele secamente — Você, no momento, se tornou inútil para mim. Vá incomodar outro pônei que deseja seus serviços não-utilitários.

— Tudo bem! Não tem nenhum pônei que deseja meus serviços no momento. Devem estar todos dormindo! Então, vou ficar aqui e te fazer companhia, Capitão! Sem ofensas, Sr. Eye. — ela indagou para o convidado ao seu lado.

— N-não ofendeu, Srta. Pie. — o quê ele queria mesmo era sair dali. — A Srta. Sparkle parece que vai demorar um pouco para voltar. Vou sentar por um tempo para descansar. A viagem em si foi cansativa e adoraria provar um pedaço desses doces; eles estão com uma aparência saborosa!

— Isso! Sinta-se em casa, Sr. Eye! — disse Pinkie alegremente — Eu cuido do Sr. Cara-Fechada e você descansa um pouco! Não adianta chegar a um lugar novo sem provar nada novo! Ou num lugar novo e provar a mesma coisa, afinal esses doces podem ser achados em qualquer lugar de Equestria! Mas estes são especialmente únicos, pois foram feitos pelos Cakes! E te digo que são de-li-ci-o-sos! Qualquer coisa é só chamar que apareço onde você menos espera! — e ela terminou com uma piscada.

Nisso ele acreditava; e o deixava realmente preocupado. Foreign assentiu com a cabeça e se despediu momentaneamente da espalhafatosa pônei rosada. Ele também se despediu de Stubborn, mas o mesmo só soltou um ou dois grunhidos abafados. Ele não se importou — ele não esperava mais nada daquele corcel mesmo — e sentou-se na cadeira que Sparkle havia lhe apontado um tempo atrás. A Prefeita aproximou-se e entregou-lhe alguns papéis para ler. Ele agradeceu e leu as primeiras linhas. Dizia sobre os possíveis afazeres dele e de Twilight para amanhã, quando concordassem suas tarefas até o fim daquela reunião.

— Vai um muffin pra essa barriguinha, cumpádi? — perguntou Applejack num tom animado.

Ao seu lado, a pônei laranja empurrou uma bandeja de prata; ela estava cheia de muffins de coco com gotas de chocolate. Foreign virou um pouco o rosto e viu aquelas delícias; realmente pareciam deliciosas e estavam com um cheiro ótimo. Ele olhou para ela e sorriu, pegando um muffin para si. A mesma abriu um apreciável sorriso em seu rosto alaranjado. Foreign apreciou a gentileza que AJ o proporcionava — diferentemente de certos pégasos azulados ou corcéis achocolatados, mas ele não absorvia remorso —. Foreign deu uma mordida e deliciou-se em cada mastigação. Soberbo. Divino. Esses Cakes sabem mesmo como fazer um doce. Ele nunca provou um muffin tão gostoso. Não era muito doce, nem muito mole; era “no ponto”. Macio e cremoso.

Foreign, saindo de seus prazeres mentais, olhou novamente para Applejack. Ela olhava para ele com um olhar malicioso, e ria explicitamente por dentro ao ver aquele corcel, todo elegante do começo ao fim; do casco até o chifre, se deliciando com aquele pequeno muffin de coco. Foreign, constrangido, estava para dar uma risadinha para acompanhá-la, mas percebeu que estava se abrindo perigosamente para ela. Ele se recompôs, pousou o muffin ao seu lado, em cima de um prato já posicionado pela Pinkie quando ela arrumou a mesa, e puxou os papéis para lê-los novamente. Ou, pelo menos, fingir que os estava lendo. AJ viu aquilo tudo e não gostou. Achou peculiarmente estranho; e mal-educado. Aqueles papéis eram mais interessantes do que sua presença amigável?

Applejack era uma pônei realmente amigável. Fazia de tudo para que outros pôneis que ela conheça se sintam bem consigo mesmos. Ela fazia isso com suas melhores amigas; fazia isso com seus parentes; e tentava fazer com outros pôneis. Mas ela sentia que precisava ajudá-lo. De alguma forma, ele não se sentia bem; desde que ela fitou o olhar naquele cremoso corcel; desde que ele pôs a pata dentro daquela biblioteca, ela sentiu que algo estava errado nele. Esses dois ainda vão se tornar muito amigos.

— Quem aquele estouvado pensa que é para falar comigo daquele jeito em minha casa e na frente de minhas amigas?! — bradou Twilight, profundamente ofendida com tudo o quê aquele corcel metido a besta disse a ela um tempo atrás. Ela espumava pela boca de tanta raiva — Aquele…! Aquele… projeto de outeiro!! Altivo insolente! Gancho pretencioso! Impudico bruto!

A estressada unicórnio cor-de-lavanda estava sentada no meio da cozinha de sua biblioteca. Ao seu redor, inanimadamente, os apetrechos cozinheiros eram bem reconhecíveis, assim como seus lugares. Fogão a lenha, pia vazia, armários cheios de pratos e panelas, gavetas cheias de talheres, escorredor para louças úmidas, geladeira com ingredientes frios e congelados, dispensa com ingredientes mornos e secos, uma grande mesa para o preparo das guloseimas, tudo estava em torno dela. Mas ela não estava sozinha com esses objetos.

— Twilight, querida! Acalme-se! Você se mexendo desse jeito não consigo arrumar sua crina direito! — Rarity estava atrás dela, tentando alisar a crina de Twilight com uma escova flutuante, mas a mesma não colaborava; ela estava muito nervosa.

— Eu não admito isso, Rarity! Isso é uma total falta de respeito em minha pessoa! Onde já se viu?! Simplesmente não posso engolir ou deixar passar o quê aquele ser fez!

— De certa forma, sim, ele foi meio bruto–

— “MEIO”?! — ela afinou a voz a ponto de falhar, indignada — Foi TOTALMENTE bruto, insensato e estúpido!

— Êêê, Twilight. Manera nessa boca aí.— disse Rainbow Dash; ela estava voando ao lado de Twilight. Dash encolheu-se para perto da unicórnia nervosa e sussurrou ao apontar para o corredor — O corredor está logo ali; ele pode ouvir!

— Tô pouco me lixando, Dash! É bom que ele escute mesmo! — retrucou Twilight, curvando o corpo para frente. E disse com todas as forças: — IDIOTA ENTORPECIDO!

— Twilight, pare! Volte aqui! — Rarity acionou sua magia num tom azulado; aproximou a crina de Twilight de volta para ela com um puxão forte.

— AI, RARITY! Isso dói! — exclamou Twilight ao acariciar o couro dolorido de sua cabeça.

— Isso é culpa sua! Se ficasse quieta, eu não teria dado esse puxão e teria terminado há muito tempo! Com você braguejando e amaldiçoando o nada alheio, fica difícil terminar! Agora, fique quieta e me deixe arrumar isso!

Twilight fechou a cara e cruzou os braços. Ela ainda babulciava e resmungava entre os dentes. Rarity, após um suspiro, voltou ao seu trabalho com a crina de Twilight. Rainbow Dash ainda voava ao redor delas; parecia um tanto desconfortável. Ela também estava ficando impaciente com a demora que a unicórnio irritada estava proporcionando para o término do alisamento de suas madeichas púrpuras.

O silêncio pairou por um momento. Silêncio com exceção das babulciações de Twilight, dos voos impacientes de Rainbow e da massagem ruidosamente capilar da escova flutuante de Rarity. As fricções verbais se tornaram mentais, cada um em seu próprio pensamento e brigando consigo mesmo ou com os outros em sua imaginação particular. Rarity encontrava-se inconformada com as palavras de Twilight, pois ela, novamente, não estava pensando no que dizia. Braquejava e amaldiçoava verbalmente aquele corcel barrento. E com motivos! Aquela unicórnio não estava errada. Mas Rarity discordava em seus pensamentos. Sentia uma obrigação de comentar algo a respeito dele, que Twilight não sabia.

— Agora, Twilight… — finalmente disse Rarity, manipulando sua crina com mais delicadeza — sei que você vai começar uma nova onda de ódio com esse comentário, mas eu sinto que devo dizer. Agora, por respeito à vossa pessoa, eu pergunto: Você quer ouvir?

Twilight ainda estava nervosa com aquelas palavras avulsaras daquele chocolate ambulante que estava perambulando livremente em sua biblioteca. Mas ela tinha que relaxar, de alguma forma ou de outra. Ela pensou por um momento a proposta de Rarity. Ela queria falar de um assunto que desagradava Twilight Sparkle. E o quê Twilight Sparkle queria era relaxar; não estressar.

— Desculpe, Rarity. Estou muito nervosa no momento. Se quer conversar sobre algo que me desagrada, então, eu não quero ouvir. Não estou querendo ser rude… como certos pôneis-lamacentos-não-civilizados. — rosnou ela entre os dentes. — Mas eu quero relaxar. Me desestressar. Estou muito irritada e cansada…

— Pfft! Mamão com açúcar! — disse Dash, com entusiasmo — Peraí que vou preparar um suco de maracujá esperto! Vô dar uma olhada na despensa! — e ela deu um rasão e se enfiou na despensa, a procura da fruta.

Twilight virou um pouco a cabeça para Rarity — Ela sabe que suco de maracujá vai me deixar mais mole ainda, não sabe? — perguntou ela.

— Creio que não, — respondeu Rarity em meio a uma escovada suave. — mas ela sabe que isso irá deixá-la mais relaxada com certeza. E, com certeza também, vai te fazer bem. Estresse e raiva não combina com você, Twilight…

— Desculpe, mas não posso evitar, Rarity! Aquele…!

— Esquece aquele corcel por um momento, Twilight! — indagou Rarity num tom preocupado — Pelo amor das Princesas! Ignore o quê ele disse! Deixe passar batido!

— Mas eu não posso! — Twilight levou os cascos aos olhos, irritada; ela estava ficando estressada novamente — Você viu o modo como ele agiu com Rainbow Dash! E como agiu comigo! E como fala da Princesa na minha frente! Chamando-a de “Nossa Orgulhosa Princesa”, “Nossa Esquecida Princesa”, “Nossa Ridícula Princesa”. — ela disse cada título com uma voz grossa e enfadonha — Como ele pode falar isso da Princesa sem ninguém para censurá-lo?! E como a Princesa pôde deixar ele ter um cargo tão elevado na Guarda Real com estas atitudes grosseiras?! E por que a Princesa o enviou para cá?! Para me ridicularizar?! E ridicularizar minhas amigas?! Me prejudicar?! Isso não faz nenhum sentido!! — Twilight se encolheu, sentindo calafrios em seu corpo — Não entendo o quê a Princesa quer me ensinar me enviando esse… esse… Até parece que ele não sente nada! Suas palavras me irritavam muito! Ele… ele é um pônei horrível e frio! … Eu… eu estou tão confusa… minha cabeça dói….!

Twilight sentia culpa. Culpa de não ter feito nada e ter deixado aquele ser medonho falar tudo aquilo sobre ela e sua querida mentora. Impotente era o seu novo título: Aprendiz Impotente da Princesa. Era isso que ele a teria chamado caso estivesse olhando para ela neste exato momento. Twilight também estava confusa, como ela mesma explicou. Por que a Princesa enviaria esse bruto para seu socorro? Se é que ela pode entitular isso como um socorro, como dizia a Princesa em sua digníssima carta real. Tudo o quê aquele socorro fez foi ridicularizá-la, chantageá-la, até feri-la emocionalmente. Chamando-a de Esquecida Aprendiz da Princesa, de Orgulhosa Aprendiz da Princesa, de Exibida Aprendiz da Princesa, esfregando títulos e honrarias desgostosos em seu rosto. Se isso era para encorajá-la, dar-lhe suporte, oferecer-lhe apoio, ou mesmo chamar isso de “socorro”, tem algo muito errado nestes significados e em suas reais funções. Lágrimas já começaram a emergir de suas pálpebras enquanto ela ridicularizava a si mesma em sua mente.

— Não, Twilight. — Rarity interviu seus pensamentos ao engrossar a voz — Eu posso lhe contradizer que ele, de certa forma, não é o quê você pragueja.

Isso chamou a atenção de Twilight. Ela até virou com dificuldade para aquela unicórnio pálida. Rarity estava séria, ambas olhavam-se nos olhos. Twilight estava atônica; confusa, mas a outra estava calma e firme.

— C-como assim, Rarity? O quê você quis dizer com isso?

— Exatamente isso o quê ela disse! — reapareceu Rainbow Dash da despensa, carregando algumas frutas de maracujá em seus cascos. — E concordo plenamente com ela. Aquele pônei é beeem diferente do que aparenta. — e ela descansou as frutas sobre a mesa e foi à procura do espremedor em gavetas e armários alheios perto da pia.

— Era esse assunto que eu queria discutir– ou melhor, conversar com você quando comentei sobre aquele corcel. — continuou Rarity, terminando de ajeitar a crina de Twilight — Eu sabia que você iria ficar apenas zangada por apenas ouvir o nome dele, mas eu precisava comentar. Há algo sobre ele que você não está sabendo.

Twilight virou para sua amiga pálida — “Algo que eu não estou sabendo”? Mas como não estou sabendo?

— É que aconteceu durante o seu piripaque ao lançar aquela sua macumba doida. — comentou Rainbow ao finalmente achar o espremedor e o cortador automático e os levou para mesa da cozinha.

— Não são macumbas! — bradou Twilight, virando imediatamente para Rainbow — São–! — mas ainda se sentia exausta com a execução daquele feitiço. Por causa do giro rápido com a cabeça, ficou um tanto zonza e quase tropeçou entre os cascos.

Rarity imediatamente a segurou a tempo com sua magia azulada — Cuidado, Twilight! Você ainda não está em condições para tanto esforço! E Rainbow! — ela agora virou-se para a pégaso, irritada — Pare de estressá-la com essas piadinhas! Você devia saber muito bem que ela não gosta desses comentários! Controle-se, por favor!

Rainbow ergueu os cascos na defensiva, — Tudo bem, tudo bem! Me desculpe, Rarity. Foi só uma piadinha para descontrair.

— Isso não é hora para piadinhas, Rainbow. Twilight está passando por um momento muito difícil!

— Afe, que exagero, Rarity! Não é tãããão difícil assim! Já vi pôneis passando por situações piores e não ficavam nessa depressão toda!

— Não misture situações precárias com situações emocionais! Isso não é certo e não faz jus uma situação com a outra! Twilight no momento está confusa e, como amigas, precisamos alinhá-la. Por favor, entenda isso e colabore.

— Tsc. Tá certo, tá certo. — Rainbow pousou suavemente no chão e ergueu seus cascos posteriores sobre a mesa. Com ajuda de um cortador automático, começou a cortar as frutas no meio para espremê-las mais tarde.

Rarity aproximou Twilight para perto dela, ajudando-a a ficar reta novamente. Twilight estava massageando um pouco a cabeça meio dolorida.

— Está tudo bem, Twilight? — perguntou Rarity, preocupada.

— S-sim, sim. Só fiquei meio tonta e senti uma pontada leve na cabeça.

— Que bom. — suspirou Rarity, aliviada — E não se preocupe. Logo, logo Dash irá serví-la com um calmante suco de maracujá. Sei que se sentirá revigorada daqui a pouco! — terminou ela com um tom animado.

Twilight sorriu — Obrigada, Rarity. Mas ainda não entendo que vocês queriam dizer: O quê eu não estou sabendo? O quê aconteceu durante… vocês sabem. — o orgulho ainda restava em seu peito; dizer aquela palavra demonstrou-se alguma dificuldade para aquela unicórnio pronunciar.

Rarity tomou um pequeno fôlego — Veja bem, Twilight, querida. Depois que você– hã… desmaiou pelo demasiado esforço, ficamos preocupadíssimas com você. Tanto que ficamos desesperadas e não sabíamos bem o quê fazer.

— Não é bem verdade, Rarity — comentou Rainbow Dash, espremendo meio maracujá — Não era o primeiro piripaque que Twilight teve. Já teve outras vezes quando ela se esforçava demais!

— Mas este era diferente, Rainbow Dash! Nenhuma de nós tinha experiência ou algum conhecimento sobre o quê fazer com pôneis desmaiados.

— Acontece que Twilight não é a única; você também tem os seus desmaios quando fica muito ansiosa! E nunca tivemos problemas com isso.

— Novamente, Dash, você está confundindo as situações. Os meus desmaios são puramente naturais, isso eu admito! Eles ocorrem quando eu chego ao limite de minha emoção. E eu sempre me recupero logo em seguida. Eles sempre são leves e passageiros. Meus desmaios nunca duram mais do quê 5 minutos.

Rainbow terminou de espremer a quinta meia fruta de maracujá e puxou a próxima vítima para perto do espremedor — Hm. Isso é verdade. — concordou ela.

— Justamente! E no caso de Twilight, ela não quis acordar de forma alguma! E ela estava suando frio! Tremendo toda! Parecia que estava com febre!

Twilight demonstrou-se preocupada com a descrição de Rarity sobre seu último desmaio — Nossa. Eu estava tão mau assim, Rarity?

— Eu não sei, querida! Não sou uma especialista para te dizer ao certo, mas eu nunca a vi daquele jeito! Deixou todas nós desesperadas! Ai, me arrepio toda só de lembrar.

Twilight esfregou o casco na testa, tentando aliviar a tensão; agora ela sentia mais culpa por deixar suas amigas preocupadas sem necessidade. Mas ela se lembrou — Mas e o Spike? Ele– — então, ela lembrou de novo e calou-se.

Spike estava, no momento, dormindo inocentemente em seu confortável cesto de dormir. Ele dormia em frente à cama de Twilight, no quarto dela. Assim como a maioria dos bebês — já que ele ainda era um bebê-dragão —, sentiam-se sozinhos quando não estavam em companhia do que se pode chamar seu “observador”; seu “acolhedor”. Seu sono era mais calmo e seus sonhos mais alegres quando sentia alguém precioso para ele por perto; uma companhia de quem ele realmente confiava e adorava; que sempre esteve com ele desde o dia em que saiu de um pequeno ovo roxo com bolinhas verdes.

Como ele mesmo demonstrou ao socorrer Rarity em seu leve desmaio, de certa forma Spike possuía algum tipo de conhecimento sobre o assunto. Afinal, ele não ficava na biblioteca apenas para limpar e organizar prateleiras. Nem para atender pedidos e desejos de sua inseparável companheira-leitora, quem ingenuamente acreditava ser a única que lia alguma coisa daquela floresta interminável de páginas e textos. Para sua sorte ou coincidência (ou, quem sabe, destino), naquela semana o pequeno dragãozinho tinha lido um pouco sobre primeiros-socorros à vítimas de um desmaio repentino e como lidar com eles. Spike tinha conhecimento dos desmaios repentinos de Rarity e isso o deixou curioso. Foi então que ele pôde pôr em prática o quê aprendeu com sua amada unicórnio, durante seu momento inoportuno. Com toda a delicadeza e carinho, ela a examinou e a diagnosticou. Ficou aliviado que estava tudo bem, mas não tinha certeza do tempo que levaria para Rarity acordar novamente (isso era estudo mais a frente do que ele já leu); isso o deixou receoso e um tanto decepcionado consigo mesmo. Deveria ter continuado a leitura, assim teria informações mais completas. Alegria foi que Applejack estava por perto, para consolá-lo de seu pequeno esforço em impressionar e proteger sua princesa. Se não fosse por ela para acalmá-lo e avisá-lo de que tudo estava realmente bem, ele estaria se culpando por não ter ido mais a fundo no assunto.

— Spike não estava por perto, Twilight. — disse Rarity — Mas foi tão de repente que nem pensamos em chamá-lo. Estávamos mais preocupadas com você.

— Eu sei, Rarity. Eu sei. E eu sinto muito. — até demais; Twilight estava se sentindo mais envergonhada. Um sentimento crescente de culpa por deixá-las preocupadas ainda a incomodava — Mas o quê realmente aconteceu?

— Como eu havia dito: rolou uma pequena confusão. Não chegamos a entrar realmente em pânico mas–

— “Pequena confusão”, você diz, Rarity? — perguntou Rainbow Dash, terminando de espremer a última fruta. — Sabe o quê rola quando se coloca uma raposa em um galinheiro? Foi exatamente assim que rolou!

— Ai, Rainbow! Que exagero! — Rarity agitou seu casco, quase ofendida com a comparação fantasiosa de Dash.

— Que “exagero” o quê?! Meus ouvidos ainda estão doendo depois dos seus gritos histéricos! Pense numa agudice! — replicou ela, apontando para as orelhas.

— Tá bom, Rainbow Dash! E n-não desvie do assunto! — reclamou Rarity, já impaciente; uma cor avermelhada acendeu de suas bochechas nevalescas. Rainbow ainda segurou algumas risadinhas para si mesma.

— Enfim — continuou Rarity, após limpar sua garganta — nós não sabiamos o quê fazer quando você havia desmaiado. Você suava frio e tremia toda. O Sr. Eye estava te apoiando sua cabeça com seu lombo e dizia que você estava bem quente. Estava com febre! “Santa Celestia! O quê nós faremos?!”, todos perguntavam desesperadamente.

Rainbow a cortou com uma falsa tosse — Ela se perguntava desesperadamente. — comentou ela, corrigindo a dramática unicórnio.

— Mas e o Sr. Eye? — perguntou Twilight, virando-se para Rarity — Estava tudo bem com ele? — se ele não se machucou quando ela derrubou sua enorme cabeça em cima dele.

— Oh, ele está como sempre deveria estar, se entende o quê quero dizer, querida. — Rarity deu uma piscadinha para Twilight — Não precisa se preocupar. Aliás, perguntavamos ao Sr. Eye o quê deveriamos fazer. Eu mesma achei que ele tivesse alguma experiência com isso. Mas, coitado, ele parecia mais perdido do que nós mesmas. Eu não o culpo; ele também não tinha conhecimentos para aquela situação. Seria muita ingenuidade de nossa parte achar isso! Ele também estava muito preocupado. Ele não saia de seu lado nem por um segundo.

— Claro, né, Rarity! — indagou Rainbow Dash, enchendo alguns copos com o suco pré-preparado — Ele não podia sair dali! A cabeçona da Twilight estava em cima dele! Ele estava praticamente imobilizado!

— Rainbow! Sem piadinhas! Comporte-se! — disse Rarity rispidamente.

