O Homem de Bem

 

O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e caridade, na sua maior pureza. Interroga a sua consciência sobre os próprios atos, pergunta se não violou essa lei, se não cometeu o mal, se fez todo o bem que podia, se não deixou escapar voluntariamente uma ocasião de ser útil, se ninguém tem do que se queixar dele, enfim, se fez aos outros aquilo que queria que os outros fizessem por ele.

Tem fé em Deus, na sua bondade, na sua justiça e na sua sabedoria; sabe que nada acontece sem a sua permissão, e submete-se em todas as coisas à sua vontade e sabe que não precisa de nenhuma religião para seguir os preceitos de Deus, bastando os princípios acima.

Tem fé no futuro, e por isso coloca os bens espirituais acima dos bens materiais.
Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas as decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem murmurar.

O homem possuído pelo sentimento de caridade e de amor ao próximo faz o bem pelo bem, sem esperar recompensa, paga o mal com o bem, toma a defesa do fraco contra o forte e sacrifica sempre o seu interesse à justiça.

Encontra e usa satisfação nos benefícios que distribui, nos serviços que presta, nas venturas que promove, nas lágrimas que faz secar, nas consolações que leva aos aflitos. Seu primeiro impulso é o de pensar nos outros antes que em si mesmo. O egoísta, ao contrário, calcula os proveitos e as perdas de cada ação generosa.

É bom e benevolente para com todos, sem distinção de raças, espécies e nem de crenças, porque vê todos como irmãos.

Respeita nos outros todas as convicções sinceras, e não lança o anátema aos que não pensam como ele.

Em todas as circunstâncias, a caridade é o seu guia. Considera que aquele que prejudica os outros com palavras maldosas, provocações, que fere a suscetibilidade alheia com o seu orgulho e o seu desdém, que não recua à idéia de causar um sofrimento, uma contrariedade, ainda que ligeira, quando a pode evitar, falta ao dever do amor ao próximo e não merece a clemência do Senhor.

Não tem ódio nem rancor, nem desejos de vingança. A exemplo de Jesus, perdoa e esquece as ofensas, e não se lembra senão dos benefícios. Porque sabe que será perdoado, conforme houver perdoado.

É indulgente para as fraquezas alheias, porque sabe que ele mesmo tem necessidade de indulgência, e se lembra destas palavras do Cristo: “Aquele que está sem pecado atire a primeira pedra”.

Não se compraz em procurar os defeitos dos outros, nem a pô-los em evidência. Se a necessidade o obriga a isso, procura sempre o bem que pode atenuar o mal.

Estuda as suas próprias imperfeições, e trabalha sem cessar em combatê-las. Todos os seus esforços tendem a permitir-lhe dizer, amanhã, que traz em si alguma coisa melhor do que na véspera.

Não tenta fazer valer o seu espírito, nem os seus talentos, às expensas dos outros. Pelo contrário, aproveita todas as ocasiões para fazer ressaltar a vantagens dos outros.

Não se envaidece em nada com a sua sorte, nem com os seus predicados pessoais, porque sabe que tudo quanto lhe foi dado pode ser retirado.

Usa mas não abusa dos bens que lhe são concedidos, porque sabe tratar-se de um depósito, do qual deverá prestar contas, e que o emprego mais prejudicial para si mesmo, que poderá lhes dar, é pô-los ao serviço da satisfação de suas paixões.

Se nas relações sociais, alguns homens se encontram na sua dependência, trata-os com bondade e benevolência, porque são seus iguais perante Deus. Usa sua autoridade para erguer-lhes a moral, e não para os esmagar com o seu orgulho, e evita tudo quanto poderia tornar mais penosa a sua posição subalterna.

O subordinado, por sua vez, compreende os deveres da sua posição, e tem o escrúpulo de procurar cumpri-los conscientemente.

O homem de bem, enfim, respeita nos seus semelhantes todos os direitos que lhes são assegurados pelas leis da natureza, como desejaria que os seus fossem respeitados.

Esta não é a relação completa das qualidades que distinguem o homem de bem, mas quem quer que se esforce para possuí-las, estará no caminho que conduz às demais.

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Star Swirl explica o amor a peixe

Amor é uma palavra que em nossa cultura quase perdeu seu sentido. Existe uma história muito interessante da Princesa Celestia. Ela passava por um jovem que estava claramente deliciando-se em um prato de peixe que comia próximo de um lago. Ela fez uma pergunta um tanto óbvia ao jovem, mas ainda assim com um claro sentido: “Por que você está comendo esse peixe?” E o jovem respondeu: “Porque eu amo peixe!” Celestia responde: “Ah, você ama o peixe e por isso o tirou da água, o matou e o ferveu. Não me diga que você ama o peixe. Você ama a si mesmo. E porque o peixe é gostoso na sua opinião, você o tirou da água, o matou e ferveu.” Por isso que muito do que chamam de “amor” é conhecido como “amor a peixe”. Por exemplo, um casal de jovens se apaixona, o que isso significa? Significa que o homem viu na mulher alguém que ele acreditou que poderia prover todas as suas necessidades emocionais e físicas, e ela sentiu que esse homem poderia fazer o mesmo por ela. Isso foi amor, mas ambos estão obviamente olhando para as próprias necessidades. Logo, não é amor pelo outro, e sim uma forma de amar a si mesmo através do outro. A outra pessoa se torna um veículo para a minha satisfação. Isso é amor a peixe. O amor verdadeiro nunca é sobre o que vou receber. Havia um professor de ética, que disse que as pessoas cometem um erro grave ao pensar que “você dá àqueles que você ama”. Mas a verdadeira resposta é “você ama aqueles a quem você dá.” E seu argumento é que se eu dou algo a você, eu me investi em você. E já que amor próprio é natural, todos amam a si mesmos, mas agora que parte de mim está em você, há uma parte de mim em você que eu amo. Então, o amor verdadeiro é um amor que dá, não que recebe.

Texto: Abrahan Twerski

O pônei de Oasis – Parte VI

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Autor: ROBCakeran53

Tradução: Drason

SINOPSE: Equestria ainda estava sendo reconstruída após a derrota de Tirek, e as seis novas governantas de Ponyville ajudando em sua reconstrução. Tudo mudou de maneira inusitada quando a Princesa Celestia entregou a elas uma carta descrevendo acerca das façanhas realizadas por um único cidadão da cidade de Oasis conhecido como Senhor Baker, e a forma como superou Tirek. Com a missão de descobrir se os relatos eram verdadeiros, as seis pôneis devem ir até a referida cidade para investigar. No entanto, elas irão descobrir que o Senhor Baker não era exatamente quem ou o que elas esperavam.

***

Rainbow Dash estava agitada em seu sono. Ou pelo menos, ela não poderia mais chamar de “sono”, agora que estava acordada.  Se virando para o outro lado da cama, ela se aconchegava em seu travesseiro, encontrando novamente conforto enquanto relaxava e era aplaudida diante de multidão à sua frente. Ela voava, subindo cada vez mais alto, pronta para impressionar a plateia com uma batida de suas asas-

Espere…

O olho esquerdo de Rainbow se abria, com seu lado direito ainda pressionado em seu travesseiro enquanto ela resmungava com a saída brusca de seu sonho. O barulho continuava, como uma martelada em sua cabeça, então ela pegava seu segundo travesseiro e colocava em cima da cabeça na tentativa de evitar o barulho.

Isso não ajudava; o próximo som era uma gritaria ecoando pela hospedagem inteira.

Aquele barulho fazia Rainbow Dash se levantar. Jogando seu travesseiro para o lado, ela esfregava seus olhos com um bocejo cansado. Olhando ao redor, ela percebia que suas duas companheiras de quarto já haviam saído, com suas camas inclusive arrumadas. Meio irritada, ela saía de seu cobertor e pulava para o chão. Os estalos habituais de suas juntas ecoavam no quarto enquanto ela se espreguiçava, esticando cada perna e flexionando as asas. Em seguida, ela respirava fundo e caminhava até a porta.

Rainbow hesitava, olhando de volta para as duas camas arrumadas, e então para a sua bagunçada. Eh, pássaros nunca deixam seus ninhos arrumados, então por que ela deveria se importar? Saindo do quarto, ela podia jurar que tinha caminhado direto até a Fábrica do Tempo. Os barulhos altos que ela escutava a traziam de volta para Cloudsdale em recordações. Parando diante da parede clara, ela espiava o alvoroço sobre a sacada.

Todas as suas amigas estavam lá, conversando e falando durante o café da manhã. Trixie estava atrás do bar, servindo o lanche com sua carranca habitual. Em seguida, ela espiava Tomas, o humano, consertando a janela que ela havia quebrado. A pégaso azul esperava que ninguém contasse que foi ela quem causou o dano.

Rainbow estudava as escadas, hesitando em descer. Aparentemente, era a vez dela e de Applejack de passar o dia com o humano, para tentar descobrir…o que? Se ele foi mesmo capaz de consertar parte de uma cidade? Ela observava enquanto ele batia em uma cunha, deixando a janela encaixada e posicionada em linha reta. Sim, ele podia consertar. Grande coisa.

Rainbow zombava. Se a estória de Rarity da noite passada era verídica, esse humano estava longe de ser uma boa pessoa, e não havia nenhuma possibilidade de ganhar o prêmio e reconhecimento, então por que elas ainda estavam aqui?

“Ei Rainbow! Estamos aqui embaixo!”

O foco de Rainbow deixava o humano e se dirigia para suas amigas, todas olhando para a pégaso azul. Pinkie Pie, cuja voz lhe chamava atenção, balançava o casco animada no ar. O rádio no balcão estava tocando outra daquelas canções country que pareciam tão insuportáveis quanto som de algo afiado causando atrito em um quadro negro.  Rainbow suspirava, então abria suas asas e planava até o primeiro andar. Uma tigela de sopa já esperava por ela.

“Sopa de novo?”

Pinkie respirava, afastando seu rosto da tigela. “Essa é diferente, Dashie! Experimenta, foi Trixie que fez!”

Rainbow se sentava em um dos bancos. “Espere, foi feito pela Trixie?” Ela se virava para a unicórnio azul. “Você cozinha?”

“Claro que Trixie pode cozinhar. O que te leva a tal pergunta?”

“Nada. Nunca imaginei que você pudesse fazer comida comestível.”

“Há!”

Rainbow se virava para a direção de onde veio o riso e observava Tomas, que não tirava a atenção do trabalho, mas ela poderia dizer que ele continuava sorrindo.

Trixie zombava. “Trixie vai fazer de conta que não ouviu nada.”

“Certamente,” Tomas começava, e então acabava acertando o martelo em seu dedão. “OH MEU DEUS!”

“Há! Bem feito!” Trixie deixava escapar uma risada, então olhava para o grupo de amigas. “Com acidentes como esse que é sempre prazeroso ver ele trabalhar de ressaca.”

Tomas colocava o dedão na boca. “Eu ouvi isso.”

“Trixie sabe.”

“Isso não foi legal, Trixie.” Dizia Twilight. “Você tem quem ser mais gentil com os outros.”

Trixie e Tomas paravam o que estavam fazendo e ficavam olhando para a Princesa.

“Gentil?” Os dois falavam ao mesmo tempo.

“Com ele?

“Com ela?”

“Vocês fazem parecer como se fosse impossível um se dar bem com o outro.” Twlight saía de sua cadeira, caminhando até Tomas. “Vocês dois, assim como seus trabalhos, estão sempre próximos um do outro aqui, então devem fazer a melhor coisa, que é esquecer o passado. O que quer que vocês fizeram um para o outro no passado, deixar de lado e seguir em frente.”

Nesse momento Trixie saía do balcão, servia o café da manhã a outros pôneis, e depois ficava parada ao lado de Tomas, que permanecia silencioso e imóvel. Os dois olhavam um para o outro, e então explodiam em gargalhadas.

“Você realmente acha que é tão simples assim?” Tomas dizia, em meio aos risos.

“Trixie achava que você fosse a Princesa da Amizade, não da ingenuidade!”

Tomas fazia um gesto com seu dedo, apontando para a pônei. “Como posso ser amigo de uma unicórnio arrogante que nem fala em primeira pessoa?”

Trixie continuava rindo. “Ou como poderia Trixie não se aborrecer em ser amiga de um macaco que constantemente fica coçando o meio das pernas?”

“Ou uma pônei que tentou envenenar minha refeição cinco vezes.”

“Um bípede da qual a atitude só se iguala a de uma ursa menor.”

Enquanto os dois provocavam um ao outro, ambos ainda rindo, o humor de Twilight era que nem a de um navio em um mar revolto, sua expressão continuava afundando.

“Ou como ela sempre caminha por aí como se fosse melhor do que os outros.”

“Eles chamam Trixie de grande e poderosa por uma razão, assim como você de cidadão pirado!”

“Opa, opa, já chega oceis dois! Daqui a pouco é a Twi que vai pirar aqui!” Dizia Applejack.

“Vocês todos estão me dando dor de cabeça com essa discussão.” Sunny Side caminhava para fora da cozinha. “Tomas, quanto tempo ainda vai levar para consertar essa janela? Estaremos servindo almoço em breve e não quero os clientes comendo serragem junto com as refeições.”

Tomas não perdia o ritmo. “Mas as suas refeições já não têm gosto de pó de serra?” Ele voltava para o trabalho.

“Há há, engraçado.” Sunny se virava para a empregada. “Trixie, querida, Bob vai precisar da sua ajuda com as sobremesas do almoço.”

“Se esse é o dever de Trixie.” Trixie caminhava para longe de Tomas, que se virava para ver ela trotando com um sorriso bobo.”

“O que te faz rir?” Applejack perguntava.

Quando Trixie sumia atrás da porta, Tomas sussurrava. “Ela é a única coisa com a qual eu posso contar. O mau humor da Trixie me coloca em um bom.”

“Isso não é uma coisa boa, Tomas.” Twilight retornava para seu banco, terminando sua sopa.”

“O que posso dizer? Eu prospero com a agonia dos outros.”

“Não é obvio?” Rainbow dizia em voz baixa.

A reação de Tomas era imediata. “Sim, por boa razão. Quanto menos as pessoas gostam de mim, menos me incomodam.”

“E ainda assim, a cidade inteira te adora e tenta de proteger?” Applejack interrompia com um sorriso.

“Nem sempre funciona, eu não disse que era um plano perfeito.” Tomas olhava para o bar, onde Rarity fazia de tudo para não olhar para ele, mas Flutershy sorria para Tomas.

“Bem, você está longe de ter um bom começo com a gente.” Rainbow empurrava sua tigela de sopa vazia para frente, onde Sunny era rápida ao pegá-la e colocá-la junta de outras tigelas sujas.

“Querida, não atente ele.” Sunny sussurrava.

Rainbow Dash pretendia ignorar ela.

A expressão de Tomas mudava para um olhar neutro. Applejack olhava entre os dois, pronta para silenciar sua amiga antes que ela dissesse alguma coisa que pudesse chateá-lo. Tomas era o primeiro a recuar, voltando para o trabalho, pegando uma serra elétrica.

As orelhas de Dash dobravam com o som alto da serra, lembrando do mesmo barulho que a acordou. Ela podia sentir as vibrações em sua cadeira. A singularidade do aparelho não podia detê-la de olhar, no entanto. O fio longo da serra ia até uma das poucas tomadas na parede, com o final dele plugado de forma não totalmente segura. Em seguida, observava a lâmina. Ela já havia visto serras antes, a fazenda de Applejack possui várias ferramentas das mais variadas formas e tamanho, mas nenhuma elétrica. Tomas cortava ao longo do quadro, aparando imperfeições, com a lâmina indo e voltando. De tão paralisada olhando a ferramenta, ela não percebia que estavam falando dela.

“Rainbow? Está aí?”

Dash sacudia sua cabeça, perdida em pensamentos. Ela também não percebeu que Tomas tinha parado de serrar, podendo agora observar melhor a ferramenta. A próxima coisa a chamar sua atenção era Sunny batendo no rádio, que assim como a serra, subitamente tinha parado de funcionar.

“Tom!” O que você fez?” Sunny exclamava.

“Eu? Não fui eu que fiz a tomada do rádio!”

“Mas a energia caiu com você serrando a parede!”

“Não precisa chiar, não fui eu.” Tomas largava sua serra e a desplugava.

Ele caminhava pelo bar, as pôneis ficavam olhando enquanto ele passava, mas Rarity continuava olhando para sua tigela de sopa vazia. Quando Fluttershy virava para observar Tomas, ele dava um pequeno sorriso e acenava a cabeça, continuando em direção das escadas.

“Onde ele vai?” Rainbow perguntava.

“Os disjuntores ficam no porão. As escadas que levam até lá ficam embaixo das escadas para os andares de cima.” Sunny voltava atendendo outro cliente.

Enquanto Tomas desaparecia escadas abaixo, Twilight não podia fazer nada senão notar a calma no restaurante.

Quando Sunny voltava, Twilight manifestava suas preocupações.

“Todos estão tão… calmos.”

Sunny levantava uma sobrancelha. “Pois é, e daí?”

“Bem, a luz fica aleatoriamente acendendo e apagando e ninguém está murmurando ou imaginando o que está acontecendo. Eu acho isso estranho.”

“Querida, temos eletricidade a poucos anos. Mesmo assim, a energia vai para poucos lugares. Muitos dessa cidade não precisam disso. A maioria enxerga isso apenas como uma firula, mas bem, alguns de seus luxos são agradáveis, como a luz instantânea e o rádio aqui.”

“Não posso dizer que estou reclamando do silêncio do rádio, infelizmente. Como alguém pode ouvir aquela música o dia inteiro…”

Applejack olhava Rarity. “Alguma coisa contra música country Rarity?”

“Em si? Não, eu apenas,” Rarity batia em seu queixo, “acho a música country um charme rústico. Mas não a ponto de ouvir todos os dias.”

“Bem, considerando que nós só temos duas estações, não há muita escolha.” Sunny empurrava um carrinho de pratos sujos para a cozinha, voltando rapidamente para o bar.

“Qual é a outra estação?” Rarity perguntava.

“Você não vai querer saber, confie em mim, querida.”

Rarity caçoava. “Não é possível que seja pior…”

Applejack pigarreava.

“…digo, alguma coisa mais redundante do que vinte e quatro horas de música country?”

“Polka.”

Todas se viravam para Tomas, que saía do porão e passava por elas até a sua bolsa de ferramentas perto da janela.

“Perdão?” Rarity falava.

“A outra estação que nós temos é um misto de Polka com propaganda anti-equestriana.”

As seis amigas ficavam em silêncio, embora Pinkie Pia tinha uma enlouquecedora risada em sua face.

 Twilight foi a primeira a falar. “Propaganda anti-equestriana?”

Tomas estava guardando suas ferramentas atropeladamente na bolsa. “Sim, foi o que eu disse.”

“Não existe isso!”

Tomas pausava por um momento para olhar a Princesa. “O que, de haver uma rádio pirata em Equestria, ou alguém que não gosta de Equestria?”

“Ambos!”

“Ah, estou vendo.” Tomas pegava duas bolsas. “Sunny, volto logo para terminar.” Então ele saía.

Twilight o seguia direto em seus calcanhares, logo acompanhada por suas amigas.

“Por que haveria uma estação como aquela em Equestria?”

Tomas se aproximava de uma estranha carruagem, toda branca e fechada. As janelas eram todas de vidro, e possuía mais portas do que Twilight julgava necessário para uma carruagem. Ele abria as portas traseiras, que estranhamente se abriam em direções opostas a elas, onde ele jogava as bolsas para o interior. Twilight ignorava suas amigas na tentativa de olhar o veículo, ao invés de focar em Tomas.

“Sei lá. Digo, em um país tão povoado como o seu, não deveria ser surpresa pra você saber que existe aqueles que não gostam.”

“Como quem, por exemplo?”

Tomas dava de ombros. “Diga você. Eu sempre imaginei que fossem os griffons, mas o último que passou pela cidade disse que nunca tinha ouvido falar da estação também.”

“Eu preciso ouvir ela então.”

“Bem, você vai ter que esperar até eu chegar na represa.”

“Represa?”

“Foi o que eu disse.” Tomas batia as duas portas, com a esquerda fechando primeiro e a direita depois.

“É assim que você consegue energia para a cidade?”

“Sim, um lugar pequeno e remoto, cerca de oitenta quilômetros de nós. É a fonte de água em movimento mais próxima que podemos usar.” Tomas caminhava para longe dela, pelo lado esquerdo do veículo.

“Oitenta quilômetros? Isso é impossível!” Twilight o seguia, circulando ao redor e o interrompendo.

Tomas deixava escapar um suspiro, então apontava atrás de Twilight. Ela virava a cabeça, vendo um único poste exposto na entrada da cidade. Um longo fio, com dezenas de metros, se ligava até a hospedagem de Sunny, com outro fio descendo até o solo, onde ela via uma pequena placa com o sinal de “perigo”. Observando o horizonte, ela via vários postes, todos com distâncias idênticas a do primeiro.

“Isso não é impossível.” Tomas finalmente dizia.

“Certo, mas ainda são oitenta quilômetros. É um longo caminho. Como você consegue chegar lá?” Twilight perguntava.

Tomas rolava seus olhos, então com a mão direita batia no metal da carroceria ao lado dele.

Twilight finalmente prestava atenção no enorme veículo. “E daí, você precisa de um pônei para puxá-la, uh…”

“Aquele pônei chamado Road Rage? Não obrigado. Ele é mais louco do que eu era na idade dele, e eu tenho um Camaro oitenta e sete.”

“Um o que?”

Tomas batia em sua testa. “Nada, esqueça. Já perdi muito tempo. Quem são os guardas que vão me escoltar hoje?”

Twilight piscava. “Guardas?”

Você sabe, ontem foi Fluttershy e Rarity. Hoje é a vez de quem?”

“Eu, eu não sei do que você está…”

“Oh, pode parar. Sei muito bem qual é o seu jogo. Vamos direto ao ponto para que possamos acabar logo com isso. Quanto mais cedo nós acabarmos, mais cedo vocês todas podem partir e assim voltarmos para nossas vidas normais.”

As orelhas de Twilight murchavam, e em seguida dizia com um suspiro. “Applejack e Rainbow Dash.”

“Obrigado.” Tomas caminhava até a frente do veículo onde o resto das amigas de Twilight estavam reunidas, conversando entre si.

Tomas abria a porta do passageiro, revelando um banco revestido em tecido cinza e bastante usado. As pôneis pareciam estarem mais focadas no veículo do que em Tomas. Ele fazia um gesto com a mão direita, em seguida colocava na boca e soltava um assovio alto, imediatamente chamando atenção.

“Applejack, Rainbow Bravesh, vamos! Eu não tenho o dia todo!”

Rainbow e Applejack trocavam olhares, a pônei laranja dava de ombros, e se aproximava. Rainbow estava mais hesitante, olhando para Rarity e Fluttershy. Rarity parecia indiferente, enquanto que Fluttershy sorria e acenava. Nada humorada, Rainbow trotava na direção da estranha carruagem e se aproximava de Tomas.

“É Dash, não Bravesh, na próxima fale direito…”

Tomas deixava escapar uma pequena bufada, segurando a risada antes que pudesse escapar. Afinal a pégaso azul estava em uma altura perfeita para golpear uma área sensível do seu corpo.

“Então, uh, como nós entramos nessa carruagem?” Applejack perguntava. “Saltando pra dentro, ou… EI!”

Antes que a pônei laranja terminasse de falar, Tomas agarrava ela pelas pernas dianteiras e a colocava no assento do carro. Ele se virava para os rostos chocados das outras pôneis.

“Então Rainbow DASH, você vai perguntar como entrar ou vai saltar para dentro?”

Não precisava ser dito duas vezes para Rainbow que dava um salto rápido do chão, e então se estabelecia ao lado de uma Applejack corada. Tomas fechava a porta do carona, e então andava para o outro lado, onde notava Twilight ainda parada lá olhando para o adesivo no veículo.

BAKER E FILHOS

CONTRATATANTE

O “e filhos” estava pintado por cima, numa tentativa de apaga-las, mas ainda dava pra ver as letras através da tinta branca um pouco transparente da lataria.

Uma batida de porta trazia Twilight para fora de sua distração, e logo em seguida um rugido alto. A janela na porta descia, e Tomas colocava a cabeça pra fora.

“Vejo vocês em poucas horas.”

Então a carruagem dava uma guinada para a frente, e… se movia? Sozinha? Sem pônei para puxá-la? Ela apenas… se dirigia para longe. Assim que a poeira baixava após sua rápida saída, Twilight olhava para suas outras amigas, todas com expressões igualmente chocadas com o que tinham acabado de ver.

“Eu preciso terminar aquele livro que ele me deu!” Twilight gritava antes de correr para dentro da hospedagem de Sunny.

Rainbow Dash tinha pulado para dentro, o local mais fácil para pousar era o assoalho. Uma vez nele, ela saltava para o banco para se juntar a Applejack, que parecia sem jeito. “Que foi AJ, o que te deixou incomodada?”

Applejack disse apenas uma palavra: “Dedos.”

“O que?”

A outra porta abria, Tomas facilmente entrava e se sentava no banco com elas. Seu lado tinha algum tipo de roda, onde o humano colocava suas mãos. Ele então colocava uma das mãos em outra coisa, fazendo-a girar, e logo toda a carruagem começava a balançar e rugir.

Isso agitava Applejack, olhando ao redor. “O que…”

Rainbow notava Tomas agarrando uma manivela na porta, em seguida a girando fazendo a janela do seu lado abaixar. Ele colocava a cabeça para fora, presumivelmente para Twilight e dizia: “Nos vemos em poucas horas.” Então ele agarrava uma espécie de alavanca, puxando-a para trás e em seguida para frente.

“Ei!” Rainbow observava a paisagem pela janela passando. Eles estavam se movendo! Ela passava pela Applejack, se aproximando da janela do carona, observando uma manivela semelhante na sua porta, então com ambos os cascos ela copiava Tomas e a girava, fazendo sua janela de vidro abaixar também. Ela colocava a cabeça para fora, com a crina batendo em sua face enquanto olhava para trás, se distanciando rapidamente da cidade. Ela podia ver todas as suas amigas olhando em choque. A pégaso azul estendia um casco e acenava. Ok, ela tinha que admitir, isso foi incrível.

“Eu não entendi, como é que estamos nos movendo?” perguntava Applejack.

“É um motor, todo mecanizado, agradeça à Ford.”

“Quem é esse?”

Tomas balbuciava alguma coisa em meio a sua respiração, então dizia “Não quem, e sim o que. É uma fábrica. Vocês pôneis chamam de carruagens, mas nós humanos chamamos de automóvel. Ford é o nome de uma fábrica de automóveis.”

Rainbow se juntava à discussão. “Automóveis? Hu, soa como uma palavra que Twilight inventaria.”

“Bem, sintam-se confortáveis. Será uma viagem um pouco longa,” Tomas dizia, colocando uma das mãos no centro do painel.

Ele apertava um botão, que acendia uma serie de luzes em um aparelho retangular. Então, pelos dois lados das pôneis, música começava a tocar dos altos falantes escondidos nos interiores das portas.

Rainbow notava com um ar de diversão como Applejack batia o pé no assento. Tomas ficava com o braço esquerdo apoiado em cima da janela aberta, e a mão direita no volante.

“De onde é essa música country?” Perguntava Rainbow.

“Não é country, é blues.”

“Parece country para mim.”

“Apenas aquiete-se e aprecie.”

Com uma bufada, Rainbow cruzava os cascos dianteiros sobre o peito e olhava de volta para a janela. Tudo o que ela via era um deserto sem fim, com exceção dos postes aleatórios que passavam por eles, um atrás do outro. A brisa batendo em sua face quase fazia ela esquecer que deveria fazer um beicinho… quase.

