Sem Palavras Para Descrever – Livro II – Cap.01 – Caminhada

Tavi

Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

Capítulo 8 – Amanhã

LIVRO II:

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

Equestria — Canterlot  — Casa da Srta. Octavia, 13 de Fevereiro, 06:58.

 

Os raios solares do astro ao comando da Princesa Celestia emergiu já faz algum tempo do profundo horizonte do reino. Despertava gentilmente criaturas das florestas e matos, além de cidadãos das cidades e pequenas vilas. Uma manhã fria e úmida pairava no ambiente externo de suas moradias e tocas. Aos poucos, os habitantes de Canterlot acordavam de suas camas ou saiam de suas casas para começarem mais um dia de suas jornadas de afazeres. Uma pônei em específico ainda estava para trás; tanto para acordar como para sair de sua cama.

Em seu quarto obscurecido, nenhuma luz vívida ou mórbida adentrava-o. Cercada por móveis misteriosos ao breu do cômodo, estava uma jovem égua; coberta por sombrios cobertores. Sua longa crina cor-de-carvão entrelaçava em finos e grossos fios em seu pescoço e ao redor dela; como uma lula cinzenta de inúmeros tentáculos trevalescos espalhados pela areia. Ela estava abraçando delicadamente uma grande almofada; seu cinzento rosto deleitava em sua superfície frondosa e suas narinas apreciavam o aroma artificial de lavagem em seu algodão. Ela soltou um longo gemido e mudou de lado na cama, trazendo contigo o companheiro travesseiro para mais um último abraço. Ela suspirou, relaxando.

Parecia que estava tendo um sonho límpido, cheio de deleite e paz. Apesar de estar cercada e tingida pelas sombras do quarto, em sua mente estava um mundo de cor e brilho, que expurgava qualquer resquício de tristeza e melancolia. Um doce sorriso se erguia em suas bochechas coradas e seu abraço tornou-se mais apertado. Em seus pensamentos lúcidos, ela sentia um corpo largo ao lado dela e com os membros carinhosos ao redor de seus ombros, costas e nuca. Infelizmente não tinha rosto nem olhos. Pouco importava, ela admitia. Só a sua presença e o seu cheiro aleatório eram o suficiente para deixá-la segura e confortável. Ela apreciava com fervor cada último minuto de seu minuoso sonho.

Um barulho estridente e contínuo de côncavos metálicos estrebuchou ao lado dela. A alegre sonhadora deu um sobressalto, saindo de um amplo ambiente lúcido para dar de cara com um cômodo fechado e abafado pela escuridão. De uma janela coberta pelas grossas cortinas, podia-se ver nesgas de luz transbordando pelas fissuras entre os panos. O barulho continuava a soar agonizantemente e ela seguiu o som com o rosto. Olhando para ele com distinta repulsa, ela encontrou um despertador que tremia e emitia um som agudo de estremecer tímpanos; nele estava indicando sete horas da manhã. Seu destino estava selado.

 

***

 

Na cozinha, abaixo do recinto particular da dona desta casa, estava um distinto mordomo já desperto. Ele trotava ligeiramente de um lado para o outro, entre as estantes, gavetas e fogão; o engraçado é que dava até voltas à mesa que estava ao centro do cômodo.

Diferente de um sombrio quarto, esta cozinha reluzia pela entrada de luz da janela. Uma manhã ensolarada e morna adentrava pelos vidros e adornava os móveis e ferramentas culinárias num tom pálido. A cozinha não estava impecavelmente limpa, muito menos horrivelmente suja. Algumas panelas ainda estavam meio encardidas e ferramentas foram usadas para o preparo do pequeno café-da-manhã da patroa. Farinha, fermento, tigela e espátula estavam atirados e sustentados sobre a mesa central. O forno estava ligado e já aquecido; uma fôrma de seis pequenos bolinhos fora inserida nele e já estavam criando forma e volume. Sobre o fogão, estava uma chaleira pré-aquecida para o preparo de um revigorante chá; erva ainda desconhecida.

O mordomo deixou-os acomodados por enquanto; se virou e trotou para a pia, onde panelas e outros itens estavam a sua espera para serem lavados. Ele apoiou com as duas patas dianteiras sobre a pia e puxou as mangas de seu uniforme elegante. Ao abrir a torneira com um giro calmo, ele ouviu abafados sinos metálicos sendo ricocheteados sobre sua cabeça. Sua orelha ereta ouriçou mas não deu atenção; era o despertador de sua patroa, hipoteticamente despertando-a.

Segundos depois, o mordomo estremeceu ao ouvir um barulho rápido e estridente vindo do teto. A torneira continuou a jorrar água enquanto ele olhava para cima, agora realmente entretido. Parece que algo pesado havia sido arremessado raivosamente contra uma transeunte parede.

Fechado a torneira, começou a ouvir alguns trotes ocos e pesados. Eram lentos, como se estivessem se esforçando para ir para frente, impedidos por algum insustentável peso ou uma agoniante má vontade. O mordomo não pôde segurar, mas dar uma risadinha preocupada.

— Alguém acordou com o casco esquerdo hoje… — comentou ele consigo mesmo.

Voltou sua atenção para a louça suja e abriu a torneira de novo. Encheu a pia de água e misturou com sabão. Mergulhou os pratos e panelas pequenas na água ensaboada e começou a esfregá-los. Atrás da parede diante dele, soltou-se um ruído encanado que veio descendo do segundo andar. Ele ergueu os olhos e pensou — Srta. Octavia começou a tomar banho. Então terei tempo de terminar a louça e arrumar a sala, enquanto os bolinhos estão esquentando.

Terminado de lavá-los, descansou todos eles no escorredor para que secassem ao seu devido tempo e paciência. Virou novamente seu corpo e rumou para a Sala de Jantar para organizar a mesa para o café-da-manhã. Do armário encostado à parede perto da batente, tirou apenas um conjunto completo de porcelana, adornado com pequenas pétalas de uma cerejeira ao vento, e depositou-os sobre um carrinho estacionado ao lado.

A mesa estava coberta por um pano longo esverdeado, com desenhos arborísticos e galhos singelos em suas bordas. Ao centro dela, estava um vaso de cristal com belas flores berrantes e folhas douradas e vermelhas; eram de plástico. Em sua destacada cadeira como patroa e anfitriã de uma ceia para seus seis imaginários convidados, o mordomo aprochegou-se empurrando o carrinho com o peito e descansou uma pequena toalha branca. Sobre ela, depositou o conjunto de porcelana: Um prato raso, um pires e uma xícara. Ao lado do deles, colocou um guardanapo estratégico dobrado triangularmente, apontando para o prato.

O contador instalado no fogão apitou da cozinha, indicando o óbvio para o que se esperava daquele aviso. Com isso, o mordomo se virou mais uma vez e trotou até o forno, passando pela batente da cozinha. Ao aproximar-se dele, sentiu a alta temperatura escapando de seu interior. Pendurado em uma parede próxima, um pano grosso foi retirado de seu lugar pelo mordomo, segurando-o com a sua boca. Ao abrir o fogão, tirou a quente fôrma com os bolinhos já formados e descansou-os ao lado, sobre a pia de mármore. Ele pendurou o pano de volta na parede, porém escutou o apito da chaleira; a água já estava fervendo e pronta para coar o chá. “Tudo está indo como planejado”, sorriu ele.

Voltou para a sala com trotes ligeiros para pegar a última peça do conjunto de porcelana de sua patroa: o bule; ele o puxou do armário pela asa com a boca. Retornando a cozinha, deixou o bule sobre a mesa central e colocou um saquinho de ervas dentro dele, com a cordinha transbordando para fora. Levantou a chaleira com água quente pelo apoio de madeira e despejou-a devagar dentro da porcelana para não respingar.

Trotes surdos foram ouvidos acima de sua cabeça, seguido de uma leve batida de porta. Depois disso, não ocorreu mais nenhum ruído.

A senhorita já deve estar descendo as escadas. Devo me apressar. — pensou ele, ainda com a chaleira em bocas.

Ligeiramente se virou e colocou a chaleira sobre o fogão. Ergueu a fôrma já morna e girou-a para tirar os bolinhos. Depois disso, os levantou novamente. Dos seis prontos, tirou um dos seus irmãos e depositou num pequeno prato; um pouco maior que um pires. O mordomo foi até a sala silenciosamente e puxou com os dentes o carrinho para dentro da cozinha. Nele colocou o bolinho sobre um prato e o bule com o chá já pronto. Ao se movimentar para fora da cozinha com o carrinho, ouviu leves trotes vindo do corredor de entrada para a sala. Ele estacionou o carrinho ao lado, afastado da mesa, e esperou.

Sua patroa acabou de adentrar-se na Sala de Jantar. Ela o fitou com um olhar cansado, mas admirável como sempre vindo de uma cor uvalesca tão intensa. Sua pelagem acinzentada brilhava como cinzas deixadas ao Sol. Deslizando sobre seus ombros, sua longa crina escura reluzia como carvão umedecido. Seus trotes delicados não perdiam a harmonia de sua caminhada até a mesa, passando perto do seu mordomo. Ela não olhou diretamente para ele; parecia distraída com alguma coisa.

— Muito bom dia, Srta. Octavia! — disse ele com uma frase cotidiana, seguido de um matinal sorriso — Dormiu bem?

Ela piscou — Oh, bom dia, White Glove. — respondeu ela, percebendo que ele estava ali. — Sinceramente… não. Gostaria de dormir bem mais um pouco. — resmungou.

— Por que diz isso? Aconteceu alguma coisa? Ouvi um barulho estranho vindo lá de cima… — perguntou ele, enquanto puxava a cadeira para ela.

— Deveras, não aconteceu nada. — Octavia agradeceu com um aceno de cabeça ao sentar. — Só o despertador que… caiu quando eu tentava desligá-lo. — ela desviou o olhar para o lado.

— Hm. Compreendo. — White Glove empurrou a cadeira de volta para a mesa e aproximou-se do carrinho.

Octavia bocejou um pouco — Chegou alguma correspondência de manhã?

O mordomo pensou um pouco — Sim. Veio algumas cartas dos seus Patrocinadores. Possivelmente eles querem saber como, quando e onde vai ser essa sua turnê. Há dias que mandam as mesmas cartas com os mesmos textos. Faz um tempo que a senhorita não responde suas cartas…

— Não respondo pois eles podem conseguir essas informações diretamente da Gravadora, White Glove. — respondeu ela. Em seguida cruzou os cascos — Não tenho motivos para respondê-las. Eles só querem uma resposta direta minha; a preguiça é tamanha para procurarem as respostas por eles mesmos.

— Hum. Ou é isso… ou a Gravadora também não deve estar respondendo a eles. — lembrou ele — Podem estar com dúvidas sobre o que dizer a eles sem sua presença e falar o que não deveriam. Se ambos não respondem, pode complicar um pouco as coisas.

Octavia pensou um pouco e assentiu com a cabeça — Isso é uma verdade. Como vou passar lá hoje, converso com a coordenação sobre isso.

— Aproveite o café-da-manhã, senhorita. O dia está lindo lá fora. Não se estresse demais. — White Glove ergueu o bule com chá quente e despejou o chá na xícara ao lado do prato.

— O dia só está começando, White Glove. Só começando. — resmungou ela.

White Glove descansou o bule de volta no carrinho — Não fale assim, Srta. Octavia. Aí é que o dia será do jeito que a senhorita espera dele.

— Mas eu espero, White Glove, que ele seja bom. — Octavia puxou a xícara com os dois cascos.