Mas a pégaso não aguentou; já estava dando boas risadas depois desta. Rarity continou tentando repreendê-la enquanto Dash segurava suas risadas com o mínimo de esforço. Twilight ficou com as bochechas ardidas, sentia-se envergonhada pelo recente fato de ter caído em cima do Conselheiro e Diplomata Oficial do Reino das Terras Férteis, em seu primeiro dia de estadia em Ponyville. E ainda ter colocado ele nesta embaraçosa situação em sua incopetência explícita e infantil. Que jeito mais formal de apresentar-se para um pônei tão importante como ele, depois de sua queridíssima mentora. O quê ele estaria pensando dela agora? “Uma completa idiota; uma infantilóide”, pensou a roxa unicórnio. Twilight cobriu os olhos, acreditando que isto faria com que ela ficasse invisível dos acusadores alheios sobre seus atos desta lenta e infinita noite. Ela pressionou os cascos nos olhos, apertando as pálpebras e, então, abrindo-os repentinamente. A unicórnio queria esquecer o quê havia acontecido para poder encarar a todos naquele cômodo depois do corredor e seguir adiante com a reunião, mas não sabia se estava preparada para voltar lá. Twilight deu um longo suspiro. Porém ela começou a se lembrar de uns momentos antes depois que acordou. Ela estava deitada de costas para o chão, Applejack abanando seu chapéu sobre ela e Rarity estava acariciando firmemente seu casco. Twilight entendeu que aquilo eram respostas para umas situações de desmaio: deixando o pônei deitado de costas para o chão faz com que a gravidade atua menos contra o corpo, ajudando na circulação do sangue para todas as regiões e membros e até dando menos esforço para o coração bombear o sangue. Os abanos suaves e frios do chapéu de AJ eram um alívio para um ser que suava frio. As gotículas secavam mais rápido e a sensação de febre até diminuía gradativamente. E os apertos firmes dos cascos de Rarity faziam com que as patas de Twilight respondessem com reflexos, ativando o sistema nervoso e um dos cinco sentidos: o tato. Isso é totalmente o oposto da história que Rarity contou: elas pareciam saber bem o quê estavam fazendo. Então o quê aconteceu realmente?

— Mas, Rarity, — continou ela. — quando eu acordei, eu lembro que vocês todas estavam preocupadas, mas não pareciam desesperadas. Estavam até calmas e confiantes. AJ abanava seu chapéu para me refrescar e você estava apertando meus cascos. Vocês realmente sabiam o quê estavam fazendo, então, me diga: O quê realmente aconteceu?

— Twilight, querida! — disse Rarity num tom surpreso; ignorando a pégaso completamente — Percebo que continua bem detalhista, uma coisa que um mero desmaio nunca arrancaria de você! Mas o quê lhe contei é, de fato, uma verdade. Mas digo agora: Nós não sabíamos de nada mesmo, o quê você viu foi algo depois que começamos a saber de algo. “Alguém-qual-não-nomearemos-para-o-seu-bem” se pronunciou e nos ajudou! Esse “alguém-inominável” demonstrou ser muito experiente e nos orientou de forma bem profissional. Fiquei realmente surpresa! Em questão de minutos, você estava ficando bem de novo. Foi um alívio para todas nós! E foi aí que você acordou. Ficamos muito felizes que, no final, tudo ocorreu bem!

Twilight olhou torto para a Rarity — Como é? — foi o quê ela pôde comentar diante daquilo. — “Alguém-qual-não-nomearemos”? “Inominável”? Do quê está falando, Rarity? O quê está escondendo? — ela demonstrou-se irritada com todo esse esconde-esconde de nomes.

— Não estou escondendo nada, querida. Só estou preocupada com você. Eu sei muito bem que você ficará mais irritada, e obviamente mais confusa ainda, do que já está agora se souber seu nome.

— Rarity, deixa de joguinhos, por favor. Por acaso foi o… — suas bochechas arderam de novo — … o Sr. Eye?

— Ai, amiga, quem me dera que fosse ele! Aí eu gostaria de estar em seu lugar! Tremendo toda e deitada em cima daquele ser corcelístico! — Rarity soltou um suspiro apaixonado, mas se recompôs quase que imediatamente — Mas não, Twilight. Eu já havia dito que ele não sabia o quê fazer, assim como nós.

— Mas então quem–

— Há! Pois isso você não vai acreditar! — cortou Rainbow Dash, carregando um copo de suco para a curiosa unicórnio enquanto planava para perto dela. — Foi o Sr. Brutamontes! Quem diria, né?

— Rainbow! — Rarity imediatamente a repreendeu. Tanto esforço dessa unicórnio pálida para ser gentil com as emoções de sua amiga e uma pégaso cerúlea consegue ser mais delicada que uma rocha rolando barranco abaixo e destruir toda a estratégia numa patada forte e seca sobre uma poça de lama suja e gosmenta. O som fez Rarity sentir um frio enojado subir-lhe a espinha. Agora ela temia pela reação da unicórnio cor-de-lavanda com esta novidade.

— Hã? Quê? — Twilight estava tentando entender o quê Rainbow acabou de dizer — “Brutamontes”? Por acaso… POR ACASO…! — então ela percebeu quem era — S-S-Seria aquele, aquele…! A-a-quele…! — ela já estava babulciando, o esforço de tentar continuar a frase era tremendo e assustador; seu rosto começara a ficar vermelho, substituindo sua cor naturalmente roxa — Mas…! Que…! Co-… Por quê?! — finalmente saiu.

— Como assim “por quê”? — perguntou Dash, irônica — Esperava quem, afinal?

— QUALQUER UM MENOS ESSE EMPECILHO! — bradou Twilight com fogo pelas narinas.

— Está vendo o quê você fez, Rainbow Dash?! Eu disse para você se comportar e ser mais delicada! — disse Rarity, cruzando as patas, com uma expressão desgostosa.

— Ih, qualé, Rarity. Nem reclame!— Rainbow se virou para Rarity, ainda batendo as asas em pleno ar ao lado de Twilight, segurando um copo com suco — Ela tinha que saber o quê aconteceu do mesmo jeito! Era o direito dela, ficar fazendo joguinho como você estava fazendo só iria atrasar as coisas! Eu mesma já estava ficando impaciente com o seu lenga-lenga!

— Mas eu fazia isso em respeito à nossa amiga Twilight, Rainbow, que estava fragilizada com a recente situação causada por aquele grandalhão! Eu tinha que ser delicada com ela, ao contrário de certas Rainbow Dashes!

— Mas o quê está feito, está feito. Aqui está seu suco, Twilight. — Rainbow esticou os cascos para Twilight, oferecendo o copo com suco de maracujá — Depois de tomar e se acalmar, voltaremos para a sala onde estão todos nos esperando. Aí, quando chegarmos lá, irá agradecer ao Sr. Brutamontes e ao Sr. Eye.

Twilight ascendeu sua magia para levitar o copo com suco oferecido pela sua amiga pégaso, mas ao citar o nome daquele-que-não-deve-ser-novamente-nomeado, ela puxou-o dos cascos de Rainbow com força, espalhando algumas gotas no chão — “Agradecer”?! Ficou doida, Rainbow?! Nunca em minha vida córnea que eu iria agradecer aquele empecilho! Aquele outeiro!! Impudico insensato! — ela já não mais falava para Rainbow; ela estava quase gritando — Desde que ele chegou, só estava me humilhando em minha casa e na frente de minhas amigas! Não me dava nenhum respeito em meu próprio teto! Aquele ser ofendia minha mentora, quem é a CHEFE dele, a Princesa Celestia, e ainda ofendeu vocês; minhas amigas! Você viu que tipo de pônei ele é quando ele trombou em você! Um bruto! Não admito esse comportamento insolente perto e diante de pôneis quais eu me preocupo!

— Sim, Twilight. — disse Rainbow quando conseguiu um espaço para falar, mas num tom baixo e firme; diferentemente dos escandalosos — E ele também não admite.

Twilight olhou bem para Rainbow, confusa — Como assim? — ela perguntou, com a voz ainda nervosa e alta.

— Por isso eu disse que, quando fôssemos lá, você agradeceria a ele. O Sr. Brutamontes não admitiu um “comportamento insolente” perto e diante de “pôneis com quais você se preocupa”. E foi o quê ele fez como resposta a isso: ele nos ajudou e, principalmente, ajudou você.

Twilight não sabia se encarava isso como uma moral contra a sua atitude ou uma ofensa aos seus ouvidos. A unicórnio olhava para a pégaso azulada com desgosto. “Ele me ajudou? De quê forma?!”, ela se perguntou, mas o seu orgulho enfadonho não permitiu enxergar o quê havia por trás das palavras de sua fiel amiga pégaso, quem empunhava em seu flanco o símbolo do Elemento da Harmonia:  “Lealdade”.

— É isso que Rarity tentou dizer e o quê estou lhe dizendo agora: Não tire conclusões precipitadas sobre ele; você não sabe o quê havia acontecido quando desmaiou naquela hora.

— Então me conte! Estou ficando nervosa e mais impaciente com esse jogo que vocês estão fazendo comigo! — ela começou a demonstrar-se ofendida com essa discreta manipulação de suas amigas com suas emoções; Twilight já estava explodindo por dentro de novo. — Eu sei que vocês querem o meu bem e estão fazendo o possível para me ajudar, mas já está demais! Minha cabeça já dói com esse mistério que estão fazendo! Me contem! Me contem!

— Acalme-se, Twilight, minha querida! — Rarity tomou seu casco direito e o acariciou gentilmente — Tudo ao seu tempo! Queremos muito te contar o quê houve, mas temos medo que te cause mais dano! O quê estamos fazendo é por respeito a você e o quê você está passando. Por favor, acredite nisso. E repito: Precisa relaxar e se acalmar! Contaremos tudo o quê você quer saber.

— Não se zangue conosco, Twilight. — disse a Rainbow, já descendo pro chão e sentando-se perto de Twilight — Beba um pouco desse suco; lhe fará bem.

— Isso, querida. Beba um pouco. — acrescentou Rarity.

Twilight estava ofegante e com o rosto levemente rosado. Algumas linhas de suor escorriam de sua testa chifruda, mas não pretendiam deslizar mais do que até suas sobrancelhas. Suas amigas tinham razão, ela já estava ficando descontrolada de novo; suas emoções estavam florescendo e estourando em sua pelagem roxa. Ao menor toque em qualquer uma dessas pétalas sensitivas, ocorria o desagradável; para ela e para quem tocou. Twilight tinha que parar com isso; isso, sim, estava demais para ela. Ela via suas amigas novamente preocupadas com sua saúde, o quê igualmente ocorreu quando ela havia desmaiado. Rostos em pânico, amigos em gritaria. Isso mais uma vez estava diante dela: Rainbow olhava com preocupação para a unicórnio roxa, seus olhos magenta brilhavam em pena por causa de sua incapacidade de se controlar sem ferir o próximo; sobrancelhas visivelmente declinadas em seu rosto azulado com tristeza por Twilight continuar incessantemente seu próprio prejuízo e dor. Rarity acariciava seu casco púrpura; patas pálidas deslizavam suavemente pelo seu pequeno membro mas Twilight sentia que ela estava nervosa; sentia que seu casco nevalesco tremia. A unicórnio pálida tensionava seus músculos para não tremer em nervosismo, no objetivo de ninguém notar sua preocupação interna, mas não podia; Twilight percebeu só pelo toque.

Egoísta e insensata. Ela pensava que só ela sofria com a situação, mas demorou para melhor observar que sua tensão afetava todos ao seu redor. Podia sentir isso de Rarity e ver no rosto de Rainbow Dash. Suas estúpidas escolhas feriam e prejudicava quem estivesse por perto. Isso é estupidez de sua parte inteligente. Preocupação e nervosismo. Qualidade negativas que não combinavam com essa inteligente unicórnio que só prejudicava estupidamente suas amigas inocentes de seus atos egoístas. O quê Applejack estaria sentindo quando se preocupou com ela ao segurá-la em sua queda? Ou a Prefeita? Ou mesmo Foreign Eye quando a resgatou de sua queda solitária? Infantil e orgulhosa. Odiava ser vista como uma incapaz e fazia de tudo para provar o contrário e fazer o acusador calar-se de suas acusações embusteiras. A aprendizagem que absorvia de sua grandiosíssima mentora era preciosa e incrivelmente poderosa; dava poderes e capacidades que muitos unicórnios sonhariam em possuir um dia. Twilight se sentia especial; podia até se chamar de a maior unicórnio que já existiu. Mas seus recentes atos mesquinhos comprovavam o contrário do que ela se auto entitulava.

Estava na hora de parar; de interromper esses ciclos e sentimentos atrasados.

Twilight fechou os olhos, deixando todo o real presente no escuro; precisava se concentrar. Para isso, começou a respirar lentamente pelas narinas; enchendo e esvaziando os pulmões. Ela tinha que relaxar o corpo; respirou e expirou; respirou e expirou. Sentia seu peito pulsar meio agitado, mas estava agora diminuindo e em sincronia.

A unicórnio cor-de-lavanda cansou daquilo tudo e decidiu acabar com todo esses pensamentos. Nervosismo, ansiedade, descontrole, medo, orgulho. Infelizmente todos os pôneis possuem esses sentimentos negativos, mas para injustiça com eles, em diferentes intensidades. Ela em especial tem em grande intensidade. Emoções podem causar vários sintomas físicos no corpo, quando usados de maneira violenta. O pior deles, qual Twilight infelizmente sofre, é o medo.

O medo é bem significativo quando bem analisado e mal explicativo quando mal detalhado. O medo em questão não é o medo físico como medo de ratos ou medo de um dragão. Medo não é somente físico; ele também é mental; emocional, ligado a coisas que são muito queridas para os pôneis, qual o simples ato de pensar em viver sem ele gera pavor e ansiedade. Os pensamentos vão de perda ao abandono ou da desconfiança à traição. Para ela, tinha medo de fracassar com sua mentora; medo de se envergonhar em frente de suas amigas; medo de perder a confiança em si e de seus mais queridos; medo de parecer uma incapaz; medo de ficar para trás; até mesmo medo de perder o medo.

Perder o medo é perder a sanidade; é não ser mais lógico e não pensar antes de agir. Então, o medo torna-se algo essencial para o entendimento e prevenção. Sem ele, os sentimentos mais positivos e gloriosos como Coragem se tornariam inexistentes; até mesmo algo sem sentido. O jeito certo de lidar com o medo é encontrar o equilíbrio; a harmonia.

As gotículas de suor em sua testa chifruda já evaporaram, só restaram uma pelagem púrpura brilhante e lisa. Rarity já percebeu a diferença em Twilight; a tensão em seus cascos sumiu e sentiu seu braço, qual acariciava, relaxar. Isso a alegrou muito; estava dando certo.

Twilight precisava achar a harmonia dentro dela; não esquecer ou ignorar seus medos, mas lidar com eles de forma lógica e corajosa. Algo que ela sabia fazer isso e muito bem. Sua cabeça já não estava mais pesada e sentia que ela não pulsava violentamente; a enxaqueca passou magicamente. Twilight estava decidida, pois pretendia alcançar o equilíbrio por ela mesma; graças a ajuda e orientação de suas queridas amigas presentes. Não havia mais conflitos em sua mente já recuperada. Ela abriu os olhos; um brilho audacioso e penetrante raiou de suas pupilas púrpuras. Rarity e Rainbow Dash perceberam isso e sorriram, “Ela está de volta”, pensaram elas em conjunto.

Twilight, ainda utilizando sua magia, aproximou o copo de suco em seus lábios e deu vários grandes goles.

A unicórnio esvaziou o copo e deu um estalo com a língua no céu-da-boca — Ah… — ela limpou os beiços com a língua, satisfeita. O gosto doce e calmante do suco de maracujá ainda percorria deliciosamente pela sua boca — Obrigada, Rainbow. Esse suco estava delicioso.

— Já está sentindo melhor, cabeçuda? — perguntou Rainbow num tom amigável e com um sorriso maroto na boca. Rarity cerrou os olhos para Dash, discretamente.

Twilight assentiu com a cabeça — Sim, muito melhor! — disse num tom assustadoramente animado — Não sei o quê colocou nesse suco. Realmente tinha algo mágico nele. Posso confiar em você que só tinha suco nesse copo?

— Ih, não me vem olhando torto assim, não. Macumbas e poções não são minhas laias. Você e Zecora que se entendam, pois eu tô fora!

Rarity deu uma cotovelada em Rainbow Dash. A mesma reclamou pela dor e massageou o local atingido. Dash resmungou para Rarity dessa desnecessária necessidade cotovelística contra ela e a unicórnio pálida só repreendia com o olhar diamantinesco que possuía. Twilight só respondeu com uma risada carismática; até continuou a rir por mais de meio minuto.

— Claro, claro. Sem problemas, Dash. — Twilight levitou o copo para a mesa central longe dela e descansou-o ali mesmo — Agora, podem parar de se estapelar feito dois “Alazão-Bobo” e me contarem o quê realmente aconteceu? Me sinto realmente melhor graças a vocês e quero presenteá-las com a minha maior atenção. Por favor!

Rarity agora olhou assustada para Twilight. Que manipulação emocional era essa unicórnio roxa possuía? De um segundo, estava uma pilha de nervosos sobrecarregada prestes a explodir numa destrutiva retalhação verbal, e no outro, se via uma potranca comportada e inocente com uma angústica doce de querer saber o fim da história de um “Conto-dos-Pôneis”. Era de se estranhar e ficar deveras preocupado! Mas Rarity não estava mais preocupada. Pelo contrário: ela estava aliviada, e muito feliz que ela tenha se controlado de uma forma surpreendente e maravilhosa. Rarity sentiu que precisava tirar uma dúvida particular dela. Então ela tomou o casco de Twilight novamente, agora com as duas patas. A unicórnio pálida o esfregou com fervor no começo, mas conforme os segundos passavam ela suavisava. Rarity apertou firme e delicadamente sua pata cor-de-lavanda; ela estava leve e relaxada. Relaxada, ela pensou. Rarity suspirou longamente.

Twilight não estava viajando como muitos pensariam; ela estava analisando tudo que Rarity fazia em seu casco. Ela finalmente compreendia o quê Rarity estava sentindo quando ficava preocupada e deixou-a fazer o quê quisesse com sua pata; pensando no bem dela. Durante o ato da unicórnio pálida, Twilight sentiu seu casco duro e trêmulo como antes. Ela ainda estava nervosa e preocupada com seu bem estar. Ela suspirou tristemente, mas deixou que Rarity fosse até fim com suas carícias. Até que ela parou e apertou seu casco. Foi nesse instante que Twilight sentiu a diferença e podia ficar muito mais tranquila: o casco de Rarity parou de tremer e ficou mais amolecido e delicado. A pata dela voltou a ser como sempre fora: gentil e gracioso, como os sentimentos da própria dona. Uma vitória que Twilight comemorou dentro de si e demonstrou sua emoção com uma leve apertada no casco de Rarity.

— Pois, bem, Twilight, querida. — começou Rarity, já emocionada — Como amigas, agradeceremos pela sua atenção. E, como amigas, vamos deixar de nos preocupar com você, pois já está recuperada. Vou sentar ao seu lado e contar tudo que sei. Rainbow Dash pode me corrigir algumas partes, caso eu misture alguma coisa ou conte algo que não aconteceu. Ela tem uma memória muito melhor que a minha.

— Sem problemas, Rarity! — Rainbow fez uma rápida continência — Pode deixar comigo que irei te ajudar em alguma parte.

Fim do Capítulo Seis

Sem palavras para descrever – Livro I – Cap.5 – Casa da Mãe Joana

Livro I - Cap.5 - Casa da Mãe Joana

Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

Capítulo 8 – Amanhã

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

—————————————–

Equestria — Ponyville — Interior da Biblioteca, 13 de Fevereiro, 20:28.

Apesar do tamanho descomunal daquele enorme corcel negralmente uniformizado, Rainbow Dash não se intimidou com sua largamente alta aparência corcelística. Sua postura reta e azulada continuava firme; ela o encarava com fevor e sua cabeça estava erguida contra o novo rosto que chegara a esta pequena vila. O mesmo corcel olhava para aquela cabeça cheia de farpas coloridas com o rosto um pouco curvado; este demonstrava um leve desgosto em seu lábio inferior para a pelagem reluzente desta pégaso.

— Vai ficar me encarando o dia inteiro, projeto de cerúleo? — disse o corcel com sua voz irritada. Aquela voz era penetrante e bem imponente.

— Já é de noite, caso não tenha percebido, espertalhão. — respondeu a pégaso quase que automaticamente.

O corcel apertou os olhos. Ele abanou seu rabo bruscamente, de alguma forma, para abafar alguma irritação.

— Você é outro convidado das Princesas? — Dash indagou ao fintá-lo com seus olhos magenta, cujos demonstravam uma expressão um tanto desgostosa; para ela, isso já está virando a casa da mãe Joana. — Preciso que mostre seus docu–

O enorme corcel a interrompeu com uma quente e forte baforada de suas narinas no rosto da pégaso; gotículas melecosas se chocaram em seu rosto celeste. Ela sacudiu um pouco o rosto e o esfregou com um de seus cascos, um pouco enojada.

— Vá encher o saco de outro; tenho trabalho a fazer. Agora saia da frente. — Com passos pesados, o corcel trombou com a pégaso, empurrando-a forçadamente para o lado. Rainbow se desequilibrou e foi de encontro ao chão, batendo seu lombo esquerdo no assoalho de madeira da biblioteca. Todos olharam perplexos para o acontecido, Rarity e Applejack quase se levantaram da cadeira para se pronunciarem, até que alguém foi mais rápido que elas.

— Ei! Por quê isso? Quem você pensa que é?! — Twilight trotou raivosamente em direção ao suposto intruso da biblioteca.

O corcel a encarou com seus olhos pretos sombrios, que fez a própria unicórnio cor-de-lavanda parar de forma brusca seu trajeto. A pressão se tornara pesada quando ela se aproximou daquele grande pônei; um desconforto indescritível pairava ao seu redor, como se um enorme lobo a encarasse esfomeadamente sobre seu lombo roxo, fazendo-a ficar imóvel ou incapaz de reagir. Apesar de querer andar para frente, aquela pressão a fazia andar para trás; mesmo que seus cascos desejassem o norte, seu corpo se movimentava para o sul. Aqueles olhos negros poderiam parar a água corrente ou até mesmo o vento, se quisessem. Twilight engoliu seco, mas conseguiu manter-se parada onde estava, na suspeita.

As pôneis no recinto encaravam o corcel de trajes militares negros com desgosto. A Prefeita não se levantou da cadeira, mas Applejack e Rarity já estavam de pé e com as pernas abertas e duras, numa postura firme. Rainbow Dash ainda estava no chão, já deitada com a barriga para baixo, tentando assimilar o que havia realmente acontecido. Apesar pelo desconforto em seu azulado flanco esquerdo, ela rangia os dentes enquanto olhava para aquele truculento equino que havia a atropelado.

Pinkie Pie apareceu ao lado do corcel amarronzado com uma cara meio fechada para ele.

— Ei, grandão! — ela apontou o casco rosado para ele — Não gostei do que você fez com minha amiga! Isso não se faz com nenhum pônei! Foi muito mal-educado de sua parte. Peça desculpas agora para ela, por gentileza!