Applejack decidia quebrar o silêncio. “Então Tom, ouvi dizer que você tem algum parente?”

“Parente?” Tomas perguntava.

“Sim, família. Irmãos, se Rarity estiver certa.”

“Oh sim.”

“Eu tenho dois irmãos também. Uma jovem irmã, Apple Bloom, e meu irmão mais velho, Big Macintosh.”

“Você é a irmã do meio então?” Dizia Tomas com um sorriso.

Applejack ria. “Sim, costumava não gostar disso.”

“Sei como se sente. O irmão mais velho causando problemas para os pais e precisando de atenção constante, e o mais novo precisando de atenção e cuidado.”

Applejack acenava. “E o irmão do meio fica no escuro. Quase me fazia sentir…”

“Excluída.”

Applejack e Tomas ficavam em silêncio, o rádio continuava com a música. O olho direito de Rainbow se contraía.

“Então, hu, quais os nomes deles?” Applejack ousava.

Tomas permanecia em silêncio, concentrado na estrada. Applejack estava paciente, observando eles passarem através do infinito deserto. Rainbow Dash continuava aborrecida. Mas por que? Ela percebia que estava ficando presa no pequeno espaço com o humano.

“Está bem, você não vai me dizer.” Applejack olhava para o nada.

Tomas olhava para a pônei laranja, notando que ela não estava nem sorrindo, e nem com uma carranca. Ela permanecia neutra sobre isso.

Para os próximos dez minutos, eles viajavam em silêncio, exceto pelo rádio. Applejack estava começando a acompanhar o ritmo, enquanto Rainbow Dash começava a bater a cabeça contra a porta.

“Parece que você não está gostando de Jim Croce?” Tomas finalmente falava.

Ambas pôneis olhavam para ele, confusas.

“O cantor da música, o nome dele é Jim Croce.”

Applejack inclinava a cabeça em pensamentos. “Nunca ouvi falar dele.”

“Certamente. Ele era um grande sucesso de onde eu venho, e muito antes de eu nascer.”

“Era? Ele não ficou popular?”

“Bem, ele sofreu um acidente de avião.”

As orelhas de Applejack murchavam.

Rainbow não sabia o que era um avião, mas ela já viu um acidente de carruagem, que poderia ser realmente terrível.

“Ele era o favorito do meu pai. Disse que tinha visto ele uma vez em uma apresentação. Sua última, provavelmente.”

“Bem, você e seu pai partilhavam de um bom gosto por música então.” Applejack sorria.

Tomas não respondia, ao invés disso seus dedos começavam a bater agitados no volante. Rainbow voltava a bater a cabeça lentamente na porta.

“Qual é o problema dela?” Tomas se atrevia a perguntar.

“Ou você, ou a música. Provavelmente ambos.” Applejack dizia.

“Uau, que honesto.” Tomas ria.

“Claro, isso é o que eu sou, o elemento da honestidade.”

“Elemento do que?” Tomas olhava para a pônei laranja.

“Honestidade. Eu e minhas amigas representamos diferentes elementos da harmonia, ou amizade, ou algo assim. Como eu disse, eu sou da honestidade, Rainbow Dash é da lealdade-“

Ao mencionar o seu nome, Rainbow gemia.

“-Fluttershy é o da bondade, Rarity da generosidade, Pinkie Pie do bom humor e Twilight da magia.”

“Uau, vocês são reais?” Tomas não podia fazer nada senão sorrir para o ridículo.

“Sim. Nós salvamos Equestria, muitas vezes.”

“Eu não diria muito, Dash. Talvez três ou quatro.”

“Sim, nós salvamos Ponyville duas vezes e facilmente, que é muito!”

Tomas deixava escapar um sussurro. “Então vocês seriam super heroínas?”

“Não.” Applejack começava.

“Pfft, sim, claro que somos. Somos as grandes heroínas de Equestria! Bom, diferente das princesas, mas elas são como, tipo Deusas, então não contam.”

“Você sabe o que acontece com os heróis que ficam se gabando demais, certo?” Tomas se virava para as pôneis.

Applejack se virava para Rainbow, que dava de ombros. “Se tornam grandiosos?”

“Não, acabam convencidos e derrotados.”

As orelhas de ambas as pôneis murchavam, olhando para longe de Tomas.

“Nada pessoal. Apenas indicando um fato, se estou permitido a acreditar em meus velhos gibis de estória em quadrinhos.”

“Bem, é que isso abre as feridas. Provavelmente você não sabe como Tirek foi derrotado.”

Tomas balançava a cabeça. “Não. Apenas que um dia eu estava cuidando de todos os pôneis em Oasis, então na manhã seguinte eu acordei com todos se sentindo melhor. Eles não me deixavam em paz por uma semana.” Ele olhava para frente.

O veículo dava solavancos, com o banco rangendo em um único som entre os três.

“Então, eu presumo que você não vai falar como ele foi derrotado, huh?” Tomas perguntava, incapaz de esconder sua curiosidade.

“E quanto a você? Estamos aqui para buscar a verdade sobre seus feitos.”

“Não são meus feitos, isso é culpa dos pôneis de Oasis.”

Applejack sorria. “Bem, eles com certeza acreditam em você.”

“Eu apenas fiz o que tinha que fazer, nada mais.” Tomas dizia, então ficava em silêncio.

Enquanto eles continuavam, a condição da estrada ia piorando, finalmente sacudindo Rainbow para fora de seu tormento.

“Que raios de estrada é essa?” Rainbow perguntava, pulando do banco.

“A estrada está húmida, já que estamos chegando perto da represa,” dizia Tomas, olhando por cima novamente. Ele apontava para frente, com as pôneis observando, até avistarem uma grande construção ao lado de um rio. “Aqui estamos, essa é a represa.”

“Qual é o nome dela?” Perguntava Applejack.

“Eu disse que é uma represa.”

“Eu sei disso! Eu quis dizer que normalmente represas recebem o nome de algum pônei em homenagem.”

Tomas seguia com o veículo até a única entrada do local, parando com ele no estacionamento.

“Bem, eles nunca nos disseram quando construíram. Apenas que nós estaríamos recebendo um terço da energia, se eles também pudessem usar o rio The Little Meanie.”

Rainbow Dash deixava escapar uma risada. “Você acabou de dizer The Little Meanie?”

Indiferente, Tomas olhava para ela. “Sim, o nome desse rio é The Little Meanie, que se interliga a outros, o maior rio fica a centenas de quilômetros de distância.”

Rainbow não podia fazer nada senão perguntar. “Então como é chamado o outro rio?”

Tomas piscava. “The Big Happy.”

Applejack também se unia aos risos, ambas pôneis caíam em um ataque de risos no banco ao lado dele. Tomas, por sua vez, olhava para elas, confuso.

“Eu nunca entendi vocês pôneis.” Tomas saía do carro, fechando a porta e caminhando até a parte da frente.

Rainbow gritava pela janela aberta. “Ei! Como saímos dessa coisa!”

“Tem uma maçaneta perto da manivela que você usou para abaixar o vidro da janela.”

“Aonde?” Rainbow perguntava.

Tomas suspirava, caminhando até a porta e apontando para o interior. “Aquela ali.”

“Essa?” Rainbow puxava a alavanca.

“Sim, mas não é assim que abre.” Tomas esperava. “Não, não, do outro jeito, assim não abre!”

“Estou tentando de todas as maneiras possíveis!”

“A porta está trancada?”

“Eu que sei? Diga você.”

Neste ponto, Applejack pigarreava atrás de Rainbow, sem que ela notasse.

“Veja se tem um botão com uma marca vermelha. Vermelho significa que está destrancado.”

“Vermelho?”

“Exato, você vê alguma coisa assim?”

“Não? Talvez? Olha, abre você do lado de fora, ok?”

Tomas usava a maçaneta.

“Não dá, está trancada.”

“Então destranca!”

Antes que Tomas pudesse explicar que as chaves estavam do lado de dentro, Applejack cutucava sua amiga no ombro. Entendendo a dica, Rainbow de afastava, esperando para ver o que sua amiga iria fazer. O que nem ela ou Tomas esperava, no entanto, foi ela saltar para fora da janela, pousando com seus cascos em um sorriso orgulhoso. Nem mesmo seu chapéu mudava de posição enquanto ela fazia uma parábola no ar.

“É isso aí,” Tomas dizia, jogando as mãos para o ar e caminhando na direção da represa.

Rainbow rapidamente seguia os passos de sua amiga e dava um salto para fora da janela, suas asas abriam enquanto ela deslizava até Tomas e Applejack, se aproximando da porta.

Tomas parava, voltando-se para as duas pôneis enquanto uma olhava para ele, e a outra olhava diretamente ele enquanto planava no ar.

“Agora, há algumas regras de conduta que nós precisamos seguir antes que vocês coloquem seus cascos lá dentro.

“Regras de conduta? Tá falando sério?” Rainbow perguntava.

Tomas colocava sua mão na cabeça de Rainbow, e sempre de maneira tão gentil a empurrava para o chão.

“Mas o que…” Rainbow questionava, insegura de como ele fez aquilo.

“Sim, regras de conduta. Primeiro, nada de voar lá dentro. O pônei que trabalha na represa tem papeis e documentos espalhados por toda parte. Uma batida da suas asas e ele vai te prender na parede.”

Com isso, Rainbow rapidamente dobrava suas asas, as aconchegando.

“Outra coisa, se ele perguntar se vocês querem testar alguns de seus experimentos, digam que não.”

“Não?” Applejack perguntava.

“Exato. Metade dessas coisas são perigosas, e maluco do jeito que ele é, não vai considerar a segurança dos outros.”

“Esse cara me parece obsessivo pelo trabalho. O que ele faz aqui?”

Tomas beliscava o nariz. “O nome dele é Short Circuit, e é o único pônei qualificado para operar a represa. Ele mora, trabalha, e dorme aqui. Quanto a esse último, não fiquem vagando por aí, porque se vocês acharem o quarto dele podem acabar não saindo vivas.”

Ambas pôneis engoliram seco.

“E por último, enquanto você chegarem a perguntar a ele sobre seus…problemas, nunca, e eu digo nunca deem risada de suas coisas aqui. Ele literalmente morreu de trabalhar em cima delas várias vezes, então ele tem muito… temperamento.

As pôneis olhavam uma para a outra, então Rainbow falava, “O que exatamente você quer dizer?”

Tomas se abaixava na altura dos olhos da pégasos azul.

“Quando ele tinha cinco anos, se casou com a torradeira da mãe dele.”

        “…”

        “…”

        “…”

“Ele não está brincando.” Dizia Applejack para Rainbow.

“Eu sei, e isso é o que mais me assusta,” Rainbow respondia, então rapidamente acrescentava.

“Nã-não que eu esteja com medo ou algo assim, mas isso é ridículo.”

Applejack, diferente dela, estava curiosa. “Algo que você disse antes Tom, sobre este cara. Ele está morto?”

“Sim, eu achei ele morto várias vezes. Tive que fazer massagem cardíaca nele ou desligar o que quer que tenha grudado nele com o choque.

“Você só pode estar brincando.” Rainbow dizia.

Applejack olhava para Tomas de maneira severa, com ele olhando de volta, então seus olhos arregalavam.”

“Dash, ele não está brincando.”

“O que?!” Dash recuava um passo. “Como pode um pônei morrer várias vezes assim, e apenas voltar a vida?”

“Eu nunca disse que ele estava bem. Por isso afirmei que é maluco.”

“E você acha que é sábio confiar a ele a operação desta represa…?” Applejack levantava uma sobrancelha.

“Porque independentemente disso, ele é bom no que faz. Ninguém mais queria morar aqui, então enviaram ele.” Tomas ficava novamente de pé. “Agora vamos entrar. Eu quero terminar aquela janela logo.”

Tomas se virava e abria a porta. Rainbow e Applejack tentavam um olhar hesitante uma para a outra, e logo foram atrás dele.”

“Oh, certifiquem-se de se descarregarem,” Tomas dizia, e então tocava seus dedos em uma haste de cobre saindo do chão.

Ambas pôneis olhavam confusas, mas fizeram o mesmo com seus cascos.  Rainbow sentia uma leve sacudida estática.

O humano não estava brincando quando disse que haviam papeis por todos os lados. Isso lembrava ambas a velha biblioteca de Twilight, com papeis e documentos espalhados. Haviam teorias, fórmulas, projetos em toda a parede, armários e mesas. Não havia uma parte limpa e desocupada.

Onde não haviam papeis, haviam estranhos aparelhos, e eletrônicos dissecados.

“Oh, oi – olá sherife, olá!”

“Sherife?” Rainbow perguntava.

“Nós estávamos falando sobre você!” A voz dizia novamente.

“O que sobre mim?” Rainbow perguntava.

A voz parecia ignorar ela. “Essa é Britt, uh, Britt Ponset.”

As orelhas de Applejack esticavam. “Britt Ponset? Eu conheço esse nome!”

Tomas e as duas pôneis continuavam caminhando pelos corredores, o tempo todo a voz surgia e conversava com ela mesma.

“Como é isso?” “Está certo.” “Você ouviu falar dele, não? Ele é o Six Shooter.”

“Eu sabia! É o Six Shooter!” Applejack gritava.

“Quem?” Tomas perguntava.

“É um programa de rádio, meu favorito. Nós ouvimos toda semana, e adoro dormir com meu rádio sintonizado nessa estação. Bem, isso até Tirek arruinar a estação. Essa deve ser nova!” Applejack estava eufórica, procurando freneticamente pelo rádio.

“Bem, isso é engraçado, porque tenho certeza que essa é a voz do Short Circuit falando.” Tomas olhava em volta.

Um flash de luz brilhante chamava a atenção deles, e os três corriam na direção dela. De pé contra uma mesa, estava um pônei cor de pêssego com crina e cauda amarelo brilhantes, em meio a um trabalho de reconectar fios em um tipo de caixa.

“Oh, claro, claro, prazer em conhece-la senhoria Ponsett.” Olá.”

“Isso não soa como Jineigh Stewart, no entanto.” Applejack fazia beicinho.

“Isso porque não é ele. É o Short Circuit, fazendo sabe Deus o que,” Tomas dizia, se aproximando do pônei.

Havia um súbito flash brilhante, junto com as contrações musculares do pônei, sua perna direita pisando em um movimento nervoso.

Ele ficava em silêncio por alguns segundos, então o pônei continuava o trabalho, com o fato que agora ele estava perto de gritar.

“E agora Fleetfoot assumiu a liderança, com Soarin correndo para alcança-lo enquanto Spitfire continua perdendo posição. Eles estão se aproximando da última curva agora, a qualquer momento nós poderemos ver… sim, sim! E lá vai ela, girando ao redor de Soarin e agora vindo direto atrás de Fleetfoot!”

As orelhas de Rainbow levantavam. “Ei, essa é a corrida semanal dos Wonderbolts! Céus, eu esqueci sobre isso! Aumenta! Aumenta!” Agora era Rainbow procurando pelo misterioso rádio.

“Não, não, volta para o Six Shooter! Eu não quero perder! Big Mac vai querer falar sobre isso quando eu voltar para casa, e eu terei que esperar voltar ao ar!” Applejack também procurava.

“Não tem nenhum rádio,” Tomas dizia, sem graça.

“Então como…” Rainbow dizia, olhando para Short Circuit em seguida.

“Spitfire está tentando com dificuldade, será que ela consegue? Ela pode ulrapassá-lo de novo? Sim! Sim! Lá vai ela!” O pônei estava agora gritando, o tempo todo mexendo com a fiação enquanto ele continuava o trabalho, nem mesmo percebendo que estava falando em voz alta.

“Ele é o rádio.” Tomas dizia.

“O que…” Ambas pôneis falavam ao mesmo tempo.

“Como cargas d’água ele faz isso, eu não tenho ideia, mas nós precisamos que ele pare.” Tomas andava ao redor do pônei, analisando os fios que ele tinha em seus cascos.

O tempo todo, o pônei continuava com o final da corrida, para a alegria de Rainbow.

“Podemos pelo menos sintonizar Jineigh Stewart de novo?” Applejack perguntava.

Tomas olhava para a pônei laranja, então para baixo, em Short Circuit. Ele rapidamente batia na cabeça do pônei, cortando a corrida.

“Oh, claro, claro, vejo você no sábado, Sherife!” “Hahaha”

“Obrigada!” Applejack dizia, ouvindo atentamente.

Rainbow deixava escapar uma bufada, enquanto Tomas acenava sua mão na frente do rosto do pônei. Short Circuit empurrava a mão humana, focando em seu trabalho. Tomas suspirava, então usava uma mão para alcançar o plugue e desconectar o aparelho da tomada na parede.

Imediatamente havia um alto estalo e Short Circuit era arremessado para trás, o aparelho em que ele estava trabalhando soltava fumaça. Applejack e Rainbow corriam para checar o pônei, enquanto Tomas apenas olhava em confusão.

“Uau, isso foi desagradável,” Dizia Short Circuit, com fumaça saindo de sua boca enquanto ele falava.

“Desculpe Circuit, mas nós precisamos da sua ajuda.”

“Nós? Nós quem?” O pônei olhava as duas amigas. “Pôneis? Você trouxe outros pôneis aqui?! Descarregaram a energia estática de vocês? Carga estática em um ambiente sensível pode ser perigoso.” Circuit examinava as pôneis, passando o casco na crina de Rainbow.

“Ei, tire seus cascos do meu cabelo!” Dizia Rainbow.

“O que Rarity não faria para ouvir isso de você.” Applejack ria.

“Sim, Circuit, nós nos descarregamos antes de virmos aqui. Agora precisamos-“

“Você checou elas pra ver se não são insetos? E quanto as câmeras? Há alguma embaixo do chapéu dela?” Circuit pegava o chapéu de Applejack e olhava embaixo.

Applejack agarrava seu chapéu de volta, então colocava em sua cabeça. “Eu não tenho botão de desligar, se é isso que você está pensando!”

“Sim, e também não somos changelings!” Rainbow protestava.

Circuit rolava seus olhos. “Claro, agora posso ver o quão óbvio isso é, com a maneira como vocês apenas entram sem ser convidadas e com cheiro de sujeira e nuvens. Changelings não imitam nesse extremo, e seriam muito mais discretos tentando chegar aqui.”

As pôneis olhavam para Tomas com sobrancelhas levantadas, o humano respondia com um de seus dedos indicadores girando ao redor da orelha.

“Espere, então com o que você está preocupado?” Perguntava Applejack.

“Espiões!”

 Applejack rolava os olhos, enquanto Rainbow Dash olhava hesitante os arredores.

“Por que espiões estariam interessados em suas coisas?” Rainbow perguntava.

Circuit fazia uma careta. “Você ficaria surpresa. Eu tive muitas invenções roubadas, razão pela qual me voluntariei em trabalhar nesta bacia de poeira.”

“Também pelo fato de você ter uma investigação criminal quanto ao desaparecimento de um vendedor,” Tomas acrescentava.

“EI! Eles não podem provar nada! Além do mais, um pônei vendedor é o disfarce perfeito para alguém entrar na sua casa e roubar suas ideias.”

Short Circuit caminhava até a sua engenhoca ainda soltando fumaça.

“Além disso, outros pôneis vieram, me fazendo todas aquelas perguntas do tipo ‘como está a segurança da represa?’ e ‘Como estão os níveis de energia?’ e vindo com qualquer outro tipo de desculpa achando que podem entrar. Bah! Eles nunca entrarão aqui! Sei do que estão atrás!”

Tomas suspirava. “Circuit, eles provavelmente são apenas fiscais da companhia de distribuição elétrica, querendo se assegurar que este lugar está seguro e operacional.”

Circuit acenava um casco. “Bah, não faz sentido. Eles sabem muito bem que não tem nada para se preocuparem com esse lugar e comigo.”

Circuit percebia um cheiro de queimado, e logo a caixa em que o pônei estava trabalhando ia em chamas. Tomas, já preparado, pegava o extintor ao lado dele e corria para apagar o fogo, enquanto Circuit apenas ficava de pé, ignorando.

“Claramente, isso é coisa de espião.”

Short Circuit se afastava, com cada terceiro passo fazendo um barulho mais alto em seus cascos do que os demais. A atenção das duas pôneis era atraído longe da agitação do som estranho, para aquilo que elas observavam surpresas. A perna esquerda traseira do pônei era batida e curta, então ele tinha um sapato feito na medida para que pudesse caminhar de maneira uniforme.

“Elas sempre olham os outros desse jeito?” Circuit perguntava a Tomas.

Tomas colocava o extintor no chão, batendo na camisa para tirar o pó branco.  “Na verdade, sim. Provavelmente olhando para sua perna bizarra.”

“Hmm, como se elas não tivessem visto nada que nem isso antes.”

“Circuit, nenhum pônei se parece com você, mas mudando de assunto, você ainda tem energia?”

“Claro que sim.”

“Então por que a cidade ficou às escuras?”

Circuit batia seu casco na caixa, sorrindo. “Eu precisava desviar parte da energia para um projeto, e como eu tive problemas na última vez para cortar a força de lugar nenhum, eu desviei de Oasis que era a única cidade próxima.

“Isso faz sentido.” Tomas dizia.

“Faz?” Rainbow perguntava.

“Não em tudo. O que você estava fazendo dessa vez, Circuit?”

O pônei irradiava em alegria, esfregando uma caixa de metal gentilmente.

“Com isso! Eu estava assando uma batata,” ele dizia, abrindo a porta para revelar uma batata em seu interior.

Todos olhavam em silêncio.

“E em cinco segundos,” Circuit acrescentava, então tirava ela fora e dava uma mordida.

“Tudo bem, isso é legal,” Rainbow dizia. “Você tem alguma coisa que possa me fazer mais rápida?”

Circuit sorria.

“Não, Circuit, você não vai fazer nenhuma experiência nela. Não posso voltar para Oasis com uma pônei a menos, do contrário a Princesa vai querer minha cabeça.”

“Oh, bem, e que tal se-“

“Não e ponto final. Reative a força, por favor.”

“Tá bom, tá bom.”

Short Circuit passava o casco sobre seu rosto, espalhando sua crina. Ambas pôneis soltavam um suspiro coletivo, observando uma pequena protuberância na parte superior da testa dele.

“O que vocês tem?” Circuit perguntava, vendo os olhares surpresos delas.

 “Elas apenas perceberam que você é um unicórnio.”

“Era.”

“Você não deixa de ser uma espécie só porque perdeu parte de seu corpo.”

“E você não deixa de ser um alcoólatra só porque está sóbrio.”

Tomas franzia. “Apenas desvie a energia para Oasis de novo!”

Tomas se sentava em uma cadeira, lendo um livro enquanto Shor Circuit começava a trabalhar para restabelecer a energia.”

“Acontece que, quando eu tirei uma válvula para colocar outra, eu meio que apaguei o dique inteiro. Então agora tenho que consertá-la, e isso vai levar um tempo.”

Applejack deixava escapar um suspiro. “Quanto tempo?”

“Oh, não sei, pode ser cinco minutos, ou até cinco dias.”

“Dias?” Dash resmungava.

Short Circuit dava de ombros, continuando a mexer na pilha de partes eletrônicas.

“Então, Short Circuit.”

“Me chame apenas de Circuit.”

“Por que não Short?” Rainbow perguntava.

Circuit levantava uma sobrancelha.

“Oh… certo…” Rainbow olhava a perna curta dele e voltava a ficar em silêncio.

Applejack ria um pouco. “Circuit, o quão bem você conhece o Tom?”

“O bastante para não gostar dele.”

Rainbow piscava. “Espere, você também não gosta dele?”

Applejack olhava para sua amiga, mas ficava em silêncio.

“Ele é um mané, sempre foi,” Circuit dizia, “Sem mencionar que é um viciado em trabalho também, e um alcoólatra a noite.”

“Então ele tem problema com bebidas?” Applejack perguntava.

“Digamos assim. Os tolos de Oasis pensam o contrário e tentam ignorar isso.”

A testa de Applejack franzia, “Me parece que Sunny sabia sobre isso, e aquele outro pônei, uh, Match Junior?”

“Match Junior? Eu me lembro dele. Seu pai tentou me matar uma vez.”

“O que?” Applejack perguntava.

Circuit procurava uma peça de metal com lâmpadas nele, mas quando ele tocava, o objeto quebrava em pedaços. Ele jogava o estilhaço de volta na pilha e continuava procurando por outra.

“Sim, há muito tempo.” Circuit suspirava em meio às lembranças.

“Mas de volta ao assunto,” Rainbow dizia, “Qual é o seu problema com ele?”

“Como eu disse, ele é um viciado em trabalho de dia-“

“E um alcoólatra de noite, isso já entendemos.” Rainbow cortava ele. “Então por que?”

“Porque ele está machucado, e quando trabalha não é suficiente para preencher a garrafa vazia.”

Ambas pôneis olhavam para Tomas, então voltavam para Circuit.

Em um tom abafado, Applejack perguntava, “Ele se machucou como?”

“Sei lá. Ele não fala comigo sobre isso, e eu não pergunto.”

“Mas pelo menos já tentaram ser amigos?”

“Claro, claro. Mas ele nunca me deixa usar algum produto nele e nem ligar máquinas nele.”

Rainbow rolava seus olhos. “Por que será.”

“Então me diga, você acredita sobre o que ele fez pela cidade?” Applejack perguntava.

Circuit parava de olhar para a pônei.

“Depende sobre do que você está falando.”

“Bem, ele ajudou um monte de gente quando Tirek invadiu a cidade.”

“Claro que ele fez isso.”

“Espere, mesmo?” Rainbow perguntava.

“Sim, sim, ele me salvou também.”

“E ainda assim você não gosta dele?”

Circuit acenava. “A única razão dele ajudar é porque isso faz ele acreditar que ele não é todas as coisas que de fato ele é,” Circuit puxava sua crina para cima. “Além do mais, não posso perdoá-lo por fazer isso comigo.”

Applejack olhava a protuberância, que uma vez foi um chifre de unicórnio.

“Espere, Tomas fez isso com você?” Rainbow perguntava, olhando para o humano.

Tomas continuava lendo o livro, mudando para outra página.

“Bem, não de propósito, mas ainda sim.”

“Como?”

Circuit voltava para a pilha de equipamentos, e com um “aha!” ele puxava pra fora outra peça de metal com uma lâmpada sobre ela, aparentemente não prestes a explodir como a outra.

 Ambas pôneis seguiam o pônei enquanto ele caminhava até a parede onde havia um grande painel de controle.

“Do lugar de onde ele veio, coisas de sua posse tendem a manter emoções e sentimentos, porque humanos são materialistas.”

“O que?”

Circuit olhava para Rainbow. “Apenas como eu disse. Objetos de sua posse guardam emoções e sentimentos. Isso é raro em Equestria, mas não para a espécie dele. Como unicórnio, você é capaz de sentir essa energia quando toca em tal objeto.”

“O que você tocou?”

“Uma argola de ouro.”

“O que?”

“Ele chamava de anel. Aparentemente serve para encaixar no dedo dos humanos. Algum tipo de objeto da moda deles eu imagino. De qualquer forma, eu precisava de algum ouro para um projeto e ele me deu aquele anel, dizendo que não tinha mais nenhum uso para ele. Mas quando eu fui pegar ele com meu chifre…” Circuit pausava por um momento, olhando para o humano de longe.

“Ele fez alguma coisa errada, e o que quer que tenha sido, machucou ele e outros também. Toda a energia resultante de dor e arrependimento foi depositado naquele anel, porque ele era muito apegado a ele, e quando eu toquei nele, fui inundado com as emoções. Foi tanto, que meu chifre quebrou, e ele me levou às pressas para o médico. Oasis não é uma cidade em expansão, não tinha um hospital de verdade. Apenas um médico. Ele salvou minha vida, mas eu perdi meu chifre.”

