Promessas de Papel

Valor-promessa

Fonte: cdn-img.fimfiction.net

Autor: Fervidor

SINOPSE: Filthy Rich tem um problema. Sua filha, Diamond Tiara, continua quebrando suas promessas para tratar suas colegas de classe com mais respeito. Na verdade, ela nem parece entender o que é uma promessa. Já que puní-la não aparenta ter nenhum efeito eficaz, Senhor Rich é forçado a elaborar um método educacional mais criativo. Mas como ele pode fazer uma filha tão mimada e materialista como Diamond Tiara entender o valor de uma promessa?

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Diamond Dazzle Tiara estava na frente da mesa de trabalho de seu pai Filthy Rich, movendo-se desajeitadamente em seus cascos sob o olhar severo e desaprovador dele. Ele estava com aquele olhar de desapontado em seu rosto, que poderia ser compreendido como você-está-escrencada-garota, o que significava que eles teriam uma daquelas longas conversas onde ambos prefeririam evitar, mas por razões ligeiramente diferentes.

“Você quebrou sua promessa, Diamond,” começava Filthy Rich.

“Mas papai…” Antes que Diamond terminasse, Filthy levantava um casco para silenciá-la.

“Pensei que nós já havíamos concordado que você não iria mais incomodar aquelas três alunas,” ele continuava. “E agora eu ouço da professora Cheerilee que não deu nem uma semana pra você começar tudo de novo. Você sabe muito bem que não gosto quando sua professora me traz más notícias, Tiara, se é que ainda dá pra chamar isso de notícia.”

“Não é culpa minha se aquelas três são um bando de flancos brancos imaturos,” Diamond murmurava. “Elas simplesmente me dão nos nervos.”

“Não é questão de você gostar ou não delas,” Filthy suspirava. “Você nem precisa se dar bem com elas, embora fosse isso que eu queria. Já aceitei que você não é o tipo de criança que faz amigos facilmente, mas esse não é o ponto agora. O ponto é que você tinha feito uma promessa.”

“Sim, para elas,” Diamond argumentava. “Eu nunca tinha prometido nada pra você ou para a professora Cheerilee.”

Filthy Rich levantava uma sobrancelha. “E isso faz alguma diferença pra você?”

“Claro que faz!” Diamond respondia. “Eu não me dou bem com elas, então quem se importa?”

Filthy Rich olhava para a filha momentaneamente com uma expressão preocupada, como se ele tivesse descoberto algo terrível. “Diamond,” dizia ele, lentamente. “Você sabe o que é uma promessa?”

Diamond Tiara parecia ligeiramente ofendida. “Que tipo de pergunta é essa? Claro que sei, não sou mais um bebê. Promessa é quando você quer que alguém faça alguma coisa que foi concordado.”

“Sim, mas por qual razão você deve honrar suas promessas?” Perguntava Filthy. “Qual a importância disso?”

Diamond franzia a testa. Não era assim que essas conversas costumavam acontecer. “A importância é que senão você vai pegar a cinta ou reduzir minha mesada?”

O pai colocava os cascos sob o queixo. De repente, ele parecia muito cansado. “E é só por isso? Você mantém suas promessas somente porque tem medo de ser punida?”

“Bem, sim?” Diamond respondia. Ela ainda não entendia o foco da conversa. “Eu acho.”

Havia uma pausa. Filthy continuava dando a ela aquele estranho olhar cansado por alguns instantes, em seguida, suspirava profundamente e se inclinava para a frente com seus cascos sobre os olhos. “Maldição,” ele murmurava. “A senhorita Cheerilee estava certa. Sou um fracasso como pai.”

“Oh, para com isso!” Diamond gemia. “Quem se importa com o que  a professora Cheerilee pensa? Olha, você vai me colocar de castigo, vai cortar minha mesada ou o que?”

Filthy nem sequer olhava para ela. “Que diferença isso faz? Você nem entende porque está sendo punida.”

Diamond não entendia; eles já não tinham passado por isso? Ela ficaria de castigo por ter quebrado alguma promessa que fizera para alguns flancos brancos, mesmo que ela entendesse que isso fosse totalmente injusto, embora não fosse boba de falar nada disso em voz alta. “…Espera aí, então você não vai me punir? Isso quer dizer que eu posso ir agora?”

“Bem…” Filthy acenava um casco para ela, gesticulando para que saísse. “Pode ir, eu… eu preciso pensar sobre tudo isso.”

Diamond virava-se para sair, sorrindo para si mesma. Isso havia sido melhor do que o esperado. Ela não tinha ideia do que estava acontecendo com seu pai, mas se isso era sinônimo dela sair impune, a pônei rosa clara faria qualquer negócio para não discutir sobre isso.

Ela estava prestes de tocar a maçaneta da porta do escritório quando Filthy Rich repentinamente lhe chamava atenção. “Diamond, espere um minuto.”

“Bah!” Ela sabia que era bom demais para ser verdade. Suspirando levemente, ela se virava para ele. “Sim Papai?”

“Já que você tocou no assunto, eu ainda não lhe dei a mesada esse mês, não foi?” Filthy meditava, coçando o queixo. “Por que não resolvemos isso agora antes que eu esqueça de novo?”

Diamond piscava. “…Mesmo?!” Ele ia dar o dinheiro agora? Estava ficando cada vez melhor! Ela rapidamente voltava até a mesa, esboçando o seu sorriso mais encantador. O que quer que estivesse acontecendo ali, ela estava decidida a aproveitar ao máximo. “Isso é ótimo! Obrigada papai!”

Filthy dava um tapinha nos bolsos do paletó. “Hmm, minha carteira não está comigo… Ah, espere!” Ele parecia ter uma ideia e abria uma das gavetas em sua mesa, colocando um dos cascos dentro. “Um momento, no final das contas tenho algo aqui pra você.”

Depois de remexer um pouco, ele tirava o que pareciam ser quatro papéis retangulares com um tom levemente verde. Ele os estendia para Diamond. “Aqui, pode levar.”

Diamond olhava para os papeis confusa. “O que são essas coisas?”

“Cédulas de Eyrian,” respondia Filthy. “É dinheiro do povo griffo.”

“Isso é dinheiro? Mas eles são feitos de papel,” apontava Diamond.

“Como eu disse, são chamados de cédulas,” dizia Filthy. “Originalmente eles podiam ser trocados por uma certa quantia de moeda, mas atualmente os griffos usam essas notas da mesma forma como usamos os bits. Eu ganhei algumas durante minha viagem a trabalho em Eyria, então pensei em dá-las pra você.”

Diamond Tiara pegava os pedaços de papel e dava uma olhada mais de perto. Eles estavam adornados com a foto de um griffo usando um chapéu engraçado cercado por muitos enfeites bizarros. Ela ainda tinha dúvidas, que desapareceram por completo quando viu a soma impressa nos cantos de cada uma das cédulas. Eram muitos zeros. “Quer dizer que esses papeis valem esses números impressos neles?!”

Filthy sorria. “Exatamente.”

A mente de Diamond espantava. Ela sabia que os griffos faziam negócios em Equestria e se perguntava qual seria a taxa de câmbio. Quando se sentia entediada, às vezes pegava algumas revistas complicadas do seu pai para tentar ler, e embora muitos dos detalhes lhe escapassem, ela parecia se lembrar de uma parte que falava sobre a economia de Eyria estar se saindo muito bem atualmente. Mesmo que a moeda dos griffos valesse menos em bits, aquela quantidade de zeros convertido para o dinheiro dos pôneis deveria valer muito.

“Oh,” ela dizia, e então olhava para o pai com um enorme sorriso no rosto. “Obrigada, papai, você é um paizão! E sei exatamente o que fazer com esse dinheiro. O Torrão de Açúcar inventou uma nova receita de bolo que eu estava morrendo de vontade de experimentar. Acho que vou lá agora mesmo!” Ela falava rapidamente enquanto se apressava até a porta, ansiosa para sair do escritório antes que seu pai a interrompesse de novo. “Tenho certeza que você tem muito o que fazer, então te vejo mais tarde! Tchau!”

“Tenha um bom dia, filha,” dizia Filthy Rich enquanto ela fechava a porta. Deixado sozinho, ele inclinava a poltrona para trás e ria baixinho. “Bem, ela vai ter uma decepção.”

Diamond não conseguia parar de sorrir enquanto trotava pela estrada até o Torrão de Açúcar, com as notas de griffo muito bem guardadas em sua carteira. A cada passo que ela dava, a deixava cada vez mais convencida de que estava carregando uma fortuna e imaginava um futuro cheio de doces deliciosos diante de seus olhos.

“Se é isso o que acontece quando quebro minhas promessas, deveria fazer mais vezes,” Ela pensava consigo mesma. Ainda assim, uma pequena parte de sua consciência achava a súbita generosidade de seu pai uma perplexidade. Talvez ele só não deve ter percebido a quantidade de dinheiro que tinha dado a ela? Seja qual for o caso, ela não estava prestes a reconsiderar. Era o dinheiro dela agora, justo e quitado.

Ela chegava ao Torrão de Açúcar e abria a porta. Correndo para dentro, a pônei rosa clara notava que era a única cliente no momento. Isso foi um pouco decepcionante, ela esperava pela chance de se exibir para seus colegas de classe, em particular aos flancos brancos, que provavelmente ficariam mais verdes de inveja do que aquelas cédulas ao verem o banquete que ela estava prestes a pedir. “Oh bem,” ela pensava. “Pelo menos posso aproveitar em paz.”

Não havia sinal dos bolos que ela falou, mas Diamond mal havia fechado a porta atrás dela quando Pinkie Pie repentinamente levantava a cabeça por trás do balcão com seu sorriso característico no rosto. “Oh! Olá Diamond Tiara! Os bolos estão sendo empacotados para encomenda, mas ficarei feliz em anotar seu pedido.”

“Olá, Pinkie,” dizia Diamond, sentando-se. “Eu soube dos novos bolos e pães doce que você fez e pensei em experimentar uns. Faça três pães doces de luxo. E traga um dos seus cupcakes especiais enquanto espero. Ah, e um grande milk shake de morango para acompanhar.”

Pinkie Pie dava uma risadinha. “Bem, então você vai ser a gastadeira de hoje?”

“Pode apostar.” Diamond tirava as cédulas de griffo da carteira e as espalhava no balcão com um sorriso confiante. “Isso deve cobrir tudo, não acha? E não se esqueça do troco.”

Pinkie olhava confusa para as cédulas, voltava a olhar para Diamond e novamente olhava as cédulas.

“Oh! Ooooh!” Ela exclamava e de repente começava a rir calorosamente. “Isso é… ha!ha!ha! essa foi boa! Nossa, a Apple Bloom estava errada, você tem senso de humor sim!”

“Ei!” Diamond Tiara franzia a testa. “Você quer dizer o que com isso? Vai me vender os doces ou não?”

“Heh… lamento garota, não posso.” Pinkie enxugava uma lágrima do seu olho, risos ainda borbulhavam dentro dela. “Eu gosto de uma boa piada tanto quanto de qualquer pessoa, começando tão jovem assim com as brincadeiras logo logo você vai ser outra Pinkie Pie! A cor já é parecida!”

“Eu não estou brincando!” Diamond insistia. “Eu te dei o dinheiro e quero os doces!”

Pinkie finalmente parava de rir e agora olhava para Diamond Tiara com uma sobrancelha arqueada em confusão. “Espera, você estava falando sério?”

Diamond assentia. “Como sempre.”

“Oh,” Pinkie Pie coçava a crina. “Bem, isso é constrangedor. Pensei que você só estava brincando. Adoraria te vender alguma coisa, mas com esse dinheiro, nada bom. Você precisa pagar em bits se quiser comprar alguma coisa. Aliás Diamond, de todos os pôneis, eu imagino que você, com o pai que tem, é a que mais deveria saber disso.”

“Ah! Estou vendo! Então meu dinheiro não é bom o bastante pra você, né?” Diamond bufava e empinava o focinho. Imaginava que Pinkie Pie estava indecisa. “Então talvez eu gaste meu dinheiro em outro lugar!”

Pinkie acenava com o casco. “Não, não, não! Você não entendeu. Essas cédulas não são boas em qualquer lugar porque não é uma moeda válida em Equestria.”

Demorava alguns instantes para as palavras serem processas corretamente na mente de Diamond. Uma vez que isso ocorria, sua boca se abria. ”…Como é!? Está falando sério?”

Pinkie assentia. “Tão séria quanto a cara da Maud Pie.”

“N-Não, isso não pode estar certo,” Diamond gaguejava, sacudindo a cabeça em descrença. “Tem certeza?”

“Ab-so-lu-ta-men-te!” Pinkie dizia. “Veja, Twilight me mostrou este livro interessante sobre todos os tipos de dinheiro existentes e eu definitivamente me lembro dela dizendo que este aí não pode ser usado para comprar coisas aqui. Você não vai encontrar ninguém em Ponyville que os aceite. Ela pegava uma das notas e dava um olhar curioso. Eu nunca vi uma de perto antes. Onde você conseguiu isso?”

“Meu… meu pai me deu,” respondia Diamond fracamente. “Ele disse que era minha mesada.”

“Uau, mesmo?” Pinkie colocava a nota de volta no balcão, parecendo genuinamente impressionada. “Eu não sabia que o Senhor Rich era brincalhão. Acho que isso o torna engraçado na sua família, né?”

Diamond olhava para as notas de griffo com uma sensação de afundamento no estômago. “Então… você está dizendo que meu pai mentiu para mim?”

“Hmmm, eu não sei?” Pinkie Pie inclinava-se desconfortavelmente para perto dela, olhando atentamente para a pônei rosa clara. “Ele disse que você poderia comprar qualquer coisa com esse dinheiro?”

“Uh… eu acho que ele não,” admitia Diamond, esvaziando um pouco. “Mas simplesmente não posso acreditar que meu pai acabou de me enganar!”

“Aquele Filthy Rich, que papelão,” Pinkie ria. “Eu tenho que me lembrar disso, ele enviando alguém para comprar coisas com dinheiro que não vale nada. Inestimável!” De repente, ela fazia uma pausa. “Oh, ei! Impagável! Tem que haver um bom trocadilho nisso em algum lugar.”

Diamond colocava seus cascos na cabeça e gemia. Isso não podia estar acontecendo. Ela foi traída. Traída por sua própria carne e sangue! E pra piorar, ela não conseguiria os doces que tanto queria hoje.

Se bem que por outro lado, poderia ter sido pior. Pelo menos não haviam outros clientes no Torrão de Açúcar para testemunhar aquela humilhação. Ela estremecia ao imaginar os flancos brancos testemunhando aquela cena. Ela nunca viveria com isso.

“Acho que devo ir,” ela murmurava sombriamente, pegando as notas do balcão. Ela ia ter uma conversinha com seu pai assim que chegasse em casa. Prestes a sair do Torrão, ela fazia uma pausa. “Hum, Pinkie? Você se importaria de não contar pra ninguém o que aconteceu aqui?”

“Não se preocupe com isso,” Pinkie sorria brilhantemente. “Será o nosso segredinho, eu prometo.”

O tom indiferente de Pinkie não deixava Diamond se sentindo realmente segura. “Eu estou falando sério,” ela enfatizava. “Nenhuma palavra pra ninguém!”

“Oh, relaxe,” Pinkie dizia. “Prometo não contar pra ninguém que você tentou comprar pães doces toda sorridente com dinheiro falso. Por isso eu fechei minha boca, tranquei com uma chave, escavei um buraco, enterrei a chave, depois construí uma casa em cima do buraco e fui viver na casa em cima do buraco! Cruze o meu coração, espere voar e enfie um bolinho no meu olho!”

Diamond a observava realizar aqueles movimentos ridículos com os cascos e falando todas aquelas coisas confusas ao mesmo tempo, sentindo-se envergonhada por ambos. “Por que fez isso?”

Pinkie parecia um pouco confusa. “Por que fiz o que? Essa é a minha promessa Pinkie Pie.”

“Sim, eu sei o que é,” dizia Diamond com a frustração rastejando em sua voz. “O que eu quero saber é por que manter essas promessas infantis são tão importantes pra você?!”

Por um momento, Pinkie apenas piscava e olhava para Diamond como se ela tivesse perguntado por que a grama é verde. Então ela começava a rir outra vez. “Sua garotinha boba! Se você não cumprir suas promessas, qual é o sentido de prometer alguma coisa?”

O que isso significava afinal? Diamond apenas balançava a cabeça e se dirigia para a porta. “Que seja. Desculpe por desperdiçar seu tempo.”

“Tenha um bom dia!” Pinkie gritava atrás dela. “Volte quando tiver dinheiro de verdade!”

Diamond estremecia. A falta completa de sarcasmo na voz de Pinkie de alguma forma só piorava a situação. A pônei rosa clara abria a porta com um pouco mais de força do que o necessário e quase se chocava com Fluttershy ao sair.

“Oh, desculpe, eu não queria…” Fluttershy murmurava, mas Diamond ignorava a pegasus enquanto se afastava com uma expressão de raiva no rosto.

Entrando no Torrão de Açúcar, Fluttershy virava-se para Pinkie Pie. A pegaso amarela parecia preocupada. “Aconteceu alguma coisa Pinkie?”

“Não posso falar sobre isso,” respondia. “Promessa Pinkie Pie. Então Fluttershy, o que vai querer?”

“Oh, o de sempre, por favor,” respondia Fluttershy.

Pinkie assentia. “Um bolo especial de cenoura chegando! Ei, você sabia que o dinheiro dos griffos é de papel?”

“Mesmo?” Fluttershy arfava.

“Sim,” Pinkie ria. “Diferente, né?”

Fluttershy colocava um casco sobre o queixo, parecendo bastante angustiada. “Aqueles pobres patinhos…”

“Heh, sim.” Alcançando o bolo de cenoura, Pinkie fazia uma pausa e inclinava a cabeça. “Espere o que você disse?”

Filthy Rich não saía da mesa, embora tenha pedido ao mordomo Randolph que lhe trouxesse algumas revistas para passar o tempo. Ele conhecia sua filha muito bem pra saber que ela voltaria direto para casa para lhe dar um sermão assim que descobrisse a fraude. Afinal, ela sempre foi do tipo conflituosa. Ele olhava por cima da sua revista sobre Economia Estável para observar o relógio na parede. A qualquer momento agora.

As portas se abriam e Diamond Tiara invadia o escritório parecendo uma minúscula tempestade rosa clara. “Ha!ha! Muito engraçado! Acho que prefiro ficar de castigo na próxima vez.”

Filthy colocava a revista na mesa e dava a ela um sorriso gentil. “Pelo visto você não conseguiu aquele bolo de que falou?”

“Você sabe perfeitamente que não!” Diamond estalava. ”Tem ideia de como eu quase fui humilhada no Torrão de Açúcar? A sorte é que só a atendente estava lá!” Ela batia as cédulas com força na mesa para dar ênfase. “Aqui está seu dinheiro inútil de volta!”

“Oh, bem, eu estava esperando que você os trouxesse de volta,” dizia Filthy. “Isso deixa a demonstração mais eficaz.” Ainda sorrindo calmamente, ele pegava uma das notas e lentamente a rasgava ao meio.

Diamond ofegava, com seus olhos arregalando em choque. “E-espera, o que você está fazendo?!”

“Rasgando essas notas, é claro.” Respondia Filthy num tom casual. Outra rasgada lenta transformava a cédula em quatro pedaços menores. “Você mesma disse que esse dinheiro é inútil”.

“Mas ainda é dinheiro, não é?” Diamond argumentava horrorizada. Se ela aprendeu alguma coisa crescendo na casa de pessoas ricas, era que destruir dinheiro se equiparava a um pecado mortal. Ver seu próprio pai cometendo tal “sacrilégio” era como ver Twilight Sparkle desfigurar uma das estátuas de Celestia com grafites anarquistas. “Digo, mesmo que não dê para comprar nada em Equestria com esse dinheiro, eles valem alguma coisa para os griffos, certo? Daria pra gastar tudo no país deles.”

“Na verdade, não,” respondia Filthy. Ele segurava uma das cédulas ainda intactas. “Este dinheiro é do antigo período Eyriano onde ocorreu a mais recente guerra entre griffos e minotauros, e que os grifos perderam. Por causa disso, Eyria teve que pagar os reparos realizados em Labyrinthia, que somado com as dívidas contraídas para financiar a própria guerra, causou uma inflação rápida. Você se lembra do que é inflação, não é?”

Diamond assentia. “É quando o valor do dinheiro cai à medida que os custos de bens e serviços sobem, certo?” Ela sabia muito bem a definição, mas ainda não entendia aonde o seu pai estava querendo chegar com tudo isso. Destruir dinheiro só para lhe dar uma lição básica de economia parecia ser um exagero sem tamanho.

“Exatamente,” respondia Filthy. “Agora, não vou te encher explicando os detalhes sobre como ficou a economia de Eyrian após a guerra. A questão é que os griffos acabaram tendo que imprimir mais e mais notas de banco apenas para acompanhar as despesas. O dinheiro deles se desvalorizou tão dramaticamente que, no final, precisaram de milhares dessas notas, milhões só para comprarem comida. Usá-los como papel era mais barato do que comprar a coisa real. Como você pode imaginar, a economia de Eyrian praticamente entrou em colapso. Felizmente, eles conseguiram se recuperar com a emissão de uma nova moeda que se mostrou estável, a Libra Peregrina, que eles usam até hoje. Claro, isso tornou esse dinheiro aqui completamente obsoleto.”

“Então como você vê, essa cédula é realmente inútil,” concluía Filthy. Ele começava a rasgar as demais cédulas, ainda nos mesmos movimentos lentos, quase como se estivesse saboreando. “Não apenas em Equestria. Você não poderia comprar nada com essas cédulas em qualquer outro lugar. Eles nem sequer têm qualquer valor como itens de colecionador, porque já existiam pilhas deles desde antes de saírem de circulação. Eles são, literalmente, apenas pedaços de papeis inúteis. Dinheiro que não tem valor não é dinheiro, não é?”

Assim que terminava de rasgar, ele dava um olhar sério para sua filha. “Agora, vamos falar sobre promessas”.

Diamond franzia a testa. “O que uma coisa tem a ver com a outra?”

“Tudo,” Filthy ria. “Falar de promessa e de dinheiro é mesma coisa.”

Diamond inclinava a cabeça confusa. “A mesma coisa?”

Seu pai assentia. “Ou melhor, dinheiro é promessa. Os bits que usamos para comprar e trocar coisas são promessas de uma transação justa de valor. Eles não são como jóias ou metais preciosos. Eles não são valiosos em si mesmos, mas sim porque todos concordaram que eles têm valor. É por isso que eles podem ser confiáveis. Quando você leva seus bits para o Torrão de Açúcar, os Senhores Cakes e a Senhorita Pie estão dependendo que esses bits gerem os lucros nos doces que você compra, para que eles possam usá-los para comprar algo do mesmo valor. Se esse acordo fosse quebrado, nossos bits deixariam de ser valiosos. Toda a nossa riqueza se reduziria a sucata, assim como essas cédulas que se tornaram pedaços inúteis de papel. Entende aonde quero chegar com isso, Diamond?”

Diamond balançava a cabeça lentamente no momento em que a compreensão despertava nela. “Acho que sim. Você está dizendo que as promessas são basicamente uma espécie de dinheiro?”

“Perfeito,” dizia Filthy Rich. “Não um dinheiro que você pode guardar em sua carteira e gastar em uma loja qualquer, mas o princípio é o mesmo. Você ainda pode comprar coisas com suas promessas, como lealdade, favores ou boa reputação. Mas isso só funciona se todas as suas promessas forem confiáveis, caso contrário ninguém vai te dar credibilidade. Mantendo suas promessas e honrando seus negócios, outros pôneis confiarão em você, pois verão que suas palavras têm valor. Esse valor é o que faz de uma promessa uma promessa.”

“O que faz de uma promessa… uma promessa?” Diamond murmurava.

“Dinheiro que não tem valor não é dinheiro, é?”

“Deixa de ser ingênua! Se você não cumprir suas promessas, qual é o sentido de prometer o que quer que seja?”

As sobrancelhas de Diamond levantavam no momento em que ela lembrava das palavras de Pinkie Pie. De alguma forma, tudo fazia sentido agora.

Percebendo uma mudança em seu comportamento, Filthy levantava-se da mesa. Ele se aproximava de Diamond Tiara e segurava o casco dela. “Promessas quebradas não têm valor, Diamond, e elas não lhe comprarão nada. Nem em Equestria, nem em qualquer outro lugar.” Ele colocava os pedaços rasgados das cédulas em seus cascos. “Promessas não cumpridas são como esses pedaços de papel sem valor.”

Diamond Tiara olhava para os fragmentos. Dinheiro absolutamente inútil que até mesmo Filthy Rich não sentia reverência por isso. Dinheiro que não era mais dinheiro real. Promessas quebradas.

Ela olhava para o pai. “Eu… eu entendi agora.”

“Espero que sim,” dizia Filthy com um leve sorriso. “Espero mesmo. Agora vamos tentar de novo. Você pode prometer ser mais gentil com essas três alunas daqui pra frente?”

Diamond hesitava e parecia pensar por alguns instantes. “Prometo tentar,” respondia ela.

Filthy meio que riu e meio que suspirou. “Bem, suponho que já seja um começo. E por que você vai manter essa promessa?”

Diamond Tiara ficava um pouco mais ereta, com um olhar expressando nova determinação. “Porque se eu quebrar minhas promessas, é o mesmo que não prometer nada. Minhas palavras não terão valor, assim como esse dinheiro rasgado.”

“Essa é a minha garota!” Filthy Rich dizia e dava um tapinha no ombro dela. “Bem, então acredito que te devo um bolo no Torrão de Açúcar. Na verdade, acho que até eu quero um. Por que não vamos lá agora?”

“Mesmo?” O rosto de Diamond se iluminava instantaneamente como um pequeno sol. Pulando de alegria, ela dava-lhe um abraço sincero. “Yay! Obrigada pai! Você é o melhor!”

Alguns minutos depois, ambos estavam a caminho, e Filthy Rich sorria enquanto Diamond Tiara trotava alegremente ao seu lado. Parecia que ele finalmente conseguiu ajudar sua filha a compreender o significado e a importância de uma promessa, e se permitia ter um pouco de orgulho paternal pelo feito. Ele não tinha certeza se a lição iria ser suficiente, mas esperava. Talvez hoje sua filha tivesse finalmente aprendido algo sobre o significado de confiança e valor?

Talvez, e apenas talvez, Diamond Tiara fosse um pouco mais rica a partir de hoje.

Nota do autor:

A inspiração para essa estória veio, principalmente, de um relato que um homem me contou anos atrás. Este homem teve um filho que foi vítima de bullying bastante frequente na escola. Chegou ao ponto em que o pai e o diretor da escola tiveram que chamar os valentões até a diretoria, quando o diretor basicamente os coagiu a prometerem deixar o filho do homem em paz. Enquanto ele estava lá, ouvindo, o homem teve uma epifania bastante deprimente: os intimidadores, ele percebeu, nem pareciam saber o que significava a palavra “promessa”, e muito menos porque eles deveriam se incomodar em cumpri-la.

Essa história meio que permaneceu em meu subconsciente por anos, aparecendo de vez em quando e me fazendo pensar: como alguém pode ensinar a uma criança o que é uma promessa? Quando aplicado a Diamond Tiara, a resposta de repente parecia óbvia: você usa dinheiro. Depois disso, essa história mais ou menos se escreveu. Eu amo quando isso acontece.

Audiolivro da estória (em inglês)

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O mais dedicado e esforçado

Edital

Fonte: cdn-img.fimfiction.net

SINOPSE: A Escola da Princesa Celestia para Unicórnios Superdotados é famosa em toda a Equestria como um centro de excelência acadêmica. Apenas aos mais dedicados unicórnios são oferecidas vagas, selecionados por seu mérito acadêmico, habilidades mágicas e paixão pelo estudo. Para tornar o processo de admissão o mais justo e confiável possível, todos os candidatos recebem três exames avaliados por diferentes bancas de examinadores, que então se reúnem em particular para decidirem quais os candidatos que mais merecem uma vaga.

Autor: Pineta

***

“Posso ter a atenção dos senhores?” Perguntava a professora Crystal Clear, presidente do Conselho de Examinadores da Universidade de Equestria. “O cronograma para a rodada final de testes de admissão já está publicado no edital. Por favor, anotem o horário e o número da sala em que farão suas provas e certifiquem-se de estarem na sala de aula com cinco minutos de antecedência. Gostaríamos de lembrar aos pais que, embora vocês possam estar presentes durante o exame de seus filhos, devem permanecer em silêncio durante todo o teste.”

A professora estava na frente de uma multidão de pôneis no chão azulejado da universidade. Era o dia do vestibular, uma data importante no calendário acadêmico, quando todos os jovens e esperançosos pôneis que haviam passado na prova escrita de magia teórica foram classificados para a banca de examinadores que avaliariam suas habilidades práticas de magia e decidiriam a quem deveria ser ofertada uma vaga. A entrada da universidade estava agora cheia de pôneis nervosos, acompanhados por seus pais igualmente nervosos.

Após o breve discurso, a professora virava-se para sair, levitando sua prancheta com anotações diante dela. Mas ela não conseguia ir muito longe antes de ser parada por uma pônei verde clara com uma crina bem esbelta, usando um vestido sob medida.

“Professora! Quando vai sair o resultado da minha filha?”

“Divulgaremos a lista de aprovados semana que vem. Depois de termos avaliado todos os candidatos, os professores se reunirão para analisar os desempenhos dos alunos em todos os exames práticos, bem como no resultado da prova escrita, antes de publicarmos o resultado final.”

Era a política da escola que cada candidato recebesse três exames por diferentes bancas de examinadores profissionais para ajudar a tornar o processo seletivo o mais justo possível.

“Certo, e você vai classificar minha filha para capitã de sua equipe de esportes mágicos e ela receberá o prêmio Gold Prince Blueblood e…”

“Calma, o painel considerará todas as informações relevantes para julgar a aptidão de cada candidato para estudos mágicos avançados.”

Antes que a pônei pudesse fazer mais perguntas, a professora se afastava em direção à sala de professores da escola com uma expressão severa, sem prestar atenção em todos os pôneis que a olhavam. Ela chegava à porta e desaparecia nesse refúgio particular. Os pais e os filhos ficavam em silêncio por um momento antes que a multidão se dividisse em pequenos grupos.

“Sei que estraguei tudo no último teste,” dizia uma pequena pônei roxa em lágrimas com uma crina rosa, roxo e indigo. “Nunca pensei que eles me pediriam para fazer uma metamorfose de quatro dimensões. Cadence nunca disse nada sobre isso. E quando perguntaram sobre as interações fundamentais entre a magia dos unicórnios e os espíritos terrestres, eu só conseguia pensar em cinco… eu deveria saber que existem mais… e…”

“Twilight,” dizia a mãe. “Você foi capaz de fazer tudo o que eles pediram. Tenho certeza que se saiu muito bem.”

“Mas não fiz tudo corretamente,” Respondia Twilight enquanto lia as pontuações do teste em um pergaminho levitando em torno de sua cabeça com uma aura rosa. “E o próximo teste é o último, onde eles me perguntarão algo realmente difícil. Eu tenho que acertar. Preciso ler um pouco mais sobre os limites práticos dos encantamentos infinitos.”

