Draw Off – Edições nº 01 a 10

 

O Draw Off é um campeonato de desenhos baseado na série de MLP. Teve seu início em 12/08/2012 e continua ativo até hoje. Para maiores informações, visite: http://sonicrainboom.com.br/forumdisplay.php?fid=55

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Números

Números

 

Autor: Pastel Pony

Tradução: Drason

SINOPSE: Sr. Rich é bom em muitas coisas, como investimentos, negócios e ações. Ele sempre se considerou um bom pai também. Porém, quando Cheerilee o chama para uma reunião em particular, ele terá que encarar o fato de que sua filha pode não ser tão perfeita quanto pensava.

 

****

Números.

Eu conheço muitos números.

Sei como resolver equações e descobrir o melhor lucro. Eu facilmente desenvolvo porcentagens.  Posso organizar dados em gráficos complexos, que impressiona qualquer um.

Meus números e eu impressionamos muitos pôneis… o que faz eles me admirarem.

Eu estudei todas as regras da alta sociedade, e aprendi as gírias da fazenda.

É parte do meu trabalho fazer os pôneis simpatizarem comigo.

É isso que resulta em um bom negócio.

E eu sou um ótimo negociante.

…Embora números só vão muito longe em certos lugares.

Claro, isso irá te ajudar a caminhar em um estado financeiro firme caso sua vida pessoal venha a desmoronar. No entanto, eu descobri que esses números vêm a calhar durante uma batalha de custódia… os juízes gostam de ver o ranking salarial quando é destinado ao sustento de uma criança. Suponho que conta para alguma coisa.

Números me ajudaram a manter minha filha… e ela é a única coisa que fiz em minha vida da qual mais me orgulho.

Eu me inclino para frente enquanto caminho e ajeito a tiara da minha filha. Aquela coisa sempre parece que está a ponto de cair da cabeça dela. Temo que se quebrará algum dia. É muito antiga… foi um presente da minha mãe há muito tempo atrás. Eu queria que ela não usasse na escola, pois acabaria danificando. No entanto, Diamond realmente adora aquela tiara…

“Quer que eu te pegue depois da escola?” Perguntei. Normalmente, o mordomo faz isso por mim, mas como não tenho nenhuma hora marcada no trabalho, seria bom passar algum tempo com ela. Nós… temos crescido mais distantes recentemente. “Podemos ir ao Torrão de Açúcar tomar um sorvete, como nos velhos tempos.”

Ela rolou seus olhos. “Pai, isso foi quando eu tinha… cinco anos. Sou muito velha pra isso agora, e também tenho um encontro com a Silver Spoon depois da aula.”

Eu ri. Como alguém poderia pensar que ela era velha demais para um sorvete?

“Tudo bem, querida. Talvez outra hora.” Diamond rolou seus olhos novamente, mas acenou. Eu não sei porque ela faz isso muito… talvez por ser coisa de criança? Eu deveria falar com ela sobre isso, pois quando eu era criança isso era considerado rude.

Ela parou na entrada da escola e olhou para mim. “Ok, chegamos, então tchau.” Ela se virou para sair, mas eu a puxei para um abraço. “Paaaaaiiiii!” Ela gritou, se afastando. Eu sorri timidamente antes de erguer o casco e ajeitar a tiara na cabeça dela novamente.

“Desculpe.” Eu disse. Ela bufou, e começou a caminhar até a pequena escola vermelha. “Boa aula, Diamond!” Eu disse. Seus ouvidos contraíram, e ela caminhou mais rápido. Fiquei observando ela se distanciar até chegar próximo ao parquinho, então me virei apenas para escutar uma voz agradável me chamar.

“Oh, Senhor Rich! Será que podemos conversar?”

Era Cheerilee trotando em minha direção. Assim que chegou no portão, ela se inclinou contra ele para recuperar o fôlego, antes de olhar para mim com um sorriso.

“Eu estava esperando encontrar você! Será que podemos nos encontrar depois da aula para uma breve conversa?”

“Por que?” Eu perguntei.

“Bem… eu…” Ela olhou para baixo e arrastou seus cascos antes de morder os lábios. “É sobre Diamond Tiara. Prefiro conversar em particular onde ninguém possa nos ouvir, mas agora preciso voltar para as crianças… é muito importante. Pode ser hoje à tarde?”

Eu dei de ombros. “Não estou ocupado hoje, então acredito que sim. Diamond… está em apuros?”

Ela suspirou, se mexendo ligeiramente, caminhando de volta para a escola. “Vamos assim dizer.”

“Obrigada por vir.”

Eu simplesmente sentei no lado oposto à mesa de Cheerilee e esperei. Quase temi ouvir o que ela poderia dizer. O que em Equestria poderia ter ocorrido para merecer uma conversa em particular com a professora? Sei que as notas de Diamond são boas, então não poderia ser por isso. Talvez… só esperava que não fosse nada ruim.