Rainbow e Applejack olhavam uma para outra, com as orelhas murchas.

“Você ainda tem o anel?” Applejack perguntava.

“Não, Tomas pegou de volta e jogou em um rio.”

Com aquelas palavras, Circuit rastejava para debaixo do painel de controle e começava o trabalho.

As duas pôneis se afastavam alguns passos de Circuit, murmurando entre elas, “Então, o que você acha Rainbow?”

“Acho que precisamos dizer a Twilight o mais rápido possível sobre isso. Vai saber o que mais ele possa estar escondendo que eventualmente venha a machucar mais pôneis?”

Applejack acenava. “Bem como também aquele sentimento que o está devorando por dentro. Não consigo acreditar que morando aqui por dez anos e ele não se abriu com ninguém.”

“Bem, tem o Bob.”

“Verdade. Talvez podemos conversar com ele?”

“Tirando o fato que ele não pode falar, lembra o que Twilight disse? Ele não tem língua.”

Applejack dava de ombros. “Nem me lembre. Não quero nem imaginar como isso aconteceu.”

“Como perder um chifre?” Rainbow olhava para Circuit, que estava apenas com suas pernas traseiras fora do painel de controle.

“Esta cidade está cada vez mais deprimente, mais do que qualquer outra que visitamos.”

“Como o prefeito disse, a cidade está cheia de assentados.”

Applejack rolava seus olhos. “Ele não disse desse jeito.”

 Short Circuit arrastava para fora do painel, e então colocava um par de óculos.

“Muito bem, vamos bicudar o porco!”

“O que?” Applejack perguntava, não vendo nenhum animal.

Tomas se juntava aos três enquanto Circuit batia seu casco em um botão. Então tudo ganhava vida. Luzes se acendiam, mostradores indicavam o fluxo da corrente. As pôneis estavam tão concentradas vendo tudo aquilo ganhar vida, que elas falhavam em ver os pelos no corpo de Circuit se levantarem. O pônei começava a gargalhar loucamente, seus óculos rachavam. Enquanto isso, Tomas observava e rapidamente agarrava as pôneis e corria.

“Ei! O que foi!” Applejack gritava, sacudindo seus cascos enquanto Rainbow amolecia.

“Temos que sair daqui antes que tudo exploda!” Tomas gritava, saindo pela porta.

Ele corria para o lado oposto do carro, soltando as pôneis antes de se entrincheirarem e se cobrirem. O chão começava a tremer, e o veículo balançava. De repente, tudo parou. Tomas arriscava uma espiada pela frente, depois pela direita, e em seguida houve uma forte explosão com alguma coisa sendo arremessado do telhado, voando para longe.

Ambas pôneis trocavam olhares.

“Mas o que foi aquilo??” Rainbow gritava.

Foi nós vivermos para respirarmos mais um dia.” Tomas se levantava, tirando a poeira de sua roupa.

“Ele está bem?” Applejack perguntava.

“Provavelmente. Vamos voltar para a cidade. Já tive muita agitação para um dia.”

Tomas abria a porta do veículo, permitindo que as duas entrassem, rapidamente fazendo o mesmo. Com um rugido, o veículo voltava a vida e eles saíam, retornando para a cidade.

Eles ficavam em silêncio por vários minutos, com Tomas concentrado na estrada.

“Então, aquilo não teve sentido nenhum pra mim.” Rainbow deixava escapar.

“Sim, quase nada por aqui tem.”

“Como ir em missões aleatórias, apenas para retornar horas depois sem saber se deu certo?” Applejack arriscava.

“Por aí.”

Silêncio

“Essa cidade é uma droga.” Rainbow protestava.

Tomas deixava escapar uma risada. “Concordo.”

O veículo seguia até a frente da hospedagem de Sunny, estacionando, e desligando a ignição.

Rainbow soltava um bocejo, esticando suas asas. “Não voltamos ainda?”

“Sim, dormiu bem?” Applejack perguntava em tom de brincadeira.

Rainbow não notava o tom da amiga. “Oh sim, eu sempre durmo bem.”

Tomas saía do carro, esticando os braços ao redor dos ombros enquanto ele olhava para a hospedagem. Ele podia claramente ouvir o rádio ligado, que era bom sinal. No entanto, a viagem para a represa e o retorno durou cerca de quatro horas. Tinha passado do meio dia e ele estava pronto para o almoço.

“Bem, estou indo almoçar. Vocês duas vão… o que quer que vocês farão,” Tomas dizia, subindo os degraus.

Ambas pôneis pulavam para fora da porta ainda aberta, com Applejack tendo a cortesia de fechar a porta antes dela trotar para alcançar o humano. Rainbow começava a segui-lo, mas então olhava de volta para a estranha carruagem, ou automóvel, como Tomas o chamava.

O tempo não tinha sido muito amigável com o veículo. Enquanto a maioria das carruagens eram feitas de madeira, essa parecia confeccionada com algum tipo de metal, e havia marcas de ferrugem na parte inferior. Ela percebia que tinha uma marca em um pequeno buraco, não maior do que uma moeda.

Descamado e desbotado pelo sol, as letras “baker contratante” ainda estavam um pouco visíveis com tinta preta, enquanto a tinta branca tentava cobri-las, ao mesmo tempo que tentava cobrir “e filhos”, mas estava sumindo e lascando ao longo do tempo.

Tanto Rarity quanto Aplejack mencionaram que ele tinha irmãos. Então era um negócio de família? Se era, onde eles estão?”

Os pensamentos de Rainbow se desviavam para a frente do veículo. Um para choque cromado, ondulado e enferrujado se destacava. O plástico na parte superior estava rachado, onde pequenos cabos de plásticos mantinha eles juntos, embora outros pedaços estivessem faltando. No centro, uma pequena placa azul e oval estava escrito FORD com uma letra um tanto extravagante, embora coberta por uma espécie de lente transparente e rachada.

Tinha luzes na frente, duas grandes lentes claras, embora uma delas estivesse torta, envolta por partes plásticas. Finalmente, na parte do capô, onde grande parte do metal branco estava acima de tudo, parecia dentado e tinha muitas marcas de ferrugem onde o metal estava amassado para dentro.

Ela tinha observado falhas suficientes para que ela mesma conseguisse contar…

Ele bateu em alguma coisa com essa carroça… mas em que?

 “Ei, Rainbow, nós vamos almoçar, você vem?” Applejack gritava no topo da varanda.

Rainbow sacudia a cabeça, limpando seus pensamentos, então se voltava para a pônei laranja. “Sim, estou indo. Estava apenas… pensando sobre uma coisa.”

Applejack levantava uma sobrancelha, então dava de ombros. “Bem, não pense muito, ou vai ter dor de cabeça.”

“Há, há.” Rainbow respondia sarcasticamente, trotando até entrar na hospedagem.

Applejack voltava para dentro, mas não sem dar uma rápida olhada no veículo também. Os danos na parte da frente lhe chamavam a atenção e até lhe causavam formigamentos. O que significava ela não sabia, mas a incomodava.

A parte de dentro já estava com quase todos os lugares ocupados. Bob estava agora no bar, limpando uma caneca com um pano em seus cascos. Os três pôneis estavam jogando poker na mesa de sempre (era o mesmo jogo de antes?), e muitos outros pôneis estavam sentados nas mesas, conversando e comendo.

Tomas estava sentado sozinho no bar, pensativo. Rainbow pegava um assento, embora a dois bancos de distância dele. Applejack rolava seus olhos, então pegava o banco vazio, ficando sentada no meio deles.

“Vocês duas precisam de cardápios?” Tomas pegava dois da mesa ao lado dele.

Applejack acenava positivamente, então com agradecimento os pegava, passando um para sua amiga.

“Ei Bob, enquanto elas decidem, eu quero apenas um hambúrguer com batatas fritas.” Bob acenava. “E de bebida quero cidra e o chamado tiro de jack.”

“Já? São somente três horas!” Rainbow dizia.

Tomas olhava para a pégaso. “Qual o problema? De onde eu venho é normal uma ou duas bebidas junto com o lanche.”

Applejack olhava ele, incerta quanto à verdade por trás disso, mas não dizia nada.

Bob retornava com suas bebidas, bem como copos de água para as pôneis. O copo da Applejack tinha inclusive uma fatia de limão ao seu lado.

“Uau, você lembrou? Obrigada pela gentileza Bob.“ Applejack tomava um gole.

O changeling acenava, então entrava na cozinha para preparar os lanches. As pôneis optaram apenas por uma salada cada uma, e Applejack com fatias de maçã.

As duas amigas começavam a conversar, enquanto Tomas bebia sua cidra, o copo com tiro de jack já tinha acabado.

Antes que Bob pudesse trazer a comida, a porta abria na pancada, sacudindo a janela que Tomas ainda estava consertando, frouxamente encaixada.

Dentro da hospedagem entrava cinco búfalos, todos com lenços ao redor de seus focinhos. O búfalo líder, de cor cinza com um chapéu preto, caminhava até o centro do estabelecimento.

“Fiquem todas calmos. Isso é um assalto.”

Applejack soltava um suspiro longo e cansado. Rainbow reconhecia eles, e pela expressão de Applejack ela também. “Longhorn, você nunca vai aprender?”

O búfalo cinza olhava a pônei, então com um grunhido ele arrancava seu lenço do rosto.

“VOCÊ!” Ele gritava para a pônei.

Applejack pulava para fora de seu banco, caminhando até o búfalo.

Eles se chocavam com as cabeças, encarando um ao outro, com os narizes soprando fumaça.

“Ela geralmente reage assim?” Tomas perguntava, bebendo a cidra.

“Eh, nós não temos uma história muito boa com esses caras.” Rainbow dizia.

“Mas você não parece preocupada.”

“Pffft, claro que não. Nós os detemos uma vez, podemos fazê-lo de novo.”

“Não importa!” O búfalo gritava, empurrando Applejack, “nós ainda estaremos roubando este lugar. Derrotar essa pônei será apenas um bônus.”

“Tem certeza sobre isso?” Tomas dizia, girando seu banco para olhar os búfalos. “Digo, vocês podem apenas dar meia volta que nós esqueceremos isso tudo.”

Longhorn olhava para seus comparsas, então voltava para o humano com uma risada, seus companheiros rapidamente o seguiam. “Olhe aqui, macaco, nós estamos no comando agora e não há nada que você possa fazer. Apenas desista e entregue os bits.”

Tomas soltava um suspiro, balançando a cabeça. “Se é assim que vai ser,” ele se virava para Bob, que agora estava de pé atrás do balcão depois de presenciar tudo. “Bob? Quero dois copos de Black Velvet, por favor.”

Mesmo depois da entrada dos búfalos, os pôneis na hospedagem voltavam para seus afazeres, não se importando com o fato de que estavam prestes a serem assaltados. Ouvindo Tomas pedindo bebidas, no entanto, fez todos os pôneis, mesmo aqueles que jogavam poker, ficarem em silêncio. Enquanto Bob servia as bebidas, o pégaso jogador de poker levantava de seu assento e começava a gingar até um piano na parede de trás.

Tomas pegava os dois copos em cada mão e então dava um passo na direção do búfalo.

“Bem, por que não ganhar uma bebida então, de mim?” Tomas perguntava com um sorriso, oferecendo o copo em sua mão direita.

Longhorn olhava a bebida oferecida, então sorria. “Bem, pelo menos este tem boas maneiras!” Longhorn pegava o copo com um casco.

Rainbow observava o pônei no piano se sentando, batendo seus cascos, e então os colocando sobre as teclas do piano. Outros clientes começavam lentamente a rastejar para debaixo das mesas. O que estava acontecendo afinal?

Enquanto isso, Applejack olhava aos horrores Tomas sendo tão amigável com Longhorn. Ela estava pronta para expressar sua objeção quando percebeu o humano com sua mão direita fechada em um punho. Por trás dela Bob fazia um som, puxando alguma coisa debaixo do bar.

Tomas levantava seu copo, e o búfalo brindava com o dele. O búfalo começava a beber, mas Tomas mantinha seu copo no ar.

“Você vai precisar disso.”

Rainbow observava em câmera lenta enquanto os dedos segurando o copo se abriam, deixando o copo cair. Todos observavam, incluindo os búfalos, quando o copo colidia com o chão. Isso deu a Longhorn a visão perfeita de um punho fechado chegando em seu rosto, acertando a mandíbula e o arremessando de costas. O pégaso escolhia aquele momento para começar a tocar o piano.

Os quatro búfalos restantes observavam a forma como o líder fora nocauteado, e então se voltavam para Tomas. Seus olhos em fúria emanavam fogo, eles começavam a alongar seus pescoços, arrancando suas máscaras de pano enquanto o som de estalos das juntas ecoavam pelo bar.

Tomas estalava os dedos.

Applejack arrumava seu chapéu atrás do balcão onde poderia se proteger.

Rainbow rolava seus olhos, pegava a cidra de Tomas e bebia o restante do líquido em uma só golada, e então batia no chão com os quatro cascos ao mesmo tempo.

De trás do balcão, Bob trazia um taco de beisebol, jogando-o sobre seu ombro direito.

Percebendo sua ajuda, o sorriso de Tomas deixava de ser forçado enquanto os búfalos começavam a se aproximar, prontos para a briga.

Justamente quando Rainbow Dash havia pensado que hoje seria um dia entediante, sendo babá do humano, o próprio teve que fazer as coisas ficarem mais interessantes.

Tom-Van

A garotinha e o milagre

A garotinha e o milagre

Uma garotinha foi para o quarto e pegou um vidro de geléia que estava escondido no armário e derramou todas as moedas no chão.

Contou uma por uma, com muito cuidado, três vezes. O total precisava estar exatamente correto. Não havia chance para erros.

Colocando as moedas de volta no vidro e tampando-o bem, saiu pela porta dos fundos em direção à farmácia Rexall, cuja placa acima da porta tinha o rosto de um índio.

Esperou com paciência o farmacêutico lhe dirigir a palavra, mas ele estava ocupado demais. A garotinha ficava arrastando os pés para chamar atenção, mas nada. Pigarreava, fazendo o som mais enojante possível, mas não adiantava nada. Por fim tirou uma moeda do frasco e bateu com ela no vidro do balcão. E funcionou!

– O que você quer? – perguntou o farmacêutico irritado. – Estou conversando com o meu irmão de Manehattan que não vejo há anos -, explicou, sem esperar uma resposta.

– Bem, eu queria falar com o senhor sobre a minha irmã -, respondia a garotinha no mesmo tom irritado. – Ela está muito, muito doente mesmo, e eu queria comprar um milagre.

– Desculpe, não entendi. – disse o farmacêutico.

– O nome dela é Cloudchaser. Tem um caroço muito ruim crescendo dentro da cabeça dela e o meu pai disse que ela precisa de um milagre. Então eu queria saber quanto custa um milagre.

– Garotinha, aqui nós não vendemos milagres. Sinto muito, mas não posso ajudá-la. – Explicou o farmacêutico num tom mais compreensivo.

– Eu tenho dinheiro. Se não for suficiente vou buscar o resto. O senhor só precisa me dizer quanto custa.

O irmão do farmacêutico, um senhor bem aparentado, abaixou-se um pouco para perguntar à menininha de que tipo de milagre a irmã dela precisava.

– Não sei. Só sei que ela está muito doente e a minha mãe disse que ela precisa de uma operação, mas o meu pai não tem condições de pagar, então eu queria usar o meu dinheiro.

– Quanto você tem? – perguntou o senhor da cidade grande.

– Dois bits -, respondeu a garotinha bem baixinho. – E não tenho mais nada. Mas posso arranjar mais se for preciso.

– Mas que coincidência! – disse o senhor sorrindo. – Dois bits! O preço exato de um milagre para irmãzinhas!

Pegando o dinheiro com uma das mãos e segurando com a outra a mão da menininha, ele disse: – Mostre-me onde você mora, porque quero ver a sua irmã e conhecer os seus pais. Vamos ver se tenho o tipo de milagre que você precisa.

Aquele senhor elegante era o Dr. Carlton Armstrong, um neurocirurgião. A cirurgia foi feita sem custos para a família, e depois de pouco tempo a irmãzinha teve alta e voltou para casa.

Os pais estavam conversando alegremente sobre todos os acontecimentos que os levaram àquele ponto, quando a mãe dizia em voz baixa:

– Aquela operação foi um milagre. Quanto será que custaria?

A garotinha sorriu, pois sabia exatamente o preço: dois bits! (Mais a fé de uma criancinha).

Em nossas vidas, nunca sabemos quantos milagres precisaremos.

Um milagre não é o adiamento de uma lei natural, mas a operação de uma lei superior.

Autor: Homero Boechat

O pônei de Oasis – Parte V

ponei-de-oasis

Ilustração: Drason

CLIQUE AQUI PARA LER A QUARTA PARTE

Autor: ROBCakeran53

Tradução: Drason

SINOPSE: Equestria ainda estava sendo reconstruída após a derrota de Tirek, e as seis novas governantas de Ponyville ajudando em sua reconstrução. Tudo mudou de maneira inusitada quando a Princesa Celestia entregou a elas uma carta descrevendo acerca das façanhas realizadas por um único cidadão da cidade de Oasis conhecido como Senhor Baker, e a forma como superou Tirek. Com a missão de descobrir se os relatos eram verdadeiros, as seis pôneis devem ir até a referida cidade para investigar. No entanto, elas irão descobrir que o Senhor Baker não era exatamente quem ou o que elas esperavam.

***

Pela tarde da noite, Senhora Fixit estava cansada depois do dia agitado, e Thomas sugeria que ele, Flutterhy e Rarity partissem para deixar a velha pônei descansar. Durante a caminhada de volta, Thomas decidiu não levar seus equipamentos para que pudessem chegar mais rápido. Com todos cansados, a viagem de volta acabou sendo silenciosa.

Fluttershy continuamente olhava Thomas e Rarity, que parecia ter se saído muito bem conversando com ele na varanda da Senhora Fixit. Mas agora era um silêncio absoluto, que normalmente para a pegasus amarela seria uma coisa bem vinda. Rarity havia mencionado brevemente que Thomas tinha se aberto um pouco na varanda. Talvez aquela fosse a razão por trás do estranho silêncio?

Finalmente, as casas e luzes da cidade já podiam ser vistas de longe, eles estavam há pouco mais de cinco minutos dela agora. Fluttershy imediatamente percebia os ombros de Thomas relaxarem.

“Obrigado.”

Ambas pôneis trotavam com antecedência para acompanharem o ritmo dele.

“Como?” Perguntava Rarity.

“Eu disse obrigado. Você sabe, por ajudar.”

“Sem problemas, querido. Embora você devesse agradecer mais à Fluttershy, ela que fez todo o trabalho.”

Thomas balançava a cabeça. “Não apenas pelos gatos, mas pela Senhora Fixit.” As duas pôneis manifestavam expressões confusas, e Thomas continuava, “Ela não tem muitos visitantes, especialmente que a tratem de maneira diferenciada por ser cega. Foi muito bom vê-la sorrindo novamente daquela maneira.”

“Já lidei com pôneis cegos antes, então sei como pode ser, como eles se sentem.” Fluttershy dizia.

Thomas e Rarity se viravam para Fluttershy, e suas orelhas imediatamente se achatavam perante seus olhares súbitos.

Thomas manifestava uma expressão confusa por um momento, então seu rosto clareava. Ele dava à Fluttershy um olhar de simpatia. Rarity continuava olhando confusa até sua amiga prosseguir.

Fluttershy deixava escapar um suspiro elaborado. “É uma peculiaridade comum que ocorre com pegasus enquanto eles envelhecem. Minha avó ficou cega muito cedo, antes mesmo de eu nascer.”

“Fluttershy, querida, eu não sabia disso,” Rarity dizia, cutucando sua amiga.

“Eu também não sabia que era característico de pegasus.” Thomas colocava as mãos nos bolsos. “Mesmo em um mundo cheio de arco íris e mágica, genética ainda é um problema.”

Novamente ficava um silêncio entre os três enquanto eles se aproximavam da parte frontal da loja, até Thomas perceber alguma coisa de longe.

“Eu devo estar vendo coisas.” Eles caminhavam mais próximos, com Thomas esfregando seus olhos. “Não acredito.” Repentinamente ele corria até sua loja, onde as duas pôneis apenas observavam uma carroça estacionada na frente dela.

Enquanto Thomas corria para dentro, Rarity e Fluttershy olhavam a carruagem de perto com uma placa na lateral dela.

Gasolina e Óleo do Match

Rarity jurava que reconhecia aquele nome. Julgando pelos barris de metal que se alinhavam na carroça, ela podia apenas imaginar que serviam para estocar óleo e outros fluídos.

Havia então uma gargalhada vindo de dentro, de quem Rarity pensava ser de Thomas. As duas pôneis entravam na loja, e foram recebidas por uma… estranha visão.

Thomas tinha um pônei terrestre vermelho em seus braços, suas pernas traseiras chutavam o ar enquanto Thomas o abraçava forte.

“Tom! Não estou respirando!” O pônei implorava.

“Sem chances! Faz um ano que não te vejo, então você chega aqui dizendo que vai se casar e que ainda está esperando um filho? Não se faz isso com um de seus amigos, Júnior!”

Finalmente, com as bochechas vermelhas, Rarity deixava escapar uma tosse e os dois rapidamente se recolhiam na presença das duas pôneis. O pônei vermelho cruzava suas pernas de vergonha, e então Thomas o soltava em seguida.

“Rarity, Fluttershy, este é Matchbox Junior, ou apenas Junior, como costumamos chama-lo. Junior, elas estão aqui para…” Thomas levantava uma sobrancelha. “Na verdade é complicado, mas elas me ajudaram com os gatos da Senhora Fixit.”

O pônei terrestre, Junior, ficava de pé enquanto sacudia sua cabeça. “Prazer em conhece-las senhoritas. Só espero que o que quer que Thomas tenha feito para trazer a ira dos elementos da harmonia não seja tão severo…”

“Espere, você sabe quem nós somos?” Rarity era pega de surpresa.

“Mas é claro, você salvaram Equestria muitas vezes, isso sem mencionar que a minha esposa tem a coleção completa das suas roupas de outono.”

“Mesmo?”

“Você parece surpresa.” Thomas entrava na conversa, com uma bandeja de canecas em uma mão e uma garrafa de âmbar líquido na outra.

“Bem, é que nem sempre somos reconhecidas,” Rarity dizia, percebendo a garrafa de bourbon.

Thomas pegava uma cadeira na mesa derramando o Bourbon em cada caneca. “Bem, eu não reconheci, e tenho certeza que noventa e nove por cento desta cidade também não, mas enfim.”

“Então, como vocês dois se conheceram?”

Fluttershy se sentava na mesa perto de Thomas, enquanto Junior na frente de Rarity. “Bem, eu e meu pai costumávamos morar aqui. Eu cresci nesta cidade,” Junior dizia.

“Sim, os sortudos descobriram ouro negro há uns vinte quilômetros ao norte de nós,” Thomas interrompia.

Junior rolava seus olhos. “Nós sempre trabalhamos com combustíveis, mas quando meu pai encontrou petróleo há uns seis anos atrás nós nos mudamos para Manehattan para expandir os negócios.”

“O Senhor Senior estava sempre se queixando sobre morar aqui, dizendo que ele queria o melhor para Junior. Bem, eles certamente estão bem melhores agora, não é mesmo?” Thomas dava uma risada para Junior.

O pônei vermelho retribuía com uma rápida risada. “Sim, vamos assim dizer.”

“Ah, chega de ser tão modesto, você é noivo! E está esperando um filho! É hora de celebrar, um brinde!” Thomas entregava uma das canecas ao Junior e em seguida para Rarity.

“Pra mim? Não seria uma ocasião especial para vocês dois?”

“De maneira alguma, vocês duas me ajudaram hoje, e é o mínimo que posso fazer.”

Rarity levitava a caneca com sua mágica, a analisando cuidadosamente.

“Relaxe, tem apenas alguns parafusos nele, eu já limpei.”

Rarity engolia seco, tentando com dificuldade ignorar as manchas que cobriam a parte externa da caneca, e na esperança de não ter que fazer o mesmo com o interior.

Thomas empurrava a última caneca na direção de Fluttershy. “Você também.”

“Oh, um, o-obrigada.” Fluttershy pegava a caneca com os dois cascos dianteiros, dando uma cheirada.

“Um brinde!” Thomas levantava sua caneca, e os demais o acompanhavam. “Parabéns pelos anúncios, e é melhor você dar logo um nome para o bebê antes que eu o faça.”

Rarity e Fluttershy compartilharam uma risada, Thomas sorria enquanto todas as quatro canecas se chocavam juntas, e em seguida eles davam um gole. Bem, as pôneis deram um gole, já Thomas e Junior viraram as respectivas canecas.

“Então, quem é a pônei de sorte? Como vocês se conheceram?” Thomas perguntava.

Junior sorria, “Oh, caramba, é meio embaraçoso.”

“Eu ajudo a organizar o bufê do casamento, então desembucha.”

Thomas derramava para ele e Junior outra porção do Bourbon.

“Bem, faz dois anos que nos conhecemos. Você se lembra quando papai expandiu a fábrica, comprando aquele velho lote que ficava ao lado? Bem…”

“…e então Doc veio correndo para fora da fábrica, com suas garrafas de uísques vazias em um casco enquanto ele as arremessava em mim, com fúria em seus olhos, ‘Droga Tom, se eu te achar na minha adega do licor de novo eu vou te esfolar vivo e te mandar para Zoológico de Canterlot!’.”

Todos os pôneis exceto Fluttershy gargalhavam, a tímida pônei apenas ostentava um largo sorriso. Enquanto a história de júnior conhecendo sua esposa era tocante, a conversa se descarrilava para as palhaçadas que Thomas iria compartilhar com Junior.

Junior estava à beira das lágrimas. “Oh Celestia, eu nunca tinha visto o Senhor Doc tão furioso em minha vida.”

Thomas tomava outro gole em sua caneca. “Ei, é melhor você ser grato por eu levar a bronca no seu lugar. Se o seu velho descobrisse que era você furtando o uísque do Doc ele teria te deserdado!”

O grupo deixava escapar mais uma rodada de risadas, com Thomas sendo o primeiro a se acalmar.

“Por falar nisso, como está o seu pai? Não tenho tido notícias dele. Deve estar em êxtase por saber que vai ser avô.”

O sorriso de Junior desaparecia instantaneamente, movendo seus olhos para baixo na direção de sua caneca vazia. Rarity percebia de imediato a expressão tensa do garanhão.

Por alguns momentos, houve um total silêncio na sala.

“Tom, podemos conversar em particular por um minuto?”

Thomas franzia. “Não vejo porque. Tudo bem senhoritas?”

Rarity e Fluttershy olhavam uma para a outra. “Claro, fiquem à vontade. Foi uma honra vocês dois partilharem suas histórias conosco,” Dizia Rarity.

Thomas ficava de pé, caminhando com uma ligeira oscilação até a porta exclusiva para funcionários. “Vamos no meu escritório, podemos conversar lá.”

Junior caminhava passando através da porta aberta, e em seguida Thomas fazia o mesmo.

Por alguns momentos, o local ficava em silêncio.

“Então, será que aconteceu alguma coisa?”

Fluttershy olhava para sua caneca quase vazia. Ela ainda estava no primeiro copo. “Eu acho que deve ter algo a ver com o pai de Junior.”

Rarity recordava a última hora, sobre como eles estavam contando a história sobre os anos passados. Toda vez que Senior era mencionado, o semblante de Junior mudava, mas ele mantinha a cabeça levantada.

