Sem palavras para descrever – Livro I – Cap.08 – Amanhã

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Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

Equestria — Ponyville — Biblioteca, 13 de Fevereiro, 21:09. 

A Prefeita se aproximou de Twilight, meio preocupada — Boa noite novamente, Srta. Sparkle! Está bem recuperada? Não se sente mais… cansada?

— Estou, sim, bem recuperada, Srta. Prefeita. Realmente estou muito melhor agora! — respondeu Twilight com entusiasmo — Agradeço a preocupação, mas pode ficar tranquila. A reunião continuará, sem mais atrasos e interrupções! Estou confiante disso!

— Magnifíco, Twilight! — disse Rarity, batendo os cascos — Sua segurança é digna de se apreciar! Perfeito!

— Até que fim deixou de ser uma cabeçuda turrenta! — Rainbow Dash ergueu um sorriso maroto, seguido de um tapinha nas costas de Twilight. — Mas ainda falta muito para deixar de ser cabeçuda.

Rarity novamente fechou a cara, — “Ela ainda fica fazendo piadinhas. Hunf. Rainbow não muda nunca.” — pensou ela, bufando pelas narinas.

Mas para a sua surpresa, Twilight não se incomodou com a piadinha; até começou a dar uma risadinha junto com a Rainbow. Ela estava muito bem humorada; até parecia ser outra pônei que não a sua estressada amiga.

A Prefeita sorriu e deu espaço para Sparkle passar. A pônei de caqui trotou calmamente de volta ao seu lugar enquanto a pônei cor-de-lavanda se dirigia para o centro da mesa. Rarity a estava acompanhando logo atrás. Já Rainbow Dash planou levemente pelo ar e pousou em uma cadeira do outro lado da mesa.

Porém, Twilight encontrou um reconhecível corpo barrento que surgiu não mais que de repente ao seu lado. Rarity também percebeu e assustou-se um pouco. E, quando ela o reconheceu, conseguiu ficar mais pálida que sua própria pelagem.

Capitão Stubborn estava ereto, bem ao lado de Twilight Sparkle. Ele a olhava do alto, baixando levemente a cabeça, com os olhos baixos e nariz reto. Twilight encarava ele de volta erguendo a cabeça e um queixo suspenso. Seus olhos púrpuras alfinetavam os olhos sombrios de Stubborn, quem não esboçava uma sequer reação; como sempre. Rarity engoliu seco, meio nervosa. Ela não sabia realmente se Twilight estava preparada para conversar ou até mesmo olhar para o bruto convidado que apenas a prejudicava moralmente de seus atos mesquinhos e egoístas. Isso a preocupou um pouco, será que Sparkle vai se estressar novamente e se exaltar?

— Nossa Dedicada Aprendiz da Princesa parece recuperada. — disse Stubborn para começar. — Trouxe a responsabilidade e maturidade contigo?

— Não só isso: Boa noite, Capitão Stubborn. Vossa presença será importante para a reunião de hoje. Se possível for, após ela, gostaria de conversar com o senhor em particular. Acredito que tenha mesma coisa em mente.

Stubborn ergueu uma sobrancelha — Deveras tenho e desejo, Nossa Perceptível Aprendiz da Princesa. Terá minha total atenção após a reunião, caso queira. Espero receber o mesmo de Vossa Faladora Aprendiz da Princesa.

— Com a maior certeza receberá. Disso não terá a menor dúvida. Ficarei lisonjeada em ouvir o que tem a dizer. Se me der licença, preciso começar o que o senhor está atrasando. — ela assentiu cordialmente com a cabeça e se virou, trotando em direção a sua cadeira na ponta da longa mesa.

Stubborn ficou parado, olhando para a nuca de Twilight Sparkle conforme ela se distanciava dele. Ela impôs sua atenção no que era mais importante no momento: A reunião. O que quer que os dois queriam falar, isso era para mais tarde.

Rarity também ficou um pouco imóvel; seus olhos azuis-diamantes brilharam com uma certa intensidade. Esse pequeno encontro foi o suficiente para ela orgulhar-se de sua amiga e de seu novo autocontrole.

— Incrível como ela cresceu de uma hora para outra. — pensou Rarity, erguendo um esperançoso sorriso — Está realmente mais confiante de seus atos do que antes; ela tinha medo até de dar o primeiro passo. Até onde você vai, Twilight Sparkle?

Ela aproximou-se de Stubborn bem devagar, para não chamar atenção. Rarity se sentia resoluta por alguns momentos, meio receosa se ia levar ou não uma patada moral daquele montanhoso indivíduo.

— Acho que deu certo, Capitão. — disse Rarity, aos sussurros, com o casco ao lado de sua boca — Realmente achei que não ia funcionar o que o senhor pediu para nós fazermos. Estava enganada; gostaria de agradecê-lo por se preocupar e ter ajudado minha amiga.

Stubborn permaneceu sério, ainda encarando a unicórnio cor-de-lavanda sentada em sua cadeira que folheava os papéis, organizando seus pensamentos e planos. Rarity demonstrou-se um pouco nervosa por estar ao lado dele. Sua fronte branca começou a ficar um tanto oleosa por causa do suor frio.