— Mas não pode esperar que ele seja bom. A senhorita que–

Eu sei, White Glove. — respondeu ela, impaciente — Sou eu que tenho que fazer acontecer, não simplesmente achar que tudo cai do céu. Já ouvi isso um monte de vezes. — Octavia aproximou a xícara em sua boca, qual emanava curtas linhas de vapor quente.

— Cuidado que está quen–

Eu sei! — cortou ela, irritada, tremeluzindo a xícara e cerrando as sobrancelhas  — Eu sei. Eu… sei me cuidar, White Glove. Mas obrigada por se preocupar. — ela olhou para o lado, desviando-se.

O mordomo ficou em silêncio por um momento — … Claro, senhorita. Desculpe qualquer coisa. Vou… deixá-la sozinha. Quando precisar, me chame; estarei limpando a cozinha. — ele se curvou brevemente e puxou o carrinho para a cozinha.

Octavia esperou ele sair para poder soltar um suspiro triste. Ela abaixou levemente a xícara quente, pensativa. Começou a se sentir um pouco culpada pela grosseria desnecessária.

Não queria ser grossa com ele mas… White Glove já deveria saber que não sou mais uma potranca e que precisa de cuidados o tempo todo. — pensou ela — Estou… meio nervosa esta manhã. Por causa de ontem. Novamente não conseguir tirar eles de minhas memórias. Queria esquecer de uma vez essa culpa…

Com uma pequena colher em sua boca, Octavia despejou duas porções de açúcar sobre a xícara e misturou. Em seguida, assoprou delicadamente a superfície quente do chá; os vapores leves subiram dançando até se dissiparem no ar e se misturarem com a temperatura ambiente. Ela tomou um pequeno gole e sentiu um gosto doce e frondoso.

Camomila. — resmungou ela, olhando para a cozinha pelo canto do olho; nem havia percebido o cheiro doce da erva de tão “distraída”.

Para sua surpresa, ela, ao invés de continuar resmungando e braquejando como bem fazia, soltou uma risadinha alegre; a primeira e, talvez, única naquele dia. Octavia achou isso estranho nela. Sacudiu levemente a cabeça e voltou sua atenção ao chá e seu bolinho.

Após terminar o café-da-manhã — ela até repetiu o bolinho e estava levando alguns para o trabalho de tão gostoso que estava — Octavia dirigiu-se ao corredor de entrada para se preparar para sair. Ela vestiu uma pequena mochila de um lado do lombo e apoiou a maleta de seu Contra-Baixo do outro. Ao completar com uma singela gravata-borboleta rosa em seu pescoço, seu mordomo apareceu de repente em frente a porta com o casco sobre a maçaneta, esperando pacientemente.

Octavia trotou para perto da saída e, quando aproximou-se, ele abriu a porta para ela.

— Tenha um bom dia, Srta. Octavia.

— Com certeza, terei, White Glove. E obrigada pelos bolinhos! Estão mesmo deliciosos.

— Disponha, senhorita. — ele assentiu com a cabeça. Quando Octavia passou pela porta totalmente, acrescentou — Olhe pelos dois lados da rua quando atravessar e não fale com estranhos. — brincou ele.

Ela não se virou nem respondeu, mas rolou os olhos e deixou escapar uma risadinha — a segunda risadinha do dia — A porta se fechou atrás dela. Octavia olhou para frente e observou o seu jardim.

Um caminho de pedras largas e claras guiava da porta onde ela estava até a portinhola do cercadinho de metal negro, com as pontas arredondadas apontadas para cima. O pequeno quintal era coberto por grama e possuía alguns arbustos baixos. Nenhuma árvore vivia naquele cubículo; não havia Árvore das Orquídeas; nem Resedás; ou um Flamboiãzinho; nem mesmo um pequenino Bonsai. Apenas moitas esverdeadas ou floridas. Perto das janelas e das paredes de sua casa tinha uma fileira de belas e frondosas flores. Rosas, papoulas, lírios e, principalmente, margaridas; sua favorita. Um ambiente úmido pairava ao redor de seu jardim; ao que parece havia chovido durante a madrugada. As plantas adornavam singelos cristais reluzentes em suas folhas e pétalas, e algumas lambiam e se penduravam entre as barras do cercado; uma coisa fora do comum numa grande cidade, como um dia ensolarado de estrelas num céu esmeralda. O calor morno da manhã aquecia seus rostos e corpos, Octavia sentia a sensação calorosa do astro conforme trotava dentre seu impecável Édem privado.

Ela abriu caminho pela portinhola depois do jardim e fechou em seguida. Virou seu corpo e trotou suavemente pela Avenida. Poucos pôneis andavam pela rua à essa hora e algumas carruagens já estavam sendo puxadas com mercadorias ou outros pôneis. Aos que passavam perto de Octavia, ela oferecia um pequeno “Bom dia”. Eles a reconheciam e respondiam na hora; até mesmo com grande surpresa. Algumas vezes, só para testá-los, ela passava por outros pôneis, sem dizer nada, e esperava eles darem um “Bom dia”. Não davam, em todas as vezes.

Isso era muito comum numa cidade grande; os cidadãos agitados dessas capitais estavam mais preocupados com o amanhã, com a semana ou até com o século que vem do que o agora; o instante. O agora para eles era precioso; e um “Bom dia” tomava uma significativa boa parte dele. Octavia suspirava, meio incomodada.

— Bom dia!

Uma voz surgiu de súbito; Octavia teve um sobressalto e respondeu com um rápido e surpreso — B-bom dia!

Ela olhou para a fonte da voz e viu um pônei terrestre olhando para ela enquanto se afastava. Não deu muito para distinguir sua aparência — com certeza era um pônei, mais especificamente um pégaso —, mas seu rosto jovem e austero demonstrava que ele não era daqui. “Um estrangeiro”, pensou ela; não era à toa que seu comportamento era, deveras, fora do comum. Só um pouco depois Octavia percebeu que ele estava rindo, achou a resposta dela um tanto engraçada. O rosto de Octavia corou um pouco e, para disfarçar, limpou a garganta.

Um vento gélido tateou suas costas e desvirou sua crina para os lados e seu rosto, pegando-a de surpresa e confundindo-a. Um arrepio percorreu pela sua espinha e ergueu o casco para ajeitar novamente suas madeixas descontroladas. Chapéus alheios flutuaram e roupas longas e folgadas tremiam impacientes; pegaram todos desprevenidos. Que bela maneira da manhã dizer “Bom dia”.

Depois que se recompôs da surpresa, Octavia foi se distrair com a paisagem de sua caminhada matutina. Em outras casas em seus outros jardins, tinha árvores; não só arbustos. Pequenos Flamboiâzinhos e Resedás que tremeluziam ao vento; de seus galhos nevava pétalas rosadas e amareladas ondulavam e deitavam suavemente pela calçada cinzenta à sombra ou pelas gramas invejamente mais verdes dos vizinhos. Apenas sons artificiais das rodas esmagadoras, da madeira rangente e dos galhos crique-craque perambulavam como bem entendem. Apitos e assobios não existiam nessa passagem apedrejada, popularmente conhecida como Avenida dos Famosos.

Conforme progredia em sua caminhada, as casas em ambos dos lados da rua se desfiguravam aleatoriamente. Não como uma visão alucinógena ou ilusória, apenas que cada casa possuía seu próprio tamanho e forma, de acordo com gosto de cada morador. Casas pequenas, médias, grandes, mansões, palácios. Terrenos curtos, longos, espaçosos. Mudavam de proporção, pela largura e altura, como uma cadeia de morros e montanhas em um vale longínquo.

Poucos metros adiante e muitos trotes depois, Octavia seguia por uma mureta de tijolos escarlate, que atingia até o seu queixo; sobre ela, terminava com grades pontiagudas sombrias. Por trás dessa mureta, não havia nada a não ser árvores; as casas ficaram para trás. A mureta terminava com uma curva para a esquerda, assim como a Avenida qual ela estava. Octavia virou a esquerda no final dela e contemplou a Rua Regata Cordilheira. Tem esse nome pois a estrada descia em um leve declive para o Centro e possuía curvas, como a nascente descendo a velha montanha. Nesta rua, em especial, não tinha casas que se penduravam em suas costas; agarrando-se à colina e lutando contra a gravidade. Antes do Parque ser a atração da vida selvagem em Canterlot, esse lugar era o mais arborístico da cidade. Altos troncos e galhos enfeitavam e cobriam as laterais dessa calçada. As árvores estavam tão altas nesta época que quase cobriam os céus e podiam formar uma abóboda fechada; um corredor de árvores urbano. Olhando para cima deixava qualquer um tonto e com o senso de equilíbrio meio afetado. Dava para ver pequeninas folhas caindo e feixes de luz que infiltravam entre suas folhas.

Era como um portal mágico; sair do cotidiano ambiente apedrejado, pálido e com pouco verde para atravessar um corredor fechado mas vívido e cheio de ar. Nenhum vento atravessava entre os apertados e largos troncos. Eram tantos que a própria brisa se perdia entre eles. O único sopro que podia ser sentido naquele comprido corredor era da entrada e saída dele.

Neste lugar ainda tinha sons artificiais das carroças passando, pôneis trotando silenciosamente e vassouras gemendo no chão. Mas também podia-se ouvir cantos e assobios longínquos, além do ranger das árvores quando se inclinavam e reclinavam. Os animais passavam por aqueles cantos, mas não muito perto do chão. Lá no alto da abóboda arbórea, pequenos e grandes riscos pretos pulavam e atravessavam os galhos rapidamente. Eles se dirigiam, ao que se pode deduzir, para o Parque Central. Não havia mais como animais viveram por ali entre as árvores; era muito apertado e abafado demais para eles. Apenas os insetos tomavam conta, um ambiente ideal para eles — os assobios e os cantos eram de grilos, cigarras e outros bichos; não de pássaros —. Com isso, surgiu o Parque Central; a nova moradia desses animais e a atração dos habitantes para, pelo menos, sentirem um toque de “vida selvagem” em suas vidas.

Octavia finalmente atravessou o ondulado corredor, estava chegando perto da saída e adentrava um ambiente mais aberto — e mais pálido também —. Ela apertou um pouco os olhos, ainda se familiarizando com a nova claridade; que caía do céu à sua testa e refletia do chão para o seu rosto. Abriu um pouco as pálpebras e reconheceu o lugar: A Praça Central.

Realmente era um portão mágico; saía de um cotidiano ambiente apedrejado, pálido e pouco verde para um lugar mais apedrejado, mais pálido, menos verde e cheio de pôneis e não pôneis. À sua diagonal direita, no centro da Praça, um grande chafariz em pérola expelia jatos e gotículas para o alto e lados, sistematicamente sem sair de seus limites e molhar os outros. Pedras coloridas entre azul, vermelho e cinza escuros embelezavam e contornavam ao redor do chafariz, onde se tinha bancos para se sentar, lixeiras para depositar e muitos pôneis para perambular por aí. De lá para cá, de acá e acolá, os habitantes e estrangeiros trotavam e galopavam pelo movimentado Centro. Pégasos e Grifos supostamente espertos escapavam da multidão terrestre ao decidirem planar acima de seus cabeças feito abutres. Ao redor deles, estavam lojas como sorveterias, docerias, sapatarias, bijuterias, lavanderias, mercadorias, livrarias, papelarias e um monte de “rias”. Em suas vidraças, penduravam cartazes e placas chamativas para alertarem aos consumidores que elas estavam abertos — como se não soubessem disso —.

A Rua por onde Octavia veio se chamava “Rua Vi, Vim, Vendi”; e contornava a larga praça onde estava o grande chafariz e bifurcava com outras três ruas adiante. As lojas seguiam aquelas ruas perambulantes até o fim, assim como seus clientes em busca de melhores ofertas, de loja em loja. À sua esquerda mais adiante revelava a entrada do Parque Central, com seus altos muros de tijolos vermelhos. O portão, largo e repleto de barras, estava aberto e pequenos, jovens e adultos entravam e saiam dele. Um grande arco sobre a entrada dizia com grandes letras verdes: “Parque Central”.