“Oh querida, você acha que…”

Rarity era interrompida pelo som de vidro quebrando que vinha atrás da porta onde os dois estavam.

“Tom! Acalma-se!”

“Acalmar?! Como exatamente você espera que eu me acalme?”

“Olhe, não havia nada que pudesse ser feito-”

“Como assim não havia!”

“Tom, nós não tínhamos mágica!”

“Eu sei disso caramba! O que você acha que eu passei durante aquela semana infernal depois de Tirek ter passado aqui? Esta cidade estava morta, e eu era a única coisa ainda de pé!”

“Tom, não havia nada que você pudesse fazer-“

“Você não tem como saber!”

“Nem você!”

Havia barulho alto de pisões, então de repente a porta foi chutada, abrindo tão rápido que ao atingir a parede fez um estrondo suficiente para deixar o quadro negro torto. Fluttershy e Rarity quase foram parar no teto, e a pura raiva estampada na expressão de Thomas transmitia calafrios.

“Thomas, querido, está tudo bem?”

Ele ignorava Rarity, se dirigindo até a mesa e pegando sua caneca ainda com metade do Bourbon.

“Thomas?” Fluttershy perguntava baixinho.

“A loja está fechada, saiam todos,” Ele resmungava.

“O que?”

Ele se virava para as pôneis. “Eu disse que a loja está fechada! Saiam!”

Fluttershy agachava-se em sua cadeira, se escondendo atrás de Rarity o máximo que podia. Rarity não tinha como dizer se era ela tremendo ou Fluttershy que tremia em cima dela.

“Tom! Não desconte nelas!” Junior passava pela porta.

Thomas se virava para Junior. “Não estou descontando em ninguém!”

“Sim, você está, e ainda por cima gritando com elas seu imbecil!”

“Dá um tempo Junior, apenas saiam todos.”

“Thomas, por favor, tenha calma. Seja qual for o problema eu tenho certeza-“

Thomas interrompia Rarity, arremessando a garrafa de Bourbon na parede a apenas dez centímetros da unicórnio. “NÃO! Você não pode consertar isso, você não pode! Simplesmente acabou! Eu vi meus amigos morrerem no meu mundo, vítimas de violência. Este lugar deveria ser diferente, nenhuma morte sem sentido, uns matando aos outros. Vocês saíram de um linha reta de fantasia minha nossa! Vocês podem voar, usar mágica, então por que ainda morrem?”

Thomas estava ofegante, com as mãos tremendo enquanto as fechava apertando com força olhando para as pôneis. Fluttershy soltava um gemido, os olhos de Rarity umedeciam enquanto ela olhava com dificuldade para ele. Os olhos de Thomas suavizavam, olhando para o que sobrou da garrafa. O líquido escorria entre as tábuas do assoalho, com pedaços de vidro espalhados por toda parte. Ele inclusive observava alguns cacos na cauda de Rarity.

“Eu… eu estou…” a voz de Thomas rachava, seus olhos que antes estavam cheios de raiva agora estavam congelados, suavizados, e se Rarity estava permitida a acreditar, tristes, “…droga.” Os ombros de Thomas caíam enquanto ele se virava para longe das pôneis, arrastando os pés como se estivessem pesados. Ele parava no primeiro degrau das escadas, olhando de volta para as pôneis ainda tremendo, então lentamente subia. Todos se encolhiam enquanto uma porta no andar de cima batia, se fechando.

“Bem, poderia ter sido pior.” Junior se dirigia até a saída. “Vocês duas é bom virem comigo.”

Aquilo nem precisava ser dito duas vezes. Elas praticamente galoparam para fora.

Eles ficaram em silêncio por vários segundos enquanto Junior descarregava um dos barris de sua carroça.

Fluttershy deixava escapar um suspiro antes de falar, “O… o que foi aquilo?”

Rarity ficava surpresa ao ver que Fluttershy foi a primeira a falar, a tímida pegasus ainda parecia pronta para cair em choros.

“Aquele foi o Tom sendo Tom.” Junior empurrava o barril até a varanda.

“Isso não responde a pergunta,” Rarity acrescentava.

Junior suspirava. “O que mais posso dizer, olha que tal caminharmos? Eu explico o que aconteceu, e talvez assim vocês duas possam compreender o que ocorreu lá atrás.”

“Bem, já está muito tarde. Temos que voltar para o hotel de Sunny…” Rarity dizia.

“Então nós caminhamos até lá.” Junior deixava um recibo colado em cima do barril, então junto das duas pôneis, começavam a caminhar lentamente.

“Cerca de duas semanas antes de Tirek aparecer aqui, meu pai ficou doente. No início não era nada para se preocupar, mas foi se agravando quando deveria melhorar. Alguma coisa a ver com o fato de nós estarmos rodeados de muitos produtos industriais na nossa fábrica.”

“Oh nossa…” Fluttershy sussurrava.

“Então, ele teve que ir para o hospital para realizar terapia de quelação. A única coisa que iria funcionar seriam transfusões mágicas induzidas, tenho certeza de que vocês sabem do que estou falando.”

Rarity acenava. “Sim, sou familiar com isso.”

“Ótimo, porque não tenho a menor ideia. De qualquer forma, era tudo baseado em mágica. Bem, ele estava melhorando, o tratamento já estava sendo desnecessário, seus rins voltaram a funcionar, o que resultou em um grande avanço.”

Junior parava na frente da varanda de Sunny, olhando para a porta.

“Então, vocês provavelmente sabem mais sobre os acontecimentos com Tirek do que eu.”

“Bem, sim, sabemos um pouco sobre todos os lugares em que ele passou e os resultados disso.”

“Hmm, sim, vocês estiveram em todos os locais que Tirek invadiu, mas isso foi muito tempo depois dele ter atacado. Por acaso vocês estiveram em uma cidade logo depois de Tirek ter saído dela?”

“Bem, não.” As orelhas de Rarity caíam.

“Foi um desastre. Manehatan estava afundada na sujeira e forçada a comê-la. Nós perdemos eletricidade, água corrente, tudo. Todos os médicos unicórnios tiveram que recorrer a métodos primitivos, mas sem suas mágicas, eles eram placebos em uma ferida aberta. Quando perdemos nossa mágica, o hospital dos unicórnios perdeu sua magia…”

“O tratamento parou…” Rarity sussurrava.

“Nos primeiros dias não foi tão mal, ele ainda estava apresentando sinais de melhora, então acreditei ser o suficiente para mantê-lo. Porém, no terceiro dia, ele começou a ficar pior. Os unicórnios estavam desesperados, trabalhando exaustos, tentando ajudar a todos.”

“O hospital estava superlotado, então eles começaram a priorizar pacientes em estado grave e com idade avançada…”

Ambas pôneis estavam em silêncio, apenas olhando o pônei vermelho.

“Ele tinha sessenta e cinco anos, e estavam checando todos acima de cinquenta.”

“Por Celestia…” Rarity dizia.

“Sim, certo. Nem mesmo as princesas puderam ajudar. Bem, pelo menos três delas não.”

Rarity estreitava os olhos. “O que está dizendo?”

“Nós temos quatro princesas agora, não temos? Sabemos que três foram capturadas, mas onde estava a quarta?”

Rarity e Fluttershy desviaram seus olhares de Junior. Ele não prestava atenção.

“Onde estava a Princesa Twilight Sparkle, quando não tínhamos líder, nem estrutura ou esperança?”

“Junior, você não pode empurrar a culpa para ela! A princesa não foi a causa do que aconteceu com seu pai.”

Junior deixava sair um suspiro. “Sim, eu sei que não. Mas muitos pôneis ainda ressentem a falta de liderança naquela época. Mesmo que ela tenha agido, e os médicos capazes de salvar a maioria dos pôneis.”

“Então, você está dizendo, um, que é por isso que Thomas está tão furioso? Por causa da Twilight?”

Junior olhava para Fluttershy, acenando sua cabeça. “Conhecendo ele? Ele provavelmente está com raiva de si mesmo. Por que? Não tenho ideia.”

“Bem, ele não tem mágica em primeiro lugar. Segundo, ele não foi pego por Tirek?”

Rarity foi pega de surpresa. “Sem mágica e ainda assim não foi pego…?”

Fluttershy dava um passo à frente. “Hum, não, de acordo com os moradores daqui ele sequer estava por perto quando Tirek invadiu.”

Junior soltava um suspiro. “Isso explica então. Bem, melhor nós entrarmos, eu posso pedir para Bob ir lá dar uma mão para Tom. Bob ainda está aqui, não está? Vocês não capturaram ele ou algo assim?”

“Por que faríamos isso?”

Junior abria a porta. “Bem, depois do ocorrido em Canterlot eu imagino que vocês tenham um certo receio de changelings.”

Ambas as pôneis paravam, apenas agora Rarity percebia que uma das janelas perto da porta estava quebrada. “Bob é um changeling?”

Junior passava pela porta, e em seguida a mantinha aberta para que as duas pôneis entrassem.

“Ah, aquilo explica a janela quebrada então, você ou suas amigas devem ter se assustado com Bob e lutado com ele,” Junior dizia, olhando ao redor da sala principal. “Estranho no entanto, todo o resto parece intacto.”

“Isso porque, felizmente, alguns reagiram a tempo antes que alguém ficasse seriamente ferido.”

Os três se viravam para a direção de onde veio a voz, e viram Sunny atrás do balcão, os observando.

“Ugh!”

Ou mais precisamente, observando as pôneis escondidas atrás dos três.

“Garotas? O que vocês estão fazendo aí?” Rarity perguntava, olhando atônita todas as suas amigas juntas ao lado da janela quebrada, então com espanto notava suas orelhas contra o buraco da janela. “Você estavam escutando às escondidas nossa conversa?”

Rainbow Dash exaltava. “O que? Pfft Claro que não. Nós não faríamos algo assim, não é mesmo garotas?”

O focinho de Applejack torcia, com os olhos desviando lado a lado. Pinkie Pie passava um zíper na boca. Mesmo Rainbow Dash ia evitando o olhar, cruzando as pernas dianteiras em seu peito. A única pônei com comportamento diferente era Twilight, com suas orelhas achatadas enquanto olhava para o chão.

Era fácil somar dois mais dois para perceber que a expressão abatida de Twilight foi por ter escutado o que Junior falou dela.

“Ei Sunny, há quanto tempo não te vejo.” Junior caminhava até o balcão, conversando.

Rarity e Fluttershy olhavam uma para a outra, acenando, então Rarity relatou às suas amigas sobre o ocorrido.

“Espere, você disse que ele arremessou uma garrafa em vocês?“ Applejack perguntava.

“Bem, não diretamente em nós, mas na nossa direção, o suficiente para cacos de vidro irem parar na minha cauda.” Rarity continuava escovando sua crina longa, com os pequenos pedaços de vidro caindo em uma pá de lixo no chão.

“Eu sabia que havia algo duvidoso e suspeito com ele,” Rainbow dizia.

“O que quer dizer?” Rarity perguntava.

“Pelo que soou dele, o sujeito é um poço de álcool.”

“Eu não iria tão longe, afinal ele descobriu que um amigo querido faleceu…” Rarity olhava para uma ainda abatida Twilight, “…já passou.”

Fluttershy ouvia atentamente, deixando Rarity tomar as rédeas da discussão. Não havia muito que a pegasus amarela pudesse contribuir para o que Rarity já não soubesse. Na verdade, havia coisas que suas amigas sabiam sobre Thomas que ela não.

“Pelo que aconteceu com vocês duas, eu diria que ele tem um lado bem manchado e problemas para se expressar direito. Eu já lidei com família assim. Beber não ajuda em nada.”

Rainbow suspirava. “Se você me perguntar, eu digo que isso é tudo que preciso saber sobre ele para dizer que ele ganhou um relincho de mim.”

Pinkie Pie fungava um riso com o trocadilho, fazendo Rainbow Dash rolar seus olhos.

“Bem Rainbow, acho que podemos apenas confiar na posição de Rarity. Ela e Fluttershy interagiram com ele. Nós somos apenas o outro lado da história.”

Rarity e Fluttershy acenavam, então olhavam para sua amiga ainda quieta. “Twilight? Querida, você está bem? Não falou nada até agora.”

Twilight pulava, se assustando ao ser o centro das atenções repentinamente. “Oh, o que? Sim, eu hum, estou bem. Vocês duas estavam prestes a me darem seus votos sobre Thomas ser ou não um suposto herói, certo?”

Ambas pôneis acenaram. Twilight trazia o livro maciço que Thomas deu a ela, assim como um bloco de notas. “Certo, o que vocês me dizem? Ele é mesmo um herói e merece receber o maior prêmio de Equestria: a marca da harmonia? Sim ou não?” Pinkie Pie deixava escapar uma bufada.

“Não.”

“Sim.”

Todos os pôneis olhavam para Fluttershy, que agora era o centro das atenções, tentando e falhando em esconder atrás de sua própria crina.

“Sim?? Fluttershy, querida, você não estava na mesma sala com Thomas?”

“Um, sim, eu estava.”

“E você viu como ele foi rude e violento. Alguém assim não poderia possivelmente…”

“Se não fosse pelo Thomas, Senhora Fixit teria morrido.”

A sala caía em silêncio por vários segundos.

Rarity era a primeira a quebrar o silêncio. “Bem, querida, certamente que todos estavam em um ponto áspero, mas não temos qualquer prova de que Thomas realmente fez o que ele disse ter feito pela cidade.”

Silenciosamente, Fluttershy tirava de seu alforje um caderno e o colocava no chão. “Quando Senhora Fixit e eu estávamos sozinhas, nós conversamos um pouco. Ela é uma pônei muito amável para conversar, e tudo que eu perguntava sobre o Senhor Baker era normal.”

“Normal?” Twilight perguntava, levitando o caderno com sua mágica.

“Bem, ela não poderia dizer que ele era perfeito, ele tem falhas que qualquer pônei pode facilmente observar. Apenas porque ele não é como nós, não quer dizer que devemos tratá-lo em um padrão diferente de nós.”

Todas as pôneis olhavam uma para a outra, pensando, enquanto Twilight virava a página do caderno. “Fluttershy, o que é isso?”

Fluttershy sorria. “Isso é o que Thomas estava usando para acompanhar cada pônei na cidade. Sua agenda diária de como ele cuidava de cada um, bem como outras tarefas que os pôneis pediam enquanto ele estava ajudando.”

“Como você conseguiu isso?” Applejck perguntava.

“Ele deixou na casa da Senhora Fixit quando a cidade voltou ao normal. Ela sabia que Thomas estava registrando como e quando ele cuidava dos pôneis na cidade porque ela sempre podia ouvir ele escrevendo com sua audição aguçada, já que ela é cega. Para não mencionar que há vários pôneis idosos na cidade, que tinham que ter uma regular medicação.”

Twilight parava em uma página aleatória, analisando os gráficos desenhados de maneira tosca. O casco, ou possivelmente as mãos do desenhista eram igualmente enfadonhos.

“Como vamos saber que é mesmo a letra dele?” Dash perguntava.

Twilight levitava seu alforje para cima, tirando um pequeno cartão de visitas. Enquanto a maior parte do texto no cartão estava digitado em negrito, a última linha “se vale a pena fazer, vale a pena fazer direito!” estava escrito fora do padrão. Com certeza era fácil afirmar que as letras eram da mesma pessoa.

Applejack olhava por cima do ombro de Twilight. “Sim. Eu vi seu quadro negro na loja, vê essas letras “a”? Era assim que elas estavam escritas lá também.”

Rainbow caçoava. “Certo, certo, então ele escreveu mesmo, grande coisa. Ainda não prova nada.”

“Há alguns gráficos muito bem detalhados, Rainbow,” Twilight dizia. “Se de fato isto é bem preciso…”

Twilight colocava o caderno aberto no centro de suas amigas, esfregando sua cabeça com um casco. “Isso não faz sentido nenhum. Como pode alguém tão volátil ser tão…tão…”

“Gentil?”

Todas olhavam para Fluttershy, que estava segurando o caderno com seus cascos.

“Vocês não se lembram quando chegamos na cidade, como os pôneis estavam tentando proteger Thomas? Por que eles fariam aquilo por alguém que não gostam, que não respeitam?”

As pôneis ficaram em silêncio por vários segundos.

“Eu acho que ele está sofrendo muito. Não apenas pela perda do pai de Junior, mas por causa de algo mais. A triste notícia que ele recebeu hoje provavelmente foi a gota d’água para ele desmoronar.”

“Uau Fluttershy, isso foi…” Rainbow esfregava as costas de sua amiga.

“Muuuuuuuiiito profundo, garota,” Pinkie falava.

“Bem, mudou de ideia então Rarity?” Twilight perguntava.

Rarity olhava o caderno nos cascos de Fluttershy. “Eu… preciso pensar sobre isso um pouco mais antes de dar o meu voto.”

“Bem, se isso vai demorar, então amanhã é a minha vez e de Dash.”

“Espere, por que nós?” Rainbow protestava.

“Sim, por que vocês duas?” Pinkie Pie também protestava.

“Porque Twi ainda está lendo aquela monstruosidade de livro, e você não deveria estar preparando uma festa pra ele?”

Pinkie saltava sem sair do lugar. “Isso mesmo! Devo dar um jeito de mudar aquele humor nada humorado.”

“Então nós faremos de tudo para não ter álcool na festa,” Applejack dizia.

“Sim,” Pinkie Pie falava, então novamente com mais energia, “Sim! Não precisamos disso para deixar a festa mais divertida!”

“Espere, você nunca serviu bebidas alcoólicas em suas festas,” Rainbow dizia.

Pinkie oscilava um casco, “Normalmente isso é coisa de garanhões. Então novamente, nenhuma de vocês esteve em uma festa feita para eles.” Pinkie piscava.

“Espere, o que?” Dash perguntava, mas sem receber uma resposta.

“Bem, acho que é hora de irmos para nossos quartos e descansarmos. Boa noite para todas.” Applejack ficava de pé, caminhando na direção da porta, seguida por Rainbow Dash e Pinkie Pie.

Fluttershy colocava o caderno de volta em seu alforje “por segurança”, ela dizia a Twilight, e deitava na sua cama, exausta depois de um dia tão agitado. As que restaram eram Twilight e Rarity, que ainda estavam sentadas em suas respectivas camas, olhando para o nada.

“Twilight, gostaria de… conversar sobre alguma coisa?”

Twilight notava a expressão preocupada de Rarity, mas não respondia.

“Eu lamento você ouvir aquelas coisas que Junior falou de você, sobre o que os pôneis pensam sobre você, mas ignore aquilo tudo, não foi culpa sua.”

“Foi apenas… apenas sobre quantos pôneis eu deixei abandonados à própria sorte? Eu poderia simplesmente ter teleportado e deixado Tirek pra lá, para auxiliá-los, vencendo ou perdendo.”

“Twilight, querida, não foi culpa sua se os pôneis perderam sua mágica ou sofreram. Tirek que causou isso a eles.” Rarity sentava ao lado de sua amiga, acariciando suas costas. “Em hipótese alguma você deve se culpar. Você fez a coisa certa, e se alguns dizem que você errou, então deixe eles lidarem com o próximo vilão que atacar Equestria e ver se eles farão melhor.”

Twilight permanecia sentada em silêncio, enquanto refletia as palavras da amiga.

O sorriso de Rarity diminuía. “Querida, eu acho que o que você precisa fazer agora é descansar, e depois poderemos conversar sobre isso, como um grupo de amigas.”

Twilight, na verdade, não conseguia dormir. Por horas ela ficava deitada de costas, embaixo de seu lençol. Pensando. Às três da manhã, ela arremessava seu lençol com um gemido. Sua mente permanecia em um emaranhado de pensamentos desde que deitou. Ela queria procurar um culpado por tudo o que aconteceu. Tirek era a escolha óbvia, mas a autodúvida estava ao lado dele.

De repente, Twilight ouvia um estrondo abafado vindo do andar debaixo. Ela se levantava, ficando sentada na cama, percebendo que Fluttershy e Rarity continuavam dormindo. Ela rastejava até a porta, e cautelosamente passava pela sala e corredor, seguindo o som de vidro tilintando vindo da área principal de jantar. Ela seguia pela parede, na furtividade, parando pouco antes de chegar na varanda, quando um som de passo por trás dela a fez girar sobre os calcanhares.

Twilight não pensava que poderia ser tão terrível chegar perto de um changeling, e Bob não era exceção. O fato dele ter metade de sua cabeça coberta por ataduras também não ajudava… por causa da briga anterior entre eles ao descobrirem que ele era um changeling. Twilight não podia olhar para seus olhos. Ela podia sentir suas orelhas caindo enquanto ela murchava perante seu olhar. Bob não parecia ofendido de qualquer forma, mas caminhava ao redor dela para perdoar a injúria. Seu suspiro distinto dizia a ela tudo o que ela precisava saber.

Bob descia as escadas, levando Twilight ao bar onde um humano descabelado estava sentado em um banco, falando sozinho. Uma de suas mãos estava segurando meia garrafa de âmbar liquido, a outra uma xícara de café. Os olhos de Thomas estavam semi-fechados, olhando o líquido na xícara enquanto suas mãos gentilmente a sacudia. Enquanto eles chegavam perto, Twilight percebia que ele não estava falando, mas cantando para si mesmo.

“Se eu pudesse parar o tempo em uma garrafa, a primeira coisa que eu gostaria de fazer era parar o dia inteiro, para a eternidade durar sempre e eu passa-la com você.”

Onde Twilight hesitava, Bob caminhava atrás do balcão, ficando de pé do outro lado olhando Thomas. Levou mais alguns resmungos e outro gole de sua caneca para finalmente perceber o changeling.

“Oh, eeeiiii Bob. Engraxçado ver você aqui a exsta hora. Você sabe que está muuuuiito tarde certo?”

Bob piscava, sério.

“Certo, certo. Então ou poooooso estar um pouco bêbado, e teeeerrrr me trancado do lado de fora da minha loja, então eu poooossssooo vir aqui para uma bebida ou duas… ou cinco…perdi a conta depois da segunda.”

Bob deixava escapar outro suspiro, caminhando até Twilight. Ele acenava com um casco cheio de buracos na frente de seu rosto, o suficiente para fazer ela gaguejar enquanto tentava recuperar a compostura. O olhar era educado, e ela apenas tinha feito muitos olhares. Não era culpa dela se a camisa dele estava desabotoada, mostrando o que ela apenas poderia descrever como o seu peito nu e musculoso.

Novamente, Bob pigarreava, fazendo Twilight prestar atenção no changeling. Ele apontava para seus próprios olhos, então para ela, e finalmente para Thomas. Levou um segundo, mas então Twilight entendeu o significado. Ela acenava, e Bob caminhava até as escadas, para fazer seja lá o que for, ela não sabia. A única coisa que ela sabia era manter um olho no obviamente embriagado humano.

Quando ela se voltava para o humano, ele de alguma forma se movia do banco para o chão, apoiando suas costas contra o balcão enquanto ele cuidava dos pequenos remanescentes de sua garrafa de licor. Ou mais precisamente, da garrafa do licor de Sunny que ela apenas poderia suspeitar que ele procurou atrás do balcão.

Twilight se sentava perto de Thomas, mas ainda mantendo uma certa distância dele. Se ele atacou tão violentamente duas de suas amigas após alguns copos de bebida, não daria pra dizer o que ele faria depois de uma garrafa inteira.

“Entãããooo… você é a prinxxxceesa, hein?” Thomas dizia, ainda olhando para o chão.

As orelhas de Twilight se reanimavam. “Sim, por mais doido que isso pareça, eu sou.”

“Por que doido?”

Twilight piscava. “Bem, se você me conhecesse antes, nunca acharia que eu me tornaria uma.”

Thomas fungava. “Voxce fala como se não tivesse excolha.”

As orelhas de Twilight caíam. “Eu… não, exato.”

Thomas finalmente se virava para a alicornio, embora seus olhos se esforçavam para focá-la.”

“Entãããããooo, é como se voxcê tivesse naxcido na realeza ou algo assim?”

Twilight balançava sua cabeça.

“Eu… me tornei assim, depois de completar uma magia difícil e aprender sobre a magia da amizade.” Enquanto ela falava, Twilight aproveitava a distração para levitar a garrafa de volta para o balcão.

Thomas fungava novamente. “Uaaauuu, só ixsso?”

“É mais difícil do que parece.”

“Ainda axssim, não te falaram ‘ei, voxcê feizzz aquilo, agora pode se tornar uma prinxcesa!’”

Twilight balançava a cabeça. “Não, apenas… aconteceu.”

“Droga, igual a hixstória da minha vida.” Thomas passava a mão no chão procurando a garrafa.

Twilight inclinava sua cabeça. “Como assim?”

“Eu, exstando aqui e tudo. Eu não excolhi isso. Eu apenas… apareci.”

“Apareceu?”

Thomas encolhia os ombros. “Eu exstava apenas… dirigindo, voltando do trabalho, sim, e então… kabum… eu exstava aqui.”

Twilight tinha muitas perguntas para fazer, mas uma em especial que ela realmente se importava.

“Em que termos exatamente você pode descrever isso?”

Thomas piscava algumas vezes, claramente perdido. “Com o que?”

“Parando aqui. Você acabou de falar que apareceu aqui, não foi difícil de se adaptar?”

Thomas violentamente sacudia sua cabeça, coçava o peito, então esfregava seus olhos. “Depois do choque de vir parar aqui… eu tentei pensar positivamente sobre ixsso. Tudo aqui era o mundo da fantasia e felicidade. Coisas que pra mim eram só contos de fada, aqui eram reais, como pôneis voadores, e mágica! Era tão inacreditável, eu não tinha como acreditar que nossos mundos possuíam semelhanças, aqui era superior.”

“Isso até eu encontrar Bob.”

Twilight percebia o changeling com o canto de seu olho. Ele hesitava na parte inferior das escadas, mas então continuava no balcão.

“Bob é meu melhor amigo, eu sei. Exceto pelos Fixits, ele foi meu único amigo por muito tempo aqui. Eu achei ele, lá fora no deserto, à beira da morte. Eu carreguei ele até minha caminhonete e dirigi de volta para a cidade, levando ele até o médico, nosso primeiro médico, eu o levei até ele e perguntei o que ele poderia fazer.

“Você sabe o que ele disse para mim?” Twilight balançava negativamente sua cabeça. “Ele disse que não tratava insetos.”

Twilight arriscava um olhar para Bob, ela percebia sua expressão estóica enquanto ele endireitava as garrafas de licor no balcão.

“Até então eu nunca vi um pônei agir tão… tão preconceituosamente. Os Fixits cuidaram bem de mim, e certamente eu já tive experiência com outros pôneis, mas eu não era um deles. Nós não saíamos para bebidas ou outras baboseiras, nada disso. Levei muito tempo para perceber que naqueles primeiros dois anos eu estava isolado, trancando a mim mesmo na oficina. Então eu achei Bob, e comecei a perceber como pôneis ao redor da cidade olhavam para mim. Falavam de mim.”

“Eu apenas queria ajudar este pônei. Eu não sabia que ele era um changeling, apenas parecia diferente, assim como no meu mundo que tem brancos, negros, amarelos, pardos. Eu começava a pedir ajuda aos outros pôneis, nenhum ajudaria. A maioria apenas me ignorava. Eu dava água pra ele, tentava alimentá-lo mas ele recusava. Eu estava desesperado. Os Fixits não sabiam muito mais do que eu.”

“Finalmente, aconteceu.”

Twilight olhava de volta para Bob que tinha parado no meio da limpeza de uma bandeja. Ela olhava de volta para Thomas. “O que aconteceu?”