O corcel virou a cabeça para Pinke Pie, ela olhava para ele com a cabeça erguida, em uma típica cara emburrada. Os olhos azulados daquela pônei fitaram seu rosto sem mudar de expressão: suas sobrancelhas estavam cerradas e seu beiço fazia um bico enorme. O corcel olhou em seguida para a pequena pégaso ainda no chão da biblioteca e, com uma voz pesada de ranger a madeira do piso, disse:

— Minhas sinceras desculpas, senhorita. Da próxima vez, saia do caminho se consegue não aguentar em pé após uma trombicadinha de nada. Pôneis com essa atitude molenga serão tratados para sempre em suas vidas como capacho. Precisarei limpar meus cascos em você?

Rainbow olhou ao seu redor, percebendo que, desde o empurrão, não levantou do chão. Na mesma hora, ergueu-se imediatamente dele e olhou para o corcel, soltando um relincho forte. Ela queria pular em cima dele agora pelo comentário, mas Pinkie Pie ainda estava em sua frente e, fazer uma manobra dessas, arriscava acertar sua amiga rosada sem necessidades.

Pinkie Pie sorriu alegremente e abraçou o garanhão de uniforme, sem restrições. O corcel nem se moveu por conta do abraço, mas Pinkie Pie estava agora por cima dele, abraçando-o.

— Viva! Você pediu desculpas a ela! Parabéns! — Pinkie Pie desceu de seu lombo e foi bruscamente para o seu lado direito, indagando, — Agora, qual seria seu nome, grandão?

Ele não a respondeu. Apenas a seguiu com a cabeça lentamente, sem demonstrar nenhuma expressão. Aquela poneizinha rosa olhava para ele com ansiedade tremenda, um sorriso enorme preenchia seu rosto rosado. Ela esperava com muita determinação o nome dele, até mesmo poderia varar a noite esperando, se possível for.

O enorme corcel ignorou-a por um momento, virando-se bruscamente para Foreign.

— Eu mal chego e você já com problemas nessa cidade, Foreign? Que espécie de diplomata é você? Aliás, que espécie de profissionais são vocês, deixando de lado suas responsabilidades e fazendo uma festa em plena reunião?! Se é que vocês tem capacidade de se chamarem “profissionais” com estas atitudes…

Ele não deixou de ignorar os enfeites nas paredes e prateleiras, os balões flutuando pelo teto e amarrados nas cadeiras, além de papéis picados pelo chão e a mesa central estar cheia de guloseimas; tudo isso no mesmo cômodo. Um trabalho esplêndido de Pinkie Pie.

Foreign apenas limpou a garganta antes de responder, — Perdoe-nos com a aparência da reunião, senhor. Para fazer uma breve explicação sobre a mesma: A Srta. Pie, que está ao seu lado, havia montado esta pequena festa para minha chegada pois eu era novo na cidade.

— Hihi! Isso mesmo! É o meu jeito de dizer “Bem-Vindos” a qualquer pônei novo que chega à cidade! Isso os deixa tão felizes! Os fazem esquecerem da vida chata e monótona que tinha antes para abraçar a nova vida alegre e cheia de cor que esperam aqui! Alguns pôneis novos chegaram à Ponyville hoje, acho que uns cinco. O Sr. Eye foi o último deles. Ei! Você é novo na cidade, não é?! Nossa! O Sr. Eye agora é o penúltimo pônei novo na cidade! Então, você é o novo último pônei novo na cidade! Seja Bem-Vindo, senhor “novo-último-pônei-novo-na-cidade”! Precisamos fazer uma festa da sua chegada! Esta festa aqui era para o Sr. Eye, mas todas nós concordamos que iremos fazer uma festa para ele direito um outro dia. Podíamos aproveitar esses enfeites e fazer a sua! Isso vai ser tão legal e reciclável! Aliás, qual é o seu nome, grandão? Precisamos apagar o nome do Sr. Eye do bolo para colocar o–

Um balão verde preencheu a boca rosada de Pinkie Pie, interrompendo-a de seu infinito falatório; mas isso não a impediu de continuar, pois ainda se ouvia as balbuciações dela enquanto mexia o maxilar e executava arranhões surdos entre seus dentes e a borracha do balão. O pônei marrom descansou o casco no chão e voltou para Foreign.

— Continue.

Foreign sentia arrepios em suas costas com os arranhões provocantes do balão entalado na boca de Pinkie Pie. Os gritos agressivos da borracha ecoavam em sua mente repetidamente e cada vez mais alto; ele suava frio novamente. “Clemência, é tudo que eu peço!”. Na tentativa de recuperar o conforto, ele afasta discretamente de Pinkie Pie para um pouco mais a sua esquerda, continuando a conversa com o grande corcel militar.

— E h-houve um pequeno problema com os d-documentos. Parece que a Princesa Celestia não me entregou nada que comprovasse que eu estava convidado para essa reunião–

O grande corcel rolou os olhos e bufou — Pfft! Aquela inútil. Não precisa dizer mais nada. Você! De crina roxa e olhos esbugalhados. — ele apontou diretamente para Twilight. A mesma olhou atônita para ele e seu casco cheio de raízes pálidas diante dela.

— Ainda está com o último pergaminho que recebeste da Nossa Singela Princesa?

Twilight pensou por um breve momento e começou a olhar pelo chão ao seu redor. Pequenos balões, papéis picotados e serpentinas estavam espalhados, atrapalhando a sua busca pela carta. Ela chutou alguns balões e assoprou serpentinas, tentando localizá-la. Alguns breves minutos de procura, Twilight achou o rolo de papel meio enrolado embaixo da mesa central — ela não descobriu como ele conseguiu parar lá —. Com um brilho mágico de seu chifre, puxou o rolo de pergaminho e o orientou diante do enorme corcel.

— E-este aqui? — perguntou ela nervosamente.

— Esse mesmo. A Nossa Maravilhosa Princesa descuidadamente usou tinta invisível ao invés de tinta normal quando escreveu essa carta. Ela pediu para que eu avisasse a Vossa Dedicada Aprendiz que, para poder visualizar seu conteúdo, teria que usar o feitiço Rev–

— O feitiço Revelador-de-Segredos! — completou Twilight com uma epifânia em sua voz.

O corcel ergueu uma sobrancelha, — Quem diria. Você sabe.

— Ora essa, claro que eu sei! Anos de estudo e pesquisa dão esse resultado. Pratiquei vários tipos de feitiços e encantamentos durante minha–

— Certo, certo. Menos encheção, mais ação. Se estudou pra isso, faça sem ficar se gabando. O tempo voa e borboletas morrem enquanto você fala entediosamente.

Twilight ficou desarmada. Nunca ninguém havia falado com ela desse jeito. Ou, pelo menos, nunca lembrara de alguém com um comportamento tão desrespeitoso como aquele. Aquela unicórnia se sentiu ofendida com a atitude presunçosa daquele corcel, que olhava para ela com uma expressão dura. Ele conseguiu ser mais grosseiro que uma certa pégaso azul tinha sido com ela à um tempo atrás. Quem ele pensa que é para falar desse jeito com a Aprendiz Particular da Princesa de Equestria, Princesa Celestia?

Ainda assim, sem restrições — por enquanto — acionou a magia de seu chifre com um brilho mais forte. O papel diante dela também brilhou mais intensamente e, num pequeno flash roxo de luz, as palavras que estavam invisíveis tomavam uma cor pálida lúcida. O brilho no chifre de Twilight enfraquecia conforme passavam os breves segundos, assim como as letras que, antes brancas, aderiram a uma cor mais escura, quase como carvão. Twilight, ao aproximar o pergaminho aos seus olhos, leu em voz alta para todos ouvirem:

“Querida Twilight Sparkle, minha mais dedicada aprendiz,

Venho por meio desta carta para alertá-la das recentes mudanças na equipe que organizará o grandioso evento, “A Última Nota”, em Ponyville. Ninguém será substituído, nem demitido de seus respectivos cargos. Apenas adicionei mais 2 (dois) integrantes para a equipe de vocês, no intuito de auxiliá-las em suas tarefas.

Entendo que uma organização grande como essa pode ser sufocante, ou até mesmo estressante para todas vocês. A ideia de vocês ficarem desgastadas com este evento me deixa muito preocupada. Não quero que pensem que não acredito que vocês não sejam competentes para essas tarefas porque penso na saúde de vocês e de todos os outros pôneis, meus queridos súditos.

Os seguintes 2 (dois) novos membros são Foreign Eye e Capitão-General Stubborn.

Twilight parou um pouco a leitura para olhar para o grande corcel diante dela. Parece que o nome verdadeiro dele era Stubborn. Pinkie Pie ficou muito feliz em descobrir o nome dele; ela já pulava ao redor dele repetindo seu nome sem parar, quase cantarolando.

Sparkle não entendia o porquê de haver um “capitão” antes de “general” em seu título. Ele é um Capitão ou um General? Só pode ser um General, pois seu irmão mais velho, Shining Armor, é quem era o Capitão Real em Canterlot. Mas aquele corcel pode ser um Capitão de uma outra cidade qualquer como Manehattan, Phillydelphia ou Los Pegasus; cidades é que não faltam para ter um capitão para supervisionar as tropas e organizar uma defensiva. Mas aquele “General”… aquele título após o “Capitão” estava de alguma forma incomodando-a. Se ele for um General, representaria praticamente um país, como Equestria; não uma pequena cidade. Para ter aquele “Capitão” antes de “General”, ele estaria representando toda Equestria e, além disto, uma cidade muito importante concentrada nela. Pensando nisso, essa importante cidade em Equestria só poderia ser a grande capital Canterlot.

Mas isso não faz sentido! Canterlot está sendo supervisionada por Shining Armor. Ou este título está tentando enganar a mente dessa inteligente unicórnia ou isto é uma verdade inesperada… e uma outra indesejável verdade esteja escondida dentro desta.

— Vai demorar muito para continuar? Não temos a noite inteira para ficar olhando você, viajando na maionese. — a voz grave de Stubborn cortou os pensamentos de Twilight como uma navalha em manteiga.

Twilight estremeceu um pouco, um pouco constrangida por viajar demais em seus pensamentos internos enquanto os outros esperavam ela sair do repouso.

— S-sim, hã, claro. Perdão. Caham…

Foreign Eye irá acompanhá-la durante todo o evento, ajudando-a na organização, no preparo e nas decisões mais importantes como Diretora-Chefe do evento “A Última Nota”. Acredito que ele não a decepcionará em seu auxílio.”

Twilight tomou um curto fôlego antes de continuar, — “Quanto ao General Stubborn–

Capitão-General Stubborn. — interrompeu Stubborn num tom rude. — Leia direito da próxima vez ou limite-se apenas para Capitão Stubborn.

Twilight olhou irritada pelo canto de seu olho, sem mexer a cabeça. A unicórnia roxa não gostava desse título de alguma forma, mas, pela forma deste destaque em seu tom de voz, parecia que ele fazia questão de que falassem “Capitão” em seu título.

Mas “Capitão” é de uma hierarquia mais baixa que a de “General”. Por que ele prefere que o chamem de “Capitão”? Pode ser que muitos prefiram chamá-lo de “Capitão” por sinal de respeito ou por ser mais confortável de se pronunciar, afinal, o cargo de General é muito importante; tanto que até intimida a ideia de estar conversando com um figurão respeitado como ele. Mas, para ela, só servia para preencher o ego daquele indivíduo arrogante.

Twilight descontou uma parte dessa raiva num rouco alto, ao limpar a garganta.

Quanto ao Capitão-General Stubborn, …” — ela fez questão de destacar essa palavra. — “… ele irá ajudar a sua querida amiga pégaso, Rainbow Dash, responsável pela segurança e o bem-estar de todos os pôneis como Secretária de Segurança em Ponyville durante todo o evento. Peço que diga a ela para usar bastante de sua paciência com ele e que seja mais firme que o próprio. Ela entenderá o que eu quero dizer. Sei bem o que passa na cabeça dele e ela é a melhor pônei que conheço para colocá-lo na linha.

— Pfft! Claro que ela sabe. Afinal, ela sabia que sua sobrinha tinha sido raptada e aprisionada numa caverna embaixo de seu próprio castelo… — disse Stubborn num tom irônico.

Ninguém ousou argumentar. Twilight mesmo já estava perdendo a paciência e ficando bastante ofendida por esse ser scroogeniano estar desrespeitando sua digníssima mentora desse jeito. Mas, para não perder sua postura jeitosa, ela decidiu deixar passar e terminar de ler a carta com desgosto.

Deixo estes pôneis por vossa responsabilidade e a de sua amiga pégaso.

De sua grande mentora,

Princesa Celestia.”

Antes que os pôneis no cômodo pudessem discutir sobre a carta, Twilight ergueu o casco bruscamente.

— Esperem! Há um Pós-Escrito: P.S: Spitfire confirmou que irá para Ponyville uns dias depois, substituindo o comando de Soarin, juntamente com os Wonderbolts para se prepararem para a abertura, quando o evento começar.

— ISSO! — Rainbow Dash deu um salto de alegria e bateu as asas, emocionada. — Spitfire está vindo aqui! AI, MINHA NOSSA! Isso vai ser tão legal! Já que ela virá mais cedo do que antes, posso ter tempo o suficiente para mostrar minhas incríveis e milaborantes manobras aéreas como o “O Vôo Rasante Profundo”! — a pégaso azulada deu um curto rasante ao redor do cômodo com cautela, imaginando como seria sua apresentação de seus truques para os Wonderbolts. E continou fazendo ao citar os nomes de cada um, enquanto alguns pôneis no recinto a seguiam com a cabeça — Ou “Mergulho Cintilante”! Ou “Tobogã Aéreo”! Ou então o “Cometa de Pégaso”! Ou quem sabe–

— Nós já entendemos… Já pode parar, querida. — pediu Rarity ao sentar-se de volta a cadeira, gesticulando o casco.

Rainbow Dash apenas parou no ar e cruzou os cascos, fazendo uma cara fechada. — Hunf… Tá bom.

— Intonci, como ficô a situação, Tualáiti? — perguntou Applejack, olhando para Twilight quando voltou a sentar em sua cadeira.

— Ao que tudo indica, eu estava certa! A Princesa definitivamente me enviou uma carta alegando que tinha falado com Foreign e que ele realmente é um convidado para essa reunião! Então, ele não precisa ir embora já que foi comprovado!

— Mas, ainda assim, ele não possui os documentos oficiais. — interferiu Rainbow Dash, — A carta, sim, provou que ele conversou com a Princesa Celestia e que ela o enviou para nos auxiliar durante o evento. Mas ele precisa apresentar esses documentos. Faz parte do protocolo.

— Francamente, Raibow Dash! — respondeu Twilight, sacudindo a cabeça com desgosto ao persistente comentário de Rainbow. — Você nunca dá o casco a torcer! Pela última vez, ele não é um terrorista!

— Está no protocolo. — agora a voz vinha de Capitão Stubborn. — Isso é verdade e você não pode simplesmente ignorá-la. Como Diretora-Chefe, deveria saber disso e acatar sem restrições.

Twilight não contradizeu; mais uma verdade foi jogada na sua cara.

— Esse descuido de Nossa Descuidada Princesa não podia ser ignorado. — continuou Capitão Stubborn, — Depois de uma longa e insistente conversa, convenci a ela que me desse ordens para ir à Ponyville para auxiliar a Secretária de Segurança desta cidade na segurança do evento que ocorrerá daqui alguns dias. Além de passar este recado para a Dedicada Aprendiz dela e ao diplomata.

— Mas por que ela não me reenviou uma carta explicando? — argumentou Twilight. — Não precisaria ter o enviado até aqui de Canterlot para–

— Ela me disse isso. Mas como Capitão-General de Canterlot, preciso ser minucioso com o fator da segurança desses documentos, pode ser que a magia de envio dessa carta seja desviada de seu destino final. Sim, é possível usar um contrafeitiço para alterar o destino das cartas que você recebe, Dedicada Aprendiz da Princesa. Mas Nossa Confiante Princesa confia demais de si mesma e de sua poderosa magia.

Twilight obviamente não estava gostando dos comentários que aquele estranho pônei estava fazendo de sua devotada mestra de magia. Mas, ainda assim, ela procurava por explicações e engoliu seu incômodo.

— Insisti que ela me desse os documentos de Foreign e meus, pois eu mesmo iria levá-los e entregá-los, já que as recentes ordens de Nossa Mandona Princesa a mim era auxiliar a recém Secretária de Segurança desta cidade interiorana. Sei que, comigo, esses documentos estariam seguros. Com isso, para aumentar a segurança deles, Nossa Minuciosa Princesa usou uma magia para inseri-los num pedaço de lenço, usando como disfarce. Após isso, saí de Canterlot, no mais tardar, às sete horas, seguindo caminho a galope para Ponyville. Cheguei à cidade pouco mais de oito horas; tempo o suficiente para ouvir a balbúrdia que faziam dentro desta biblioteca.

Twilight e os outros pôneis não sabiam se acreditavam nas palavras daquele pônei. A distância entre Ponyville e Canterlot era absurda! Milhas, quilômetros; morros, lagos; matos, florestas de distância separavam as duas cidades. E Canterlot se apoiava nas costas íngremes de uma montanha! Os pégasos da Guarda Real levam pouco mais de uma hora para chegar aqui; os Wonderbolts, minutos! Para um grande corcel, não é de suspeitar de sua força, mas sua velocidade seria surpreendente. Até mesmo Applejack arregalou um pouco os olhos, surpresa.

Ééégua! Cê galopô de Cantêlóti pra cá in mênos di duas hóra?!

— O que é isso, querida Applejack. — Rarity apalpou o casco de sua amiga caipira, ainda surpresa com essa proeza. — Não é tecnicamente impossível de fazer isso. Mas eu sinceramente tenho minhas dúvidas sobre a veracidade dessa façanha. Canterlot é bem longe, são muitas milhas de lá para cá. Para irmos até lá, sempre usávamos o trem da estação de Ponyville, mas ainda assim demorava um bom tempo até chegarmos todas lá. Mesmo para qualquer pégaso, demorariam não menos que uma hora para chegarem aqui.

— Tem razão, Rarity. — entrou Rainbow Dash no assunto. — Para qualquer pégaso. Mas para um pônei terrestre poderia demorar muito mais do que apenas uma hora ou até metade de um turno diurno para ele ou ela chegar aqui há galope, sem ser por um meio de transporte como um trem ou uma biga puxada por pégasos treinados. Isso está me cheirando a exibicionismo, meu caro senhor Stubborn. Como pode dizer que chegou de Canterlot para cá em pouco mais de uma hora?

— E quem é você para dizer que eu tenho que comprovar isso? — Stubborn virou seu corpo bruscamente para Rainbow Dash, ficando de frente para ela. A pégaso azulada afastou por um passo, surpreendida. Em seguida, Stubborn virou a cabeça para os pôneis presentes. — Vocês estão com uma mente muito limitada quanto ao que se pode dizer do “impossível” ou do “possivelmente provável”. Quem disse que não é possível galopar daqui até Canterlot em menos de duas horas?! Há muitos anos houve pôneis que superavam e quebravam o impossível de seus limitados corpos. Como Feather Hoof, que conseguiu galopar de Los Pegasos até Manehattan em menos de três dias de viagem. Ou de Heavy Stone, famoso por construir inúmeras casas e lojas por toda Equestria, mesmo com o seu péssimo senso de equilíbrio. Ele sempre trombicava e tropeçava em seus materiais de trabalho e quase sempre destruía as casas que tinha acabado de erguê-las. Mas isso não era desculpa para o que ele fazia. Se não me engano, há uma citação no livro de Foreign, “Appleloosa É Logo Ali Adiante”, que Heavy Stone foi responsável por construir as casas, os salões e as lojas daquela cidade. Estou errado, Sr. Eye?

Todos os pôneis explicitamente viraram seus rostos para o elegante pônei de terno, que agora se sentia pressionado pelos olhos ansiosos daquelas senhoritas. Foreign estava deveras surpreso aquele pônei de grande massa corpórea soubesse de uma informação como essa. Não pelo fator de ele não saber nada ou de ser um leigo que só pensa em malhar seu corpulento lombo e planejar táticas e estratégias militares; mas por ele ter citado seu livro como argumento verídico. Em piscadas repetitivas com os olhos, ele respondeu:

— Claro que não, Capitão Stubborn. O senhor está correto

— Correto, isso mesmo. — respondeu de volta o grande corcel, voltando para os outros pôneis.

Ele leu mesmo o livro de Foreign; isso o deixou surpreso. Foi uma ótima tática de demonstração da sua bagagem cultural, quem diria que ele — ele mesmo — pudesse citar algo do gênero, até mesmo antes que o próprio Sr. Eye pudesse comentá-lo, pois ele sabia do assunto. Que livros a mais será que ele leu ou conhece, perguntou o pônei elegante para si mesmo, em seus pensamentos.

— Como também houve uma façanha mais recente — continuou Capitão Stubborn — de uma pégaso, que não lembro bem o nome, mas a denominam como “Raio da Aurora” em algumas regiões ao sul de Equestria. Dizem que ela havia ultrapassado a barreira do som em questão de minutos, num mergulho veloz e profundo. A velocidade foi tremenda que uma onda de choque multicolorida preencheu o céu azul daquele dia, podendo ser visto suas cores e sentido seu choque a milhares de milhas de distância. Aquela onda afastou e quebrou nuvens, balançou as árvores frutíferas e estremeceu as águas dos rios. Jamais foi visto um céu tão limpo e brilhante em anos como naquele dia.

Um comichão pinicava nas nucas das pôneis presentes, onde resguardam as memórias e lembranças. Essa história que Stubborn acabou de contar era suspeitosamente familiar. Todos coçavam o queijo, tentando lembrar alguma referência. Foi então que Twilight e suas amigas olharam bruscamente para a pégaso azulada de crina rebelde e colorida, que meses atrás participou da competição “Melhor Voador Mirím”, em Cloudsdale, e que, na mesma ocasião, estreou pela segunda e penúltima vez em sua vida, a incrível manobra qual Rainbow Dash se orgulha de patenteá-la e de ser escutada pela boca de outros pôneis apaixonados: O Arco-Íris Sônico.

Stubborn continou a citar momentos e comentários que ele ouvia de outros pôneis; histórias que passavam de boca em boca, rumores que passavam de sussurros em sussurros, e piadas que passavam de risadas em risadas. Rainbow não podia fazer nada a não ser escutar cada palavra que aquele arrogante corcel falava indiscretamente sobre ela e sua grande façanha. Seu sorriso azulado ia crescendo, assim como o ego em seu peito. “Raio da Aurora”? Hehe. Adorei esse nome…”, pensou ela. Suas amigas olhavam para o grande corcel e para pégaso azulada repetidamente; não sabe ele que está diante da autora desta grande façanha, bem ao seu lado.

