Meu pequeno assistente

Autor: Larathin
SINOPSE: Crescer nunca é fácil, especialmente quando você é um dragão entre pôneis e a mais próxima que já teve como mãe é uma unicórnio aparentemente mais preocupada com os estudos. Quando os temperamentos fervem, poderia essa família improvisada se recuperar?
Nota do tradutor: O texto se refere à Twilight como “unicornio”, porque os eventos se passam na época em que Spike era jovem.

***

Parece que foi ontem…

“Abra o bocão! Lá vem o trem!”

O pequeno bebê dragão balançava a cabeça e abria a boca enquanto a unicornio movia a colher cheia de gemas na direção dela, imitando o barulho de um trem. Rindo e aplaudindo com as mãozinhas, o dragão mordia a colher, resultando em um breve som de impacto com os dentes no metal, encostando na cadeira e mastigando ruidosamente.

“Não era pra você mastigar a colher Spike,” a unicórnio dizia animada, colocando o que restou da colher em uma vasilha cheia de outras colheres no mesmo estado, pegando uma nova e enchendo de gemas.

Já fazia o que? Dez, talvez vinte anos desde que ele nasceu.

…Tem sido mesmo tanto tempo assim?

Rindo, o bebê dragão escondia embaixo de sua cama, ignorando o fato de ter deixado sua calda pra fora. A porta abria e uma unicórnio roxo o procurava. Ela dava uma olhada na cauda que sobrava pra fora e segurava uma risada.

“Oh não,” ela chamava, com sua voz entonando um falso desespero, enquanto trotava no quarto. “Para onde Spike pode ter ido?”

O pequeno dragão ria e então tentava ficar quieto.

“Ele não pode ter ido longe, talvez ele… no armário!” A unicornio abria a porta do armário e então deixava escapar um suspiro teatral. “Ou talvez não… onde ele poderia ter ido? Oh, bem, eu presumo que terei que encontrar um novo assistente…”

“Não!” Spike chorava, rastejando debaixo da cama. “Estou aqui Twilight! Eu sou seu assistente!”

“Está certo,” ela dizia, pegando o dragão e o abraçando antes de colocá-lo em suas costas. “Você é e sempre vai ser o meu assistente!”

Eu era tão jovem naquela época, não tinha ideia de como cuidar de uma criança, muito menos de um dragão. Mas eu queria faze-lo sozinha. Ele era meu bebê.

“Spike, o que você fez! Eu emprestei esse livro da Princesa Celestia! Prometi que cuidaria bem dele!”

O jovem dragão se recusava em olhar nos olhos dela, torcendo a calda. Quando ele falava, parecia estar à beira das lágrimas.

“Eu sinto muito! Eu não quis…! Eu apenas queria ver o livro e então…”

“Eu disse pra você não manusear nenhum livro até aprender a controlar suas chamas,” a unicornio o repreendia, segurando o que sobrou do livro. Cinzas caíam como cachoeiras. “O que vou falar para a Celestia agora?”

Twilight Sparkle!”

Ambos unicornio e dragão se viravam enquanto Celestia entrava no quarto de sua pupila.

“Aí está você, está atrasada para sua aula!”

“Oh, uh, estarei lá em um minuto, Princesa,” Twilight dizia, repetidamente tentando esconder o livro arruinado atrás dela.

Mas a Princesa já havia percebido. “O que aconteceu?” Ela perguntava, levitando o livro de sua pupila e olhando tristemente para a capa dura carbonizada.

A unicornio roxo olhava para seu assistente que estava literalmente tremendo de medo, e então olhava para o rosto sério de sua professora. Ela engolia seco e então se encontrava com os olhos de Celestia. “Eu estava tentando uma nova magia, mas perdi controle dela,” ela mentia. “Eu realmente sinto muito, Princesa.”

“Eu esperava mais de você, Twilight Sparkle. Estou muito desapontada. Depois da aula tentaremos decidir sobre uma penalidade adequada por destruir um livro tão raro e valioso.”