“Eu perdi meu temperamento. Persuadi o prefeito daquela época a renunciar, Billfold assumiu, e Bob conseguiu ajuda. Os Fixits me deram oportunidade para trabalhar em mais projetos, para que a partir daí eu pudesse conversar e conhecer todo mundo na cidade. Devo muito à família Fixit, e a Bob também. Uma vez que Bob melhorou, começamos a aprender sobre ele. “Por um lado, você percebeu que ele nunca fala?” Twilight acenava. “Sim, aparentemente há este tabu na cultura changeling, a única coisa que eles nunca fazem.”

Twilight olhava para Bob esperando alguma resposta dele, mas ele permanecia em silêncio, então Twilight perguntava, “Por que não?”

“Você não pergunta ‘por que’.”

“Como assim?”

“Fazer perguntas é um sinal de inteligência, e a rainha deles não quer drones inteligentes. Ela quer drones que acatem ordens, que sejam dependentes e facilmente manipulados. Então, eles pegam um chengeling, espancam ele e cortam sua língua como primeira advertência. A segunda é eles espancarem de novo e jogarem no deserto para que aconteça o inevitável.”

A crina e calda de Twilight se arrepiavam. “Eles… fazem o que?” Ela olhava entre os dois, Bob finalmente acenava. “Isso… não pode ser…”

“E essa foi a minha segunda lição de como nossos mundos são semelhantes. Eu não podia acreditar que tais coisas existissem nesse mundo.”

Thomas começava a se sentar. Twilight se movia para mobilizar ele, com dificuldades para se sustentar por causa da bebida, apenas para o humano colocar sua mão na cabeça dela e usá-la como apoio.

“Obrigado,” Thomas dizia, para a irritação de Twilight com sua crina babada. “A última peça do quebra-cabeça veio alguns anos depois, quando o Senhor Fixit ficou doente. Ainda não tinha a experiência com uma morte de pônei, então eu tive a esperança de que talvez isso não acontecesse com eles.”

Thomas cambaleava até uma seção isolada da parede, onde uma grande moldura estava presa a ela. Dentro da moldura havia mais de uma dúzia de fotos de pôneis. Então Thomas tirava uma foto de seu bolso.

“Eu estava errado.” Thomas tirou um de seus sapatos, e usando um prego que Twilight não fazia a menor ideia de onde ele tirou, Thomas pregava a foto na parede dentro do quadro usando seu sapato como martelo.

“Primeiro foi o Senhor Fixit, então Doc, o médico, então o fazendeiro Jack e sua esposa Patch, e seus filho Pumpkin Seed. Era como se uma onda de desespero atingisse Oasis. Parecia que as coisas finalmente estavam melhorando, até…”

Thomas olhava Twilight, sua embriaguez parecia estar diminuindo, ou pelo menos a sua falta de equilíbrio menos acentuada parecia ser alguma indicação, então olhava de volta para o quadro. “E agora, eu perdi mais um.”

“Não foi sua culpa, Thomas.”

Thomas sacudia a cabeça. “Certamente é o que parece.”

Twilight queria dizer mais, mas mantinha sua boca fechada. Ela desesperadamente queria alguém para conversar sobre seus problemas, mas teria como falar com o humano sobre isso? Ela sentia que era sua culpa, para muito do que aconteceu, se ele partisse para cima dela, a alicornio poderia lidar com isso? Culpando ela por tudo? Ela suportaria isso, mas ainda assim, ele já estava angustiado da forma como estava.

“Bem, pelo menos você não vai ficar presa aqui por mais tempo do que deveria.”

Twilight olhava Thomas com um olhar confuso. Ele soltava seu sapato, caminhando com seu pé descalço de volta para o bar, onde a garrafa e copo já se foram graças a Bob, que estava de guarda. Ele se sentava em um banco e olhava seu reflexo no espelho do bar. Percebendo sua aparência desleixada, ele passava a mão no cabelo e tentava abotoar sua camisa.

“Tenho certeza que Rarity e Fluttershy contaram a você sobre o pequeno incidente que tivemos no início da noite.”

Twilight se juntava a ele no banco. “Sim, elas me disseram sobre o que você faz pela Senhora Fixit, e ajuda ela com tudo que precisa. E que você se importa muito com ela.”

“E que eu tenho um péssimo temperamento e arremesso garrafas de Bourbon.”

Twilight estremecia. “Bem, Rarity foi pega de surpresa.”

“Foi.”

“Ainda assim, nós conversamos sobre isso.“

“E vocês estão partindo de manhã, certo?”

Twilight balançava a cabeça. “Não. Na verdade, Fluttershy defendeu você.”

Thomas parava de abotoar sua camisa, que nem estava alinhada direito como Twilight podia perceber, enquanto ele se virava na direção de Twilight, com uma sobrancelha levantada.

Twilight acenava. “Ela viu falhas, mas no geral acredita na sua bondade. Ela está do seu lado. Rarity ainda está em cima do muro, depois de ter que tirar todos os cacos de vidro de sua cauda que a surpreendeu.” Twilight deixava escapar uma pequena risada.

Thomas suspirava. “Já é alguma coisa.” ele dizia olhando de volta para o espelho, com o reflexo dele e Twilight, “e quanto a você?”

Twilight se enrijecia. “Eu… não sei ainda. Você me lembra outro pônei que conheço, que me importo e que tem falhas.”

“Quem é esse… ou essa?”

“Você vai descobrir amanhã,” Twilight olhava para o relógio na parede, “ou melhor, hoje. Já está tarde.”

Thomas esfregava seu rosto com ambas as mãos, sua voz abafava nelas. “Se você diz.”

Bob viu que essa era sua deixa enquanto ele cutucava Thomas na lateral. “Hm? Oh, conseguiu um quarto de reserva para mim?”

Bob acenava.

“Ótimo, obrigado.”

Com ajuda de Bob, Thomas começava a caminhar até as escadas, usando a cabeça de Bob como uma bengala improvisada. Uma última coisa que Thomas disse fez as orelhas de Twilight se levantarem.

“Diga Bob, o que aconteceu para sua cabeça estar toda enfaixada?”

Twilight deixava escapar um gemido, batendo sua cabeça no balcão.

Quer ser minha mãe?

Autor: Twifi

Tradução: Drason

SINOPSE: Spike não queria nada além de um natal perfeito, mas como único dragão na família, ele sempre se sentia isolado nessa época do ano. Para consertar isso, ele teve a ideia de comprar um presente de natal para Twilight e aproveitar a oportunidade para pedir uma coisa importante a ela, algo que ele queria pedir há muito tempo. No entanto, um acidente poderia arruinar seus planos.

Eu estava enrolado em um daqueles casacos espalhafatosos que Rarity havia feito para mim. Ele era vermelho e pesado – eu parecia engraçado nele, especialmente com o chapéu que veio junto, “festivo” foi a palavra usada por Rarity. Combinava com o casaco, e tinha pequenas esmeraldas bordadas nele. Digamos que as joias o tornava mais dracônico, certo?

Eu nunca gostei muito do frio, mas normalmente podia tolerar. No entanto, o inverno desse ano estava mais gelado do que o normal; o bastante para um dragão. Tenho sido devoto em ficar dentro de casa neste inverno, mas Twilight me incentivava a sair do castelo com a promessa de experimentar a melhor cidra na cidade. E provavelmente Twilight estava certa, uma vez que a referida cidra era feita pela família Apple.

Enquanto eu me sentava nas costas de Twilight com a minha calda congelando, balançando suavemente para trás e para frente com o ritmo dos passos de Twilight, eu percebi que aceitei a proposta dela rápido demais. Cidra realmente valia a pena… e minha cama quente? Era para eu estar nela ensaiando um discurso para Twilight, e tentar encontrar o presente perfeito para ela nesse natal.

Eu tenho adiado por muito tempo uma coisa que queria dizer. Hoje teria sido ideal se Twilight não insistisse em correr por toda a cidade comprando e entregando presentes, que ela tem feito durante toda a semana. Como Princesa da Amizade, ela sentia a necessidade de entregar presentes significativos para todas as suas amigas, bem como qualquer outro que tenha sido importante em sua vida. Me pergunto o que ela comprou para mim.

Eu me arrastava nas costas de Twilight, passando os braços em volta de seu pescoço, me mantendo no lugar. Seu pescoço esticava, enquanto ela virava a cabeça tentando olhar para mim.

“Spike? O que está fazendo?” Ela perguntava animada, mas um pouco preocupada.

“T-tentando me manter aq-quecido,” Eu respondia, enquanto tentava virar a cabeça com minhas garras dormentes. Eu movia minha face diretamente atrás da cabeça dela para bloquear a mordida amarga do vento gelado.

“Oh, Spike,” Twilight ria. “É muito frio mesmo para um pônei. Mas não se preocupe, a cidra de maçã quente da Applejack irá aquecê-lo”, dizia Twilight com confiança. “Eu só vou ter que fazer uma rápida parada na loja do Senhor Stirling.”

Mesmo que Stirling fosse uma das lojas mais incomuns na cidade, ela certamente tinha uma coisa que me interessava muito. Calor.

A loja do Senhor Stirling geralmente era especializada em prata e coisas feitas de prata, mas também vendia uma variedade de artefatos raros, tais como bolas de cristal, talismãs, placas com pinturas artísticas, pinturas raras, e por aí vai. Uma vez Rarity encontrou algumas peças raras de seda nessa loja, e Rainbow Dash uma velha insígnia em forma de medalha desgastada que pertencia aos Wonderbolts. Scootaloo estava olhando um modelo clássico de scooter na vitrine há algumas semanas. Mal sabia a pegasus laranja, que Rainbow Dash comprou para ela. Eu adoraria ver a expressão em seu rosto.

O barulho suave de um sino que tocava ao abrir a porta da loja significava apenas uma coisa… e antes que eu percebesse, já estava cheio de ar quente. Ignorando todos os itens da loja, eu saltava das costas de Twilight, desabotoando o casaco e o deixando cair no chão atrás de mim. Eu corria por toda a loja tão rápido quanto minhas pernas dormentes poderiam se mover para aquece-las.

“Bom dia, Senhor Stirling – Spike, o que você está fazendo?”

“Oh calor, glorioso calor.” Eu ouvia Twilight rir um pouco: provavelmente pelo quão ridículo eu parecia.

“Desculpe quanto a ele. Dragões, você sabe como é…” Twilight dizia.

“Sem problemas Princesa. Como posso ajuda-la?” Senhor Stirling perguntava, como se nada de anormal estivesse acontecendo.

“Eu estou procurando um presente para uma amiga. Ela é bem especial e tem um olho para coisas boas.”

Twilight e Senhor Stirling continuavam conversando sobre que tipos de joias Rarity gostaria, ou qualquer coisa assim, eu realmente nem estava escutando. Já tinha escolhido o presente perfeito para Rarity, uma das melhores gemas do meu esconderijo secreto. Eu tive que resistir à tentação de devorá-lo, mas só de imaginar a reação dela sei que o sacrifício valeria a pena.

Sorrindo para mim mesmo, eu andava ao redor da loja olhando as prateleiras. A maioria delas estavam vazias, e os objetos que estavam lá realmente não me chamavam muito a atenção. Então eu vi um chamativo abridor de correspondência e envelopes. Parecia uma pequena espada; ele tinha pequenas pedras preciosas sobre o punho que brilhavam com a luz. Eu tive que desviar meu olhar para longe dele, enquanto meu estômago roncava e minha boca encharcava.

Vi também um pequeno livro em uma prateleira adjacente. Talvez fosse apenas força do hábito, devido a conviver com Twilight, mas eu não sei porque ainda caminhava para dar uma olhada melhor em um livro.

Ele parecia velho e desgastado, mas alguma coisa parecia familiar sobre a capa. A imagem estava desbotada, e parecia redigido com a antiga escrita de Equestria. Cada página estava irregular e amarelada com o tempo. Isso é algo que Twilight acharia interessante. Ela provavelmente poderia passar dias lendo este livro, e então iria ler outros livros para tentar aprender a história deste aqui.

História … é isso! Este é um livro muito velho chamado Equestria: Uma Breve História. Eu sabia que a imagem na capa me parecia familiar. Twilight tinha uma cópia dele e estava chateada por ter perdido há muito tempo, já que sua cópia foi dada a ela por Celestia.

“Twi…” Eu começava, mas parando em seguida. Ao invés de dizer a ela que o livro estava aqui, eu voltava atrás e decidi adquiri-lo como presente para ela. Ela ficaria tão contente.

“Sim?” Twilight respondia, olhando por cima do ombro enquanto levitava um pequeno colar de prata.

“Oh…um, apenas querendo saber se você já fez as compras, mas vejo que ainda não,” Eu dizia um pouco rápido.

“Apenas mais uns minutos…” Twilight franzia, enquanto continuava me olhando. Eu não gostava daquele olhar, era como se ela soubesse que eu estava tramando alguma coisa. “Por que repentinamente você ficou tão interessado em ir lá fora Spike?

“Nada demais. Apenas quero um pouco de cidra, você realmente falou tudo.” Eu dizia, tentando manter o mesmo tom. No entanto, não era suficiente para escapar daquele olhar: aquele com uma sobrancelha levantada.

Depois do que parecia ser uma eternidade esperando, ela voltava sua atenção novamente para o Senhor Stirling. “Isto é elegante, muito simples. Acho que será perfeita para minha amiga.”

“Certamente, excelente escolha, Princesa!” Senhor Stirling dizia. Ele pegava o pequeno colar de Twilight e o colocava em uma bela caixa ornamentada.

Agora que Twilight estava distraída novamente, eu me voltava para o livro. Precisava descobrir o preço dele, mas aparentemente não tinha etiqueta. E eu sei o que Twilight dizia sobre ter que perguntar o preço de alguma coisa…

Mas não me importava se tivesse que gastar todas as minhas gemas neste livro, Twilight merecia ele, e seria também a oportunidade perfeita para dizer a ela.

“Venha Spike. Vamos buscar algumas cidras com Applejack,” Twilight dizia, enquanto levitava um presente embrulhado e colocava dentro de seu alforje.

Rapidamente eu me afastava da prateleira, com esperança dela não ter visto o que eu estava olhando. Twilight não parecia interessada no que eu estava fazendo, mas estaria acabado se ela visse o livro, ela imediatamente o compraria.

Eu pegava meu casaco e o vestia novamente. Enquanto estava o abotoando, ouvi o som do sino acima da porta. Uma potranca cinza com óculos entrava na loja. Sua expressão parecia ameaçadora, e ela não percebia eu e Twilight.

“Como vai, querida?” Senhor Stirling perguntava para a potranca cinza.

“Bem.” Ela respondia em voz baixa.

“Fez o que mandei?” Senhor Stirling perguntava de forma severa.

A potranca cinza lançava um olhar sobre o chão. “Sim,” Ela dizia, na mesma voz baixa de antes.

“Silver… diga a verdade.” Senhor Stirling começava.

“Mas papai, a família inteira dela está na cidade!” A potranca gemia.

“Você deveria ter pensado nisso antes de ter sido má com aquela pobre criança. Se você não for lá pedir desculpas, então irei com você, e você vai ter que pedir na minha frente e de toda a família dela. E vai ficar de castigo de novo!”

“Mas papai…”

“Não, Silver, nada de mas.” Senhor Stirling olhava para Silver. Ele parecia ter esquecido que nós estávamos na loja por um momento. Mas quando seus olhos se encontraram com os meus, ele engoliu seco, e seu peito murchava um pouco. “Silver.” Ele dizia suavemente, com seus olhos se virando para Twilight com um leve aceno da cabeça.

“Princesa.” Silver dizia baixinho, fazendo uma pequena reverência. Ela confrontava e então deixava a loja, batendo a porta atrás dela.

“Me desculpe por isso, Princesa.” As bochechas do Senhor Stirling coravam um pouco.

“Oh, está tudo bem,” Dizia Twilight.

Eu poderia dizer que ela estava se sentindo sem jeito. Sabendo que ela não queria mais nada além de sair, eu pulava nas costas dela, que apressadamente deixava a loja. “Feliz natal!” Twilight gritava por cima do ombro, enquanto a porta se fechava atrás dela.

Nós estávamos novamente de volta para o frio, mas desta vez eu não estava me sentindo tão incomodado. Eu continuava imaginando situações na minha cabeça sobre como conseguir aquele livro, e a reação de Twilight. Ela ficaria tão feliz, e então eu diria a ela finalmente sobre o natal e o que eu sentia. Eu não conseguia pensar em um melhor dia para dizer a ela algo que provavelmente já deveria ter dito há muito tempo atrás.

“Olá Twi!” A voz de Applejack me tirava de minhas reflexões. “E olá Spike!”

Nós estávamos na frente da tenda de natal de Applejack. Parte das temporadas festivas incluíam várias tendas montadas no centro da cidade pelos donos das lojas locais. Alguns vendiam comidas e doces, e outros vendiam enfeites decorativos. A família Apple era de longe a mais popular devido às suas cidras feitas especialmente para o inverno de natal.

O forte aroma de maçã e canela enchiam minhas narinas. Somente o aroma era suficiente para aquecer meu estômago. O puro pensamento das maçãs misturadas com a canela fazia meu estômago rosnar. Com água na boca, eu pulava das costas de Twilight, pronto para engolir alguns deliciosos copos de cidra.

“Ei Applejack. Nós viemos buscar alguns copos de cidra,” Twilight dizia, fechando seus olhos enquanto inalava o aroma.

“Vocês chegaram bem na hora, eu já estava quase fechando. Vou empacotar tudo para que possamos ir para Appaloosa amanhã de manhã. Como sempre, o natal reúne toda a família Apple”.

Eu dava um passo para o lado. Sempre me sentia estranho quando pôneis falavam sobre família. Ponyville me fazia sentir em casa, até mais do que Canterlot, mas nessa época eu me sentia como se não pertencesse a esse lugar. Ser um dragão, por si só, já dizia tudo… esta época do ano sempre era difícil para mim, exceto pelas vezes quando Twilight e suas amigas estavam juntas. O natal era sempre mais animado.

“Spike? Algum problema?”

Eu me virava, vindo a ficar cara a cara com Apple Bloom. “Oh, um.. olá, Apple Bloom,” Eu dizia melancolicamente.

“Qual o problema?” Ela perguntava de novo.

“Nada, apenas esperando servir a cidra,” Eu mentia.

“Então por que você está parado aí com essa cara de desanimado? Twilight já pegou a cidra dela, viu?” Apple Bloom gesticulava para Twilight bebendo um copo de cidra com gosto.

“Spike, sua cidra está bem aqui. Pegue antes que esfrie, docinho.” Applejack colocava uma caneca sobre o balcão, com muita fumaça saindo dela. Mas antes que eu pudesse me mover, Apple Bloom disparava para pegar a caneca.

“Aqui,” ela entregava a caneca para mim. “Agora, por que você parece tão triste?”

Bem, não havia como mentir para ela. Eu sabia que não poderia usar o manjado “estou cansado”, que ela não acreditaria, então eu continuava: “Está tudo bem, só fico assim nesta época do ano. Parte do problema é sobre eu e Equestria, mas é a outra parte que me pega”.

“Que parte?” Apple Bloom perguntava.

Eu não sei porque, mas era sempre tão fácil conversar com ela. Eu poderia simplesmente não ter dito nada, mas aqui estava eu me desabafando. Talvez seja porque Apple Bloom e sua família sabem reconhecer quando alguém não está bem, ou talvez porque eu apenas me sentia confortável dizendo a ela coisas que eram pessoais. Apenas queria que essa facilidade fosse a mesma para conversar com Twilight às vezes.

“Família.” Eu respondia.

Apple Bloom franzia. “O que você quer dizer?”

“Estar com a família é importante no natal, é o que todos os pôneis dessa cidade fazem, ficando juntos e felizes com suas respectivas famílias… coisa que eu não tenho.” Eu olhava para o chão.

Os olhos de Apple Bloom arregalavam. “Do que está falando Spike, claro que você tem uma família. Nós somos sua família.” Apple Bloom sorria calorosamente enquanto colocava um casco em meu ombro. “Eu sei que não é uma família como a que a maioria tem, mas ainda sim uma família.”

Ela continuava. “Nós olhamos um para o outro, sempre ajudamos uns aos outros, e às vezes nem sempre nos damos bem, mas no final do dia nós ainda amamos um ao outro. E isso é o que importa.”

Apple Bloom estava certa. Isso me ajudava a me sentir um pouco melhor, e depois de tomar um gole daquela maravilhosa cidra, minhas preocupações permaneceram como uma sombra atrás da minha mente. Enquanto eu continuava bebendo a cidra apreciando seu doce sabor, percebi aquela potranca cinza da loja nos observando de longe. Nós fizemos um breve contato de olhares, e ao perceber que ela foi descoberta, relutantemente começou a caminhar na nossa direção.

“Ei flanco…digo… Apple Bloom?” Silver Spoon dizia com uma quantidade surpreendente de confiança, mesmo depois de se atrapalhar ao dizer o nome da Apple Bloom. “Posso falar com você em outro lugar?”

Apple Bloom franzia em suspeita quando viu Silver apontando para outra tenda que vendia doces. “Nós podemos conversar aqui mesmo,” ela respondia em um tom firme.

“M-muito bem, Apple Bloom. Eu queria me desculpar por ter sido tão mesquinha com você. Não estou pedindo pra você ser minha amiga ou gostar de mim, mas espero que possa me perdoar. Prometo nunca mais fazer aquilo de novo. E vou garantir que Diamond Tiara deixe você em paz também…” Silver parava. Apple Bloom permanecia em silêncio, totalmente perdida em palavras. “Eu fiz isso pra você…” Silver levantava um pequeno colar com um medalhão em forma de coração de prata. Ele balançava em seu casco estendido.

Apple Bloom piscava, então aceitava o colar, colocando ele ao redor de seu pescoço. “Um… obrigada, Silver Spoon. Eu… realmente significa muito ouvir isso de você. Eu te perdoo.”

“Oh meu Deus! Papai estava certo! Eu me sinto muito melhor agora.” Silver saltava sobre as patas traseiras, envolvendo suas pernas dianteiras ao redor do pescoço da Apple Bloom. “Feliz natal! Agora, eu tenho que pedir desculpas para outras duas.” Silver desfazia o abraço, e saía trotando contente.

“Bem… foi uma bela surpresa.” Eu dizia para uma imóvel Apple Bloom. Aquela foi uma das mais sinceras desculpas que eu já vi. Talvez houvesse alguma coisa nessa época do ano que fosse mágico. Se aquela pônei podia achar coragem para dizer aquilo para Apple Bloom, então eu também poderia achar a mesma coragem para dizer a Twilight o que tanto queria.

Eu corria tão rápido quanto minhas pernas podiam me carregar. Uma bolsa cheia de gemas estalavam em minhas costas a cada passo. Eu percebia que havia apenas alguns minutos antes que o Senhor Stirling fechasse a loja, já que as festividades estavam chegando ao fim. Pôneis podiam ser vistos desmontando suas barracas; entre eles estava Applejack e Big Mac fechando a tenda de cidra. Apple Bloom ficava sentada ao lado observando seu novo colar, ignorando o movimento ao seu redor.

Eu não poderia deixar de sorrir. Essa seria a primeira vez que teria um natal de verdade, ou pelo menos da forma como imaginava que deveria ser. Apple Bloom estava certa, Twilight e suas amigas eram uma família. De certa forma eu pensava assim, mas sempre me sentia afastado delas. Só de ouvir Apple Bloom dizer que ajudava com o que eu tinha vontade de perguntar por tanto tempo. E amanhã já era natal. Que presente seria melhor do que esse?

Eu abria a porta da loja, e rapidamente a fechava atrás de mim. Não havia nenhum pônei no balcão de recepção, mas o toque do sino acima da porta, sem dúvida, acusava que tinha um cliente. Era o que eu esperava… porém ninguém parecia estar vindo.

“Olá?” Eu falava dentro da loja vazia. Cuidadosamente pegava o livro da prateleira, enquanto esperava o Senhor Stirling. “Olá!” Eu dizia um pouco mais alto. Meu coração começava a disparar com a ansiedade. Será que eles fecharam a loja e esqueceram de trancar? Não, certamente Senhor Stirling não seria tão descuidado a ponto deixar todos esses itens valiosos expostos. Talvez eu devesse apenas deixar algumas gemas e bits, e em seguida partir? Isso não seria furto, não é?

Mas todas as minhas ansiedades diminuíram quando ouvi passos se aproximando. Um olhar confuso do Senhor Stirling emergia da parte de trás da loja. “Olá?” Ele dizia, olhando ao redor da loja. “Eu pensei ter ouvido alguma coisa…” Então ele olhava para baixo, finalmente me vendo com um olhar suplicante para ele. “Ah você novamente. Me desculpe, eu estava no fundo da loja fazendo o inventário. Já estamos fechando. O que posso fazer por você, Senhor Dragão assistente da Princesa Twilight?”

Eu me encolhia internamente mediante a observação dele. Eu não era apenas um assistente, mas o seu assistente número um. “Gostaria de comprar este livro.” Eu o colocava no balcão.

Equestria: Uma breve História, esta é a primeira edição. Muito raro, poucos podem pagar por tal raridade. “A Princesa lhe deu dinheiro suficiente?”

Eu colocava a bolsa de pedras preciosas sobre o balcão, deixando algumas gemas deslizarem para fora dela. Era difícil perder o brilho em seus olhos com a visão das gemas, mesmo que fosse apenas por um momento fugaz.

“Gemas, hein? Normalmente aceito apenas pagamento em bits.”

“Por favor, Senhor Stirling, essa gemas são as melhores. Eu as encontrei sozinho. Elas valem muitos bits,” Eu implorava e podia ver que ele as queria muito.

“Elas são belas, mas prefiro bits. Gema não é dinheiro. O preço deste livro é duzentos mil bits.“ Senhor Stirling dizia, enquanto tentava empurrar as gemas de volta para a bolsa.

“Mas você pode vende-las por muito mais. Por favor, senhor, é um presente para Twilight. Significaria o mundo para ela ter a primeira edição de Equestria: Uma Breve História.” Eu despejava o conteúdo da bolsa sobre o balcão, deixando a safira azul brilhante visível para ele.

Senhor Stirling pegava uma lupa e examinava as gemas de perto. Ele prestava uma atenção especial para os rubis e safiras. “Estas são todas impecáveis”, dizia ele, mais para si mesmo. Ele olhava para mim, e então suspirava, “está bem.” Ele colocava a lupa no balcão, olhava para o livro, e em seguida, para a pilha de pedras preciosas. “Se é realmente importante para você, então talvez possamos resolver isso. Esta é uma coleção muito impressionante, e este é um livro muito raro. Acho que podemos chamar isso de troca.” Ele sorria, e empurrava algumas das pequenas esmeraldas de volta para mim, então agrupava todas as gemas em uma pilha. “É justo assim, Senhor Dragão?”

“S-sim!” Eu estava esperando ele pegar a bolsa inteira, mas deixou algumas esmeraldas.

“Tudo bem, nesse caso foi um prazer fazer negócios com você.”

“Obrigado, obrigado!” Enquanto eu me virava para partir, a porta abria e Silver Spoon passava por ela novamente, sorrindo de orelha a orelha.

“Pai, eu consegui! Me desculpei com todos com quem fui mesquinha, todos me perdoaram, e Sweetie Belle ficou minha amiga!”

“Muito bom! Não foi o que eu te disse? Venha aqui, querida.” Senhor Stirling gritava de alegria, enquanto Silver Spoon corria para abraçar seu pai.

“Me sinto muito melhor agora, pai.” Silver Spoon se aconchegava nos cascos de seu pai. “Só estou preocupada com Diamond Tiara, tenho medo dela ficar brigada comigo agora.”