— EI! — Pinkie Pie interrompeu — Este bafafá está muito parecido com o quê a Rain–

Antes que ela terminasse de falar um nome, Pinkie foi agarrada pela pégaso azulada e sua boca foi tampada por um casco azul, seguido de um surdo “Psshht!” em sua orelha. Suas amigas logo viram e suspeitaram de seu comportamento. Mas antes que pudessem se pronunciar, foram interrompidas.

— Como é? — perguntou Capitão Stubborn, virando para a pônei cor-de-rosa sendo agarrada pela pégaso azulada.

Rainbow disfarçou o agarramento como um amigável abraço, terminando com o casco sobre o ombro direito da pônei de crina espalhafatosamente rosa. Então, Dash tomou a iniciativa antes dela:

— Oh! Bom…! Hã… e-ela disse que essa história toda que você contou… sobre o choque multicolorido e… e tremores… e-e achou muito parecida com o que aconteceu na competição “Melhores Voadores Miríns” em Cloudsdale. Disseram sobre um grande impacto no céu, que o preencheu com uma onda de várias tonalidades de cor. Será coincidência?! Haha…

— Não existem coincidências. E eu estava falando exatamente desse acontecido… e de outros dois: um há muito tempo atrás, que ocorreu na mesma cidade, e um outro bem mais recente, durante um Casamento Real em Canterlot.

Rainbow Dash olhou em volta discretamente, tentando arranjar alguma ideia para distraí-lo desta interrupção e fazê-lo esquecer do assunto pendente — E… e… como foi… hã… essa grande façanha… em seu ponto de vista? Sem ser pelos comentários dos outros pôneis quando viram essas incríveis e estupendas manobras?

— Infelizmente não estive presente em nenhum dos acontecidos para poder ter minha própria opinião. Eu estava em outros lugares, com outros afazeres e outras responsabilidades mais importantes a serem preocupadas. O que posso dizer são as opiniões de terceiros, quais eu ouvi durante algumas viagens. Sempre comentam que era algo que nunca viram antes; que era uma coisa que só via uma vez na vida, mas não é verdade! Isso aconteceu mais que duas vezes. Em menos de uma década; isso não é algo raro. Ele ou ela o executa apenas em situações ou eventos especiais, como a competição de “Melhores Voadores Miríns” ou o Casamento Real. Acredito que, neste evento, poderei vivenciar essa próxima façanha.

E continuou novamente a citar comentários de outros pôneis e do que ele espera encontrar e ouvir outros comentários de novos pôneis nesta cidade durante esse grande show de música. Rainbow puxou devagar Pinkie Pie para um canto, ao lado de uma inocente samambaia, e cochichou baixinho com ela. Uma certa unicórnia cor-de-lavanda suspeitou essa privacidade.

Pinkie! O que está fazendo? — perguntou Rainbow nervosamente em sussurros, virando-se para ela num canto do cômodo.

E pergunta pra mim? — Pinkie Pie a pergunta também aos sussurros, — O quê você está fazendo, Dashie? Por que tampou minha boca? Eu só ia comentar sobre o Arco-Íris Sônico que você fez em Cloudsdale–

É por isso mesmo!

Pinkie Pie olhou para ela com uma sobrancelha erguida; até ela boiou nessa.

É o quê? Você não quer que eu conte a sua grande façanha para ele? Por quê?

Porque eu quero ver o que ele tem a dizer sobre mim e o meu grande feito!

Você sabe o que é! É estupendamente maravilhoso e lindo! Você foi com “ZUM”! E “PURRRRRSHHHHH”! E então “BOOOOOM”! Foi incrível e cheio de cor! Você viu! Ou fez… Ou viu e fez!

Mas ele é tipo um General, Pinkie! Um militar; um pônei super importante, saca?! Há anos que espero alguém importante como os Wonderbolts para comentarem sobre meus feitos e façanhas. Agora que vejo um importante pônei como ele, que é um General da Guarda Real de Equestria, não posso perder essa chance de ouvir o quê ele tem a dizer sobre isso! É a minha grande chance!

Uau! Que legal e super bonito! Tem todo o meu apoio, Dashie! — Pinkie bateu levemente os cascos de emoção — Mas o quê isso tem haver em dizer o seu nome?

Porque ele não sabe que eu sou a pégaso que fez o Arco-Íris Sônico! Ele só o conhece por boatos de outros pôneis, quase nenhum dos que ele ouviu era concreto. Ele nem sabe se é um pônei macho ou um pônei fêmea! E meu nome tem muita relação com o que aconteceu em Cloudsdale, em Canterlot e com meu recente cargo como Secretária de Segurança em Ponyville. Temo que, cedo ou tarde, ele acabe descobrindo meu nome, pois ele vai querer saber quem é a responsável pelo cargo…

Ué, é só mudar de nome! Isso é fácil! — respondeu Pinkie de uma forma confiante, mas Dash não a levava à sério; só pôde suspirar tristemente.

— Não é tão fácil quanto parece, Pinkie. É muito mais difícil. Todos os pôneis da cidade me conhecem por Rainbow Dash. Fazerem eles me chamarem por outro nome é praticamente impossível!

— Bom, dã! Deixe isso comigo! Sua amigona Pinkie Pie dá um jeito em tudo!

    Rainbow olhou para ela, incrédula — Hã? Sério mesmo que você consegue?!

— Tão séria como uma pedra pode dançar e cantar!

Rainbow deu com o casco na testa, mas ela conhecida sua amiga neurótica; ela faria qualquer coisa por suas amigas e, nisso, Dash acreditava em sua capacidade.

Ai, ai, tudo bem, Pinkie. Mas que nome devo trocar? Não tem que ser muito parecido com o meu original.

— Certo! Pensemos! Hum… — Pinkie colocou o casco no queixo, pensativa.

De repente, ela teve um sobressalto — Ei, ei! Que tal Rainbow Dash?!

— Pinkie! Esse é o meu nome verdadeiro! Tem que pensar em um outro para substituí-lo!

— Aié! Foi mal. Hihihi. Hum… que tal “Baunilha”?

— Baunilha? Mas o quê isso tem haver? Eu nem sou branca para ter esse nome!

— E quem disse que você precisa ser branca para ser chamada de “Baunilha”? A Rarity é branca e nem por isso seu nome não deveria ser “Rarity”!

Mas esse nome é ridículo!

— Você tá é reclamando de barriga cheia! Precisa passar mais tempo faminta. — Pinkie cruzou os cascos, impaciente. Mas ela não desistiu.

Ei, que tal “Pamonha”?

Rainbow não esboçou nenhuma reação, mas o tilintar de sua pálpebra inferior era incontrolável e bem visível.

— Não olhe pra mim assim! Reclame com o escritor que está me fazendo dizer esses nomes esquisitos para você!

— Ai, Pinkie, esquece! Eu mesma vou pensar num nome! Deixa-me ver… ah, já sei!

— Viva! Então, me fala! O que é, o que é?! — a pônei rosa saltitava de ansiedade.

— “Star Fox”! — Dashie disse o nome com a coisa mais mirabolante e genial de todas as coisas que ela havia pensado, mas a expressão duvidosa de Pinkie dizia outra coisa.

— Mas você não é uma raposa, Dashie–

— Isso não vem ao caso! — disse Dash, sacolejando os cascos em frente a ela — Esse vai ser meu novo nome e pronto! Até segunda ordem ou o meu plano ir pelo ralo!

— Beleza então! Vou falar com as outras e espalhar a notícia! — Pinkie Pie ia se preparar para dar um salto lateral, mas Dash a segurou pelo casco.

— Espere, Pinkie! Mas não diga para o Brutamontes e nem pro Sr. Eye!

— Ah, tudo bem– Ei! Como assim “não pro Sr. Eye”? O que você tem com ele ainda?

Nada! Eu… só não confio nele ainda. Acho esse cara meio suspeito. Aliás, não vou muito com a cara dele. — Dash descansou os cascos no rosto de sua enérgica amiga, olhando seriamente para ela — Por favor, Pinkie! Não conte para nenhum dos dois! Promete?!

Pinkie observou que o quê Rainbow lhe pedia era de profunda seriedade e confiança. De sua narina rosada, ela suspirou, mas logo voltou com um sorriso gentil em seu rosto jambo rosa — Pinkie promete. — com um gesto singelo com o casco, ela cruzou-o o peito com ele, esticou-o para o alto e pousou levemente em seu olho esquerdo.

Sinto muito, Rainbow, mas não posso permitir isso. — uma voz dura veio por dentro da mente delas, como se alguém a sussurrasse pelo ouvido, mas que ecoou em suas cabeças.

 As duas logo ficaram paralisadas, suspeitando dessa voz misteriosamente familiar ecoar por entre seus ouvidos. Nervosamente, as duas olhavam em volta, na tentativa de achar a real fonte daquela voz ameaçadoramente reconhecível, mas ela retornou em seus pensamentos, num tom mais calmo e mais amigável.

Calma, vocês duas. Sou eu, Twilight Sparkle. Falando telepaticamente com vocês. Vocês também podem falar comigo, apenas pensem em suas frases mentalmente e eu as ouvirei.

Heim?! Sério?! QUE MUITO LOUCO! Não sabia que podia fazer uma coisa dessas, Twilight! Irado! — respondeu Pinkie Pie, mas sua boca não se mexia; imediatamente ela demonstrava dominar essa habilidade de falar mentalmente, após anos praticando em particulares conversas mentais consigo mesma.

Mas heim?! C-como e desde quando você faz isso?! — perguntou Rainbow, meio assustada com essa novidade.

É só uma magia que aprendi alguns dias atrás, mas só consigo utilizá-la em uma distância muito limitada, mas o suficiente para usar em qualquer parte desta biblioteca. Claro que é uma magia contínua e, por causa disso, eu tenho que utilizar a mágica do meu chifre constantemente enquanto falamos. Mas só podemos conversar por alguns minutos, pois quero esclarecer algumas coisas com vocês duas antes do Sr. Stubborn termine de falar.

— Está certo, Twilight. Mas como você está sabendo de nossa conversa? Estamos muito longe de você para conseguir ouvir alguma coisa. Ainda mais com esse contador de histórias falando infinitamente…

— Verdade, Rainbow. — admitiu a unicórnia num tom humilde — Estou longe de vocês, eu não poderia escutar nada de onde estou com a distância e com o falatório de alguns pôneis no ambiente. Mas eu ouvi toda a conversa das duas por causa de um outro feitiço que instalei nessa biblioteca: Paredes-com-ouvidos. Com meu chifre, eu desenhei um símbolo mágico em possíveis locais de haver algum cochicho ou fofocas na biblioteca. Esses símbolos ficam apagados quando estão desativados, mas, com um brilho do meu chifre, posso ativar qualquer uma das marcas ao meu desejo, para ouvir qualquer coisa e o quanto eu quiser. Acredito que tenha um símbolo escondido perto dessa samambaia atrás de vocês. Ele estará piscando levemente com uma cor púrpura.

As duas pôneis olharam para a samambaia atrás delas, com suspeita. Rainbow esticou o casco e, num empurrãozinho nas folhas, localizou no meio dos galhos um pequeno círculo, do tamanho de uma moeda, pulsando em ritmos lentos com uma cor roxa. As duas pôneis se entreolharam, surpresas. Ao que tudo indicava, aquela samambaia não era tão inocente quanto aparentava ser.

Sei que pode soar meio que invasão de privacidade para vocês, mas lembrem-se de que estão na minha casa. Logo, não poderiam usar como desculpa para os seus cochichos secretos.

… Tá certo, tá certo. — admitiu Dash, meio encabulada. — Mas o quê você deseja falar, Twilight? Ouvi bem o que você me disse há alguns minutos e estou muito curiosa de saber o seu motivo com aquela confiante afirmação.

E você ouviu muito bem o que eu disse, Rainbow. — disse Twilight num tom firme — Não vou permitir que faça isso para um benefício próprio, mas que seja prejudicial.

— Hein? “Prejudicial”? Como assim?

— Rainbow, você como Secretária de Segurança em Ponyville… e eu como Diretora-Chefe do evento devo relembrá-la: Você deveria saber que não é permitido quaisquer alterações nos dados pessoais e profissionais dos funcionários e dos responsáveis neste e em qualquer evento. Isso está no protocolo que você escreveu e em qualquer protocolo existente; isso é uma regra geral; padrão: é proibido fazer essas alterações em qualquer lugar. Caso você alterasse suas informações, caso isso seja descoberto e comprovado que você os alterou, poderia perder o cargo presente por alteração de dados; desvio ilegal de informações; formação de quadrilha, pois você está pedindo ajuda de sua amiga Pinkie Pie para auxiliá-la no plano; ela será condenada como sua cúmplice; além de que essa notícia poderia espalhar por todas as regiões equestrianas. Com um vazamento desses, para onde você iria? Sua reputação em qualquer lugar estaria destruída e você poderia até ser presa. Quer mesmo ter esse risco?

Rainbow ficou com a cara no chão. Ela se sentia encurralada; esqueceu-se deste precioso detalhe, além de muitos outros citados por Twilight. Sua cor azulada quase tomou um tom mais pálido; ela engoliu seco.

— Isso é verdade, Dashie. — disse Pinkie, sussurrando para sua amiga pégaso — Eu mesma que não entendi quase nada do que Twilight disse, parece ser uma coisa bem séria.

De fato é, Pinkie. — continuou Twilight — Escute, Rainbow. Eu sei que você quer ouvir críticas ao seu respeito; saber o que seus ídolos ou pessoas importantes comentam sobre suas façanhas, mas tens de fazer isso sem prejudicar ninguém e, principalmente, a si mesmo. Não concordo com o seguimento do seu plano para isso e farei o que for preciso para impedi-la. Sinto muito.

Rainbow ficou cabisbaixa; parecia um plano tão bom. E essa unicórnia metida nem para ajudar, só para atrapalhar mais uma vez. Dash se incomodou um pouco com essa confiança de Twilight sobre impedí-la de todas as formas possíveis. Aquela unicórnio pensava fazer isso pelo seu bem, claro, mas também para interrompê-la em sua carreira profissional. Será que ela queria ajudá-la… ou atrasá-la?

Mas seu plano não precisa ser jogado fora. Uma coisa muito mais simples você poderia fazer para ele dar certo, Rainbow.

A voz de Twilight em sua cabeça a fez acordar subitamente de seus pensamentos, chamando a atenção da pégaso azulada. Há um outro caminho que ela poderia seguir em seu plano?

Como é?

Sim, há uma outra forma de você seguir com o plano. Ele é mais seguro e, possivelmente, infalível.

Dash suspeitou, mas resolveu perguntar: — E qual seria? Você… pode me contar?

Claro que posso! Seu plano não é mau, só precisava ser mais simples e mais provável de dar certo. — Twilight soltou uma risadinha, mas Dash respondeu com uma bufada pelas narinas — Pois bem: tudo que você precisa fazer para seguir com seu plano, sem ser algo complexo como mudar de nome e fazer todos os habitantes de Ponyville te chamar por esse novo nome, simplesmente você só tem que desviar sua presença nos acontecidos! Calma, deixe-me explicar melhor: Stubborn não sabe que você é a pégaso que fez os Arco-Íris Sônicos naquelas ocasiões; ele sempre esteve ausente nestes momentos. Ele não sabe que Rainbow Dash é a pégaso e nem sabe que Rainbow Dash esteve presente nessas ocasiões. Logo, não há riscos de ele não deixar de comentar essas façanhas perto de você. Sem falar que nem adiantava mudar seu nome pois na carta da Princesa consta que Rainbow Dash é a Secretária de Segurança na cidade. E, por causa disso, ele sabe que você é a Secretária de Segurança, mas não sabe que você é a pégaso dos Arco-Íris Sônicos”.

Dash analisou bem as palavras da unicórnio e assimilou cada caractere. Ela se sentiu convencida da opinião de Twilight — É, Twilight. Esse seu caminho é bem simples. Devo dizer que me esqueci deste detalhe sobre a carta da Princesa. Que vacilo…

Tudo bem, Dash. Só quero que você continue com seu trabalho e que não se distraia com esses assuntos. Não quero dizer que eles não são importantes, mas… o quê é mais importante neste exato momento?

Rainbow pensou por um tempo, parece que ela entendia o que Twilight queria dizer para ela.

O bem-estar dos pôneis durante o evento.

Sim. Isso mesmo. Não ponha nada em cima além desta missão. Vou desativar o feitiço agora, Stubborn já está começando a diminuir o seu falatório. Estamos de acordo, Rainbow e Pinkie? Posso confiar em vocês?

Pode confiar na gente como um rato que confia no gato em guardar sua toca! — disse Pinkie Pie com o casco na testa, fazendo uma continência.

Rainbow tentou ignorar o comentário da espalhafatosa pônei rosa; ela respondeu Twilight com um aceno com a cabeça — Está certo, Twilight. E… obrigada.

Twilight de longe olhava para a Rainbow Dash. Para sua surpresa, Rainbow estava sorrindo, mais uma vez naquela noite. Twilight a olhava com alegria, um sorriso satisfeito ergueu de sua boca; finalmente aquela unicórnio cor-de-lavanda fez aquela pégaso azulada sorrir. Twilight desativou a magia de seu chifre; bem na hora que o Capitão Stubborn terminara de falar suas últimas palavras.

— … Quem aponta a loucura de outro, acaba sendo o verdadeiro louco por duvidar das capacidades desses e de qualquer indivíduo.

Alguns pôneis não puderam se conter. Apesar de não gostarem da atitude grosseira daquele corcel primeiros minutos que entrou nessa biblioteca, começaram a bater os cascos para o discurso daquele Capitão. Poucos aplaudiam com desgosto; ainda amargurados com as recentes atitudes daquele indivíduo, mas Rarity e Applejack aplaudiram com um certo fervor, pois foram convencidas com aquele discurso dele. Applejack cheirava mentiras a distância e sempre sabe quando algum pônei está dizendo a verdade ou está escondendo-a. Já Rarity suspirava daquele enorme garanhão e seu corpo firme e corpulento, acreditando ainda mais em sua história só com o quê estava vendo diante dela. Até começou a abanar um pouco seu rosto para aliviar um certo calor que subiu.

Twilight deu alguns trotes afrente em direção a Stubborn — Bom, por gentileza, posso dar uma olhada nesse pedaço de lenço? — perguntou ela, já preparando um leve brilho em seu chifre.

O grande corcel ficou um breve momento em silêncio. Twilight apenas ficou esperando ele fazer ou falar alguma resposta. Ele encarou a unicórnia cor-de-lavanda e, em seguida, escorreu os olhos de cima em baixo pelo corpo dela de uma forma maquinária, como se estivesse analisando-a e registrando quaisquer gestos em seus olhos ou expressões em sua face, diretamente para dentro de sua memória. Isso a deixou um pouco desconfortável; um pônei grande como ele a encarar de uma forma tão profunda, mas ao mesmo tempo um tanto irritada por suspeitar de suas ações, mesmo ele sabendo que ela nunca iria desrespeitar ou violar qualquer ordem que as Princesas tenha dado à ela ou qualquer uma de suas fiéis amigas; mas ainda assim ela esperou, comportada.

O grande corcel assentiu levemente com a cabeça e retirou do bolso de seu uniforme um pequeno pedaço quadrado de papel, que estava em branco. Twilight puxou o papel para perto de si com a magia de seu chifre, examinando-o.

— Obviamente está em branco por questão de segurança da Nossa Cuidadosa Princesa. — acrescentou o Capitão. — Possivelmente, seu real conteúdo será revelado no centro dele com a execução do feitiço “Revelador-de- Segredos”. Mas, para não perdemos mais tempo, vou dizer o quê se espera estar escrito nesse lenço: o que contém nele é um símbolo de uma magia de invocação, onde Nossa Respeitosa Princesa inseriu os documentos oficiais meus e de Foreign dentro dele. Para invocar os documentos, precisa usar o feitço “Mat–

— … O feitiço “Materializando Átomos”! É um pouco mais difícil que os feitiços com os quais estou acostumada, mas nada com que eu não possa executar!

Twilight afastou as patas levemente e fechou os olhos para se concentrar. O primeiro feitiço era fichinha; ela já havia executado ele antes, então podia executar novamente. Com uma rápida execução, o pequeno pedaço de papel reluz num tom branco e o símbolo mágico é revelado em seu centro. Possuía uma forma oval com pequenos círculos ao redor; três riscos cruzavam seu corpo de forma aleatória, sem coordenação ou ângulo específico.

Twilight admirou o majestoso símbolo diante dela. Um discreto suor escorreu pela sua testa chifruda, mas ela não deu atenção a esse mero projeto de distração; estava confiante de que conseguirá fazer uma magia de invocação pela primeira vez em sua vida. Fechou os olhos para concentrar-se novamente na execução do próximo encantamento: o feitiço “Materializando Átomos”. O brilho de seu chifre começou devagar. Conforme o tempo avançava, a luz roxa se intensificava, como uma lamparina a óleo ao regular sua iluminação. Esta aumentou ainda mais; ao redor daquela unicórnio, o assoalho estava com uma coloração roxa e sua sombra já estava visível sobre ele. Minúsculas fagulhas saltavam de seu chifre enquanto o símbolo de invocação sobre o papel reluzia ofuscante. A unicórnia roxa torceu um pouco os lábios, aumentando sua concentração.

Do símbolo, um pequeno raio púrpura atravessou o ar a sua frente e emanou um brilho pálido em frente ao rosto de Twilight. Ela não enxergava o brilho por conta de sua concentração contínua, mas podia sentir a luz propagar-se diante de seu rosto; uma sensação morna e delicada.

Alguns pôneis presentes estavam olhando admirados pela impressionante magia que Twilight estava executando. Alguma coisa estava sendo projetada do nada! E diante delas! A Prefeita e a Applejack olhavam maravilhadas; nunca tinham visto nada igual em suas vidas. Rarity não estava tão surpresa, já que ela também era uma unicórnia; ela sabe como é que funciona a magia dos unicórnios e como é tão desgastante fazer mágica desse porte como é para AJ ao cuidar de sua roça, com coices e carregamento de cargas pesadas. O esforço não é físico, mas é mental; precisa-se de muita concentração para executar magias e encantamentos mais complexos como materializar objetos ou viajar no tempo. Pinkie Pie, por outro lado, olhava com extrema admiração; seus olhos azuis brilhavam e seus pêlos rosados se arrepiavam pela incrível visão de uma mágica tão complexa como a de Twilight. Parecia que era a mágica mais estupenda que Twilight havia feito em sua vida. A questão é que Pinkie Pie ficava emocionada simplesmente com qualquer coisa. Uma vez, há algumas semanas atrás, ela estava torcendo de uma forma bem espalhafatosa que as flores dos vasos do Canto Cubo-de-Acúcar crescessem mais rápido que a grama de seu próprio jardim. Ela achava que, assim, fazia as flores se sentirem mais orgulhosas e mais confiantes em si mesmas que, consequentemente, floresciam mais bonitas e coloridas.