“Vamos, Spike,” Twilight dizia assim que Celestia saiu. “Depois da minha aula nós iremos para a biblioteca ver se podemos achar algum livro que ensine a controlar suas chamas. Afinal, um assistente que não pode manusear livros não tem como ajudar muito. Apenas tente não chegar muito perto das prateleiras enquanto isso.”

O pequeno dragão sorria em gratidão e subia em suas costas.

Ele era um bebê, meu assistente. De um jeito ou de outro, nós estávamos juntos, e éramos uma família.

Anos depois…

Na escuridão da silenciosa biblioteca, Twilight olhava para fora, cegamente, nas prateleiras que ainda ecoavam com a briga de hoje cedo.

Com um arrepio, a unicórnio curvava a cabeça enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto.

“Twilight?”

A porta de entrada da biblioteca abria e Applejack trotava para dentro, olhando em vão os arredores da sala escura. “Spike foi na casa de Fluttershy e perguntou se poderia passar a noite lá hoje, porque não queria voltar para a biblioteca. O que está havendo?” Sem ter a resposta, a pônei terrestre acendia a luz e procurava pela sua amiga.

Ela encontrava Twilight sentada no chão, com as costas apoiadas na escrivaninha. Os olhos da unicornio estavam vermelhos, inchados de tanto chorar, com lágrimas escorrendo em seu rosto. Sua respiração vinha em irregulares suspiros seguidos de um soluço ocasional.

Applejack se ajoelhava e puxava sua amiga para um abraço.

“O que aconteceu Twi?” Ela perguntava gentilmente.

Momentos antes…

“Spike. Spike! Você viu minhas anotações sobre a antiga cultura de Equestria?” Twilight perguntava, misturando a pilha de papeis espalhadas em sua escrivaninha.

“Segunda gaveta, com capa laranja. Aquele com o título “Equestria Antiga”, o dragão respondia enquanto passava pela escrivaninha.

“Oh.” Ela cavava ao redor e puxava a referida capa. “Obrigada. Você pode pegar minha cópia de “Equilibrio: Um breve tratado das pôneis irmãs e os efeitos do banimento precoce de Nightmare Moon?”

Spike pausava, com uma mão na metade da porta. “Certo,” ele suspirava, sumindo novamente no fundo da biblioteca. Ele reaparecia momentos depois, olhando o peso de um livro que era um pouco maior do que ele.

“Obrigada,” Twilight dizia enquanto levitava o enorme tomo até a escrivaninha, causando um estrondo ao libera-lo sobre ela. Spike chegava novamente a meio caminho da porta quando ela o deteve de novo.

“Você viu meu frasco de tinta para a caneta?”

“Está no banheiro,” Spike respondia, com uma voz um tanto frustrada. “Não lembra daquele feitiço em que esteve trabalhando no banho e não podia esperar para anotá-lo?”

“Oh certo. Pode pegar para mim?”

“Não pode pegar você mesma,” Spike perguntava, exasperado. “Se eu não sair agora vou me atrasar!”

“Atrasar?” Twilight ecoava, confusa. “Para o que? Nós não planejamos nada para hoje à noite.”

“Você não, mas eu sim. Há uma exibição nos cinemas sobre Nightmare Moon, perguntei se poderia ir na semana passada e você disse que sim.”

“É hoje à noite?” Ela perguntava, sorrindo hesitantemente para tentar disfarçar a confusão. “Pensei que seria na próxima semana…”

Não,” Spike suspirava. “É hoje.“

“Oh.. sinto muito, mas não posso deixar você ir. Está tarde, daqui uma hora você já tem que dormir, apesar de que preciso de sua ajuda. Celestia pediu para…”

“Eu não ligo!” O dragão gritava, fazendo com que Twilight quase caísse de seu assento, surpresa. “Estou cansado de você sempre colocar suas necessidades em primeiro lugar e eu em último! Estou cansado de você nunca se importar com o que é importante para mim. É como se eu não fosse importante pra você!”