Octavia olhou para aquele amontoado de transeuntes circulando pela praça e gemeu, fazendo uma careta. “Atravessei os portões de Tártaro, só pode…!”, resmungou ela em seus pensamentos.

Reclamar não adiantava nada; ela teria que enfrentar o mar de pôneis a qualquer custo para chegar em seu local de trabalho. Ela suspirou fundo e adentrou entre os pôneis.

Sem nem olhar para os rostos de quem ela avançava ou passava por trás, Octavia trotou reto para a terceira rua que bifurcava do outro lado da Praça Central. Houve vários sons de trotes, fortes e agudos, gritaria, música embaralhada, empurra-empurra e cheiros misturados de perfume, comida e suor durante sua exaustiva travessia. Para a sua vantagem, Octavia estava carregando seu precioso instrumento, o Contra-Baixo; os pôneis e não-pôneis viam aquele enorme estojo pendurado nela e se afastavam um pouco para não serem atingidos. Mas nem sempre tinha alguns cuidadosos.

A criaturas quais ela atravessavam às vezes a reconheciam e propositalmente começavam a se apresentar para ela, dizendo “olás” e “bom-dias” tão ligeiros que nem dava tempo para ver quem ou o que tinha dito. Alguns tinham papéis, pacotes de vinis ou mesmo canetas em bocas ou garras para pedir autógrafos; estes em especial Octavia evitava e desviava secamente. Os insistentes e teimosos tentavam segui-la mas acabavam se perdendo dentre a multidão — ou encontravam alguém famoso mais fácil de se alcançar —.

Não era mais uma manhã fresca e sossegada; no lugar dela, um ar quente e sufocante subia por entre seu corpo e pescoço. Não havia quase nenhuma brisa para refrescar; só baforadas e conversas jogadas ao ar. Octavia ainda estava na metade da praça e gotículas oleosas já escorriam de sua testa cinzenta. Isso deixaria qualquer um tonto e agoniado. Mas sorte dela que já estava acostumada com aquilo tudo; tanto que ela agia naquela praça como se estivesse no automático, ignorando tudo e todos ao máximo possível para não se sentir incomodada. Ela era só mais uma no meio de tantos outros.

Octavia conseguiu atingir a rua que ia reto para mais interior do Centro — e mais afastado possível da praça —. Ela deu um suspiro aliviado; finalmente uma pequena brisa fria que descia por entre seu pescoço. Ao virar a cabeça um pouco pro lado direito, leu uma placa num canto em uma das lojas; ela dizia “Rua Sobe-Desce”.

Nesta rua, as carroças e os pôneis a atravessavam amistosamente. Em dois sentidos sistemáticos, o lado direito são para quem estivesse subindo para mais dentro do Centro; indo para lá. Já o lado esquerdo é para quem estava descendo para fora; ou seja, voltando de lá. Alguns conversavam em dupla enquanto subiam e desciam a rua. As carroças só faziam o que sabiam bem: ranger. Música podia ser ouvida na calçada, seja por músicos-de-rua ou vitrolas instaladas nas lojas para dar clima ao ambiente logístico de seus produtos. Isso, ao invés de criar harmonia, criava competição para ver quem atraia mais ouvintes e apreciadores. No final, acabava criando um concerto hediondo e confuso de se ouvir de tão misturada e fora de ritmo que estava.

Os prédios ocupando os dois lados da rua, felizmente, não eram muito altos; tinham, no máximo, três andares. Alguns também variando com apenas um ou dois. Assim podia-se ver melhor algumas nuvens pálidas rastejando pelo céu azul. Além de que o vento podia circular melhor por entre as passagens mais estreitas — como aquela rua — e não ficava perdido por entre vielas e becos.

Octavia foi para o lado direito da calçada, seguindo alguns pôneis que subiam a rua para o outro lado do Centro. Nesta não-muito-comprida rua, tinha-se lojas de comes-e-bebes como cafeterias, lanchonetes ou restaurantes completos. Lugares para se passar a tarde para conversar com os outros, ou simplesmente passar o tempo consigo mesmo. Algumas vozes se misturavam levemente, mas eram abafadas pelas chulas melodias que chocavam entre si.

O declive na rua não era muito elevado; era tão discreto que não tinha a sensação de estar subindo, de fato. Só quando chegava ao final dela que, ao olhar para trás, o outro lado se encontrava surpreendentemente lá embaixo.

Os pôneis que chegaram ao final junto com Octavia logo se dispersavam por entre duas ruas que se bifurcavam. Uns iam reto, para as lojas que ainda estavam por ali ou para o Ministério Público — ele se encontrava logo afrente —; outros desviavam para a esquerda, seguindo a “Rua Uia!”.

Novos mercadores e comerciantes que vinham para Canterlot instalavam suas lojas geralmente aqui por não ser um lugar com lotes muito disputados — diferente dos da Praça Central — e por existir uma certa comunidade entre os lojistas desta rua. Eles podiam vender seus produtos no preço que acharem melhor para o seu negócio e válido para o consumidor. Isso tinha desvantagem pois as lojas que ficavam na Praça tinham melhores ofertas, até mais baratas e em maior quantidade. Porém havia vantagem para eles quando essas lojas não tinham certos produtos; quais eles possuíam. Logo os preços destes nas lojas lá embaixo eram, significativamente, mais altos que os de cima. Isso fazia com que os consumidores procurassem essas mercadorias mais baratas e subissem a Rua Sobe-Desce. E quando chegavam a Rua Uia!, se deparavam com novas lojas que milagrosamente apareciam para eles, além de que tinham produtos que queriam e em menor preço. “Uai! Aqui tem!”, eram a maior parte de suas expressões ao descobrirem essa rua.

Isso deixava-os meio incomodados com esses certos consumidores pois eles só subiam essa rua quando houvesse um tipo de força maior; um motivo justo o suficiente para eles enfrentassem a subida daquela rua ilusoriamente reta para conseguir uma mercadoria barata e, ao mesmo tempo, de ótima qualidade.

A comunidade que tinha entre os lojistas era acolhedora e muito gentil. Formada por comerciantes-mirins, que ansiavam ter seu próprio negócio e adquirir sustentabilidade tanto para os que eram realmente bons no que faziam quanto para os que querem ser. A coisa mais emocionante para esses mercadores novatos, que acabavam de instalar suas lojas nesta rua, é por não haver competição de preços entre eles. Tinha a total liberdade de escolherem o preço — justo e que compensa com a sua qualidade — e, se algum lojista mais antigo estivesse com problemas financeiros, os outros dessa rua o ajudavam; tanto juntando suas moedas para doarem como divulgando o que tem para oferecer. Na maior parte das vezes, funcionava e a loja permanecia por um bom tempo. Já outras, era difícil insistir.

Os lojistas não apreciavam o nome que os consumidores deram para aquela rua. Muito superficial; criado apenas pela emoção da descoberta do que para o sentido dela. Esse nome não os representam. Tanto que eles mesmos a batizaram com um nome mais apropriado, onde só eles sabiam e tinham orgulho de chamá-la. Fizeram até um projeto para retitular sua preciosa rua e encaminharam para as autoridades parlamentares de Canterlot; mas ainda esperavam pela pauta para entrar em discussão e pela sua conclusão. Isso já faz alguns meses e cobravam dos políticos toda semana, mas eles apenas pedem por paciência.

Naquela manhã, a Rua Uai! estava um tanto parada. Pôneis ainda não tinham coragem de subir a Rua Sobe-Desce; preferiram as que estavam mais perto, pagando até mais do que o necessário só para não subir. Os que subiam estavam indo arrecadar e economizar ao invés de gastar. Octavia tomou um curto fôlego, curtindo a brisa ainda fresca porém ínfima naquele corredor urbano. Ela girou seu lombo cinzento e dobrou a rua a sua direita, onde a Rua Uia! continuava por mais algumas longas quadras. A maior parte das lojas eram de mobílias e outros móveis, desde rústicos até de mármore.

— Tavi! Ei, Tavi!

Uma voz feminina a chamou pelo apelido; ela logo fechou a cara e estagnou, já se preparando para qualquer ataque aéreo em forma de um abraço que viesse por cima dela. Mas ela percebeu que era uma voz diferente; porém reconhecível. Octavia se virou, estranhando a voz familiar.

Ao longe, em meio a Rua Uia!, estava uma pégaso azulada com as asas abertas. Ela estava planando quando Octavia se virou, mas pousou. Depois deu um singelo salto e planou de novo por um breve momento, atravessando a rua em direção a ela. Sua pelagem era bem clara em um tom azul. Já sua crina semi-longa e rebelde ondulava freneticamente, faiscando em louro escuro. Em seu lombo, carregava uma pequena mochila, possivelmente com seus materiais e entre outras coisas curiosas e femininas.

— Flute! Bom dia! — Respondeu Octavia com um sorriso no rosto; aliviada que não era quem ela esperava.

A pégaso pousou perto de Octavia e ajeitou sua crina para trás — Bom dia! Dormiu bem, querida? — e terminou com um curto abraço amigável.

— Não como gostaria. — Octavia retribuiu o abraço — Mas trabalho é trabalho. Independentemente do dia. Ainda mais hoje que temos assuntos a tratar.

— Nós? Hoje? — estranhou Flute.

— É, hoje. — afirmou Octavia.

— Hã… o que tem hoje?

— Afe, Flute. Vai me dizer que esqueceu de novo! — exclamou Octavia. — Toda semana, ao menos duas vezes por, nós combinamos em trabalhar na nossa canção!

— Eita, era hoje?! — disse Flute, surpresa.

Era não, é! — destacou Octavia — Além de que hoje é ensaio dela!

Mesmo?! Valei-me nossas Princesas! — Flute deu com o casco na testa.

— Fala sério, Flute. Você precisa ficar mais alerta; anda muito distraída.

— Não, Tavi, — discordou Flute — é que ontem estava ocupada me concentrando para fazer um Jingle. Tinha que entregar hoje e só faltava algumas rimas.

— Aquele Jingle do PlimPlam, talco para potros e potrancas? — perguntou Octavia.

— Esse mesmo, Tavi! — Flute apontou-lhe o casco — Terminei ele ainda ontem e nem me lembrava do nosso compromisso. Vou entregar ele e começar a gravá-lo hoje quando chegarmos na Gravadora.

— Isso tudo vai ser de manhã ou de tarde?

— A entrega é assim que eu chego; já a gravação eu não sei, tenho que marcar com os carinhas dos estúdios, ‘cê sabe como é!

— Mas a nossa canção continua em pata, não é? — perguntou Octavia.

— Sim, sim, claro! Assim espero, Tavi! — afirmou Flute, balançando a cabeça — Não pularia isso de forma alguma! Quero me dedicar a ela o máximo que puder! A música é linda, Tavi!

— Claro que ela é linda, sua boba! — Octavia abanou o casco — Você que vai cantar ela!

— Ah, mas você é que vai tocá-la; o que vai ser tri-melhor! — Flute bateu os cascos, bastante animada.

— Certo, certo. — abafou Octavia, já se sentindo bastante elogiada por hoje — É melhor esticarmos as patas logo antes que cheguemos atrasadas.

— É, é. Justo, justo. — concordou Flute e partiu a acompanhar Octavia ao seu lado.