— Saiba que eu mesmo poderia ter feito isso. — disse ele finalmente numa voz grave, mas baixa.

Rarity virou seu rosto, surpresa em ouvir uma resposta dele.

— Mas, para ela, eu não sou ninguém. Até porque seus atos de hoje fizeram com que tivéssemos uma relação muito atrita. Nossa Nervosa Aprendiz da Princesa não me ouviria, a não ser de suas mais próximas amigas. A Vossa Gentil Estilista e Nossa Atlética Pégaso eram as melhores opções para trazê-la ao bom senso. Não há mais nada com que se preocupar com ela. Vou assumir a responsabilidade por ela a partir de agora. Com licença. — Stubborn virou seu rosto para Rarity e assentiu levemente com a cabeça; uma singela despedida.

Rarity ficou sem ações, mas respondeu de volta com um mesmo aceno com a cabeça. Stubborn a deixou e foi se sentar em seu lugar, perto de Sparkle, onde ele possa ver e ouvir bem.

A pálida unicórnio ficou boquiaberta; aquele bruto simplesmente foi gentil com ela? “Vossa Gentil Estilista”? Finalmente ela conseguiu identificar um elogio daquele corcel barrento. De alguma forma, ela se sentiu realizada com aquele título. Não era um grandioso título como ela realmente gostaria que fosse, mas ainda assim era adorável.

Mas Rarity não podia parar para pensar: Por que ele estava sendo gentil agora? O que aconteceu para ele repentinamente mudar de comportamento, assim como sua amiga Twilight Sparkle? Como assim “assumir a responsabilidade por ela”? O que está havendo? E qual é o plano dele?

Twilight Sparkle chamou-lhe pelo nome com educação. Rarity se sobressaltou e olhou ao redor, saindo de um curto transe. Ela percebeu que apenas ela restava no espaçoso cômodo para se sentar; até a Pinkie Pie, que estava meio sumida desde que foram para a cozinha, estava lá sentada ao lado de Stubborn. Ela riu nervosamente, desculpou-se e foi se sentar em seu lugar.

Twilight Sparkle limpou sua garganta — Boa noite e agradeço a presença de todos. Perdoem-me pelo o que aconteceu esta noite se deixei muitos pôneis preocupados comigo. E digo-vos solenemente: Estou muito melhor agora e peço para que não se preocupem. — ela olhou nos rostos dos convidados presentes, alguns pareciam estar aliviados mas outros nem tanto.

— Já li os papéis que a Srta. Prefeita organizou para mim — Twilight agradeceu a Prefeita e a mesma agradeceu de volta, trocando acenos com a cabeça — e darei as funções e tarefas oficiais para todos. Mas antes preciso fazer a chamada para registrar suas presenças.

Twilight acendeu seu chifre com um brilho roxo. Ela levitou um pergaminho enrolado da mesa e o desenrolou. Com uma pena flutuante, começou a marcar as presenças pelo topo da folha. Os nomes estão organizados brevemente em ordem alfabética: Applejack; Pinkie Pie; Prefeita; Rainbow Dash; e Rarity. Cada nome citado foi perguntado e respondido com um “presente”; e Sparkle marcava-os ao lado. Twilight observou os convidados extras que estavam, no momento, fora de sua lista: Capitão Stubborn, que estava ao seu lado com a mesma expressão irritante de sempre, e Foreign Eye, que estava sentado na ponta do outro lado da comprida mesa entre os dois.

Sparkle olhou para Foreign com os olhos levantados e nariz apontado para o pergaminho. O rosto cremoso dele estava calmo, mas seus olhos celestes a encaravam com uma súbita dúvida. Ela não entendia essa atenção dele sobre ela, mas ainda acreditava que seja pelo vergonhoso ocorrido momentos atrás. Twilight abaixou os olhos com tristeza e escreveu os nomes manualmente na lista. Marcou-os em seguida, confirmando suas presenças, e descansou a pena no tinteiro.

Foreign percebeu que algo a incomodava. Ele ainda sentia preocupação pela saúde de Srta. Sparkle, novamente por causa do ocorrido, mas sua preocupação não era por pena. Estava apenas incomodado. O elegante corcel ia dizer algo, mas ficou resoluto. Encostou-se na cadeira e mudou sua atenção para as seguintes palavras de Sparkle.

— Todos estão presentes. — com um outro brilho mais intenso de seu chifre, o pergaminho se desfez no ar com um flash branco; suas energias realmente pareciam revigoradas — Vou começar a oferecer suas tarefas para amanhã.

Sparkle acendeu novamente seu chifre com um brilho roxo e papéis que estavam diante dela foram distribuídos numa roda reta e organizada; essa roda girou por sobre a mesa, diante dos convidados presentes. Cada papel flutuante estava destinado ao dono da tarefa; alguns receberam grandes maços, outros poucos. Applejack recebeu a menor pilha porque sua tarefa já era óbvia: ela cuidava dos mantimentos da cidade com a fazenda de sua família. Nas folhas que recebeu, apenas continha números de lotes e identificação para separar os produtos e endereços para entregá-los e armazená-los. Já Pinkie Pie ganhou a maior das brochuras, contendo vários preparativos, brincadeiras, aperitivos, receitas, drinques e guloseimas que ela tinha que providenciar com os Cakes. Ela bateu os cascos alegremente — não pela pesada pilha de tarefas diante dela, mas pela mágica que Twilight executou de forma surpreendente —. Uma pilha menor que a da Applejack foi entregue ao Stubborn e à Rainbow Dash: nenhuma folha foi passada para eles.