“Vocês duas são amigas há muito tempo para que isso acabe agora por causa de uma mudança. Estou orgulhoso de você, mesmo quando te ensinava que bullying era errado e você acabava fazendo mesmo assim, pelo menos agora você aprendeu a lição. No entanto, ainda está de castigo até as aulas recomeçarem.” Ele sorria para sua filha, beijando-a na bochecha.

Deixei a loja com um sentimento caloroso em meu coração. Eu tinha o livro em meus braços, um pequeno salto em meu passo, e Silver Spoon aprendeu uma lição com seu pai. Um dia vou ter que perguntar para Apple Bloom o quanto Silver Spoon foi mesquinha com ela.

Como eu quase literalmente pulava para casa, me alimentava das gemas restantes. Esmeraldas nunca foram tão boas quanto rubis, mas tudo bem. Eu iria comer os rubis de qualquer maneira, pelo menos agora eles se foram por uma causa melhor do que o meu estômago. E ainda tinha meu rubi premiado embaixo da minha cama, que era para Rarity.

Eu não podia esperar para ver a expressão de Twilight quando eu der o livro a ela. Deveria colocar ele em sua mesa e deixá-la encontra-lo? Deveria apenas caminhar e entregar a ela? Oh! Eu deveria colocá-lo em uma de suas estantes da biblioteca e ver quanto tempo ela levaria para notar. Sim, isso vai ser muito engraçado. Aposto que ela desmaiaria de choque.

O castelo estava vazio quando cheguei, então chequei seu quarto e a biblioteca, mas ela não estava lá. Talvez tivesse ido entregar seu presente para Rarity, o que é bem provável. Perfeito, agora onde posso colocar este livro?

Enquanto eu procurava um local aberto para deixa-lo, a curiosidade acabou levando a melhor sobre mim. Eu tive que abrir o livro, tinha que dar uma olhada em seu conteúdo. Afinal, esta foi a primeira edição, então muitas coisas mudaram em Equestria desde que este livro foi publicado. Poderia até ter informações sobre dragões, e um rápido olhar não faria mal.

Eu abria o livro na primeira página, onde uma nuvem de poeira grossa levantava. O amontoado de pó fazia cócegas em minhas narinas, a pressionando de uma forma que… “oh não! Não-!” Eu tentava colocar o livro em algum lugar e virar a cabeça bem longe, mas era tarde.

A primeira coisa a saudar meu olfato era fumaça. Eu olhava para baixo em horror para os restos carbonizados do presente mais perfeito. Meu olho se emparedava com lágrimas.

Tudo estava arruinado. Meu natal perfeito estava arruinado. É por isso que nunca vou ser da família, é por isso que sempre serei um mero assistente para a Princesa. Esta é a segunda vez que isso acontece. Pelo menos desta vez, Twilight não vai se decepcionar, porque ela nunca vai saber.

Sons de passos… era Twilight e suas amigas chegando, dava para ouvir suas vozes de longe.

“Fluttershy, amei seu presente! É um livro muito interessante sobre animais raros encontrados em Equestria.” Dizia Twilight. Eu não podia ter certeza de onde ela falava, mas se ela tinha um livro, então estava vindo para a biblioteca. “Spike? Onde você está? Eu vou na casa Rarity agora, não quer vir comigo e dar pra ela aquele rubi que você esconde embaixo da sua cama?” Ela estava se aproximando. Rapidamente eu secava meus olhos, me virando para ficar de frente para Twilight parada na entrada da porta da biblioteca.

“E-eu… darei pra ela depois, você pode ir.” Apenas de olhar para ela já era doloroso. Eu lutava contra meus lábios trêmulos, mas não tinha como parar minha gagueira melancólica.

“Alguma coisa errada Spike?” Twilight perguntava suavemente. Ela se aproximava, me fazendo recuar.

“Nada.”

“Spike,” Ela suspirava. “Seja lá o que for, pode falar.”

“Não importa mais. Está arruinado. Eu arruinei tudo,” Eu dizia lutando novamente contra as lágrimas.

“Arruinou o que Spike?”

“O natal. Tudo isso… não importa mais.” Twilight chegava bem perto de mim. Com um casco, ela levantava minha cabeça e então me olhava nos olhos.

“Spike, como você poderia arruinar o natal?”

Não era nada disso que eu queria. Era pra ela encontrar o presente, ficar feliz, e então eu ia perguntar uma coisa importante a ela. Eu poderia muito bem dizer a ela o que aconteceu. Então talvez pudesse desfrutar o natal em busca de uma nova casa, porque certamente Twilight não iria querer um assistente desajeitado que desintegra as coisas por mero acidente.

Respirava fundo, “Eu sempre me senti sozinho no natal porque sou um dragão e nunca vi outro por aí morando com pôneis que nem eu, mas eu queria que o natal desse ano fosse perfeito, tanto que eu tinha encontrado o presente perfeito pra você, e nessa oportunidade eu iria pedir pra você ser minha mãe, para que eu pudesse me sentir como se tivesse uma família real no dia de natal.” Respirava fundo novamente depois que terminava. Twilight simplesmente olhava para mim, piscando. Eu percebi que desabafei sem querer. A coisa que eu queria perguntar a ela, a coisa mais importante que eu queria perguntar a ela, escapou do nada. “Aí eu encontrei uma cópia do livro Equestria: Uma Breve História, na loja do Senhor Stirling, mas quando cheguei aqui, a poeira que saiu das páginas me fez espirrar e-“

“Spike,” Twilight dizia suavemente. Sua voz tinha um leve tremor. “Spike… fale de novo.”

Eu engolia seco, sabia em que parte ela estava se referindo. Meu coração batia forte em meu peito, sentia meu rosto corar. Mesmo depois de dizer a ela acidentalmente, ainda era um grande negócio para mim. Nunca tive ninguém que pudesse chamar de mãe, mas Twilight sempre foi a mais próxima de uma mãe que eu já tive. “Pensei em perguntar isso por um longo tempo, mas até o dia de hoje nunca tive coragem. Mesmo hoje, quando vi a filha do Senhor Stirling servir de exemplo ao arrumar forças e coragem para pedir desculpas, eu ainda não sabia como ter a mesma força e coragem para dizer isso a você, eu imaginava que ao te deixar feliz com um presente perfeito, poderia ser o momento para eu me desabafar com você espontaneamente, um plano bem burro, mas na minha cabeça parecia uma boa ideia. Então, eu não sou um pônei, mas você é a mais próxima de uma mãe que eu já tive, e por isso preciso te perguntar… quer ser minha mãe, Twilight?”

“Oh, Spike,” Os olhos de Twilight encharcavam. Ela me puxava para um caloroso abraço, me apertando com força. “Eu não sabia que você se sentia dessa forma, Spike. E sim, eu amaria ser sua mãe.“ Twilight me beijava no rosto várias vezes. “Eu te amo muito, meu filho.”

Foi demais para eu conseguir me conter, e acabava deixando as lágrimas saírem. Tudo saiu tão horrivelmente errado, e ainda assim tão perfeito. “M-me desculpe por ter arruinado o livro”.

“Era Equestria: Uma breve história. Nós podemos conseguir outra cópia por aí.”

“Mas era a primeira edição, escrita por um antigo equestriano…”

“Isso foi muito gentil de sua parte. As primeiras edições são extremamente raras. Mas foi um acidente, então não se preocupe com isso. Eles podem ser raros, mas existem muitos outros lá fora para nós encontrarmos.”

“Tem certeza?”

“Confie em mim,” Twilight dizia em um tom tranquilizador. “Você queria me dar o melhor presente de natal para me deixar feliz, e foi o que você fez.” Twilight respirava, com seus cascos esfregando em minhas costas. “Eu ganhei alguém de quem me orgulho de chamar de filho. Mais raro do que o livro, é um dragão como você, Spike. Vamos passar o dia de manhã que será o primeiro como mãe e filho, e teremos o melhor natal de todos.”

“Isso é ótimo, m-mãe!”

“Agora, por que você não vai pegar aquele presente para Rarity, antes que ela viaje para Canterlot?”

“Certo.” Eu saía do abraço e caminhava até o meu quarto para buscar o presente que estava embaixo da cama.”

Enquanto eu entrava no meu quarto, observava a neve caindo pela janela. De alguma forma tudo parecia diferente, tudo parecia novo e surpreendente. Talvez nada tenha mudado efetivamente, mas só o fato de eu poder dizer mãe, foi o suficiente para trazer um novo significado a tudo.

Porque hoje, aprendi que família vai muito além do sangue, e a maneira mais simples de falar as coisas mais importantes, é com o coração, e não com palavras bonitas.

Como despertar a magia

Autor: Joseph Saltourn

Certo dia um grupo de unicórnios perguntou para a Princesa Twilight Sparkle qual seria o caminho para revelarem a magia interior que cada um possuía.

A resposta pegou a todos de surpresa. Para ajudá-los a compreenderem, a alicornio roxo deu um pequeno exemplo relativo ao propósito da existência da vida de cada um e o caminho para revelarem:

“Imaginem a seguinte cena,” ela disse. “Sobre a mesa de um escritório estão 100.000,00 em dinheiro vivo.”

“Cenário 1: Um pônei passa e vê o dinheiro. Ele verifica se há alguém por perto. Então embolsa o dinheiro e escapa como um bandido.”

“Cenário 2: Um pônei passa e vê o dinheiro. Ele começa a tremer, cheio de medo ante a perspectiva até de tocar no dinheiro, o qual ele deseja, mas tem medo de ser pego. Deixa o dinheiro onde está e corre do local como um coelho assustado.”

“Cenário 3: Um pônei passa e vê o dinheiro. Ele verifica se alguém está olhando. Então ele embolsa o dinheiro e começa a fugir. Aí ele para. Tortura-se por um momento. Então decide não fazer aquilo. Recoloca o dinheiro sobre a mesa e vai embora.”

“Cenário 4: Um pônei passa e vê o dinheiro. Pega tudo imediatamente, guarda dentro de uma pasta, tranca a pasta e a leva para as autoridades com segurança. Deixa um bilhete sobre a mesa do escritório dizendo que se alguém perdeu uma soma grande de dinheiro, poderia ligar para ele. Se o pônei for capaz de identificar a soma, ele virá com as chaves da pasta e acompanhará o pônei até a polícia para devolver o dinheiro.”

“Qual das quatro hipóteses acima revela mais Luz para si mesmo e para o nosso mundo?” Perguntava Twilight. “Vamos examinar de forma breve cada cenário para encontrar a resposta.”

“Cenário 1: o pônei é governado pela sua reatividade, natureza instintiva do desejo de receber que diz a ele para pegar o dinheiro e correr. Ele simplesmente reage ao seu desejo de ficar com o dinheiro para si. Comportamento reativo que não produz Luz.”

“Cenário 2: neste caso o pônei também está meramente reagindo ao medo de ser pego e ao seu instinto natural de ficar amedrontado até com ideia de roubar algum dinheiro. Deixa o edifício com a mesma natureza com que entrou. Não produz nenhuma Luz.”

“Cenário 3: esse pônei inicialmente reage ao seu desejo de pegar o dinheiro. Mas então ele interrompe a reação. Ele a elimina. Indo então, contra todo seu instinto inicial, ele transforma sua natureza e nesse instante devolve o dinheiro. Sua transformação de reativa para pro ativa revela a medida de Luz espiritual apropriada.”

“Cenário 4: este pônei já está num estado pro ativo mentalmente em relação a furtar o dinheiro de alguém. Nenhuma mudança de natureza ocorreu. Ele continua o mesmo pônei que era quando entrou na sala pela primeira vez. Seu comportamento, neste caso, não produziu Luz. É claro que esse pônei ainda pode revelar Luz nesse caso, se após devolver o dinheiro ele não reagir ao seu ego o qual agora diz a ele que pônei fantástico e honesto ele é.”

“Espiritualmente falando, ele precisa entender que não fez favor nenhum a ninguém, mas a si mesmo, criando uma situação de parar sua reação de se orgulhar e ao invés disso, ser mais humilde e agradecer a oportunidade que teve de se comportar espiritualmente. O mais importante a entender sobre o que foi dito até agora, é que tudo isso não tem a ver com princípios morais, éticos ou altruístas. Isso tem a ver com você, com o que é bom para você, com o que gera Luz espiritual para você, e somente do espírito que pode vir a magia, seja ela de que tipo for.”

O Pônei de Oasis – Parte IV

 

oasis

Ilustração: Drason

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Autor: ROBCakeran53

Tradução: Drason

SINOPSE: Equestria ainda estava sendo reconstruída após a derrota de Tirek, e as seis novas governantas de Ponyville ajudando em sua reconstrução. Tudo mudou de maneira inusitada quando a Princesa Celestia entregou a elas uma carta descrevendo acerca das façanhas realizadas por um único cidadão da cidade de Oasis conhecido como Senhor Baker, e a forma como superou Tirek. Com a missão de descobrir se os relatos eram verdadeiros, as seis pôneis devem ir até a referida cidade para investigar. No entanto, elas irão descobrir que o Senhor Baker não era exatamente quem ou o que elas esperavam.

Rarity e Fluttershy desciam a escada que levava até a sala de jantar de Sunny Side, onde já havia vários pôneis se servindo do café da manhã.

“Bom dia, queridas. Dormiram bem?” Sunny Side perguntava atrás do balcão.

“Sim, tão bem quanto pudemos.” Rarity rolava seu ombro. “Eu não sabia que colchões de palha ainda estavam em uso.”

Eu dormi bem, obrigada Sunny.”

Rarity rolava seus olhos para Fluttershy.

“Tem mais alguém que irá se juntar a vocês duas para o café da manhã ou devo preparar uma mesa só para ambas?” Sunny Side perguntava enquanto pegava o cardápio.

A maioria das mesas estava ocupada, e as poucas livres eram pequenas demais para seis pôneis. Com sorte, o bar ainda não estava cheio, então Fluttershy e Rarity tomaram seus assentos por lá.

Rarity pegava o cardápio, olhando por cima dele na direção das escadas. “Elas deverão descer logo. Twilight ficou acordada até tarde lendo aquele livro enorme que Thomas deu a ela.”

“Sim, ele e Bob trabalharam muito naquela coisa.”

“Bob? Ele é seu marido, certo?” Fluttershy perguntava.

“Eyup. Completou seis anos no mês passado. Que jeito horrível de se comemorar nosso aniversário.” Sunny folheava um bloco de notas. “Então, o que vão querer?”

“Um copo de sopa para mim, por favor,” Rarity respondia, colocando o cardápio na mesa.

“O mesmo para mim, por gentileza.” Acrescentava Fluttershy.

“Hoje teremos nossa especial sopa de ervilhas, espero que gostem.” Sunny retornava para o balcão.

“Certamente, obrigada.”

“Novo pedido, Bob,” Sunny o chamava através da janela de serviço.

Um casco negro surgia da janela pegando as anotações e então desaparecia novamente.

“Então, seu marido é o chef?” Rarity perguntava.

Sunny ria. “Eu não iria tão longe a ponto de chamar ele de…”

De repente surgia um gemido da cozinha.

Sunny sorria. “…mas sim, ele prepara a maior parte das refeições. Também administra o bar nos finais de semana. A maioria dos bêbados acabam se comportando bem sabendo que o administrador do bar tem o dobro do tamanho deles.”

“Soa muito como meu irmão Big Mac.”

A conversa delas era interrompida enquanto se viravam para verem Pinkie Pie saltando escadas abaixo com uma impossível cambalhota. Ela era lentamente seguida pela exausta Rainbow Dash que parecia ter acabado de acordar, e finalmente Applejack, ajudando uma relutante Twilight a terminar os últimos degraus da escada.

“Nas reuniões de família, meu irmão Big Macintosh serve cidra para os adultos.” Applejack sorria para Sunny, e pegava um assento situado no lado oposto do bar.

“Bem, pelo menos é de família. Mas aqui estou li dando com um bando de folgados que não querem nada com nada e ainda achando que me elogiar irá isentá-los de pagar a conta.”

Elas ouviam uma risada vindo da cozinha.

“Oh, silêncio aí.” Sunny arremessava uma toalha de prato na janela de serviço. “Aliás, o que o resto de vocês vão querer para o café da manhã? Essas duas assíduas pediram nosso prato especial de sopa de ervilhas.”

“Sopa de ervilhas? Primeiro aquela torta vegetariana, e agora sopa de ervilhas? Isso é quase como se tivesse tentando me fazer ficar doente,” Applejack dizia.

“Bem, eu poderia usar algumas maçãs daquela árvore que você trouxe.”

Applejack piscava, então seus olhos arregalavam. “Oh céus, eu me esqueci completamente daquela macieira. Com tudo o que aconteceu ontem, bem, foi muita coisa pra minha cabeça.”

“Com todas nós, Applejack.” Rarity dizia.

Um sino tocava na janela de serviço. Cuidadosamente, Sunny colocava os copos de sopa na frente de Fluttershy e Rarity.

Rainbow Dash respirava fundo. “Hmmm, isso parece bom.”

“Nem me diga! Vou pegar duas tigelas de sopa!” Pinkie Pie exclamava.

Todas olhavam para a pônei rosa.

“O que? Eu estou com fome.”

“Bob, mais três copos e duas tigelas,” Sunny gritava de volta, então retornava para Applejack. “Não se preocupe sobre a árvore Applejack. Bob está cuidando bem dela e já a regou hoje cedo.”

“Bem, nesse caso, obrigada Bob!” Applejack gritava. “Aquela árvore é para a cidade de qualquer maneira, então podem pegar quantas maçãs quiserem.”

Um casco negro balançava na janela tomando a atenção de Applejack. Ela se virava para ver melhor, mas o casco já havia sumido de sua vista.

“Isso é muito amável de sua parte Applejack, obrigada,” Sunny dizia, então se virava na direção da alicornio sentada no meio do grupo, “Então, como está o livro?”

Twilighr olhava para cima. “Hum? Oh, isso é… interessante, para dizer o mínimo. Há muitas coisas aqui que eu legitimamente não entendi nada, por simplesmente não fazer nenhum sentido. Alguma coisa no começo, sobre um Big Bang” é ridículo.

“Bem, Tom não é daqui. Muitas coisas sobre ele não fazem muito sentido mesmo.”

“Como o que?”

Sunny ria, “Você verá conforme for lendo.”

Twilight gemia, batendo seu rosto no livro como uma resposta frustrada.

Rarity colocava a colher ao lado de sua xícara já vazia. “Eu devo dizer, a sopa estava excelente Sunny. Meus cumprimentos para o chef.”

“Ouviu Bob? Você ganhou um elogio!”

O casco de Bob batia no sino poucas vezes em sinal de aplauso.

Applejack olhava para o casco de Bob. Alguma coisa não parece certo, mas o que é?

“Bem, Fluttershy e eu temos que ir. Sunny, será que Thomas já levantou nesse horário?

“Está brincando? Ele é o mais adiantado nessa cidade! Há uma razão para não termos nenhuma minhoca faltando.“

“Ele come minhocas?” Pinkie Pie perguntava.

Novamente, todas as pôneis olharam para ela.

“O que? Essa pergunta é séria.”

“Vocês não estão planejando prendê-lo, estão?” Perguntava Sunny.

“Oh, você ouviu algo sobre isso?” Twilight perguntava com as orelhas achatadas.

“Não exatamente, mas você impressionou o prefeito e o carteiro de uma forma que eles não deixaram suas casas desde ontem à noite.”

Twilight suspirava. “Eu devo me desculpar com eles por aquilo tudo.

“E quanto ao Sherife?” Rainbow perguntava.

“Copper Top?” Sunny ria. “Será necessário mais do que uma princesa para assustá-lo.”

Twilight encolhia com o comentário, mas deixava passar.

“Vamos indo, Fluttershy. Não temos o dia todo. Eu gostaria de começar do zero com o Senhor Baker.” Rarity ficava de pé na frente de seu assento.

“Oh, se for necessário…” Fluttershy levantava de sua cadeira.

“Vocês duas vão ver Tom?” Sunny perguntava. “Mesmo depois dele ter dado aquele livro?”

“Você fala como se isso não fosse uma boa ideia,” Dizia Rarity.

“Ninguém realmente chegou a ler o livro inteiro, com exceção de Bob, mas isso foi porque ele ajudou a escrevê-lo.”

“Porque ele é muito longo?” Perguntava Rainbow.

“Não por isso, mas porque o livro é muito chato, entediante,” Dizia Sunny.

Uma toalha de prato voava para fora da janela de serviço.

“Não é culpa sua se você escreveu daquele jeito, Bob.”

“Eu realmente não achei o livro entediante,” Twilight dizia. “Na verdade, ele é totalmente detalhado sobre os aspectos da cultura de Thomas que é um tanto interessante, como o fato de que é de costume deles andarem sempre com roupas.”

“Como disse, entediante.” Sunny colocava a toalha de cozinha no balcão. “Bem, se vocês garotas vão ver Tom, eu posso acompanha-las, no caso dele resolver bater a porta na cara de vocês.”

“Oh, nós apreciaríamos muito, Sunny,” Dizia Rarity.

“Bob trará as sopas de vocês assim que estiverem prontas.” Sunny saía do balcão, se juntando à Rarity e Fluttershy enquanto elas caminhavam. “Voltarei daqui a pouco, Bob! Tente não ser preso pela princesa!”

O casco negro balançava preguiçosamente na janela de serviço antes de desaparecer de novo. Novamente, Applejack olhava até a janela de serviço com uma sensação desconfortável em seu estômago.

Depois que as três pôneis saíram, Applejack se virava para suas amigas, agitada pelas suas preocupações anteriores. “Então Twi, fazendo algum progresso? Sei que você já leu muito, mas encontrou algo útil?”

Twilight não tirava os olhos do livro enquanto respondia. “É bastante útil conhecer sua cultura, mas o Thomas Baker pessoalmente? Não vi nada até agora. Este livro está mais para uma enciclopédia do que uma autobiografia dele.”

“Então você está dizendo que esse livro não está ajudando como deveria.” Rainbow olhava o livro com uma expressão entediada, com seu queixo descansando em um casco.

Twilight finalmente tirava os olhos do livro e olhava para Dash. “Eu não diria exatamente isso, mas muito do que está aqui me faz hesitar para acreditar em uma única palavra dele. Aqui fala de tecnologia avançada, máquinas, combustíveis fósseis, e blá, blá, blá. Muita coisa para assimilar, especialmente sem nenhum conhecimento prévio do que diz aqui.” Um casco negro colocava uma xícara de sopa na frente de Twilight. “Oh, obrigada,” Twilight olhava de volta para o livro.

“Embora eu tenha lido apenas um quarto deste livro, posso seguramente afirmar que se alguma coisa descrita aqui for real, então o Senhor Baker não é sequer de Equestria. Já cheguei a fazer muitas pesquisas sobre outros territórios, e nenhum deles fala sobre esse lugar chamado de Estados Unidos, ou a região norte dele conhecida como Canadá.”

Twilight levitava uma colher, mergulhando ela em sua xícara de sopa, assoprava ela, e experimentava. “Nossa, isso é bom,” ela olhava de volta para Rainbow Dash. “E então acabei achando algumas semelhanças. Ambos temos eletricidade, embora se comparado aos exemplos do livro, a nossa ainda é primitiva. Ambos temos locomotivas a vapor, embora para eles isso agora é só uma peça de museu já que agora eles utilizam motores mais modernos movidos a gasolina e diesel, seja lá o que isso for.”

Twilight pegava outra colher de sopa. “Uau, isso é realmente bom. Applejack, sua família pode ter uma competição séria aqui,” ela brincava, olhando para sua amiga, somente agora percebendo o quão quietas todas elas estavam, ela pelo menos esperava alguma reação de Rainbow Dash agora depois da conversa. Applejack estava olhando para frente, com os olhos apertados. Ela nem havia tocado na sopa ainda. Pinkie Pie ao lado dela já estava em sua segunda tigela.

Ela olhava para sua esquerda, onde Dash havia começado a comer, mas agora partilhando de um comportamento semelhante ao de Applejack. “Algo errado garotas?” Twilight perguntava.

O changeling chamava suas atenções enquanto ele pegava um copo sujo, cuspia nele, e então o enxugava, colocando ele junto com outros copos mais “limpos”. Ele pegava outro copo sujo, percebendo os olhares chocados, assustados e possivelmente hostis das quatro pôneis. Ele não tinha um sorriso de início, mas sua expressão neutra se deslocava para uma carranca.

Então naturalmente foi até Pinkie Pie quebrar o silêncio constrangedor.

“Bob, pode me dar outra tigela por favor?”

Rarity e Fluttershy deixavam Sunny Side guiá-las até a loja de Thomas, jogando conversa fora entre elas. Algumas perguntas sobre Tom eram evitadas como antes, então Rarity tentava outro meio.

“Então, há quanto tempo seu marido e Thomas são amigos?”

Sunny normalmente parava por um segundo, olhando de volta para Rarity, mentalmente julgando se esse seria algum tipo de truque para deixar escapar qualquer informação sobre o carpinteiro. “Oito anos, se não me falha a memória. Por que?”

“Bem, Bob ajudou Thomas a escrever seu livro, não foi? Imagino que eles sejam amigos por um bom tempo então.”

“Imaginou como?”

“Aquele é um livro bem grande, e bem confeccionado. Deve ter levado um bom tempo para finalizá-lo.”

“Três anos, na verdade.” Sunny começava a caminhar novamente. “Quando se trata de um trabalho literário, Bob é um tanto perfeccionista. Foi Bob que deu ao velho Thomas a ideia de escrevê-lo.”

“Então pelo que entendi eles são mesmo bons amigos, não?”

Sunny suspirava. “Melhores amigos na verdade. Ambos passam por algumas situações difíceis, mas é através delas que eles ajudam um ao outro.”

“Mesmo?” Rarity olhava para Fluttershy, que observava a estrada suja pela qual caminhavam.

“Tom esteve aqui apenas por alguns anos quando eles se conheceram. Até então a maioria de nós habitantes da cidade tínhamos aceitado Tom como um dos nossos, porém demorou um pouco mais para o Bob. O próprio Tom ajudou a melhorar essa relação, auxiliando Bob com qualquer trabalho que o Senhor Fixit o designava.”

“O Senhor Fixit foi o primeiro dono da loja, correto?” Rarity perguntava.

“Isso mesmo. Os Fixits foram os primeiros a se relacionarem bem com Tom. Foi muita coincidência o próprio Tom ser um carpinteiro e encanador em seu antigo trabalho antes de vir parar aqui, então ele se adaptou naturalmente com eles. Ele tinha um carinho especial da Senhora Fixit; não faria nada ousado ou impróprio ao redor dela. No mesmo segundo em que você viesse a insultá-la ele partiria na defesa dela te estrangulando.” Sunny ria.

“Metaforicamente falando, certo?” Rarity perguntava.

“Isso, Tom teve alguns problemas em seu tempo. Se você se depara com ele estressado, ele chuta seu flanco. Sempre que há problemas na cidade em que necessita de músculos nós chamamos Tom e Bob para lidar com eles. Entre os dois tudo se resolvia,” Sunny deixava sair um longo suspiro, “ou pelo menos, em noventa por cento dos casos.”

“Tirek?” Fluttershy perguntava mansamente.

Sunny cuspia na estrada. “Sim, ele.”

As três pôneis se aproximavam da varanda, com Sunny parando enquanto ela se virava para Rarity e Fluttershy.

“Então, o que é que vocês vão tentar fazer?”

“Com Thomas?”

“Sim.”

Rarity sorria. “Bem, vocês vilarejos queriam que Thomas recebesse um ressarcimento por seus suprimentos usados nos reparos da cidade. Então nós precisamos analisar o caso e ver o quanto foi feito para calcularmos o valor do reembolso.”