As duas seguiram pelo lado direto da Rua Uia!, evitando as carroças na estrada e cartazes pendurados e apoiado ao meio do caminho. Poucas vezes elas apartavam e desviavam deles ou de outros transeuntes de uma forma harmônica e habilidosa; qual não atrapalhavam sua conversa.

— Alguma notícia do Dante, Flute? Ele andava muito estranho ultimamente e não apareceu ontem na Gravadora.

— Também não sei muita coisa, Tavi. — Flute desviou de um cartaz em pé, dizendo “Café Expresso, +Energia, -Custo”. — Como eu tinha dito: estava mais concentrada para terminar o Jingle em casa que nem pensei em passar em frente à casa dele. Mas você podia visitá-lo, Tavi. Por que você não o visitou?

— Estava resolvendo uns assuntos… com os Patrocinadores. — ela limpou a garganta — Eles não paravam de me perguntar as mesmas coisas e, quando eu respondo novamente, ainda ficam com dúvidas sobre… você sabe.

— Hm. Entendo. Mas, Tavi… — Flute se sentia meio reclusa — Você tem certeza? Você tem grande potencial, ainda não entendo por que–

— Sim, Flute, tenho certeza. — cortou Octavia, já sabendo do que se tratava a pergunta de Flute — Foi uma decisão minha e não vou voltar atrás.

— Mas não tem sentido, Tavi! — insistia Flute — Desistir de sua carreira assim, tão jovem! Os prêmios que você ganhou, os fãs que te ouvem, ainda acha que não está bom o suficiente?

— Eu não estou desistindo, Flute; já expliquei que é apenas uma pausa, não precisa se preocupar. Não tem nada a ver com os prêmios, nem com pônei nenhum. — Octavia e Flute desviaram de alguns pôneis. Permaneceram uns segundos separadas, esquivando, e então se aprochegaram de novo.

— Eu quero experimentar coisas novas. E, talvez, achar um sentido para o que estou fazendo. Se é o que eu estou fazendo é a coisa certa.

— Sobre o quê? O de você desistir de seus sonhos? — disse Flute, aparentemente ironizando.

Não, Flute! … Chega, não quero falar desse assunto, ainda mais a essa hora da manhã. Eu não quero me estressar logo cedo.

— Tá certo, Tavi. Tá certo. Desculpe. — Flute desviou o olhar — Não vou continuar.

— Obrigada. — respondeu Octavia e terminou com um suspiro irritado.

Ambas estavam com os olhares desviados, escondendo suas expressões preocupadas e ofendidas, mas ainda permaneceram grudadas em meio a circulação. Seus trotes diminuíram de ritmo um pouco; sons de rodas esmigalhando pedregulhos e vozes altas e frenéticas preenchiam o ambiente. Em meio ao desconforto e quietude entre as duas, outros indivíduos riam e conversavam alegremente um com os outros; coisa que as incomodava. Octavia demonstrava um ligeiro bico em seus lábios; porém seu olhar parecia vago, um tanto distante. Flute percebeu quando olhou pelo canto dos olhos: sempre que ela fazia essa cara era porque Octavia estava emburrada; incomodada com alguma coisa. Seus amigos já sabiam do que se tratava.

Flute queria uma conversa amigável até a chegada do trabalho, sem se, de certa forma, sentir travada com sua amiga. Mas ela estava preocupada; tanto com a sua decisão como a consequência dela. Ela não podia simplesmente esperar acontecer o indesejável para sua amiga, mas sabia que não era o momento ideal. Pensou em alguma coisa que pudesse trazer o interesse de Octavia, para a mesma se sentir mais confortável e mais animada.

Porém algo chamou sua atenção — UIA! A-mi-ga! Pára tu-do! — bravejou Flute de repente, olhando para o seu lado direito e esticando o casco diante de Octavia. A mesma tomou um leve susto, despertando em meio de seu pequeno devaneio.

— Afe, Flute! Que susto! O que foi?! — perguntou Octavia, indignada.

— Olha. Pra esse. Vestido! Ai, tô passada e dobrada! É liiiiindo! — Flute esfregava os cascos em suas bochechas e seus olhos rosados brilhavam em admiração. Era a coisa mais linda que ela já viu em um vestido; se apaixonou ao deitar os olhos.

Octavia achou estranho a reação de Flute e deu uma singela olhada no vestido. Ela esperava que fosse outro vestido qualquer feito por qualquer estilista meia-boca. Tinha um monte desses em Canterlot; quais não tinham nem um pingo de originalidade. A criatividade deles se resumiam em apenas copiar estilos e arte de outros estilistas mais consagrados para tentarem conseguir a mesma atenção. Infelizmente, isso sempre funcionava.

Porém, o queixo de Octavia caiu ao vislumbrá-lo. Ela não ficou para trás e acompanhou a adoração de Flute.

De certa forma, era um vestido. Mas possuía uma beleza que apaixona qualquer olho feminino que deleitar-se sobre seu véu. A cor branca era de sua posse, mas a estilista quis enfeitá-lo com as mais variáveis cores e tonalidades de pedras preciosas. Pequeninos cristais coloridos em azul, verde e vermelho se fundiam em adornos de metal polido na ponta das mangas compridas, da cintura justa e da gola-decote. O acompanhando uma segunda camada mais leve, uma seda, em cor de mel que cobria os ombros. A saia, comprida e frondosa, vislumbrava em um tom bege que cobria do lombo até a ponta da cauda do modelo. É possível perceber uma outra segunda camada na saia; era transparente e possuía um tom mais escuro. Sua silhueta era harmônica no lombo de qualquer égua; não importava os lados ou os ângulos que Flute e Octavia tentassem encontrar alguma falha tridimensional ou um desgosto visual, o vestido era impecável na aparência e na presença. O chapéu era uma graça: largo e amarronzado. Em seu topo, estava amarrado uma fita também em cor bege, com um laço bem encorpado. Os sapatinhos tiravam o fôlego de tão delicados; mas poderosos. Sua cor era a mais escura do conjunto; um tom madeira carbonizada. Não possuíam saltos, eram rasos; conservando conforto á égua portadora sem perder a elegância. Isso fez as duas ficarem com água nos olhos.

“Sem salto, mas ainda assim, DI-VI-NO!”, pensaram em conjunto, acompanhado de um gritinho entusiasmado.

— É o vestido mais lindo que já vi em minha vida! Ai, ai, ai! — Flute já estava com os cascos sobre o vidro, com os olhos brilhando de emoção — Eu quero uuuuum! Igualzinho! — gemeu ela.

— Sem dúvida é um belo vestido. — disse uma voz masculina.

— Mais do que belo: É seeeeen-sa-cio-nal! É de arrepiar as madeixas! — respondeu outra voz, mais feminina.

— Srta. Shores! Que surpresa! Como vai? — perguntou Octavia amigavelmente.

— Assim como sou: vou divinamente bem, minha linda! — disse Srta. Shores, abanando o casco suavemente. — Estou apenas acompanhando estes pomposos senhores até mais pro Centro da cidade, perto do Castelo das Princesas. Coisas de negócios e roupas a parte, se é que me entende, Srta. Octavia. — e terminou com uma piscadinha.

— Que é isso, Srta. Shores. — disse um garanhão atrás dela, esfregando o casco sobre sua nuca, envergonhado. — Falando assim, vai fazer pôneis pegarem a ideia errada da coisa…

— Bah! Bobagem, querido! — disse Srta. Shores. — Os pôneis aqui não pensam muito, não. Só você tá pensando coisas além do que devia! Mas não perde esperanças, fofucho; um dia, quem sabe?! — e ela deu uma outra piscadinha.

O garanhão não sabia se era um elogio ou algo mais negativo que isso, mas preferiu dar um pequeno sorriso descontraído. Já Octavia pareceu um pouco ofendida, mas sabia que Shores não estava se referindo a ela — ao menos, especificamente —.

Flute estava ocupada apreciando a beleza exuberante do conjunto diante dela, mas não pôde deixar de notar da presença familiar dentre Octavia e outros dois indivíduos. Ela até estranhou o nome, “Shores”; ela já ouviu em algum lugar. Não aguentou a curiosidade e resolveu dar uma olhada.

Para sua surpresa, Flute reconheceu a pônei para diante dela e de Octavia. Uma égua pomposa e cheia de glamour; da cabeça às patas, da cauda até o focinho. Uma pelagem brilhante em ouro cinzento, obscurecido pela espalhafatosa roupagem em cores e formas berrantes entre roxo e laranja. Gemas e pedras preciosas em cor âmbar flamejavam em vários pontos de sua roupa e enfeitavam seus sapatos púrpuras. Seus cachos curtos e bem formados eram de um azul cobalto brilhante; porém mexas perfeitamente distribuídas possuíam um tom mais pálido. Shores portava brincos em suas orelhas também em gemas âmbar, adornadas em ouro polido. Ao invés de realçar a cor dos próprios olhos, esses cristais conseguiam ser mais destacáveis e interessantes que a própria cor natural deles; roubando sua atenção.

Uia! Sapphire Shores! A Pônei do Pop! Você por aqui? — perguntou Flute, já surpresa em vê-la.

— É meio incomum, não é? Eu sei disso, querida. — concordou ela, numa expressão meio desgostosa

Bastante incomum. — destacou Octavia. — Nunca a vi passando por aqui, Srta. Shores. Por isso a nossa surpresa.

— Eu sei, eu sei, fofa. Mas eu simplesmente não podia rejeitar um convite de um garanhão charmoso como o Sr. Pants em acompanhar ele e seu outro charmoso amigo para conhecer Canterlot! Eu já tinha dito isso, não foi? Que importa! Uma vezinha a mais não mata ninguém! — e terminou com uma risada.

— Mas onde estão seus modos, Srta. Shores? — disse um garanhão ao seu lado, com uma expressão amigável — Não vai nos apresentar a essas belas jovens?

— Não acho necessário, Sr. Pants! Todos já te conhecem de cor e salteado! — brincou ela.

— Mas mesmo assim, Srta. Shores. Educação vem em primeiro lugar. — ele limpou a garganta — Perdoem-me, minhas jovens, meu nome é Fancy Pants; caso realmente não me conheçam. E quais seriam os seus nomes, se posso ter a gentileza de perguntar?

— Ah, sim, sim! — balbuciou Flute, meio surpresa por ele ter interesse em saber seu nome — Hã… Meu nome é Flute Solitude! Prazer em conhecê-lo, Sr. Pants!

— O prazer é todo meu, Srta. Solitude. — e a agraciou com uma suave reverência. — Um sobrenome tão frio para um rosto tão jovial. Mas, ainda assim, é bastante adorável e não perde o encanto.

Flute achou muito estranho suas palavras tão graciosas sobre ela. Tanto que sentiu suas bochechas arderem num tom flamejante. Um calor subiu por entre seu pescoço que a deixou meio tonta.

Shores deu uma risadinha e o cotovelou, seguido de um sussurro — Sr. Pants, assim você deixa a potranca sem jeito. Seja mais cuidadoso…

Ele a ignorou e limpou a garganta — Desculpe, mas não pude deixar de notar sua admiração por este vestido: Gostou mesmo dele?

Flute achou suspeito o interesse dele pelo seu gosto em vestidos, mas abriu um sorriso — Oh! Sim! Adorei muito! É o vestido mais lindo que já vi!

— Que bom, minha jovem! — ele sorriu — Mas a senhorita sabe quem o fez?

Agora, ela estagnou. Parou por alguns segundos para refletir antes de dar a resposta. Por que será que ele perguntou isso? Será que…

— Hm… foi o senhor? — ela arriscou.

Sapphire não pôde segurar — Pff– Hahaha! Sr. Pants fazendo vestidos, Srta. Solitude? Ele nem faz para ele mesmo; quem dirá para os outros!