— Hã… Twilight? — perguntou Rainbow, confusa — E então? Cadê minhas tarefas? Vai me dizer que pretende me deixar de fora?!

— Sua tarefa creio que você já sabe, Rainbow. Não é necessário de papel para entregar-lhe. Apenas minha confiança e de todos é o suficiente.

Todos na mesa acenaram com a cabeça, concordando; juntamente com sorrisos, vindos dos mais íntimos.

Rainbow coçou um pouco a nuca, — Hehe. Tá certo, então.

— Além de, creio eu, que o Capitão Stubborn já possuí outras tarefas em mente para amanhã e nos próximos dias. Ele irá passar essas tarefas para você, já que os dois vão trabalhar juntos. Não é verdade, Capitão?

Stubborn suspirou com desdém — Sim, é verdade. — grunhiu ele — Portanto esteja bem preparada, Nossa Atlética Pégaso, — ele olhou para Rainbow ao seu lado pelo canto do olho — pois meus rapazes vão chegar aqui para organizar a segurança dos cidadãos e você irá me acompanhar. Isso se conseguir…

— Irei acompanhá-lo até a Lua, se Princesa Luna permitir! Quero ver é você seguir minha sombra! — Rainbow Dash riu com orgulho. Stubborn apenas bufou.

Twilight Sparkle falou por mais alguns longos minutos, tentando explicar o máximo possível sobre os planos para aquela semana e como começariam a pô-los em prática. No final, todos começaram um pequeno debate, oferecendo vossas opiniões; sejam elas pessoais ou não. Pinkie Pie era — surpreendentemente — uma dos poucos convidados a falar. E, quando falava, era com piadinhas, brincadeiras e até dava ideias “super-hiper-mega-divertidas” para os visitantes quando chegarem a Ponyville. Muitos não se irritavam ou ficavam nervosos com sua atitude infantil na reunião pois ela declarou que sabia perfeita, confiante e mirabolantemente o que tinha em mente e o que fazer amanhã. “Afinal, é amanhã que começa o trabalho; não há porque se preocupar com ele agora”, ela afirmava.

Rarity disse sua opinião quanto a organização e os preparativos dos eventos, citando assentos para o palco, hospitalidades para os visitantes, mesas numeradas e ordenadas para as reservas. Ela era bem cuidadosa nessa parte; queria o máximo de conforto e praticidade para eles. Rainbow Dash até ajudava em suas ideias mas também alertava quando Rarity queria enfeites e efeitos mirabolantes como tochas, grandes painéis, longos laços por toda vila ou mesmo fogos de artifício. Twilight escutava todos os argumentos; aprovava e rejeitava quando necessário. Alguns momentos Foreign Eye se pronunciava e dava sua opinião em itens que Twilight aceitava e rejeitava, refavorecendo e dando mais uma chance de ela, quem sabe, mudar de ideia.

A tarefa de Foreign era auxiliar Sparkle na organização para não ficar afobada e não tomar decisões precipitadas. Ela acatava o que Foreign argumentava, como também ignorava quando não havia sentido para mudar de ideia. Os dois pareciam meio receosos um com o outro ainda. Sparkle fazia o possível para não ser turrenta ou infantil na frente dele e tomar uma atitude mais madura; já Foreign não sabia ao certo se a ajudava manualmente ou se apenas a orientava de longe. De qualquer forma, ou um ou outro meio iria fazê-lo se aproximar de Twilight Sparkle; isso infelizmente o incomodava.

O debate perdurou pelos restos das horas que podiam usar naquela noite. Quando começaram eram 21:12 da noite — isso são mais de uma hora de atraso! —, mas, com êxito e sem mais interrupções, conseguiram pôr os assuntos a mesa e o carimbo nas folhas antes das 23:00. Algumas suspiraram cansadas, outros bocejaram num alívio momentâneo.

— Acredito que já deu por hoje, amigos. — disse Twilight com os olhos um pouco caídos, mas tentava mantê-los bem abertos — Estão dispensados. A reunião acabou. Vejo todos vocês amanhã bem cedo no Sweet Apple Acres. Temos, ao todo, alguns dias para quando começar o Grande Evento. Obrigada e uma boa noite a todos.

Pôneis aplaudiram com uma satisfatória alegria, mas já começaram a se levantar das cadeiras e tomar os seus rumos para a saída da biblioteca. Deram-lhes boa noite uns com os outros, tanto verbalmente como em abraços amigáveis. Rainbow Dash, Rarity e a Prefeita foram as primeiras a deixarem a biblioteca para trás e irem rumando para suas casas. Como iam na mesma direção, aproveitaram os últimos minutos para conversarem entre si na calada da noite.