Ela levitava um livro de sua mochila e começava a folhear as páginas.

“Twilight,” dizia a mãe. “Há uma lanchonete adorável do outro lado da rua. Temos meia hora antes do seu exame final. Vamos lá tomar um sorvete?”

“Não posso. Tenho que aprender isso agora.”

“Você não pode aprender muita coisa em trinta minutos filha.” Dizia seu pai. “É melhor tentar relaxar.” Com a autoridade dos pais, os dois pôneis adultos levavam a pequena Twilight para fora dos portões da universidade.

Do outro lado da faculdade, uma jovem unicórnio cor de marfim com a crina rosada e encaracolada soluçava incontrolavelmente enquanto seus pais tentavam consolá-la. “Eu não pude fazer nada, eles… eles me pediram para formar um octaedro usando uns gravetos, mas eu não conseguia lembrar o que era um octaedro! Fiquei nervosa e deu branco! Então eles só perguntaram se eu poderia pelo menos levitar os gravetos, e eu deveria ter sido capaz de fazer algo simples assim, mas eu congelei de nervosa e eles não saíram do chão!!”

“Está tudo bem Twinkle,” dizia sua mãe. “Não é o fim do mundo se você não conseguir uma vaga. Existem muitas outras boas universidades ou então você pode tentar de novo o ano que vem.”

“M-mas não posso esperar mais um ano e realmente quero estudar nessa. É a melhor, e tenho certeza que vou fazer amigos aqui, que gostam de estudar tanto quanto eu.”

Enquanto isso, no centro da sala, uma pônei azul e verde com uma crina loira confiantemente girava uma bolinha oval na ponta do chifre.

Superei totalmente aquele teste. Com certeza eles vão me oferecer uma vaga, afinal eles vão querer uma profissional como eu no time de levibol da escola.”

Ela disparava a bola contra a parede usando uma levitação de alta potência, então a parava no ar quando a bola rebatia de volta.

“Ei você, pegue!” Ela jogava a bola para Twinkle, que congelava, olhando para o projétil que se chocava contra seu rosto. Ela se desfazia em lágrimas. O pai de Twinkle lhe dava um abraço reconfortante enquanto sua mãe focava com um olhar gelado contra a agressora, mas decidiu, com certa resistência, não criar confusão.

“Você certamente deve receber uma oferta Sapphire Scrum,” dizia sua mãe. “Ainda mais depois de todas as aulas particulares que pagamos.”

“Mas não posso aceitar,” acrescentava a filha, levitando a bola novamente. “Parece uma escola secundária. Acho que nem quero estudar aqui.”

“Você vai aceitar a oferta sim senhora!” insistia a mãe. “Mesmo que você não esteja interessada em estudar, ser aluna da escola da Princesa Celestia abrirá muitas portas pra você.”

Dentro da sala dos professores, a professora Crystal Clear bocejava. Tinha sido um longo dia, e eles ainda tinham um conjunto final de candidatos para avaliar antes de irem jantar. Ainda assim, lembrava a si mesma que o esforço valia a pena. O trabalho de ensinar era muito mais fácil se você escolhesse os alunos certos para isso.

Infelizmente, nenhum processo seletivo era perfeito, e os professores estavam cientes de que todos os anos cometiam erros. Pôneis brilhantes iriam falhar sob pressão e nervosismo e perderiam uma vaga. E pior, às vezes eles admitiam terem aprovado equivocadamente candidatos que não estavam preparados, o que tornava uma dor real na hora de dar aula. O corpo docente não se esqueceu das consequências de aprovarem a senhorita Trixie há alguns anos. Daí o sistema de três exames, que tornou o vestibular o mais confiável possível no tempo restrito.

Eles tinham um intervalo de quinze minutos antes de voltarem aos exames. A professora sentava-se em suas almofadas de pelúcia, servia-se de uma xícara de chá de um grande bule azul e branco, acrescentava uma gota de limão e tirava alguns biscoitos de um prato. Ao redor dela, a equipe estava comparando notas. A essa altura do dia, ficava claro quem eram os favoritos para preencherem as primeiras vagas, mas os candidatos que iriam ficar com os últimos lugares ainda era incerto.

Seu colega, o professor Arpeggio estava lendo as notas de outro membro do conselho de exame. “Você deu nota dez para essa aluna! Sério? Não acha que foi generoso demais?” Ele perguntava.

“Fui bem criterioso, não teria dado essa nota se ela não merecesse. Aliás, vejo que você não não teve a mesma opinião com a candidata Miss Scrum,” O professor Nota Baixa respondia.

“Você deu a ela nota quatro, isso parece generoso?”

“Sim, ela estava bem em levitação, mas não conseguia soletrar seu próprio nome, quanto mais lançar qualquer encantamento sério. Ficou claro, depois de cinco minutos, que ela não tinha aptidão para a vaga. ”

“O que ela conseguiu na prova escrita?”

“Setenta e um. Mas isso não é uma surpresa. Ela foi para a escola preparatória, onde resolveu os testes de todos os vestibulares anteriores nos últimos cinco anos.”

Crystal Clear olhava para as anotações do professor Nota Baixa e as lia. “Você só deu à Senhorita Twinkle Twirl um três, por que?” Ela perguntava.

“Nós não conseguimos tirar nada dela. Ela começou a chorar depois de alguns minutos e não conseguiu fazer mais nada.”

“Nossa, ela provavelmente só estava nervosa! Os professores Art Liberal e Cap Square gostaram dela. Lhe deram uma nota sete.”

O professor idoso em outra mesa, ao ouvir seu nome, dizia: “Sim, ela nos mostrou uma bela demonstração de encanto de manipulação das luzes prismáticas. O conjunto de cores ficaram quase perfeitos. Vai ser uma pena se uma das vagas não for dela.”

“Mas de quanto foi a taxa de luzes que ela conseguiu filtrar no prisma de cristal?” Perguntava o professor Logic.

“Setenta e oito por cento, incluindo o infravermelho de onda longa que possui propriedades medicinais, nada mal,” Respondia Arpeggio. “Vamos ver as notas que os professores Rhetoric a Apple Polish darão a dela. Eu diria que ela ainda tem boas chances.”

A professora Clear empurrava os óculos mais para cima do focinho e tomava um gole de chá. “Algo mais que precisamos discutir? Alguma outra grande discrepância nas pontuações?”

Todos os unicórnios levitavam os papéis no ar à frente deles e examinavam as tabelas de pontuações.

“Eu vejo que você deu ao Sr. Sky Blue um cinco,” dizia Liberal Art. “Nós também achamos ele um pouco sem brilho. Apesar de toda a sua conversa entusiasmada sobre ser inspirado a estudar magia depois de ver a Princesa Celestia levantar o sol, não é o que todos dizem? Ele teve dificuldades para realizar a levitação mais básica, o que deixou bem claro a falta de estudo. Acho que podemos dispensá-lo. A classificação dos outros é bastante clara agora.”

“Precisamos falar sobre Twilight Sparkle,” dizia a professora Square Cap.

“Senhorita Sparkle?” Perguntava Crystal Clear. “O que há para discutir? Ela gabaritou. Ela tirou a nota máxima na prova escrita, e nenhum pônei conseguiu gabaritar desde a Sunset Shimmer. Nós dissemos ontem que com uma pontuação dessas ela teria que transformar o examinador em um vaso de plantas ou qualquer outro objeto para conseguir uma vaga. E, vejamos, foi você que deu nota dez a ela, não foi?”

“Não foi isso que quiz dizer. O problema é que com uma pontuação dessas, não tem como dar a ela exercícios padrões no teste final. Ela resolveu todos eles no primeiro exame.”

“Todos os testes? Até a trasmutação de pedras?”

“Ela transmutou todas antes de terminarmos de fazer a pergunta,” disse Square Cap.

“E a magia para criar uma ilusão?”

“Ela criou uma imagem em tamanho real de Starswirl no ar bem na nossa frente. Em cores, com todos os detalhes. Ela até acertou a barba.”

A professora Clear respirava fundo. A maioria dos novos alunos mal conseguia produzir uma aparência de uma forma simples.

“Temos exercícios reserva, não temos?” A professora Rhetoric falava.

“Usamos todos na metade do segundo exame. E ainda tivemos que pesquisar em nossas anotações antigas para encontrar algum exercício do ano passado que não tivesse sido reutilizado. Depois disso, tivemos que improvisar. Olhei ao redor da sala procurando por idéias e meus olhos caíram na porta da sala, então perguntei a ela como seria possível quebrar uma fechadura mágica. Em dois minutos ela decifrou o feitiço de criptografia e nos deu uma lista de sugestões sobre possíveis melhorias na segurança da escola.”

Os professores olhavam para a porta com um olhar preocupado. Poderia um candidato ter se infiltrado na sala dos professores?

“E devo dizer que ela também foi extremamente educada, modesta quanto às suas habilidades e, ao mesmo tempo, uma pequena e doce unicornio.”

“Mas o que vamos fazer então?” Perguntava Arpeggio. “Não temos tempo para pensar em novos exercícios.”

“Nós poderíamos simplesmente dizer a ela que ganhou uma vaga e não precisa do terceiro teste.” Sugeria o professor Lógic Empíric.

“Não podemos fazer isso. Seria injusto com os outros candidatos e nada profissional.” Respondia Crystal Clear.

“Bem, então, precisamos apenas definir algo muito difícil para ela,” disse Arpeggio.

“É isso que estamos tentando fazer!” respondiam os outros professores ao mesmo tempo. “Ela dá respostas perfeitas para tudo.” Acrescentava Apple Polish.

O professor Logic ponderava o problema. “Talvez pudéssemos perguntar a ela que pergunta ela faria a si mesma em um exame.”

Crystal Clear apontava a falha nessa ideia. “Ela pode pensar em algo que não podemos fazer ou responder.” Logic arregalava os olhos.

“E se nós darmos um teste impossível de resolver? Diga a ela para levantar a lua, ou prever o futuro ou se transformar em um alicórnio ou algo assim.”

“Vamos chamar ela de boba então? Ela saberia que é impossível…” dizia Arpeggio. “Prefiro não ver outra criança chorando hoje. Tem que ser algo que ela não sabe que é impossível.”

“Já sei!”

A professora Apple Polish virava a cabeça e focava sua magia em um armário no final da sala, que continha uma seleção de curiosidades ornamentais. Ela levitava um grande objeto oval, coberto de manchas roxas, até a mesa de café. Era um ovo de dragão antigo recuperado de uma escavação arqueológica alguns anos antes.

“Qual é a jogada? Ela tem que adivinhar o que é isso?” Perguntava Lógic Empíric.

“Eu pensei que poderíamos pedir a ela para chocá-lo.”

Todos os professores começavam a rir.

“Isso é perfeito,” dizia a professora Clear. “Ela não vai saber quantos anos tem. Vai tentar chocá-lo usando feitiços para ovos de pássaros, ou talvez um encantamento por fratura de energia, ou quem sabe o que mais? Será bem interessante ver o que ela vai tentar fazer. Eu acho que é até mesmo possível teoricamente chocá-lo, não muito provavelmente dada a idade, mas não há como um único pônei conseguir gerar energia mágica suficiente para chocá-lo. Isso é brilhante.”

Ela limpava um carrinho de chá com xícaras e pratos e colocava o ovo no centro. Enquanto isso, Apple Polish pegava um pedaço de papel e giz de cera e desenhava um esboço simples para mostrar um pequeno dragão dentro de um ovo quebrado. Ela colocava a ilustração na lateral do carrinho.

“Tudo bem, tudo bem,” dizia ela, ajeitando os cascos, arrumando os óculos e colocando folhas de sulfite novas na prancheta. “Lembrem-se, profissionalismo. Não podemos mostrar à Senhorita Sparkle qualquer sinal de nossa decisão ou o que esperamos dela.”

Adotando seus semblantes mais profissionais, os quatro examinadores caminhavam em direção à porta. Crystal Clear dirigia-se ao porteiro da escola. “Dê-nos alguns minutos para nos prepararmos e depois trazer o carrinho com o ovo, aí pode chamá-la para o teste.”

O porteiro assentia.

“Vamos conhecer a senhorita Sparkle.”

Eles saíam pela porta da sala dos professores com o olhar passivo e determinado de examinadores profissionais. Mas a professora Clear permitia-se um pequeno sorriso. “Essa aluna sim vai ser divertida de dar aulas.”

Os outros professores acenavam a cabeça. “Dá gosto ministrar aulas para um aluno assim.”

“Então, como vamos decidir quem será seu tutor pessoal?”

O melhor presente de natal

Natal

Fonte: cdn-img.fimfiction.net

SINOPSE: É quase véspera de Natal, e todos os alunos de Cheerilee estão ansiosos para passarem as férias em casa com suas famílias. Todos, exceto Scootaloo. Suas duas melhores amigas estão prestes a descobrirem que às vezes, amizade é o melhor presente que você pode dar.

Autor: JasonTheHuman

***

A última semana de aula antes do recesso natalino era sempre a mais demorada.

A escola de Ponyville estava cheia de conversas de alunos planejando o que fazer nas próximas semanas. Havia conversas sobre como passar as férias, visitas para ver parentes distantes e até mesmo previsões sobre os presentes que iriam receber. O natal era sinônimo de ficar sem aula, nenhuma lição de casa, e o melhor de tudo: presentes.

Sweetie Belle estava sentada em sua escrivaninha situada na parte de tráz da sala de aula ansiosa, ouvindo Cheerilee explicar as frações matemáticas com um pouco de entusiasmo, até que o sinal do recreio a acordasse de volta. Ela pegava sua lancheira e caminhava para a porta com Apple Bloom e Scootaloo.

Mas antes de saírem da sala, Cheerilee as parava. “Scootaloo, posso falar com você por um minuto?”

“Claro! Scootaloo olhava para as amigas e em seguida acenava para elas. “Vão na frente, eu alcanço vocês!”

“Nos encontraremos lá fora então, no lugar de sempre,” dizia Apple Bloom.

Elas saíam para o ar frio. Ainda não havia nevado, mas a grama já estava com uma fina camada de geada branca e os céus estavam opacos e cinzentos. As duas foram até o “lugar de sempre”, que era uma mesa de piquenique de madeira perto do parquinho, onde abriam suas respectivas lancheiras.

Sweetie Belle pegava um amburguer de pepino, o que significava que Rarity deve ter feito o lanche dela hoje. Essa era uma das especialidades da irmã. Apple Bloom tinha alguns queijos e bolachas, juntamente com uma garrafa de suco de maçã caseiro.

“Oi pessoal! Estou de volta!” Gritava Scootaloo alguns minutos depois.

“Foi rápido, nem abrimos as lancheiras direito,” dizia Apple Bloom. “O que a professora Cheerilee queria?”

Scootaloo abaixava os olhos. “Oh, uh… que eu participasse do festival do Dia da Família novamente.”

Sweetie Belle dava uma mordida em seu amburguer de pepino. “Não era pra você participar desse festival algumas semanas atrás?” Ela perguntava com a boca cheia.

“Era, mas meus pais estavam… fora da cidade novamente,” dizia Scootaloo, sentando-se ao lado delas. “Então Ruby Pinch acabou indo no meu lugar. E agora Cheerilee está perguntando se eu poderia participar esta semana antes da escola entrar em recesso natalino, mas novamente não sei se meus pais estarão na cidade.”

“Eles parecem viajar muito,” dizia Apple Bloom. “Acho que nunca os conheci.”

“Sim. Eles são… muito ocupados.”

“O que eles fazem?”

“Sabe como é. Muito trabalho, essas coisas,” Scootaloo dizia. Ela abria a lancheira e vasculhava através dela. A pegaso laranja pegava uma caixa de leite de soja, abria e tomava um gole. “De qualquer forma, eu perguntei a ela se eu poderia ir com Rainbow Dash, já que somos irmãs agora. Ela é praticamente da família para mim.”

“Aposto que a Rainbow teria um monte de histórias legais para contar no festival,” dizia Apple Bloom. “Mas não há mais ninguém que você poderia chamar? Nenhum de seus pais poderia ir com você?”

“Bem, não.” Scootaloo dava de ombros. “Não é minha culpa se a professora Cheerilee sempre me indica para o evento do Dia da Família quando eles estão fora da cidade.”

“Talvez você possa ir depois que aula acabar! Porque na hora do almoço seus pais devem voltar, certo? ”Sweetie Belle dizia. “Quero dizer, a menos que Rainbow Dash possa ir.”

“Sim. Talvez.”

Scootaloo terminava seu leite em mais alguns goles e sentava-se, assistindo suas amigas terminarem seus lanches. Apple Bloom dava uma olhada, observando a amiga.

“Acho que tenho uma maçã extra na minha bolsa, se você ainda estiver com fome. Quer Scootaloo?” Perguntava Apple Bloom.

“Hã? Não, obrigada. Estou bem.” Respondia Scootaloo.

“Não mesmo? Applejack sempre me dá umas maçãs a mais para o lanche da tarde.”

Scootaloo sacudia a cabeça. “Já tomei um bom café da manhă hoje cedo. Estou satisfeita, mas obrigada.”

“Normalmente você não traz muita coisa pra comer,” dizia Sweetie Belle. “Geralmente só te vejo com uma caixa de leite de amêndoas ou de soja ou algo assim. Às vezes você nem traz nada.”

“Bem, hum, isso é porque eu tomo muito café da manhã todos os dias!” Scootaloo dizia, com um sorriso meio desajeitado. “É uma espécie de rotina, sabe? Eu como muito de manhã e isso me dá energia para aproveitar praticamente o dia todo! ”

“Applejack sempre fala que o café da manhã é a refeição mais importante do dia, mas eu nunca dei bola” dizia Apple Bloom, encolhendo os ombros.

Scootaloo assentia, mas ainda estava olhando a maçã que saía da mochila da Apple Bloom. Por um momento, ela não dizia nada.

“Mas se você não vai comer tudo bem.”

“Tá no casco!” Apple Bloom estendia o casco com a maçã para ela.

“Obrigada.” Scootaloo repetia o gesto estendendo o casco, hesitando por um momento, e em seguida pegava a fruta. Ela dava uma mordida, depois falava de novo. Sua energia habitual parecia ter retornado. “Então, qual é o nosso plano hoje? O recesso natalino significa ainda mais tempo para tentarmos obter as nossas marcas!”

Apple Bloom pensava por um momento. “Há muitas colinas grandes na fazenda. Aposto que poderíamos tentar usar um trenó.”

“E patinação no gelo? Ouvi dizer que é divertido no inverno,” sugeria Sweetie Belle.

“Mas onde vamos conseguir patins?” Perguntava Apple Bloom.

“Aposto que podemos encontrar em algum lugar na cidade…” Sweetie Belle batia o queixo em pensamentos.

Elas ouviam Diamond Tiara e Silver Spoon falando e rindo alto antes de vê-las aparecerem. Ambas estavam usando cachecois que combinavam as cores.

“Papai contratou um fornecedor profissional para a nossa festa este ano. Um dos chefs mais famosos de Canterlot.” Dizia Diamond Tiara.

“Isso parece incrível. Virão quantos convidados?” Perguntava Silver Spoon.

“Oh, estamos esperando muitos. Mas na verdade, qualquer pônei está convidado para a nossa super festa especial de natal,” dizia Diamond Tiara. Ela fazia uma pausa, notando as três sentadas na mesa e dava um sorriso maroto. “Então, mas acho que vocês três não estarão na festa, não é mesmo?”

Ela e Silver Spoon riam e se viravam para irem embora. O rosto de Sweetie Belle ficava vermelho, e ela começava a se levantar antes que Apple Bloom a segurasse.

“Pois nós não iríamos mesmo se você nos convidasse!” A voz de Sweetie Belle falhava enquanto ela gritava atrás delas. Elas nem se viravam.

“Calma, Sweetie Belle”, dizia Apple Bloom. “Eu certamente não vou sentir saudade dessas duas quando a escola entrar em recesso.”

Scootaloo ficava sentada em silêncio o tempo todo. Ela dava uma mordida na maçã e mastigava devagar. “Eu simplesmente não suporto ela. Diamond Tiara acha que é melhor do que qualquer outra só porque ela tem pais com dinheiro.”

“Eles são a família mais rica em Ponyville…” Sweetie Belle lembrava.

Scootaloo sacudia a cabeça com um suspiro. “Tanto faz. Não importa mesmo.”

O sinal da escola soava novamente, e elas saltavam das mesas voltando para o interior da escola. Cheerilee caminhava até a lousa e começava a escrever, o giz batendo intermitentemente no quadro.

“Como o natal está perto, pensei que a aula de história de hoje deveria ser sobre a fundação da Equestria! Alguém pode me dizer os nomes dos líderes dos pégasus, unicórnios e dos pôneis terrestres que são lembrados durante este feriado? ”Cheerilee olhava esperançosa para os alunos.

Apple Bloom se acomodava em sua escrivaninha para esperar o resto do dia. Ela olhava para Scootaloo e a via descansando a cabeça no livro aberto, roncando baixinho.

O primeiro dia de folga havia chegado e trazia consigo um cobertor de neve. Apple Bloom acordava naquela manhã, olhava pela janela para a pitoresca paisagem de inverno e sabia instantaneamente o que tinha que fazer.

Levou alguns minutos para sair da cama, vestir um cachecol e botas e sair correndo pela porta da frente, mas a pegaso laranja já estava no clube das Cutie Mark Cruzaders em tempo recorde, situado na casa da árvore. Scootaloo estava esperando sentada e folheando uma revista em quadrinhos no clube. Sweetie Belle tinha aparecido poucos minutos depois, enrolada em um elegante chapéu e cachecol que Rarity havia feito para ela.

A neve já era de vários centímetros de espessura, perfeita para brincarem. Elas passavam algumas horas construindo paredes para uma fortaleza de neve.

Sweetie Belle olhava em volta da fortaleza que elas construíram. “Mas vocês realmente acham que podemos ganhar nossas marcas especiais construindo coisas da neve?”

Uma bola de neve batia na lateral do rosto dela, e ela ouvia Scootaloo rindo. “Eu não sei, mas é divertido!”

Sacudindo a neve de seu rosto e reajustando seu chapéu, Sweetie Belle rapidamente pulava para trás de uma das paredes da fortaleza de neve e começava a juntar mais neve em seus cascos. Apple Bloom reivindicava uma posição no centro, e Scootaloo estava na extremidade da clareira mais próxima do clube.

A batalha durava a maior parte da tarde, com alianças se formando e se dissolvendo, e territórios constantemente mudando de cascos. Bolas de neve voavam para a frente e para trás até o sol começar a se pôr atrás das árvores.

Eventualmente, Sweetie Belle gritava: “Trégua! Trégua! As três caminhavam em direção ao centro do campo e balançavam solenemente, declarando oficialmente a guerra. Apple Bloom não conseguia manter o semblante sério, e logo todas as três começavam a rir.

“Então o que vamos fazer agora? Hockey no gelo? Snowboard? Scootaloo tinha um largo sorriso no rosto.

“Que tal irmos para casa? Está ficando frio,” dizia Apple Bloom.

“Sim. Hoje foi divertido, mas acho que quero entrar e me aquecer também,” dizia Sweetie Belle. Ela bocejava. “Vejo vocês amanhã então!”

Ela começava a andar de volta para casa, mas Scootaloo a alcançava. “Tem certeza? Quer dizer, nós termos que aproveitar ao máximo as férias de natal! Não podemos perder nada disso!”

“Mas é apenas o primeiro dia,” dizia Sweetie Belle.

Scootaloo suspirava e suas asas baixavam. “Sim, tem razão. Vou ver o que a Rainbow Dash está fazendo então…”

“Não se preocupe, Scootaloo. Tenho certeza que vamos fazer muito mais coisas juntas nas férias antes das aulas voltarem,” dizia Apple Bloom.

Sweetie Belle de repente dava um pulo. “Oh! Oh sim! Eu esqueci de dizer a vocês algo importante! Rarity sempre prepara sua loja para a véspera de natal. Ela disse que poderíamos ajudar, e quem sabe poderíamos ser, tipo, as Cruzadoras da Decoração! ”

“Isso com certeza parece divertido!” Dizia Apple Bloom.

“Sim, e você sabe o que mais? Eu vou ver se ela deixa a gente fazer uma festa do pijama!” Sweetie Belle dizia.

“Ótimo! Eu estava esperando que pudéssemos ter uma festa dessas!” Dizia Scootaloo.

“Sim! Eu vou ter que pedir para a Applejack, mas acho que ela vai deixar,” dizia Apple Bloom. “Nos veremos então!”

As três se separavam em direções opostas, deixando três marcas de pegadas na neve.

“Estou tão feliz que você recrutou suas amiguinhas para me ajudar a decorar, querida,” dizia Rarity. Ela ficava na frente de uma pilha de caixas de papelão com os rótulos: “Decorações de Natal.” As Cutie Mark Crusaders estavam alinhadas, prontas para começarem a trabalhar. “E vocês duas têm certeza que suas famílias deixaram vocês dormirem aqui?”

“Sim! Applejack disse que tudo estaria bem,” dizia Apple Bloom.

“E os pais de Scootaloo se foram, então eles provavelmente não se importam,” acrescentava Sweetie Belle.

“Se foram?” Rarity perguntava, franzindo a testa. “O que você quer dizer com…”

“Viajando,” dizia Scootaloo rapidamente. “Então sem problemas.”

“Bem, então…” dizia Rarity, pensativa sobre os pais de Scootaloo viajarem na semana de natal sem a filha. “As mesmas regras de sempre, ok? Não toquem em nenhum dos meus suprimentos sem minha permissão. Vocês devem estar na cama às dez e meia da noite e nem um minuto a mais. Não corram pela loja. E, por favor, sem muito barulho, tentem manter o volume no mínimo.”

Sweetie Belle mergulhava de cabeça em uma das caixas e saía coberta de enfeites e guirlandas. “Onde nós começamos?” Ela perguntava.

Rarity mordia o lábio. “Eu estava pensando que vocês três poderiam começar com a árvore.” Ela apontava o pinheiro alto e esbelto no canto. Vou pendurar as coroas de flores nas janelas do andar de cima. Pensei em decorar com um estilo mais tradicional este ano. Ir a Canterlot no ano passado me deu todo tipo de novas idéias. ”

Uma das caixas começava a brilhar com uma suave luz azul, e várias grinaldas flutuavam com grandes fitas vermelhas e douradas amarradas em laços. Rarity inspecionava uma delas com uma expressão de desaprovação. “Um pouco desigual. Isso certamente vai precisar ser corrigido… ”

Enquanto ela corria e subia as escadas, as três foram deixadas para cuidar do resto. Sweetie Belle começava a abrir as outras caixas e a vasculhá-las.

“Então, o que vamos colocar na árvore?” Scootaloo perguntava, observando-a.

Sweetie Belle tirava a cabeça de uma caixa e passava para a próxima. “Rarity tem uns enfeites em algum lugar.” Ela verificava a próxima caixa. “Aqui estão eles!”

Apple Bloom pegava uma das bolas de natal vermelha e olhava para ela, com seu próprio reflexo distorcido olhando de volta. “Na minha casa, na maioria das vezes, temos nossos próprios enfeites caseiros. Todos estes parecem tão sofisticados.”

“Sim. Rarity diz que esses estão mais na moda para sua butique, ou algo assim.”

“Então, o que fazemos com eles?” Perguntava Scootaloo.

“Você sabe. Nunca decorou uma árvore antes?” Perguntava Apple Bloom. “Porque eu ajudo minha família com a nossa todos os anos!”

“Eu não posso dizer que sim,” dizia Scootaloo. Ela tentava sorrir, mas estava claramente envergonhada. “Mas me diga o que fazer e aposto que posso descobrir.”

“Mesmo? Huh… ” Sweetie Belle disse. Ela olhava para Scootaloo por um momento, depois seu rosto se iluminava novamente. “É fácil! Vou mostrar como Rarity e eu sempre fazemos.”

Elas corriam para onde a árvore verde recém cortada já estava apoiada no suporte. Apple Bloom empurrava a caixa de ornamentos e as três olhavam para a árvore.

“Mas como vamos colocar todos os enfeites nessa árvore enorme?” Scootaloo perguntava.

Sweetie Belle apertava os olhos. “Isso pode ser um problema…”

Rarity retornava com três canecas de chocolate quente levitando ao seu lado.

“Parece maravilhoso, meninas, muito obrigada pela ajud…”

Ela parava egolindo seco o que via. Scootaloo, estendendo o casco para enganchar uma única bola de natal em um dos galhos mais altos, estava de pé em cima de Sweetie Belle, que estava de pé em cima de Apple Bloom em uma torre precária ao lado da árvore.

“Não colocou ainda, Scootaloo?” Apple Bloom dizia ofegante, esforçando-se sob o peso.

Scootaloo se inclinava, rangendo os dentes e se esticava o mais perto que conseguia. “Qua… quase lá!”

“Meninas! Desçam imediatamente!” Rarity gritava.

Scootaloo pulava e revirava os olhos. “Nós estávamos sendo cuidadosas…”

Apple Bloom soltava um suspiro e desabava no chão. “Talvez Rarity tenha um ponto. Eu não tenho certeza de quanto tempo eu seria capaz de segurar vocês duas.”

“Eu acho que…” Sweetie Belle dizia. Ela pegava uma das canecas fumegantes de Rarity. “Nós estávamos apenas tentando ajudar.”

“Vocês podem ajudar de um jeito menos perigoso e sem tanta bagunça,” dizia Rarity.

“Desculpe, Rarity,” Sweetie Belle murmurava.

Rarity dava um suspiro de exasperação e balançava a cabeça. Um fio de ouro se erguia da caixa como uma serpente sendo enfeitiçada, e ela começava a envolvê-lo em volta da árvore em espiral. Rarity fazia uma pausa por um momento, olhava para as três e dizia: “Suponho que vocês possam ajudar com os galhos mais baixos.”

As três trocavam olhares, depois Sweetie Belle trotava e tirava mais alguns enfeites. Scootaloo e Apple Bloom seguiam o exemplo.

No final do dia, a Botique Carrossel estava completamente transformada. Decorações em verde, vermelho e dourado estavam penduradas nas paredes, e a árvore brilhava com as lantejoulas.

A crina de Rarity estava levemente bagunçada, mas ela sorria. “Obrigada pela ajuda garotas,” dizia ela, examinando os resultados.

“Isso foi ótimo. Eu nunca percebi o quanto foi divertido!” Scootaloo dizia, olhando para a guirlanda que decorava a sala.

“Este foi um dos melhores natais! E é melhor ainda quando nós estamos juntas nos ajudando,” acrescentava Sweetie Belle.

“Mas está ficando tarde agora,” dizia Rarity, olhando pela janela. No escuro, flocos de neve podiam ser vistos descendo como minúsculos pedaços de luz que sopravam ao vento e se acumulavam nas bordas da janela. “Vocês três não devem se arrumar para a cama?”

“Já?” Sweetie Belle choramingava.

“Lembrem-se do que eu disse. Dez e meia.” A resposta de Rarity era curta. “Estou esperando clientes amanhã bem cedo. Agora subam as escadas e se arrumem.”

As três se aborreceram caminhando até as escadas, em direção ao quarto de Sweetie Belle. O quarto já estava arrumado para elas. Havia apenas uma cama, mas ainda era larga o suficiente para caber todas elas confortavelmente. Sweetie Belle pulava em cima.