Sr. Pants riu junto — Hahaha. Não, não, senhorita. Mesmo que quisesse, não seria capaz de fazer um vestido tão bom quanto este. Devo dizer que este vestido foi feito por alguém de muito talento. E conheço bem esta estilista.

— “Esta estilista”? — perguntou Octavia. — É uma égua? Eu a conheço?

— Receio que não, Srta. Octavia, mas vai conhecer agora: Seu nome é Rarity. Uma encantadora estilista, na minha sincera opinião.

— Nossa, adoooro os vestidos dela. — comentou Sapphire, já com algum brilho no olho — Depois daquela encomenda que pedi para ela uns tempos atrás, fiquei um arraso! Todos adoraram minha roupa e perguntavam pelo nome da estilista! Espero ela me agradecer um dia; depois daquele, deve ter recebido inúmeras correspondências. — ela deu uma risadinha — Agora só peço roupas para ela; aquela piquerrucha de pônei tem futuro!

— Seus trajes eram simplesmente lindos, devo dizer. — continuou Sr. Pants. — Ela possuía um toque mágico que poucos estilistas por aqui possuem. Algo em que ela fazia em seus vestidos causava um efeito que encantava os olhos de quem os via. A escolha de cores e os enfeites singelos mas unicamente graciosos. Não era a toa que ela era familiarizada com a Princesa, quando a conheci; acredito que a Srta. Rarity fazia vestidos pessoalmente para ela.

— Nossa, ela deve ser famosíssima! E muito rica! Será que algum dia encontraremos ela por aqui, Tavi? — comentou Flute, surpresa.

— Ela, de fato, é famosa, Srta. Solitude. — respondeu Sr. Pants. — Ela já apareceu em algumas revistas da moda aqui na cidade e em alguns eventos. Mas receio que não vão poder vê-la por aqui.

— Não? Por que? — perguntou Octavia.

— Ah, ela mora um pouco longe, em uma cidade do interior. Ela gerencia uma loja própria, além de vender seus próprios vestidos por toda Equestria.

Os olhos de Octavia faiscaram — Sério!? Que incrível! Dona da própria loja e vende as próprias roupas que faz?

— Sim, realmente admirável! — concordou Sapphire.

— Ai, depois dessa, minha vontade de ter esse vestido cresceu ainda mais! — disse Flute, bem animada e olhando pro vestido com mais louvor.

— Então, compre, minha jovem. Sei que ficará bem em você. — comentou Sr. Pants com um sorriso.

Flute sentiu suas bochechas arderem de novo — S-sim, mas não posso comprá-lo agora! — respondeu ela, ainda animada — A mensalidade está apertada e preciso economizar. Algum outro dia, eu passo aqui e negocio com o vendedor!

— Excelente, minha jovem. — alegrou-se Sr. Pants.

— Pois eu já tenho o meu encomendado. — esnobou Srta. Shores, com um casco ao peito — Não sou louca de ficar sem um vestido lindo desses em meu closet! Simplesmente divino!

— Com licença, Sr. Pants. — disse Octavia, gentilmente.

— Sim? Deseja perguntar alguma coisa? — perguntou ele.

— Sim, Sr. Pants, já que o senhor parece bem familiarizado com esta estilista: Se ela é tão famosa, e possivelmente rica, porque ela preferiu morar em uma cidade interiorana? Aqui em Canterlot há muito mais oportunidades e destaque que em qualquer outro lugar em Equestria. O que a mantém lá?

Fancy Pants assimilou bem a pergunta. Podia até entender o que se passava em sua mente cinzenta olhando bem para o seu rosto e interpretando a importância dessa pergunta. Ele conhecia a Srta Rarity, sim; até a intitulou como Convidada Favorita para Festas. Mas a resposta pedia um conhecimento mais aprofundado, e um relacionamento mais íntimo com a pônei em questão; qual ele não possuí. Diante de sua incapacidade para responder com uma informação mais concreta, apenas sorriu.

— Realmente não sei lhe dizer, Srta. Octavia. Não sou muito próximo a Srta. Rarity para saber ao certo, pois me perguntava a mesma coisa desde que a vi pela última vez no Casamento Real que ocorreu aqui em Canterlot. Mas acredito que tem alguma coisa haver com as outras cinco amigas dela.

Octavia ficou meio resoluta — “Outras cinco amigas dela”? Mas o que têm elas? — pensou ela.

— Acredito que se a senhorita perguntasse a ela, — continuou ele — com certeza, terá uma resposta mais concreta. Afinal, quem mais poderia te dar essa informação do que somente ela mesma?

— Hmm. Compreendo o que quer dizer, Sr. Pants.

— Tem certeza, minha jovem? — perguntou o Sr. Pants — Tentei explicar ao máximo, mas parece que ainda sente alguma dúvida.

— Não, desculpe, o senhor tem razão. — disse Octavia. — Fui muito imprudente em perguntar; e invasora. Desculpe se o deixei incomodado. — ela abaixou levemente a cabeça, desculpando-se.

   — D-de forma alguma, minha jovem! — respondeu ele, já estendendo o casco — Eu não–

— A propósito, Srta. Shores, — interrompeu Flute — você disse que estava acompanhando o Sr. Pants e um amigo dele: Onde ele está? Ainda não nos apresentamos a ele.

— Pelas madeixas de Celestia! É verdade! — exclamou Shores, chocada, e virou-se ligeiramente — Sr. Eye, fofucho! Pare de viajar na maionese e venha se– Hã?

Sapphire Shores havia se virado para falar com algum pônei em específico mas acabou dando de cara com um grifo grisalho, quem estava varrendo o concreto em frente a loja. Ela o havia agarrado e o encontrado falando coisas qual ele desconhecia, pego de surpresa. Seus braços e garras estavam encolhidos em seu peito, enquanto encarava aquela pônei espalhafatosa, fantasiada em cores berrantes, e exclamando nomes, apelidos e expressões alimentícias.

— Você não é o fofucho. — disse Srta. Shores para o grifo diante dela.

— Não. — respondeu ele, com uma voz rouca e surpresa. — Sou Celphiron, dono desta loja de roupas. Também tenho alguns apelidos mas nenhum com essa super felicidade. Seja quem eu for que esteja procurando, não sou ele.

— Perdão, meu caro senhor. — aprochegou o Sr. Pants, já se desculpando pelo ocorrido — A Srta. Shores estava procurando o Sr. Eye, quem estava bem atrás dela, nos acompanhando. Ele é um pônei terreste, de crina loura. O senhor o viu?

— Não, Sr. Pants. — disse Celphiron enquanto se arrumava após o ataque de Shores — Não o vi. Na verdade, eu o vi, sim. Pela vitrine da minha loja. Não pude deixar de notar que estavam falando deste conjunto da Srta. Rarity. Fiquei esperando para ver se um de vocês iriam comprar o vestido. Por favor, não pensem mal de mim; apenas percebi seus interesses sobre o conjunto. Mas percebi também que o pônei que acompanhava vocês parecia meio entediado. Quando fui pegar minha vassoura para varrer a entrada de minha loja, ele já havia sumido. Deve ter ido à frente, se vocês tinham algum compromisso, ou foi olhar em alguma outra loja para passar o tempo.

— Provalmente foi olhar em alguma outra loja. — disse o Sr. Pants. — Ele estava nos acompanhando para conhecer a cidade e não saberia para onde ir especificamente. Ele deve estar por perto.

— Que mal educado! — comentou Srta. Shores, indignada, e de certa forma ofendida, já que Celphiron disse que ele parecia “entediado” — Deixando três belas pôneis à mercê desta rua e nem para dizer “olá” ou “tchauzinho”! E ainda tem a pachorra de ficar entediado, sendo que estávamos fazendo um favor para ele! Esse seu amigo, eu não sei, não, Sr. Pants!

— Não seja tão rancorosa, Srta. Shores. — disse Fancy Pants — E não pensem mal dele, minhas senhoritas. O Sr. Eye é um pônei de bom coração, mas está numa viagem de negócios, no momento, e não deveria estar por aqui, aproveitando sua visita à cidade. Ele dispôs de um tempo muito curto para absorver muitas informações por aqui, para depois voltar a sua cidade natal.

— Sua cidade natal? — indagou Flute — Ele não é daqui?

— Não, minha jovem. Ele é de um reino muito distante daqui; o Reino das Terras Férteis. Creio que já ouviram falar desse reino?

— “Reino das Terras Férteis”? — disse Flute, com um casco em seu queixo — Não, nunca ouvi falar desse reino. Mas quem é ele, na verdade? Por que veio de tão longe?

— Oh, bem… — relutou Fancy Pants — Eu não posso dizer realmente quem ele é por questão de segurança dele, minha jovem. Mas ele é um tipo de Executivo, que veio numa viagem de negócios e é convidado das Princesas. Fiquei encarregado de acompanhá-lo em sua estadia em Canterlot. Em meio a isso, convidei a Srta. Shores para acompanhar-nos por hoje.

— Mas se é uma viagem de negócios… — disse Octavia — Por que ele quis conhecer a cidade? Ele também algum tipo de historiador?

— Oh, não, não, minha cara. — disse Sr. Pants, rindo um pouco — E, desculpe-me, mas não posso contar muita coisa dele. Como eu disse, o Sr. Eye é um executivo muito bem respeitado no ramo; e, para falar a verdade, eu nem deveria ter dito seu sobrenome. Que cabeça a minha! — ele coçou a nuca, um pouco envergonhado pelo deslize.

— Pois é, minhas lindas. — disse Srta. Shores — Esse “amigo do Sr. Pants” é alguém importante. Mas ainda assim mal educado! — bufou ela. — Não vou descontar nada nele; mas é bom ele ser cuidadoso se ele quiser minha companhia para conhecer a cidade! É bom nós encontrarmos ele; as Princesas não vão gostar nem um pouco se descobrirem que o perdemos de vista.

— Se acalme, Srta. Shores. — disse Sr. Pants — Ele deve estar perto; não seria imprudente se afastar de nós.

— Acho bom! — rosnou Srta. Shores. — Apesar de ainda ser de manhã, aqui está muito cheio de pôneis e isso irá atrasar nossas agendas; tenho alguns assuntos para resolver durante a tarde. Ainda tenho a manhã livre para acompanhar vocês dois até para mais dentro do Centro.

— Nossa, Tavi! — Flute bateu com o casco na testa, lembrando-se de repente — A manhã voou e nem percebemos; já deve ser mais de 08:00 agora! Se não nos apressarmos, iremos bater o cartão muito tarde!

— É mesmo, Flute! — disse Octavia, surpresa — Desculpe, Sr. Pants e Srta. Shores: Precisamos ir. Até algum outro dia, se o universo permitir.

— Também precisamos ir, minhas jovens. Até algum outro dia, com certeza! — e ele balançou o casco gentilmente, despedindo-se.

— Tchau, lindas! — respondeu Srta. Shores, balançando o casco.

Flute e Octavia assentiram leve e simultaneamente suas cabeças e viraram seus flancos. Não correram pois a rua ainda estava cheia de pôneis e não-pôneis circulando por entre os estreitos espaços da calçada. Apenas andaram ligeiramente, sem perder a delicadeza. Octavia andava mais devagar que Flute pois carregava um peso a mais; seu Contra-Baixo. Ela evitava chegar a galopar pois seu lombo balançava muito o grande estojo; podia acertar alguém imprudentemente. Flute respeitou e desacelerou o passo. Octavia sentiu uma pontada desconfortável de peso morto para Flute e disse que, se ela estivesse realmente com pressa para entregar o Jingle, que pudesse ir na frente; ela não se importava. Mas Flute respondeu que estava tudo bem; ela só acompanharia Octavia até a Gravadora, depois ela se distanciaria para entregar seu trabalho.