“I-isso não é verdade,” Twilight balbuciava, paralisada perante a explosão de Spike. “Você é meu assistente. Você é o pônei mais importante do mundo para mim.”

“Eu não sou um pônei!” Spike rebatia. “Eu sou um dragão!”

“Mas apenas um bebê dragão,” Twilight dizia, à beira das lágrimas. Ela nunca viu Spike reagir dessa forma antes. “Você ainda está crescendo, você precisa dormir.”

“Sei, quer dizer que eu dormir o suficiente só importa quando é alguma coisa que eu quero fazer? Se você precisa de ajuda com seus estudos então não tem problema me manter acordado a noite inteira, não é mesmo?”

Ele se virava e passava pela porta, a arremessando com força e causando um estrondo ao ser fechada.

“Não, não é isso. Spike, pare e volte aqui.” Twilight o chamava, saindo de sua escrivaninha e correndo atrás do dragão.

“Me deixe sozinho! Você não é minha mãe!”

O grito parava Twilight e Spike se afastava para o interior da cidade. Chorando, Twilight caía contra sua escrivaninha e deslizava para o chão.

Spike percorria o caminho, chutando uma pequena pedra em sua frente. Ele estava planejando esta noite por semanas, provavelmente era a única chance que teria para assistir aquele filme no cinema e Twilight arruinou tudo. Ele estava indignado, nem mesmo conseguiu desfrutar um filme que estava a meio caminho da biblioteca.

Ela sempre fazia algo assim, esquecendo que haviam coisas que eram importantes para ele também, embora nunca tenha esquecido um único feitiço.

No entanto, pensando nisso, ela realmente nunca esquecia nada importante…

De fato, ela não esteve sempre ao lado dele? Ela que chocou seu ovo, em primeiro lugar. Ele que era apenas um pequeno bebê dragão, a ajudava com seus estudos, mesmo que, olhando para trás, ele tinha certeza que era mais um obstáculo do que uma ajuda, apesar que ela sempre o deixava ajudá-la, o chamando de pequeno assistente, e ele nunca esteve tão feliz ajudando a pegar um livro ou a desvendar uma escritura complexa para um feitiço.

“Não,” ele murmurava, chutando outra pedra. “Estou bravo com ela! Sempre esquece que há coisas que eu gostaria de fazer também!”

No entanto, ela não desistiu até de uma oportunidade de se encontrar com um médico, autoridade em magia medicinal, só para levar o dragão ao cinema em Fillydelphia no ano passado? Celestia tinha ficado furiosa com ela, tinha providenciado a visita do médico para ensinar a Twilight magias que não eram a área da Princesa.

“Bem, não é como se ela não tivesse feito algo por mim ultimamente.” Ele amuava.

A verdade é que Twilight sempre esteve ao lado dele, o que atrapalhava o caminho dela, seus estudos, cuidando do jovem dragão. Então ela ocasionalmente cometia um engano ou esquecia de alguma coisa, mas ela fazia o seu melhor…

Com um suspiro, Spike se virava e caminhava de volta para a biblioteca. Twilight não era perfeita, mas ela era a mais próxima que ele tinha de uma família.

Não… ela era sua família.

“Eu vou buscar a Fluttershy e encontraremos o Spike pra você, tudo bem?”

“Obrigada Applejack,” Twilight fungava antes de sorrir melancolicamente. “Não lembro da última vez que chorei assim.”

“Isso porque você ama Spike, e qualquer pônei sabe disso. Não se preocupe, Twi. Vamos resolver isso entre vocês.”

A pônei terrestre dava outro abraço em sua amiga antes de partir. A biblioteca parecia tão vazia na ausência do dragão, normalmente havia algumas corujas noturnas andando pelas janelas, ou pelo menos, o som do Spike. Mas não naquela noite, e o silêncio era tão forte que Twilight não podia suportar.

“Sinto muito, Spike.” Ela sussurrava.

“Não, eu sinto muito.”