— Que noite mais charmosa e adorável! — exclamou Rarity, olhando pro alto com admiração. — Uma pena que hoje eu prefira dormir mais do que apreciá-la. Foram um dia e uma noite cansativas, até para mim! Se meu sono permitisse e tivesse alguém para me fazer companhia nesta linda noite, faria de bom agrado. — terminou ela com um suspiro sonhador.

Rainbow Dash respondeu com a língua para fora, meio enojada. A Prefeita rolou os olhos com um sorriso torto, apesar de compartilhar da mesma falta e anseio.

Applejack permaneceu mais um pouco para certificar-se de que Twilight estava bem e se não ela não estava escondendo nada. Sparkle, após muita insistência, conseguiu convencê-la de que estava tudo realmente bem.

— ‘Noite, Tualáiti! Druma bem, visse?! — disse a pônei alaranjada, alertando-a uma última vez.

— Boa noite, Applejack. — respondeu ela. — Vou dormir, com certeza. Vou fazer questão de ir em sua casa e puxar seu casco para fora da cama, caso ainda insiste!

Applejack riu um pouco e foi se distanciando. Twilight fechou a porta da biblioteca e a trancou em seguida. Durante sua curta caminhada pela rua noturna de Ponyville, AJ encontrou com Foreign um pouco mais a frente, olhando ao redor. Parecia estar perdido e tentava procurar alguma coisa, mas era difícil enxergar no escuro, mesmo com as fracas luzes dos postes nas ruas.

— Está difícil de ler placas com essas luzes fracas! — pensou ele aos suspiros — Taí uma coisa para conversar com a Srta. Sparkle para resolver amanhã…

Applejack aproximou-se por trás sem ele perceber, — Tá perdido, Nhô Aiê?

Foreign assustou-se um pouco, mas reconheceu a voz de Applejack. Ele se virou para ela, meio envergonhado.

— Pois é, Sinhá Applejack! — riu ele — Acabei de chegar a cidade, mas não consigo descobrir que rua é esta para tentar achar a rua da casa onde estou hospedado. A Princesa Celestia me deu o endereço mas não pude passar lá ainda.

— Bah! Sem pôbrema, Nhô Aiê! Dêxa’vê o nomi da rua, posso ti guiá inté lá, si voismicê quisé.

— Muito obrigado, Sinhá Applejack! Ficaria muito agradecido! — Foreign xeretou um dos bolsos de seu terno com o focinho e mostrou um pequeno papel anotado para Applejack, segurando-o com a boca.

Applejack rapidamente leu o que estava escrito e riu com entusiasmo. — Haha! Conheço essa rua, sim, sinhô! I é caminho donde é minha casa! Podêmo acertá dois coêio numa cajadada só! Acumpanha mais eu! — ela terminou acenando com o casco.

Foreign guardou o papel com um sorriso no rosto e seguiu sua guia Applejack, que já estava um pouco a frente. Eles trotavam em um caminho fofo e campeado em grama verde-escura. Dos dois lados do largo caminho, as casas dos habitantes cresciam a uns dois ou três andares, variando conforme avançavam silenciosamente em trotes abafados sobre a grama irriquieta. As casas eram feitas de madeira, pintadas de branco ou em tom marfim. Pelas arestas ornamentavam com retas em cor madeira ou em vermelho indiano. Seus telhados eram cobertos por colmos secos; poucos deles tinham uma ou duas chaminés em tijolos. Moitas e pequenos arbustos acompanhavam janelas e portas térreas; em alguns tinham flores sonolentas em tons sombrios, outros faiscantes vaga-lumes que dançavam ao redor. Não era possível enxergar as placas que ficavam penduradas nas portas das vizinhanças, mas ainda podiam-se ver janelas abertas e acesas. Sombras fantasmagóricas atravessavam elas, assim como vozes em conversas amigáveis e música calorosa. As lamparinas espalhadas pela rua emanavam uma cor amarelada, o suficiente para abrir caminho pela escuridão das vielas e sombras dessas casas aglomeradas.

— Aliás, Nhô Aiê. — disse Applejack, puxando assunto — Percebi uma coisa quâno ocê chegô nim Ponyville: donde ocê deixô suas coisa; sua mala? Si o sinhô disse qui num havia passado na casa qui tava hospedado? Num mi diga qui o sinhô as deixô jogada puraí?!

— Não, não! Não as deixei por aí. — respondeu ele com uma risada — Veja: Quando a Princesa me chamou, tinha sido uma chamada de última hora. Nossa Majestade me deu a tarefa de vir para cá para auxiliar a Srta. Sparkle nos preparativos para o Grande Evento. Mas tive que vir para cá o mais rápido possível, antes das 20:00, que é quando começava a reunião.

— Hm, tô intendêno. — Istranho a Princesa fazê coisas di úrtima hora… Qui qui será qui tá assucedêno?

— Então: Quando eu cheguei aqui, — continou Foreign — eram quase 20:00; tive que ir direto para a biblioteca, mas ainda assim cheguei um pouco atrasado.