“Se ficarmos quietas, Rarity não saberá que estamos acordadas e poderemos ficar acordadas a noite toda!” Ela dizia.

Apple Bloom sorria. “Sim! Nós sempre dizíamos que um dia íamos ficar acordadas até tarde, e hoje é o dia!”

“Não sei quanto a vocês, mas eu não estou com sono!” Sweetie Belle acrescentava, pulando para cima e para baixo. “De todas as festas do pijama das Cutie Mark Crusader, esta será a melhor de todas!”

“Sim!” As três gritavam juntas.

Três batidas fortes chegavam à porta. “Lembram do que falei sobre o volume baixo senhoritas?” a voz de Rarity ecoava.

“Uh, entendido!” Apple Bloom respondia. Ela trocava um olhar com as amigas, e todas seguravam suas risadinhas.

“Às vezes, nós deveríamos ter uma festa do pijama em sua casa, Scootaloo,” dizia Sweetie Belle, dando uma cutucada nela.

Scootaloo olhava para ela com os olhos arregalados. “Minha casa? Eu não sei. Eu gosto de fazer isso aqui, ou na casa da Apple Bloom,” dizia Scootaloo. “Ou talvez Fluttershy nos deixasse ficar novamente.”

“Provavelmente não depois da última vez,” disse Apple Bloom. Elas riam enquanto se lembravam daquela noite. “Mas o que há de errado com a sua casa, Scootaloo? Quer dizer, tenho certeza que você tem uma casa muito legal.”

“Não é isso. É apenas… muito difícil, desde que meus pais…”

“Oh sim,” dizia Sweetie Belle. “Você disse que eles não estão sempre por perto.”

“Sim,” respondia Scootaloo em voz baixa. “Uh, eu vou descer as escadas e pegar um copo de água.”

Apple Bloom e Sweetie Belle esperavam que Scootaloo saísse do quarto. Uma vez que elas ouviram seus passos batendo nas escadas abaixo, as duas se entreolhavam.

“Você notou alguma coisa estranha sobre a Scootaloo ultimamente? A situação toda com os pais dela, e agora ela diz que nunca decorou uma árvore antes…” Sussurrava Apple Bloom.

“O que você quer dizer?” Sweetie Belle perguntava.

“Estou começando a suspeitar que há uma razão pela qual nunca vimos a família dela ou a casa dela. Pense bem! Somos suas melhores amigas há mais de um ano e nunca os vimos!”

“Então você quer dizer… talvez ela não tenha realmente uma família, ou uma casa?” Sweetie Belle olhava para baixo na direção de seus cascos, franzindo a testa.

Apple Bloom assentia. “No começo, eu não conseguia acreditar, mas o que mais faz sentido? Ela está sempre tão animada sempre que dormimos na minha casa ou na sua, mas ela nunca fala sobre sua própria casa. Como conseguimos passar despercebidas por isso?”

“Ela nunca parece querer ir pra casa depois que terminamos de brincar…” acrescentava Sweetie Belle. “Eu me sinto tão mal. O que deveríamos fazer?”

“Acho que não devemos dizer nada”. Ela vai ficar envergonhada se nós perguntarmos,” disse Apple Bloom. “Mas nós provavelmente deveríamos fazer alguma coisa por ela. É a época de natal, da amizade e generosidade.”

A porta se abria silenciosamente e Scootaloo voltava para o quarto, saindo do corredor escuro. Ela dava uma rápida olhada atrás dela. “Acho que Rarity já está dormindo.”

“Oh. Sim. ”Sweetie Belle se mexia desconfortavelmente. “Então…”

“Quem está pronta para não ir para a cama?” Perguntava Apple Bloom repentinamente. Ela voltava à sua alegria habitual, aparentemente sem nenhuma preocupação em sua voz. “A primeira festa do pijamas das Cutie Mark Cruzaders oficialmente começa agora!”

Scootaloo sorria. “Viva!”

Já era mais de onze e meia da noite, elas procuravam manter suas vozes baixas para que Rarity não as escutasse, mas no final a conversa delas desacelerava e as três desmoronavam uma a uma. Scootaloo parecia adormecer no momento em que sua cabeça batia no travesseiro. Apple Bloom, no entanto, não conseguia. Ela se mexia e virava por um tempo, obervando Scootaloo, imaginando onde sua amiga estaria dormindo esta noite se ela não estivesse com elas.

Foram alguns dias depois. Apenas dois dias antes da véspera de natal.

Todas as lojas em Ponyville estavam cheias de pôneis fazendo compras de natal de última hora. Havia uma fila pela porta do Torrão de Açúcar, e no meio de todo o caos, Sweetie Belle notava alguns colegas da escola construindo um boneco de neve desequilibrado na praça da cidade.

Normalmente ela teria amado todas as atrações festivas, mas hoje ela estava imersa em pensamentos enquanto caminhava pelas lojas. Ela deveria estar procurando por presentes para seus pais e Rarity, mas não importava o quanto tentasse, não conseguia tirar Scootaloo da cabeça. Ela simplesmente não podia deixar de se perguntar se Scootaloo alguma vez ganhara um presente de natal.

Ela conseguia erguer os olhos bem a tempo de ver Rainbow Dash chutando algumas nuvens cinzentas e afastando as outras do caminho.

“Rainbow Dash!” Sweetie Belle gritava.

Rainbow parava no ar e se virava na direção de onde vinha o grito. “Oh, e aí Sweetie Belle! Tudo bem?”

“Eu estive pensando…” Sweetie Belle tentava pensar na melhor maneira de fazer a pergunta. “Você já conheceu a família de Scootaloo? Como eles são?”

“Bem…” Rainbow Dash diminuía a altitude que distanciava as duas e pensava por um momento. “Na verdade, não consigo me lembrar dela dizendo alguma coisa sobre eles. Achei que você provavelmente os conhecia.”

“E a casa dela? Você já visitou?”

“Não. Ela geralmente vem e fica na minha casa, mas quem pode culpá-la?” Rainbow Dash dizia com um encolher de ombros casual. “É, sem dúvida, a casa mais legal do mundo. Eu geralmente tenho que carregá-la até a porta da frente, porém. É estranho. Meus pais me ensinaram a voar quando eu tinha metade da idade dela.”

“Oh,” Sweetie Belle dizia em uma voz calma.

“Mas ela nunca convidou você e a Apple Bloom? Há quanto tempo vocês três se conheceram?”

Sweetie Belle era atingida por uma pontada de culpa novamente. Ela não queria responder. “E se você a convidar para a véspera de natal? Já que vocês são duas irmãs agora?”

Rainbow Dash balançava a cabeça. “Não dá. Depois de cuidar dessas nuvens vou para Cloudsdale receber meus parentes para o natal. Além disso, a Scoot provavelmente vai passar o dia com a família de verdade dela, quem quer que eles sejam.”

“Mas…!”

Antes que Sweetie Belle pudesse terminar, Rainbow Dash voava rápido ganhando altitude, ficando fora de vista. Ela chutava o chão em frustração, lançando uma rajada de neve.

Olhando ao redor da rua, ela tentava se concentrar em escolher presentes. O distinto teto azul da loja de chapéus, com a maior parte coberto de neve, imediatamente chamava sua atenção. Era tão difícil prever o que Rarity adoraria ou odiaria completamente. E a joalheria era tão cara …

“Ei, Sweetie Belle!”

Ela se virava para ver Apple Bloom enrolada em um chapéu e cachecol. “Olá! Eu estava aqui tentando encontrar presentes…”

“O mesmo aqui.” Apple Bloom assentia.

“Mas não consigo parar de pensar em…” A voz de Sweetie Belle sumia.

“Scootaloo?” Dizia Apple Bloom, e Sweetie Belle assentia com tristeza. “Sim. O mesmo aqui.”

Com o canto do olho, Sweetie Belle notava algo laranja e fazia sinal para Apple Bloom ficar quieta.

“Aí estão vocês! Então, o que vamos fazer hoje? ”Scootaloo perguntava. “Patinação? Decoração de novo? Aposto que seria uma ótima marca especial!” Seus olhos pareciam iluminar com o pensamento.

“Na verdade, não posso fazer nada hoje,” dizia Apple Bloom. “Tenho que ir pra casa ajudar nos preparativos para recebermos toda a família Apple. Desculpa.”

“Estou ocupada hoje também. Eu meio que adiei comprar presentes este ano,” complementava Sweetie Belle. “E são só mais dois dias até o natal.”

“Mesmo?” Scootaloo recuava surpresa. “Acho que perdi totalmente a noção do tempo.”

“Sim. Normalmente, os últimos dias que antecedem o natal demoram muito pra passar,” dizia Sweetie Belle. “Mas algo está diferente este ano.”

“De qualquer forma, acho que vamos nos encontrar mais tarde, Scootaloo,” dizia Apple Bloom. “Mas por hora é melhor eu voltar.”

“Vocês têm lugares para estar. Eu entendo,” dizia Scootaloo, assentindo. Seu sorriso desaparecia. “Quero dizer, é apenas difícil… ter que passar o natal sozinha. Vocês realmente não entenderiam.”

Sweetie Belle e Applebloom olhavam para ela, sem palavras.

Scootaloo sacudia a cabeça. “Deixa pra lá. Não se preocupem comigo. Acabaremos nos encontrando mais tarde e continuaremos tentando ganhar as nossas marcas especiais!” Scootaloo estava sorrindo de novo, mas também parecia que estava se esforçando muito.

“Uh… sim.” Sweetie Belle olhava para Apple Bloom.

“Nos vemos mais tarde então,” disse Apple Bloom. “Tenha, uh… tenha um bom natal, Scootaloo.”

“Obrigada. Vocês também.” Scootaloo se virava e ia embora até que a perdessem no meio da multidão.

Apple Bloom se virava para Sweetie Belle, que parecia tão preocupada quanto ela. “É pior do que pensamos! Scootaloo não tem ninguém para passar o natal!”

“O que devemos fazer?”

Apple Bloom pensava por um momento. “Reunião de emergência das Cutie Mark Cruzaders na casa da árvore, esta tarde,” disse ela. “Bem… só nós duas, eu acho.”

Sweetie Belle assentia. “É melhor eu fazer essas compras logo então, te encontro lá.”

Um vento frio varria o ar e sacudia os galhos mortos das árvores. A casa da árvore era aconchegante, mas ainda não era a melhor proteção contra o frio que estava se instalando rapidamente. Apple Bloom parecia não notar enquanto andava de um lado para o outro sem parar.

“O que nós vamos fazer? É quase Véspera Natal, e temos apenas que fazer algo pela Scootaloo!” Dizia a pônei amarela.

“Eu até conversei com Rainbow Dash. Ela não sabe nada sobre a situação de Scootaloo…” Dizia Sweetie Belle. “Realmente cabe a nós duas.”

Apple Bloom olhava pela janela, para a luz alaranjada do pôr do sol brilhando na neve. “E tão pouco tempo também.”

“Todas as lojas estarão sem estoque logo, logo,” disse Sweetie Belle.

“Eu não sei. Talvez precisemos fazer outra coisa. Algo especial.” Apple Bloom não conseguia parar de pensar no que Scootaloo havia dito, sobre ter que passar o natal sozinha.

“Bem, seria uma notícia curta, mas minha família está tendo um grande encontro para as festas. Algumas das pessoas de fora da cidade estão chegando e vamos ter um grande banquete,” dizia Apple Bloom. “Aposto que Applejack não se importaria se nós convidássemos Scootaloo.”

“Sim!” Sweetie Belle dizia, pulando para cima. “Se você contar a ela sobre a situação de Scootaloo, ela com certeza vai concordar!”

“Afinal de contas, é a Noite de Natal,” Completava Apple Bloom.

A neve chiava do lado de fora e podia-se ouvir sons de passos se aproximando da porta da frente da casa da árvore. As duas instantaneamente ficavam em silêncio e fingiam que nada estava errado. Em alguns momentos, Scootaloo aparecia. Seus olhos estavam abatidos e ela mexia-se com um dos cascos da frente.

“Uh, ei, Scootaloo,” disse Apple Bloom. “Como sabia que estávamos aqui?”

“Ei pessoal,” disse Scootaloo, sorrindo fracamente. “Eu estava procurando por vocês. Está tudo bem?”

“Claro. Nós não estávamos falando de você,” respondia Sweetie Belle. Apple Bloom a cutucava. “Oof! Quero dizer, hum…”

“Está tudo bem, sério,” Disse Scootaloo. “Eu realmente ia dizer… bem…” Ela respirava fundo. “Vocês duas estão… convidadas para minha casa. Esta noite. Para a véspera do natal.”

Suas amigas a olhavam em silêncio, atordoadas. O vento uivava do lado de fora.

“O que? Na… na sua casa?” Perguntava Apple Bloom. “Mas isso é…”

“Eu sei,” interrompia Scootaloo. Ela revirava os olhos. “Não queria tomar o tempo de vocês com suas famílias. Geralmente eu não convido pôneis, e… e por um bom motivo. Ela franzia a testa e apontava para cada uma delas. “Ouçam, nenhum pônei da escola pode saber sobre isso, tudo bem?”

Sweetie Belle e Apple Bloom assentiam lentamente. Elas trocavam olhares nervosos.

“Mas…” Sweetie Belle começava.

“Você tem certeza disso, Scootaloo?” Dizia Apple Bloom. “Você realmente quer nos convidar?”

“Sim. Eu estive pensando sobre isso. Vocês deveriam saber a verdade cedo ou tarde, certo? ”Scootaloo dizia. “Vamos. Vou mostrar onde fica, mas exige um pouco de caminhada.”

Scootaloo virava-se e descia a escada, e depois de um momento de hesitação, as outras a seguiam. Não havia som a não ser o ruído da neve sob os cascos. Realmente era uma noite especialmente fria, mas Scootaloo não parecia incomodada com isso.

“Ei, Apple Bloom?” Sweetie Belle sussurrava, olhando para Scootaloo para ter certeza que ela não estava ouvindo. “O que você acha que Scootaloo quer dizer sobre estarmos convidadas para a casa dela?”

“Honestamente eu não sei,” respondia Apple Bloom. “Mas se ela quer fazer isso por nós, acho que por hora devemos acompanhá-la, depois vamos descobrir o que fazer por ela.”

“Eu sei,” respondia Sweetie Belle. “Me sinto mal aceitando tudo dela. Você sabe?”

Scootaloo se virava para verificar se elas ainda a estavam seguindo. “Vamos! Vamos pegar o atalho, mas ainda é um longo caminho.”

Elas estavam se distanciando da propriedade da família Apple, mas Scootaloo não as levava para Ponyville. As luzes da cidade brilhavam na neblina cinza de neve, ainda assim mantinham distância. Apple Bloom parava e colocava um casco para proteger os olhos do vento gelado, e via que Scootaloo estava indo em direção a Whitetail Woods.

O caminho estava quase coberto de neve, com apenas um único conjunto de pegadas quase expostos. Essas teriam sido os próprios rastros de Scootaloo. Ela era a única que seguia esse caminho, aparentemente. Não havia marcadores nem sinais. O caminho através da floresta em si era estreito.

“Só um pouco mais,” dizia Scootaloo. “Apenas… não fiquem muito surpresas quando chegarmos lá. Provavelmente não é o que vocês esperavam. Havia um ligeiro tremor em sua voz.

“É pior do que pensei…” Apple Bloom dizia em voz baixa. “Achei que Scootaloo, pelo menos, devia ter algum lugar na cidade em que ela se escondia. Não acho que haja nada aqui fora.”

“Talvez uma caverna. Ou uma árvore oca.” Respondia Sweetie Belle.

O caminho serpenteava ao redor de um lago congelado, várias árvores perenes. De certo modo, era bonito, mas Apple Bloom sentia os dentes batendo de frio. Era difícil dizer como elas estavam isoladas do resto de Ponyville agora. Apple Bloom olhava para trás e só podia ver um pouco da luz da cidade. Um pequeno ponto de calor no frio.

“Bem, chegamos.” disse Scootaloo.

Apple Bloom se virava. De alguma forma, ela não tinha notado aquela casa até aquele momento.

Scootaloo dava um sorriso tímido. “Eu avisei que poderia não ser o que vocês esperavam.”

Era uma casa de tijolos de aparência convidativa, recuada na floresta, onde ninguém tinha como vê-la até se aproximar, apesar do fato de ter três andares e ser bastante extensa. A neve cobria o muro de plantas que se extendiam a uma longa passarela de tijolos até a porta da frente. Havia luzes acesas nas janelas e fumaças subiam de uma das várias chaminés.

Demorou um minuto para Sweetie Belle encontrar sua voz. “Espere, isso não pode ser, pode?

Scootaloo já estava passando pelos pilares da varanda da frente. “Só venham para dentro, ok?” Espero que vocês estejam com fome. Eu disse aos mordomos para começarem o jantar antes de sair.”

“Mordomos?” Sweetie Belle e Apple Bloom disseram em um uníssono.

Elas trocavam olhares e corriam para alcançar Scootaloo. A pegaso laranja já estava empurrando a porta da frente e entrando como se fosse a dona do lugar, e por mais difícil fosse aceitar, ela o fez.

Um velho unicórnio com uma crina cinzenta penteada para trás cumprimentava Scootaloo com uma reverência. “Ah, a jovem madame voltou! São suas convidadas?” Sua voz tinha um traço de sotaque de Canterlot.

“Vamos, Silver,” dizia Scootaloo com um leve sorriso. “Você não precisa me cumprimentar o tempo todo.” Ela se virava para suas amigas e as apresentava. “Esta é a Apple Bloom e a Sweetie Belle. Eles vão ficar para o jantar hoje à noite.”

Sweetie Belle piscava, apenas observando o grande salão de entrada, sem sequer olhar para o mordomo. “Prazer em conhecê-lo…”

Scootaloo as conduzia pelo corredor. Escadarias curvas flanqueavam os dois lados, conduzindo a uma sacada até o segundo andar. Um lustre de cristal estava pendurado acima delas. As paredes estavam cobertas de pinturas e vasos caros ficavam em cima de pedestais.

“Aquele era Silver Platter, o chefe dos mordomos,” dizia Scootaloo, acenando na direção do mordomo enquanto saía pela porta lateral. “Se vocês precisarem de alguma coisa, podem simplesmente perguntar a uma das mordomas ou mordomos e eles vão cuidar disso.”

Sweetie Belle olhava para a guirlanda enrolada no corrimão da escada primorosamente esculpida. O cheiro de pinheiro fresco chegava ao nariz, mesmo à distância. “Pensei ter ouvido você dizer que nunca usou enfeites natalinos para decorar antes.”

“Sim, porque todos os mordomos fazem esse trabalho.” Scootaloo respondia. “Eu vou dar a eles dias de folga. Acho que não devo fazer nenhuma bagunça por enquanto. Não que eu possa garantir, é claro. ”

“Ainda não consigo acreditar que você mora aqui,” dizia Apple Bloom. “É tudo… fantasia e… e …”

“Não se preocupe em ser formal demais,” dizia Scootaloo. “Mesmo que seja um jantar de cinco pratos, somos apenas nós três esta noite, eu não me importo.”

“Cinco pratos?” Sweetie Belle deixava escapar. “Se Rarity estivesse aqui, ela ficaria totalmente louca!”

“É por isso que eu nunca gosto de trazer pôneis. Eu realmente não sou diferente de qualquer outra pessoa. ”Scootaloo revirava os olhos. “Vocês prometem que não vão contar nada, certo?”

“Claro,” dizia Apple Bloom, olhando distraidamente para seu próprio reflexo no chão de mármore polido enquanto caminhavam.

“Recebi a carta dos meus pais hoje dizendo que eles estariam em Canterlot para o natal, em uma importante reunião social, mais uma vez. Scootaloo suspirava. “Talvez um dia vocês possam conhecê-los. Eu contei a eles sobre vocês!”

“Então, seus pais ainda estão vivos!” Sweetie Belle dizia. Scootaloo se virava com uma sobrancelha levantada, e ela rapidamente acrescentava: “Por que eles não estariam? Eles enviam cartas para a escola o tempo todo, então…”

“Sim. Eles passam a maior parte do tempo em nossa casa em Canterlot, ou em Manehattan, onde a maioria dos escritórios da empresa está, ou na outra casa que fica em…”

“Quantas casas vocês têm?!” Perguntava Apple Bloom.

Scootaloo congelava. “Realmente não importa. De qualquer forma, aqui está a sala de jantar!”

Elas passavam por uma curva no refeitório, levando a uma sala cavernosa com uma grande lareira já crepitando. Uma mesa esculpida em madeira escura estendia-se diante delas, já armada de velas e pratos cobertos. Sweetie Belle finalmente era capaz de afastar os olhos de toda a comida e notava a grande pintura pendurada sobre a lareira.

Era um retrato muito real de Scootaloo, com dois unicórnios sentados em ambos os lados dela. Um era um garanhão com uma crina loura e do outro lado havia uma pônei violeta com um casco ao redor do ombro de Scootaloo.

“São os seus pais?” Ela perguntava. “Você nunca nos disse que os dois eram unicórnios.”

“Sim. Acho que temos alguns pégasos do lado da minha mãe, há algumas gerações atrás. Eu não acho que eles estavam realmente conscientes disso até o dia que eu nasci, ” dizia Scootaloo. Ela olhava para o quadro e franzia a testa. “A pintura é do ano passado. Espero que não tenhamos que fazer outro. É tão chato ficar parada por tanto tempo fazendo pose enquanto pintam nosso retrato.”

“E é por isso que eles não tinham como te ensinar a voar,” disse Sweetie Belle.

Scootaloo fazia uma careta. “Pois é, eles queriam contratar um instrutor, mas nunca encontramos ninguém melhor do que Rainbow Dash. E é a mesma coisa na escola. Você não tem ideia de como foi difícil convencê-los de me dar um professor particular. Eu nunca teria conhecido vocês, se isso tivesse acontecido!”

Scootaloo se virava e se dirigia até a mesa. Ela pulava em uma cadeira, e depois de um momento de hesitação, Apple Bloom e Sweetie Belle se sentavam ambas os lados dela. A mesa era comprida o suficiente para pelo menos mais quinze pôneis.

Mordomos chegavam e levantavam as tampas das panelas e pirex. Com movimentos ligeiros, eles saíam tão rapidamente quanto entravam. Scootaloo olhava para a comida, embora não fosse algo que as outras estivessem habituadas a ver.

“Parece que hoje teremos com carne de soja ao molho de Manehatan, couve com crudités e… Oh! Isso cheira a sopa de matsutake com champignon. É muito difícil conseguir nessa época do ano,” dizia Scootaloo.

Sweetie Belle apenas olhava para ela. “Você parece a Rarity…”

“Confie em mim, você vai gostar.”

“Você sempre come assim??” Apple Bloom perguntava, levantando uma sobrancelha.

Scootaloo sacudia a cabeça. “Isso é um pouco mais do que o normal, já que são as férias de natal. Mas às vezes, quase todos os domingos.”

Depois que Scootaloo começava a comer, Apple Bloom hesitantemente dava uma mordida. O gosto era tão difícil de descrever quanto o nome da comida era para pronunciar, mas ela tinha que admitir que era muito bom. Repentinamente, ela se lembrava do jantar que Applejack estava preparando antes. Não tinha comparação.

“Provavelmente eu deveria ter falado sobre minha família muito mais cedo,” dizia Scootaloo. “Aposto que vocês pensaram que eu era como qualquer outra pônei na cidade, vivendo em uma casa de campo de tamanho normal.”

“Você com certeza nos convenceu,” acrescentava Apple Bloom. Vendo Scootaloo naquela casa, era difícil imaginá-la encolhida em algum beco escuro e sujo tentando dormir sob um jornal encharcado.

“Por que você não nos disse antes?” Sweetie Belle perguntava. “Isso não é motivo para se envergonhar. Digo, Diamond Tiara e Silver Spoon ficariam com uma baita inveja!”

“Sim, sobre isso…” dizia Scootaloo. Ela comia mais um pouco e pensava por um momento. “Quando você tem muito dinheiro, suas amigas normalmente não estão por perto pelos motivos certos, por quem você é. Se é que você entende o que quero dizer. Não quero ser outra Diamond Tiara.”

“Faz sentido,” dizia Apple Bloom.

“Eu realmente deveria ter contado a vocês muito mais cedo, mas não sabia como. E detesto sentir que estou apenas me gabando da minha família,” dizia Scootaloo. Ela olhava para trás e para frente para qualquer uma delas. “Vocês não vão mudar só porque descobriram a verdade, não é? Vamos continuar sendo as mesmas amigas de sempre.”

“Mas é claro que vamos!” Respondia Apple Bloom.

“De qualquer forma, acho que posso dar a vocês uma turnê depois que comermos. Na áltima véspera de natal, meus pais me deram minha própria pista de skate indoor! É muito legal! Eu posso praticar todos os meus movimentos antes de mostrá-los pela cidade. Eu costumava esvaziar a piscina e usá-la como pista, mas a nova é muito melhor.”

Alguns outros mordomos entravam na sala de jantar, com mais pratos de comida e sobremesa levitando ao lado deles. Eles os estabeleciam na mesa e faziam uma reverência.

“Há mais alguma coisa que você queira, senhorita?”

Scootaloo sacudia a cabeça. “Não, obrigada. Tudo está ótimo, como de costume.”

Apple Bloom encostava-se na cadeira para observar os mordomos enquanto eles voltavam para a cozinha. Ela tinha ouvido falar de Applejack sobre como os tios Orange viviam na cidade grande, e como eles tinham seus próprios mordomos, mas isso era inacreditável.

“Ah, a propósito… vocês parecem ter ficado bem quietas ultimamente,” dizia Scootaloo. As duas balançavam a cabeça freneticamente, mas Scootaloo apenas sorria. “Acho que não me caiu a ficha. Vocês estavam planejando me dar presentes?”

Sweetie Belle cutucava a comida em seu prato. “Hum…”

“Uh, nós estávamos, mas… nosso presente nunca chegaria nesse nível,” dizia Apple Bloom.

“Não precisam se preocupar, sério.” respondia Scootaloo. “Passar o natal com minhas melhores amigas é o melhor presente que eu posso ter.” Ela fazia uma pausa, depois acrescentava: “E se alguém ouvir que eu estava dizendo coisas bobas como essa…”

Apple Bloom sorria. “Não se preocupe com isso.”

“Estamos felizes por você ter uma casa,” dizia Sweetie Belle.

Scootaloo fazia uma pausa no meio da mordida e olhava para ela. “Como assim? Por que eu não teria uma casa?”

“Bem, nós realmente achamos que você não tinha casa e nem pai e mãe.” A voz de Sweetie Belle ecoava na enorme sala. Em seguida, toda a mansão parecia ficar em silêncio. Havia apenas o som dos troncos estalando no fogo.

“É… uma longa história,” dizia Apple Bloom.

Esperança e desesperança

Ponyville

Fonte: cdn-img.fimfiction.net

SINOPSE: Em um dia quente de verão, Princesa Celestia caminhava pelos campos de Ponyville, onde acabou se deparando com um estranho “pônei”.

Autor: LittleKhan

***

“Bem, meus pequenos pôneis,” Princesa Celestia sorria enquanto saía do castelo de Twilight. “ Foi maravilhoso ver todas vocês novamente. E Fluttershy, obrigada por trazer aquela nova receita de chá, estava delicioso! ”Fluttershy corava e sorria.

“Oh, bem… disponha, alteza. Foi um prazer.” As outras caminhavam atrás dela e paravam no ar quente.

“Bem, todas vocês,” Dizia Applejack, “Foi uma ótima maneira de passar a manhã, mas tenho que voltar ao Rancho Maçã Doce, o Big Mac precisa de ajuda com o plantio”.

“Sim”, dizia Pinkie. “E eu tenho que pegar mais ingredientes na loja do BonBon. Tenho uma remessa de cupcakes para fazer no Torrão de Açúcar.” A princesa Celestia dava a todas outro sorriso caloroso.

“Bem, suponho que todas vocês tenham lugares para estar. Obrigada por passarem algum tempo comigo hoje. Tenha um bom dia, garotas.” Cinco das pôneis disseram seu adeus final e trotaram (ou voaram), embora uma permanecesse. Twilight Sparkle se virava para sua mentora.

“Bem, eu tenho que ir também, Celestia. Tenho um compromisso com a prefeita hoje. Códigos de impostos.” Ela fazia uma careta. Princesa Celestia ria.

“Boa sorte então, Princesa Twilight. Tenho certeza que você se sairá bem.” Twilight revirava os olhos.

“Tenho certeza que vou sobreviver. De qualquer forma, tenha um bom voo de volta!” Em seguida, ela saía correndo.

Princesa Celestia caminhava lentamente até onde seus guardas e a carruagem estavam. Era realmente um dia lindo. O céu era de um azul claro, enquanto apenas algumas nuvens brancas estavam espalhadas. Os pássaros chilreavam e cantavam, e uma brisa suave soprava pela grama. Ela parava na frente da carruagem, fechava os olhos, inclinava a cabeça para trás, respirava fundo e depois expirava. Momentos como esses eram mais raros do que ela gostaria. Canterlot e seus jardins tinham sua própria beleza, mas a princesa Celestia concluía que o esplendor ininterrupto do campo não podia ser substituído por nada. Por um momento, ela ficava ali parada, com uma expressão satisfeita no rosto. Então ela piscava uma vez, abria os olhos e olhava em volta. Era realmente lindo aqui, ao seu redor. Tão pacífico e tranquilo.

De fato…

Uma ideia estava se formando em sua mente. Ela havia planejado voltar para Canterlot e colocar em dia o que estava lendo, mas agora outro pensamento lhe ocorrera.

Eu imagino… bah! Para o tártaro com isso.

Ela se virava para seus guardas, com os cantos de sua boca puxando para cima. “Cavalheiros, mudança nos planos. Decidi fazer uma caminhada. Os guardas piscavam. Eles a encaravam por um momento e então olhavam de volta um para o outro. Em seguida eles tiravam os arreios da carruagem e davam um passo à frente. Com o sorriso ainda em seu rosto, ela se virava e saía caminhando em direção ao campo.

Por um tempo ela apenas caminhava, com os guardas a uma distância respeitosa atrás dela, longe o suficiente para que ela provavelmente não os notasse, mas perto o suficiente caso ela precisasse deles para alguma coisa. A princesa estava gostando disso. Ela vagava pelos arredores de Ponyville sem um objetivo ou destino específico em mente, apenas apreciando a chance de estar fora da cidade, longe da proximidade e dos compromissos de Canterlot.

Eu deveria trazer Luna aqui às vezes.

Quando ela chegava ao topo de uma colina, Princesa Celestia avistava alguém caminhando pelos campos há aproximadamente 100 trotadas à sua frente. Parecia um unicórnio de cor verde escuro, com uma crina marrom e um par de alforjes sobre ele. Ela via quando ele caminhava cerca de uma dúzia de metros, um pouco instável, ela pensava, e se sentava na frente de uma árvore. Ela olhava para o pônei por um momento, se perguntando o que poderia trazer qualquer outro pônei para esse local. O mais provável é que eles não estavam tão longe de Ponyville assim; talvez ele estivesse apenas pensando em apreciar a paisagem, como ela estava fazendo.

Ou talvez não.

Ela achava curioso saber quem era esse pônei e o que ele estava fazendo aqui. Ela poderia simplesmente ir até ele e perguntar, mas não queria ver ninguém se curvando para ela. Não, isso exigia alguma sutileza e planejamento.