Fluttershy olhava para Rarity com uma sobrancelha levantada. Rarity rolava seus olhos. “Existem alguns benefícios em dividir um quarto com Twilight, embora poucos.”

Rarity se voltava para Sunny. “E então há toda a questão da medalha. Não são todos os pôneis que conseguem uma. Elas são reservadas para pôneis, ou o que quer que sejam, que fizeram alguma coisa grande e heroica que beneficiou a todos, e não apenas a si mesmo.”

“Então você vai julgar seu caráter?” Ambas pôneis acenaram; Sunny ria. “Bem, ele é bastante complicado, boa sorte.”

As bocas de Rarity e Fluttershy afrouxavam enquanto Sunny Side caminhava e entrava pela porta escorada. Rarity e Fluttershy levaram um segundo extra para se recuperarem, então rapidamente a seguiam. O lugar estava praticamente o mesmo de ontem, embora houvesse uma anotação no balcão, avisando que ele estaria fora e voltaria mais tarde.

Sunny Side caminhava até a porta restrita para funcionários e entrava. Ela deixava a porta aberta, esperando que as duas a seguissem.

No local exclusivo para empregados, Rarity estava esperando se deparar com algum tipo de sala para armazenar suprimentos, onde ele tivesse diversas caixas empilhadas com materiais guardados. Ao invés disso, elas entraram em um local que mais parecia uma sala de carpintaria, com meia dúzia de cadeiras, cada uma diferente da outra em vários estágios de acabamento. Uma parecia ser o projeto de uma cadeira de jantar com braçadeiras fixadas em cola seca. A outra era uma cadeira de balanço, já envernizada.

O berço chamava a atenção de Rarity. Sunny caminhava até os fundos da loja, chamando o nome de Tom enquanto Rarity e Fluttershy ficavam para trás. Rarity caminhava até o berço, analisando os detalhes ponto a ponto. Esculturas únicas foram esculpidas ao longo de cada balaústre, parecidos com o da varanda de Sunny, porém muito mais finas.

Lá, preso na parte de trás, havia uma velha foto preta e branca envelhecida pelo tempo. Era de uma mãe e seu bebê, que combinava perfeitamente com o berço, embora agora faltando a arte detalhada como mostrava na foto. Rarity estava prestes a pedir para Fluttershy dar uma olhada na foto quando a porta pela qual haviam entrado se abria com o Senhor Baker entediado entrando com uma xícara de café em uma mão e uma ferramenta semelhante a uma faca na outra.

A decisão de Fluttershy foi a de rapidamente se esconder atrás de uma das cadeiras. Rarity teria se juntado a ela se o chão não estivesse coberto de pó de serra.

Thomas passava andando, nem mesmo olhando para o seu lado enquanto lentamente caminhava até o fundo da sala e colocava sua xícara de café em uma das cadeiras. Ele estendia a mão e apertava um botão em uma caixa preta, deixando escapar o som do violão que Rarity havia ouvido falar há algum tempo. Então as vozes começavam.

Era um rádio, embora parecesse bem mais moderno do que o do bar de Sunny. Não demorou nem um minuto para aquecer. O som não tinha chiado, estática, ou qualquer tendência a desvanecer-se como a maioria das rádios. A música era pura e limpa.

Thomas sorria para o rádio, então com a ferramenta nas mãos, ele começava a trabalhar na cadeira. Foi onde Rarity percebeu que não era uma faca, mas uma lima para suavizar os sulcos que foram esculpidos na cadeira. Fluttershy engatinhava, saindo debaixo do banco com sua pele e crina cheias de pó de serra e suas orelhas se contraindo com a música. Pouco tempo depois as duas estavam balançando suavemente com a música.

Foi o momento perfeito para Sunny interromper a calma enquanto ela caminhava dentro da sala através de outra entrada.

Três coisas aconteceram de uma só vez: Thomas pulou, derrubando sua xícara de café no chão que se reduzia a cacos, o rádio mudou de faixa, fazendo um ruído antes de sintonizar outro canal, e Fluttershy voltava para debaixo do banco.

“Oh, aí está você Tom! Estive te procurando.”

Thomas levava uma das mãos em seu peito, com a outra segurando com força uma ferramenta.

“Jesus Cristo, Sunny. Pra que entrar assim?” Thomas expirava, levando sua mão no peito até seu cabelo.

“Bem, para fazer seu coração bater mais forte e melhorar sua disposição.” Sunny ria.

“Oh, muito engraçado.” Thomas olhava para baixo para ver o que sobrou de sua xícara e do café derramado. Ele apertava um botão em seu rádio, o desligando, então olhava de volta para Sunny. “A que devo a honra dessa visita tão cedo? A cidade mal acordou, não está servindo café da manhã hoje?”

“Bob está cuidando disso pra mim.”

Thomas piscava, olhando para Sunny como se ela fosse boba. “Você deixou Bob sozinho, cuidando do bar, com a princesa de Equestria? Sunny não estou dizendo que foi a coisa mais estúpida que você já fez, afinal é casada com ele, mais ainda assim.”

“Ele vai ficar bem.”

Um som estrondoso de “boooom” sacudia o estabelecimento, fazendo o pó de serra que cobria os lampiões pendurados no teto e outros móveis se espalharem pelo ar.

Thomas franzia.

“Certo, talvez não. Provavelmente eu deveria voltar lá antes que o pior aconteça. Sunny batia na perna de Tom com sua calda enquanto ela corria. “Oh Tom, como eu amaria envenenar seu café da manhã.”

“Pelo menos iria dar mais tempero na sua comida!”

Sunny ria, então se virava para Rarity. “Vocês ficarão bem, queridas, então divirtam-se!” Sunny corria para fora da porta.

Foi então que Rarity percebeu que Thomas estava olhando diretamente para ela.

“Oh, hum, olá de novo, Senhor Baker.”

“Apenas Thomas, senhoria Rarity.”

“Então é apenas Rarity, Thomas.”

Os dois mantinham olhares por mais alguns segundos, antes que Fluttershy mansamente saísse debaixo da cadeira feita por Thomas.

“Oh, olá para você também, tem mais alguém escondido aqui?” Thomas olhava embaixo de sua cadeira.

“Não Thomas, apenas nós duas. Nós viemos ver se havia alguma coisa em que pudéssemos ajudar, certo Fluttershy?”

A pegasus amarela acenava levemente.

A expressão de Thomas era de alívio. “Aprecio a oferta, mas estou bem, obrigado.”

“Bem, você deve ter companhia com esse trabalho, a julgar pela placa restrita a funcionários lá na porta. Eu posso não ser uma mestre em carpintaria como você, mas tenho me envolvido nessa atividade com alguns clientes recentemente.”

Thomas caminhava para outro canto da sala, pegando uma vassoura e um espanador. “Se eu quisesse ajuda, eu contrataria alguém.”

Thomas se virava, e Rarity já estava levitando um pano com sua magia para limpar o café derramado. Ele só podia torcer para que ela não estivesse usando um de seus panos limpos.

“Então talvez você precise de algumas roupas sob medida?”

“Nós temos um alfaiate, eu estou bem.”

“Bem, talvez…”

Thomas erguia um dedo. “Olha, sei o que você está tentando fazer e falhando. Pode parar de rodeios e ir direto ao ponto.”

As orelhas de Rarity dobravam. “Bem, é que, nós queríamos saber… sobre um certo aspecto de sua espécie.”

“Eu lhes dei o livro, é só olhar nele.”

“Bem, isso estava preocupando Twilight, porque ela ainda não achou a resposta no livro.”

“Mas quando encontrar, e provavelmente vai, ela pode se acalmar e parar de mandar suas amigas tentar obter a informação de mim.” Thomas começava a varrer os pedaços da xícara, agora secos graças à Rarity.

Enquanto os dois discutiam, Fluttershy chegava mais perto, examinando Thomas enquanto ele falava. Finalmente, ela andava até Thomas enquanto ele estava ajoelhado varrendo os cacos de porcelana para dentro de uma panela.

“Abra sua boca, por favor.”

Rarity e Thomas imediatamente ficavam em silêncio, olhando para a pegasus confusos.

“Perdão?” Thomas perguntava, mais surpreso do que aborrecido.

“Hu, se você não se importa, eu gostaria de ver seus dentes, por favor,” Fluttershy respondia.

Thomas olhava de volta para Rarity com um olhar de interrogação. Ela dava de ombros. Thomas rolava seus olhos, então abria a boca. Fluttershy analisava o interior dela, acenando em seguida.

“Obrigada, isso responde minha pergunta.”

“Só isso? Não vai querer me fazer tossir e tirar minha roupa?”

Fluttershy ficava com o rosto vermelho, então Rarity tirava a atenção de sua amiga.

“Bem, é que na noite passada as opções do cardápio do restaurante de Sunny Side nos pegou de surpresa.”

Thomas sorria, mostrando seus dentes. “E vocês não fugiram da cidade? Então onívoros não deve ser uma coisa nova pra vocês duas.”

“Já conhecemos alguns griffons com esses hábitos alimentares, então não.” Rarity dizia.

“A pergunta de vocês era essa então? Em que consistia minha dieta?”

“Bem, essa foi a pergunta urgente.”

Thomas se virava para Fluttershy. “Onívoro, o tipo que como qualquer coisa que é jogado na frente dele. E daí, você é uma dentista ou algo assim? Pode dizer qual é a minha dieta apenas olhando meus dentes?

“Oh, hum, não. Na minha casa eu cuido de muitos animais, então me acostumei a identificar o que eles comem apenas analisando os dentes.”

Thomas realmente se animava com isso, pegando uma pequena pá e despejando seu conteúdo em uma lata de lixo. “Então você é como um veterinário, certo?”

“Bem, eu não sou formada em veterinária, então tecnicamente não…”

“Isso é perfeito então. Eu sempre detestei pessoas formadas. Só porque eles têm diplomas não quer dizer que sejam espertas o suficiente para compreenderem a natureza de seus ofícios.” Thomas caminhava até a cadeira de balanço, passando os dedos em um dos apoios de braço. “Sabe, você pode realmente ser capaz de me ajudar no final das contas.”

Rarity e Fluttershy dividiam olhares, então se voltavam para Thomas. “Mesmo?”

“Veja, enquanto toda aquela besteira do Tirek estava acontecendo e eu estava ocupado, não fui realmente capaz de manter um olho sobre os gatos da Senhora Fixit. Um deles parece doente, eu acho.”

Fluttershy dava um passo à frente. “Doente? Como assim?”

“Bem, um de seus olhos não abre por inteiro. Eu só tinha um animal de estimação em constante crescimento e que era um comedor de algas que sobreviveu em meio aos mais de vinte peixes dourados. Provavelmente ele ainda está vivo. Então quando o assunto é gato eu realmente não entendo nada. Pensei em mandar um telegrama para alguns veterinários de Manehattan já que eu conheço alguns por lá, mas se você é familiarizada com animais de estimação, acho que poderia dar uma olhada então? “

Fluttershy sorria com orgulho. “Claro, com certeza. Deixe-me voltar e pegar meu alforje, vou ser rápida.”

Antes que alguém pudesse dizer algo, Fluttershy já estava passando pela porta de saída, deixando um rastro de pó de serra. O que veio depois foi um embaraçoso silêncio, embora Thomas ainda estivesse se mantendo ocupado.

“Então, o nome senhora Fixit me soa familiar,” Rarity finalmente quebrava o gelo… de novo.

“Bem, conhecendo Sunny Side, ela provavelmente mencionou o nome Fixit. Senhor Fixit era o proprietário original deste estabelecimento, e o carpinteiro da cidade. Sua esposa ainda mora em sua casa, sozinha, com meia dúzia de gatos. Não tenho ideia de onde eles vieram.”

“Oh sim, Sunny estava falando brevemente sobre isso. Ele deixou o estabelecimento pra você?”

“Por aí.”

“Por aí?”

Thomas parava de mexer em um bloco de madeira, olhando Rarity de cima a baixo, julgando mentalmente sobre o que ele poderia ou deveria dizer. “Tecnicamente, ele deixou tudo para sua esposa. Eu ofereci comprar tudo, mas ela se recusou e insistiu em dar o estabelecimento para mim.”

“Ela deu este lugar para você?”

Thomas encolhia os ombros. “Pôneis, vocês são todos confiantes e felizes e querem fazer todos ao redor terem o mesmo sentimento. Então, como pagamento,” Thomas gesticulava seus dedos em um estranho gesto de palavra, “Eu geralmente ajudo a cuidar de sua casa. A visito frequentemente, ajudo com o que quer que ela precise, bem como conserto o que precisa de reparos ou reforma.”

Então Thomas pegava a cadeira de balanço, a colocando em um carrinho de mão. “E hoje estou levando de volta para ela sua cadeira, totalmente renovada e pronta para outra década de desgastes.”

“Bem, você faz um trabalho amável, devo dizer.”

Thomas balançava uma mão. “Eu não construí essa cadeira, Senhor Fixit fez ela como presente de aniversário há poucas décadas atrás. Apenas passei uma outra camada de verniz e endireitei as partes tortas.”

“Bem, ainda assim, expõe o seu talento. Aquele berço por exemplo.” Rarity se virava até ele.

Thomas olhava também, então rapidamente corria para pegar um lençol e o cobria. “Sim, bem, não diga uma palavra sobre esse berço para qualquer um.”

“Por que não deveria? A confecção dele está indo muito bem.”

“Porque é segredo e a última coisa que preciso fazer é abastecer os moradores dessa cidade com fascínios me elogiando por besteira…”

Antes que Rarity pudesse perguntar mais, Fluttershy retornava com um par de alforjes e um grande sorriso. “Tudo bem, estou pronta.”

“Certo.” Thomas pegava uma pequena caixa de ferramentas e a colocava no carrinho de mão, logo em seguida ele abria facilmente um grande conjunto de portas de seis pés de largura, conduzindo o carrinho para fora, atrás da loja.

Thomas pegava o carrinho de mão, tendo ainda que se curvar para baixo e empurrá-lo para fora com Rarity e Fluttershy logo atrás. Algumas coisas imediatamente chamavam a atenção da unicórnio branca.

“Aquela é a carruagem de Trixie?”

“Sim, infelizmente. Presumo que vocês duas já conhecem a senhorita arrogante?”

Rarity ria. “Oh sim, nós vimos ela ontem à noite. Na verdade nós temos uma história com ela, a partir de algumas ocorrências em nosso passado.”

“Na verdade não chega a ser algo novo.” Thomas continuava caminhando passando pela carruagem de Trixie. “Você ficaria surpresa em saber como muitos pôneis que passam nessa cidade saem correndo assim que se deparam com ela. Para nossa sorte ela só costuma ficar por algumas semanas, meses, no máximo. Só que desta vez é um pouco diferente, porém.”

“Como assim?” Fluttershy perguntava.

“Bem, como ela mesma falou, um grupo de seis pôneis frustraram suas tentativas de riqueza e de fama e coincidentemente também destruíram sua carruagem.” Thomas parava, deixando o carrinho e mão. “Se algum dia eu descobrir quem são esses pôneis, irei fazê-los pagar.” Ele cerrava seu punho.

“P-pagar? Co-como assim?” Fluttershy gaguejava, tentando se esconder atrás de Rarity.

“Bem, desde que Trixie não pode pagar pelo conserto de sua carruagem, eles certamente poderão!“ Thomas pegava a carriola novamente. “Afinal, se o que ela disse é verdade, eles deveriam mesmo pagar pelos danos.”

Rarity e Fluttershy soltavam um suspiro de alívio, rapidamente se juntando ao Thomas enquanto ele continuava. Rarity queria perguntar sobre o outro estranho veículo com design único, mas preferiu deixar para mais tarde. Agora, uma outra pergunta mais importante surgia.

“Thomas? Vai ser quanto tempo de caminhada?”

Thomas olhava para Rarity. “Uma meia hora de caminhada. Se eu não estivesse empurrando esta carriola seria mais rápido.”

“Então você caminha em todo lugar?”

“Você pergunta como se isso não fosse uma coisa boa.”

“Não exatamente por isso, é que ouvi dizer que algumas casas ficam bem distantes da cidade.”

“Bem, normalmente eu dirijo por aí, mas sem gasolina ainda estou S-O-L.”

“Dirigir?” Fluttershy perguntava.

“S-O-L?” Rarity também perguntava.

“É uma longa história. Aquele livro irá explicar isso tudo, quando vocês o lerem inteiro eu preencho as lacunas das suas perguntas.”

“Bem, honestamente Twilight é a leitora, então ela é que irá preencher.”

“Típico.” Disse Thomas, deixando escapar uma risada.

“O que é tão engraçado?”

“Apenas me lembrou alguém.”

“Quem seria?”

O sorriso brincalhão na face de Thomas mudava para uma testa franzida. “Ninguém importante.”

Para o resto da caminhada, Rarity e Fluttershy permitiram a Thomas algum espaço para respirar enquanto ele liderava o caminho. Outros pensamentos e perguntas surgiriam das duas pôneis, mas para o resto da caminhada ele dava apenas respostas curtas e rápidas. Em pouco tempo uma pequena cabana ficava à vista.

“Aquela é a casa?” Rarity perguntava.

“Isso. Nós realmente fomos rápidos, ou vocês duas foram distração suficientes para não pensarmos sobre a caminhada.”

Thomas colocava a carriola próxima à parte da frente da varanda, onde costumava ficar a cadeira de balanço. Eles se aproximaram da porta de entrada, com Thomas colocando a reformada cadeira ao lado dela. Rarity observava compassiva como desgastado e cansado Thomas parecia. Provavelmente ele já estava cansado antes de sair com esse carrinho de mão, ela pensava.

Thomas levantava sua mão para bater na porta, mas antes mesmo de tocá-la uma voz o chamava.

“Thomas! A porta está destrancada, entre!”

As duas pôneis olhavam Thomas confusas enquanto ele sacudia a cabeça, então sussurrava, “Ela está sempre destrancada.”

Ele abria a porta, conduzindo as duas pôneis para uma simples sala da cabana. Não havia paredes separadas. A cama, cozinha, guarda-roupa, tudo se concentrava em uma enorme sala. Por mais desanimador que parecesse, a decoração, móveis e outros acessórios espalhados tornavam o local bastante confortável. Cada parte dos móveis era decorado com tecido costurado na frente e trás. Havia quadros com pinturas a mão nas paredes, fazendo Rarity se lembrar dos museus de arte de Canterlot.

O que mais chamava a atenção eram as prateleiras que alinhavam a “sala de estar”, cheias de pequenas estatuetas de pôneis.

“Eu estava começando a fazer um pouco de chá, você e suas amigas querem também?”

Rarity finalmente avistava a pônei em questão, de costas para eles em um fogão. Como ela sabia que estávamos aqui? Ela nem mesmo se virou.

“Eu adoraria, e tenho certeza que as duas também.” Thomas olhava Rarity e Fluttershy com uma expressão de expectativa.

“Oh sim, eu adoraria, obrigada.” Fluttershy confirmava.

“Então, quem são suas hóspedes de hoje Thomas? Não reconheço as vozes.”

“Rarity e Fluttershy, esta última uma vet…”

“Eu não sou uma…”

“Oh, isso é ótimo! Meus pobres gatinhos não tiveram um bom check-up desde que o doutor aposentou.

“Doutor? Seria um médico?” Rarity perguntava.

“Sim, o doutor era tanto médico como veterinário. Nunca consegui vencer a paranoia de que todos os seus termômetros se pareciam com o mesmo.”

Rarity e Fluttershy olhavam uma para a outra, mas se voltavam novamente para a Senhora Fixit andando com uma bandeja em suas costas. Suas asas estavam uniformemente espalhadas, embora um pouco trêmulas, e antes que as pontas das asas se chocassem com algum móvel, ela as ajustava para continuar em direção da “sala de estar”.

Foi quando Rarity ficou perto de engasgar, observando os olhos daquela pônei.

Eles estavam completamente limpos, não havia pupilas e a íris parecia estar quase ausente também.

“Thomas, querido, poderia?”

“Claro.” Thomas pegava a bandeja da velha pegasus, a colocando na mesa de café.

Usando suas asas, Senhora Fixit se ajustava para sentar em uma simples, mas confortável cadeira, aconchegando suas costas com alguns leves gemidos.

“Sintam-se à vontade! Sentem-se por favor!” Ela apontava para o sofá.

Thomas sentava no meio do sofá, Fluttershy no lado direito e Rarity no lado esquerdo. Seu desconforto era visível, mas as duas pôneis fingiam ignorar enquanto ele servia as xícaras de chá para todos. Rarity conseguiu evitar de comentar o fato de que as xícaras não combinavam com a cor dos pires.

“Então, fale-me de vocês! Devem ser muito especiais para Thomas trazê-las com ele.” Senhora Fixit dizia, tomando um gole de chá.

“Bem, hum, o que Thomas disse não é totalmente verdadeiro. Não sou formada em veterinária, embora sempre quisesse ser, mas eu cuido de todo tipo de animais, seja domésticos ou selvagens.” Fluttershy soprava sua xícara de chá e então tomava um gole para tentar acalmar a si mesma. “Tenho cuidado de animais desde que era criança, então adquiri muita experiência nessa área. Thomas, hum, disse alguma coisa sobre um de seus gatos estar doente.”

“Sim, é o Scrufflepuss, e não se preocupe querida, se Thomas confia em você então está tudo bem.”

Fluttershy olhava Thomas nervosamente, que apenas acenava. “É isso aí.”

“E quanto a você, querida? Estamos muito longe de Manehattan.”

Rarity foi pega de surpresa. “Oh, eu não sou de Manehattan.”

“Mesmo? Eu devo estar enferrujando. Costumava identificar a origem de um pônei apenas pelo seu sotaque. A exemplo de sua amiga Fluttershy, você tem a voz tão doce querida, estou sentindo fortemente que você é de origem Fillidelphiana, mas parece ter vínculo com alguma área rural, estou certa?”

Fluttershy piscava. “Nossa, é isso mesmo!”

Rarity se virava para sua amiga. “Você nunca me disse que era de Fillidelphia!”

“Ah, aí está!” Senhora Fixit sorria. “Pelo que posso ver agora ambas são da mesma cidade, não é?”

“Sim, Ponyville para ser exato.” Rarity mantinha seus olhos em Fluttershy, que tentava se esconder atrás do enorme corpo de Thomas.

“Você disse Ponyville? Eu me lembro dessa cidade. Pequena, elegante, tem as melhores maçãs de Equestria. Diga-me, a Senhorita Smith ainda mora lá?”

“Oh sim! Na verdade, uma de nossas amigas é neta dela.”

Senhora Fixit sorria. “Ela era uma pônei forte, nada a impedia de ficar de cabeça erguida, mesmo quando perdeu seu marido, pobrezinha.”

Fluttershy surgia do corpo de Thomas, olhando para Rarity. “Ela… eu não sabia disso.”

“Thomas, querido? Parede sul, terceiro quadro à esquerda.”

Thomas levantava, caminhando e puxando para baixo uma das muitas pinturas emolduradas. Em seguida ele passava o quadro para Rarity, que o levitava com sua mágica.

A ilustração era de dois pôneis e uma potranca.

“Esse é o rancho Maçã Doce!”

“Essa é a Vovó Smith?” Fluttershy apontava para a pônei mãe.

“Sim, essa foi a família mais hospitaleira que eu e meu marido já conhecemos em nossas viagens.”

Você viajava muito?” Fluttershy perguntava.

“Por toda a parte. Cada pintura que você observa nessa sala é dos lugares por onde passamos.”

“Você pintou todos esses quadros?”

Senhora Fixit deixava escapar uma risada antes de mudar um pouco sua posição na cadeira e levantar uma asa para mostrar sua marca especial: um pincel com asas.

“Eu também gostava de costurar, mas sim. Meu marido fazia esses quadros de madeira, e eu dava vida a eles.”

“Então vocês trabalhavam em equipe, adicionado ao fato de que viajavam muito, essa parecia ser uma vida adorável,” Rarity dizia, devolvendo o quadro para Thomas. “Applejack adoraria ver esse quadro também.” Mais para ver sua mãe também, agora sei que Big Macintosh herdou seus traços fortes.

“Thomas terá que trazê-la,” ela colocava sua xícara vazia na mesa ao lado do pires, mas parecia não se importar com esse detalhe. “Então, não quero desperdiçar o dia de vocês fazendo uma releitura do passado. Vamos ver se achamos os gatinhos.”

Após algum tempo examinando metade dos gatos, Rarity saía da casa, cansada, com sua crina um pouco bagunçada, mas feliz pelo pesadelo ter acabado. E ela se lembrando de sua gata Opal era doloroso. Imagine ter seis delas! Ela deixava Fluttershy checar os gatos restantes e saía para tomar ar fresco.

Em meio ao caos, ela perdia a localização de Thomas depois dele ter ido consertar uma porta do armário que estava caindo.

Shink, Shink, Shink.

Rarity olhava para cima, observando o humano sentado em um caixote de madeira ao lado das duas cadeiras de balanço. Em uma mão aparentemente uma faca normal, e na outra um bloco de madeira. Conforme ela se aproximava, o bloco de madeira realmente ia ganhando forma.

“Foi você que fez aquelas estatuetas de pôneis?”

Thomas desviava o olhar do bloco para Rarity, acenava, então voltava a se concentrar na madeira.

Rarity encontrava uma outra caixa de madeira e a arrastava para se sentar ao lado de Thomas, embora não muito perto com receio de perturbá-lo. Ela ficava admirada observando a escultura para o que antes era apenas um bloco de madeira. Às vezes parecia que ele estava raspando com a faca de forma aleatória, porém quanto mais ele continuava, mais a forma ia ficando nítida. Era um formato único, diferente das outras estatuetas. A estátua estava deitada sobre suas coxas, e a cauda enrolada em torno das pernas traseiras.

“Você está esculpindo a Fluttershy, não é?”

“Acertou.”

Ocorreu um silêncio por mais alguns segundos.

“Então, há quanto tempo…”

“Poucos meses depois do Senhor Fixit falecer, já deve dar uns três anos. Naquela época a visão da Senhora Fixit já estava apresentando problemas.”

“Ela foi uma adorável pintora em seu auge.”

“Sim.”

Novamente, o silêncio.

“Esta é a maneira como ela enxerga um pônei.”

Rarity piscava, retornando sua visão de volta para o humano. “Hm?”

Thomas levantava a estátua quase completa. “Eu costumava fazer esses brinquedos para algumas crianças da cidade, mas quando Senhora Fixit ficou cega, ela se esforçava para falar com outros pôneis. Ela sempre foi boa em identificar sotaques como você percebeu, mas para descrever alguém pela voz era um esforço muito grande. Um dia ela tropeçou em um desses brinquedos que eu tinha feito, e foi capaz de senti-lo e reconhecer quem era.”

“E isso me fez pensar. Se ela podia sentir e reconhecer instantaneamente quem era, então por que não fazer mais quando ela conhecer novos pôneis? Então é isso o que eu faço. Quando ela conhece alguém e gosta dele, eu faço um desses para que ela possa ‘enxergá-lo’ dessa maneira.”

“Você gosta muito dela, não é?”

Thomas voltava a talhar. “Sim, seu marido e ela foram os únicos que confiaram em mim quando cheguei aqui. Se não fosse por eles, eu poderia ter ficado perdido no deserto, e acabado morto por vá se lá saber que motivo.”

“Bem, tenho certeza que alguém mais o teria ajudado também.”

Ele riu. “Oh sim, você e a reação das suas outras amigas no nosso primeiro encontro deixou isso bem claro. Se o Sherife e o Prefeito não estivessem lá, tenho certeza que não estaria intacto como estou agora.”

Rarity encolhia, se recordando do primeiro encontro onde procurou por algum objeto próximo na sala para levitar e arremessar nele.