— Tá certo, Nhô Aiê. — ela acenava com a cabeça positivamente — Inté aí intendi, már i suas mala, criatura?! Ficô mi embromâno i num mi disse inté agora!

— Ah, sim! — ele se sobressaltou, com um relapso repentino em sua memória — Bom…. Eu não as trouxe, na verdade! — terminou ele com uma risada meio irônica.

— “Num trôxe”?! — AJ virou para ele, atônica — Oxênte, como ansim?!

— Foi como eu disse, Sinhá Applejack: Saí de Canterlot às pressas e não pude prepará-las. A Princesa me certificou que enviaria minhas malas prontas para Ponyville pela manhã. Então, tomei uma de suas carruagens e vim para cá.

— Hm, tá expricado. Már num tem pôbrema! Aminhã chega suas coisa bem cedinho, si conheço bem uma certa intregadora! — e ela lembrou também — Ah, sim, Nhô Aiê! Num sei si o sinhô já tinha prânos pra tomá café-da-minhã aminhã, már si quisé, pódi passar lá nim casa qui vai tê um bem caprichado pra todos qui tão trabaiando nas construção!

— Maravilhoso, Sinhá Applejack! Com o maior prazer irei! Assim que souber como chegar lá… — terminou com uma risadinha.

— Hehe! Num vai sê difícir! É só prêguntá pra quarquér um na vila: “Cum licença, donde Sinhá Applejack mora?”. Eles vão ti indicá o caminho!

— Hu-hum. Está certo. — disse ele, agradecendo a gentileza da anfitriã — Vou passar lá.

Os dois foram-se caminhando pela estrelada noite da Princesa Luna. Applejack ainda conversava um pouco sobre sua fazenda e sua família. Falou de seu irmão mais velho, sua irmãzinha e de sua avó querida. Também falou de seu trabalho com as safras de maçã quando estavam maduras e o que se podia fazer com elas. As receitas que ela mais adorava eram Cidra de Maçã, caramelizadas Maçãs-do-Amor e não mais que um belo Apfelstrudel. Foreign também falou de uns doces que gostava como Torta de Creme e Bolo de Rolo; uma delícia, até ficou com água na boca só de tentar lembrar o gosto. AJ perguntou mais sobre seu reino de origem, o Reino das Terras Férteis. Esse nome a interessou muito quando leu o livro e quis saber mais sobre seu significado. Muita coisa comentada no seu livro ela já sabia, Foreign percebeu que não adiantava comentar tudo o que já continha lá. Mas Applejack queria saber mais sobre as terras, os campos de lá; se eram tudo aquilo mesmo que ele descreveu naquela grandiosa obra. Seus olhos esmeralda faiscavam em ansiedade para conhecer mais sobre os terrenos férteis e vívidos daquele reino qual todos o titularam como “Mágico”. Foreign suspirou com um sorriso.

Applejack ergueu o casco ao longe para sua esquerda e Foreign seguiu-a amistosamente, enquanto contava sobre seu reino de origem e suas terras.

***

Com um brilho de seu chifre cor-de-lavanda, Twilight Sparkle fechou a porta de sua biblioteca após despedir-se de sua honesta amiga, Applejack, e a trancou logo em seguida. Descansou a chave na cômoda, onde sempre a deixa à vista para o seu fiel assistente abri-la novamente pela manhã, caso precise. Sparkle suspirou longamente e aderiu uma expressão séria em sua face. Ela se virou e trotou para o último convidado que ainda permanecia em sua residência; pois ambos prometeram que permaneceriam para uma conversa em particular.

— Aqui estamos, a sós para conversarmos. Sem interrupções, nem ouvidos enxeridos. Quer que eu comece ou que o senhor comece, Capitão? — ela já esperava que ele se autoproclamaria para dar a primeira palavra da conversa.

— É preferível que a senhorita comece, Nossa Hospitaleira Aprendiz da Princesa. — disse Stubborn com uma surpreendente educação.

Twilight ficou surpresa; uma súbita mudança de comportamento vindo dele. — P-pois muito bem, obrigada. — ela sentou e limpou a garganta, olhando para Stubborn na suspeita. — Após muita conversa com minhas amigas Rarity e Rainbow Dash, cheguei à conclusão que deveria agradecê-lo… pelo que fez por mim quando eu havia desmaiado pelo meu demasiado esforço.

— Fiz aquilo porque não havia mais ninguém para ajudá-la, Nossa Desesperada Aprendiz da Princesa. — disse Stubborn — Ninguém estava preparado para aquilo e você colocou todos numa situação muito desconfortável…

— Eu sei, Capitão, eu sei. — Twilight ergueu o casco, cortando-o — Por favor, não me venha com esses assuntos moralistas pois já escutei o suficiente vindo de minhas próprias amigas, as quais o senhor as enviou para me acudir quando eu mais precisava de atenção. Mas estou agradecendo o senhor porque minha amiga Rainbow Dash pediu para fazê-lo, não porque o senhor merece.

Ele apertou os olhos, aparentemente confuso — “Não mereço”?