Ela virava para a direita e avistava um pequeno bosque. Isso funcionaria. Ela gesticulava para os guardas, e todos se aproximavam. Entrando no bosque, ela fechava os olhos e focava sua magia. Ela lançava o primeiro feitiço. O primeiro só demorou alguns segundos; sua coroa e colar desapareceram com um breve flash. O segundo feitiço foi mais complicado. Era um feitiço temporário de mudança de forma/ilusão. Enquanto seu chifre brilhava, ela começava a encolher. Suas asas desvaneciam-se de vista e seu cabelo perdia a eterealidade habitual, tornando-se um rosa claro. Por fim, sua marca especial mudava, o sol em seu flanco dava lugar a uma estrela dourada de quatro pontas. Esse era um disfarce que ela costumava usar quando queria ou precisava de anonimato entre seus súditos; apenas pouquíssimos pôneis sabiam disso. Depois de uma rápida checagem final da aparência, ela saía do interior do bosque e caminhava para onde havia visto o garanhão se sentar.

Aproximando-se por trás e ligeiramente à sua esquerda, a princesa via que ele não tinha saído. Estava sentado com suas ancas na frente dela, embora um pouco mais encurvado, olhando para Ponyville ao horizonte. Quando a princesa completava as últimas dezenas de metros, notava várias coisas sobre ele. Embora as sombras que a árvore lançava sobre ele o tornassem um pouco difícil de ver, ela podia observar que a crina e o pêlo pareciam sujos e despenteados, como se ele não tivesse tomado banho e/ou escovado por algum tempo. Ele também parecia um pouco magro, quase emaciado. Quando ela chegava mais perto, suas orelhas se animavam e sua cabeça se virava para ela. O rosto do pônei estava na mesma condição que o resto dele: sujo e havia olheiras.

“Olá”, dizia ela, tentando dar-lhe um sorriso mais caloroso enquanto ela encerrava o passo final e sentava-se.

“Olá”. Ele não se virava para ela.

“Eu sou Star Burst. Qual o seu nome?” Dizia Celestia.

“… Meu nome é John.”

Bem, esse era um nome bastante estranho… mas não era o nome mais estranho que a princesa já ouviu. Seu olhar então se dirigia até seu flanco, onde estava sua marca especial, ou pelo menos onde deveria estar.

Este pônei não tinha marca especial. Embora não fosse inédito para um pônei adulto não ter uma, certamente era uma ocorrência muito rara, e também muito debilitante. Quando a Princesa olhava para o rosto dele, notava que ele tinha uma sobrancelha ligeiramente levantada, em uma expressão conhecida, mas resignada. Em um esforço para prosseguir com a conversa, ela gesticulava para seus alforjes.

“Então, pelo que estou vendo parece que você não é daqui.” Dizia John.

“Não, sou nova em Equestria.” Respondia Celestia.

“Sim, dá pra ver.” John assentia, e então seus olhos passavam por ela.

“E por que os guardas?”, Ele perguntava. Celestia olhava para trás.

Oh céus. Me esqueci deles. Ok, pense… como eu explico isso?

“Ah, bem, eu trabalho para a Princesa Celestia. Tinha alguns negócios em Ponyville e decidi dar um passeio. Seus olhos se arregalavam um pouco com a resposta.

“Você trabalha para a Princesa?” Ela respondia a pergunta assentindo com a cabeça. Houve uma pausa desajeitada quando ele parecia considerar isso.

“Então, de onde você é?” Ela perguntava. John hesitava por um momento, e então, seu olhar abaixava.

“De muito longe. É bem provável que você não tenha ouvido falar.”

“Entendo. Posso perguntar por que você decidiu vir para Equestria?” Ela perguntava hesitantemente.

“Eu realmente não tinha muita escolha.” Seu tom de voz combinava com seu olhar novamente resignado. Ela estremecia um pouco por dentro.

“Bem, Equestria é um país muito bom. Tenho certeza que você vai gostar daqui.” Ela sinceramente esperava que ele gostasse. É triste que algum pônei possa parecer tão destituído e sem esperança. Ele inclinava a cabeça, um olhar levemente pensativo deslizava pelo rosto.

“Sabe, é realmente um pouco diferente aqui… mais do que eu pensei que fosse.”

“Oh”, ela perguntava, ambos antecipando e temendo sua resposta. “Como assim?”

“Eu… tive alguns amigos que costumavam falar sobre esse lugar. Eu realmente nunca os escutei muito. Eu estava… ocupado com outras coisas. Acho que… bem, quando você está tão distante, você tende a ver as coisas de uma forma diferente de quando você está realmente lá, vivenciando.” Não era bem essa resposta que Celestia esperava.

“Então, você teve amigos que te falaram sobre Equestria?”

“Sim”. Ele fazia uma pausa novamente. “Eles até me levaram para ver uma… peça de teatro sobre esse lugar uma vez.” Um olhar peculiar pairava sobre ele, um composto de humor e um toque de amargura.

“Hmm. Foi bom?” Ele pensava na resposta, como se não esperasse que ela fizesse tal pergunta.

“Ah bem. Digamos que para uma peça de teatro feita para crianças não foi ruim.” O olhar de humor misturado com a amargura se tornava um pouco mais agudo. Havia outra pausa desajeitada. Ele ficava tenso, como se estivesse discutindo consigo mesmo novamente. Então ele se virava para olhar Celestia.

“Você… trabalha para a Princesa Celestia, certo?” Ela assentia. “Ouvi dizer que houve um incidente um tempo atrás, onde uma ex-aluna dela roubou a coroa da princesa Twilight ou algo assim.” Ela balançava a cabeça novamente, mais hesitantemente desta vez.

“Ah…sim.”

“E isso… não envolveu um espelho mágico que leva a outros mundos, por acaso?” Sua voz subia no final.

“Er, não, não foi. Eu temo que eu não saiba muita coisa sobre esse evento.” Ela não queria decepcioná-lo assim, mesmo que ela não tivesse ideia do que ou porque ele estava fazendo essa pergunta. Sua cabeça se voltava para baixo para observar a grama sob seus cascos dianteiros.

“Eu não penso assim.” Ele esvaziava, sua expressão tornando-se monótona e sem vida novamente. Por um momento, eles apenas ficavam sentados, perdidos em seus próprios pensamentos. A princesa estava quebrando a cabeça, tentando pensar em alguma maneira de descobrir como ajudá-lo.

“Bem, você já pensou em voltar para casa?” Certamente havia pôneis lá que cuidavam dele.

Sua voz estava mais quieta e mais dura que antes. “Receio que não seja possível.” Suas orelhas se dobravam.

“Oh. Eu sinto muito.”Com nada mais para fazer, ela olhava por cima do corpo dele mais uma vez. Ele parecia ter a mesma idade de Twilight e suas amigas, ou talvez um pouco mais velho. Quando ela o examinava novamente, notava algo sobre as orelhas dele, havia alguma coloração amarelada ao redor da parte de baixo.“ Sabe, você parece um pouco doente. Deveria ir ao hospital. Há um em Ponyville.

“Não tenho dinheiro.”

“O que?”

“Dinheiro?”

Ele se virava para ela. “Dinheiro para o hospital.”

“Mas você não precisa de dinheiro para isso. De onde você vem é necessário? Isso deveria ter sido explicado para você quando imigrou para cá.” Ele piscava. Então começava a rir, uma risada que não era inteiramente divertida.

“Claro!”, Ele gritava. “Como eu poderia ser tão estúpido?! hahahaha!” Celestia recuava um pouco, em choque. Ela esperava até que o riso de John cessasse. Ele enxugava algumas lágrimas dos olhos. “Bem, suponho que eu poderia ir para a cidade. Ponyville, certo?” Celestia assentia. “Acho que aqui é um lugar tão bom quanto qualquer outro.”

“Você vai gostar desta cidade. É muito amigável.” Ele bufava para isso.

“Sim, sim, ouvi falar.” A princesa esperava que ele pudesse encontrar uma nova vida aqui, talvez até mesmo arranjar uma casa.

“Sabe, se você está procurando um emprego, acho que o Rancho Maçã Doce está contratando.” John olhava para ela com uma expressão cética em seu rosto.

“Não acho que eles contratariam alguém como eu.”

De fato, ele provavelmente estava certo.

A frustração começava a atormentá-la. Ela odiava quando se envolvia numa situação como essa. Ela era a governante absoluta do reino mais poderoso e próspero do mundo, ela movia o sol, e ainda assim não conseguia ajudar um único pônei a conseguir um emprego… e provavelmente um lugar para morar também, agora que ela pensava sobre isso.

Não, eu tenho que fazer alguma coisa.

Ela respirava fundo. “Diga a eles que Star Burst enviou você.” John escutava, e então franzia a testa.

“Não, está tudo bem”, dizia ele, sacudindo a cabeça. “Eu posso me virar.”

Ela gemia internamente.

“Por favor, pode pelo menos tentar?” Sua voz subia no final, apenas tímida de implorar. Ele olhava para ela por um momento.

“Tudo bem,” ele respondia. Ela sorriu. Então ele se levantava e ela fazia o mesmo.

“Bem, eu deveria ir embora então.” Sua voz ainda não tinha alegria, mas havia uma determinação que não estava lá antes. Ela estava feliz em ouvir isso.

“Boa sorte John,” ela dizia. “Foi bom conhecê-lo.”

“Foi bom te conhecer também,” respondia ele. Com isso, ele se virava e ia embora. Enquanto ele se distanciava, a princesa notava que seu caminhar era um pouco estranho. Quando ele começava a descer o lado da colina, ele diminuía consideravelmente, como se tivesse certeza absoluta de que não tropeçaria ou cairia. Ela não achava que isso poderia ser causado por fome ou qualquer tipo de doença.

O que mais pode estar errado com ele?

Ela definitivamente iria escrever uma carta para Twilight, perguntando se ela poderia dar assistência a ele. Com a bondade e compreensão dos moradores de Ponyville, Celestia sabia que ele ficaria bem.

Então ela se virava e começava a caminhar de volta para a cidade e sua carruagem.

O Homem de Bem

 

O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e caridade, na sua maior pureza. Interroga a sua consciência sobre os próprios atos, pergunta se não violou essa lei, se não cometeu o mal, se fez todo o bem que podia, se não deixou escapar voluntariamente uma ocasião de ser útil, se ninguém tem do que se queixar dele, enfim, se fez aos outros aquilo que queria que os outros fizessem por ele.

Tem fé em Deus, na sua bondade, na sua justiça e na sua sabedoria; sabe que nada acontece sem a sua permissão, e submete-se em todas as coisas à sua vontade e sabe que não precisa de nenhuma religião para seguir os preceitos de Deus, bastando os princípios acima.

Tem fé no futuro, e por isso coloca os bens espirituais acima dos bens materiais.
Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas as decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem murmurar.

O homem possuído pelo sentimento de caridade e de amor ao próximo faz o bem pelo bem, sem esperar recompensa, paga o mal com o bem, toma a defesa do fraco contra o forte e sacrifica sempre o seu interesse à justiça.

Encontra e usa satisfação nos benefícios que distribui, nos serviços que presta, nas venturas que promove, nas lágrimas que faz secar, nas consolações que leva aos aflitos. Seu primeiro impulso é o de pensar nos outros antes que em si mesmo. O egoísta, ao contrário, calcula os proveitos e as perdas de cada ação generosa.

É bom e benevolente para com todos, sem distinção de raças, espécies e nem de crenças, porque vê todos como irmãos.

Respeita nos outros todas as convicções sinceras, e não lança o anátema aos que não pensam como ele.

Em todas as circunstâncias, a caridade é o seu guia. Considera que aquele que prejudica os outros com palavras maldosas, provocações, que fere a suscetibilidade alheia com o seu orgulho e o seu desdém, que não recua à idéia de causar um sofrimento, uma contrariedade, ainda que ligeira, quando a pode evitar, falta ao dever do amor ao próximo e não merece a clemência do Senhor.

Não tem ódio nem rancor, nem desejos de vingança. A exemplo de Jesus, perdoa e esquece as ofensas, e não se lembra senão dos benefícios. Porque sabe que será perdoado, conforme houver perdoado.

É indulgente para as fraquezas alheias, porque sabe que ele mesmo tem necessidade de indulgência, e se lembra destas palavras do Cristo: “Aquele que está sem pecado atire a primeira pedra”.

Não se compraz em procurar os defeitos dos outros, nem a pô-los em evidência. Se a necessidade o obriga a isso, procura sempre o bem que pode atenuar o mal.

Estuda as suas próprias imperfeições, e trabalha sem cessar em combatê-las. Todos os seus esforços tendem a permitir-lhe dizer, amanhã, que traz em si alguma coisa melhor do que na véspera.

Não tenta fazer valer o seu espírito, nem os seus talentos, às expensas dos outros. Pelo contrário, aproveita todas as ocasiões para fazer ressaltar a vantagens dos outros.

Não se envaidece em nada com a sua sorte, nem com os seus predicados pessoais, porque sabe que tudo quanto lhe foi dado pode ser retirado.

Usa mas não abusa dos bens que lhe são concedidos, porque sabe tratar-se de um depósito, do qual deverá prestar contas, e que o emprego mais prejudicial para si mesmo, que poderá lhes dar, é pô-los ao serviço da satisfação de suas paixões.

Se nas relações sociais, alguns homens se encontram na sua dependência, trata-os com bondade e benevolência, porque são seus iguais perante Deus. Usa sua autoridade para erguer-lhes a moral, e não para os esmagar com o seu orgulho, e evita tudo quanto poderia tornar mais penosa a sua posição subalterna.

O subordinado, por sua vez, compreende os deveres da sua posição, e tem o escrúpulo de procurar cumpri-los conscientemente.

O homem de bem, enfim, respeita nos seus semelhantes todos os direitos que lhes são assegurados pelas leis da natureza, como desejaria que os seus fossem respeitados.

Esta não é a relação completa das qualidades que distinguem o homem de bem, mas quem quer que se esforce para possuí-las, estará no caminho que conduz às demais.

Star Swirl explica o amor a peixe

Amor é uma palavra que em nossa cultura quase perdeu seu sentido. Existe uma história muito interessante da Princesa Celestia. Ela passava por um jovem que estava claramente deliciando-se em um prato de peixe que comia próximo de um lago. Ela fez uma pergunta um tanto óbvia ao jovem, mas ainda assim com um claro sentido: “Por que você está comendo esse peixe?” E o jovem respondeu: “Porque eu amo peixe!” Celestia responde: “Ah, você ama o peixe e por isso o tirou da água, o matou e o ferveu. Não me diga que você ama o peixe. Você ama a si mesmo. E porque o peixe é gostoso na sua opinião, você o tirou da água, o matou e ferveu.” Por isso que muito do que chamam de “amor” é conhecido como “amor a peixe”. Por exemplo, um casal de jovens se apaixona, o que isso significa? Significa que o homem viu na mulher alguém que ele acreditou que poderia prover todas as suas necessidades emocionais e físicas, e ela sentiu que esse homem poderia fazer o mesmo por ela. Isso foi amor, mas ambos estão obviamente olhando para as próprias necessidades. Logo, não é amor pelo outro, e sim uma forma de amar a si mesmo através do outro. A outra pessoa se torna um veículo para a minha satisfação. Isso é amor a peixe. O amor verdadeiro nunca é sobre o que vou receber. Havia um professor de ética, que disse que as pessoas cometem um erro grave ao pensar que “você dá àqueles que você ama”. Mas a verdadeira resposta é “você ama aqueles a quem você dá.” E seu argumento é que se eu dou algo a você, eu me investi em você. E já que amor próprio é natural, todos amam a si mesmos, mas agora que parte de mim está em você, há uma parte de mim em você que eu amo. Então, o amor verdadeiro é um amor que dá, não que recebe.

Texto: Abrahan Twerski

O pônei de Oasis – Parte VI

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Autor: ROBCakeran53

Tradução: Drason

SINOPSE: Equestria ainda estava sendo reconstruída após a derrota de Tirek, e as seis novas governantas de Ponyville ajudando em sua reconstrução. Tudo mudou de maneira inusitada quando a Princesa Celestia entregou a elas uma carta descrevendo acerca das façanhas realizadas por um único cidadão da cidade de Oasis conhecido como Senhor Baker, e a forma como superou Tirek. Com a missão de descobrir se os relatos eram verdadeiros, as seis pôneis devem ir até a referida cidade para investigar. No entanto, elas irão descobrir que o Senhor Baker não era exatamente quem ou o que elas esperavam.

***

Rainbow Dash estava agitada em seu sono. Ou pelo menos, ela não poderia mais chamar de “sono”, agora que estava acordada.  Se virando para o outro lado da cama, ela se aconchegava em seu travesseiro, encontrando novamente conforto enquanto relaxava e era aplaudida diante de multidão à sua frente. Ela voava, subindo cada vez mais alto, pronta para impressionar a plateia com uma batida de suas asas-

Espere…

O olho esquerdo de Rainbow se abria, com seu lado direito ainda pressionado em seu travesseiro enquanto ela resmungava com a saída brusca de seu sonho. O barulho continuava, como uma martelada em sua cabeça, então ela pegava seu segundo travesseiro e colocava em cima da cabeça na tentativa de evitar o barulho.

Isso não ajudava; o próximo som era uma gritaria ecoando pela hospedagem inteira.

Aquele barulho fazia Rainbow Dash se levantar. Jogando seu travesseiro para o lado, ela esfregava seus olhos com um bocejo cansado. Olhando ao redor, ela percebia que suas duas companheiras de quarto já haviam saído, com suas camas inclusive arrumadas. Meio irritada, ela saía de seu cobertor e pulava para o chão. Os estalos habituais de suas juntas ecoavam no quarto enquanto ela se espreguiçava, esticando cada perna e flexionando as asas. Em seguida, ela respirava fundo e caminhava até a porta.

Rainbow hesitava, olhando de volta para as duas camas arrumadas, e então para a sua bagunçada. Eh, pássaros nunca deixam seus ninhos arrumados, então por que ela deveria se importar? Saindo do quarto, ela podia jurar que tinha caminhado direto até a Fábrica do Tempo. Os barulhos altos que ela escutava a traziam de volta para Cloudsdale em recordações. Parando diante da parede clara, ela espiava o alvoroço sobre a sacada.

Todas as suas amigas estavam lá, conversando e falando durante o café da manhã. Trixie estava atrás do bar, servindo o lanche com sua carranca habitual. Em seguida, ela espiava Tomas, o humano, consertando a janela que ela havia quebrado. A pégaso azul esperava que ninguém contasse que foi ela quem causou o dano.

Rainbow estudava as escadas, hesitando em descer. Aparentemente, era a vez dela e de Applejack de passar o dia com o humano, para tentar descobrir…o que? Se ele foi mesmo capaz de consertar parte de uma cidade? Ela observava enquanto ele batia em uma cunha, deixando a janela encaixada e posicionada em linha reta. Sim, ele podia consertar. Grande coisa.

Rainbow zombava. Se a estória de Rarity da noite passada era verídica, esse humano estava longe de ser uma boa pessoa, e não havia nenhuma possibilidade de ganhar o prêmio e reconhecimento, então por que elas ainda estavam aqui?

“Ei Rainbow! Estamos aqui embaixo!”

O foco de Rainbow deixava o humano e se dirigia para suas amigas, todas olhando para a pégaso azul. Pinkie Pie, cuja voz lhe chamava atenção, balançava o casco animada no ar. O rádio no balcão estava tocando outra daquelas canções country que pareciam tão insuportáveis quanto som de algo afiado causando atrito em um quadro negro.  Rainbow suspirava, então abria suas asas e planava até o primeiro andar. Uma tigela de sopa já esperava por ela.

“Sopa de novo?”

Pinkie respirava, afastando seu rosto da tigela. “Essa é diferente, Dashie! Experimenta, foi Trixie que fez!”

Rainbow se sentava em um dos bancos. “Espere, foi feito pela Trixie?” Ela se virava para a unicórnio azul. “Você cozinha?”

“Claro que Trixie pode cozinhar. O que te leva a tal pergunta?”

“Nada. Nunca imaginei que você pudesse fazer comida comestível.”

“Há!”

Rainbow se virava para a direção de onde veio o riso e observava Tomas, que não tirava a atenção do trabalho, mas ela poderia dizer que ele continuava sorrindo.

Trixie zombava. “Trixie vai fazer de conta que não ouviu nada.”

“Certamente,” Tomas começava, e então acabava acertando o martelo em seu dedão. “OH MEU DEUS!”

“Há! Bem feito!” Trixie deixava escapar uma risada, então olhava para o grupo de amigas. “Com acidentes como esse que é sempre prazeroso ver ele trabalhar de ressaca.”

Tomas colocava o dedão na boca. “Eu ouvi isso.”

“Trixie sabe.”

“Isso não foi legal, Trixie.” Dizia Twilight. “Você tem quem ser mais gentil com os outros.”

Trixie e Tomas paravam o que estavam fazendo e ficavam olhando para a Princesa.

“Gentil?” Os dois falavam ao mesmo tempo.

“Com ele?

“Com ela?”

“Vocês fazem parecer como se fosse impossível um se dar bem com o outro.” Twlight saía de sua cadeira, caminhando até Tomas. “Vocês dois, assim como seus trabalhos, estão sempre próximos um do outro aqui, então devem fazer a melhor coisa, que é esquecer o passado. O que quer que vocês fizeram um para o outro no passado, deixar de lado e seguir em frente.”

Nesse momento Trixie saía do balcão, servia o café da manhã a outros pôneis, e depois ficava parada ao lado de Tomas, que permanecia silencioso e imóvel. Os dois olhavam um para o outro, e então explodiam em gargalhadas.

“Você realmente acha que é tão simples assim?” Tomas dizia, em meio aos risos.

“Trixie achava que você fosse a Princesa da Amizade, não da ingenuidade!”

Tomas fazia um gesto com seu dedo, apontando para a pônei. “Como posso ser amigo de uma unicórnio arrogante que nem fala em primeira pessoa?”

Trixie continuava rindo. “Ou como poderia Trixie não se aborrecer em ser amiga de um macaco que constantemente fica coçando o meio das pernas?”

“Ou uma pônei que tentou envenenar minha refeição cinco vezes.”

“Um bípede da qual a atitude só se iguala a de uma ursa menor.”

Enquanto os dois provocavam um ao outro, ambos ainda rindo, o humor de Twilight era que nem a de um navio em um mar revolto, sua expressão continuava afundando.

“Ou como ela sempre caminha por aí como se fosse melhor do que os outros.”

“Eles chamam Trixie de grande e poderosa por uma razão, assim como você de cidadão pirado!”

“Opa, opa, já chega oceis dois! Daqui a pouco é a Twi que vai pirar aqui!” Dizia Applejack.

“Vocês todos estão me dando dor de cabeça com essa discussão.” Sunny Side caminhava para fora da cozinha. “Tomas, quanto tempo ainda vai levar para consertar essa janela? Estaremos servindo almoço em breve e não quero os clientes comendo serragem junto com as refeições.”

Tomas não perdia o ritmo. “Mas as suas refeições já não têm gosto de pó de serra?” Ele voltava para o trabalho.

“Há há, engraçado.” Sunny se virava para a empregada. “Trixie, querida, Bob vai precisar da sua ajuda com as sobremesas do almoço.”

“Se esse é o dever de Trixie.” Trixie caminhava para longe de Tomas, que se virava para ver ela trotando com um sorriso bobo.”

“O que te faz rir?” Applejack perguntava.

Quando Trixie sumia atrás da porta, Tomas sussurrava. “Ela é a única coisa com a qual eu posso contar. O mau humor da Trixie me coloca em um bom.”

“Isso não é uma coisa boa, Tomas.” Twilight retornava para seu banco, terminando sua sopa.”

“O que posso dizer? Eu prospero com a agonia dos outros.”

“Não é obvio?” Rainbow dizia em voz baixa.

A reação de Tomas era imediata. “Sim, por boa razão. Quanto menos as pessoas gostam de mim, menos me incomodam.”

“E ainda assim, a cidade inteira te adora e tenta de proteger?” Applejack interrompia com um sorriso.

“Nem sempre funciona, eu não disse que era um plano perfeito.” Tomas olhava para o bar, onde Rarity fazia de tudo para não olhar para ele, mas Flutershy sorria para Tomas.

“Bem, você está longe de ter um bom começo com a gente.” Rainbow empurrava sua tigela de sopa vazia para frente, onde Sunny era rápida ao pegá-la e colocá-la junta de outras tigelas sujas.

“Querida, não atente ele.” Sunny sussurrava.

Rainbow Dash pretendia ignorar ela.

A expressão de Tomas mudava para um olhar neutro. Applejack olhava entre os dois, pronta para silenciar sua amiga antes que ela dissesse alguma coisa que pudesse chateá-lo. Tomas era o primeiro a recuar, voltando para o trabalho, pegando uma serra elétrica.

As orelhas de Dash dobravam com o som alto da serra, lembrando do mesmo barulho que a acordou. Ela podia sentir as vibrações em sua cadeira. A singularidade do aparelho não podia detê-la de olhar, no entanto. O fio longo da serra ia até uma das poucas tomadas na parede, com o final dele plugado de forma não totalmente segura. Em seguida, observava a lâmina. Ela já havia visto serras antes, a fazenda de Applejack possui várias ferramentas das mais variadas formas e tamanho, mas nenhuma elétrica. Tomas cortava ao longo do quadro, aparando imperfeições, com a lâmina indo e voltando. De tão paralisada olhando a ferramenta, ela não percebia que estavam falando dela.

“Rainbow? Está aí?”

Dash sacudia sua cabeça, perdida em pensamentos. Ela também não percebeu que Tomas tinha parado de serrar, podendo agora observar melhor a ferramenta. A próxima coisa a chamar sua atenção era Sunny batendo no rádio, que assim como a serra, subitamente tinha parado de funcionar.

“Tom!” O que você fez?” Sunny exclamava.

“Eu? Não fui eu que fiz a tomada do rádio!”

“Mas a energia caiu com você serrando a parede!”

“Não precisa chiar, não fui eu.” Tomas largava sua serra e a desplugava.

Ele caminhava pelo bar, as pôneis ficavam olhando enquanto ele passava, mas Rarity continuava olhando para sua tigela de sopa vazia. Quando Fluttershy virava para observar Tomas, ele dava um pequeno sorriso e acenava a cabeça, continuando em direção das escadas.

“Onde ele vai?” Rainbow perguntava.

“Os disjuntores ficam no porão. As escadas que levam até lá ficam embaixo das escadas para os andares de cima.” Sunny voltava atendendo outro cliente.

Enquanto Tomas desaparecia escadas abaixo, Twilight não podia fazer nada senão notar a calma no restaurante.

Quando Sunny voltava, Twilight manifestava suas preocupações.

“Todos estão tão… calmos.”

Sunny levantava uma sobrancelha. “Pois é, e daí?”

“Bem, a luz fica aleatoriamente acendendo e apagando e ninguém está murmurando ou imaginando o que está acontecendo. Eu acho isso estranho.”

“Querida, temos eletricidade a poucos anos. Mesmo assim, a energia vai para poucos lugares. Muitos dessa cidade não precisam disso. A maioria enxerga isso apenas como uma firula, mas bem, alguns de seus luxos são agradáveis, como a luz instantânea e o rádio aqui.”

“Não posso dizer que estou reclamando do silêncio do rádio, infelizmente. Como alguém pode ouvir aquela música o dia inteiro…”

Applejack olhava Rarity. “Alguma coisa contra música country Rarity?”

“Em si? Não, eu apenas,” Rarity batia em seu queixo, “acho a música country um charme rústico. Mas não a ponto de ouvir todos os dias.”

“Bem, considerando que nós só temos duas estações, não há muita escolha.” Sunny empurrava um carrinho de pratos sujos para a cozinha, voltando rapidamente para o bar.

“Qual é a outra estação?” Rarity perguntava.

“Você não vai querer saber, confie em mim, querida.”

Rarity caçoava. “Não é possível que seja pior…”

Applejack pigarreava.

“…digo, alguma coisa mais redundante do que vinte e quatro horas de música country?”

“Polka.”

Todas se viravam para Tomas, que saía do porão e passava por elas até a sua bolsa de ferramentas perto da janela.

“Perdão?” Rarity falava.

“A outra estação que nós temos é um misto de Polka com propaganda anti-equestriana.”

As seis amigas ficavam em silêncio, embora Pinkie Pia tinha uma enlouquecedora risada em sua face.

 Twilight foi a primeira a falar. “Propaganda anti-equestriana?”

Tomas estava guardando suas ferramentas atropeladamente na bolsa. “Sim, foi o que eu disse.”

“Não existe isso!”

Tomas pausava por um momento para olhar a Princesa. “O que, de haver uma rádio pirata em Equestria, ou alguém que não gosta de Equestria?”

“Ambos!”

“Ah, estou vendo.” Tomas pegava duas bolsas. “Sunny, volto logo para terminar.” Então ele saía.

Twilight o seguia direto em seus calcanhares, logo acompanhada por suas amigas.

“Por que haveria uma estação como aquela em Equestria?”

Tomas se aproximava de uma estranha carruagem, toda branca e fechada. As janelas eram todas de vidro, e possuía mais portas do que Twilight julgava necessário para uma carruagem. Ele abria as portas traseiras, que estranhamente se abriam em direções opostas a elas, onde ele jogava as bolsas para o interior. Twilight ignorava suas amigas na tentativa de olhar o veículo, ao invés de focar em Tomas.

“Sei lá. Digo, em um país tão povoado como o seu, não deveria ser surpresa pra você saber que existe aqueles que não gostam.”

“Como quem, por exemplo?”

Tomas dava de ombros. “Diga você. Eu sempre imaginei que fossem os griffons, mas o último que passou pela cidade disse que nunca tinha ouvido falar da estação também.”

“Eu preciso ouvir ela então.”

“Bem, você vai ter que esperar até eu chegar na represa.”

“Represa?”

“Foi o que eu disse.” Tomas batia as duas portas, com a esquerda fechando primeiro e a direita depois.

“É assim que você consegue energia para a cidade?”

“Sim, um lugar pequeno e remoto, cerca de oitenta quilômetros de nós. É a fonte de água em movimento mais próxima que podemos usar.” Tomas caminhava para longe dela, pelo lado esquerdo do veículo.

“Oitenta quilômetros? Isso é impossível!” Twilight o seguia, circulando ao redor e o interrompendo.

Tomas deixava escapar um suspiro, então apontava atrás de Twilight. Ela virava a cabeça, vendo um único poste exposto na entrada da cidade. Um longo fio, com dezenas de metros, se ligava até a hospedagem de Sunny, com outro fio descendo até o solo, onde ela via uma pequena placa com o sinal de “perigo”. Observando o horizonte, ela via vários postes, todos com distâncias idênticas a do primeiro.

“Isso não é impossível.” Tomas finalmente dizia.

“Certo, mas ainda são oitenta quilômetros. É um longo caminho. Como você consegue chegar lá?” Twilight perguntava.

Tomas rolava seus olhos, então com a mão direita batia no metal da carroceria ao lado dele.

Twilight finalmente prestava atenção no enorme veículo. “E daí, você precisa de um pônei para puxá-la, uh…”

“Aquele pônei chamado Road Rage? Não obrigado. Ele é mais louco do que eu era na idade dele, e eu tenho um Camaro oitenta e sete.”