Twilight se virava e olhava Spike entrando hesitantemente na biblioteca, com um pé esfregando no chão. “Desculpe se gritei com você, eu apenas…”

Ele vacilava e Twilight corria até ele, puxando o dragão para um abraço. “Está tudo bem,” Ela falava carinhosamente. “Eu entendo.”

“Não, você não entende,” ele dizia, gentilmente saindo de seu abraço. “Eu cresci como um estranho, o único dragão entre os pôneis. Eu não tenho família, e os únicos dragões que conheci me rejeitaram.”

“Spike, está tudo bem.”

“Não, não está. Você sempre esteve ao meu lado. Lembra quando eu era pequeno e acidentalmente queimei o livro que a Celestia te emprestou?”

Twilight ria levemente se recordando. “Claro que lembro, Celestia me fez restaurar livros velhos por semanas. Eu pensei que nunca iria tirar aquele livro como fardo.”

“Fiquei com medo quando Celestia entrou, imaginando que ela iria me jogar em um calabouço, ou me banir. E então de repente você tomou a frente e assumiu a responsabilidade do livro queimado, mesmo quando você me advertiu para não tocar nele.”

“Claro que assumi a responsabilidade,” Twilight dizia com sua voz gentil. “Você é meu assistente, tenho que cuidar de você.”

Spike balançava a cabeça. “Você não pensou que poderia simplesmente me devolver para Celestia ou arrumar alguém para cuidar de mim pra você? Ao invés disso, você insistiu em cuidar de mim sozinha. Você é a mais próxima que tenho como mãe, e eu te amo, Twilight.”

“Eu te amo também, Spike. Você sempre foi mais que um assistente para mim, e por isso mesmo, já passou da hora de eu parar de te chamar de assistente. Você é meu filho, e é por essa razão que nunca te abandonei, te devolvi ou deixei para que outro cuidasse. Por mais que você me atrapalhasse em meus estudos, você sempre foi mais importante para mim.”

Os dois se abraçavam, e Twilight o beijava várias vezes no rosto. Ainda que não fossem uma família como a de Applejack, o amor entre eles era o mesmo, e sempre estariam um ao lado do outro, um apoiando o outro em momentos difíceis.

“Está tarde,” Twilight dizia eventualmente. ”E precisa dormir, amanhã você vai ter um grande dia.”

“Eu vou?” Spike perguntava, não entendendo.

“Aquela pesquisa que eu estava fazendo agora a pouco para Celestia era sobre a antiga Equestria, sobre como os dragões costumavam confiar seus ovos aos pôneis para serem protegidos. Aparentemente, a última vez que isso aconteceu foi há centenas de anos atrás quando uma dragão fêmea confiou um único ovo verde e roxo para Celestia.”

“Ainda está viva?” Ele perguntava hesitante.

“Não me surpreenderia, dragões vivem por muito tempo. Você quer conhecê-la?” Twilight perguntava. “Tenho certeza que Celestia sabe onde encontrá-la.”

Havia um tom sutil em sua voz ao fazer aquela pergunta. Qualquer outro pônei não teria percebido, mas Spike, que conhecia a unicórnio por toda a sua vida, sim. Uma tristeza silenciosa espreitava abaixo da aparente pergunta inocente de Twilight.

Sorrindo, Spike balançava sua cabeça e dava outro abraço em Twilight antes de caminhar até o seu quarto. “Não,” ele dizia. “Seria legal conhecer outro dragão, mas eu já tenho uma mãe.”

Twilight se surpreendia com a resposta de Spike, assim como com as lágrimas que ainda tinha para derramar.

Depois de explicar para Applejack e Fluttershy o ocorrido, Twilight se dirigia até o quarto e se aproximava de Spike, já dormindo. Ela ajeitava o cobertor antes de beijá-lo na testa. “Eu te amo, filho.”

Não demorou muito para que a biblioteca ficasse em silêncio novamente. Mas dessa vez o silêncio não transmitia um vazio, e sim o amor de uma família.

“Eu também te amo mãe.”