“Tem razão.”

Eles ficavam sentados em silêncio por mais alguns minutos, então Thomas se levantava e se espreguiçava.

“Bem, acho que está pronto,” ele dizia, entregando a estátua na direção de Rarity.

Gentilmente, ela levitava a figura com sua mágica e a trazia para perto dela. “Simplesmente perfeito, Thomas. Você enriquece seus trabalhos com muitos detalhes.”

Sim, bem, quando eu não estava ocupado com meus irmãos, eu passava o tempo brincando com blocos de madeira. Fiz muitos como sendo meus próprios brinquedos quando era jovem, simplesmente porque nada do que nosso pai comprava dava pra dividir. Para ser nosso nós tínhamos que fazer e comprar nós mesmos.”

A mente de Rarity ficava em chamas, essa frase simplesmente abria um leque para muitas perguntas, mas no momento ela só poderia compila-las. Perguntar a ele sobre coisas pessoais poderia acabar arruinando aquele momento.

“Bem, suas habilidades demonstram isso.” Rarity devolvia a estátua, que Thomas pegava cuidadosamente de sua mágica.

“Raios, nunca me acostumo com esse sentimento,” ele dizia, tremendo enquanto caminhava para dentro da casa. Quando ele retornou, estava com outro bloco de madeira nas mãos.

“Vai fazer outro?” Rarity perguntava.

“Claro, disse que faço os pôneis que a Senhora Fixit gosta.”

“Será eu?” Rarity colocava um casco em seu próprio peito.

Thomas ignorava a pergunta, virando-se junto com seu banco para Rarity. “Fique nessa posição.”

Assim fez Rarity, e Thomas começava o trabalho. Poucos minutos depois ela foi capaz de relaxar novamente, ele já havia memorizado a imagem que queria, e continuava. Para Rarity, era maravilhoso assistir um simples bloco de madeira ganhar forma a cada movimento da ferramenta que Thomas fazia.

“Seus irmãos devem ter inveja dessa habilidade.” Rarity chutava a si mesma em pensamentos. Oh, aqui vou eu estragando tudo.

Thomas não perdia o ritmo. “Até que não, meus irmãos usavam isso como desculpa para ficar com todos os brinquedos para eles. Meu pai era o único quem realmente apreciava.”

“E sua mãe?”

Thomas hesitava, mas continuava. “Ela faleceu quando eu tinha seis anos.”

As orelhas de Rarity murchavam. “Eu… eu sinto muit…”

“Foi há muito tempo atrás. Eu era novo demais para me lembrar de qualquer maneira.”

A porta se abria, com Fluttershy conduzindo Senhora Fixit com uma bandeja nas costas.

“Fizemos mais chá, caso vocês queiram,” Fluttershy dizia.

“Eu adoraria.” Rarity se virava para Thomas, que estava de pé. A forma como ele age e trata ela com amor… faz muito sentido agora.

Os quatro sentaram na varanda, com Thomas dando seu banco para Fluttershy e se sentando no chão. Ele continuava fazendo a estátua de Rarity, a Senhora Fixit cochilava em sua cadeira de balanço recém reformada, enquanto Fluttershy e Rarity continuavam maravilhadas com o trabalho de Thomas. Eles haviam perdido a noção do tempo, mas o sol estava se posicionando bem em cima deles dificultando um pouco a visão. A outra cadeira de balanço vazia rangia um pouco, influenciada por uma brisa suave.

Memórias criadas para a vitória

Autor: Selbi

Tradução: Drason

SINOPSE: Octavia estava prestes a desistir de seus sonhos e de seu futuro, mas ela é resgatada pelas memórias da única pônei que poderia salvá-la. 

“Você não pode desistir.”

Lembrei-me da minha avó. Fotos de sua aparência envelhecida ainda sorrindo vagavam pela minha mente. Seus lábios se moviam em um movimento constante firme enquanto eles formavam aquelas quatro palavras. Elas ecoavam pela minha cabeça, tornando-se cada vez mais alta a cada momento que passava.

No começo eu queria que parasse, para não se tornar uma cacofonia insuportável. No entanto, com o passar do tempo, eu deixava o sentimento afundar e aceitava minha sina.

“Me perdoe vovó, não tive outra escolha.”

Eu nem mesmo tinha a energia para cuidar do meu joelho atingido enquanto me sentava no banco do parque. Um movimento descuidado devido à minha falta de atenção com o que eu estava fazendo, junto com o fato de não enxergar melhor o chão abaixo de mim. A dor não era nada sutil, mas tudo o que eu fui capaz de fazer em resposta foi recuar de vez.

Ao mesmo tempo, eu deixava a caixa do meu violoncelo cair na sujeira sem nenhuma consideração com as consequências. Um eco suave de impacto das cordas, amplificado pelo corpo do violoncelo, ressoava a partir da caixa de plástico antes de serem rapidamente silenciados.

Com o som desaparecendo, eu olhava para o céu, tentando relaxar da melhor maneira que podia.

Naquela noite, o céu escuro era realmente uma cena e tanto de se ver. Eu não tinha visto as estrelas cobertas e livres de nuvens há meses. Não havia nenhuma luz dos postes acesos ao redor, mas a iluminação da lua era mais do que suficiente para ver livremente a vila. Reflexões a partir de plantas enevoadas que me rodeavam projetavam um ar de calma, assim como os holofotes que engoliam o palco.

Eu parava.

O palco…

Com hesitação, eu me atrevi a olhar a caixa do meu violoncelo, mas com a visão dele eu fechava meus olhos e sacudia minha cabeça.

Não, eu não poderia nem olhar.

Não era certo.

Enquanto eu balançava a cabeça novamente, ouvia vibração vinda do meu lado direito. Eu olhava até a origem do barulho e via dois pôneis – um casal – vestidos com roupas extravagantes saindo do anfiteatro. Eu não conseguia entender o que eles estavam dizendo, mas estava claro que apenas da maneira como eles olhavam um para o outro com sorrisos largos que até tiveram um bom momento. Eu vacilava quando também ouvia eles rirem em voz alta.

Minha própria expressão permanecia inalterada. Eu desviava o olhar.

Outro casal saía do edifício. No entanto, eles estavam em silêncio e não manifestaram muito além de um sorriso ou franzir de testa. Eu vi que o garanhão tinha estreitado os olhos, como se estivesse refletindo os acontecimentos da noite, e sua boca havia formado uma ligeira curva. Ele poderia estar cansado ou aborrecido, embora eu não pudesse afirmar imediatamente.

Eu nem mesmo tive tempo para decidir qual era o caso de qualquer maneira. Um garanhão solitário saía correndo para fora da casa onde ocorreu o concerto, embora tentando correr seria a melhor descrição para o que eu estava vendo, enquanto ele cambaleava em todas as direções, mas em linha reta. Eu não queria nem começar a imaginar a quantidade de vinho que ele havia bebido estando tão atordoado.

Não que eu tivesse como saber mesmo.

“Ixto extava errrraaado!”, Ele gritava em soluços. “Eu querrro meu dinheiro de volt…hic!”

“Bem, muito obrigada, estranho bêbado aleatório”, eu dizia para ninguém em particular. “Esta era a direção da qual eu precisava ouvir agora. Verdadeiramente a melhor situação possível para pronunciá-la também.”

Fiquei contente em ver o segurança do anfiteatro escoltando o garanhão para longe. “Com razão.”

“Se bem que ele também tinha.” Eu virava minha cabeça para o pequeno grupo de três senhoras, todas com seus olhos na direção do garanhão bêbado. “Aquele show não valeu muito a pena.”

“Sim!”, Disse outra em resposta. “Eu não sei como alguém poderia pensar que valia o tempo ou o dinheiro para ver esse concerto. Eu mesma vi desempenhos melhores na escola quando era criança.”

As outras acenavam.

“Quem essa Octavia pensa que é? Ela deveria parar de fazer música antes que envergonhe a si mesma ainda mais “.

Nesse ponto eu perdia toda a força de vontade de continuar ouvindo. Tudo que eu precisava para adivinhar como aquela conversa terminaria foi apresentada numa bandeja de prata. Uma bandeja de prata com comida podre nela.

Bem, Octavia, você já fez isso.

O tempo parecia voar enquanto eu estava assistindo a um lapso de tempo de um filme a partir daí. Pôneis continuavam saindo do anfiteatro, alguns animados, outros mal humorados. Eu não prestava muita atenção em tudo que eles diziam. Eu de outra forma não tinha problema para entender nada, mas o que quer que meus ouvidos captavam, era bloqueada por minha mente, rejeitando instantaneamente o significado de qualquer palavra que era pronunciada.

Quando me recuperei do meu transe, percebi que todas as luzes restantes do anfiteatro haviam sido apagadas. O último convidado já deve ter saído há um tempo atrás. Eu estava sozinha agora, apenas eu e os grilos cantando suas melodias da noite.

Ou talvez eles estivessem rindo de mim…

“Você sabe que isso não é verdade.”

Minha avó sempre era gentil. No entanto, isso não significa que ela não tinha noção de como mostrar autoridade, quando era preciso.

“Você vai pegar aquele violoncelo e vai continuar praticando, Octavia.”

Eu sacudia minha cabeça. “Não, eu não posso, vovó. Os outros vão rir de mim novamente!”

“Octavia…” Ela suspirava. “Uma vez eu fui jovem também, há muitos anos atrás. Sei como é difícil manter sua fé para continuar fazendo algo que gosta.”

“Mas eu não gosto de tocar violoncelo! É complicado e difícil!”

“Olha como fala, mocinha!” Ele apontava seu casco no meu rosto, apenas a poucos centímetros de tocá-lo. Então ela suspirava mais uma vez e sacudia sua cabeça. “Desculpe, não queria gritar. Apenas… deixe-me contar a você uma história da minha juventude. Talvez isso lhe ajude a pensar com clareza.”

“Hum, desculpe-me senhorita?”

Eu gritava no momento em que era arrancada de meu sonho, e apressadamente movia minha cabeça para todas as direções. Meus olhos levaram um tempo para se ajustarem à luz do luar, tentando compreender de onde vinha a pergunta. Estava vindo de uma pônei parada na minha frente. Ela estava com sua cabeça inclinada enquanto me olhava com seus olhos arregalados.

“Está tudo bem? Parece que você foi nocauteada.”

Eu tossia, e então acenava. “Sim, sim, está tudo bem, devo ter ficado à deriva por alguns segundos, acho. Desculpe.”

A pônei levantava uma sobrancelha. “Desculpe, mas por qual motivo? Dormindo no banco de um parque? Acho difícil acreditar que haja algo errado com isso, mas fiquei preocupada se havia acontecido alguma coisa com você.”

“Se você soubesse…” Eu murmurava.

“Desculpe, como assim?” Ela perguntava.

“N-nada, está tudo bem,” Eu dizia com um meio sorriso.

Ela suspirava. “Todo mundo não tem um bom dia de vez em quando. Não há nada com o que se preocupar, vai passar.”

Minhas sobrancelhas se estreitavam. “Mesmo?” Eu disse a ela, em um tom mais sarcástico do que pretendia, mas nem por isso ela chegava a se afastar. Ela ficava lá, com suas orelhas direcionadas a mim, esperando que eu continuasse.

Minha mente estava em brasas, assim como o resto do meu corpo. Eu deixava tudo fluir para fora de mim.

“Como você poderia saber que isso vai passar? Como você pode afirmar que sabe o que é estar no meu lugar? Você surge do nada e acha que tem ideia do que eu estou passando ou como é ter uma decepção na sua vida! Como você se atreve? Como…”

Minhas palavras se perdiam enquanto minhas emoções venciam a batalha dentro de mim. Eu sentia lentamente meus olhos humedecendo enquanto uma pequena parte de mim tentava lutar a batalha sem esperança de vir com insultos para a estranha, almejando que ela sentisse o mesmo que eu. Mas assim como eu pensei que havia acabado de encontrar a próxima desculpa mesquinha para me desabafar com alguém que nunca vi antes, aconteceu.

A pônei se sentava ao meu lado.

E ela me abraçava.

“Está tudo bem,” ela sussurrava no meu ouvido.

Um segundo se passava onde meu cérebro tentava descobrir o significado daquelas palavras. Com a realização daquilo tudo, eu enterrava meu rosto em sua pele macia e começava a chorar baixinho.

Eventualmente eu fui esquecendo daquele detalhe de que estava segura no abraço de alguém que nem conhecia. Nada poderia me prejudicar, então eu deixava sair tudo para fora. Meus olhos estavam como cachoeiras, mas as lágrimas nunca alcançavam o chão, paravam imediatamente no ombro daquela pônei.

A pônei começava a acariciar minha crina lentamente, de forma suave. Ela não dizia mais nada, mas aquele silêncio por si só já era suficiente para aquecer meu corpo trêmulo com uma luz que me envolvia em uma onda de emoções implícitas. A luz me iluminava inteiramente.

Um pensamento se formava em minha mente. Esta pônei não havia se apresentado, e nem eu a ela. Ela nem mesmo perguntou qual era o problema. Tudo o que ela havia percebido é que eu não estava bem. E agora ela estava acariciando minha crina e oferecendo a si mesma para ser banhada com as minhas intermináveis lágrimas salgadas. Ela não se importava com a história toda, apenas queria estar lá.

Compreendendo o total significado deste sentimento perfurado como uma lança arremessada diretamente através de toda a minha miséria, outra onda de lágrimas emergiam de meus olhos. Mas desta vez, eu estava sorrindo ao mesmo tempo. Aquela pônei não tinha como ver isso, mas acho que percebeu de alguma forma, enquanto o meu choro era preenchido com mais e mais risos vertiginosos.

Meu riso foi eventualmente sendo como o de uma criança que acabava de ganhar sua marca especial, e eu abraçava aquela pônei tão forte quanto podia. Se eu não estivesse tão exausta, correria o risco de quebrar os ossos dela. Ela batia nos meus ombros.

“Me desculpe.” Eu ria e aliviava meu abraço ao redor dela, a deixando respirar. Eu ainda segurava ela um pouco, apreciando o máximo que podia, então movia minha cabeça para fora de seus braços e olhava para ela.

“Eu estou bem,” ela dizia rindo e depois sorrindo calorosamente enquanto se encontrava com meus olhos. “Mas você está bem?”

Eu acenava. “Sim, definitivamente. Muito obrigada!”

“Sem problemas,” ela dizia. “Estou feliz por poder ajudar.”

Eu voltava para seu abraço caloroso e olhava para as estrelas. Parecia que elas tinham mudado completamente durante meu tempo na presença daquela pônei. Onde antes uma pequena área continha apenas algumas estrelas fracas, o céu inteiro agora parecia repintado de tantas estrelas brilhantes. Cada uma que antes brilhava sozinha agora tinha uma amiga.

Eu agradecia Luna em silêncio.

Enquanto eu era guiada pelas cordas, eu colocava meu violoncelo em seu suporte e sentava na frente de minha avó, que estava em sua velha cadeira de balanço. Depois de alguns segundos, provavelmente recolhendo-se de seus pensamentos, ela começava a falar.

“Quando eu tinha sua idade, ainda estava começando a aprender a tocar meu primeiro instrumento, que era um piano. Depois de poucas semanas, fui capaz de executar o básico, um conhecimento que levaria outras crianças da minha idade meses, até anos para aprender. Eu tinha um talento natural bem incomum, como minha professora costumava afirmar. A alegria que eu tive com essa experiência foi maravilhosa. Nunca antes ninguém incentivou ou mencionou que eu era tão boa em alguma coisa e que poderia fazer com facilidade.”

“No entanto, é aqui que residia o problema, exatamente do simples elogio que eu recebia mais do que devia. Só porque eu era boa logo de início não queria dizer que eu era perfeita no que fazia. Eu tinha muito a aprender assim como qualquer outro aprendiz de piano.”

“Eu desisti depois de um ano apenas, quando a minha taxa de melhoria parecia ter diminuído a um mínimo quase imperceptível. Parecia que havia parado, de fato. Eu tinha em mente que, se eu não me visse melhorando, deveria ser incapaz de seguir em frente e dessa forma parar de vez. Que isso não era nada além de eu estar sendo ingênua e despropositada, porém, foi a percepção que eu tive quando já era tarde demais.”

Ela se levantava da cadeira e olhava diretamente nos meus olhos.

“Claro que eu não posso tomar a decisão final por você, mas se você desistir agora, Octavia… então você será assombrada por essa decisão pelo resto de sua vida.”

A pônei ria. “Porque não importa quanto tempo um pônei conhece outro ou que razões eles têm quando estão se sentindo mal, bobinha,” ela dizia. “Não faz diferença o que levou eles nessa situação ou o que poderiam ter feito de maneira diferente.” Ela se levantava do banco e ficava de pé na minha frente. “A verdade é que eles não estão se sentindo bem, e eu quero estar lá nesses momentos, que é muito mais importante do que entender todos os detalhes.”

Eu suspirava e me inclinava para trás, olhando novamente para o céu cheio de estrelas. Eu fechava meus olhos e sorria. “Sim, você está certa,” Eu dizia. “Eu concordo, conforto é mais importante do que desabafar, e agora que eu penso sobre isso, vejo que só teria piorado as coisas. Mas me sinto muito melhor agora, então eu acho que posso explicar o que aconteceu.”

Eu pausava para respirar, deixando o ar fluir através do meu corpo.

“Eu sou uma violoncelista de Canterlot,” Eu dizia. “Bem, violoncelista amadora é provavelmente a melhor definição. Minha carreira não foi tão limpa e perfeita como eu gostaria que fosse, e tenho falhado para impressionar o público por um longo…”

Eu batia na minha cabeça com um casco e pressionava ele contra meus olhos fechados, sacudindo.

“Oh, eu sinto muito! Esqueci completamente de me apresentar. Não acredito que ainda não fiz isso depois de toda a sua ajuda, especialmente porque já queria fazer isso há um momento atrás. Por favor, me perdoe.” Eu tossia novamente. “Meu nome é Octavia.”

Quando eu não ouvi uma resposta, abri os olhos novamente e olhei para a pônei.

“E você é?” Eu perguntava, com meus olhos se ajustando à escuridão.

Novamente, sem resposta.

“Olá?”

Eu olhava para a esquerda e direita, cima e embaixo, mas eu não via a pônei em lugar nenhum. Não havia pegadas em qualquer lugar ao redor de mim; não havia sequer sinais de que alguém mais estava aqui além de mim. Para onde ela foi? Ela foi embora? Eu estava sendo irritante? Por que não percebi isso?

“Oh  não,” Eu disse para mim mesma. Estava sonhando? Com alucinações? Meu desespero por conforto fez eu pensar que alguém estava me abraçando, alguém que desapareceu no momento em que comecei a me sentir melhor?

Mas assim como as preocupações surgiam rapidamente, elas desapareciam enquanto as palavras daquela pônei ressurgiam em minha mente.

Não importa.

Quem essa pônei era, o que ela estava fazendo aqui, porque ela decidiu me ajudar… tudo isso não importa. A única coisa que importava era que alguém estendeu o casco para me ajudar no momento em que mais precisava. Com o conforto dela eu fui salva de cair em depressão, salva de estabelecer sem nenhuma dúvida arrependimentos da pior decisão de que poderia ter tomado – desistindo da música, meu futuro, minha vida.

Mas eu não desisti.

Depois de um suspiro, meus olhos avistavam um pequeno pedaço de papel no chão. Eu pegava ele e sorria. Havia uma simples linha escrita nele.

Estava escrito…

Engoli seco enquanto as palavras da minha avó afundavam. O que ela disse? Que eu seria assombrada pela minha decisão pelo resto da minha vida?

“Mas por que eu não posso mudar aquela decisão mais tarde?” Eu perguntava.

“Bem, Octavia, é porque…” Ela abaixava sua cabeça e suspirava profundamente. “É porque alguém raramente terá força de vontade e motivação suficientes para desfazer um erro dessa magnitude. E é uma coisa que falo por experiência pessoal.”

Ela colocava um casco no meu ombro e sorria.

“Por favor Octavia, ouça. É importante para mim que você saiba disso: eu me arrependo da decisão de desistir do meu sonho de ser música só porque estive em uma fase difícil em que me levou à escolha mais fácil: parar. Eu traí a mim mesma por razões bobas.”

Eu gritava de surpresa no momento em que ela me puxava para um abraço apertado e repentino.

“Me prometa…” Parecia que eu ouvia ela chorar, ainda que um pouco. Ou talvez fosse apenas minha imaginação. “Por favor me prometa, querida Octavia… que você nunca fará o mesmo. Não repita minha tolice. Se você está no fim de sua fé e deseja deixar ir embora tudo aquilo em que você trabalhou tão duro, pense cuidadosamente na decisão que irá tomar. Eu desisti antes…”

Eu sorria, retribuindo o abraço e me deixando cair livremente em seus braços.

…você não pode desistir de novo.

Unidos em qualquer situação

Autor: TNTBrony

Tradução/edição: Drason

SINOPSE: Em uma tarde após terminarem os trabalhos na fazenda, Apple Bloom e Applejack descansavam embaixo de uma árvore. Durante esse momento de repouso, Apple Bloom faz uma pergunta inesperada à sua irmã mais velha.

“Applejack, posso te fazer uma pergunta?”

A pônei laranja levantava seu chapéu para ver a pequena irmã. Elas haviam terminado de colher as últimas maçãs do pomar e decidiram relaxar embaixo de uma árvore que proporcionava a elas uma grande vista da fazenda enquanto o pôr do sol começava a tocar as copas das árvores no oeste. Ainda havia tempo de sobra para tirarem uma rápida soneca antes das duas voltarem para o jantar.

“Diga docinho, o que você queria perguntar?”

“Eu queria perguntar sobre o futuro.”

Applejack levantava uma sobrancelha para a estranha pergunta vinda de Apple Bloom.

“O futuro?”

“Sim. Digo, seremos sempre assim?”

Applejack continuava confusa com a pergunta.

“Sempre assim… como?” Perguntava a pônei laranja.

“Como somos agora?” Respondia a potranca amarela.

Novamente a pergunta parecia vaga, mas os olhos de Applejack caíam sobre o flanco branco da irmã mais nova. Ela somava dois mais dois e interpretava que era mais um de seus dilemas sobre sua marca especial, sobre quando ela finalmente iria conseguir uma. Com sua irmã olhando para ela, Applejack rolava os olhos e deixava sair um leve suspiro.

“Apple Bloom, sei que é difícil, mas como já disse antes, sua marca especial irá aparecer na hora cert…” Ela foi interrompida.

“Não era sobre isso que eu estava falando.”

A pônei laranja foi pega de surpresa.

“Certo, sobre o que seria então?”

“Se nós, como irmãs, estaremos sempre próximas?”

Applejack olhava para a pônei amarela com uma expressão confusa.

“Qual o motivo dessa pergunta docinho?”

“Bem… porque o tempo nunca para e tudo sempre muda. Eu estou ficando mais velha e você e Big Mac também. Vocês dois já estão na idade em que podem se casar com alguém e irem embora.”

Applejack coçava a nuca com um casco, até porque ela ainda não havia cogitado a ideia de arrumar um companheiro e deixar a fazenda. A pônei laranja acreditava que algo assim seria mais provável de ocorrer com Big Mac, mesmo com seu jeito tímido e quieto, mas a verdade é que ambos irmãos sempre foram cautelosos nesse quesito, tratando essa possibilidade como uma grande responsabilidade, e talvez por isso mesmo que ainda não aconteceu com nenhum dos dois.

“E depois vai ser eu, Applejack. Ainda não descobri o que vou fazer com a minha vida, especialmente quando ganhar minha marca especial. O que vai ser de mim se no dia que eu conseguir a minha marca ela for relacionada com alguma coisa em que eu tenha que ir embora da fazenda?”

Applejack se sentava na frente de Apple Bloom, a olhando nos olhos enquanto ela desabafava suas preocupações. A pônei laranja já chegou a imaginar a possibilidade de ver sua irmã partir ao se tornar adulta, mas considerou uma preocupação precoce devido à idade dela.

“Bem, o tempo está passando e eu queria saber se lá na frente ainda seremos próximas?”

“Do que você está falando Apple Bloom, nós somos irmãs, mesmo se você partir, eu sempre estarei aqui no rancho quando você precisar de mim.”

Apple Bloom olhava sua irmã com os olhos arregalados antes de abaixar a cabeça, ficando em silêncio por um momento antes de falar novamente.

“Mas e se você não estiver? O pai da Lazy Mind disse que não sabemos o dia de amanhã e que por isso temos que aproveitar a vida o máximo que pudermos, mas eu não concordo com essa afirmação, ela me soa irresponsável, descuidada e equivocada!”

Applejack inclinava sua cabeça e colocava seu casco no ombro de sua irmã. Para alguém tão jovem, ela já tinha preocupações e a maturidade de um adulto, e isso sim preocupava a pônei laranja.

“Eu não quero que você vá,” Apple Bloom dizia enquanto se aproximava da pônei laranja e descansava sua cabeça no peito dela.

Applejack ficava em silêncio por um breve momento antes que Apple Bloom começasse a soluçar. Então a pônei laranja abraçava sua irmã enquanto começava a acariciar sua crina ruiva. Apple Bloom abraçava de volta antes de movimentar a cabeça para se encontrar com o rosto de sua irmã mais velha, que olhava para ela sorrindo.

“Você deveria se preocupar menos com essas coisas e pensar mais na sua infância,” Applejack dizia suavemente enquanto bagunçava o cabelo de sua irmã, “Eu não deixei o rancho porque sou feliz aqui com vocês, e se você está preocupada com isso, é porque você também está feliz aqui, e é exatamente pelo fato de nós amarmos uns aos outros que brota essa preocupação sua, como também é por essa razão que independentemente do que acontecer lá na frente, nós sempre estaremos unidas.”

“Mas e seu eu perder vocês que nem perdemos nossos pais?” Perguntava Apple Bloom aos soluços.

“Mesmo assim você não vai me perder, e vou dizer porque. Se lembra de alguma coisa sobre Mamãe e Papai?”

Apple Bloom pensava por um breve momento em seus pais quando duas lembranças vieram à sua mente. “Eu… me lembro de Mamãe cantando uma canção de ninar para mim… e também me lembro do papai fazendo caretas para me fazer rir e ensinando o Big Mac a fazer as caretas também.”

A pequena pônei amarela deixava escapar um sorriso.

“Então você não os perdeu.”

Apple Bloom parava de rir e olhava Applejack confusa enquanto continuava.

“Você está certa docinho, o tempo passa, as coisas mudam. Pôneis vêm e vão, mas não irão realmente embora enquanto nos lembrarmos deles. Basta nos recordarmos para eles continuarem vivos,” Applejack explicava, “Vovó Smith, Big Macintosh e eu ainda estaremos sempre com você. Caso você sair da fazenda e morar em outro lugar, mesmo em uma cidade grande como Canterlot, Manehattan ou Fillydelphia, eu sempre vou estar aqui com você,” Applejack pressionava seu casco no peito de sua irmãzinha se referindo ao seu coração.

“Desde que você se lembre, sempre serei sua irmã mais velha, para sempre”, Applejack a confortava, aconchegando sua cabeça na de sua irmã mais nova, que se aconchegava de volta.

A pônei ruiva abraçava sua irmã enquanto Applejack a pegava no colo e sentava embaixo de uma árvore. Apple Bloom descansava em cima de sua irmã mais velha ainda a abraçando, se acalmando. Applejack sorria e acariciava a crina de sua pequena irmã. Ela então começava a cantar baixinho.

“Nós somos Apples para sempre, Apples unidos,

Nós somos uma família, mas também somos muito mais,

Não importa o que enfrentaremos com o tempo,

Porque somos Apples unidos da raiz até o espírito”.