“Um o que?”

Tomas batia em sua testa. “Nada, esqueça. Já perdi muito tempo. Quem são os guardas que vão me escoltar hoje?”

Twilight piscava. “Guardas?”

Você sabe, ontem foi Fluttershy e Rarity. Hoje é a vez de quem?”

“Eu, eu não sei do que você está…”

“Oh, pode parar. Sei muito bem qual é o seu jogo. Vamos direto ao ponto para que possamos acabar logo com isso. Quanto mais cedo nós acabarmos, mais cedo vocês todas podem partir e assim voltarmos para nossas vidas normais.”

As orelhas de Twilight murchavam, e em seguida dizia com um suspiro. “Applejack e Rainbow Dash.”

“Obrigado.” Tomas caminhava até a frente do veículo onde o resto das amigas de Twilight estavam reunidas, conversando entre si.

Tomas abria a porta do passageiro, revelando um banco revestido em tecido cinza e bastante usado. As pôneis pareciam estarem mais focadas no veículo do que em Tomas. Ele fazia um gesto com a mão direita, em seguida colocava na boca e soltava um assovio alto, imediatamente chamando atenção.

“Applejack, Rainbow Bravesh, vamos! Eu não tenho o dia todo!”

Rainbow e Applejack trocavam olhares, a pônei laranja dava de ombros, e se aproximava. Rainbow estava mais hesitante, olhando para Rarity e Fluttershy. Rarity parecia indiferente, enquanto que Fluttershy sorria e acenava. Nada humorada, Rainbow trotava na direção da estranha carruagem e se aproximava de Tomas.

“É Dash, não Bravesh, na próxima fale direito…”

Tomas deixava escapar uma pequena bufada, segurando a risada antes que pudesse escapar. Afinal a pégaso azul estava em uma altura perfeita para golpear uma área sensível do seu corpo.

“Então, uh, como nós entramos nessa carruagem?” Applejack perguntava. “Saltando pra dentro, ou… EI!”

Antes que a pônei laranja terminasse de falar, Tomas agarrava ela pelas pernas dianteiras e a colocava no assento do carro. Ele se virava para os rostos chocados das outras pôneis.

“Então Rainbow DASH, você vai perguntar como entrar ou vai saltar para dentro?”

Não precisava ser dito duas vezes para Rainbow que dava um salto rápido do chão, e então se estabelecia ao lado de uma Applejack corada. Tomas fechava a porta do carona, e então andava para o outro lado, onde notava Twilight ainda parada lá olhando para o adesivo no veículo.

BAKER E FILHOS

CONTRATATANTE

O “e filhos” estava pintado por cima, numa tentativa de apaga-las, mas ainda dava pra ver as letras através da tinta branca um pouco transparente da lataria.

Uma batida de porta trazia Twilight para fora de sua distração, e logo em seguida um rugido alto. A janela na porta descia, e Tomas colocava a cabeça pra fora.

“Vejo vocês em poucas horas.”

Então a carruagem dava uma guinada para a frente, e… se movia? Sozinha? Sem pônei para puxá-la? Ela apenas… se dirigia para longe. Assim que a poeira baixava após sua rápida saída, Twilight olhava para suas outras amigas, todas com expressões igualmente chocadas com o que tinham acabado de ver.

“Eu preciso terminar aquele livro que ele me deu!” Twilight gritava antes de correr para dentro da hospedagem de Sunny.

Rainbow Dash tinha pulado para dentro, o local mais fácil para pousar era o assoalho. Uma vez nele, ela saltava para o banco para se juntar a Applejack, que parecia sem jeito. “Que foi AJ, o que te deixou incomodada?”

Applejack disse apenas uma palavra: “Dedos.”

“O que?”

A outra porta abria, Tomas facilmente entrava e se sentava no banco com elas. Seu lado tinha algum tipo de roda, onde o humano colocava suas mãos. Ele então colocava uma das mãos em outra coisa, fazendo-a girar, e logo toda a carruagem começava a balançar e rugir.

Isso agitava Applejack, olhando ao redor. “O que…”

Rainbow notava Tomas agarrando uma manivela na porta, em seguida a girando fazendo a janela do seu lado abaixar. Ele colocava a cabeça para fora, presumivelmente para Twilight e dizia: “Nos vemos em poucas horas.” Então ele agarrava uma espécie de alavanca, puxando-a para trás e em seguida para frente.

“Ei!” Rainbow observava a paisagem pela janela passando. Eles estavam se movendo! Ela passava pela Applejack, se aproximando da janela do carona, observando uma manivela semelhante na sua porta, então com ambos os cascos ela copiava Tomas e a girava, fazendo sua janela de vidro abaixar também. Ela colocava a cabeça para fora, com a crina batendo em sua face enquanto olhava para trás, se distanciando rapidamente da cidade. Ela podia ver todas as suas amigas olhando em choque. A pégaso azul estendia um casco e acenava. Ok, ela tinha que admitir, isso foi incrível.

“Eu não entendi, como é que estamos nos movendo?” perguntava Applejack.

“É um motor, todo mecanizado, agradeça à Ford.”

“Quem é esse?”

Tomas balbuciava alguma coisa em meio a sua respiração, então dizia “Não quem, e sim o que. É uma fábrica. Vocês pôneis chamam de carruagens, mas nós humanos chamamos de automóvel. Ford é o nome de uma fábrica de automóveis.”

Rainbow se juntava à discussão. “Automóveis? Hu, soa como uma palavra que Twilight inventaria.”

“Bem, sintam-se confortáveis. Será uma viagem um pouco longa,” Tomas dizia, colocando uma das mãos no centro do painel.

Ele apertava um botão, que acendia uma serie de luzes em um aparelho retangular. Então, pelos dois lados das pôneis, música começava a tocar dos altos falantes escondidos nos interiores das portas.

Rainbow notava com um ar de diversão como Applejack batia o pé no assento. Tomas ficava com o braço esquerdo apoiado em cima da janela aberta, e a mão direita no volante.

“De onde é essa música country?” Perguntava Rainbow.

“Não é country, é blues.”

“Parece country para mim.”

“Apenas aquiete-se e aprecie.”

Com uma bufada, Rainbow cruzava os cascos dianteiros sobre o peito e olhava de volta para a janela. Tudo o que ela via era um deserto sem fim, com exceção dos postes aleatórios que passavam por eles, um atrás do outro. A brisa batendo em sua face quase fazia ela esquecer que deveria fazer um beicinho… quase.

Applejack decidia quebrar o silêncio. “Então Tom, ouvi dizer que você tem algum parente?”

“Parente?” Tomas perguntava.

“Sim, família. Irmãos, se Rarity estiver certa.”

“Oh sim.”

“Eu tenho dois irmãos também. Uma jovem irmã, Apple Bloom, e meu irmão mais velho, Big Macintosh.”

“Você é a irmã do meio então?” Dizia Tomas com um sorriso.

Applejack ria. “Sim, costumava não gostar disso.”

“Sei como se sente. O irmão mais velho causando problemas para os pais e precisando de atenção constante, e o mais novo precisando de atenção e cuidado.”

Applejack acenava. “E o irmão do meio fica no escuro. Quase me fazia sentir…”

“Excluída.”

Applejack e Tomas ficavam em silêncio, o rádio continuava com a música. O olho direito de Rainbow se contraía.

“Então, hu, quais os nomes deles?” Applejack ousava.

Tomas permanecia em silêncio, concentrado na estrada. Applejack estava paciente, observando eles passarem através do infinito deserto. Rainbow Dash continuava aborrecida. Mas por que? Ela percebia que estava ficando presa no pequeno espaço com o humano.

“Está bem, você não vai me dizer.” Applejack olhava para o nada.

Tomas olhava para a pônei laranja, notando que ela não estava nem sorrindo, e nem com uma carranca. Ela permanecia neutra sobre isso.

Para os próximos dez minutos, eles viajavam em silêncio, exceto pelo rádio. Applejack estava começando a acompanhar o ritmo, enquanto Rainbow Dash começava a bater a cabeça contra a porta.

“Parece que você não está gostando de Jim Croce?” Tomas finalmente falava.

Ambas pôneis olhavam para ele, confusas.

“O cantor da música, o nome dele é Jim Croce.”

Applejack inclinava a cabeça em pensamentos. “Nunca ouvi falar dele.”

“Certamente. Ele era um grande sucesso de onde eu venho, e muito antes de eu nascer.”

“Era? Ele não ficou popular?”

“Bem, ele sofreu um acidente de avião.”

As orelhas de Applejack murchavam.

Rainbow não sabia o que era um avião, mas ela já viu um acidente de carruagem, que poderia ser realmente terrível.

“Ele era o favorito do meu pai. Disse que tinha visto ele uma vez em uma apresentação. Sua última, provavelmente.”

“Bem, você e seu pai partilhavam de um bom gosto por música então.” Applejack sorria.

Tomas não respondia, ao invés disso seus dedos começavam a bater agitados no volante. Rainbow voltava a bater a cabeça lentamente na porta.

“Qual é o problema dela?” Tomas se atrevia a perguntar.

“Ou você, ou a música. Provavelmente ambos.” Applejack dizia.

“Uau, que honesto.” Tomas ria.

“Claro, isso é o que eu sou, o elemento da honestidade.”

“Elemento do que?” Tomas olhava para a pônei laranja.

“Honestidade. Eu e minhas amigas representamos diferentes elementos da harmonia, ou amizade, ou algo assim. Como eu disse, eu sou da honestidade, Rainbow Dash é da lealdade-“

Ao mencionar o seu nome, Rainbow gemia.

“-Fluttershy é o da bondade, Rarity da generosidade, Pinkie Pie do bom humor e Twilight da magia.”

“Uau, vocês são reais?” Tomas não podia fazer nada senão sorrir para o ridículo.

“Sim. Nós salvamos Equestria, muitas vezes.”

“Eu não diria muito, Dash. Talvez três ou quatro.”

“Sim, nós salvamos Ponyville duas vezes e facilmente, que é muito!”

Tomas deixava escapar um sussurro. “Então vocês seriam super heroínas?”

“Não.” Applejack começava.

“Pfft, sim, claro que somos. Somos as grandes heroínas de Equestria! Bom, diferente das princesas, mas elas são como, tipo Deusas, então não contam.”

“Você sabe o que acontece com os heróis que ficam se gabando demais, certo?” Tomas se virava para as pôneis.

Applejack se virava para Rainbow, que dava de ombros. “Se tornam grandiosos?”

“Não, acabam convencidos e derrotados.”

As orelhas de ambas as pôneis murchavam, olhando para longe de Tomas.

“Nada pessoal. Apenas indicando um fato, se estou permitido a acreditar em meus velhos gibis de estória em quadrinhos.”

“Bem, é que isso abre as feridas. Provavelmente você não sabe como Tirek foi derrotado.”

Tomas balançava a cabeça. “Não. Apenas que um dia eu estava cuidando de todos os pôneis em Oasis, então na manhã seguinte eu acordei com todos se sentindo melhor. Eles não me deixavam em paz por uma semana.” Ele olhava para frente.

O veículo dava solavancos, com o banco rangendo em um único som entre os três.

“Então, eu presumo que você não vai falar como ele foi derrotado, huh?” Tomas perguntava, incapaz de esconder sua curiosidade.

“E quanto a você? Estamos aqui para buscar a verdade sobre seus feitos.”

“Não são meus feitos, isso é culpa dos pôneis de Oasis.”

Applejack sorria. “Bem, eles com certeza acreditam em você.”

“Eu apenas fiz o que tinha que fazer, nada mais.” Tomas dizia, então ficava em silêncio.

Enquanto eles continuavam, a condição da estrada ia piorando, finalmente sacudindo Rainbow para fora de seu tormento.

“Que raios de estrada é essa?” Rainbow perguntava, pulando do banco.

“A estrada está húmida, já que estamos chegando perto da represa,” dizia Tomas, olhando por cima novamente. Ele apontava para frente, com as pôneis observando, até avistarem uma grande construção ao lado de um rio. “Aqui estamos, essa é a represa.”

“Qual é o nome dela?” Perguntava Applejack.

“Eu disse que é uma represa.”

“Eu sei disso! Eu quis dizer que normalmente represas recebem o nome de algum pônei em homenagem.”

Tomas seguia com o veículo até a única entrada do local, parando com ele no estacionamento.

“Bem, eles nunca nos disseram quando construíram. Apenas que nós estaríamos recebendo um terço da energia, se eles também pudessem usar o rio The Little Meanie.”

Rainbow Dash deixava escapar uma risada. “Você acabou de dizer The Little Meanie?”

Indiferente, Tomas olhava para ela. “Sim, o nome desse rio é The Little Meanie, que se interliga a outros, o maior rio fica a centenas de quilômetros de distância.”

Rainbow não podia fazer nada senão perguntar. “Então como é chamado o outro rio?”

Tomas piscava. “The Big Happy.”

Applejack também se unia aos risos, ambas pôneis caíam em um ataque de risos no banco ao lado dele. Tomas, por sua vez, olhava para elas, confuso.

“Eu nunca entendi vocês pôneis.” Tomas saía do carro, fechando a porta e caminhando até a parte da frente.

Rainbow gritava pela janela aberta. “Ei! Como saímos dessa coisa!”

“Tem uma maçaneta perto da manivela que você usou para abaixar o vidro da janela.”

“Aonde?” Rainbow perguntava.

Tomas suspirava, caminhando até a porta e apontando para o interior. “Aquela ali.”

“Essa?” Rainbow puxava a alavanca.

“Sim, mas não é assim que abre.” Tomas esperava. “Não, não, do outro jeito, assim não abre!”

“Estou tentando de todas as maneiras possíveis!”

“A porta está trancada?”

“Eu que sei? Diga você.”

Neste ponto, Applejack pigarreava atrás de Rainbow, sem que ela notasse.

“Veja se tem um botão com uma marca vermelha. Vermelho significa que está destrancado.”

“Vermelho?”

“Exato, você vê alguma coisa assim?”

“Não? Talvez? Olha, abre você do lado de fora, ok?”

Tomas usava a maçaneta.

“Não dá, está trancada.”

“Então destranca!”

Antes que Tomas pudesse explicar que as chaves estavam do lado de dentro, Applejack cutucava sua amiga no ombro. Entendendo a dica, Rainbow de afastava, esperando para ver o que sua amiga iria fazer. O que nem ela ou Tomas esperava, no entanto, foi ela saltar para fora da janela, pousando com seus cascos em um sorriso orgulhoso. Nem mesmo seu chapéu mudava de posição enquanto ela fazia uma parábola no ar.

“É isso aí,” Tomas dizia, jogando as mãos para o ar e caminhando na direção da represa.

Rainbow rapidamente seguia os passos de sua amiga e dava um salto para fora da janela, suas asas abriam enquanto ela deslizava até Tomas e Applejack, se aproximando da porta.

Tomas parava, voltando-se para as duas pôneis enquanto uma olhava para ele, e a outra olhava diretamente ele enquanto planava no ar.

“Agora, há algumas regras de conduta que nós precisamos seguir antes que vocês coloquem seus cascos lá dentro.

“Regras de conduta? Tá falando sério?” Rainbow perguntava.

Tomas colocava sua mão na cabeça de Rainbow, e sempre de maneira tão gentil a empurrava para o chão.

“Mas o que…” Rainbow questionava, insegura de como ele fez aquilo.

“Sim, regras de conduta. Primeiro, nada de voar lá dentro. O pônei que trabalha na represa tem papeis e documentos espalhados por toda parte. Uma batida da suas asas e ele vai te prender na parede.”

Com isso, Rainbow rapidamente dobrava suas asas, as aconchegando.

“Outra coisa, se ele perguntar se vocês querem testar alguns de seus experimentos, digam que não.”

“Não?” Applejack perguntava.

“Exato. Metade dessas coisas são perigosas, e maluco do jeito que ele é, não vai considerar a segurança dos outros.”

“Esse cara me parece obsessivo pelo trabalho. O que ele faz aqui?”

Tomas beliscava o nariz. “O nome dele é Short Circuit, e é o único pônei qualificado para operar a represa. Ele mora, trabalha, e dorme aqui. Quanto a esse último, não fiquem vagando por aí, porque se vocês acharem o quarto dele podem acabar não saindo vivas.”

Ambas pôneis engoliram seco.

“E por último, enquanto você chegarem a perguntar a ele sobre seus…problemas, nunca, e eu digo nunca deem risada de suas coisas aqui. Ele literalmente morreu de trabalhar em cima delas várias vezes, então ele tem muito… temperamento.

As pôneis olhavam uma para a outra, então Rainbow falava, “O que exatamente você quer dizer?”

Tomas se abaixava na altura dos olhos da pégasos azul.

“Quando ele tinha cinco anos, se casou com a torradeira da mãe dele.”

        “…”

        “…”

        “…”

“Ele não está brincando.” Dizia Applejack para Rainbow.

“Eu sei, e isso é o que mais me assusta,” Rainbow respondia, então rapidamente acrescentava.

“Nã-não que eu esteja com medo ou algo assim, mas isso é ridículo.”

Applejack, diferente dela, estava curiosa. “Algo que você disse antes Tom, sobre este cara. Ele está morto?”

“Sim, eu achei ele morto várias vezes. Tive que fazer massagem cardíaca nele ou desligar o que quer que tenha grudado nele com o choque.

“Você só pode estar brincando.” Rainbow dizia.

Applejack olhava para Tomas de maneira severa, com ele olhando de volta, então seus olhos arregalavam.”

“Dash, ele não está brincando.”

“O que?!” Dash recuava um passo. “Como pode um pônei morrer várias vezes assim, e apenas voltar a vida?”

“Eu nunca disse que ele estava bem. Por isso afirmei que é maluco.”

“E você acha que é sábio confiar a ele a operação desta represa…?” Applejack levantava uma sobrancelha.

“Porque independentemente disso, ele é bom no que faz. Ninguém mais queria morar aqui, então enviaram ele.” Tomas ficava novamente de pé. “Agora vamos entrar. Eu quero terminar aquela janela logo.”

Tomas se virava e abria a porta. Rainbow e Applejack tentavam um olhar hesitante uma para a outra, e logo foram atrás dele.”

“Oh, certifiquem-se de se descarregarem,” Tomas dizia, e então tocava seus dedos em uma haste de cobre saindo do chão.

Ambas pôneis olhavam confusas, mas fizeram o mesmo com seus cascos.  Rainbow sentia uma leve sacudida estática.

O humano não estava brincando quando disse que haviam papeis por todos os lados. Isso lembrava ambas a velha biblioteca de Twilight, com papeis e documentos espalhados. Haviam teorias, fórmulas, projetos em toda a parede, armários e mesas. Não havia uma parte limpa e desocupada.

Onde não haviam papeis, haviam estranhos aparelhos, e eletrônicos dissecados.

“Oh, oi – olá sherife, olá!”

“Sherife?” Rainbow perguntava.

“Nós estávamos falando sobre você!” A voz dizia novamente.

“O que sobre mim?” Rainbow perguntava.

A voz parecia ignorar ela. “Essa é Britt, uh, Britt Ponset.”

As orelhas de Applejack esticavam. “Britt Ponset? Eu conheço esse nome!”

Tomas e as duas pôneis continuavam caminhando pelos corredores, o tempo todo a voz surgia e conversava com ela mesma.

“Como é isso?” “Está certo.” “Você ouviu falar dele, não? Ele é o Six Shooter.”

“Eu sabia! É o Six Shooter!” Applejack gritava.

“Quem?” Tomas perguntava.

“É um programa de rádio, meu favorito. Nós ouvimos toda semana, e adoro dormir com meu rádio sintonizado nessa estação. Bem, isso até Tirek arruinar a estação. Essa deve ser nova!” Applejack estava eufórica, procurando freneticamente pelo rádio.

“Bem, isso é engraçado, porque tenho certeza que essa é a voz do Short Circuit falando.” Tomas olhava em volta.

Um flash de luz brilhante chamava a atenção deles, e os três corriam na direção dela. De pé contra uma mesa, estava um pônei cor de pêssego com crina e cauda amarelo brilhantes, em meio a um trabalho de reconectar fios em um tipo de caixa.

“Oh, claro, claro, prazer em conhece-la senhoria Ponsett.” Olá.”

“Isso não soa como Jineigh Stewart, no entanto.” Applejack fazia beicinho.

“Isso porque não é ele. É o Short Circuit, fazendo sabe Deus o que,” Tomas dizia, se aproximando do pônei.

Havia um súbito flash brilhante, junto com as contrações musculares do pônei, sua perna direita pisando em um movimento nervoso.

Ele ficava em silêncio por alguns segundos, então o pônei continuava o trabalho, com o fato que agora ele estava perto de gritar.

“E agora Fleetfoot assumiu a liderança, com Soarin correndo para alcança-lo enquanto Spitfire continua perdendo posição. Eles estão se aproximando da última curva agora, a qualquer momento nós poderemos ver… sim, sim! E lá vai ela, girando ao redor de Soarin e agora vindo direto atrás de Fleetfoot!”

As orelhas de Rainbow levantavam. “Ei, essa é a corrida semanal dos Wonderbolts! Céus, eu esqueci sobre isso! Aumenta! Aumenta!” Agora era Rainbow procurando pelo misterioso rádio.

“Não, não, volta para o Six Shooter! Eu não quero perder! Big Mac vai querer falar sobre isso quando eu voltar para casa, e eu terei que esperar voltar ao ar!” Applejack também procurava.

“Não tem nenhum rádio,” Tomas dizia, sem graça.

“Então como…” Rainbow dizia, olhando para Short Circuit em seguida.

“Spitfire está tentando com dificuldade, será que ela consegue? Ela pode ulrapassá-lo de novo? Sim! Sim! Lá vai ela!” O pônei estava agora gritando, o tempo todo mexendo com a fiação enquanto ele continuava o trabalho, nem mesmo percebendo que estava falando em voz alta.

“Ele é o rádio.” Tomas dizia.

“O que…” Ambas pôneis falavam ao mesmo tempo.

“Como cargas d’água ele faz isso, eu não tenho ideia, mas nós precisamos que ele pare.” Tomas andava ao redor do pônei, analisando os fios que ele tinha em seus cascos.

O tempo todo, o pônei continuava com o final da corrida, para a alegria de Rainbow.

“Podemos pelo menos sintonizar Jineigh Stewart de novo?” Applejack perguntava.

Tomas olhava para a pônei laranja, então para baixo, em Short Circuit. Ele rapidamente batia na cabeça do pônei, cortando a corrida.

“Oh, claro, claro, vejo você no sábado, Sherife!” “Hahaha”

“Obrigada!” Applejack dizia, ouvindo atentamente.

Rainbow deixava escapar uma bufada, enquanto Tomas acenava sua mão na frente do rosto do pônei. Short Circuit empurrava a mão humana, focando em seu trabalho. Tomas suspirava, então usava uma mão para alcançar o plugue e desconectar o aparelho da tomada na parede.

Imediatamente havia um alto estalo e Short Circuit era arremessado para trás, o aparelho em que ele estava trabalhando soltava fumaça. Applejack e Rainbow corriam para checar o pônei, enquanto Tomas apenas olhava em confusão.

“Uau, isso foi desagradável,” Dizia Short Circuit, com fumaça saindo de sua boca enquanto ele falava.

“Desculpe Circuit, mas nós precisamos da sua ajuda.”

“Nós? Nós quem?” O pônei olhava as duas amigas. “Pôneis? Você trouxe outros pôneis aqui?! Descarregaram a energia estática de vocês? Carga estática em um ambiente sensível pode ser perigoso.” Circuit examinava as pôneis, passando o casco na crina de Rainbow.

“Ei, tire seus cascos do meu cabelo!” Dizia Rainbow.

“O que Rarity não faria para ouvir isso de você.” Applejack ria.

“Sim, Circuit, nós nos descarregamos antes de virmos aqui. Agora precisamos-“

“Você checou elas pra ver se não são insetos? E quanto as câmeras? Há alguma embaixo do chapéu dela?” Circuit pegava o chapéu de Applejack e olhava embaixo.

Applejack agarrava seu chapéu de volta, então colocava em sua cabeça. “Eu não tenho botão de desligar, se é isso que você está pensando!”

“Sim, e também não somos changelings!” Rainbow protestava.

Circuit rolava seus olhos. “Claro, agora posso ver o quão óbvio isso é, com a maneira como vocês apenas entram sem ser convidadas e com cheiro de sujeira e nuvens. Changelings não imitam nesse extremo, e seriam muito mais discretos tentando chegar aqui.”

As pôneis olhavam para Tomas com sobrancelhas levantadas, o humano respondia com um de seus dedos indicadores girando ao redor da orelha.

“Espere, então com o que você está preocupado?” Perguntava Applejack.

“Espiões!”

 Applejack rolava os olhos, enquanto Rainbow Dash olhava hesitante os arredores.

“Por que espiões estariam interessados em suas coisas?” Rainbow perguntava.

Circuit fazia uma careta. “Você ficaria surpresa. Eu tive muitas invenções roubadas, razão pela qual me voluntariei em trabalhar nesta bacia de poeira.”

“Também pelo fato de você ter uma investigação criminal quanto ao desaparecimento de um vendedor,” Tomas acrescentava.

“EI! Eles não podem provar nada! Além do mais, um pônei vendedor é o disfarce perfeito para alguém entrar na sua casa e roubar suas ideias.”

Short Circuit caminhava até a sua engenhoca ainda soltando fumaça.

“Além disso, outros pôneis vieram, me fazendo todas aquelas perguntas do tipo ‘como está a segurança da represa?’ e ‘Como estão os níveis de energia?’ e vindo com qualquer outro tipo de desculpa achando que podem entrar. Bah! Eles nunca entrarão aqui! Sei do que estão atrás!”

Tomas suspirava. “Circuit, eles provavelmente são apenas fiscais da companhia de distribuição elétrica, querendo se assegurar que este lugar está seguro e operacional.”

Circuit acenava um casco. “Bah, não faz sentido. Eles sabem muito bem que não tem nada para se preocuparem com esse lugar e comigo.”

Circuit percebia um cheiro de queimado, e logo a caixa em que o pônei estava trabalhando ia em chamas. Tomas, já preparado, pegava o extintor ao lado dele e corria para apagar o fogo, enquanto Circuit apenas ficava de pé, ignorando.

“Claramente, isso é coisa de espião.”

Short Circuit se afastava, com cada terceiro passo fazendo um barulho mais alto em seus cascos do que os demais. A atenção das duas pôneis era atraído longe da agitação do som estranho, para aquilo que elas observavam surpresas. A perna esquerda traseira do pônei era batida e curta, então ele tinha um sapato feito na medida para que pudesse caminhar de maneira uniforme.

“Elas sempre olham os outros desse jeito?” Circuit perguntava a Tomas.

Tomas colocava o extintor no chão, batendo na camisa para tirar o pó branco.  “Na verdade, sim. Provavelmente olhando para sua perna bizarra.”

“Hmm, como se elas não tivessem visto nada que nem isso antes.”

“Circuit, nenhum pônei se parece com você, mas mudando de assunto, você ainda tem energia?”

“Claro que sim.”

“Então por que a cidade ficou às escuras?”

Circuit batia seu casco na caixa, sorrindo. “Eu precisava desviar parte da energia para um projeto, e como eu tive problemas na última vez para cortar a força de lugar nenhum, eu desviei de Oasis que era a única cidade próxima.

“Isso faz sentido.” Tomas dizia.

“Faz?” Rainbow perguntava.

“Não em tudo. O que você estava fazendo dessa vez, Circuit?”

O pônei irradiava em alegria, esfregando uma caixa de metal gentilmente.

“Com isso! Eu estava assando uma batata,” ele dizia, abrindo a porta para revelar uma batata em seu interior.

Todos olhavam em silêncio.

“E em cinco segundos,” Circuit acrescentava, então tirava ela fora e dava uma mordida.

“Tudo bem, isso é legal,” Rainbow dizia. “Você tem alguma coisa que possa me fazer mais rápida?”

Circuit sorria.

“Não, Circuit, você não vai fazer nenhuma experiência nela. Não posso voltar para Oasis com uma pônei a menos, do contrário a Princesa vai querer minha cabeça.”

“Oh, bem, e que tal se-“

“Não e ponto final. Reative a força, por favor.”

“Tá bom, tá bom.”

Short Circuit passava o casco sobre seu rosto, espalhando sua crina. Ambas pôneis soltavam um suspiro coletivo, observando uma pequena protuberância na parte superior da testa dele.

“O que vocês tem?” Circuit perguntava, vendo os olhares surpresos delas.

 “Elas apenas perceberam que você é um unicórnio.”

“Era.”

“Você não deixa de ser uma espécie só porque perdeu parte de seu corpo.”

“E você não deixa de ser um alcoólatra só porque está sóbrio.”

Tomas franzia. “Apenas desvie a energia para Oasis de novo!”

Tomas se sentava em uma cadeira, lendo um livro enquanto Shor Circuit começava a trabalhar para restabelecer a energia.”

“Acontece que, quando eu tirei uma válvula para colocar outra, eu meio que apaguei o dique inteiro. Então agora tenho que consertá-la, e isso vai levar um tempo.”

Applejack deixava escapar um suspiro. “Quanto tempo?”

“Oh, não sei, pode ser cinco minutos, ou até cinco dias.”

“Dias?” Dash resmungava.

Short Circuit dava de ombros, continuando a mexer na pilha de partes eletrônicas.

“Então, Short Circuit.”

“Me chame apenas de Circuit.”

“Por que não Short?” Rainbow perguntava.

Circuit levantava uma sobrancelha.

“Oh… certo…” Rainbow olhava a perna curta dele e voltava a ficar em silêncio.

Applejack ria um pouco. “Circuit, o quão bem você conhece o Tom?”

“O bastante para não gostar dele.”

Rainbow piscava. “Espere, você também não gosta dele?”

Applejack olhava para sua amiga, mas ficava em silêncio.

“Ele é um mané, sempre foi,” Circuit dizia, “Sem mencionar que é um viciado em trabalho também, e um alcoólatra a noite.”

“Então ele tem problema com bebidas?” Applejack perguntava.

“Digamos assim. Os tolos de Oasis pensam o contrário e tentam ignorar isso.”

A testa de Applejack franzia, “Me parece que Sunny sabia sobre isso, e aquele outro pônei, uh, Match Junior?”

“Match Junior? Eu me lembro dele. Seu pai tentou me matar uma vez.”

“O que?” Applejack perguntava.

Circuit procurava uma peça de metal com lâmpadas nele, mas quando ele tocava, o objeto quebrava em pedaços. Ele jogava o estilhaço de volta na pilha e continuava procurando por outra.

“Sim, há muito tempo.” Circuit suspirava em meio às lembranças.

“Mas de volta ao assunto,” Rainbow dizia, “Qual é o seu problema com ele?”

“Como eu disse, ele é um viciado em trabalho de dia-“

“E um alcoólatra de noite, isso já entendemos.” Rainbow cortava ele. “Então por que?”

“Porque ele está machucado, e quando trabalha não é suficiente para preencher a garrafa vazia.”

Ambas pôneis olhavam para Tomas, então voltavam para Circuit.

Em um tom abafado, Applejack perguntava, “Ele se machucou como?”

“Sei lá. Ele não fala comigo sobre isso, e eu não pergunto.”