Fancy Pants e Sapphire Shores viam as duas se afastarem por um curto tempo e desviaram o caminho, atravessando a rua. Foram procurar pelo convidado das Princesas em alguma possível loja que ele estaria. Sr. Pants apontou para uma livraria próxima à eles e entraram.

Celphiron, por outro lado, havia sido ignorado de forma brusca e inconformada. Enquanto o grupo conversava sobre o outro membro que “desapareceu”, ele havia terminado de varrer a calçada de sua loja e, assim que todos dispersaram, recolheu sua vassoura e entrou em sua loja; havia cinco fregueses para escolha de roupas, outros dois esperavam pacientemente no caixa. Bom Dias e Sejam Bem Vindos foram distribuídos, além de algumas conversas amigáveis e familiares no caixa.

— Com licença, Sr. Celphiron. — disse uma freguês já familiarizada com ele — Por quanto está aquele vestido? Ele é lindo!

Celphiron olhou para o vestido qual ela estava apontando, estava posicionado em frente a vitrine, junto com outros dois de autores e forma por enquanto anônimos.

— Oh, aquele belo vestido bege? — perguntou ele, fazendo de desentendido.

— Sim, aquele mesmo! Foi feito pela Srta. Rarity, não foi? Vou querer levá-lo!

— Desculpe, minha querida. — disse Celphiron, coçando o pescoço cheio de penas — Mas ele já foi vendido.

— Awn… Mas não tem outro conjunto?

— Infelizmente, era o último do estoque. — disse Celphiron, aparentemente triste — Somente daqui a duas semanas chegará uma nova leva.

Sua freguês suspirou tristemente. Mas encarecidamente pediu a ele que, se chegasse a nova leva com o conjunto, segurasse ao menos um para ela. Ele não gostava de ter que fazer favores como esse; ficar segurando produtos para determinados comerciantes. Mas Celphiron ainda assim fazia para permanecer ou aumentar a confiança de seus clientes; que, consequentemente, frequentariam mais a sua loja a procura de roupas. Ele queria evitar esse favor, então pensou numa artimanha; disse que se ela viesse para a loja daqui a duas semanas, que seria quando o conjunto chegaria, ele poderia oferecer um desconto. Ela respondeu com bastante alegria e o agradeceu. Confirmou com ele e saiu, voltando no prazo combinado.

Enquanto alguns clientes ainda escolhiam suas roupas e o caixa permanecia na espera, Celphiron observava o vestido em sua vitrine com frustração. Era de fato o último conjunto do estoque em sua loja, mas a mentira era não estava vendido. Celphiron não se orgulhava em ter mentido, até se sentia sujo em ter que enganar um cliente seu. Mas ele secretamente o estava guardando. Não sabia bem o por que; ele podia ter o vendido agora e ter recebido suas moedas para o final do mês. Segurar um produto de ser vendido era pedir para entrar no vermelho; era dinheiro que não entrava no orçamento. Porém sentia que devia guardá-lo, somente este mês. Ele coçou a nuca, tentando descontrair seus pensamentos e deu atenção à um cliente que acabou de chegar ao caixa, com uma sacola com algumas peças entre os dentes.

Fim do Capítulo Um

 

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Tutorial – Source Filmmaker (SFM)

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O Source Filmmaker, também conhecido pela sigla SFM, é uma ferramenta utilizada para criação de imagens e animações com a engine Source da Valve, mesma empresa que desenvolveu jogos como Team Fortress, Portal e Half life.  O programa é gratuito e já vem com diversos cenários, objetos e personagens para produção de animações, mas também permite que usuários importem seus próprios modelos. Pouco mais de um ano depois do seu lançamento, já existem diversas animações criadas por fãs, inclusive de MLP, que já possui uma infinidade de personagens e mapas desenvolvidos para o programa. 

Vídeo de apresentação de MLP ao SFM:

Na primeira parte deste tutorial, aprenderemos a usar os pôneis dentro do SFM, lembrando que é necessário ter o Steam instalado. Se você ainda não o possui, faça o download aqui.

Instalado e criado uma conta no Steam, pegue o SFM.

E por último, você vai precisar dos arquivos que possui os personagens de MLP, chamado MLP_OVERHAUL.

Com o SFM instalado, não o inicie ainda. Primeiro abra o arquivo que contém os materiais de MLP, você vai encontrar duas pastas, uma chamada “models” e outra “materials”, ambas devem ser descompactadas dentro do SFM, de acordo com as etapas abaixo:

Vá em Arquivos de Programas, na pasta STEAM/STEAMAPPS/COMMON/SOURCEFILMMAKER e depois na pasta GAME/USERMOD.  Observe que existe duas pastas com o mesmo nome daquelas que achamos no arquivo de MLP: “materials” e “models”. Você deve jogar o CONTEÚDO correspondente em cada uma delas, conforme ilustra a figura abaixo:

1

Resumindo, deve ficar assim, dentro do SFM:

USERMOD/MATERIALS/MODELS/VN_MLP (para os materiais de textura e animação).

USERMOD/MODELS (para os objetos 3D).

Agora abra o SFM, assim que aparecer uma pequena janela, clique em CREATE para iniciar uma nova sessão. A primeira coisa que você deve fazer é carregar um mapa/cenário na janela “Primary Viewport”, para isso, leve o cursor do mouse na janela que contém a frase em vermelho “NO MAP LOADED”, então clique com o segundo botão do mouse. Na janela que abrir, vá em LOAD MAP:

2

Vai aparecer uma lista com cerca de 100 cenários para selecionar, eu escolhi um chamado “Koth_harvest_final”, mas pode pegar qualquer outro que preferir. Agora vamos selecionar um pônei para usar no cenário, para isso você deve ir na aba ANIMATION SET EDITOR e depois CREATE ANIMATION SET FOR NEW MODEL:

3

Observe que vai aparecer uma pequena janela onde será listado a incrível quantidade de mais de 7.500 modelos prontos para uso. Por ser muita coisa, usar a barra de rolagem para achar aquilo que nós queremos é quase impraticável, então para facilitar a busca, vá no campo FILTER e digite o nome do pônei que você quer a exemplo da figura abaixo, e em seguida, clique em OPEN:

4

Antes de continuarmos, você deve ter conhecimento dos comandos básicos e de navegação, algo que ficaria muito extenso para eu desenvolver em texto. Por isso, segue abaixo um vídeo tutorial oficial feito por ninguém menos do que Bay Raitt, um dos desenvolvedores do programa. O vídeo é com áudio em inglês, mas há a opção para traduzir as legendas em português, e é importante você assistir pelo menos esse primeiro vídeo ou os demais tutoriais poderão ficar confusos:

Todos os vídeos oficiais estão disponíveis AQUI, também com a opção de traduzir as legendas para o português. Prosseguindo com o tutorial, veja que há vários pontilhados escuros nos pôneis, que se não forem removidos, sairão nas imagens ou animações que você renderizar. Para retirá-los, clique com o botão direito do mouse e depois RENDER SETTINGS:

5

Na pequena janela que abrir, apenas desmarque o campo com o nome AMBIENT OCCLUSION, e o efeito de granulação sumirá:

6

CRIANDO ANIMAÇÕES

Para criar animações, sejam elas estáticas destinadas apenas à criação de artes ou comics, seja para um vídeo, você precisa ter conhecimento dos três campos de trabalho disponíveis: o Clip Editor, Motion Editor e Graph Editor. No primeiro, você organiza as animações já criadas, no segundo você gera as animações e no terceiro pode-se editá-las. Desta forma, dependendo do que você for fazer, a primeira coisa é selecionar um desses campos:

7

Vamos criar uma pose para a pônei, a primeira coisa a ser feita é levar o cursor do mouse até a árvore de objetos e clicar no nome da personagem:

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Agora clique em MOTION EDITOR ou simplesmente pressione a tecla F3. Feito isso, nós teremos três opções importantes para definir movimentos ou poses: as ferramentas MOVE, ROTATE (a mais usada) e SCREEN:

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A ferramenta MOVE, como o próprio nome já diz, serve para mover o objeto e colocá-lo na região do cenário desejado:

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A ferramenta ROTATE serve exatamente para gerar movimentos, esse é o instrumento CHAVE que deve ser dominado pelo usuário para criar animações:

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Para usar a ferramenta ROTATE em uma parte específica do corpo, você deve segurar a tecla CTRL, ao fazer isso irá aparecer vários pontos brancos no pônei. Esses são exatamente os pontos de articulações, portanto os locais onde podem ser gerados movimentos. Ao passar o cursor do mouse em cima deles, irá aparecer o nome da articulação:

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Conforme mostra a imagem acima, clique na articulação “neck”, a ferramenta ROTATE será ativada nessa articulação. Feito isso, leve o cursor do mouse até a linha vermelha da esfera e arraste-a para a esquerda, com isso ela irá movimentar a cabeça para a mesma direção:

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Basicamente, é assim que se gera movimentos nos pôneis: segurando a tecla CTRL e selecionando a articulação desejada, e depois usando a ferramenta MOVE para ajustar a posição do pônei no cenário. A ferramenta SCREEN tem a mesma função da ROTATE, mas sem focar nas abscissas x,y,z, portanto mais limitada e indicada para situações específicas. 

RENDERIZANDO/SALVANDO UMA IMAGEM

Vá no menu FILE/EXPORT/POSTER, irá aparecer a janela abaixo destinada à criação de imagens:

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Nessa janela, defina o formato da imagem (JPEG, PNG, etc.), e a resolução dela. Na parte chamada “output file”, você pode escolher outro local em que a imagem será gerada, ou simplesmente deixe no modo default. Em seguida, clique em EXPORT POSTER, onde a imagem finalmente será salva:

TESTE

Não deixe de assistir os demais vídeos tutoriais oficiais, que também possuem a opção para traduzir as legendas ao português, o que facilita a todos os interessados em trabalhar com o SFM, de um modo geral. 

Por fim, se você REALMENTE é fã de MLP, não faça nada violento, obsceno ou qualquer outro tipo de conteúdo que desrespeite a série. Já existe muito conteúdo ruim na web, não queira fazer parte disso. Faça a diferença ao invés.

INFORMAÇÕES  TÉCNICAS IMPORTANTES, FORNECIDAS POR HARRISON:

– Exportar um poster com oclusão ambiental ligada (e não otimizada) fará com que a imagem tenha “divisórias” de sombras, com espaçamento respectivo a sua resolução de render (não o tamanho final d poster, mas sim tamanho da sua tela atual)

– Posters não suportam correção de cor. Se você aplicar algum tipo de correção de cor ao seu vídeo dentro do SFM, a unica maneira de salvá-la é criando um único frame de vídeo ou copiando a imagem do Viewport para o clip board

– Em alguns mapas, aparecerão luzes brilhantes coloridas (até em alguns props às vezes), que pode ser facilmente corrigido com o comando -mat_specular 0 em seu console.

– Usar arquivos .bat para iniciar seu SFM pode ser mais eficiente do que lançar pela Steam. Você pode lançar o aplicativo com diferentes linhas de comando e configurações, para poder otimizar a criação e um outro para otimizar o render.

– Para usar mapas de HL2, você precisa descompilá-los e recompilá-los usando os binários do SFM (não é difícil, mas compilação de mapas e é muito demorado e exige uma CPU muito boa).

– Físicas no SFM é algo muito difícil de se reproduzir de modo automatizado. Existem scripts que fazem isso, mas estão em desenvolvimento (porem é legal tentar).

– Nunca execute comandos gráficos no console quando algum mapa estiver carregado, pois ele irá travar seu game completamente.