O brilho pálido diante de Twilight começou a tomar forma de dois retângulos, mas que se perdiam conforme a luz diante dela pulsava e ia se enfraquecendo aos poucos. As faíscas mágicas de seu chifre estavam fervilhando e piscavam preocupantemente, pois Twilight estava perdendo sua concentração. O suor frio escorria ainda mais em seu rosto roxo e sua expressão tornou-se mais tensa e esforçada. Seus joelhos frontais dobraram levemente com o cansaço e sua cabeça tornara-se estranhamente mais pesada. O feitiço estava sendo complicado demais para ela; sua energia estava se extinguindo e ela precisava de mais magia do que aquele pequenino corpo poderia oferecer. Isso começou preocupar a jovem potra cor-de-lavanda. Ela tinha certeza de que poderia efetuar esse feitiço com maestria, ela tinha bastante confiança. Afinal, foi para isso que ela estudou. Ela tinha a ambição de ser a unicórnio mais habilidosa em magia, queria que seu talento fosse reconhecível por outros pôneis; afinal, seu talento especial é, deveras, magia. Mas, ainda assim, tem dificuldades para executar um complicado feitiço de materialização como esse. Como ela poderia explicar para sua tutora caso falhasse? Sua mestra confiou em sua habilidade quando inseriu esses documentos neste pedaço de pano; ela sabia que Twilight conseguiria executar esse feitiço.

Ela não podia falhar; ela tinha que conseguir.

A unicórnio cor-de-lavanda ergueu um pouco a cabeça, suas sobrancelhas cerraram violentamente e seus dentes rangiam com força. Seu chifre voltou a emitir a luz mágica, só que mais forte do que antes. O brilho pálido diante dela intensificou-se numa coloração roxa, formando novamente as duas figuras geométricas retangulares. As pôneis em volta dela ficaram visivelmente surpresas com a mudança de cor.

Num pequeno flash sonoro, dois pedaços médios de papel planaram da luz pálida e pousaram levemente no chão. As pôneis no recinto aplaudiram em êxtase, maravilhadas pela magia espetacular daquela unicórnio cor-de-lavanda. Twilight olhou ao seu redor com as pálpebras quase caídas para suas companheiras; havia um sorriso cansado e algumas gotas de suor em seu rosto. Mas as luzes das lamparinas estavam estranhamente se apagando; em sua visão, aos poucos, ela estava entrando para a escuridão e sentia o chão mole e distorcido. Suas últimas energias em suas pernas se extinguiram, forçando seu exausto corpo a entrar em colapso com o chão de madeira. As pôneis na mesma hora cessaram seus aplausos, mas suas reações de socorro eram muito lentas e suas distâncias não ajudavam a segurar aquela unicórnio em queda. Ela sentiu seu corpo em ondas, como se tivesse se chocado com alguma coisa, mas não sentiu nada; nem dor nem mesmo o toque frio de madeira sólida. A escuridão dominou seus olhos e sua mente. As vozes se calaram e os rostos preocupados se perderam. De todos os sentidos que ainda possuía, podia sentir um delicioso aroma de frutas cítricas.

Fim do Capítulo Cinco

Sem palavras para descrever – Livro I – Cap.4 – Convidado ou intruso?

Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

Capítulo 8 – Amanhã

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

—–

Equestria — Ponyville — Interior da Biblioteca, 13 de Fevereiro, 20:28.

A porta fechou com a ajuda do casco da Applejack. Foreign estava uns passos a frente dela e da porta, contemplando o ambiente bibliotecário que havia adentrado. A sala era bem espaçosa, com várias estantes cobrindo as paredes até o teto. Nessas estantes, livros de vários tipos, pergaminhos enrolados em pilhas, folhas abarrotadas e espremidas ocupavam os espaços vazios das estantes. A luz dentro do cômodo, expandida por lamparinas a óleo, não era fraca; dava para enxergar o suficiente no cômodo, apesar de ser noite. Uma mesa bem comprida centrava na sala, ocupada com cadeiras vazias; havia uns quitutes e beliscos para as visitas, alguns papéis espalhados sobre a mesa com um mapa bem grande de Ponyville no centro, na visão de todos os participantes. Algumas velas, prontas para serem acendidas, estavam sobre o mapa para fixá-lo no local, impedindo de ser movido por forças naturais de fora ou por distorções em sua massa após dias e dias enrolado. A Prefeita estava de pé com os cascos posteriores em cima de alguns papéis espalhados; ela os estava lendo e separando-os em pequenas pilhas.

Foreign parou por um instante para olhar bem o local. O lugar era interessante de se perseguir com os olhos nos mínimos detalhes.

Spike veio com uma bandeja cheio de brigadeiros para perto de Foreign — “Está servido, Sr. Eye?”

— “Ora, não vejo porquê nã–”

— “SPIKE!” — a voz da Twilight veio de uma batente que dava acesso a um corredor espaçoso. Spike tremeu um pouco a bandeja pela vibração que sentiu do grito de sua chefe unicórnia — “Spike! Não consigo achar os fósforos! Venha cá um minuto que quero lhe usar!”

— “Bah, ela simplesmente precisa de mim para tudo!” — Spike largou a bandeja na ponta da mesa comprida e foi ao encontro de Twilight bufando pelas narinas. — “Se eu cobrasse cada vez que ela me chamasse, eu já seria dono de Equestria inteira!”

Spike se aproximou no batente para o corredor quando, ao virar à esquerda, deu de cara com uma bela unicórnia pálida de crina púrpura, Rarity, já recuperada do recente desmaio.

O pequeno dragão não pôde conter sua entonação — “Rarity! Você…!” — segurou um pouco a voz e limpou a garganta com um espigarro abafado — “Você… se sente melhor? Está tudo bem?”

Ela estava aparentemente normal; sua crina estava ajeitada — ela rapidamente a havia penteado ao acordar, horrorizada com seu estado —  e sua compostura e elegância continuava intacta. Sua pelagem esclerótica ainda cintilava em atraência e cuidado físico, não possuía nenhuma anomalia ou arrepio em seus pêlos.

— “Ora, mas é claro, Spike!” — disse Rarity num tom alegre e despreocupado — “Foi só um pequeno imprevisto! Nada muito sério. A pressão subiu significativamente para me deixar tonta, mas me sinto melhor, sim! Obrigada.”

— “Ufa, que bom!” — o pequeno dragão podia suspirar aliviado.

— “Awn, Spikezinho! Não precisa ficar tão preocupado!” — Rarity apertou as bochechas de Spike delicadamente, mas o suficiente para fazer um biquinho em sua boca. — “Você é um fofo! Tão atencioso! Por isso você é o meu dragãozinho favorito!”

Spike ficou vermelho igual um pimentão; suas bochechas queimavam, atingindo um tom levemente rosa, — “E-eu?! Fofo?! F-favorito?! É! Digo…! Não! Eu… Hã… V-vou… Vou ver o quê a Twilight precisa de mim! Com licença!”

E saiu em disparada por entre a batente do cômodo, indo direto pela sua esquerda para a outra sala atrás de Rarity. Podia-se ouvir o dragãozinho rir de emoção em um eco durante sua passagem pelo corredor. Rarity deu uma risadinha.

A unicórnia branca girou sua cabeça com o balançar de sua crina encaracolada, num estilo harmonioso e atraente; digno de observar e apreciar a beleza e suavidez de seus longos fios purpuramente em espirais. Seus olhos diamantes fitaram Foreign, no qual ela trotou lentamente elegante em direção a ele; seus trotes macios e abafados, firmes para tomar todo o cuidado em cada passo para que não percam sua harmonia.

— “Perdão pelo meu recém descuido de minhas emoções fragilmente descontraídas, meu jovem senhor…” — disse Rarity um pouco constrangida — “Uma dama deveria saber como lidar de seu estado emocional nas horas mais improváveis e inesperadas como essa.”

“Que é isso, Srta. Rarity.” — respondeu Foreign Eye. — “Eu é que devo desculpas à senhorita. Não esperava que essas novidades iriam afetá-la tanto… Eu deveria ter sido mais cuidadoso com–”

Rarity ergueu o casco, interrompendo — “Oh, não! Você fez muito bem, meu caro senhor! E agradeço profundamente por isso. Essas novidades significam muito para mim e para minha carreira como estilista.”

— “Ah, é mesmo?” — Se fazendo de bobo para descontrair.

— “Ora, mas é claro!” — Rarity agitou sua crina e apoiou seu casco esquerdo sobre a testa — “Não sabe o quão difícil é ser reconhecida pelo que gosta ou mesmo ama fazer! Ter seu trabalho valorizado por outros pôneis é o sonho de qualquer artista! Horas de dedicação a finco super valem a pena quando você receber elogios de seus clientes.”

— “Hm, posso entender como é isso…”

Rarity abaixou ligeiramente seu casco de sua testa para seus lábios e esbugalhou os olhos, perplexa consigo mesma — “Por Celestia! Eu terrivelmente esqueci que você também é um artista, sendo um escritor! Deve ter passado pela mesmíssima coisa com seus livros! Oh, perdões por não ter percebido isso antes! Como eu sou lerda!”

— “Não, Srta. Rarity!” — disse ele já sacudindo os cascos desesperadamente — “Está tudo bem! Não se chame de lerda, por favor!”

— “Oh, perdões pelo meu descontrole emocional. Parece que ainda estou com sentimentos à flor da pele! Preciso de um tempinho para relaxar. Com licença, Sr. Eye.” — Rarity assentiu cordialmente com a cabeça e dirigiu-se para a cadeira na mesa central, perto da Prefeita, que lia e organizava os papéis em cima da mesma. Ambas se cumprimentaram brevemente; Rarity acionou sua magia para puxar uma cadeira e sentou-se sobre ela.

O pônei elegante suspirou aliviado, porém os olhos de Foreign ainda perambulavam pelo recinto arbóreo repleto de documentos. Ele xeretava alguns títulos de livros que podiam ser vistos à distância, apesar das letras pequenas e finas. Alguns livros não tinham o título em sua borda; seus nomes estavam ocultos e só podiam ser lidos pela capa da frente. Linhas em espirais e onduladas dançavam pelas bordas das estantes. Algumas terminavam com algumas flores em suas pontas, outras com alguns insetos como abelhas ou borboletas, ou mesmo com frutas como maçãs ou pêras.

Subitamente, as luzes se apagaram. O cômodo ficou em um breu profundo; não se enxergava nada e a noite que entrava pela janela não ajudava a clarear a situação. Rarity soltou um grito fino, pois se assustou um pouco. Ouvia-se alguns batuques e objetos sendo movidos no meio da escuridão.

Foreign não sabia para onde ir, mas alguma coisa o segurou pelo ombro.  No mesmo instante, ele ficou imóvel; até segurou a respiração. Mas a tensão em seu corpo arriou ao sentir um reconhecível aroma de maçãs.

Mais barulhos surgiram na escuridão. Esses eram mais esquisitos; pareciam que luvas de borracha se esfregavam entre si ou papéis se amaçavam num abraço.

— “O que em nome de Equestria está acontecendo!?” — indagou a voz de Rarity no meio do escuro, com um esperado tom de pânico em sua voz.

As lamparinas de óleo voltaram a iluminar o cômodo. Os olhos de todos doeram um pouco, pois estavam já acostumados com a recente escuridão. Foreign, ao abrir os olhos novamente, encontrou uma língua-de-sogra vermelha acertando-o bem em seu rosto.

— “SURPRESA!” — uma pônei espalhafatosamente rosa-claro apareceu em sua frente com um chapéu de festas em sua cabeça. Ela agitava os braços e pulava numa frenetização impressionante. Foreign olhava ao redor todo confuso e começou a perceber várias diferenças no cômodo. Havia um monte de papéizinhos picotados espalhados pelo chão, balões estavam amarrados nas cadeiras — alguns estavam espalhados pelo chão e outros cutucavam o teto — a mesa central estava repleta de doces, bolinhos, muffins e sucos. Todos os pôneis presentes à mesa também estavam meio perdidos e chapéus de festa foram colocados em suas cabeças sem eles perceberem. Foreign só agora se deu conta que havia um chapéu de papelão colorido amarrado em sua cabeça.

— “Mas como–!?” — foi só o que ele pôde dizer até ser interrompido por uma canção.

“Hey, hey, hey, como vai você?

Hey, hey, hey, prazer em te conhecer!

Por aqui e aí, eu nunca o vi…

Deve ser porque és novo aqui!

Surpresa pra você! Surpresa para mim!

Surpresa à volver! Surpresa à jasmim!

Hey, hey, hey, como vai você?

Hey, hey, hey, prazer em te conhecer!

Apesar dos enfeites, doces e bartender,

Seu aniversário, hoje, não é!

Surpresa pra você! Surpresa para mim!

Surpresa à volver! Surpresa à jasmim!

Hey, hey, hey, como vai você!

Hey, hey, hey, prazer em te conhecer!

Se você fosse um bolinho eu te comeria,

Mas seu eu o fizesse, o seu nome, não me diria!

Surpresa pra você! Surpresa para mim!

Acabaram minhas rimas, então diga seu nome para mim!”

 E ela finalizou sua canção com uma bombinha que estourou em seu casco ao puxar uma cordinha fina dele. Mais papéis picados e algumas serpentinas voaram em volta dela e do corcel embasbacado.

Foreign ainda estava confuso com aquela situação toda. Estava meio perplexo do ambiente mudar drasticamente diante de seus olhos, dessa pônei cor-de-rosa aparecer do nada com uma festa que parecia ser de alguma forma para a sua chegada e ao ver a quantidade enorme de balões de borracha urubuzando pelo cômodo, fitando-o com um olhar ameaçador; só esperando uma boa oportunidade para surpreendê-lo em um estouro de seus corpos borrachudos. Seus lábios mexiam um pouco, mas não saia nenhuma palavra deles; algumas gotículas de suor frio emergiam de sua testa por algum motivo. A pônei de crina espalhafatosamente rosa-choque o encarava com um sorriso que ia de orelha a orelha e seus olhos brilhavam com ansiedade.

Applejack, que estava ao lado do corcel, respondeu-a em seu lugar — “O nómi deli é Fôraiguinê Aiê, Pinquí Pái. Eli é novo por essas banda i vêio para participá da reunião di hoji.”

— “Nossa, muito prazer em conhecê-lo, Sr. Eye! Espero que não tenha se importado em dar uma festa pela sua chegada! Eu sei que não é o seu aniversário, mas… Peraí, eu não sei se é seu aniversário! Você não me disse ainda! Será que é hoje mesmo? Nossa, nossa! Então teremos que dar duas festas para você! Parabéns pelo seu aniversário, Sr. Eye!” — Pinkie Pie deu um pulo em direção ao corcel e o abraçou rapidamente, fazendo-o cambalear um pouco para trás — “Precisamos colocar velas no bolo! Quantos anos você faz hoje? Não, não! Não me conta! É mais divertido quando se adivinha! Eu diria uns… nove? Não! Onze? Não! Velho demais! Uns dez anos, então!”

— “Num pêrcisa nada disso, Pinquí.” — disse Applejack, gesticulando com o casco, — “Hoji num é aniversário deli, num. Eli só vêio prucauso da reunião. A festa nóis pódi dá aminhã, quando todos os pônei estiverem já dispérto!”

—  “Ahh…. então tá bom! Amanhã daremos uma grande, mega, ultra festa para você! Convidarei todos os pôneis de Ponyville para te desejar um ótimo “Bem-Vindo”! Será o maior barato!” — A pônei rosa virou as costas e saiu em direção ao seu lugar na mesa central, saltitando e cantarolando alegremente.

Applejack, ainda ao lado de Foreign, apalpou seu ombro gentilmente — “Num percisa ficá avexado, Nhô Aiê. Pinquí Pái é ansim mêrmo. Mêi… energética, mas uma pônei bem amigáver.”

Foreign limpou a garganta e assentiu com a cabeça, confirmando. O pônei elegante pretendia limpar sua testa úmida com o lenço no seu bolso do paletó, mas lembrou que tinha oferecido à Prefeita, qual ficou com ela. Deixando pra lá, contentou-se a controlar o nervosismo e tentar relaxar um pouco no meio daquelas borrachas urlulantes cheias de ar e gás.

A pônei laranja descansou o casco ao chão e lembrou — “Ah! I pódi relaxa! Sinta-si como si estivesse nim casa!”

Foreign tirou o chapéu de festa e, novamente, assentiu com a cabeça — “Está certo. Sem problemas, Sinhá Applejack…”

Ambos trocaram sorrisos e Applejack foi na frente para puxar uma cadeira para ela. Twilight apareceu da batente de um corredor, levitando uma caixa de fósforos com sua magia, ao lado de seu fiel ajudante, Spike, que estava seguindo-a logo atrás.

— “Achei a caixa de fósforos!” — exclamou Twilight, sacudindo a caixinha no ar.

— “É… VOCÊ achou.” — indagou Spike ao intonar a voz, cruzando os bracinhos.

Twilight rolou um pouco os olhos e respondeu num tom alegre — “Tá bom, tá bom. Obrigada, Spike, por seu fabuloso auxílio em me ajudar a encontrar os fósforos.”

Spike encheu o peito, confiante, — “Eu sei, eu sei. Você estaria perdida sem mim.”

— “Tá, Spike. Chega de se encher.” — Twilight acariciou levemente sua cabeça — “Não quero que você acabe estourando sem motivos.”

O pequeno dragão coçou levemente sua nuca, descontraindo-se um pouco. Twilight levantou um sorriso e aconchegou Spike em seu peito para um abraço amigável. Durante o abraço, Spike bocejou, seus olhos já estavam caindo aos poucos e ele fazia o que pôde para mantê-los ainda abertos.

— “Acho que vou puxar a carroça agora…” — disse ele ao esfregar os olhos, cansado.

— “Pode ir, Spike. Eu posso cuidar de mim mesma por agora. Não se preocupe.”

Spike retribuiu um abraço de despedida em Twilight e acenou para todos na sala. Todos responderam com um “boa noite” ao dragãozinho. Twilight, ainda levitando a caixa de fósforos com sua magia, virou-se para adentrar-se a sala quando percebeu todos os enfeites que não estavam ali quando ela tinha saído do cômodo.

— “Mas o que– O que aconteceu?!” — perguntou ela, olhando ao redor, embasbacada.

— “Pinkie Pie aconteceu…” — Rarity apontou para a ponêi rosa que sentava na ponta direita da mesa. A mesma acenava com um sorriso enorme no rosto.

— “Ah… isso explica tudo, sem dúvida.” — Twilight, ignorando todos papéis picotados e serpentinas espalhadas pelo chão, trotou para perto da mesa e deixou a caixa perto das velas apagadas, empurrando alguns balões no caminho.

— “Bom, acho que podemos começar com a reunião. Podem começar a se sentar…”

Na mesma hora, todos se sentaram e confirmaram suas ações com um aceno com a cabeça. Twilight estava na ponta da mesa, com a Prefeita sentada ao seu lado esquerdo e Applejack sentada a sua direita. Pinkie Pie cantarolava com a boca fechada ao lado de Rarity, sendo que a mesma sentava ao lado de Applejack. A unicórnia roxa olhou para todos e viu que Foreign ainda estava de pé, perto da porta.

Twilight apontou o casco para a cadeira vazia mais próxima para ele — “Por favor, Sr. Eye, sente-se.”

Foreign virou o rosto para a Twilight e viu a cadeira vazia ao seguir seu casco erguido. Ele começou a trotar em direção a ela, mas foi surpreendido por uma voz ameaçadora por trás dele.

 — “Apresente seus documentos oficiais, senhor”.

Foreign se sobressaltou num susto e virou seu corpo bruscamente. Diante de seu rosto, uma crina rebelde e multicolorida invadiu seu campo de visão. Ao abaixar os olhos, encontrou um rosto azulado de uma jovem pégaso. Porém esse rosto o encarava com seus olhos púrpuras de uma forma ameaçadora; com sobrancelhas cerradas e lábios retos. Seu corpo fino e forte inclinava superiormente para frente, acrescentando sua postura selvagem contra a suspeita visita.

Foreign deu um curto passo para trás, tentando se sentir um pouco mais confortável. A pégaso azulada não se mexeu e ainda esperava pela resposta do pônei visitante.

— “Rainbow Dash.” — Twilight alavancou seu tom, olhando para a pégaso de longe — “O que está fazendo?”

Rainbow Dash não tirou os olhos do corcel, e respondeu em uma voz seca — “Apenas o meu trabalho, caso não tenha percebido.”

— “E o seu trabalho, por acaso, é xeretar os documentos pessoais dos convidados?”

— “Até que ele não me mostre seus documentos oficiais, ele não é um convidado. E, sim, um intruso nessa reunião.”

Twilight levantou-se da cadeira bruscamente e bradou — “Como é que é?! O quê te levou a pensar em um absurdo desse?”

— “Todos os pôneis presentes nesta reunião” — continuou a pégaso, não se intimidando com a desinteressante reação da unicórnia roxa — “possuem seus próprios documentos oficiais entregues pelas Princesas: Celestia e Luna, os quais lhe dão acesso a locais restritos do evento. Eles também indicam quais pôneis fazem parte da equipe que coordenará todo o evento em Ponyville.”

Rainbow pousou o casco em seu peito — “É meu trabalho como Secretária de Segurança de Ponyville, o bem-estar de todos os pôneis presentes e ausentes. Por isso mesmo, deve apresentar seus documentos oficiais para mim, se quiser participar desta reunião.”

Twilight não quis dizer nada. Estranhamente, ela não podia discordar da pégaso azulada. Mas suas pupilas púrpuras não se desviaram do rosto cerúleo de Rainbow.

— “Se eu estiver enganada quanto a essa observação, ergam o casco aqueles que não possuem o tal documento.”

Houve um curto silêncio no cômodo, Foreign olhava um pouco em volta, aparentemente perdido. Twilight olhava para Rainbow Dash com as sobrancelhas cerradas de raiva. Os pôneis presentes não fizeram nada, assim adivinhou a pégaso. Nenhum pônei presente no cômodo ergueu um casco sequer, confirmando que todos possuíam esse documento oficial.

— “Se você fosse mesmo um convidado para essa reunião, senhor…” — continuou Rainbow Dash, chamando a atenção de Foreign. — “Deveria ter esses documentos em cascos. Se não for pedir demais, gostaria de vê-los.”

Rainbow estendeu o casco para o Foreign Eye, sendo que o mesmo olhou por uns breves segundos. Ele sinceramente não estava sabendo desses documentos oficiais que aquela pégaso indagava. Princesa Celestia não comentou nada sobre isso quando conversou com ela em seu Castelo. Será que ela havia esquecido? Mas por que ela esqueceu? Algo perturbava a cabeça da Princesa para se esquecer de um detalhe importante como esse? Ele perguntava a si mesmo em seus pensamentos. A pégaso de crina arco-íris ainda o encarava com uma expressão séria.