“Mas pelo menos já tentaram ser amigos?”

“Claro, claro. Mas ele nunca me deixa usar algum produto nele e nem ligar máquinas nele.”

Rainbow rolava seus olhos. “Por que será.”

“Então me diga, você acredita sobre o que ele fez pela cidade?” Applejack perguntava.

Circuit parava de olhar para a pônei.

“Depende sobre do que você está falando.”

“Bem, ele ajudou um monte de gente quando Tirek invadiu a cidade.”

“Claro que ele fez isso.”

“Espere, mesmo?” Rainbow perguntava.

“Sim, sim, ele me salvou também.”

“E ainda assim você não gosta dele?”

Circuit acenava. “A única razão dele ajudar é porque isso faz ele acreditar que ele não é todas as coisas que de fato ele é,” Circuit puxava sua crina para cima. “Além do mais, não posso perdoá-lo por fazer isso comigo.”

Applejack olhava a protuberância, que uma vez foi um chifre de unicórnio.

“Espere, Tomas fez isso com você?” Rainbow perguntava, olhando para o humano.

Tomas continuava lendo o livro, mudando para outra página.

“Bem, não de propósito, mas ainda sim.”

“Como?”

Circuit voltava para a pilha de equipamentos, e com um “aha!” ele puxava pra fora outra peça de metal com uma lâmpada sobre ela, aparentemente não prestes a explodir como a outra.

 Ambas pôneis seguiam o pônei enquanto ele caminhava até a parede onde havia um grande painel de controle.

“Do lugar de onde ele veio, coisas de sua posse tendem a manter emoções e sentimentos, porque humanos são materialistas.”

“O que?”

Circuit olhava para Rainbow. “Apenas como eu disse. Objetos de sua posse guardam emoções e sentimentos. Isso é raro em Equestria, mas não para a espécie dele. Como unicórnio, você é capaz de sentir essa energia quando toca em tal objeto.”

“O que você tocou?”

“Uma argola de ouro.”

“O que?”

“Ele chamava de anel. Aparentemente serve para encaixar no dedo dos humanos. Algum tipo de objeto da moda deles eu imagino. De qualquer forma, eu precisava de algum ouro para um projeto e ele me deu aquele anel, dizendo que não tinha mais nenhum uso para ele. Mas quando eu fui pegar ele com meu chifre…” Circuit pausava por um momento, olhando para o humano de longe.

“Ele fez alguma coisa errada, e o que quer que tenha sido, machucou ele e outros também. Toda a energia resultante de dor e arrependimento foi depositado naquele anel, porque ele era muito apegado a ele, e quando eu toquei nele, fui inundado com as emoções. Foi tanto, que meu chifre quebrou, e ele me levou às pressas para o médico. Oasis não é uma cidade em expansão, não tinha um hospital de verdade. Apenas um médico. Ele salvou minha vida, mas eu perdi meu chifre.”

Rainbow e Applejack olhavam uma para outra, com as orelhas murchas.

“Você ainda tem o anel?” Applejack perguntava.

“Não, Tomas pegou de volta e jogou em um rio.”

Com aquelas palavras, Circuit rastejava para debaixo do painel de controle e começava o trabalho.

As duas pôneis se afastavam alguns passos de Circuit, murmurando entre elas, “Então, o que você acha Rainbow?”

“Acho que precisamos dizer a Twilight o mais rápido possível sobre isso. Vai saber o que mais ele possa estar escondendo que eventualmente venha a machucar mais pôneis?”

Applejack acenava. “Bem como também aquele sentimento que o está devorando por dentro. Não consigo acreditar que morando aqui por dez anos e ele não se abriu com ninguém.”

“Bem, tem o Bob.”

“Verdade. Talvez podemos conversar com ele?”

“Tirando o fato que ele não pode falar, lembra o que Twilight disse? Ele não tem língua.”

Applejack dava de ombros. “Nem me lembre. Não quero nem imaginar como isso aconteceu.”

“Como perder um chifre?” Rainbow olhava para Circuit, que estava apenas com suas pernas traseiras fora do painel de controle.

“Esta cidade está cada vez mais deprimente, mais do que qualquer outra que visitamos.”

“Como o prefeito disse, a cidade está cheia de assentados.”

Applejack rolava seus olhos. “Ele não disse desse jeito.”

 Short Circuit arrastava para fora do painel, e então colocava um par de óculos.

“Muito bem, vamos bicudar o porco!”

“O que?” Applejack perguntava, não vendo nenhum animal.

Tomas se juntava aos três enquanto Circuit batia seu casco em um botão. Então tudo ganhava vida. Luzes se acendiam, mostradores indicavam o fluxo da corrente. As pôneis estavam tão concentradas vendo tudo aquilo ganhar vida, que elas falhavam em ver os pelos no corpo de Circuit se levantarem. O pônei começava a gargalhar loucamente, seus óculos rachavam. Enquanto isso, Tomas observava e rapidamente agarrava as pôneis e corria.

“Ei! O que foi!” Applejack gritava, sacudindo seus cascos enquanto Rainbow amolecia.

“Temos que sair daqui antes que tudo exploda!” Tomas gritava, saindo pela porta.

Ele corria para o lado oposto do carro, soltando as pôneis antes de se entrincheirarem e se cobrirem. O chão começava a tremer, e o veículo balançava. De repente, tudo parou. Tomas arriscava uma espiada pela frente, depois pela direita, e em seguida houve uma forte explosão com alguma coisa sendo arremessado do telhado, voando para longe.

Ambas pôneis trocavam olhares.

“Mas o que foi aquilo??” Rainbow gritava.

Foi nós vivermos para respirarmos mais um dia.” Tomas se levantava, tirando a poeira de sua roupa.

“Ele está bem?” Applejack perguntava.

“Provavelmente. Vamos voltar para a cidade. Já tive muita agitação para um dia.”

Tomas abria a porta do veículo, permitindo que as duas entrassem, rapidamente fazendo o mesmo. Com um rugido, o veículo voltava a vida e eles saíam, retornando para a cidade.

Eles ficavam em silêncio por vários minutos, com Tomas concentrado na estrada.

“Então, aquilo não teve sentido nenhum pra mim.” Rainbow deixava escapar.

“Sim, quase nada por aqui tem.”

“Como ir em missões aleatórias, apenas para retornar horas depois sem saber se deu certo?” Applejack arriscava.

“Por aí.”

Silêncio

“Essa cidade é uma droga.” Rainbow protestava.

Tomas deixava escapar uma risada. “Concordo.”

O veículo seguia até a frente da hospedagem de Sunny, estacionando, e desligando a ignição.

Rainbow soltava um bocejo, esticando suas asas. “Não voltamos ainda?”

“Sim, dormiu bem?” Applejack perguntava em tom de brincadeira.

Rainbow não notava o tom da amiga. “Oh sim, eu sempre durmo bem.”

Tomas saía do carro, esticando os braços ao redor dos ombros enquanto ele olhava para a hospedagem. Ele podia claramente ouvir o rádio ligado, que era bom sinal. No entanto, a viagem para a represa e o retorno durou cerca de quatro horas. Tinha passado do meio dia e ele estava pronto para o almoço.

“Bem, estou indo almoçar. Vocês duas vão… o que quer que vocês farão,” Tomas dizia, subindo os degraus.

Ambas pôneis pulavam para fora da porta ainda aberta, com Applejack tendo a cortesia de fechar a porta antes dela trotar para alcançar o humano. Rainbow começava a segui-lo, mas então olhava de volta para a estranha carruagem, ou automóvel, como Tomas o chamava.

O tempo não tinha sido muito amigável com o veículo. Enquanto a maioria das carruagens eram feitas de madeira, essa parecia confeccionada com algum tipo de metal, e havia marcas de ferrugem na parte inferior. Ela percebia que tinha uma marca em um pequeno buraco, não maior do que uma moeda.

Descamado e desbotado pelo sol, as letras “baker contratante” ainda estavam um pouco visíveis com tinta preta, enquanto a tinta branca tentava cobri-las, ao mesmo tempo que tentava cobrir “e filhos”, mas estava sumindo e lascando ao longo do tempo.

Tanto Rarity quanto Aplejack mencionaram que ele tinha irmãos. Então era um negócio de família? Se era, onde eles estão?”

Os pensamentos de Rainbow se desviavam para a frente do veículo. Um para choque cromado, ondulado e enferrujado se destacava. O plástico na parte superior estava rachado, onde pequenos cabos de plásticos mantinha eles juntos, embora outros pedaços estivessem faltando. No centro, uma pequena placa azul e oval estava escrito FORD com uma letra um tanto extravagante, embora coberta por uma espécie de lente transparente e rachada.

Tinha luzes na frente, duas grandes lentes claras, embora uma delas estivesse torta, envolta por partes plásticas. Finalmente, na parte do capô, onde grande parte do metal branco estava acima de tudo, parecia dentado e tinha muitas marcas de ferrugem onde o metal estava amassado para dentro.

Ela tinha observado falhas suficientes para que ela mesma conseguisse contar…

Ele bateu em alguma coisa com essa carroça… mas em que?

 “Ei, Rainbow, nós vamos almoçar, você vem?” Applejack gritava no topo da varanda.

Rainbow sacudia a cabeça, limpando seus pensamentos, então se voltava para a pônei laranja. “Sim, estou indo. Estava apenas… pensando sobre uma coisa.”

Applejack levantava uma sobrancelha, então dava de ombros. “Bem, não pense muito, ou vai ter dor de cabeça.”

“Há, há.” Rainbow respondia sarcasticamente, trotando até entrar na hospedagem.

Applejack voltava para dentro, mas não sem dar uma rápida olhada no veículo também. Os danos na parte da frente lhe chamavam a atenção e até lhe causavam formigamentos. O que significava ela não sabia, mas a incomodava.

A parte de dentro já estava com quase todos os lugares ocupados. Bob estava agora no bar, limpando uma caneca com um pano em seus cascos. Os três pôneis estavam jogando poker na mesa de sempre (era o mesmo jogo de antes?), e muitos outros pôneis estavam sentados nas mesas, conversando e comendo.

Tomas estava sentado sozinho no bar, pensativo. Rainbow pegava um assento, embora a dois bancos de distância dele. Applejack rolava seus olhos, então pegava o banco vazio, ficando sentada no meio deles.

“Vocês duas precisam de cardápios?” Tomas pegava dois da mesa ao lado dele.

Applejack acenava positivamente, então com agradecimento os pegava, passando um para sua amiga.

“Ei Bob, enquanto elas decidem, eu quero apenas um hambúrguer com batatas fritas.” Bob acenava. “E de bebida quero cidra e o chamado tiro de jack.”

“Já? São somente três horas!” Rainbow dizia.

Tomas olhava para a pégaso. “Qual o problema? De onde eu venho é normal uma ou duas bebidas junto com o lanche.”

Applejack olhava ele, incerta quanto à verdade por trás disso, mas não dizia nada.

Bob retornava com suas bebidas, bem como copos de água para as pôneis. O copo da Applejack tinha inclusive uma fatia de limão ao seu lado.

“Uau, você lembrou? Obrigada pela gentileza Bob.“ Applejack tomava um gole.

O changeling acenava, então entrava na cozinha para preparar os lanches. As pôneis optaram apenas por uma salada cada uma, e Applejack com fatias de maçã.

As duas amigas começavam a conversar, enquanto Tomas bebia sua cidra, o copo com tiro de jack já tinha acabado.

Antes que Bob pudesse trazer a comida, a porta abria na pancada, sacudindo a janela que Tomas ainda estava consertando, frouxamente encaixada.

Dentro da hospedagem entrava cinco búfalos, todos com lenços ao redor de seus focinhos. O búfalo líder, de cor cinza com um chapéu preto, caminhava até o centro do estabelecimento.

“Fiquem todas calmos. Isso é um assalto.”

Applejack soltava um suspiro longo e cansado. Rainbow reconhecia eles, e pela expressão de Applejack ela também. “Longhorn, você nunca vai aprender?”

O búfalo cinza olhava a pônei, então com um grunhido ele arrancava seu lenço do rosto.

“VOCÊ!” Ele gritava para a pônei.

Applejack pulava para fora de seu banco, caminhando até o búfalo.

Eles se chocavam com as cabeças, encarando um ao outro, com os narizes soprando fumaça.

“Ela geralmente reage assim?” Tomas perguntava, bebendo a cidra.

“Eh, nós não temos uma história muito boa com esses caras.” Rainbow dizia.

“Mas você não parece preocupada.”

“Pffft, claro que não. Nós os detemos uma vez, podemos fazê-lo de novo.”

“Não importa!” O búfalo gritava, empurrando Applejack, “nós ainda estaremos roubando este lugar. Derrotar essa pônei será apenas um bônus.”

“Tem certeza sobre isso?” Tomas dizia, girando seu banco para olhar os búfalos. “Digo, vocês podem apenas dar meia volta que nós esqueceremos isso tudo.”

Longhorn olhava para seus comparsas, então voltava para o humano com uma risada, seus companheiros rapidamente o seguiam. “Olhe aqui, macaco, nós estamos no comando agora e não há nada que você possa fazer. Apenas desista e entregue os bits.”

Tomas soltava um suspiro, balançando a cabeça. “Se é assim que vai ser,” ele se virava para Bob, que agora estava de pé atrás do balcão depois de presenciar tudo. “Bob? Quero dois copos de Black Velvet, por favor.”

Mesmo depois da entrada dos búfalos, os pôneis na hospedagem voltavam para seus afazeres, não se importando com o fato de que estavam prestes a serem assaltados. Ouvindo Tomas pedindo bebidas, no entanto, fez todos os pôneis, mesmo aqueles que jogavam poker, ficarem em silêncio. Enquanto Bob servia as bebidas, o pégaso jogador de poker levantava de seu assento e começava a gingar até um piano na parede de trás.

Tomas pegava os dois copos em cada mão e então dava um passo na direção do búfalo.

“Bem, por que não ganhar uma bebida então, de mim?” Tomas perguntava com um sorriso, oferecendo o copo em sua mão direita.

Longhorn olhava a bebida oferecida, então sorria. “Bem, pelo menos este tem boas maneiras!” Longhorn pegava o copo com um casco.

Rainbow observava o pônei no piano se sentando, batendo seus cascos, e então os colocando sobre as teclas do piano. Outros clientes começavam lentamente a rastejar para debaixo das mesas. O que estava acontecendo afinal?

Enquanto isso, Applejack olhava aos horrores Tomas sendo tão amigável com Longhorn. Ela estava pronta para expressar sua objeção quando percebeu o humano com sua mão direita fechada em um punho. Por trás dela Bob fazia um som, puxando alguma coisa debaixo do bar.

Tomas levantava seu copo, e o búfalo brindava com o dele. O búfalo começava a beber, mas Tomas mantinha seu copo no ar.

“Você vai precisar disso.”

Rainbow observava em câmera lenta enquanto os dedos segurando o copo se abriam, deixando o copo cair. Todos observavam, incluindo os búfalos, quando o copo colidia com o chão. Isso deu a Longhorn a visão perfeita de um punho fechado chegando em seu rosto, acertando a mandíbula e o arremessando de costas. O pégaso escolhia aquele momento para começar a tocar o piano.

Os quatro búfalos restantes observavam a forma como o líder fora nocauteado, e então se voltavam para Tomas. Seus olhos em fúria emanavam fogo, eles começavam a alongar seus pescoços, arrancando suas máscaras de pano enquanto o som de estalos das juntas ecoavam pelo bar.

Tomas estalava os dedos.

Applejack arrumava seu chapéu atrás do balcão onde poderia se proteger.

Rainbow rolava seus olhos, pegava a cidra de Tomas e bebia o restante do líquido em uma só golada, e então batia no chão com os quatro cascos ao mesmo tempo.

De trás do balcão, Bob trazia um taco de beisebol, jogando-o sobre seu ombro direito.

Percebendo sua ajuda, o sorriso de Tomas deixava de ser forçado enquanto os búfalos começavam a se aproximar, prontos para a briga.

Justamente quando Rainbow Dash havia pensado que hoje seria um dia entediante, sendo babá do humano, o próprio teve que fazer as coisas ficarem mais interessantes.

Tom-Van

A garotinha e o milagre

A garotinha e o milagre

Uma garotinha foi para o quarto e pegou um vidro de geléia que estava escondido no armário e derramou todas as moedas no chão.

Contou uma por uma, com muito cuidado, três vezes. O total precisava estar exatamente correto. Não havia chance para erros.

Colocando as moedas de volta no vidro e tampando-o bem, saiu pela porta dos fundos em direção à farmácia Rexall, cuja placa acima da porta tinha o rosto de um índio.

Esperou com paciência o farmacêutico lhe dirigir a palavra, mas ele estava ocupado demais. A garotinha ficava arrastando os pés para chamar atenção, mas nada. Pigarreava, fazendo o som mais enojante possível, mas não adiantava nada. Por fim tirou uma moeda do frasco e bateu com ela no vidro do balcão. E funcionou!

– O que você quer? – perguntou o farmacêutico irritado. – Estou conversando com o meu irmão de Manehattan que não vejo há anos -, explicou, sem esperar uma resposta.

– Bem, eu queria falar com o senhor sobre a minha irmã -, respondia a garotinha no mesmo tom irritado. – Ela está muito, muito doente mesmo, e eu queria comprar um milagre.

– Desculpe, não entendi. – disse o farmacêutico.

– O nome dela é Cloudchaser. Tem um caroço muito ruim crescendo dentro da cabeça dela e o meu pai disse que ela precisa de um milagre. Então eu queria saber quanto custa um milagre.

– Garotinha, aqui nós não vendemos milagres. Sinto muito, mas não posso ajudá-la. – Explicou o farmacêutico num tom mais compreensivo.

– Eu tenho dinheiro. Se não for suficiente vou buscar o resto. O senhor só precisa me dizer quanto custa.

O irmão do farmacêutico, um senhor bem aparentado, abaixou-se um pouco para perguntar à menininha de que tipo de milagre a irmã dela precisava.

– Não sei. Só sei que ela está muito doente e a minha mãe disse que ela precisa de uma operação, mas o meu pai não tem condições de pagar, então eu queria usar o meu dinheiro.

– Quanto você tem? – perguntou o senhor da cidade grande.

– Dois bits -, respondeu a garotinha bem baixinho. – E não tenho mais nada. Mas posso arranjar mais se for preciso.

– Mas que coincidência! – disse o senhor sorrindo. – Dois bits! O preço exato de um milagre para irmãzinhas!

Pegando o dinheiro com uma das mãos e segurando com a outra a mão da menininha, ele disse: – Mostre-me onde você mora, porque quero ver a sua irmã e conhecer os seus pais. Vamos ver se tenho o tipo de milagre que você precisa.

Aquele senhor elegante era o Dr. Carlton Armstrong, um neurocirurgião. A cirurgia foi feita sem custos para a família, e depois de pouco tempo a irmãzinha teve alta e voltou para casa.

Os pais estavam conversando alegremente sobre todos os acontecimentos que os levaram àquele ponto, quando a mãe dizia em voz baixa:

– Aquela operação foi um milagre. Quanto será que custaria?

A garotinha sorriu, pois sabia exatamente o preço: dois bits! (Mais a fé de uma criancinha).

Em nossas vidas, nunca sabemos quantos milagres precisaremos.

Um milagre não é o adiamento de uma lei natural, mas a operação de uma lei superior.

Autor: Homero Boechat

O pônei de Oasis – Parte V

ponei-de-oasis

Ilustração: Drason

CLIQUE AQUI PARA LER A QUARTA PARTE

Autor: ROBCakeran53

Tradução: Drason

SINOPSE: Equestria ainda estava sendo reconstruída após a derrota de Tirek, e as seis novas governantas de Ponyville ajudando em sua reconstrução. Tudo mudou de maneira inusitada quando a Princesa Celestia entregou a elas uma carta descrevendo acerca das façanhas realizadas por um único cidadão da cidade de Oasis conhecido como Senhor Baker, e a forma como superou Tirek. Com a missão de descobrir se os relatos eram verdadeiros, as seis pôneis devem ir até a referida cidade para investigar. No entanto, elas irão descobrir que o Senhor Baker não era exatamente quem ou o que elas esperavam.

***

Pela tarde da noite, Senhora Fixit estava cansada depois do dia agitado, e Thomas sugeria que ele, Flutterhy e Rarity partissem para deixar a velha pônei descansar. Durante a caminhada de volta, Thomas decidiu não levar seus equipamentos para que pudessem chegar mais rápido. Com todos cansados, a viagem de volta acabou sendo silenciosa.

Fluttershy continuamente olhava Thomas e Rarity, que parecia ter se saído muito bem conversando com ele na varanda da Senhora Fixit. Mas agora era um silêncio absoluto, que normalmente para a pegasus amarela seria uma coisa bem vinda. Rarity havia mencionado brevemente que Thomas tinha se aberto um pouco na varanda. Talvez aquela fosse a razão por trás do estranho silêncio?

Finalmente, as casas e luzes da cidade já podiam ser vistas de longe, eles estavam há pouco mais de cinco minutos dela agora. Fluttershy imediatamente percebia os ombros de Thomas relaxarem.

“Obrigado.”

Ambas pôneis trotavam com antecedência para acompanharem o ritmo dele.

“Como?” Perguntava Rarity.

“Eu disse obrigado. Você sabe, por ajudar.”

“Sem problemas, querido. Embora você devesse agradecer mais à Fluttershy, ela que fez todo o trabalho.”

Thomas balançava a cabeça. “Não apenas pelos gatos, mas pela Senhora Fixit.” As duas pôneis manifestavam expressões confusas, e Thomas continuava, “Ela não tem muitos visitantes, especialmente que a tratem de maneira diferenciada por ser cega. Foi muito bom vê-la sorrindo novamente daquela maneira.”

“Já lidei com pôneis cegos antes, então sei como pode ser, como eles se sentem.” Fluttershy dizia.

Thomas e Rarity se viravam para Fluttershy, e suas orelhas imediatamente se achatavam perante seus olhares súbitos.

Thomas manifestava uma expressão confusa por um momento, então seu rosto clareava. Ele dava à Fluttershy um olhar de simpatia. Rarity continuava olhando confusa até sua amiga prosseguir.

Fluttershy deixava escapar um suspiro elaborado. “É uma peculiaridade comum que ocorre com pegasus enquanto eles envelhecem. Minha avó ficou cega muito cedo, antes mesmo de eu nascer.”

“Fluttershy, querida, eu não sabia disso,” Rarity dizia, cutucando sua amiga.

“Eu também não sabia que era característico de pegasus.” Thomas colocava as mãos nos bolsos. “Mesmo em um mundo cheio de arco íris e mágica, genética ainda é um problema.”

Novamente ficava um silêncio entre os três enquanto eles se aproximavam da parte frontal da loja, até Thomas perceber alguma coisa de longe.

“Eu devo estar vendo coisas.” Eles caminhavam mais próximos, com Thomas esfregando seus olhos. “Não acredito.” Repentinamente ele corria até sua loja, onde as duas pôneis apenas observavam uma carroça estacionada na frente dela.

Enquanto Thomas corria para dentro, Rarity e Fluttershy olhavam a carruagem de perto com uma placa na lateral dela.

Gasolina e Óleo do Match

Rarity jurava que reconhecia aquele nome. Julgando pelos barris de metal que se alinhavam na carroça, ela podia apenas imaginar que serviam para estocar óleo e outros fluídos.

Havia então uma gargalhada vindo de dentro, de quem Rarity pensava ser de Thomas. As duas pôneis entravam na loja, e foram recebidas por uma… estranha visão.

Thomas tinha um pônei terrestre vermelho em seus braços, suas pernas traseiras chutavam o ar enquanto Thomas o abraçava forte.

“Tom! Não estou respirando!” O pônei implorava.

“Sem chances! Faz um ano que não te vejo, então você chega aqui dizendo que vai se casar e que ainda está esperando um filho? Não se faz isso com um de seus amigos, Júnior!”

Finalmente, com as bochechas vermelhas, Rarity deixava escapar uma tosse e os dois rapidamente se recolhiam na presença das duas pôneis. O pônei vermelho cruzava suas pernas de vergonha, e então Thomas o soltava em seguida.

“Rarity, Fluttershy, este é Matchbox Junior, ou apenas Junior, como costumamos chama-lo. Junior, elas estão aqui para…” Thomas levantava uma sobrancelha. “Na verdade é complicado, mas elas me ajudaram com os gatos da Senhora Fixit.”

O pônei terrestre, Junior, ficava de pé enquanto sacudia sua cabeça. “Prazer em conhece-las senhoritas. Só espero que o que quer que Thomas tenha feito para trazer a ira dos elementos da harmonia não seja tão severo…”

“Espere, você sabe quem nós somos?” Rarity era pega de surpresa.

“Mas é claro, você salvaram Equestria muitas vezes, isso sem mencionar que a minha esposa tem a coleção completa das suas roupas de outono.”

“Mesmo?”

“Você parece surpresa.” Thomas entrava na conversa, com uma bandeja de canecas em uma mão e uma garrafa de âmbar líquido na outra.

“Bem, é que nem sempre somos reconhecidas,” Rarity dizia, percebendo a garrafa de bourbon.

Thomas pegava uma cadeira na mesa derramando o Bourbon em cada caneca. “Bem, eu não reconheci, e tenho certeza que noventa e nove por cento desta cidade também não, mas enfim.”

“Então, como vocês dois se conheceram?”

Fluttershy se sentava na mesa perto de Thomas, enquanto Junior na frente de Rarity. “Bem, eu e meu pai costumávamos morar aqui. Eu cresci nesta cidade,” Junior dizia.

“Sim, os sortudos descobriram ouro negro há uns vinte quilômetros ao norte de nós,” Thomas interrompia.

Junior rolava seus olhos. “Nós sempre trabalhamos com combustíveis, mas quando meu pai encontrou petróleo há uns seis anos atrás nós nos mudamos para Manehattan para expandir os negócios.”

“O Senhor Senior estava sempre se queixando sobre morar aqui, dizendo que ele queria o melhor para Junior. Bem, eles certamente estão bem melhores agora, não é mesmo?” Thomas dava uma risada para Junior.

O pônei vermelho retribuía com uma rápida risada. “Sim, vamos assim dizer.”

“Ah, chega de ser tão modesto, você é noivo! E está esperando um filho! É hora de celebrar, um brinde!” Thomas entregava uma das canecas ao Junior e em seguida para Rarity.

“Pra mim? Não seria uma ocasião especial para vocês dois?”

“De maneira alguma, vocês duas me ajudaram hoje, e é o mínimo que posso fazer.”

Rarity levitava a caneca com sua mágica, a analisando cuidadosamente.

“Relaxe, tem apenas alguns parafusos nele, eu já limpei.”

Rarity engolia seco, tentando com dificuldade ignorar as manchas que cobriam a parte externa da caneca, e na esperança de não ter que fazer o mesmo com o interior.

Thomas empurrava a última caneca na direção de Fluttershy. “Você também.”

“Oh, um, o-obrigada.” Fluttershy pegava a caneca com os dois cascos dianteiros, dando uma cheirada.

“Um brinde!” Thomas levantava sua caneca, e os demais o acompanhavam. “Parabéns pelos anúncios, e é melhor você dar logo um nome para o bebê antes que eu o faça.”

Rarity e Fluttershy compartilharam uma risada, Thomas sorria enquanto todas as quatro canecas se chocavam juntas, e em seguida eles davam um gole. Bem, as pôneis deram um gole, já Thomas e Junior viraram as respectivas canecas.

“Então, quem é a pônei de sorte? Como vocês se conheceram?” Thomas perguntava.

Junior sorria, “Oh, caramba, é meio embaraçoso.”

“Eu ajudo a organizar o bufê do casamento, então desembucha.”

Thomas derramava para ele e Junior outra porção do Bourbon.

“Bem, faz dois anos que nos conhecemos. Você se lembra quando papai expandiu a fábrica, comprando aquele velho lote que ficava ao lado? Bem…”

“…e então Doc veio correndo para fora da fábrica, com suas garrafas de uísques vazias em um casco enquanto ele as arremessava em mim, com fúria em seus olhos, ‘Droga Tom, se eu te achar na minha adega do licor de novo eu vou te esfolar vivo e te mandar para Zoológico de Canterlot!’.”

Todos os pôneis exceto Fluttershy gargalhavam, a tímida pônei apenas ostentava um largo sorriso. Enquanto a história de júnior conhecendo sua esposa era tocante, a conversa se descarrilava para as palhaçadas que Thomas iria compartilhar com Junior.

Junior estava à beira das lágrimas. “Oh Celestia, eu nunca tinha visto o Senhor Doc tão furioso em minha vida.”

Thomas tomava outro gole em sua caneca. “Ei, é melhor você ser grato por eu levar a bronca no seu lugar. Se o seu velho descobrisse que era você furtando o uísque do Doc ele teria te deserdado!”

O grupo deixava escapar mais uma rodada de risadas, com Thomas sendo o primeiro a se acalmar.

“Por falar nisso, como está o seu pai? Não tenho tido notícias dele. Deve estar em êxtase por saber que vai ser avô.”

O sorriso de Junior desaparecia instantaneamente, movendo seus olhos para baixo na direção de sua caneca vazia. Rarity percebia de imediato a expressão tensa do garanhão.

Por alguns momentos, houve um total silêncio na sala.

“Tom, podemos conversar em particular por um minuto?”

Thomas franzia. “Não vejo porque. Tudo bem senhoritas?”

Rarity e Fluttershy olhavam uma para a outra. “Claro, fiquem à vontade. Foi uma honra vocês dois partilharem suas histórias conosco,” Dizia Rarity.

Thomas ficava de pé, caminhando com uma ligeira oscilação até a porta exclusiva para funcionários. “Vamos no meu escritório, podemos conversar lá.”

Junior caminhava passando através da porta aberta, e em seguida Thomas fazia o mesmo.

Por alguns momentos, o local ficava em silêncio.

“Então, será que aconteceu alguma coisa?”

Fluttershy olhava para sua caneca quase vazia. Ela ainda estava no primeiro copo. “Eu acho que deve ter algo a ver com o pai de Junior.”

Rarity recordava a última hora, sobre como eles estavam contando a história sobre os anos passados. Toda vez que Senior era mencionado, o semblante de Junior mudava, mas ele mantinha a cabeça levantada.

“Oh querida, você acha que…”

Rarity era interrompida pelo som de vidro quebrando que vinha atrás da porta onde os dois estavam.

“Tom! Acalma-se!”

“Acalmar?! Como exatamente você espera que eu me acalme?”

“Olhe, não havia nada que pudesse ser feito-”

“Como assim não havia!”

“Tom, nós não tínhamos mágica!”

“Eu sei disso caramba! O que você acha que eu passei durante aquela semana infernal depois de Tirek ter passado aqui? Esta cidade estava morta, e eu era a única coisa ainda de pé!”

“Tom, não havia nada que você pudesse fazer-“

“Você não tem como saber!”

“Nem você!”

Havia barulho alto de pisões, então de repente a porta foi chutada, abrindo tão rápido que ao atingir a parede fez um estrondo suficiente para deixar o quadro negro torto. Fluttershy e Rarity quase foram parar no teto, e a pura raiva estampada na expressão de Thomas transmitia calafrios.

“Thomas, querido, está tudo bem?”