— Sim. — respondeu ela com um aceno com a cabeça — Eu sei que o senhor fez toda aquela cena pra cima de mim de propósito; para me ensinar alguma coisa de um forma bruta e moralista. O senhor estava ciente do que estava fazendo naquela hora; diferentemente de mim, que não havia percebido pois estava meio fragilizada. Eu realmente estava com a guarda baixa mas só percebi depois de muito atrito entre nós. Entendo que aquilo foi necessário para eu aprender com alguns erros de minha parte, mas isso não quer dizer que houve apenas erros meus. Não concorda?

Stubborn não mudou de expressão, mas escutava atentamente aquela unicórnio em seu desabafo. — Concordo. — admitiu ele explicitamente.

Twilight contorceu-se por dentro; sua irritação crescente escapou num aperto entre os lábios — Seu… falso! Então você realmente sabia do que estava fazendo!? Grrr!! — grunhiu ela em seus pensamentos.

Twilight suspirou, tentando descontrair — Devo dizer: se não tivesse agido daquela forma para me ensinar, merecia meu sincero agradecimento. Mas não vou mentir pro senhor, Capitão. Aprendi muita coisa com aquilo, mas ainda assim foi bruto demais.

— Compreendo. — respondeu ele, inexpressivo.

— Mas tenho o direito de saber e espero que me responda: Por que fez aquilo? E como conseguiu fazer aquilo?

Stubborn encarou aquela unicórnio, que olhava para ele com uma expressão séria. Não de uma forma raivosa, mas atenta. Ele apenas suspirou, mas respondeu-a com uma voz grave:

— Como fiz aquilo não posso lhe dizer, apesar de Vossa Julgadora Aprendiz da Princesa dizer que merece ter esse direito. O que eu sabia só cabe a mim dizer, mas não direi. Vejo, escuto e conheço coisas que vão além do que Vossa Inteligentíssima Aprendiz da Princesa desejaria saber, mas não merece; para o seu bem. O que sei sobre Vossa Interessante Aprendiz da Princesa é somente o necessário e o que todos conhecem: Uma pônei com habilidades surpreendentes em magia e heroína de Equestria. Derrotou dois grandes e temíveis seres malignos que ansiavam cobrir nosso Reino com escuridão e caos. Possui um poder oculto que vai além de todas as expectativas, sejam elas para o bem… ou para o mal. Você, Twilight Sparkle, é mais desejada do que pensa.

Twiligh já estava impaciente com aquela ladainha toda de “O Escolhido”; “Aquele que vai puxar o mal pela raiz”; “dissipar todo a maldade de Equestria” que Stubborn estava criando para ela. Ela já sabia de tudo isso, com exceção de todos aqueles títulos imaginários e fantasiosos sobre “Poderes Ocultos”. Isso não passava de um mito, uma parábola. Ficar elogiando e limpando os cascos dos pôneis depois de humilhá-los e pisoteá-los é uma estratégia arcaica e sem fundamentos; ela não cairia nessa nem mesmo se ele estivesse sendo realmente honesto naquele momento.

Ele deve saber de muita coisa; Twilight percebia isso. E também se sentia indignada de ele não lhe contar o que realmente sabia sobre ela para ter feito aquele jogo com seus sentimentos. Mas aquele jogo realmente a ajudou muito, em controlar logicamente suas emoções e não prejudicar mais quem está perto dela. Ela não sabia se continuava com aquilo, indo até o fundo disso, mas também queria saber o que ele tinha a dizer sobre o lado dele da conversa.

— E quanto ao “Por quê”? Isso, ao menos, pode me dizer?

— Posso, mas não preciso. — respondeu ele — Vossa Detalhosa Aprendiz da Princesa já deve estar sabendo e muito disso, já que disse que suas amigas a aconselharam.

Twilight gruniu, juntamente com um suspiro forte. Stubborn estava mesmo enrolando para contar o que sabe. E parece que não irá contar a ela nem sob ameaça; se fosse possível. Mas, parando para pensar, ele tinha razão. O que suas amigas tinham dito e aconselhado a ela sobre as atitudes presunçosas e brutas de Stubborn realçavam o significado do “por quê aquilo tudo”. Justamente para eliminar de vez as ações orgulhosas de Twilight naquela e nas próximas noites. Mas, para isso, ele contava com a ajuda das amigas de Sparkle. Ao que tudo indicava, deu certo. Ela, de certa forma, deixou de ser “aquilo” que ela era e estava deveras pronta para enfrentar seu próximo teste.

— Mas ainda não entendo uma coisa: — disse Twilight Sparkle. — por que dessa brutalidade? Quero dizer, o senhor entrou aqui com anseio de conseguir inimizades e falta de confiança de seus companheiros, ou seja, nós. Ao meu ver, isso não é estratégia deveras inteligente para um Capitão, ainda menos para um General. Ainda não me esqueci do trombicão que o senhor deliberadamente causou a minha amiga Rainbow Dash e das suas palavras grosseiras sobre minha mentora.

— Deveras, não é, Nossa Jeitosa Aprendiz da Princesa. — concordou ele, mas alavancou o tom em seguida — Mas a senhorita não é nenhum Capitão ou General para dizer o que cegamente sabe o que é ser um deles. Sobre esse assunto em particular, não direi mais nada.