Foreign só pôde recuar os olhos, decepcionado. Twilight percebeu isso; assim como Rainbow Dash.

— “Perdão, Senhorita. Não possuo esses documentos que requere. A Princesa Celestia não me–”

Rainbow Dash o cortou numa frase ríspida e dura. — “Se o senhor não possui os documentos, peço que se retire do recinto imediatamente.”

Twilight na mesma hora saiu de sua cadeira e trotou rapidamente para o lado de Foreign, chutando alguns balões coloridos no caminho. — “Sr. Eye! Tem certeza de que o documento não está com você? Olhou direito? Procure melhor em seu terno!”

A unicórnia cor-de-lavanda ia ela mesma procurar pelos documentos em seus bolsos quando Foreign a impediu levantando seu casco para ela.

— “Não adianta, Srta. Sparkle. Os documentos não estão comigo. Se estivessem, eu os teria lembrado e entregue imediatamente para a Srta. Dash.”

— “Mas não pode ser verdade! Você é o Conselheiro e Diplomata Oficial das Terras Férteis! Deveria ter esses documentos! E se você não estivesse com esses documentos, ela deveria ter, ao menos, reportado alguma coisa para mim!” — Twlight, de repente, sentiu uma pontada num canto esquecido de sua memória.

Consequência disso, lembrou-se do Spike e exclamou por ele — “Spike! Spike!”

Alguns breves segundos, o pequeno dragãozinho apareceu correndo ao cômodo com a boca cheia de uma espuma branca; estava escovando os dentes antes de se deitar. Seus olhos esmeraldas voaram pelo cômodo, tentando compreender o que estava acontecendo, pelo suspeitoso desespero de Twilight.

— “U qui fffoi, Tchualaitchi?! Qualhé u inssfêndio?” — disse Spike com a escova entre as bochechas.

— “Qual foi a última carta enviada pela Princesa essa semana? Você sabe me dizer?”

Spike suspirou aliviadamente pelas narinas. Retirou a escova da boca, ainda com espumas ao redor de sua boca — “Carta da Princesa? Hm… Para falar a verdade, ela enviou uma carta para a gente esta tarde. Ela está aqui nesta gaveta.”

As pernas curtas do pequeno dragão agiram para o criado mudo perto de algumas estantes. Ele abriu a primeira gaveta com a mão livre e tirou um rolo de pergaminho sem o selo real da Princesa. Twilight acionou sua magia num brilho em seu chifre e levitou o pergaminho para perto dela. Ao desenrolar o pergaminho, sua expressão mudou drasticamente.

— “Mas, Spike! Ele está em branco!” — a unicórnia olhava para seu fiel assistente, atônica.

— “Foi isso que achei estranho. Não tinha nada escrito nele. Achei melhor guardá-lo para você dar uma olhada mais tarde e, talvez, descobrir alguma coisa.”

Twilight não estava entendendo mais nada. — “Isso não faz nenhum sentido! Por que a Princesa me enviaria uma carta em branco? E se for algo importante?! Poderia ter sido o documento oficial de Foreign, falando de sua presença na reunião e–”

— “Sinto muito, Twilight.” — disse Rainbow Dash. — “Sr. Eye. Por favor, peço que se retire.”

— “Espere, Rainbow Dash! Não sabemos ainda se isso–”

— “Perdão, Twilight, querida.” — agora Rarity se pronunciava, erguendo o casco. — “Mas sinto dizer que concordo com a Rainbow Dash.”

A unicórnia roxa parou e olhou surpresa para a pálida unicórnia sentada a mesa.

— “Não me leve a mal, Twilight! Nem o senhor, Sr. Eye.” — acrescentou Rarity, imediatamente na defensiva. — “Adoraria que o senhor estivesse conosco em nossa reunião, eu acredito que você seja um amor de pônei. Mas terei que acatar com as palavras da Rainbow. Ela está certa. Está no protocolo quando aceitamos esses cargos.”

— “Mas, Rarity…”

— “Eu tamém caicordo cum a Reinbôu.” — entrou Applejack no meio. — “Discurpa, Tualáiti. Már nóis num podêmo contradizê-la. Ocê mêrmo apoiô as regra di segurança que Reinbôu estabeleceu im nossa equipe. Ninguém recramô, nem nada. Num pôdemo vortá atráis para rêformulá ou fazê excêção.”

— “Sinto dizer que também concordo, Srta. Sparkle.” — comentou a Prefeita por último.

— “Pôxa, eu já estava gostando do Sr. Eye! Queria que ele ficasse mais um pouco…” — disse Pinkie Pie, tristemente.

— “Todos já deram seu veredicto.” — disse Rainbow Dash, parecendo que estava gostando de ver que aquela unicórnia nem sempre está certa, como sempre era. — “Não há mais nada a ser dito. Sr. Eye, por favor–”

— “Ele não vai sair daqui!” — Twilight deu com o casco no chão, ela já estava ficando impaciente. — “Princesa Celestia o enviou para cá por algum motivo! Não veem? Por que ele viria aqui, se não fosse por isso?!”

— “Para se infiltrar, dando uma de bonzinho… — Rainbow Dash olhou de uma forma suspeita para Foreign, o escaneando com seus olhos magenta. — “Para sabotar tudo, criar uma confusão. Dar uma de dócil é sempre fácil…”

— “Ora, por favor, Rainbow!” — Twilight trotou para perto dela, com um tom irônico em sua voz. — “Agora ele virou algum tipo de terrorista? Isso é apenas um evento musical! Não uma Base Militar!”

— “Não me importa. Ele não possui nenhum documento oficial para essa reunião. Até que se tenha em cascos algo que comprove que ele foi convidado pelas Princesas nesta reunião, ele é um intruso.”

Twilight não estava suportando a teimosia de Rainbow Dash. Estava roçando os dentes de nervosismo, enquanto a pégaso azulada a encarava com um olhar sério em uma postura dura. Applejack coçava a nuca desconfortavelmente com a nova situação entre elas duas. Rarity olhava para elas sem ideia do que fazer, ambas não iriam ceder de suas propostas e ela não podia escolher apenas uma para alegria de todos. A Prefeita apenas enxugava as pequenas linhas de suor de sua testa com o lenço que ela ganhou de Foreign.

O silêncio predominava no recinto por longos segundos. Foreign estava entre as duas pôneis que se encaravam conflitantemente. Ele esperava uma oportunidade para poder expressar sua opinião, mas o conflito entre essas duas era bastante delicado.

— “Ei, vocês duas!”  — Uma jovem pônei rosa sorridente surgiu do nada entre Twilgiht e Rainbow Dash, dando-as um grande abraço entre seus pescoços. — “Eu acabei de ter uma GRANDE ideia! Por que não perguntamos a opinião do Eyezinho? Ele deve estar se coçando para poder dizer alguma coisa!”

Essa pônei simplesmente leu seus pensamentos; Foreign até olhou para ela, perplexo. Toda a atenção voltou-se para o suspeito convidado da casa. Todos queriam ouvir a opinião de Foreign para a recente discussão, ele havia ficado quieto por um longo tempo enquanto desenrolava o atrito entre Twilight e Rainbow Dash.

As duas respiraram fundo e relaxaram-se após o abraço de Pinkie, que se afastou delas com um sorriso dental largo em suas bochechas rosadas. Twilight foi a primeira a perguntar:

— “Sr. Eye. Desculpe pelo que aconteceu, mas será que o senhor tem algo há dizer quanto a isso?”

O grande corcel olhou para Twilight com um olhar neutro. A unicórnia roxa tinha uma expressão triste em seus olhos e lábios. Suas orelhas estavam levemente abaixadas, meio ressentida com o que estará por vir da situação atual. Ele não podia mentir para ela, sua saída daquele local era iminente. Ele não tinha os documentos e apenas suas palavras que conversara com as Princesas não valiam para a pégaso azulada, que o encarava desconfortavelmente. As sobrancelhas daquela pégaso estavam cerradas e suas pálpebras um tanto entreabertas, desconfiada. Mas sua postura não relaxara, seus cascos estavam firmes no chão e suas orelhas estavam retas para ele, como duas lanças afiadas apontando diretamente para o seu rosto. De certa forma, aquela pégaso o faz lembrar de alguém que conhecera no Castelo das Princesas…

Foreign suspirou longamente antes de começar a expressar sua opinião. Ele mexeu levemente os lábios para dizer as primeiras sílabas quando batidas pesadas em uma porta gritou no quarto, fazendo um corte profundo nas futuras palavras que Foreign iria pronunciar. Todos no cômodo olharam bruscamente para a única porta de entrada e saída da biblioteca.

Por alguns breves segundos, os pôneis no recinto fitaram os olhos na porta desconfiados. Novamente, o silêncio foi quebrado pela entidade do lado de fora, com batidas mais fortes e num berro nervoso.

— “Vão demorar muito ou o quê?!” — a voz era rouca e um tanto grossa. Pelo visto, a rua ainda não estava vazia de pôneis.

Foreign percebeu na hora de quem era aquela voz. “Ai, por Celestia… Ele está aqui.”, pensou ele.

— “Eu acho que tem algum pônei na porta!” — indagou Pinkie Pie estranhamente de volta ao seu lugar na mesa. Todos rolaram os olhos, “não diga…!”.

Rainbow Dash apontou o casco para Foreign bruscamente, qual chamou a atenção dele. — “Não ouse fazer alguma gracinha, Sr. Mary Sue. Essa conversa ainda não acabou.” — e virou seu flanco em direção a porta, deixando o intruso com a unicórnia de expressão roxamente irritada.

— “Bom…” — Spike se pronunciou de repente no meio da multidão; alguns até se esqueceram que ele ainda estava ali. — “Acho que meu trabalho acabou, novamente. Uaahh! Vou terminar de escovar os dentes e cairei na cama.” — e o pequeno dragão andou em passos pesados para o quarto e recomeçou a escovar os dentes.

Rainbow Dash aproximou-se da porta e enrolou seu casco sobre a maçaneta da porta. Com um giro firme, abriu a porta horizontalmente, deixando uma leve brisa fria da noite passar por entre sua crina rebelde multicolorida. Os pôneis logo atrás dela inclinaram suas cabeças, no intuito de tentar enxergar quem era o indivíduo qual Rainbow Dash estava abrindo a porta. Rainbow, ao erguer os olhos, encontra em sua frente um corcel um pouco alto, mas de aparência robusta. Ele tinha uma pelagem marrom claro, porém possuía manchas levemente mais escuras em algumas partes do corpo. Sua crina negra como carvão quase escondia sua boina preta sobre sua cabeça, avistada apenas por um pequeno emblema dourado circular. Seu uniforme era escuro, invísivel no meio da noite, cheio de bolsos e insígnias de várias formas e cores pendurados. Comparado a Foreign — que já é grande dentre as pôneis presentes — , teria que erguer a cabeça um pouco mais para encarar esse corcel de frente.

— “Sim…” — pensou Foreign, nervoso — “É ele.”

Fim do Capítulo Sete

Sem palavras para descrever – Livro I – Cap.3 – Desinformado e Desinteressado

Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

Capítulo 8 – Amanhã

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

—–

Equestria – Ponyville, 13 de Fevereiro, 20:12.

“F-Foreign… Eye?!” — repetiu Twilight Sparkle, ainda não acreditando no que estava acontecendo bem a sua frente.

Twilight estava em frente a sua casa, a Biblioteca, em Ponyville. Dentro da biblioteca, estava ocorrendo uma reunião para o Grande Evento que acontecerá nos próximos dias. Cada dia está contado, tudo precisa estar nos conformes. Esse é o trabalho dela, organizar tudo. Mas será que ela dará conta de tudo sozinha?

No momento, ela está parada diante do recém-visitante de sua humilde moradia, Foreign Eye.

— “Peraí!” — Twilight ergueu o casco, — “Foreign Eye, Foreign Eye?! O Foreign Eye?”

— “Depende… Estamos falando do mesmo pônei?” — o pônei de terno tenta ser amigável com uma piada simpática, mas Twilight está emocionada demais para acompanhar sua piadinha.

— “Ai, minha nossa, minha nossa! É você mesmo!” — Twilight já pulava de emoção ao redor dele, — “Não acredito que estou falando com o senhor neste exato momento! Sou sua maior fã! Li e reli todos os seus livros!”

— “Sério? Você leu meus livros?” — obviamente se fazendo de bobo.

— “SIM!” — Twilight deu um passo a frente, seu sorriso ia de orelha a orelha, — ““As Milhas de Clousdale”, “Appleloosa É Logo Ali Adiante”, “Rio Grande e Sulista”, “Terras Férteis Para Lá de Absurdas!”, TODOS ELES! São simplesmente geniais! Você viajou para tantos lugares! Conheceu tantas culturas! Falou com milhares de pôneis e criaturas místicas! Ser o Conselheiro e Diplomata oficial do Reino das Terras Férteis em Canterlot não é para qualquer um! É um cargo respeitadíssimo e de alta consagração!”

— “Ah, é mesmo? Por que você acha isso?” — ele se mostrou surpreso pelo último comentário acrescentado pela unicórnio cor de lavanda.

Foreign dificilmente encontrava pôneis que leram dois ou mais de seus vários livros publicados. Cada livro representava um lugar diferente, uma cultura diferente, pôneis diferentes e, principalmente, opiniões diferentes. Não eram abrangentes, eram mais específicos e atraía gostos e interesses de diferentes indivíduos. Essa unicórnio roxa demonstrou ser a primeira de raras fãs a ler todos os seus livros de uma vez. É por causa dessa experiência de vida que Foreign resolveu implantar nesses livros. Pôneis de qualquer idade poderiam aprender e vivenciar o que ele absorveu durante sua vida de viagens e descobrimentos. Para terem uma visão mais aberta e sonhadora do mundo enorme e ainda misterioso que reservava para eles, um dia, explorarem por si só.

Com isso, figuras importantes de sua cidade natal o consagraram como Conselheiro e Diplomata Oficial do reino em que nasceu, o Reino das Terras Férteis. Seu cargo era dificilmente discutido por entre seus fãs; eles existiam apenas para discutir o conteúdo daqueles textos. Seu título era apenas para negócios, não havia necessidade de discuti-lo em uma conversa amigável ou em um debate entre jovens fanáticos por suas obras.

Essa pônei era, deveras, interessante.

— “Por que eu acho isso?!” — Twilight encarou-o, incrédula. — “Simplesmente porque sim! Todo dia você tem que viajar de cidade em cidade para participar de reuniões e eventos cerimoniais, reuniões com grandes políticos e outros diplomatas, pôneis famosos. Nossa! São tantos pôneis e criaturas que você deve ter conhecido ao longo da vida! Posso ver isso nos livros que escreveu! Deve ser impressionante conhecer tantos pôneis em vários lugares!”

— “É… e deixar para trás tantos rostos…” — Murmurou Foreign, com uma expressão chamativa de tristeza.

— “Heim? Como?” — Twilight se virou para Foreign, preocupada com a súbita mudança de tom do pônei de terno.

Foreign Eye limpou a garganta, tentando disfarçar, — “Hã… Digo… A-a Princesa Celestia me enviou para Ponyville para participar de uma reunião que iria acontecer às 20:00, precisamente. Só para confirmar: a senhorita é a aprendiz de sua majestade, Srta. Twilight Sparkle, de que ela tanto fala?”

Os olhos de Twilight, na mesma hora, brilharam. — “A Princesa fala de mim em suas reuniões? E com figuras famosas de Equestria?!” — pensou ela.

Uma certa elevação de ego preencheu no peito dessa pônei roxa. Não é todo dia que um nome é dito pela Princesa com tanta honra e importância. Ainda mais quando este é comentado com outros pôneis famosíssimos de Equestria. Afinal, ela é a aprendiz favorita — para não dizer particular… — da governante diurna de Equestria, Princesa Celestia. É de se ter orgulho de um cargo desse, sim. Isso se esse orgulho não subir a cabeça como em certos pôneis chifrudos e roxos conhecidos.

Twilight ergueu o casco ao peito, com o focinho avantajado, — “Caham! Mas é claro! Meu nome é Twilight Sparkle–”

— “E meu nome é Rarity!“ — Rarity aparece de supetão, empurrando a Twilight bruscamente para o lado. A mesma quase se desequilibrou. — “A estilista mais famosa e elegante de toda Ponyville! Um garanhão charmoso como você obviamente já deve ter ouvido falar desse esplendendoríssimo nome…” — Rarity gesticulou o casco gentilmente para Foreign Eye, com um olhar sedutor de seus diamantes azuis oculares.

— “Mais do que encantado.” — Foreign Eye beijou levemente o casco de Rarity. — “Ouvi falar muito de você, Srta. Rarity.”

— “Oh! A carreira de grande estilista é tão sofrida!” — Rarity pousou o casco sobre a testa, falando num tom melancólico — “Pôneis de toda Equestria passam em minha loja só para encomendar serviços dessa pobre e esforçada estilista! Mas nunca comentam sobre seu digníssimo trabalho suado e … peraí!” — Rarity virou o rosto e olhou perplexa para o visitante, — “Já ouviu falar de mim?! Mesmo?! Como?!

Rarity demonstrou-se realmente surpresa por uma figura tão importante como Foreign saber o nome de uma simples pôneizinha moradora de Ponyville.

— “Como assim “como”?” — ele ergueu uma sobrancelha, — “A Srta. Shores não parava de se exibir com aquela roupa de grife brilhante que a senhorita havia criado. Toda vez que alguém ia perguntar as horas, ela respondia seu nome como a criadora daquela roupa… moderna.

Rarity ficou boquiaberta, — “…S-sa-s-sa-saphire Shores??!!” — seus lábios tremiam e se esforçavam em pronunciar palavras, mas era muito difícil, — “S-se-s-se-sério?! Mesmo??!!

— “Sim, claro!” — disse Foreign Eye num tom animado, e acrescentou, — “Não só a Srta. Shores como o Sr. Pants, também. Não sei o que a senhorita causou a ele, sinceramente. Nunca o vi falar de alguém com tanta emoção! Uns dias atrás, quando cheguei em Canterlot, me encontrei com ele. Eu disse que procurava um lugar para visitar… Um lugar que eu não conhecesse em Equestria. Sr. Pants, na mesma hora, me indicou Ponyville como uma das minhas primeiras paradas. E comentou também de uma pônei em específico que morava na cidade.” — ele olhou agora para o rosto de Rarity, erguendo uma sobrancelha e um sorriso malicioso em sua bochecha, — “Diga-me… Será que a senhorita arrumou um grande partido?”

Sorte que Rarity não havia dado a atenção à última frase dele; ela estava imóvel, como se estivesse petrificada. As causadoras dessa petrificação momentânea nessa elegante unicórnio pálida foram as duas primeiras novas: seu nome sendo pronunciado pelas duas importantes figuras da moda, Saphire Shores, e da sociedade canterlotiana, Fancy Pants.

Sua crina balançava com o vento, seu olhar vazio e meio passivo tornava a situação um tanto delicada. Ou até mesmo perigosa para a própria unicórnio de crina roxa encaracolada. Se ela tivesse ouvido esse último comentário de Foreign, ela possivelmente não iria suportar o ataque de emoção e estaria a caminho do hospital.

Twilight chegou perto de sua amiga pálida, um pouco preocupada, — “Hã… Rarity? Você está–”

Rarity agarrou os ombros de Twilight, ficando de focinho-a-focinho com ela e exclamando, — “SAPHIRE SHORES FALOU DE MIM! E FANCY PANTS TAMBÉM!!” — ela deu um grito esganiçado de emoção quando agarrou a cabeça de Twilight, espremendo-a num abraço apertado e desesperado.

Twilight lutava pela liberdade de sua traquéia, que estava bloqueada pelo abraço enforcador de Rarity. Os olhos diamantes da unicórnio branca brilhavam de um jeito que jamais brilharam antes. Era emoção demais para um dia só.

A voz de Rarity ficou meio esganiçada no começo, — “É BOM DEMAIS PARA SER VERDADE!! Não acredito que após séculos de trabalho duro e esforço valeram a pena para essa pobre e corajosa pônei de Ponyville com seu sonho de ser a maior estilista de toda Equestria– Não!” — Rarity afastou Twilight pro lado, olhando para as estrelas e o luar no céu, — “De todos os tempos!” — Rarity gesticulou suavemente seu casco para frente de seu rosto. Seus olhos azuis-diamantes ofuscavam de felicidade e êxtase.

Twilight tossiu um pouco, massageando a garganta meio irritada pela chave-de-braço de Rarity, — “T-tá ceeerto…” — comentou ela, erguendo uma sobrancelha.

“Os petiscos já estão servidos!” — berrou uma voz masculina, num tom infantil, de dentro da biblioteca, — “Estão sobre a mesa! Já podem cair de boca!”

Applejack inclinou-se na porta, colocando a cabeça para fora do recinto. — “Rériti tá viajâno na maionése ôtra véiz?” — AJ parou no meio da porta e olhou para a Rarity se estrebuchando de ansiedade, — “Há! Si essa daí arrumô um partido dos bão, eu cômo meu chapér!”

“É O QUÊ?!?!” — uma voz escarrada saiu de dentro da biblioteca. Esta pareceu irritada com o último comentário do ambiente.

Um corisco roxo com listras esverdeadas passou por entre as pernas de Applejack, assustando a mesma.

— “Arrê égua!” — por reflexo, ela fecha as pernas e dá um passo para o lado, olhando para o chão, meio perdida. — “Quêfoisso, seu!?”

Ao correr os olhos pelo chão, ela imaginou para onde seguiria aquele corisco que passou por ela. Applejack olhou para frente e encontrou seu real dono.

Spike, vestindo um chapéu de confeiteiro e um avental brancos, estava em frente à Rarity, com os braços e as pernas abertas, olhando agressivamente para Foreign Eye. Para um bebê-dragão, ele sabia intimidar quando o assunto envolve alguma coisa valiosa para ele; ou algum pônei.

— “Pode ir tirando o cavalinho da chuva!” — disse Spike com as sobrancelhas serradas e mostrando os dentes pequeninos para Foreign, — “Ela é minha, compadre! Arréda o pé daqui!”

“Spike!” — intrometeu-se Twilight com um tom irritado, — “O que pensa que está fazendo?! Onde estão seus modos?”

— “Estão todos aqui: Modo agressivo, modo predador mortífero e modo “vou arrancar a pele de seu corpo feito casca de banana!”

Twilight acionou sua magia com um brilho de seu chifre e puxou uma das escamas — ideologicamente em serem as orelhas — do dragãozinho.

— “Ai, ai, ai, Twilight! Para com isso! Ai! Isso dói!!” — Spike deu pulinhos para o lado até parar perto de Twilight, sendo que a mesma estava com um olhar repreensivo.

— “Pssht! Comporte-se! — Twilight virou para Foreign, — “Eu sinto muito, Sr. Eye…!” — ela estava sem jeito, — “Spike não é sempre assim. Ele só está um tanto… emocionalmente ativo.