Ela simplesmente se sentou na minha frente em uma contemplação silenciosa, até eu limpar minha garganta e fazer a pergunta que ficou na minha mente o dia todo. “Qual seria a razão dessa conversa?”

Cheerilee desabou lastimosamente. “Eu… receio que os assuntos que escrevi pra você na semana passada foram persistentes. Os problemas da Diamond Tiara com os outros alunos estão ficando cada vez mais fora dos cascos, e apesar de eu tentar as punições mais adequadas, estou tendo problemas para chegar nas medidas disciplinares mais adequadas para ela.” Ela abaixou o olhar. “Talvez eu nunca consiga.”

“Espere aí!” Eu levantei um casco e olhei para ela. “Que cartas? Que assuntos? Do que você está falando?”

Ela piscou. “…As cartas que eu tenho endereçado a você e pedido para a Diamond entregar. Eu enviei uma na segunda feira e outra na quinta.”

Eu rapidamente sacudi minha cabeça em confusão. “Senhorita Cheerilee, eu não recebi nenhuma carta de você.”

Cheerilee encolheu perante meu olhar. “Oh…” Ela sussurrou. “Parece que Tiara manteve as cartas com ela então ao invés de entrega-las a você.” Ela franziu a testa. “Na verdade, até faz sentido.”

“Por que não me enviou pelos correios?” Perguntei.

“Eu… apenas parecia um pouco impessoal. Sempre enviei cartas através dos alunos quando precisava falar com os pais.” Ela encolheu os ombros e enrugou o nariz. “Normalmente os alunos entregam as cartas sem nenhum problema. Eu escrevo para os pais por várias razões, então quando coloco o nome deles nos envelopes, os alunos já sabem que é para entregar.” Ela pausa. “Quando você não respondeu as cartas, imaginei que estivesse ocupado com o trabalho e acabou esquecendo.”

Eu suspiro e levanto meus cascos para esfregar minhas têmporas doloridas. “Diamond é muito inteligente… provavelmente ela sabia sobre o que eram as cartas.” Cheerilee acenou. “Falando nisso, ainda não sei qual era o assunto. Quais são exatamente os problemas que Tiara está tendo com os outros estudantes? Algum pônei provocando ela?”

“Na verdade, o contrário.”

“…O que?”

“Diamond Tiara tem o costume de provocar e incomodar os outros alunos, Sr. Rich. Ela… ela faz bullying com eles.”

“Tiara?”

“Minha Tiara?”

…Minha filha nunca machucou ninguém em sua vida.

Como ela poderia…?

Não.

“Não…” Eu suspirei. Fiquei olhando para Cheelilee e depois soltei uma risada nervosa. “Sinto muito, Senhorita Cheerilee. Pensei ter ouvido você dizer que minha filha pratica bullying na escola.”

Cheerilee acenou, e eu me senti imediatamente enjoado. “Não… não, não, não…“ Balancei minha cabeça freneticamente, tentando rejeitar o que acabei de ouvir. “Isso não pode estar certo.”

“Sr. Rich…”

“Não!” Eu levei meu casco até a mesa com um estalo. “Me recuso a acreditar nisso! Se isso é verdade, por que não tentou falar comigo antes?”

Cheerilee murchou. “Quando percebi as provocações pela primeira vez, conversei com a Tiara sobre ferir o sentimento de outros pôneis. Quando persistia, eu a proibi temporariamente dos recreios. Depois que algumas semanas pareceu que ela parou, então não vi necessidade.”

“Então o que faz você pensar que há um problema agora?”

“As provocações começaram de novo, e piores do que antes.” Ela abaixou seu olhar. “Estou começando a me perguntar se… se ela realmente havia parado. Eu acho que Diamond parou com o bullying apenas nos locais onde eu podia observá-la. Ela foi banida do recreio de novo, mas tenho certeza que ela continua fora da escola.”

Eu olhei para ela. “Como você sabe? Se você não vê, como pode ter certeza que continua?”

Cheerilee fungou, e percebi que ela realmente estava chateada. “Eu apenas posso, Sr. Rich. Posso ver pelos outros alunos pela forma como eles a evitam na aula e no recreio. Posso ver os suspiros de alívios que ecoam pela sala quando ela está ausente. Eu…”

Eu a interrompi. “Essa não é uma evidência real de que ainda ocorra bullyings.”

Cheerilee ficou por alguns segundos me olhando. Ela abaixou novamente a cabeça e suspirou. “Eu sei o que está acontecendo… não sou estúpida.“ Ela franziu a testa zangada e jogou uma pasta perto de mim. Dentro havia várias cartas, todas endereçadas à Cheerilee.

“Eu… eu certamente sei que estou certa quando Ditzy escreve para mim dizendo que sua filha está chorando porque Diamond Tiara tira sarro dela por não saber quem é seu pai… ou quando Rainbow Dash me manda uma carta dizendo que a única razão de Scootaloo se esforçar precocemente a voar é devido a alguma coisa que Diamond disse sobre as asas dela.”