Sem palavras para descrever – Livro I – Cap.08 – Amanhã

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Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

Equestria — Ponyville — Biblioteca, 13 de Fevereiro, 21:09. 

A Prefeita se aproximou de Twilight, meio preocupada — Boa noite novamente, Srta. Sparkle! Está bem recuperada? Não se sente mais… cansada?

— Estou, sim, bem recuperada, Srta. Prefeita. Realmente estou muito melhor agora! — respondeu Twilight com entusiasmo — Agradeço a preocupação, mas pode ficar tranquila. A reunião continuará, sem mais atrasos e interrupções! Estou confiante disso!

— Magnifíco, Twilight! — disse Rarity, batendo os cascos — Sua segurança é digna de se apreciar! Perfeito!

— Até que fim deixou de ser uma cabeçuda turrenta! — Rainbow Dash ergueu um sorriso maroto, seguido de um tapinha nas costas de Twilight. — Mas ainda falta muito para deixar de ser cabeçuda.

Rarity novamente fechou a cara, — “Ela ainda fica fazendo piadinhas. Hunf. Rainbow não muda nunca.” — pensou ela, bufando pelas narinas.

Mas para a sua surpresa, Twilight não se incomodou com a piadinha; até começou a dar uma risadinha junto com a Rainbow. Ela estava muito bem humorada; até parecia ser outra pônei que não a sua estressada amiga.

A Prefeita sorriu e deu espaço para Sparkle passar. A pônei de caqui trotou calmamente de volta ao seu lugar enquanto a pônei cor-de-lavanda se dirigia para o centro da mesa. Rarity a estava acompanhando logo atrás. Já Rainbow Dash planou levemente pelo ar e pousou em uma cadeira do outro lado da mesa.

Porém, Twilight encontrou um reconhecível corpo barrento que surgiu não mais que de repente ao seu lado. Rarity também percebeu e assustou-se um pouco. E, quando ela o reconheceu, conseguiu ficar mais pálida que sua própria pelagem.

Capitão Stubborn estava ereto, bem ao lado de Twilight Sparkle. Ele a olhava do alto, baixando levemente a cabeça, com os olhos baixos e nariz reto. Twilight encarava ele de volta erguendo a cabeça e um queixo suspenso. Seus olhos púrpuras alfinetavam os olhos sombrios de Stubborn, quem não esboçava uma sequer reação; como sempre. Rarity engoliu seco, meio nervosa. Ela não sabia realmente se Twilight estava preparada para conversar ou até mesmo olhar para o bruto convidado que apenas a prejudicava moralmente de seus atos mesquinhos e egoístas. Isso a preocupou um pouco, será que Sparkle vai se estressar novamente e se exaltar?

— Nossa Dedicada Aprendiz da Princesa parece recuperada. — disse Stubborn para começar. — Trouxe a responsabilidade e maturidade contigo?

— Não só isso: Boa noite, Capitão Stubborn. Vossa presença será importante para a reunião de hoje. Se possível for, após ela, gostaria de conversar com o senhor em particular. Acredito que tenha mesma coisa em mente.

Stubborn ergueu uma sobrancelha — Deveras tenho e desejo, Nossa Perceptível Aprendiz da Princesa. Terá minha total atenção após a reunião, caso queira. Espero receber o mesmo de Vossa Faladora Aprendiz da Princesa.

— Com a maior certeza receberá. Disso não terá a menor dúvida. Ficarei lisonjeada em ouvir o que tem a dizer. Se me der licença, preciso começar o que o senhor está atrasando. — ela assentiu cordialmente com a cabeça e se virou, trotando em direção a sua cadeira na ponta da longa mesa.

Stubborn ficou parado, olhando para a nuca de Twilight Sparkle conforme ela se distanciava dele. Ela impôs sua atenção no que era mais importante no momento: A reunião. O que quer que os dois queriam falar, isso era para mais tarde.

Rarity também ficou um pouco imóvel; seus olhos azuis-diamantes brilharam com uma certa intensidade. Esse pequeno encontro foi o suficiente para ela orgulhar-se de sua amiga e de seu novo autocontrole.

— Incrível como ela cresceu de uma hora para outra. — pensou Rarity, erguendo um esperançoso sorriso — Está realmente mais confiante de seus atos do que antes; ela tinha medo até de dar o primeiro passo. Até onde você vai, Twilight Sparkle?

Ela aproximou-se de Stubborn bem devagar, para não chamar atenção. Rarity se sentia resoluta por alguns momentos, meio receosa se ia levar ou não uma patada moral daquele montanhoso indivíduo.

— Acho que deu certo, Capitão. — disse Rarity, aos sussurros, com o casco ao lado de sua boca — Realmente achei que não ia funcionar o que o senhor pediu para nós fazermos. Estava enganada; gostaria de agradecê-lo por se preocupar e ter ajudado minha amiga.

Stubborn permaneceu sério, ainda encarando a unicórnio cor-de-lavanda sentada em sua cadeira que folheava os papéis, organizando seus pensamentos e planos. Rarity demonstrou-se um pouco nervosa por estar ao lado dele. Sua fronte branca começou a ficar um tanto oleosa por causa do suor frio.

— Saiba que eu mesmo poderia ter feito isso. — disse ele finalmente numa voz grave, mas baixa.

Rarity virou seu rosto, surpresa em ouvir uma resposta dele.

— Mas, para ela, eu não sou ninguém. Até porque seus atos de hoje fizeram com que tivéssemos uma relação muito atrita. Nossa Nervosa Aprendiz da Princesa não me ouviria, a não ser de suas mais próximas amigas. A Vossa Gentil Estilista e Nossa Atlética Pégaso eram as melhores opções para trazê-la ao bom senso. Não há mais nada com que se preocupar com ela. Vou assumir a responsabilidade por ela a partir de agora. Com licença. — Stubborn virou seu rosto para Rarity e assentiu levemente com a cabeça; uma singela despedida.

Rarity ficou sem ações, mas respondeu de volta com um mesmo aceno com a cabeça. Stubborn a deixou e foi se sentar em seu lugar, perto de Sparkle, onde ele possa ver e ouvir bem.

A pálida unicórnio ficou boquiaberta; aquele bruto simplesmente foi gentil com ela? “Vossa Gentil Estilista”? Finalmente ela conseguiu identificar um elogio daquele corcel barrento. De alguma forma, ela se sentiu realizada com aquele título. Não era um grandioso título como ela realmente gostaria que fosse, mas ainda assim era adorável.

Mas Rarity não podia parar para pensar: Por que ele estava sendo gentil agora? O que aconteceu para ele repentinamente mudar de comportamento, assim como sua amiga Twilight Sparkle? Como assim “assumir a responsabilidade por ela”? O que está havendo? E qual é o plano dele?

Twilight Sparkle chamou-lhe pelo nome com educação. Rarity se sobressaltou e olhou ao redor, saindo de um curto transe. Ela percebeu que apenas ela restava no espaçoso cômodo para se sentar; até a Pinkie Pie, que estava meio sumida desde que foram para a cozinha, estava lá sentada ao lado de Stubborn. Ela riu nervosamente, desculpou-se e foi se sentar em seu lugar.

Twilight Sparkle limpou sua garganta — Boa noite e agradeço a presença de todos. Perdoem-me pelo o que aconteceu esta noite se deixei muitos pôneis preocupados comigo. E digo-vos solenemente: Estou muito melhor agora e peço para que não se preocupem. — ela olhou nos rostos dos convidados presentes, alguns pareciam estar aliviados mas outros nem tanto.

— Já li os papéis que a Srta. Prefeita organizou para mim — Twilight agradeceu a Prefeita e a mesma agradeceu de volta, trocando acenos com a cabeça — e darei as funções e tarefas oficiais para todos. Mas antes preciso fazer a chamada para registrar suas presenças.

Twilight acendeu seu chifre com um brilho roxo. Ela levitou um pergaminho enrolado da mesa e o desenrolou. Com uma pena flutuante, começou a marcar as presenças pelo topo da folha. Os nomes estão organizados brevemente em ordem alfabética: Applejack; Pinkie Pie; Prefeita; Rainbow Dash; e Rarity. Cada nome citado foi perguntado e respondido com um “presente”; e Sparkle marcava-os ao lado. Twilight observou os convidados extras que estavam, no momento, fora de sua lista: Capitão Stubborn, que estava ao seu lado com a mesma expressão irritante de sempre, e Foreign Eye, que estava sentado na ponta do outro lado da comprida mesa entre os dois.

Sparkle olhou para Foreign com os olhos levantados e nariz apontado para o pergaminho. O rosto cremoso dele estava calmo, mas seus olhos celestes a encaravam com uma súbita dúvida. Ela não entendia essa atenção dele sobre ela, mas ainda acreditava que seja pelo vergonhoso ocorrido momentos atrás. Twilight abaixou os olhos com tristeza e escreveu os nomes manualmente na lista. Marcou-os em seguida, confirmando suas presenças, e descansou a pena no tinteiro.

Foreign percebeu que algo a incomodava. Ele ainda sentia preocupação pela saúde de Srta. Sparkle, novamente por causa do ocorrido, mas sua preocupação não era por pena. Estava apenas incomodado. O elegante corcel ia dizer algo, mas ficou resoluto. Encostou-se na cadeira e mudou sua atenção para as seguintes palavras de Sparkle.

— Todos estão presentes. — com um outro brilho mais intenso de seu chifre, o pergaminho se desfez no ar com um flash branco; suas energias realmente pareciam revigoradas — Vou começar a oferecer suas tarefas para amanhã.

Sparkle acendeu novamente seu chifre com um brilho roxo e papéis que estavam diante dela foram distribuídos numa roda reta e organizada; essa roda girou por sobre a mesa, diante dos convidados presentes. Cada papel flutuante estava destinado ao dono da tarefa; alguns receberam grandes maços, outros poucos. Applejack recebeu a menor pilha porque sua tarefa já era óbvia: ela cuidava dos mantimentos da cidade com a fazenda de sua família. Nas folhas que recebeu, apenas continha números de lotes e identificação para separar os produtos e endereços para entregá-los e armazená-los. Já Pinkie Pie ganhou a maior das brochuras, contendo vários preparativos, brincadeiras, aperitivos, receitas, drinques e guloseimas que ela tinha que providenciar com os Cakes. Ela bateu os cascos alegremente — não pela pesada pilha de tarefas diante dela, mas pela mágica que Twilight executou de forma surpreendente —. Uma pilha menor que a da Applejack foi entregue ao Stubborn e à Rainbow Dash: nenhuma folha foi passada para eles.

— Hã… Twilight? — perguntou Rainbow, confusa — E então? Cadê minhas tarefas? Vai me dizer que pretende me deixar de fora?!

— Sua tarefa creio que você já sabe, Rainbow. Não é necessário de papel para entregar-lhe. Apenas minha confiança e de todos é o suficiente.

Todos na mesa acenaram com a cabeça, concordando; juntamente com sorrisos, vindos dos mais íntimos.

Rainbow coçou um pouco a nuca, — Hehe. Tá certo, então.

— Além de, creio eu, que o Capitão Stubborn já possuí outras tarefas em mente para amanhã e nos próximos dias. Ele irá passar essas tarefas para você, já que os dois vão trabalhar juntos. Não é verdade, Capitão?

Stubborn suspirou com desdém — Sim, é verdade. — grunhiu ele — Portanto esteja bem preparada, Nossa Atlética Pégaso, — ele olhou para Rainbow ao seu lado pelo canto do olho — pois meus rapazes vão chegar aqui para organizar a segurança dos cidadãos e você irá me acompanhar. Isso se conseguir…

— Irei acompanhá-lo até a Lua, se Princesa Luna permitir! Quero ver é você seguir minha sombra! — Rainbow Dash riu com orgulho. Stubborn apenas bufou.