Ele ignorava Rarity, se dirigindo até a mesa e pegando sua caneca ainda com metade do Bourbon.

“Thomas?” Fluttershy perguntava baixinho.

“A loja está fechada, saiam todos,” Ele resmungava.

“O que?”

Ele se virava para as pôneis. “Eu disse que a loja está fechada! Saiam!”

Fluttershy agachava-se em sua cadeira, se escondendo atrás de Rarity o máximo que podia. Rarity não tinha como dizer se era ela tremendo ou Fluttershy que tremia em cima dela.

“Tom! Não desconte nelas!” Junior passava pela porta.

Thomas se virava para Junior. “Não estou descontando em ninguém!”

“Sim, você está, e ainda por cima gritando com elas seu imbecil!”

“Dá um tempo Junior, apenas saiam todos.”

“Thomas, por favor, tenha calma. Seja qual for o problema eu tenho certeza-“

Thomas interrompia Rarity, arremessando a garrafa de Bourbon na parede a apenas dez centímetros da unicórnio. “NÃO! Você não pode consertar isso, você não pode! Simplesmente acabou! Eu vi meus amigos morrerem no meu mundo, vítimas de violência. Este lugar deveria ser diferente, nenhuma morte sem sentido, uns matando aos outros. Vocês saíram de um linha reta de fantasia minha nossa! Vocês podem voar, usar mágica, então por que ainda morrem?”

Thomas estava ofegante, com as mãos tremendo enquanto as fechava apertando com força olhando para as pôneis. Fluttershy soltava um gemido, os olhos de Rarity umedeciam enquanto ela olhava com dificuldade para ele. Os olhos de Thomas suavizavam, olhando para o que sobrou da garrafa. O líquido escorria entre as tábuas do assoalho, com pedaços de vidro espalhados por toda parte. Ele inclusive observava alguns cacos na cauda de Rarity.

“Eu… eu estou…” a voz de Thomas rachava, seus olhos que antes estavam cheios de raiva agora estavam congelados, suavizados, e se Rarity estava permitida a acreditar, tristes, “…droga.” Os ombros de Thomas caíam enquanto ele se virava para longe das pôneis, arrastando os pés como se estivessem pesados. Ele parava no primeiro degrau das escadas, olhando de volta para as pôneis ainda tremendo, então lentamente subia. Todos se encolhiam enquanto uma porta no andar de cima batia, se fechando.

“Bem, poderia ter sido pior.” Junior se dirigia até a saída. “Vocês duas é bom virem comigo.”

Aquilo nem precisava ser dito duas vezes. Elas praticamente galoparam para fora.

Eles ficaram em silêncio por vários segundos enquanto Junior descarregava um dos barris de sua carroça.

Fluttershy deixava escapar um suspiro antes de falar, “O… o que foi aquilo?”

Rarity ficava surpresa ao ver que Fluttershy foi a primeira a falar, a tímida pegasus ainda parecia pronta para cair em choros.

“Aquele foi o Tom sendo Tom.” Junior empurrava o barril até a varanda.

“Isso não responde a pergunta,” Rarity acrescentava.

Junior suspirava. “O que mais posso dizer, olha que tal caminharmos? Eu explico o que aconteceu, e talvez assim vocês duas possam compreender o que ocorreu lá atrás.”

“Bem, já está muito tarde. Temos que voltar para o hotel de Sunny…” Rarity dizia.

“Então nós caminhamos até lá.” Junior deixava um recibo colado em cima do barril, então junto das duas pôneis, começavam a caminhar lentamente.

“Cerca de duas semanas antes de Tirek aparecer aqui, meu pai ficou doente. No início não era nada para se preocupar, mas foi se agravando quando deveria melhorar. Alguma coisa a ver com o fato de nós estarmos rodeados de muitos produtos industriais na nossa fábrica.”

“Oh nossa…” Fluttershy sussurrava.

“Então, ele teve que ir para o hospital para realizar terapia de quelação. A única coisa que iria funcionar seriam transfusões mágicas induzidas, tenho certeza de que vocês sabem do que estou falando.”

Rarity acenava. “Sim, sou familiar com isso.”

“Ótimo, porque não tenho a menor ideia. De qualquer forma, era tudo baseado em mágica. Bem, ele estava melhorando, o tratamento já estava sendo desnecessário, seus rins voltaram a funcionar, o que resultou em um grande avanço.”

Junior parava na frente da varanda de Sunny, olhando para a porta.

“Então, vocês provavelmente sabem mais sobre os acontecimentos com Tirek do que eu.”

“Bem, sim, sabemos um pouco sobre todos os lugares em que ele passou e os resultados disso.”

“Hmm, sim, vocês estiveram em todos os locais que Tirek invadiu, mas isso foi muito tempo depois dele ter atacado. Por acaso vocês estiveram em uma cidade logo depois de Tirek ter saído dela?”

“Bem, não.” As orelhas de Rarity caíam.

“Foi um desastre. Manehatan estava afundada na sujeira e forçada a comê-la. Nós perdemos eletricidade, água corrente, tudo. Todos os médicos unicórnios tiveram que recorrer a métodos primitivos, mas sem suas mágicas, eles eram placebos em uma ferida aberta. Quando perdemos nossa mágica, o hospital dos unicórnios perdeu sua magia…”

“O tratamento parou…” Rarity sussurrava.

“Nos primeiros dias não foi tão mal, ele ainda estava apresentando sinais de melhora, então acreditei ser o suficiente para mantê-lo. Porém, no terceiro dia, ele começou a ficar pior. Os unicórnios estavam desesperados, trabalhando exaustos, tentando ajudar a todos.”

“O hospital estava superlotado, então eles começaram a priorizar pacientes em estado grave e com idade avançada…”

Ambas pôneis estavam em silêncio, apenas olhando o pônei vermelho.

“Ele tinha sessenta e cinco anos, e estavam checando todos acima de cinquenta.”

“Por Celestia…” Rarity dizia.

“Sim, certo. Nem mesmo as princesas puderam ajudar. Bem, pelo menos três delas não.”

Rarity estreitava os olhos. “O que está dizendo?”

“Nós temos quatro princesas agora, não temos? Sabemos que três foram capturadas, mas onde estava a quarta?”

Rarity e Fluttershy desviaram seus olhares de Junior. Ele não prestava atenção.

“Onde estava a Princesa Twilight Sparkle, quando não tínhamos líder, nem estrutura ou esperança?”

“Junior, você não pode empurrar a culpa para ela! A princesa não foi a causa do que aconteceu com seu pai.”

Junior deixava sair um suspiro. “Sim, eu sei que não. Mas muitos pôneis ainda ressentem a falta de liderança naquela época. Mesmo que ela tenha agido, e os médicos capazes de salvar a maioria dos pôneis.”

“Então, você está dizendo, um, que é por isso que Thomas está tão furioso? Por causa da Twilight?”

Junior olhava para Fluttershy, acenando sua cabeça. “Conhecendo ele? Ele provavelmente está com raiva de si mesmo. Por que? Não tenho ideia.”

“Bem, ele não tem mágica em primeiro lugar. Segundo, ele não foi pego por Tirek?”

Rarity foi pega de surpresa. “Sem mágica e ainda assim não foi pego…?”

Fluttershy dava um passo à frente. “Hum, não, de acordo com os moradores daqui ele sequer estava por perto quando Tirek invadiu.”

Junior soltava um suspiro. “Isso explica então. Bem, melhor nós entrarmos, eu posso pedir para Bob ir lá dar uma mão para Tom. Bob ainda está aqui, não está? Vocês não capturaram ele ou algo assim?”

“Por que faríamos isso?”

Junior abria a porta. “Bem, depois do ocorrido em Canterlot eu imagino que vocês tenham um certo receio de changelings.”

Ambas as pôneis paravam, apenas agora Rarity percebia que uma das janelas perto da porta estava quebrada. “Bob é um changeling?”

Junior passava pela porta, e em seguida a mantinha aberta para que as duas pôneis entrassem.

“Ah, aquilo explica a janela quebrada então, você ou suas amigas devem ter se assustado com Bob e lutado com ele,” Junior dizia, olhando ao redor da sala principal. “Estranho no entanto, todo o resto parece intacto.”

“Isso porque, felizmente, alguns reagiram a tempo antes que alguém ficasse seriamente ferido.”

Os três se viravam para a direção de onde veio a voz, e viram Sunny atrás do balcão, os observando.

“Ugh!”

Ou mais precisamente, observando as pôneis escondidas atrás dos três.

“Garotas? O que vocês estão fazendo aí?” Rarity perguntava, olhando atônita todas as suas amigas juntas ao lado da janela quebrada, então com espanto notava suas orelhas contra o buraco da janela. “Você estavam escutando às escondidas nossa conversa?”

Rainbow Dash exaltava. “O que? Pfft Claro que não. Nós não faríamos algo assim, não é mesmo garotas?”

O focinho de Applejack torcia, com os olhos desviando lado a lado. Pinkie Pie passava um zíper na boca. Mesmo Rainbow Dash ia evitando o olhar, cruzando as pernas dianteiras em seu peito. A única pônei com comportamento diferente era Twilight, com suas orelhas achatadas enquanto olhava para o chão.

Era fácil somar dois mais dois para perceber que a expressão abatida de Twilight foi por ter escutado o que Junior falou dela.

“Ei Sunny, há quanto tempo não te vejo.” Junior caminhava até o balcão, conversando.

Rarity e Fluttershy olhavam uma para a outra, acenando, então Rarity relatou às suas amigas sobre o ocorrido.

“Espere, você disse que ele arremessou uma garrafa em vocês?“ Applejack perguntava.

“Bem, não diretamente em nós, mas na nossa direção, o suficiente para cacos de vidro irem parar na minha cauda.” Rarity continuava escovando sua crina longa, com os pequenos pedaços de vidro caindo em uma pá de lixo no chão.

“Eu sabia que havia algo duvidoso e suspeito com ele,” Rainbow dizia.

“O que quer dizer?” Rarity perguntava.

“Pelo que soou dele, o sujeito é um poço de álcool.”

“Eu não iria tão longe, afinal ele descobriu que um amigo querido faleceu…” Rarity olhava para uma ainda abatida Twilight, “…já passou.”

Fluttershy ouvia atentamente, deixando Rarity tomar as rédeas da discussão. Não havia muito que a pegasus amarela pudesse contribuir para o que Rarity já não soubesse. Na verdade, havia coisas que suas amigas sabiam sobre Thomas que ela não.

“Pelo que aconteceu com vocês duas, eu diria que ele tem um lado bem manchado e problemas para se expressar direito. Eu já lidei com família assim. Beber não ajuda em nada.”

Rainbow suspirava. “Se você me perguntar, eu digo que isso é tudo que preciso saber sobre ele para dizer que ele ganhou um relincho de mim.”

Pinkie Pie fungava um riso com o trocadilho, fazendo Rainbow Dash rolar seus olhos.

“Bem Rainbow, acho que podemos apenas confiar na posição de Rarity. Ela e Fluttershy interagiram com ele. Nós somos apenas o outro lado da história.”

Rarity e Fluttershy acenavam, então olhavam para sua amiga ainda quieta. “Twilight? Querida, você está bem? Não falou nada até agora.”

Twilight pulava, se assustando ao ser o centro das atenções repentinamente. “Oh, o que? Sim, eu hum, estou bem. Vocês duas estavam prestes a me darem seus votos sobre Thomas ser ou não um suposto herói, certo?”

Ambas pôneis acenaram. Twilight trazia o livro maciço que Thomas deu a ela, assim como um bloco de notas. “Certo, o que vocês me dizem? Ele é mesmo um herói e merece receber o maior prêmio de Equestria: a marca da harmonia? Sim ou não?” Pinkie Pie deixava escapar uma bufada.

“Não.”

“Sim.”

Todos os pôneis olhavam para Fluttershy, que agora era o centro das atenções, tentando e falhando em esconder atrás de sua própria crina.

“Sim?? Fluttershy, querida, você não estava na mesma sala com Thomas?”

“Um, sim, eu estava.”

“E você viu como ele foi rude e violento. Alguém assim não poderia possivelmente…”

“Se não fosse pelo Thomas, Senhora Fixit teria morrido.”

A sala caía em silêncio por vários segundos.

Rarity era a primeira a quebrar o silêncio. “Bem, querida, certamente que todos estavam em um ponto áspero, mas não temos qualquer prova de que Thomas realmente fez o que ele disse ter feito pela cidade.”

Silenciosamente, Fluttershy tirava de seu alforje um caderno e o colocava no chão. “Quando Senhora Fixit e eu estávamos sozinhas, nós conversamos um pouco. Ela é uma pônei muito amável para conversar, e tudo que eu perguntava sobre o Senhor Baker era normal.”

“Normal?” Twilight perguntava, levitando o caderno com sua mágica.

“Bem, ela não poderia dizer que ele era perfeito, ele tem falhas que qualquer pônei pode facilmente observar. Apenas porque ele não é como nós, não quer dizer que devemos tratá-lo em um padrão diferente de nós.”

Todas as pôneis olhavam uma para a outra, pensando, enquanto Twilight virava a página do caderno. “Fluttershy, o que é isso?”

Fluttershy sorria. “Isso é o que Thomas estava usando para acompanhar cada pônei na cidade. Sua agenda diária de como ele cuidava de cada um, bem como outras tarefas que os pôneis pediam enquanto ele estava ajudando.”

“Como você conseguiu isso?” Applejck perguntava.

“Ele deixou na casa da Senhora Fixit quando a cidade voltou ao normal. Ela sabia que Thomas estava registrando como e quando ele cuidava dos pôneis na cidade porque ela sempre podia ouvir ele escrevendo com sua audição aguçada, já que ela é cega. Para não mencionar que há vários pôneis idosos na cidade, que tinham que ter uma regular medicação.”

Twilight parava em uma página aleatória, analisando os gráficos desenhados de maneira tosca. O casco, ou possivelmente as mãos do desenhista eram igualmente enfadonhos.

“Como vamos saber que é mesmo a letra dele?” Dash perguntava.

Twilight levitava seu alforje para cima, tirando um pequeno cartão de visitas. Enquanto a maior parte do texto no cartão estava digitado em negrito, a última linha “se vale a pena fazer, vale a pena fazer direito!” estava escrito fora do padrão. Com certeza era fácil afirmar que as letras eram da mesma pessoa.

Applejack olhava por cima do ombro de Twilight. “Sim. Eu vi seu quadro negro na loja, vê essas letras “a”? Era assim que elas estavam escritas lá também.”

Rainbow caçoava. “Certo, certo, então ele escreveu mesmo, grande coisa. Ainda não prova nada.”

“Há alguns gráficos muito bem detalhados, Rainbow,” Twilight dizia. “Se de fato isto é bem preciso…”

Twilight colocava o caderno aberto no centro de suas amigas, esfregando sua cabeça com um casco. “Isso não faz sentido nenhum. Como pode alguém tão volátil ser tão…tão…”

“Gentil?”

Todas olhavam para Fluttershy, que estava segurando o caderno com seus cascos.

“Vocês não se lembram quando chegamos na cidade, como os pôneis estavam tentando proteger Thomas? Por que eles fariam aquilo por alguém que não gostam, que não respeitam?”

As pôneis ficaram em silêncio por vários segundos.

“Eu acho que ele está sofrendo muito. Não apenas pela perda do pai de Junior, mas por causa de algo mais. A triste notícia que ele recebeu hoje provavelmente foi a gota d’água para ele desmoronar.”

“Uau Fluttershy, isso foi…” Rainbow esfregava as costas de sua amiga.

“Muuuuuuuiiito profundo, garota,” Pinkie falava.

“Bem, mudou de ideia então Rarity?” Twilight perguntava.

Rarity olhava o caderno nos cascos de Fluttershy. “Eu… preciso pensar sobre isso um pouco mais antes de dar o meu voto.”

“Bem, se isso vai demorar, então amanhã é a minha vez e de Dash.”

“Espere, por que nós?” Rainbow protestava.

“Sim, por que vocês duas?” Pinkie Pie também protestava.

“Porque Twi ainda está lendo aquela monstruosidade de livro, e você não deveria estar preparando uma festa pra ele?”

Pinkie saltava sem sair do lugar. “Isso mesmo! Devo dar um jeito de mudar aquele humor nada humorado.”

“Então nós faremos de tudo para não ter álcool na festa,” Applejack dizia.

“Sim,” Pinkie Pie falava, então novamente com mais energia, “Sim! Não precisamos disso para deixar a festa mais divertida!”

“Espere, você nunca serviu bebidas alcoólicas em suas festas,” Rainbow dizia.

Pinkie oscilava um casco, “Normalmente isso é coisa de garanhões. Então novamente, nenhuma de vocês esteve em uma festa feita para eles.” Pinkie piscava.

“Espere, o que?” Dash perguntava, mas sem receber uma resposta.

“Bem, acho que é hora de irmos para nossos quartos e descansarmos. Boa noite para todas.” Applejack ficava de pé, caminhando na direção da porta, seguida por Rainbow Dash e Pinkie Pie.

Fluttershy colocava o caderno de volta em seu alforje “por segurança”, ela dizia a Twilight, e deitava na sua cama, exausta depois de um dia tão agitado. As que restaram eram Twilight e Rarity, que ainda estavam sentadas em suas respectivas camas, olhando para o nada.

“Twilight, gostaria de… conversar sobre alguma coisa?”

Twilight notava a expressão preocupada de Rarity, mas não respondia.

“Eu lamento você ouvir aquelas coisas que Junior falou de você, sobre o que os pôneis pensam sobre você, mas ignore aquilo tudo, não foi culpa sua.”

“Foi apenas… apenas sobre quantos pôneis eu deixei abandonados à própria sorte? Eu poderia simplesmente ter teleportado e deixado Tirek pra lá, para auxiliá-los, vencendo ou perdendo.”

“Twilight, querida, não foi culpa sua se os pôneis perderam sua mágica ou sofreram. Tirek que causou isso a eles.” Rarity sentava ao lado de sua amiga, acariciando suas costas. “Em hipótese alguma você deve se culpar. Você fez a coisa certa, e se alguns dizem que você errou, então deixe eles lidarem com o próximo vilão que atacar Equestria e ver se eles farão melhor.”

Twilight permanecia sentada em silêncio, enquanto refletia as palavras da amiga.

O sorriso de Rarity diminuía. “Querida, eu acho que o que você precisa fazer agora é descansar, e depois poderemos conversar sobre isso, como um grupo de amigas.”

Twilight, na verdade, não conseguia dormir. Por horas ela ficava deitada de costas, embaixo de seu lençol. Pensando. Às três da manhã, ela arremessava seu lençol com um gemido. Sua mente permanecia em um emaranhado de pensamentos desde que deitou. Ela queria procurar um culpado por tudo o que aconteceu. Tirek era a escolha óbvia, mas a autodúvida estava ao lado dele.

De repente, Twilight ouvia um estrondo abafado vindo do andar debaixo. Ela se levantava, ficando sentada na cama, percebendo que Fluttershy e Rarity continuavam dormindo. Ela rastejava até a porta, e cautelosamente passava pela sala e corredor, seguindo o som de vidro tilintando vindo da área principal de jantar. Ela seguia pela parede, na furtividade, parando pouco antes de chegar na varanda, quando um som de passo por trás dela a fez girar sobre os calcanhares.

Twilight não pensava que poderia ser tão terrível chegar perto de um changeling, e Bob não era exceção. O fato dele ter metade de sua cabeça coberta por ataduras também não ajudava… por causa da briga anterior entre eles ao descobrirem que ele era um changeling. Twilight não podia olhar para seus olhos. Ela podia sentir suas orelhas caindo enquanto ela murchava perante seu olhar. Bob não parecia ofendido de qualquer forma, mas caminhava ao redor dela para perdoar a injúria. Seu suspiro distinto dizia a ela tudo o que ela precisava saber.

Bob descia as escadas, levando Twilight ao bar onde um humano descabelado estava sentado em um banco, falando sozinho. Uma de suas mãos estava segurando meia garrafa de âmbar liquido, a outra uma xícara de café. Os olhos de Thomas estavam semi-fechados, olhando o líquido na xícara enquanto suas mãos gentilmente a sacudia. Enquanto eles chegavam perto, Twilight percebia que ele não estava falando, mas cantando para si mesmo.

“Se eu pudesse parar o tempo em uma garrafa, a primeira coisa que eu gostaria de fazer era parar o dia inteiro, para a eternidade durar sempre e eu passa-la com você.”

Onde Twilight hesitava, Bob caminhava atrás do balcão, ficando de pé do outro lado olhando Thomas. Levou mais alguns resmungos e outro gole de sua caneca para finalmente perceber o changeling.

“Oh, eeeiiii Bob. Engraxçado ver você aqui a exsta hora. Você sabe que está muuuuiito tarde certo?”

Bob piscava, sério.

“Certo, certo. Então ou poooooso estar um pouco bêbado, e teeeerrrr me trancado do lado de fora da minha loja, então eu poooossssooo vir aqui para uma bebida ou duas… ou cinco…perdi a conta depois da segunda.”

Bob deixava escapar outro suspiro, caminhando até Twilight. Ele acenava com um casco cheio de buracos na frente de seu rosto, o suficiente para fazer ela gaguejar enquanto tentava recuperar a compostura. O olhar era educado, e ela apenas tinha feito muitos olhares. Não era culpa dela se a camisa dele estava desabotoada, mostrando o que ela apenas poderia descrever como o seu peito nu e musculoso.

Novamente, Bob pigarreava, fazendo Twilight prestar atenção no changeling. Ele apontava para seus próprios olhos, então para ela, e finalmente para Thomas. Levou um segundo, mas então Twilight entendeu o significado. Ela acenava, e Bob caminhava até as escadas, para fazer seja lá o que for, ela não sabia. A única coisa que ela sabia era manter um olho no obviamente embriagado humano.

Quando ela se voltava para o humano, ele de alguma forma se movia do banco para o chão, apoiando suas costas contra o balcão enquanto ele cuidava dos pequenos remanescentes de sua garrafa de licor. Ou mais precisamente, da garrafa do licor de Sunny que ela apenas poderia suspeitar que ele procurou atrás do balcão.

Twilight se sentava perto de Thomas, mas ainda mantendo uma certa distância dele. Se ele atacou tão violentamente duas de suas amigas após alguns copos de bebida, não daria pra dizer o que ele faria depois de uma garrafa inteira.

“Entãããooo… você é a prinxxxceesa, hein?” Thomas dizia, ainda olhando para o chão.

As orelhas de Twilight se reanimavam. “Sim, por mais doido que isso pareça, eu sou.”

“Por que doido?”

Twilight piscava. “Bem, se você me conhecesse antes, nunca acharia que eu me tornaria uma.”

Thomas fungava. “Voxce fala como se não tivesse excolha.”

As orelhas de Twilight caíam. “Eu… não, exato.”

Thomas finalmente se virava para a alicornio, embora seus olhos se esforçavam para focá-la.”

“Entãããããooo, é como se voxcê tivesse naxcido na realeza ou algo assim?”

Twilight balançava sua cabeça.

“Eu… me tornei assim, depois de completar uma magia difícil e aprender sobre a magia da amizade.” Enquanto ela falava, Twilight aproveitava a distração para levitar a garrafa de volta para o balcão.

Thomas fungava novamente. “Uaaauuu, só ixsso?”

“É mais difícil do que parece.”

“Ainda axssim, não te falaram ‘ei, voxcê feizzz aquilo, agora pode se tornar uma prinxcesa!’”

Twilight balançava a cabeça. “Não, apenas… aconteceu.”

“Droga, igual a hixstória da minha vida.” Thomas passava a mão no chão procurando a garrafa.

Twilight inclinava sua cabeça. “Como assim?”

“Eu, exstando aqui e tudo. Eu não excolhi isso. Eu apenas… apareci.”

“Apareceu?”

Thomas encolhia os ombros. “Eu exstava apenas… dirigindo, voltando do trabalho, sim, e então… kabum… eu exstava aqui.”

Twilight tinha muitas perguntas para fazer, mas uma em especial que ela realmente se importava.

“Em que termos exatamente você pode descrever isso?”

Thomas piscava algumas vezes, claramente perdido. “Com o que?”

“Parando aqui. Você acabou de falar que apareceu aqui, não foi difícil de se adaptar?”

Thomas violentamente sacudia sua cabeça, coçava o peito, então esfregava seus olhos. “Depois do choque de vir parar aqui… eu tentei pensar positivamente sobre ixsso. Tudo aqui era o mundo da fantasia e felicidade. Coisas que pra mim eram só contos de fada, aqui eram reais, como pôneis voadores, e mágica! Era tão inacreditável, eu não tinha como acreditar que nossos mundos possuíam semelhanças, aqui era superior.”

“Isso até eu encontrar Bob.”

Twilight percebia o changeling com o canto de seu olho. Ele hesitava na parte inferior das escadas, mas então continuava no balcão.

“Bob é meu melhor amigo, eu sei. Exceto pelos Fixits, ele foi meu único amigo por muito tempo aqui. Eu achei ele, lá fora no deserto, à beira da morte. Eu carreguei ele até minha caminhonete e dirigi de volta para a cidade, levando ele até o médico, nosso primeiro médico, eu o levei até ele e perguntei o que ele poderia fazer.

“Você sabe o que ele disse para mim?” Twilight balançava negativamente sua cabeça. “Ele disse que não tratava insetos.”

Twilight arriscava um olhar para Bob, ela percebia sua expressão estóica enquanto ele endireitava as garrafas de licor no balcão.

“Até então eu nunca vi um pônei agir tão… tão preconceituosamente. Os Fixits cuidaram bem de mim, e certamente eu já tive experiência com outros pôneis, mas eu não era um deles. Nós não saíamos para bebidas ou outras baboseiras, nada disso. Levei muito tempo para perceber que naqueles primeiros dois anos eu estava isolado, trancando a mim mesmo na oficina. Então eu achei Bob, e comecei a perceber como pôneis ao redor da cidade olhavam para mim. Falavam de mim.”

“Eu apenas queria ajudar este pônei. Eu não sabia que ele era um changeling, apenas parecia diferente, assim como no meu mundo que tem brancos, negros, amarelos, pardos. Eu começava a pedir ajuda aos outros pôneis, nenhum ajudaria. A maioria apenas me ignorava. Eu dava água pra ele, tentava alimentá-lo mas ele recusava. Eu estava desesperado. Os Fixits não sabiam muito mais do que eu.”

“Finalmente, aconteceu.”

Twilight olhava de volta para Bob que tinha parado no meio da limpeza de uma bandeja. Ela olhava de volta para Thomas. “O que aconteceu?”

“Eu perdi meu temperamento. Persuadi o prefeito daquela época a renunciar, Billfold assumiu, e Bob conseguiu ajuda. Os Fixits me deram oportunidade para trabalhar em mais projetos, para que a partir daí eu pudesse conversar e conhecer todo mundo na cidade. Devo muito à família Fixit, e a Bob também. Uma vez que Bob melhorou, começamos a aprender sobre ele. “Por um lado, você percebeu que ele nunca fala?” Twilight acenava. “Sim, aparentemente há este tabu na cultura changeling, a única coisa que eles nunca fazem.”

Twilight olhava para Bob esperando alguma resposta dele, mas ele permanecia em silêncio, então Twilight perguntava, “Por que não?”

“Você não pergunta ‘por que’.”

“Como assim?”

“Fazer perguntas é um sinal de inteligência, e a rainha deles não quer drones inteligentes. Ela quer drones que acatem ordens, que sejam dependentes e facilmente manipulados. Então, eles pegam um chengeling, espancam ele e cortam sua língua como primeira advertência. A segunda é eles espancarem de novo e jogarem no deserto para que aconteça o inevitável.”

A crina e calda de Twilight se arrepiavam. “Eles… fazem o que?” Ela olhava entre os dois, Bob finalmente acenava. “Isso… não pode ser…”

“E essa foi a minha segunda lição de como nossos mundos são semelhantes. Eu não podia acreditar que tais coisas existissem nesse mundo.”

Thomas começava a se sentar. Twilight se movia para mobilizar ele, com dificuldades para se sustentar por causa da bebida, apenas para o humano colocar sua mão na cabeça dela e usá-la como apoio.

“Obrigado,” Thomas dizia, para a irritação de Twilight com sua crina babada. “A última peça do quebra-cabeça veio alguns anos depois, quando o Senhor Fixit ficou doente. Ainda não tinha a experiência com uma morte de pônei, então eu tive a esperança de que talvez isso não acontecesse com eles.”

Thomas cambaleava até uma seção isolada da parede, onde uma grande moldura estava presa a ela. Dentro da moldura havia mais de uma dúzia de fotos de pôneis. Então Thomas tirava uma foto de seu bolso.

“Eu estava errado.” Thomas tirou um de seus sapatos, e usando um prego que Twilight não fazia a menor ideia de onde ele tirou, Thomas pregava a foto na parede dentro do quadro usando seu sapato como martelo.

“Primeiro foi o Senhor Fixit, então Doc, o médico, então o fazendeiro Jack e sua esposa Patch, e seus filho Pumpkin Seed. Era como se uma onda de desespero atingisse Oasis. Parecia que as coisas finalmente estavam melhorando, até…”

Thomas olhava Twilight, sua embriaguez parecia estar diminuindo, ou pelo menos a sua falta de equilíbrio menos acentuada parecia ser alguma indicação, então olhava de volta para o quadro. “E agora, eu perdi mais um.”

“Não foi sua culpa, Thomas.”

Thomas sacudia a cabeça. “Certamente é o que parece.”

Twilight queria dizer mais, mas mantinha sua boca fechada. Ela desesperadamente queria alguém para conversar sobre seus problemas, mas teria como falar com o humano sobre isso? Ela sentia que era sua culpa, para muito do que aconteceu, se ele partisse para cima dela, a alicornio poderia lidar com isso? Culpando ela por tudo? Ela suportaria isso, mas ainda assim, ele já estava angustiado da forma como estava.

“Bem, pelo menos você não vai ficar presa aqui por mais tempo do que deveria.”

Twilight olhava Thomas com um olhar confuso. Ele soltava seu sapato, caminhando com seu pé descalço de volta para o bar, onde a garrafa e copo já se foram graças a Bob, que estava de guarda. Ele se sentava em um banco e olhava seu reflexo no espelho do bar. Percebendo sua aparência desleixada, ele passava a mão no cabelo e tentava abotoar sua camisa.

“Tenho certeza que Rarity e Fluttershy contaram a você sobre o pequeno incidente que tivemos no início da noite.”

Twilight se juntava a ele no banco. “Sim, elas me disseram sobre o que você faz pela Senhora Fixit, e ajuda ela com tudo que precisa. E que você se importa muito com ela.”

“E que eu tenho um péssimo temperamento e arremesso garrafas de Bourbon.”

Twilight estremecia. “Bem, Rarity foi pega de surpresa.”

“Foi.”

“Ainda assim, nós conversamos sobre isso.“

“E vocês estão partindo de manhã, certo?”

Twilight balançava a cabeça. “Não. Na verdade, Fluttershy defendeu você.”

Thomas parava de abotoar sua camisa, que nem estava alinhada direito como Twilight podia perceber, enquanto ele se virava na direção de Twilight, com uma sobrancelha levantada.

Twilight acenava. “Ela viu falhas, mas no geral acredita na sua bondade. Ela está do seu lado. Rarity ainda está em cima do muro, depois de ter que tirar todos os cacos de vidro de sua cauda que a surpreendeu.” Twilight deixava escapar uma pequena risada.