Eu afundava na cadeira enquanto as palavras de Cheerilee ecoavam em minha cabeça. Meus olhos não conseguiam se desviar das cartas dentro daquela pasta. “Ela… ela não poderia…”

“Eu temo que poderia, Sr. Rich. As outras crianças têm medo dela, e eu posso ver. Você acha que não conheço meus próprios alunos?” Cheerilee abaixa a cabeça, enterrando seu rosto entre os cascos na mesa. “Eu… eu não sei mais o que fazer.” Ela treme por um segundo, antes de começar a chorar, soluçando enquanto tentava falar. “Eu… estou no final da minha compreensão. Não posso mais li dar com ela, não posso… nem expulsar,  o regulamento só permite isso se for agressão física, sendo que as agressões psicológicas dela chegam a ser piores que física. Se… se você pudesse arrumar um jeito de fazê-la parar, eu não sei o que mais posso fazer.”

Eu só podia olhar para ela, com o choque atravessando meu corpo vendo aquela pônei vermelha normalmente alegre e simpática explodindo em lágrimas… por causa da minha filha. Diamond Tiara a machucou. Ela…

“Eu… o que você espera que eu faça?”

“Cor… corrija ela.” Cheerilee sussurrou, ainda incapaz de olhar para mim. “Corrija… ou mude ela de escola, ou… apenas faça algo antes que ela machuque mais alguém.”

“Mas…” Eu apenas podia olhar, antes de levantar lentamente com as pernas balançando, e então me virando e saindo da escola.

Acabei perto de um rio.

Eu sempre pareço vagar por aqui quando tem muita coisa passando pela minha cabeça… no topo da ponte que atravessa o pequeno rio de água dançando seu caminho abaixo por entre as margens e gramas. É um bom local para pensar.

Normalmente eu venho aqui quando tenho uma grande decisão a tomar no meu trabalho, em meus negócios. Para investir em alguma coisa ou não, para comprar isso ou vender aquilo, para dar suporte à pequena empresa ou a uma grande empresa já estável.

Mas hoje estou aqui pela minha filha.

A água brilhava como as pequenas pedras preciosas da tiara que Diamond usa, e eu só podia olhar para ela enquanto refletia sobre a conversa com Cheerilee mais e mais… e mais.

Poderia estar errado sobre a minha própria filha?

…Como foi que eu nunca percebi isso antes?

Eu realmente me importo?

Eu tremo só de pensar. Eu realmente poderia estar disposto o suficiente para ver as falhas da minha própria filha, das quais Cheerilee me falou e eu ignorei esse tempo todo? Se o que ela disse for verdade… eu já fui cego demais para ver aquilo que deveria ser o óbvio por meses.

Eu observei a macieira do rio, e me lembrei do jeito que ela riu da Applebloom com fantasia de coelho no dia que a levei para o Rancho Maçã Doce. Na época, apenas imaginei que fosse uma risadinha entre amigos. Agora… agora não tinha certeza.

O simples fato estava diante de mim como sempre… em números. Quinze alunas e alunos infelizes… sendo que removendo apenas um deles da equação, os demais se beneficiariam. Era algo do qual eu não tinha escrúpulos, quando os mesmos problemas surgiam no local de trabalho. Funcionário causando problemas? Suspenda ele para criar um melhor ambiente de trabalho para o resto dos empregados, e assim aumentar a produtividade da empresa com funcionários mais contentes.

Mas dessa vez não era alguns trabalhadores reclamando de um colega… foi uma professora perguntando se desejava corrigir minha filha… ou mudá-la de escola.

As palavras de Cheerilee vinham à minha cabeça novamente. Ditzy, a amigável carteira, e sua doce filha Dinky… chorando por causa da Diamond… por causa de alguma coisa que Diamond disse intencionalmente para feri-la.

Eu me sentia mal do estômago. Foi muito rápido… não estava de forma alguma preparado para isso. Levantando um casco, o levei até o tecido marrom da minha gravata. Apesar de todas as outras que possuo, esta é a minha favorita. Diamond a encontrou quando era pequena e costurou um cifrão em dólar nela para combinar com a minha marca especial. Eu movimento ela para o lado e coloco meu casco em um bolso, tirando para fora uma foto da Diamond quando ainda era pequena. Sempre mantenho ela comigo, pois assim posso me lembrar porque trabalho duro todos os dias…

Passando o casco ao longo da borda da fotografia, deixei escapar um suspiro. Eu não consigo achar culpa nesses grandes e inocentes olhos, e nesse sorriso alegre. Então… eu vejo olhos que rolam de vergonha, e um sorriso que se transforma em uma irritada bufada seguida de uma carranca.

E então eu entendi.

Onde foi que eu errei?