Twilight nada respondeu; apenas o encarou, meio irriquieta.

Stubborn mudou o tom, agora mais calmo — Quanto a minha brutalidade, esse sou eu agora. Ou adequa-se ou fique fora do caminho. Não tenho que me importar o que Nossa Orgulhosa Aprendiz da Princesa acha que é certo ou o que é errado. O certo é não me perguntar mais nada sobre isso e o errado é continuar a acusar-me de bruto e alteiro contra sua amiga, sendo que Vossa Esquecida Aprendiz conseguiu ser pior.

 Twilight olhou bem para aquele corcel barrento, tentando entender suas últimas frases — “Consegui ser pior”? “Eu contra a Rainbow Dash”? O que ele quis dizer com isso? — pensou ela.

Então ela lembrou. Percebeu no o que Stubborn estava se referindo entre elas. Um atrito, causado por Sparkle contra sua amiga quando ela estava tentando relaxá-la e acalmá-la por causa do atraso da Prefeita a reunião. Ela lembrou das palavras meio ríspidas que disse; lembrou também do rosto celeste e selvagem da pégaso quando sentiu algo formigar em seu peito pela sua desforra; e se lembrou do triste destino do pequeno banquinho de madeira quando ela descontou toda sua raiva nele. Essas lembranças estavam causando remorso a Twilight, algo que Stubborn já esperava.

Sparkle bufou irritada; “Como ele sabia disso?! Ele não estava aqui quando aconteceu… ou estava? O quê mais ele deve saber?”, ela se perguntou.

— Pois muito bem, Capitão Stubborn. — disse Twilight, tentando conter o tom nervoso — Compreendo que o senhor não pode e não pretende me contar o que sabe — por algum motivo… — mas já disse o que queria dizer ao senhor. Agora, o que o senhor tem a me dizer?

Stubborn adotou uma postura reta e encarou a unicórnio de cima — O que tenho a dizer é de extrema importância, Srta. Sparkle. Tanto vindo de mim como vindo de Nossa Preocupada Princesa. É um assunto extremamente restrito aos outros. Apenas eu; as Princesas; Spitfire, Capitã dos Wonderbolts; e você sabem disso. E ninguém mais pode saber. A senhorita tem minha atenção?

Twilight ficou meio resoluta por um momento. — “Extrema importância”? — pensou ela — Princesa Celestia está tão preocupada assim? Por que só agora ele está me chamando pelo meu nome? Seu comportamento está assustadoramente diferente. Estou começando a entender quando Rainbow Dash disse antes que ele não parecia o mesmo, quando se ofereceu a me ajudar. Isso tudo soa muito estranho; ainda mais vindo dele.

— Peralá! — Twilight ergueu o casco contra ele, na defensiva — O que me garante que o quê o senhor está me dizendo é verdade? Pode ser que o senhor tentou me dar alguma lição, até me ajudou quando eu estava desacordada, mas isso não quer dizer que confio completamente no senhor! Sua brutalidade explícita e o desrespeito em minha casa me alerta que você não é digno de confiança! Só porque o senhor “supostamente conversou” com a Princesa, não quer dizer que eu deva beijar o seu casco e dizer Amém!

— Deveras, não. — respondeu ele sem se alterar. Essa sua calmaria irritou Twilight, como se ele esperasse que ela tivesse essa reação. — Somente palavras não vão convencê-la. Muito menos atitudes pois já demonstrei o quê sou.

— Exatamente! — retrucou ela.

— Mas devo lembrá-la do motivo que de eu estar aqui: A Princesa me enviou aqui. Para quê? Para te ensinar, essa é uma das outras verdades. Além de que, se não me engano, ela fez um documento oficial, comprovando que sou um membro do grupo responsável pelo evento; de que conversei com ela; e de que ela sabe quem eu sou.

Isso era verdade; mais que verdade: um fato. Twilight teve que aceitar esse argumento dele. Stubborn estava começando a convencê-la. O seu cartão oficial como membro do grupo e seu nome na carta enviada pela própria Princesa comprovavam que ele estava dizendo a verdade; e sendo honesto — apesar de tudo —. Twilight também não pode esquecer de sua alta hierarquia militar: Capitão-General de Equestria. De fato, ele conhecia a Princesa e ela o enviou para dar suporte; de algum jeito que ela desconhecia.

— E antes que esqueça, Srta. Sparkle: a senhorita deve-me sua atenção, já que eu lhe entreguei a minha.

Para tudo! Twilight olhou bem para aquele meliante. Ele estava confiante de que, depois daquela revelação, ela faria tudo o que ele quisesse. Estava errado; aquilo, para ela, foi a gota d’água.

— “Atenção”?! O senhor não me deu atenção alguma! Não respondeu direito nenhuma das minhas perguntas! Minto! Desviou de minhas perguntas com respostas inúteis! E ainda quer a minha total atenção depois de sua esdrúxula atenção?!

— Minha atenção foi digna, Nossa Incompreensível Aprendiz da Princesa. Ouvi todas as suas perguntas e respondi todas elas; respeitosamente e de total conhecimento obtido para mim sobre elas.