Thomas suspirava. “Já é alguma coisa.” ele dizia olhando de volta para o espelho, com o reflexo dele e Twilight, “e quanto a você?”

Twilight se enrijecia. “Eu… não sei ainda. Você me lembra outro pônei que conheço, que me importo e que tem falhas.”

“Quem é esse… ou essa?”

“Você vai descobrir amanhã,” Twilight olhava para o relógio na parede, “ou melhor, hoje. Já está tarde.”

Thomas esfregava seu rosto com ambas as mãos, sua voz abafava nelas. “Se você diz.”

Bob viu que essa era sua deixa enquanto ele cutucava Thomas na lateral. “Hm? Oh, conseguiu um quarto de reserva para mim?”

Bob acenava.

“Ótimo, obrigado.”

Com ajuda de Bob, Thomas começava a caminhar até as escadas, usando a cabeça de Bob como uma bengala improvisada. Uma última coisa que Thomas disse fez as orelhas de Twilight se levantarem.

“Diga Bob, o que aconteceu para sua cabeça estar toda enfaixada?”

Twilight deixava escapar um gemido, batendo sua cabeça no balcão.

Quer ser minha mãe?

Autor: Twifi

Tradução: Drason

SINOPSE: Spike não queria nada além de um natal perfeito, mas como único dragão na família, ele sempre se sentia isolado nessa época do ano. Para consertar isso, ele teve a ideia de comprar um presente de natal para Twilight e aproveitar a oportunidade para pedir uma coisa importante a ela, algo que ele queria pedir há muito tempo. No entanto, um acidente poderia arruinar seus planos.

Eu estava enrolado em um daqueles casacos espalhafatosos que Rarity havia feito para mim. Ele era vermelho e pesado – eu parecia engraçado nele, especialmente com o chapéu que veio junto, “festivo” foi a palavra usada por Rarity. Combinava com o casaco, e tinha pequenas esmeraldas bordadas nele. Digamos que as joias o tornava mais dracônico, certo?

Eu nunca gostei muito do frio, mas normalmente podia tolerar. No entanto, o inverno desse ano estava mais gelado do que o normal; o bastante para um dragão. Tenho sido devoto em ficar dentro de casa neste inverno, mas Twilight me incentivava a sair do castelo com a promessa de experimentar a melhor cidra na cidade. E provavelmente Twilight estava certa, uma vez que a referida cidra era feita pela família Apple.

Enquanto eu me sentava nas costas de Twilight com a minha calda congelando, balançando suavemente para trás e para frente com o ritmo dos passos de Twilight, eu percebi que aceitei a proposta dela rápido demais. Cidra realmente valia a pena… e minha cama quente? Era para eu estar nela ensaiando um discurso para Twilight, e tentar encontrar o presente perfeito para ela nesse natal.

Eu tenho adiado por muito tempo uma coisa que queria dizer. Hoje teria sido ideal se Twilight não insistisse em correr por toda a cidade comprando e entregando presentes, que ela tem feito durante toda a semana. Como Princesa da Amizade, ela sentia a necessidade de entregar presentes significativos para todas as suas amigas, bem como qualquer outro que tenha sido importante em sua vida. Me pergunto o que ela comprou para mim.

Eu me arrastava nas costas de Twilight, passando os braços em volta de seu pescoço, me mantendo no lugar. Seu pescoço esticava, enquanto ela virava a cabeça tentando olhar para mim.

“Spike? O que está fazendo?” Ela perguntava animada, mas um pouco preocupada.

“T-tentando me manter aq-quecido,” Eu respondia, enquanto tentava virar a cabeça com minhas garras dormentes. Eu movia minha face diretamente atrás da cabeça dela para bloquear a mordida amarga do vento gelado.

“Oh, Spike,” Twilight ria. “É muito frio mesmo para um pônei. Mas não se preocupe, a cidra de maçã quente da Applejack irá aquecê-lo”, dizia Twilight com confiança. “Eu só vou ter que fazer uma rápida parada na loja do Senhor Stirling.”

Mesmo que Stirling fosse uma das lojas mais incomuns na cidade, ela certamente tinha uma coisa que me interessava muito. Calor.

A loja do Senhor Stirling geralmente era especializada em prata e coisas feitas de prata, mas também vendia uma variedade de artefatos raros, tais como bolas de cristal, talismãs, placas com pinturas artísticas, pinturas raras, e por aí vai. Uma vez Rarity encontrou algumas peças raras de seda nessa loja, e Rainbow Dash uma velha insígnia em forma de medalha desgastada que pertencia aos Wonderbolts. Scootaloo estava olhando um modelo clássico de scooter na vitrine há algumas semanas. Mal sabia a pegasus laranja, que Rainbow Dash comprou para ela. Eu adoraria ver a expressão em seu rosto.

O barulho suave de um sino que tocava ao abrir a porta da loja significava apenas uma coisa… e antes que eu percebesse, já estava cheio de ar quente. Ignorando todos os itens da loja, eu saltava das costas de Twilight, desabotoando o casaco e o deixando cair no chão atrás de mim. Eu corria por toda a loja tão rápido quanto minhas pernas dormentes poderiam se mover para aquece-las.

“Bom dia, Senhor Stirling – Spike, o que você está fazendo?”

“Oh calor, glorioso calor.” Eu ouvia Twilight rir um pouco: provavelmente pelo quão ridículo eu parecia.

“Desculpe quanto a ele. Dragões, você sabe como é…” Twilight dizia.

“Sem problemas Princesa. Como posso ajuda-la?” Senhor Stirling perguntava, como se nada de anormal estivesse acontecendo.

“Eu estou procurando um presente para uma amiga. Ela é bem especial e tem um olho para coisas boas.”

Twilight e Senhor Stirling continuavam conversando sobre que tipos de joias Rarity gostaria, ou qualquer coisa assim, eu realmente nem estava escutando. Já tinha escolhido o presente perfeito para Rarity, uma das melhores gemas do meu esconderijo secreto. Eu tive que resistir à tentação de devorá-lo, mas só de imaginar a reação dela sei que o sacrifício valeria a pena.

Sorrindo para mim mesmo, eu andava ao redor da loja olhando as prateleiras. A maioria delas estavam vazias, e os objetos que estavam lá realmente não me chamavam muito a atenção. Então eu vi um chamativo abridor de correspondência e envelopes. Parecia uma pequena espada; ele tinha pequenas pedras preciosas sobre o punho que brilhavam com a luz. Eu tive que desviar meu olhar para longe dele, enquanto meu estômago roncava e minha boca encharcava.

Vi também um pequeno livro em uma prateleira adjacente. Talvez fosse apenas força do hábito, devido a conviver com Twilight, mas eu não sei porque ainda caminhava para dar uma olhada melhor em um livro.

Ele parecia velho e desgastado, mas alguma coisa parecia familiar sobre a capa. A imagem estava desbotada, e parecia redigido com a antiga escrita de Equestria. Cada página estava irregular e amarelada com o tempo. Isso é algo que Twilight acharia interessante. Ela provavelmente poderia passar dias lendo este livro, e então iria ler outros livros para tentar aprender a história deste aqui.

História … é isso! Este é um livro muito velho chamado Equestria: Uma Breve História. Eu sabia que a imagem na capa me parecia familiar. Twilight tinha uma cópia dele e estava chateada por ter perdido há muito tempo, já que sua cópia foi dada a ela por Celestia.

“Twi…” Eu começava, mas parando em seguida. Ao invés de dizer a ela que o livro estava aqui, eu voltava atrás e decidi adquiri-lo como presente para ela. Ela ficaria tão contente.

“Sim?” Twilight respondia, olhando por cima do ombro enquanto levitava um pequeno colar de prata.

“Oh…um, apenas querendo saber se você já fez as compras, mas vejo que ainda não,” Eu dizia um pouco rápido.

“Apenas mais uns minutos…” Twilight franzia, enquanto continuava me olhando. Eu não gostava daquele olhar, era como se ela soubesse que eu estava tramando alguma coisa. “Por que repentinamente você ficou tão interessado em ir lá fora Spike?

“Nada demais. Apenas quero um pouco de cidra, você realmente falou tudo.” Eu dizia, tentando manter o mesmo tom. No entanto, não era suficiente para escapar daquele olhar: aquele com uma sobrancelha levantada.

Depois do que parecia ser uma eternidade esperando, ela voltava sua atenção novamente para o Senhor Stirling. “Isto é elegante, muito simples. Acho que será perfeita para minha amiga.”

“Certamente, excelente escolha, Princesa!” Senhor Stirling dizia. Ele pegava o pequeno colar de Twilight e o colocava em uma bela caixa ornamentada.

Agora que Twilight estava distraída novamente, eu me voltava para o livro. Precisava descobrir o preço dele, mas aparentemente não tinha etiqueta. E eu sei o que Twilight dizia sobre ter que perguntar o preço de alguma coisa…

Mas não me importava se tivesse que gastar todas as minhas gemas neste livro, Twilight merecia ele, e seria também a oportunidade perfeita para dizer a ela.

“Venha Spike. Vamos buscar algumas cidras com Applejack,” Twilight dizia, enquanto levitava um presente embrulhado e colocava dentro de seu alforje.

Rapidamente eu me afastava da prateleira, com esperança dela não ter visto o que eu estava olhando. Twilight não parecia interessada no que eu estava fazendo, mas estaria acabado se ela visse o livro, ela imediatamente o compraria.

Eu pegava meu casaco e o vestia novamente. Enquanto estava o abotoando, ouvi o som do sino acima da porta. Uma potranca cinza com óculos entrava na loja. Sua expressão parecia ameaçadora, e ela não percebia eu e Twilight.

“Como vai, querida?” Senhor Stirling perguntava para a potranca cinza.

“Bem.” Ela respondia em voz baixa.

“Fez o que mandei?” Senhor Stirling perguntava de forma severa.

A potranca cinza lançava um olhar sobre o chão. “Sim,” Ela dizia, na mesma voz baixa de antes.

“Silver… diga a verdade.” Senhor Stirling começava.

“Mas papai, a família inteira dela está na cidade!” A potranca gemia.

“Você deveria ter pensado nisso antes de ter sido má com aquela pobre criança. Se você não for lá pedir desculpas, então irei com você, e você vai ter que pedir na minha frente e de toda a família dela. E vai ficar de castigo de novo!”

“Mas papai…”

“Não, Silver, nada de mas.” Senhor Stirling olhava para Silver. Ele parecia ter esquecido que nós estávamos na loja por um momento. Mas quando seus olhos se encontraram com os meus, ele engoliu seco, e seu peito murchava um pouco. “Silver.” Ele dizia suavemente, com seus olhos se virando para Twilight com um leve aceno da cabeça.

“Princesa.” Silver dizia baixinho, fazendo uma pequena reverência. Ela confrontava e então deixava a loja, batendo a porta atrás dela.

“Me desculpe por isso, Princesa.” As bochechas do Senhor Stirling coravam um pouco.

“Oh, está tudo bem,” Dizia Twilight.

Eu poderia dizer que ela estava se sentindo sem jeito. Sabendo que ela não queria mais nada além de sair, eu pulava nas costas dela, que apressadamente deixava a loja. “Feliz natal!” Twilight gritava por cima do ombro, enquanto a porta se fechava atrás dela.

Nós estávamos novamente de volta para o frio, mas desta vez eu não estava me sentindo tão incomodado. Eu continuava imaginando situações na minha cabeça sobre como conseguir aquele livro, e a reação de Twilight. Ela ficaria tão feliz, e então eu diria a ela finalmente sobre o natal e o que eu sentia. Eu não conseguia pensar em um melhor dia para dizer a ela algo que provavelmente já deveria ter dito há muito tempo atrás.

“Olá Twi!” A voz de Applejack me tirava de minhas reflexões. “E olá Spike!”

Nós estávamos na frente da tenda de natal de Applejack. Parte das temporadas festivas incluíam várias tendas montadas no centro da cidade pelos donos das lojas locais. Alguns vendiam comidas e doces, e outros vendiam enfeites decorativos. A família Apple era de longe a mais popular devido às suas cidras feitas especialmente para o inverno de natal.

O forte aroma de maçã e canela enchiam minhas narinas. Somente o aroma era suficiente para aquecer meu estômago. O puro pensamento das maçãs misturadas com a canela fazia meu estômago rosnar. Com água na boca, eu pulava das costas de Twilight, pronto para engolir alguns deliciosos copos de cidra.

“Ei Applejack. Nós viemos buscar alguns copos de cidra,” Twilight dizia, fechando seus olhos enquanto inalava o aroma.

“Vocês chegaram bem na hora, eu já estava quase fechando. Vou empacotar tudo para que possamos ir para Appaloosa amanhã de manhã. Como sempre, o natal reúne toda a família Apple”.

Eu dava um passo para o lado. Sempre me sentia estranho quando pôneis falavam sobre família. Ponyville me fazia sentir em casa, até mais do que Canterlot, mas nessa época eu me sentia como se não pertencesse a esse lugar. Ser um dragão, por si só, já dizia tudo… esta época do ano sempre era difícil para mim, exceto pelas vezes quando Twilight e suas amigas estavam juntas. O natal era sempre mais animado.

“Spike? Algum problema?”

Eu me virava, vindo a ficar cara a cara com Apple Bloom. “Oh, um.. olá, Apple Bloom,” Eu dizia melancolicamente.

“Qual o problema?” Ela perguntava de novo.

“Nada, apenas esperando servir a cidra,” Eu mentia.

“Então por que você está parado aí com essa cara de desanimado? Twilight já pegou a cidra dela, viu?” Apple Bloom gesticulava para Twilight bebendo um copo de cidra com gosto.

“Spike, sua cidra está bem aqui. Pegue antes que esfrie, docinho.” Applejack colocava uma caneca sobre o balcão, com muita fumaça saindo dela. Mas antes que eu pudesse me mover, Apple Bloom disparava para pegar a caneca.

“Aqui,” ela entregava a caneca para mim. “Agora, por que você parece tão triste?”

Bem, não havia como mentir para ela. Eu sabia que não poderia usar o manjado “estou cansado”, que ela não acreditaria, então eu continuava: “Está tudo bem, só fico assim nesta época do ano. Parte do problema é sobre eu e Equestria, mas é a outra parte que me pega”.

“Que parte?” Apple Bloom perguntava.

Eu não sei porque, mas era sempre tão fácil conversar com ela. Eu poderia simplesmente não ter dito nada, mas aqui estava eu me desabafando. Talvez seja porque Apple Bloom e sua família sabem reconhecer quando alguém não está bem, ou talvez porque eu apenas me sentia confortável dizendo a ela coisas que eram pessoais. Apenas queria que essa facilidade fosse a mesma para conversar com Twilight às vezes.

“Família.” Eu respondia.

Apple Bloom franzia. “O que você quer dizer?”

“Estar com a família é importante no natal, é o que todos os pôneis dessa cidade fazem, ficando juntos e felizes com suas respectivas famílias… coisa que eu não tenho.” Eu olhava para o chão.

Os olhos de Apple Bloom arregalavam. “Do que está falando Spike, claro que você tem uma família. Nós somos sua família.” Apple Bloom sorria calorosamente enquanto colocava um casco em meu ombro. “Eu sei que não é uma família como a que a maioria tem, mas ainda sim uma família.”

Ela continuava. “Nós olhamos um para o outro, sempre ajudamos uns aos outros, e às vezes nem sempre nos damos bem, mas no final do dia nós ainda amamos um ao outro. E isso é o que importa.”

Apple Bloom estava certa. Isso me ajudava a me sentir um pouco melhor, e depois de tomar um gole daquela maravilhosa cidra, minhas preocupações permaneceram como uma sombra atrás da minha mente. Enquanto eu continuava bebendo a cidra apreciando seu doce sabor, percebi aquela potranca cinza da loja nos observando de longe. Nós fizemos um breve contato de olhares, e ao perceber que ela foi descoberta, relutantemente começou a caminhar na nossa direção.

“Ei flanco…digo… Apple Bloom?” Silver Spoon dizia com uma quantidade surpreendente de confiança, mesmo depois de se atrapalhar ao dizer o nome da Apple Bloom. “Posso falar com você em outro lugar?”

Apple Bloom franzia em suspeita quando viu Silver apontando para outra tenda que vendia doces. “Nós podemos conversar aqui mesmo,” ela respondia em um tom firme.

“M-muito bem, Apple Bloom. Eu queria me desculpar por ter sido tão mesquinha com você. Não estou pedindo pra você ser minha amiga ou gostar de mim, mas espero que possa me perdoar. Prometo nunca mais fazer aquilo de novo. E vou garantir que Diamond Tiara deixe você em paz também…” Silver parava. Apple Bloom permanecia em silêncio, totalmente perdida em palavras. “Eu fiz isso pra você…” Silver levantava um pequeno colar com um medalhão em forma de coração de prata. Ele balançava em seu casco estendido.

Apple Bloom piscava, então aceitava o colar, colocando ele ao redor de seu pescoço. “Um… obrigada, Silver Spoon. Eu… realmente significa muito ouvir isso de você. Eu te perdoo.”

“Oh meu Deus! Papai estava certo! Eu me sinto muito melhor agora.” Silver saltava sobre as patas traseiras, envolvendo suas pernas dianteiras ao redor do pescoço da Apple Bloom. “Feliz natal! Agora, eu tenho que pedir desculpas para outras duas.” Silver desfazia o abraço, e saía trotando contente.

“Bem… foi uma bela surpresa.” Eu dizia para uma imóvel Apple Bloom. Aquela foi uma das mais sinceras desculpas que eu já vi. Talvez houvesse alguma coisa nessa época do ano que fosse mágico. Se aquela pônei podia achar coragem para dizer aquilo para Apple Bloom, então eu também poderia achar a mesma coragem para dizer a Twilight o que tanto queria.

Eu corria tão rápido quanto minhas pernas podiam me carregar. Uma bolsa cheia de gemas estalavam em minhas costas a cada passo. Eu percebia que havia apenas alguns minutos antes que o Senhor Stirling fechasse a loja, já que as festividades estavam chegando ao fim. Pôneis podiam ser vistos desmontando suas barracas; entre eles estava Applejack e Big Mac fechando a tenda de cidra. Apple Bloom ficava sentada ao lado observando seu novo colar, ignorando o movimento ao seu redor.

Eu não poderia deixar de sorrir. Essa seria a primeira vez que teria um natal de verdade, ou pelo menos da forma como imaginava que deveria ser. Apple Bloom estava certa, Twilight e suas amigas eram uma família. De certa forma eu pensava assim, mas sempre me sentia afastado delas. Só de ouvir Apple Bloom dizer que ajudava com o que eu tinha vontade de perguntar por tanto tempo. E amanhã já era natal. Que presente seria melhor do que esse?

Eu abria a porta da loja, e rapidamente a fechava atrás de mim. Não havia nenhum pônei no balcão de recepção, mas o toque do sino acima da porta, sem dúvida, acusava que tinha um cliente. Era o que eu esperava… porém ninguém parecia estar vindo.

“Olá?” Eu falava dentro da loja vazia. Cuidadosamente pegava o livro da prateleira, enquanto esperava o Senhor Stirling. “Olá!” Eu dizia um pouco mais alto. Meu coração começava a disparar com a ansiedade. Será que eles fecharam a loja e esqueceram de trancar? Não, certamente Senhor Stirling não seria tão descuidado a ponto deixar todos esses itens valiosos expostos. Talvez eu devesse apenas deixar algumas gemas e bits, e em seguida partir? Isso não seria furto, não é?

Mas todas as minhas ansiedades diminuíram quando ouvi passos se aproximando. Um olhar confuso do Senhor Stirling emergia da parte de trás da loja. “Olá?” Ele dizia, olhando ao redor da loja. “Eu pensei ter ouvido alguma coisa…” Então ele olhava para baixo, finalmente me vendo com um olhar suplicante para ele. “Ah você novamente. Me desculpe, eu estava no fundo da loja fazendo o inventário. Já estamos fechando. O que posso fazer por você, Senhor Dragão assistente da Princesa Twilight?”

Eu me encolhia internamente mediante a observação dele. Eu não era apenas um assistente, mas o seu assistente número um. “Gostaria de comprar este livro.” Eu o colocava no balcão.

Equestria: Uma breve História, esta é a primeira edição. Muito raro, poucos podem pagar por tal raridade. “A Princesa lhe deu dinheiro suficiente?”

Eu colocava a bolsa de pedras preciosas sobre o balcão, deixando algumas gemas deslizarem para fora dela. Era difícil perder o brilho em seus olhos com a visão das gemas, mesmo que fosse apenas por um momento fugaz.

“Gemas, hein? Normalmente aceito apenas pagamento em bits.”

“Por favor, Senhor Stirling, essa gemas são as melhores. Eu as encontrei sozinho. Elas valem muitos bits,” Eu implorava e podia ver que ele as queria muito.

“Elas são belas, mas prefiro bits. Gema não é dinheiro. O preço deste livro é duzentos mil bits.“ Senhor Stirling dizia, enquanto tentava empurrar as gemas de volta para a bolsa.

“Mas você pode vende-las por muito mais. Por favor, senhor, é um presente para Twilight. Significaria o mundo para ela ter a primeira edição de Equestria: Uma Breve História.” Eu despejava o conteúdo da bolsa sobre o balcão, deixando a safira azul brilhante visível para ele.

Senhor Stirling pegava uma lupa e examinava as gemas de perto. Ele prestava uma atenção especial para os rubis e safiras. “Estas são todas impecáveis”, dizia ele, mais para si mesmo. Ele olhava para mim, e então suspirava, “está bem.” Ele colocava a lupa no balcão, olhava para o livro, e em seguida, para a pilha de pedras preciosas. “Se é realmente importante para você, então talvez possamos resolver isso. Esta é uma coleção muito impressionante, e este é um livro muito raro. Acho que podemos chamar isso de troca.” Ele sorria, e empurrava algumas das pequenas esmeraldas de volta para mim, então agrupava todas as gemas em uma pilha. “É justo assim, Senhor Dragão?”

“S-sim!” Eu estava esperando ele pegar a bolsa inteira, mas deixou algumas esmeraldas.

“Tudo bem, nesse caso foi um prazer fazer negócios com você.”

“Obrigado, obrigado!” Enquanto eu me virava para partir, a porta abria e Silver Spoon passava por ela novamente, sorrindo de orelha a orelha.

“Pai, eu consegui! Me desculpei com todos com quem fui mesquinha, todos me perdoaram, e Sweetie Belle ficou minha amiga!”

“Muito bom! Não foi o que eu te disse? Venha aqui, querida.” Senhor Stirling gritava de alegria, enquanto Silver Spoon corria para abraçar seu pai.

“Me sinto muito melhor agora, pai.” Silver Spoon se aconchegava nos cascos de seu pai. “Só estou preocupada com Diamond Tiara, tenho medo dela ficar brigada comigo agora.”

“Vocês duas são amigas há muito tempo para que isso acabe agora por causa de uma mudança. Estou orgulhoso de você, mesmo quando te ensinava que bullying era errado e você acabava fazendo mesmo assim, pelo menos agora você aprendeu a lição. No entanto, ainda está de castigo até as aulas recomeçarem.” Ele sorria para sua filha, beijando-a na bochecha.

Deixei a loja com um sentimento caloroso em meu coração. Eu tinha o livro em meus braços, um pequeno salto em meu passo, e Silver Spoon aprendeu uma lição com seu pai. Um dia vou ter que perguntar para Apple Bloom o quanto Silver Spoon foi mesquinha com ela.

Como eu quase literalmente pulava para casa, me alimentava das gemas restantes. Esmeraldas nunca foram tão boas quanto rubis, mas tudo bem. Eu iria comer os rubis de qualquer maneira, pelo menos agora eles se foram por uma causa melhor do que o meu estômago. E ainda tinha meu rubi premiado embaixo da minha cama, que era para Rarity.

Eu não podia esperar para ver a expressão de Twilight quando eu der o livro a ela. Deveria colocar ele em sua mesa e deixá-la encontra-lo? Deveria apenas caminhar e entregar a ela? Oh! Eu deveria colocá-lo em uma de suas estantes da biblioteca e ver quanto tempo ela levaria para notar. Sim, isso vai ser muito engraçado. Aposto que ela desmaiaria de choque.

O castelo estava vazio quando cheguei, então chequei seu quarto e a biblioteca, mas ela não estava lá. Talvez tivesse ido entregar seu presente para Rarity, o que é bem provável. Perfeito, agora onde posso colocar este livro?

Enquanto eu procurava um local aberto para deixa-lo, a curiosidade acabou levando a melhor sobre mim. Eu tive que abrir o livro, tinha que dar uma olhada em seu conteúdo. Afinal, esta foi a primeira edição, então muitas coisas mudaram em Equestria desde que este livro foi publicado. Poderia até ter informações sobre dragões, e um rápido olhar não faria mal.

Eu abria o livro na primeira página, onde uma nuvem de poeira grossa levantava. O amontoado de pó fazia cócegas em minhas narinas, a pressionando de uma forma que… “oh não! Não-!” Eu tentava colocar o livro em algum lugar e virar a cabeça bem longe, mas era tarde.

A primeira coisa a saudar meu olfato era fumaça. Eu olhava para baixo em horror para os restos carbonizados do presente mais perfeito. Meu olho se emparedava com lágrimas.

Tudo estava arruinado. Meu natal perfeito estava arruinado. É por isso que nunca vou ser da família, é por isso que sempre serei um mero assistente para a Princesa. Esta é a segunda vez que isso acontece. Pelo menos desta vez, Twilight não vai se decepcionar, porque ela nunca vai saber.

Sons de passos… era Twilight e suas amigas chegando, dava para ouvir suas vozes de longe.

“Fluttershy, amei seu presente! É um livro muito interessante sobre animais raros encontrados em Equestria.” Dizia Twilight. Eu não podia ter certeza de onde ela falava, mas se ela tinha um livro, então estava vindo para a biblioteca. “Spike? Onde você está? Eu vou na casa Rarity agora, não quer vir comigo e dar pra ela aquele rubi que você esconde embaixo da sua cama?” Ela estava se aproximando. Rapidamente eu secava meus olhos, me virando para ficar de frente para Twilight parada na entrada da porta da biblioteca.

“E-eu… darei pra ela depois, você pode ir.” Apenas de olhar para ela já era doloroso. Eu lutava contra meus lábios trêmulos, mas não tinha como parar minha gagueira melancólica.

“Alguma coisa errada Spike?” Twilight perguntava suavemente. Ela se aproximava, me fazendo recuar.

“Nada.”

“Spike,” Ela suspirava. “Seja lá o que for, pode falar.”

“Não importa mais. Está arruinado. Eu arruinei tudo,” Eu dizia lutando novamente contra as lágrimas.

“Arruinou o que Spike?”

“O natal. Tudo isso… não importa mais.” Twilight chegava bem perto de mim. Com um casco, ela levantava minha cabeça e então me olhava nos olhos.

“Spike, como você poderia arruinar o natal?”

Não era nada disso que eu queria. Era pra ela encontrar o presente, ficar feliz, e então eu ia perguntar uma coisa importante a ela. Eu poderia muito bem dizer a ela o que aconteceu. Então talvez pudesse desfrutar o natal em busca de uma nova casa, porque certamente Twilight não iria querer um assistente desajeitado que desintegra as coisas por mero acidente.

Respirava fundo, “Eu sempre me senti sozinho no natal porque sou um dragão e nunca vi outro por aí morando com pôneis que nem eu, mas eu queria que o natal desse ano fosse perfeito, tanto que eu tinha encontrado o presente perfeito pra você, e nessa oportunidade eu iria pedir pra você ser minha mãe, para que eu pudesse me sentir como se tivesse uma família real no dia de natal.” Respirava fundo novamente depois que terminava. Twilight simplesmente olhava para mim, piscando. Eu percebi que desabafei sem querer. A coisa que eu queria perguntar a ela, a coisa mais importante que eu queria perguntar a ela, escapou do nada. “Aí eu encontrei uma cópia do livro Equestria: Uma Breve História, na loja do Senhor Stirling, mas quando cheguei aqui, a poeira que saiu das páginas me fez espirrar e-“

“Spike,” Twilight dizia suavemente. Sua voz tinha um leve tremor. “Spike… fale de novo.”

Eu engolia seco, sabia em que parte ela estava se referindo. Meu coração batia forte em meu peito, sentia meu rosto corar. Mesmo depois de dizer a ela acidentalmente, ainda era um grande negócio para mim. Nunca tive ninguém que pudesse chamar de mãe, mas Twilight sempre foi a mais próxima de uma mãe que eu já tive. “Pensei em perguntar isso por um longo tempo, mas até o dia de hoje nunca tive coragem. Mesmo hoje, quando vi a filha do Senhor Stirling servir de exemplo ao arrumar forças e coragem para pedir desculpas, eu ainda não sabia como ter a mesma força e coragem para dizer isso a você, eu imaginava que ao te deixar feliz com um presente perfeito, poderia ser o momento para eu me desabafar com você espontaneamente, um plano bem burro, mas na minha cabeça parecia uma boa ideia. Então, eu não sou um pônei, mas você é a mais próxima de uma mãe que eu já tive, e por isso preciso te perguntar… quer ser minha mãe, Twilight?”

“Oh, Spike,” Os olhos de Twilight encharcavam. Ela me puxava para um caloroso abraço, me apertando com força. “Eu não sabia que você se sentia dessa forma, Spike. E sim, eu amaria ser sua mãe.“ Twilight me beijava no rosto várias vezes. “Eu te amo muito, meu filho.”

Foi demais para eu conseguir me conter, e acabava deixando as lágrimas saírem. Tudo saiu tão horrivelmente errado, e ainda assim tão perfeito. “M-me desculpe por ter arruinado o livro”.

“Era Equestria: Uma breve história. Nós podemos conseguir outra cópia por aí.”

“Mas era a primeira edição, escrita por um antigo equestriano…”

“Isso foi muito gentil de sua parte. As primeiras edições são extremamente raras. Mas foi um acidente, então não se preocupe com isso. Eles podem ser raros, mas existem muitos outros lá fora para nós encontrarmos.”

“Tem certeza?”

“Confie em mim,” Twilight dizia em um tom tranquilizador. “Você queria me dar o melhor presente de natal para me deixar feliz, e foi o que você fez.” Twilight respirava, com seus cascos esfregando em minhas costas. “Eu ganhei alguém de quem me orgulho de chamar de filho. Mais raro do que o livro, é um dragão como você, Spike. Vamos passar o dia de manhã que será o primeiro como mãe e filho, e teremos o melhor natal de todos.”

“Isso é ótimo, m-mãe!”

“Agora, por que você não vai pegar aquele presente para Rarity, antes que ela viaje para Canterlot?”

“Certo.” Eu saía do abraço e caminhava até o meu quarto para buscar o presente que estava embaixo da cama.”

Enquanto eu entrava no meu quarto, observava a neve caindo pela janela. De alguma forma tudo parecia diferente, tudo parecia novo e surpreendente. Talvez nada tenha mudado efetivamente, mas só o fato de eu poder dizer mãe, foi o suficiente para trazer um novo significado a tudo.

Porque hoje, aprendi que família vai muito além do sangue, e a maneira mais simples de falar as coisas mais importantes, é com o coração, e não com palavras bonitas.