Twilight brilha o chifre mais um pouco e deu um último puxão na orelha do Spike, soltando um audível “SNAP”, — “Ai, ai! Tá bom, tá bom! Já entendi! Eu sou um dragãozinho mau, mau!” — disse Spike, esfregando sua escama dolorida.

— “Isso mesmo. E arrependa-se do que fez com nosso ilustre convidado!” — terminou Twilight.

— “Bah!” — Spike cruzou os braços, emburrado, e bufou com o nariz, soltando um pouco de fumaça cinza.

— “Mais uma vez, me perdoe pelo comportamento dele, Sr. Eye! Espero que não esteja ofendido…” — Twilight cruzou suavemente os cascos, com a cabeça um pouco baixa.

— “Não, não! Não fiquei ofendido!” — ele sacolejou os cascos, negando. — “Aliás… Eu queria mesmo pedir desculpas ao… Spike, certo?”

— “… Hã?” — Spike olhou para ele, levantando a cabeça.

— “É. Queria pedir desculpas por achar que a Srta. Rarity arranjou um bom partido.” — Foreign coçou um pouco a nuca, descontraindo-se, — “Espero que não tenha ficado ofendido…”

— “Bom, dã! Claro que fiquei ofendido! Cê acha que eu iria fazer aquilo à toa?!”

Twilight deu uma patada de leve na nuca de Spike.

— “Ai! Pô, Twilight! Já deu, né?”

Twilight retrucou fechando a cara, em repreensão. Spike bufou com o nariz novamente. O pequeno dragão virou-se para o Foreign, segurando seu chapeuzinho de confeiteiro com seus pequenos dedos pontiagudos.

— “Certo… Hã… Aceito suas desculpas, senhor.” — Twilight cutucou Spike com o cotovelo, — “E… me desculpe pelo meu comportamento… rude, impulsivo e emocionalmente descontrolado…” — Spike olhou para Twilight no canto do olho.

Twilight sorriu alegremente pela resposta de Spike. O dragãozinho só pôde rolar os olhos.

— “Rarity é minha amiga e gosto muito dela.” — Spike explicou-se, olhando levemente para baixo, — “Eu… meio que tenho muito respeito por ela e pelo seu esforço no que faz… como eu me esforço no que faço.” — ele torceu um pouco o chapéu com suas mãozinhas, — “Se acontecesse alguma coisa a ela… eu–”

Um som abafado alastrou-se aos ouvidos de Spike. Ele olhou para a fonte do som e encontra Rarity caída no chão, meio tonta e com um sorriso meio-torto em seu rosto.

— “Ih, danou-se! Deu uma birola na Rériti.” — exclamou Applejack, com uma risadinha em meio à frase.

“Rarity!!” — Spike correu ao seu socorro, deixando Twilight e Foreign de lado por um breve momento.

Twilight ia repreendê-lo na mesma hora por deixar o convidado no vácuo, mas antes que ela pudesse impor sua voz sobre o pequeno dragão, Foreign a impediu ao descansar o casco em seu ombro. Twilight virou seu rosto bruscamente para o dono do casco. Ele olhava para ela calmamente, indicando para que não fizesse nada e que apenas esperasse e observasse, pacientemente. A unicórnio roxa apreciou o suave sorriso daquele jovem corcel. Era calmo e um tanto travesso. Os olhos marrons sombrios de Foreign focavam em seu rosto lavanda juvenil, observando do queixo até o chifre. Twilight se sentiu um tanto desconfortável por aqueles olhos estarem analisando ela tão… atenciosamente. Tanto que a própria dona deste rosto desviou-o da visão desse corcel, com um tom rosado em suas bochechas.

Twilight ficou meio sem jeito, mas pareceu entender o recado e voltou a olhar para Spike, que agora segurava gentilmente o rosto de Rarity.

— “Rarity! Você está bem, Rarity?!” — Spike estava muito preocupado com ela. Ele descansou sua cabeça sobre as coxas dela, atencioso.

Para a surpresa de todos, o dragãozinho começou a executar os primeiros-socorros. Certificou-se da respiração da unicórnio branca ao colocar o ouvido em seu focinho; contou os segundos ao pressionar dois dedos no pescoço de Rarity, medindo a pressão sanguínea; olhou para as pupilas azuis dela, checando se estavam dilatadas.

Apesar de ser um bebê-dragão, ele demonstrava total controle da situação. Até demais. Foreign Eye olhava surpreso para o que aquele pequenino estava fazendo com tamanha precisão e atenção. Era surpreendente, até mesmo para aquele diplomata.

— “Tá tudo bem cum ela, Spáiki.” — Applejack chegou perto dos dois, — “Ela só tevi uma birolinha di nada. Logo, logo, ela acóirda e tará tudo di boa.”

— “S-sério mesmo? Verdade?” — a voz do Spike arranhou um pouco no começo. Ele segurava gentilmente a nuca de Rarity.

— “Ara mais essa!” — Applejack acariciou a cabecinha do Spike, — “Tô tão certa qui, o dia im qui eu tivé errada, galinha cria dentê!”

Spike achou meio esquisita a frase encorajadora de AJ, mas sentiu que compreendeu a confiança daquela pônei loira. Ela estava sempre certa, de fato. O que podia esperar do Elemento da Honestidade? Ele podia se acalmar a partir de agora.

— “Ufa… Ainda be–!” — Spike deu um sobressalto, se lembrando que deixou o Sr. Eye a ver navios durante seu socorro e olhou discretamente para trás.

Foreign estava em pé. Não muito longe dele, mas estava perto. Ele não estava demonstrando nenhuma reação, nem mesmo uma expressão em seu rosto. Aquilo deixou o Spike preocupado. — “Será que ele está bravo? Eu… não pude evitar! A Rarity…” — pensou ele, suando um pouco frio.

Spike pousou a cabeça de Rarity suavemente no chão, ergueu-se e andou timidamente até o convidado da noite, torcendo um pouco o chapéu que tinha em mãos.

— “Hã… Desculpe, Sr. Eye.” — Spike nem olhava para ele, seus olhos estavam no chão. — “Eu… eu…”

— “Compreendo, jovem dragão.” — Foreign apalpou gentilmente a cabeça de Spike, — “Não é todo pônei ou criatura que faz esse tipo de coisa a um outro ser de uma espécie diferente. Ainda mais de uma forma atenciosa como você demonstrou agora.”

Spike olhou para cima, encontrando o rosto alto de Foreign. Sua face estava em um aspecto calmo e bem sorridente, para a surpresa do jovem réptil.

O dragãozinho podia sentir calmaria daquele corcel na lenta respiração que fazia e no manuseio suave de seu casco sobre sua cabeça. Apesar das escamas duras e porosas de Spike impedirem de ele sentir alguma dor ou massagem, o calor; a energia que transmitia no toque daquele jovem pônei era…

— “Você é um tipo especial, Spike.” — continuou o corcel elegante — “Posso ver claramente que Srta. Rarity arranjou alguém melhor…”

Spike ficou olhando para Foreign por alguns breves segundos. — “Ela arranjou?” — pensou ele. Estava assimilando o que aquele pônei havia lhe dito, mas não entendia bem o que ele quis dizer com aquilo.

— “Hihi, você ainda vai entender, Spike…” — Twilight agarrou Spike pelo ombro e esfregou sua bochecha com a dele, com um sorriso no rosto — “Um dia, vai entender…”

Spike corou um pouco e olhou para o lado, terminando de espremer e girar aquele chapéu torcido e violado. Twilight deixou o dragãozinho em seus pensamentos e trotou para perto de Rarity, com um ar preocupado.

— “Acho melhor já levar a Rarity para dentro. Depois desse… hã… “piripaque” ela precisará urgentemente de um copo d’água com açúcar.” — Twilight acionou a magia de seu chifre para levitar a unicórnea emocionalmente desacordada, — “AJ, importa-se de convidar nosso visitante, em seguida?”

— “Oxi, craro qui num, Tualáiti! Pódi dêxá cumigo!” — Applejack ajeitou seu chapéu para trás, confiante.

Twilight agradeceu e trotou para dentro com a Rarity, levitando-a no ar através de magia. Spike percebeu que a pônei roxa adentrou-se a biblioteca com a unicórnio flutuante e correu atrás, em passos saltitantes e ligeiros, — “Ei, Twilight! Espere por mim!”

Applejack deu espaço para Spike passar. Então, ela virou-se para Foreign, apontando-lhe o casco.

— “Bas tarde, Nhô Aiê…” — ela começou já com uma apresentação amistosa, — “Si voismecê num si aperreiar cum minha prêgunta…”

— “Imagina! Pode perguntar, Senhorita…” — Foreign deixou um longo espaço no fim da frase.

— “Applejack.” — respondeu a pônei loira, com um certo tom de orgulho em sua voz, — “Êssi é meu nómi. Már respeito qui o sinhô é todo cordiar i queira mi chamá di um forma tamém cordiar,” — AJ piscou para Foreign, — “podi mi chamá sem pôbrema di “Sinhá Applejack”.”

— “ “Sinhá”? ” — Foreign ergueu uma sobrancelha, — “É casada, Srta. Applejack?”

— “Oxênte! É nada, meu fío!” — Applejack gargalhou um pouco com a observação dele, — “Gosto di sê chamada ansim pois é o qui sô. Uma pônei fêrta e indepêdenti, pois num é macho qui mi sigura! E ai deli si tentá! Vai recebê um baita di um “Sai fora, fubá!” — e AJ interpretou um coice de leve com suas patas traseiras.

Foreign riu junto a ela. Ele imaginou aquela situação na cabeça e nunca pensou quão hilária ela seria. Ele tomou nota em um canto de suas memórias ao devanear-se entre seus pensamentos.

Ao voltar a si, percebeu que Applejack havia aproximado dele com um olhar malicioso. O diplomata hesitou um pouco, com uma leve suspeita de suas intenções, mas permitiu a aproximação. AJ falando um tom baixo, perguntou:

— “Már, cá entri nóis. I ocê, meu fío?” — AJ cutucou Foreign com o cotovelo, — “Cê num tá pendurado numa árvrê cum arguém, heim?”

— “Valei-me nossas Princesas! Não, não, Srta. Applejack!” — Foreign sacudiu os cascos, negando. — “Não estou, no momento, com ninguém e, definitivamente, não quero me envolver com nenhum pônei de jeito nenhum e–.”

Applejack o cortou, incrédula, — “Cumé?!” — ela olhou torto para ele. Aj achou muito estranho aquele tipo de negação em sua frase, ainda mais para um corcel jovem como ele. — “Como ansim?! Pruquê ocê num qué?! O qui qui ti impédi, afinar?!”

Foreign ficou com um nó na garganta por um momento. As perguntas que ela fez no ambiente ele não queria responder e temia aqueles tipos de perguntas; ele as evitava a todo custo de outros pôneis. Mas agora era difícil escapar ou desviar do assunto.

Ele virou os olhos discretamente ao redor, juntando as palavras para responder a pônei que o encurralou. Aqueles olhos esmeraldas eram intimidadores, difíceis de esquivar e de ignorar. Eles estavam mirando sobre ele de uma forma ameaçadora, esperando qualquer reação inapropriada para apertar o gatilho.

— “N-não foi o que eu quis dizer, Srta. Applejack…” — Foreign limpou a garganta. — “Estou, no momento, numa viagem de negócios. Vim aqui para participar no evento para depois voltar para meu reino. Não estou aqui para relacionamentos íntimos ou algo do gênero! Apenas estou cumprindo o meu dever estabelecido pelo governo de meu reino. Por favor, não me entenda mal!”

Applejack encarou Foreign, desconfiada. Em seu tom, parecia que ele suplicava pelas desculpas da pônei loira. Só faltava ele se deitar no chão e pedir desesperadamente por suas súplicas. O diplomata parecia ser bem sincero em suas palavras. AJ sentiu que ele não estava mentindo; cheirava mentiras a quilômetros de distância. Ela se convenceu, mesmo que soasse meio exagerado vindo de alguém tão importante como aquele pônei.

Applejack ajeitou o chapéu, descontraindo um pouco da situação, — “Tsc! Dêxa quieto… Tá tudo bem, Nhô Aiê.” — ela sacolejou suavemente com o casco para Foreign, — “Discurpa si fui num arregaço cum sinhô. Fui meio indelicada cum as prêgunta i, sem querê, o acusei sem ninhum mutivo.”

— “Não,” — seu tom estava sério, — “eu que peço desculpas. Não fui bem claro quando–”

— “Nhô Aiê…” — Aj o cortou ao elevar seu tom, — “Fui eu qui errei ao lançá essas prêgunta contra o sinhô. Quem tem qui pidí discurpa sô–”

— “Perdão,” — Foreign também a cortou. O rosto daquela pônei loira avermelhou com aquele corte, — “mas, sinceramente, fui eu que errei ao não expressar-me direi–”

— “Dêxi di nóia, criatura!” — Applejack tapou a boca de Foreign com o casco. AJ odiava ser cortada em suas frases, não havia coisa que mais enfurecia ela do que isso. — “Sô eu qui errei i sô eu qui tem qui pidí discurpa! O sinhô num tem obrigação di pidi discurpa pru algo qui num fêiz!”

Aqueles olhos esverdeados daquela pôneizinha miravam selvagemente no rosto do visitante. Eram assustadores, mas demonstravam coragem; perseverança. Aquela pônei loira era justa e verdadeira quando disse aquelas palavras. Odiava mentir e desmentia quem se atrevia a blasfemar contra a verdade. Assumia suas responsabilidades e seus erros, nunca colocava nos ombros de outros. Isso era ser justo; ser verdadeiro.

O diplomata estava, novamente, surpreso com aquela pônei alaranjada. Sua reação e o forte senso de justiça o deixou espantado. Ele nunca viu isso em pônei algum, mesmo nas inúmeras viagens que fez ao longo de sua jornada. Nada o deixava mais intrigado do que sentimentos fortes dos pôneis que ele conhecia.

Ele percebia que cada pônei era único em suas ações, em seus comportamentos e em suas ideologias; ele estava vendo isso bem em sua frente.

Foreign suspirou pelo nariz e afastou suavemente o casco de Applejack de sua boca, — “Tens toda razão, Srta. Applejack. Não devo pedir perdão por algo que não fiz… Mas a senhorita compreende o que eu quis dizer anteriormente?”

— “Már é craro! Cumpriendo perfeitamente, seu!” — Applejack assentiu com a cabeça, confirmando, — “Aqui– Digo… No Sweet Apple Acres, acuntéci a mermíssima coisa.” — ela coçou um pouco o nariz, — “Na fazenda, trabaia eu, mermão, minha maninha e minha vó. Eu e mermão trabaiamo, már trabaiamo duro para ter uma boa safra di maçã todo semestri! É tantu trabaio qui gostariamo di dá uma cérta atenção pra uns cérto relacionamento…”

Applejack ergueu os olhos com a cabeça, ela observava as estrelas brilhando fracas e as nuvens escuras lentamente se movimentando, — “Sabi… num devêmo ficar tantu tempu vivêno nos sonhos amoroso. Um ispaço especiar deveria estar preenchêno no coração… e na vida di cada pônei.”

Foreign deu uma rápida olhada para o céu noturno. Ele queria acompanhar a filosofia que a pônei loira estava proporcionando a ele.

AJ continuou o discurso, sem tirar os olhos dos astros brilhantes, — “Num é saudáver ficá sozín por muito tempu. Isso dêxa os pônei doenti… por dentro.”

Foreign desviou o olhar para baixo, sentindo as palavras cruas e mal-passadas. Ele estava aceitando o que ela estava dizendo.

— “I, às vêiz… isso pódi durá pra sempri e nunca acabá. I pódi perdurá até dipois da vida…”

Foreign encolheu suas orelhas, refletindo em seus pensamentos enquanto ouvia a voz da pônei alaranjada ecoar em seus ouvidos. Ele torceu um pouco os lábios, retraindo o que ele não queria expressar abertamente. O discurso de AJ, de alguma forma, estava fazendo um efeito inesperado para ele.

— “Portantu…” — Applejack deu uma patada brusca nas costas de Foreign. Foi tão forte que fez ele se desequilibrar, quase indo de encontro ao chão. Com reflexos rápidos, ele pôde se segurar com os cascos posteriores. — “Dêxe di dirigir essa novela das oitcho e vá arrumá uma fêmea das boa qui o satisfáça!”

Foreign ergueu-se para a posição reta sentada com um impulso. Ele ajeitou a gravata, apertando um pouco e puxou um pouco para trás o topete. Suas bochechas estavam um pouco quentes no começo por causa da idéia de AJ. Não era algo ruim a ponto de jogar fora e deixar de pensar nisso. Qualquer um adoraria agir com essa ideia em mente.

Mas ele, não.

— “Vou pensar no caso…” — claro que não vai.

Ele estava decidido. Nada o faria mudar de pensamento. Seus ideais já aderidos no passado não o permitem de acatar o que lhe foi proposto agora.

Applejack torceu o lábio, — “Êta, bixo teimoso dos Tártaro…!” — pensou ela ao suspirar pelas narinas.

A pônei caipira era uma pônei de morais. Ela sabia que todo pônei merece ter uma vida boa e saudável. Tanto no trabalho quanto nos relacionamentos entre amigos, parentes e pôneis mais íntimos. Sem esse equilíbrio, o indivíduo pode se perder em sonhos não-concretos e até se sentir incompleto; sentir um vazio por dentro. Ela odiava esse tipo de sentimento. Sentir-se sozinha ou que faltava uma parte que precisava ser preenchida em seu peito; uma falta de calor eqüino; uma carícia íntima.

Ela sabia o que era isso; essa sensação… ela sentia até hoje.

Applejack levantou um sorriso malicioso indiscreto no canto da boca, — “Már dêxi está, jacaré… qui a lagoa há di secá.”

— “Perdão, Sinhá Apple…” — Foreign voltou a olhar para ela, — “Mas qual foi mesmo sua pergunta?”

AJ virou a cabeça para ele, confusa — “Prêgunta? Qui prêgunta?”

— “Aquela pergunta que a senhorita iria me propor… logo no começo.”

Applejack levou um casco ao seu queixo, pensativa, — “Prêgunta… Prêgun– AH! SIM!” — ela se lembrou num estalo em sua memória, — “Pelo qui ôvi qui a Tualáiti tinha dito uns tempin atrás… foi o sinhô quem iscreveu aquelis livro… hã… “Épóluça É Logo Ali Adiantí” i “Terras Fértir Pra Lá Di Absurda”?”

Foreign assentiu com a cabeça, — “Sim, clar–”

— “Már minino! Qui coisa boa, seu!” — expressou AJ num tom feliz e animado. Foreign se assustou um pouco com a reação da pônei loira.

— “Cê num tem ideia quão loco seus livro são!” AJ aproximou-se um pouco de Foreign, demonstrando-se atenciosa, — “Meu primo mi indicô essis livro pra mói di mim ler eles e mi emocionei pur dimais!”

— “Seu primo?”

— “Sim! Brébârn, di Épóluça!” — a pônei loira sacudiu sua cabeça positivamente, — “O cabra dévi di tê ficado doido quando ti viu rodiando pela cidadi. O sinhô devi di conhece–”

— “O Breaburn?!” — indagou Foreign com intusiasmo, — “Há! Aquele cara é hilário! Ele me apresentou Appleloosa de cima em baixo, virou do avesso as histórias que ele conhecia sobre o lugar! Quase fiquei com dor de cabeça com tantas informações que ele me passava.”

— “É. Ele é um pôco exagerado…”

— “Um pouco?” — Foreign olhou para AJ, bradando uma sobrancelha erguida para ela.

— “Tá… mêi exagera–“

— “Meio?!” — sua sobrancelha podia cutucar a cabeça de Aj de tão erguida que estava.

Applejack ergueu os cascos, derrotada, — “Tá bão! Tá bão, criatura! Ele é um absurdo di exagêro, um istêrotópico… ister… instró…” — ela se esforçava pronunciar uma palavra.

— “Estereótipo?” Completou Foreign, ajudando-a.

— “Isso mêrmo!” ela apontou-lhe o casco. — “Isteriôtipo!”

Os dois riram juntos. A pônei alaranjada mesmo não se aguentava e já escorria finas lágrimas de seus olhos.

— “Hahaha! Haha… Már… Már falâno sério agora…” — Applejack enxugou os olhos e limpou a garganta, — “O sinhô foi passá uns tempo lá, né? Ficô quantus dias lá, qui mau lhe pregunte?”

— “Dias?” — perguntou ele num tom meio irônico, — “Nossa… fiquei por lá por mais de um mês! Estava numa missão diplomática para ajudar o povo de Appleloosa com um problema local… um problema de posse.”

— “Heim? Di póssi? Como ansim?”

— “Pelo que Sr. Breaburn me contou, Appleloosa é uma cidade de habitantes pioneiros, pôneis desbravadores que andavam por toda Equestria a procura de um lugar próprio para ficar e contruir uma vila, com sua própria renda, que são as macieiras.”

— “Hu-hum” — Applejack já ouvira aquela história dezenas de vezes pelo seu primo. Ou, pelo menos, fingia que ouvia; aquela boca não fechava nem um instante para conter o córrego de palavras.

Foreign tomou um pequeno fôlego, — “Só que, ao fincar a placa da cidade no local, pouco tempo depois descobriram que não eram os únicos que viviam por ali. Lá vivia uma antiga tribo aborígene de búfalos selvagens que, onde Appleloosianos plantavam e colhiam suas maçãs, eles faziam sua tradição milenar de debandada.”

“Tribo di búfalos?” — pensou AJ, — “Tradição milênar di debandada? Será qui eli tá falâno di–?”

— “Isso gerou um constante conflito entre as tribos e os Appleloosianos. Os habitantes da colônia não podiam mudar as árvores de lugar, pois era o único lugar fértil perto deles. E os búfalos insistiam que aquela passagem por onde as árvores foram plantadas era sagrada para sua tradição de debandada e que elas não podiam ficar lá por muito tempo.” — Foreign esfregou sua nuca com o casco, meio triste, — “Tentei o meu máximo para que houvesse algum acordo de paz entre as duas comunidades, mas… não havia nenhuma maneira de convencer ambos os lados. Os búfalos eram muito crentes em suas tradições e os Appleloosianos precisavam daquele lugar para viver.”

Applejack ficou um pouco reluta consigo mesma. A pônei laranja podia ver que ele estava bastante decepcionado por ter falhado em uma missão. AJ não se esquecera da última vez que visitou Appleloosa e do que havia feito lá com suas amigas. Ela queria uma brecha para poder contar a ele o que sabia.

— “Quando voltei para meu reino, escrevi aquele livro pensando que podia conseguir algum apoio popular para que haja um acordo entre os habitantes de Appleloosa e as tribos indígenas. Isso retardou um pouco a ideia dos búfalos tomarem suas terras de volta a força, mas eu temo o dia em que esse conflito se tornar algo muito perigoso para ambas comunidades e–”

— “Már essi conflito já acunteceu, Nhô Aiê…” interroupeu Applejack.