— Mentiroso! — rosnou ela, apontando o casco novamente para o focinho dele. — Você sabe muito mais do que isso, isso eu sei! Só não quer responder!

— Como eu tinha dito: Só sei o que é necessário saber; mais nada além disso. — disse ele sem tirar os olhos de seu rosto, ignorando totalmente seu casco cor-de-lavanda em riste — Devo destacar que quem estava a procura de respostas era a Nossa Curiosa Aprendiz da Princesa. E fomentei sua curiosidade. Apesar de ser a minha vez de falar, a curiosidade continuou em Nossa Inquieta Aprendiz da Princesa; e ela ainda quer saber mais e mais. Então, se me permite, gostaria de continuar ter sua atenção, já que as respostas que procura só eu posso lhe oferecer no momento.

Twilight Sparkle estava se estribuchando por dentro, ela queria arrancar a verdade de uma vez daquela boca barrenta e cheia de cadeados. Ela percebeu que não vai conseguir respostas desse jeito, de forma bruta e rude, e ele não irá colaborar a não ser do seu próprio jeito.

Não havia mais nada do que fazer. Ela sentou no chão e suspirou, incomodada e rendida. Ergueu sua cabeça e o encarou seriamente; ele tinha sua atenção.

Com um aceno positivo com a cabeça, Stubborn tomou um pequeno fôlego.

— Minha real missão para esta vila, Twilight Sparkle, é, não só para proteger os cidadãos desta vila para o que quer que seja ou está vindo silenciosamente, mas para proteger todos os cidadãos expostos a ela aqui. Não estou sendo dramático pois a Princesa me enviou justamente para te mostrar que o assunto é sério. Essa é a minha primordial responsabilidade. Mas, no momento, tenho uma outra; ordenada pela própria Princesa: Te ensinar. Mas, para isso, preciso de sua fiel colaboração.

Twilight pensou um pouco; assimilou bem o que ele havia dito. O que ele poderia ensinar para ela? O que, afinal, ele poderia saber que a própria Twilight não saberia? E que a própria Princesa não poderia ensinar?

No final, acenou com a cabeça positivamente — Claro, Capitão. Tem minha fiel colaboração. — mas ela o alertou com um casco em riste — Mas quero que saiba que não faço isso pelo senhor: faço pelas minhas amigas e pela Princesa, pelo bem de ambas.

Ele assentiu com a cabeça — Não duvido. — Stubborn tomou um novo fôlego, agora num tom mais sério — Vou explicar o plano aprovado pelas próprias Princesas. Não será fácil concluí-lo e exigirá de muita coisa de você. Até mesmo do que a senhorita não tinha, terá de usar de alguma forma. Será perigoso; muito. É isso que irá acontecer daqui em diante…

***

Não se ouvia murmuros pelo lado de fora. Não havia ninguém na calada da noite trevalesca da Princesa da Noite. Apenas luzes artificiais dos postes e árvores e arbustos tremeluzindo à leve brisa; galhos ricocheteando e folhas ondulando. Morcegos voavam em voos rasantes sobre insetos que passavam transeuntemente ou cantavam apaixonadamente.

A Biblioteca, diferentemente, não estava silenciosa; na verdade, estava bastante irriquieta. As luzes e sombras bruxelantes que vazavam das janelas diziam uma conversa; ou uma fervorosa discussão. Eram duas sombras; uma singela e uma monumental, ao que se pode dizer. Não se ouvia nada pelo lado de fora; os grossos troncos em sua estrutura arbórea conservavam o barulho interno; os zumbidos e folhagem dominavam os arredores. Porém as sombras não mais se mexiam.

Um brilho roxo, fraco e delicado, emanou da testa do pequenino vulto. E se intensificava aos poucos, preenchendo as paredes amareladas num tom lavanda. Ela crescia; aumentava; evoluía, de uma maneira assustadora. De repente, um forte clarão púrpura transbordou das janelas e frestas da biblioteca; junto com um estrondoso som abafado pelas grossas paredes. Ele cresceu e se expandiu tanto naquele cômodo que aderiu uma claridade pálida. Rápido como o feixe de luz; brilhante como a mais frondosa estrela. Em segundos, o clarão se enfraquecia e perdia sua arrebatadora existência, deixando restos de claridade cor-de-lavanda e faíscas ondulantes; felizes e satisfeitas.

Algumas janelas que existiam próximas a Biblioteca se abriram e seus residentes deram uma espiada por fora. Acharam estranho aquele suspeito clarão púrpura emergir do nada, assim como desapareceu. Tentaram descobrir de onde vinha olhando pros lados e comunicando com outros vizinhos em outras janelas. Ninguém entendeu também. Infelizmente, não conseguiram descobrir; nem ver mais nada naquela rua. Ao julgar pelas suas sonolentas expressões em seus rostos, não estavam surpresos com o clarão; acontecia tantas coisas bizarras e absurdas naquela pequena vila que um simples flash não era grande coisa. Já estava tarde; estava muito escuro. Resolveram esquecer o que aconteceu e tentar dormir novamente.

Fim do Capítulo Oito

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