Foreign cerrou as sobrancelhas por um momento. Ele focava seus olhos ao chão, mas seu rosto girou bruscamente, olhando para égua alaranjada com temor em seus olhos, — “C-como? O quê disse?!” — ele temeu ter ouvido corretamente, perguntou esperando ter uma confirmação mais concreta.

— “Os búfalo já atacarô Épóluça uns tempo atráis. Os habitanti num quiriam cunversa cos índio. Os búfalo se enfezaram e avisarô a elis que iam atacá.”

Seu medo tornou-se realidade, e da pior maneira possível: ele não sabia que já havia ocorrido essa tragédia. — “Minha nossa…!” — ele levantou bruscamente a cabeça em direção a pônei laranja, com um olhar perplexo. — “Como eu não soube–! O-o que aconteceu depois?” — Foreign focou sua atenção nas palavras da pônei loira, seu tom era de muita preocupação. AJ percebeu isso e teria que tomar cuidado com o que falará para não desesperá-lo.

— “Num se avéxi, não, meu fio!” — sacudiu um pouco os cascos, pedindo calma, — “Pódi ficá tranqüilo que num acunteceu nada di ruim!”

— “Mas o que aconteceu?! Os Appleloosianos–”

— “Elis tão in pêrfeito istado, Nhô Aiê.” — ela descançou os cascos nos ombros do elegante pônei bege, tentando diminuir a tensão nele. — “Hôve uma briguinha pequena, már agora elis tão in sintonia, num tão mais brigâno por póssi di terra. Elis decrararô paz entri elis.”

O pônei de terno estava surpreso; perplexo, por assim dizer. Não sabia se as palavras daquela fêmea alaranjada eram verdadeiras, sem ao menos um carimbo ou uma testemunha local para declarar a redundância do ocorrido. O seu olhar fiel esmeralda gritavam a verdade, mas não tinham sua confirmação concreta; sua concretização.

Ele viu de perto as ríspidas trocadas de olhares e palavras entre aqueles habitantes. Um mês de trabalho árduo governamental naquele povoado e sem sucesso e resultados. Uma paz foi concretizada entre eles, sem sua presença ou seu auxílio diplomático, sem uma resposta governamental e que só aquela égua de uma cidade interiorana sabia disso?

— “Isso… está muito confuso… e inesperado para mim…” — declarou ele.

— “Num si avéxi, Nhô Aiê. Eu cunheço um pônei certo pra ti contá tintin por tintin!”

Foreign apertou os olhos com o casco em seu rosto, — “Pelo amor das princesas, Sinhá Applejack, não me diga que terei que falar com Sr. Breaburn para–!”

— “Oxênte, não, não!” — respondeu ela, rindo um pouco. — “Cunheço um pônei mió e menus tagarela qui eli.”

— “Hm… a senhorita?” — a pergunta saiu sem querer. Foreign apertou os lábios, sabendo que foi tarde demais para contê-la.

AJ o lançou um olhar suspeito, não sabia se era um pequeno elogio ou uma leve ofensa. Mas compreendeu que a ansiedade daquele pônei por querer se aprofundar nessa súbita mudança cultural de Appleloosa o deixou mais escorregadio que um lago congelado. Essa nova informação, para Foreign Eye, era deveras preciosa para uma futura atualização em seu livro, “Appleloosa É Logo Ali Adiante”, que agora se tornou uma obra incompleta e desatualizada no mercado literário. Ele só ficaria na cidade por alguns dias, até o fim do Grande Dia. Durante esse tempo, ele adoraria tirar um pequeno pedaço de seu precioso tempo para atualizar-se e para conhecer mais sobre os habitantes dessa sua nova estadia temporária, Ponyville.

Applejack só podia sorrir para aquele maroto, — “Gradecida pelo… elogio. Más num é cumigo, num. É cum–”

Applejack ficou em silêncio por um momento. Foreign ainda tinha esperanças pela resposta e esperou ansiosamente, até começar a ouvir trotes ocos e rápidos vindo por trás dele. A pônei laranja olhava para além das costas de Foreign, por cima de seus ombros. Foreign virou um pouco o corpo, tentando localizar para onde AJ estava olhando.

Ele via que algum pônei se aproximava rapidamente. Seus passos eram largos, mas não ligeiros; ela não estava correndo, só andando rápido. Uma pônei de uma pelagem de caqui escurecida vinha do final da rua, por onde dava a Praça Central, para ao encontro deles. Sua crina pálida estava um pouco desarrumada pelos passos apressados e em seu rosto escorria pequenas linhas brilhantes.

Applejack, na mesma hora, acenou para ela — “Sinhá Prefeita! Ocê chegô!”

A pônei de caqui parou bruscamente para perto deles, empurrando alguns cascalhos ao raspar o chão sob seus cascos. Ela respirava forte, mas não tão desesperada. — “Boa noite… Srta. Applejack! … Es… Espero que…” — Fazia tempo que ela não andava tão rápido. Aquela caminhada fez bem para ela; percebeu que deveria fazer isso mais vezes, para sua própria saúde.

— “Muié, sussega i pega um fôlego.” — Applejack ergueu o casco para ela, — “Forçá cunversa dessi jeito num facilita, só atrasa.”

A Prefeita assentiu com a cabeça e sentou brevemente para pegar um pouco de ar que sentia falta. Fechou a boca e começou a respirar devagar e profundo pelas narinas, enchendo e esvaziando o peito. Respirou e expirou; respirou e expirou; respirou e expirou. Ela ergueu o casco para ajeitar um pouco seu topete meio declinado para o lado; a brisa que perambulava pela noite ia contra a pônei de caqui no caminho, deixando sua crina torta e desalinhada. A Prefeita recuperou seu fôlego aos poucos, mas ainda sentia partículas aquosas por entre seus pêlos, e, em seu corpo sem vestimentas, não há nenhum item guardado para expurgar esse pequeno desconforto.

Durante um suspiro, um lenço agarrado por uma mandíbula veio ao encontro dos olhos azul-escuros dela. A Prefeita deu um relapso repentino pelo leve susto e seguiu aqueles dentes brancos para encontrar o rosto de Foreign Eye, agora fitando seus olhos azul-celestes sobre o rosto atônico da pônei de caqui. A face da Prefeita estava desarmada pelo sorriso maroto do pônei cordial.

A Prefeita deu duas piscadas lentas e seu rosto ficou rosado. Applejack percebeu isso e deu uma risadinha disfarçada por uma tosse. A pônei de caqui limpou a garganta e estendeu o casco por baixo do lenço. Foreign deixou-o cair levemente para Prefeita e a mesma agradeceu. Ele respondeu com aceno com a cabeça e outro sorriso.

Foreign olhou para AJ, ela esperava pacientemente a recuperação da Prefeita. Applejack percebeu que o pônei de terno a encarava e olhou de canto do olho para ele. Foreign aproveitou a pequena atenção que conseguiu dela e apontou para a Prefeita com os olhos. AJ levantou uma sobrancelha. Ele sacudiu levemente a cabeça, apontando novamente para a Prefeita. A pônei loira olhou para a pônei de crina grisalha e para o pônei elegante. Ela olhou novamente para os dois. E de novo.

As sobrancelhas da pônei loira se ergueram subitamente; a ficha havia caído finalmente. AJ entendeu e se lembrou do antigo assunto que ela deixou pendurado com o Foreign sobre o evento em Appleloosa. Ela sacudiu a cabeça, negando.

Não. Não era com ela com quem Foreign Eye poderia obter informações sobre o evento de Appleloosa.

Foreign só podia fechar a cara e bufar, como um pequeno potro faria quando não conseguia seu doce mais precioso do alto da estante. Applejack deu uma pequena risadinha.

A Prefeita esfregava o lenço em seu rosto enquanto tentava explicar-se pelo atraso a reunião, — “Mil perdões, Srta. Applejack. Estava na Praça Central, dispensando os últimos pôneis que ainda trabalhavam no palco… e acabei esquecendo da reunião de hoje à noite. Desculpe por chegar tão tarde–”

— “O qui impórta é qui a sinhá chegô.” — Applejack ergueu o casco para Prefeita, — “Cum a sua chegada, já pôdemo dar início a reunião. Num pricisa di–”

— “Mas Srta. Sparkle fez questão de que a reunião começasse às 8:00 da noite. Foi o que todas nós combinamos. Acredito que já é muito mais do que havíamos marcado. Se eu me atrasei, é porque foi uma irresponsabilidade da minha parte.”

— “Már a sinhá tava ocupada na Praça Central. Num pudía fazê nada pra–”

— “Não importa.” — seu tom ficou duro e seu rosto demonstrava irritação, escondendo o real sentimento: Indignação.

AJ apertou uma pálpebra inferior de um de seus olhos esmeraldas pela elevação do tom e pela segunda interrupção da pônei de caqui. A pônei loira não admitia que nenhum pônei a interrompesse.

— “Temos de ser profissionais e rígidas quanto a nossas tarefas.” — continuou a prefeita, — “A Srta. Sparkle deve estar muito magoada com meu atraso e de ter atrapalhado o início da reunião.”

Ela tinha razão. Twilight ficara fora de si quando a Prefeita estava seis minutos atrasada. Imagina agora que são quase 20:30 da noite! A noite voava e nem AJ havia percebido o tempo que havia passado. Twilight deveria estar louca de nervosismo á esta hora.

Applejack esfregou o casco em sua nuca, — “Vê, Sinhá Prefeita… A Tualáiti–”

“Sra. Prefeita?”

Uma voz veio por trás de Applejack e de Foreign Eye. Todos os pôneis presentes viraram seus rostos para a origem daquela pergunta. Twilight Sparkle estava na porta, encarando todos do lado de fora. O tempo que ela estava ali, parada e atenta, era incerto.

“Ih… Vai começá agora…” — pensou AJ, ajeitando o chapéu um pouco para baixo, na tentativa de evitar ver a próxima cena.

Foreign, com o movimento dos olhos, percebeu a reação da Applejack à presença da unicórnio da cor de lavanda; uma reação percebível de desconforto. Isso o intrigou e o fez voltar sua atenção para a unicórnio, que estava entre a saída e a entrada da Biblioteca.

A Prefeita engoliu um pouco seco, ainda com o lenço meio úmido de Foreign sobre o casco. Ela deu um pequeno sobressalto, lembrando-se do lenço branco em cascos e o estendeu para o seu dono. Foreign se virou para ela e olhou para o casco sob o lenço. Ele apenas ergueu o casco, gesticulando para que ela ficasse com ele sem problemas. Então, a Prefeita o guardou dentre o seu colarinho branco em seu pescoço e o ajeitou para que não ficasse aparecendo por fora. A pônei de caqui voltou a olhar para a unicórnio roxa na porta.

— “Boa noite, Srta. Sparkle.”

— “Boa noite, Srta. Prefeita. Sabe que está… um pouco atrasada para a reunião, não sabe?”

Twilight não esboçava nenhuma reação. Nem de raiva ou de calmaria. Apenas um rosto neutro. Isso deixava a Prefeita na dúvida de seus presentes sentimentos e mais ainda nervosa.

A Prefeita suspirou, — “Sim, peço desculpas pelo atraso, Srta. Sparkle, mas o motivo pelo meu atraso era que estava dispensando os últimos operários da construção do palco na Praça Central e acabei me distraindo do horário.”

— “Isso não é desculpa, Srta. Prefeita.” — respondeu Twilight numa voz seca, — “Eles sabem que o turno deles tem um horário de saída. Não deveriam estar saindo tão tarde da noite.”

— “Sim, Srta. Sparkle. Não deveriam.” — A Prefeita levantou-se do chão, agora já olhando para a Twilight da mesma altura que ela, — “Mas eles se sentiam motivados para continuar o trabalho até mais tarde. Apesar do cansaço, eles queriam continuar porque, de alguma forma, valia a pena para eles. Apesar da remuneração apertada e o grande esforço de pôr todas as estruturas em pé em poucos dias, sabiam que iriam ganhar algo a mais no final. Não materialmente, mas sentimentalmente.” — ela puxou um pequeno fôlego pelas narinas, — “Por isso peço que não desconte neles, Srta. Sparkle. Não há motivos de–”

Twilight ergueu uma brusca sobrancelha, — “Descontar?” — perguntou ela num tom surpreso, — “Por que eu faria isso?!”

A Prefeita ficou em silêncio por um momento até levantar o assunto do tópico novamente, — “Porque eles me atrasaram para a reunião?”

— “Foi o que eu tinha dito, Srta. Prefeita: Isso não é desculpa. É uma obrigação.”

A pônei de caqui inclinou um pouco a cabeça para o lado, não tendo certeza se entendeu o que aquela unicórnio quis dizer. Foreign, próximo ao lado esquerdo ds Prefeita, preferiu ficar como espectador. Já a Applejack, arriscou-se perguntar:

— “É o quê, Tuálaiti?”

— “Sim. É obrigação deles saírem neste horário porque é o melhor para todos. Não queremos que os operários que estão construindo as estruturas fiquem desgastados com todo esforço que fazem e que não fiquem fazendo o trabalho muito depressa. Algum pônei pode se machucar durante o processo!”

— “É o que eu disse para eles.” — acrescentou a Prefeita, — “Demorei um pouco para convencê-los. Por isso me atrasei.”

— “E por isso que não é desculpa.” — Twilight deslocou-se da porta em direção a Prefeita, com trotes macios e calmos. — “Você estava fazendo seu trabalho, sua obrigação: cuidando da saúde deles e não o deixarem afobados com o trabalho. Não é motivo para culpá-los de quererem fazer o serviço deles ou de você querer fazer o seu.”

Twilight Sparkle aproximava a cada passo de casco. A Prefeita não sabia o que vinha depois e permaneceu dura, para aguentar qualquer discurso moral que a pônei da cor de lavanda poderia proporcionar a ela. Mas suas intenções não eram essas; o rosto daquela devoradora de livros estava calmo demais. A unicórnio conseguiu aproximar-se da pônei de caqui sem assustá-la. Estavam frente a frente, mas não muito próximas.

Twilight sorriu e ergueu o casco sobre o ombro da Prefeita, acariciando-a suavemente, — “Por isso não se estresse, Srta. Prefeita. O importante é que a senhora e o nosso convidado chegaram e, então, podemos dar início a nossa reunião!” — ela apontou com a cabeça o Foreign a sua direita.

A Prefeita seguiu com os olhos até onde Twilight a orientou com a cabeça; no pônei elegante ao seu lado. Ele a respondeu com um sorriso pequeno ao assentir com a cabeça.

A Prefeita só pôde suspirar de alívio. A sensação era como se tivesse acabado de descarregar uma mochila grande e pesada das costas, dando liberdade aos músculos da tensão gravitacional das preocupações.

— “Ufa, Srta. Sparkle. Achei que tivesse ficado magoada ou mesmo irritada com meu atraso…”

— “Irritada? Eu? Nãããão! Por que eu ficaria irritada com isso– AI!!”

Twilight virou a cabeça e, por trás dela, encontra Applejack olhando séria. AJ acabou de dar uma patada em seu flanco. O motivo era óbvio: a pônei laranja odeia mentiras. E ela não admitia que suas amigas mentissem para ela ou mesmo para quem não merecia.

Twilight suspirou, — “Certo. Admito que, no começo, fiquei… digamos… um tiquinho irritada com seu atraso, Srta. Prefeita.”

Applejack chamou a atenção da Prefeita ao sacudir os braços, atrás de Twilight. A pônei de caqui olhou sem mexer a cabeça por trás da unicórnio roxa. Para a surpresa dela, a pônei laranja fazia caretas de raiva caricaturais hilários: torcia os lábios, mostrava os dentes frontais, cerrava as sobrancelhas, esbugalhava e revirava os olhos. E ainda gesticulava com as patas uma espécie de espumas imaginárias saindo pela boca.

A Prefeita fez o que pôde para conter uma risadinha, discretamente torcendo um pouco os lábios para dentro da boca. Já Foreign, em sua diagonal esquerda, pôs um casco em frente sua boca e deixou escapulir alguns risos abafados.

Twilight não prestou atenção nas risadas e olhava diretamente para a Prefeita, — “Mas foi porque eu queria que começássemos logo a reunião. Essa reunião era importan– digo, é importante para o evento, pois envolve não só os pôneis envolvidos com a construção e organização do evento, mas também envolve os que virão para o evento e, principalmente, para a organização dele. Nesta reunião iríamos discutir tudo o que ocorrerá no evento todo.”

A Prefeita assentiu com a cabeça, — “Compreendo, Srta. Sparkle.”

— “Ótimo!” — Twilight juntou os cascos, dando num surdo “clop”. Seu tom alegre se elevou assim como seu sorriso. Em seguida, gesticulou o casco em direção à porta atrás dela, — “Podemos dar início a reunião! Venha! Vamos entrando, Srta. Prefeita!”

— “S-sim! Claro.” — A pônei de caqui acompanhou a unicórnio da cor de lavanda para dentro da biblioteca.

Foreign seguiu o caminho delas com a cabeça, até elas adentrarem ao quarto cheio de livros. O que aquele pônei elegante acabou vendo não foi nada demais. Por causa reação de Applejack a uns momentos atrás, ele esperava que acontecesse algum tipo de tiroteio de palavras entre as duas. Mas tudo até que acabou bem. Até demais.

Foi quando ele olhou para a pônei laranja que complicou um pouco a compreensão do momento. Applejack estava de pé, com as patas um pouco afastadas, olhando para a porta da biblioteca com um olhar atônito e surpreso. Até sua boca estava entre aberta.

— “Sinhá Applejack?” — ele perguntou, preocupado. — “Aconteceu alguma coisa?”

— “Si acunteceu?” — ela se virou para o pônei elegante, — “Acunteceu foi nada! I isso é muito bão!”

Applejack estava feliz demais da conta. Foreign ficou até surpreso com a felicidade dela. Ela saiu de uma sensação desconfortável para, algo que se possa dizer, um alívio inesperado.

— “É?”

— “Oxi! Pur dimais, seu!” — AJ passou o casco em sua testa, tirando restos de suor frio que escorria por ela, — “Vixi! I eu pensâno qui ia sê um arranca-rabo qui só entri essas duas, mar saiu mió du qui eu isperava! Tualáiti tava num nervosismo qui sai dêbaxo lá dentru! Pudia até queimar os trasêro di uns dragão di tantu fôgo qui saía di suas venta!” — Applejack jogou o casco bruscamente, ainda olhando para a porta, — “Essa Tualáiti! Di uma hora para ôtra, vira de uma criança nervosa para uma moça jeitosa! Aquêli puxãozinho nas orêia serviu pra árguma coisa, no finar!”

“Nervosismo de Twilight? Puxão na orelha?” — pensou Foreign ao olhar para a porta com uma certa atenção, — “Entendo…” — seu rosto ficou meio sério de repente. O sorriso nervoso em suas bochechas se encolheu para uma expressão lisa. Ele se lembrara; do que havia ocorrido.

— “Ah! Seu Aiê.” — a pônei laranja chamou sua atenção.

Foreign voltou de seus pensamentos e tirou a porta de sua atenção para dar-lhe à Applejack.

— “Hã? Sim?”

— “É cum ela mêrmo.”

Ele ergueu uma sobrancelha, — “Heim? Ela?”

— “Suíííím! Ela mêrmo!”

Foreign olhou para a porta e olhou para Applejack em seguida, tentando juntar as peças. Olhou para a porta mais uma vez e voltou o olhar para a pônei loira.

— “Sobre a aquele evento?” — perguntou ele ao apontar para a porta.

— “Ahãm.” — respondeu AJ.

— “Hã… Em Appleloosa?”

— “Eita, fêrro. Tá difícir girar essas engrenági? Tô lhi dizêno! É ela mêrmo, seu!” — Aj deu uma patada pesada no ombro de Foreign, quase o desequilibrando novamente.

Ele consegue se ajeitar após a patada — “É. Hehe. Fico feliz que encontrei alguém para que possa me esclarecer o que ocorreu naquele evento. Fico muito agradecido, Sinhá Applejack.”

— “I eu fico filiz qui o sinhô vai tê suas resposta em breve. Aproveite seu tempo cum Tualáiti. Ocêis vão si dá bem i muito!”

— “Assim espero…” — fingiu ele, mas fazendo o possível para não soar muito egocêntrico.

— “Agora móvi essis flanco qui eu queru ti apresentá ao resto da manada, Nhô Aiê!” — Applejack foi a primeira a seguir na frente, atravessando a porta da biblioteca.

Foreign Eye se levantou e passou um breve momento encarando a biblioteca. De cima em baixo. A aparência arbórea da estrutura dá a impressão de ela ser pequena, mas sua altura ainda assim não se deixa enganar. É uma árvore bem grande. Foreign abaixou a cabeça e devaneou, olhando para a porta.

Ele pensava naquela potra roxa qual a égua de cabelos loiros o indicou. Ela parece ser inteligente, ao julgar que vive em uma biblioteca. Cercada por informações e ensinamentos. Ele não sabia deduzir a quanto tempo ela vivia naquela árvore, mas isso não era importante. Sua aparência jovem e compenetrada era apreciadora de muitos olhos, mas desses olhos que a encaravam ela não se importava. Olhos não a atraiam, apenas informações; conhecimentos; algo bem mais afundo.

— “Psst!”

Foreign deu uma piscada rápida e encontrou Applejack parada em frente à porta, olhando para ele. Ela tentava segurar uma pequena risada. AJ o encontrou imóvel em frente à porta, parado feito uma estátua, meio que viajando em um lugar bem longe de seus pensamentos. “Faltava cair uma gota de saliva”, pensou ela ao segurar outra risadinha.

O potro de terno sacudiu levemente a cabeça e ajeitou sua crina para trás, tentando manter sua compostura já fragilizada.

A pônei caipira lançou um olhar malicioso para o garanhão civilizado e sacudiu sua cauda ao girar o corpo, para adentrar-se novamente ao recinto. Ela apenas o estava provocando. Ele bufou, deixando escapar uma risada.

Mas ele se perguntava o porquê da Applejack não lhe contar a história de Appleloosa ela mesma. Não seria mais fácil do que apenas jogá-lo em cima de outra pônei para isso?

Ele coçou a nuca. Sentia-se um pouco incomodado com o que aquela égua alaranjada está planejando para ele… Se é que era só para ele.

Foreign deixou esse pensamento de lado. Aquilo não era deveras importante para se gastar tempo tentado descobrir do que se tratava. Não agora. Tinha coisas mais importantes para resolver naquela noite. Foreign ergueu a cabeça e trotou para dentro da biblioteca, seguindo Applejack logo atrás. A porta se fechou num estalo surdo com a fechadura.

A rua estava, finalmente, vazia de pôneis.