Twilight Sparkle falou por mais alguns longos minutos, tentando explicar o máximo possível sobre os planos para aquela semana e como começariam a pô-los em prática. No final, todos começaram um pequeno debate, oferecendo vossas opiniões; sejam elas pessoais ou não. Pinkie Pie era — surpreendentemente — uma dos poucos convidados a falar. E, quando falava, era com piadinhas, brincadeiras e até dava ideias “super-hiper-mega-divertidas” para os visitantes quando chegarem a Ponyville. Muitos não se irritavam ou ficavam nervosos com sua atitude infantil na reunião pois ela declarou que sabia perfeita, confiante e mirabolantemente o que tinha em mente e o que fazer amanhã. “Afinal, é amanhã que começa o trabalho; não há porque se preocupar com ele agora”, ela afirmava.

Rarity disse sua opinião quanto a organização e os preparativos dos eventos, citando assentos para o palco, hospitalidades para os visitantes, mesas numeradas e ordenadas para as reservas. Ela era bem cuidadosa nessa parte; queria o máximo de conforto e praticidade para eles. Rainbow Dash até ajudava em suas ideias mas também alertava quando Rarity queria enfeites e efeitos mirabolantes como tochas, grandes painéis, longos laços por toda vila ou mesmo fogos de artifício. Twilight escutava todos os argumentos; aprovava e rejeitava quando necessário. Alguns momentos Foreign Eye se pronunciava e dava sua opinião em itens que Twilight aceitava e rejeitava, refavorecendo e dando mais uma chance de ela, quem sabe, mudar de ideia.

A tarefa de Foreign era auxiliar Sparkle na organização para não ficar afobada e não tomar decisões precipitadas. Ela acatava o que Foreign argumentava, como também ignorava quando não havia sentido para mudar de ideia. Os dois pareciam meio receosos um com o outro ainda. Sparkle fazia o possível para não ser turrenta ou infantil na frente dele e tomar uma atitude mais madura; já Foreign não sabia ao certo se a ajudava manualmente ou se apenas a orientava de longe. De qualquer forma, ou um ou outro meio iria fazê-lo se aproximar de Twilight Sparkle; isso infelizmente o incomodava.

O debate perdurou pelos restos das horas que podiam usar naquela noite. Quando começaram eram 21:12 da noite — isso são mais de uma hora de atraso! —, mas, com êxito e sem mais interrupções, conseguiram pôr os assuntos a mesa e o carimbo nas folhas antes das 23:00. Algumas suspiraram cansadas, outros bocejaram num alívio momentâneo.

— Acredito que já deu por hoje, amigos. — disse Twilight com os olhos um pouco caídos, mas tentava mantê-los bem abertos — Estão dispensados. A reunião acabou. Vejo todos vocês amanhã bem cedo no Sweet Apple Acres. Temos, ao todo, alguns dias para quando começar o Grande Evento. Obrigada e uma boa noite a todos.

Pôneis aplaudiram com uma satisfatória alegria, mas já começaram a se levantar das cadeiras e tomar os seus rumos para a saída da biblioteca. Deram-lhes boa noite uns com os outros, tanto verbalmente como em abraços amigáveis. Rainbow Dash, Rarity e a Prefeita foram as primeiras a deixarem a biblioteca para trás e irem rumando para suas casas. Como iam na mesma direção, aproveitaram os últimos minutos para conversarem entre si na calada da noite.

— Que noite mais charmosa e adorável! — exclamou Rarity, olhando pro alto com admiração. — Uma pena que hoje eu prefira dormir mais do que apreciá-la. Foram um dia e uma noite cansativas, até para mim! Se meu sono permitisse e tivesse alguém para me fazer companhia nesta linda noite, faria de bom agrado. — terminou ela com um suspiro sonhador.

Rainbow Dash respondeu com a língua para fora, meio enojada. A Prefeita rolou os olhos com um sorriso torto, apesar de compartilhar da mesma falta e anseio.

Applejack permaneceu mais um pouco para certificar-se de que Twilight estava bem e se não ela não estava escondendo nada. Sparkle, após muita insistência, conseguiu convencê-la de que estava tudo realmente bem.

— ‘Noite, Tualáiti! Druma bem, visse?! — disse a pônei alaranjada, alertando-a uma última vez.

— Boa noite, Applejack. — respondeu ela. — Vou dormir, com certeza. Vou fazer questão de ir em sua casa e puxar seu casco para fora da cama, caso ainda insiste!

Applejack riu um pouco e foi se distanciando. Twilight fechou a porta da biblioteca e a trancou em seguida. Durante sua curta caminhada pela rua noturna de Ponyville, AJ encontrou com Foreign um pouco mais a frente, olhando ao redor. Parecia estar perdido e tentava procurar alguma coisa, mas era difícil enxergar no escuro, mesmo com as fracas luzes dos postes nas ruas.

— Está difícil de ler placas com essas luzes fracas! — pensou ele aos suspiros — Taí uma coisa para conversar com a Srta. Sparkle para resolver amanhã…

Applejack aproximou-se por trás sem ele perceber, — Tá perdido, Nhô Aiê?

Foreign assustou-se um pouco, mas reconheceu a voz de Applejack. Ele se virou para ela, meio envergonhado.

— Pois é, Sinhá Applejack! — riu ele — Acabei de chegar a cidade, mas não consigo descobrir que rua é esta para tentar achar a rua da casa onde estou hospedado. A Princesa Celestia me deu o endereço mas não pude passar lá ainda.

— Bah! Sem pôbrema, Nhô Aiê! Dêxa’vê o nomi da rua, posso ti guiá inté lá, si voismicê quisé.

— Muito obrigado, Sinhá Applejack! Ficaria muito agradecido! — Foreign xeretou um dos bolsos de seu terno com o focinho e mostrou um pequeno papel anotado para Applejack, segurando-o com a boca.

Applejack rapidamente leu o que estava escrito e riu com entusiasmo. — Haha! Conheço essa rua, sim, sinhô! I é caminho donde é minha casa! Podêmo acertá dois coêio numa cajadada só! Acumpanha mais eu! — ela terminou acenando com o casco.

Foreign guardou o papel com um sorriso no rosto e seguiu sua guia Applejack, que já estava um pouco a frente. Eles trotavam em um caminho fofo e campeado em grama verde-escura. Dos dois lados do largo caminho, as casas dos habitantes cresciam a uns dois ou três andares, variando conforme avançavam silenciosamente em trotes abafados sobre a grama irriquieta. As casas eram feitas de madeira, pintadas de branco ou em tom marfim. Pelas arestas ornamentavam com retas em cor madeira ou em vermelho indiano. Seus telhados eram cobertos por colmos secos; poucos deles tinham uma ou duas chaminés em tijolos. Moitas e pequenos arbustos acompanhavam janelas e portas térreas; em alguns tinham flores sonolentas em tons sombrios, outros faiscantes vaga-lumes que dançavam ao redor. Não era possível enxergar as placas que ficavam penduradas nas portas das vizinhanças, mas ainda podiam-se ver janelas abertas e acesas. Sombras fantasmagóricas atravessavam elas, assim como vozes em conversas amigáveis e música calorosa. As lamparinas espalhadas pela rua emanavam uma cor amarelada, o suficiente para abrir caminho pela escuridão das vielas e sombras dessas casas aglomeradas.

— Aliás, Nhô Aiê. — disse Applejack, puxando assunto — Percebi uma coisa quâno ocê chegô nim Ponyville: donde ocê deixô suas coisa; sua mala? Si o sinhô disse qui num havia passado na casa qui tava hospedado? Num mi diga qui o sinhô as deixô jogada puraí?!

— Não, não! Não as deixei por aí. — respondeu ele com uma risada — Veja: Quando a Princesa me chamou, tinha sido uma chamada de última hora. Nossa Majestade me deu a tarefa de vir para cá para auxiliar a Srta. Sparkle nos preparativos para o Grande Evento. Mas tive que vir para cá o mais rápido possível, antes das 20:00, que é quando começava a reunião.

— Hm, tô intendêno. — Istranho a Princesa fazê coisas di úrtima hora… Qui qui será qui tá assucedêno?

— Então: Quando eu cheguei aqui, — continou Foreign — eram quase 20:00; tive que ir direto para a biblioteca, mas ainda assim cheguei um pouco atrasado.

— Tá certo, Nhô Aiê. — ela acenava com a cabeça positivamente — Inté aí intendi, már i suas mala, criatura?! Ficô mi embromâno i num mi disse inté agora!

— Ah, sim! — ele se sobressaltou, com um relapso repentino em sua memória — Bom…. Eu não as trouxe, na verdade! — terminou ele com uma risada meio irônica.

— “Num trôxe”?! — AJ virou para ele, atônica — Oxênte, como ansim?!

— Foi como eu disse, Sinhá Applejack: Saí de Canterlot às pressas e não pude prepará-las. A Princesa me certificou que enviaria minhas malas prontas para Ponyville pela manhã. Então, tomei uma de suas carruagens e vim para cá.

— Hm, tá expricado. Már num tem pôbrema! Aminhã chega suas coisa bem cedinho, si conheço bem uma certa intregadora! — e ela lembrou também — Ah, sim, Nhô Aiê! Num sei si o sinhô já tinha prânos pra tomá café-da-minhã aminhã, már si quisé, pódi passar lá nim casa qui vai tê um bem caprichado pra todos qui tão trabaiando nas construção!

— Maravilhoso, Sinhá Applejack! Com o maior prazer irei! Assim que souber como chegar lá… — terminou com uma risadinha.

— Hehe! Num vai sê difícir! É só prêguntá pra quarquér um na vila: “Cum licença, donde Sinhá Applejack mora?”. Eles vão ti indicá o caminho!

— Hu-hum. Está certo. — disse ele, agradecendo a gentileza da anfitriã — Vou passar lá.

Os dois foram-se caminhando pela estrelada noite da Princesa Luna. Applejack ainda conversava um pouco sobre sua fazenda e sua família. Falou de seu irmão mais velho, sua irmãzinha e de sua avó querida. Também falou de seu trabalho com as safras de maçã quando estavam maduras e o que se podia fazer com elas. As receitas que ela mais adorava eram Cidra de Maçã, caramelizadas Maçãs-do-Amor e não mais que um belo Apfelstrudel. Foreign também falou de uns doces que gostava como Torta de Creme e Bolo de Rolo; uma delícia, até ficou com água na boca só de tentar lembrar o gosto. AJ perguntou mais sobre seu reino de origem, o Reino das Terras Férteis. Esse nome a interessou muito quando leu o livro e quis saber mais sobre seu significado. Muita coisa comentada no seu livro ela já sabia, Foreign percebeu que não adiantava comentar tudo o que já continha lá. Mas Applejack queria saber mais sobre as terras, os campos de lá; se eram tudo aquilo mesmo que ele descreveu naquela grandiosa obra. Seus olhos esmeralda faiscavam em ansiedade para conhecer mais sobre os terrenos férteis e vívidos daquele reino qual todos o titularam como “Mágico”. Foreign suspirou com um sorriso.

Applejack ergueu o casco ao longe para sua esquerda e Foreign seguiu-a amistosamente, enquanto contava sobre seu reino de origem e suas terras.

***

Com um brilho de seu chifre cor-de-lavanda, Twilight Sparkle fechou a porta de sua biblioteca após despedir-se de sua honesta amiga, Applejack, e a trancou logo em seguida. Descansou a chave na cômoda, onde sempre a deixa à vista para o seu fiel assistente abri-la novamente pela manhã, caso precise. Sparkle suspirou longamente e aderiu uma expressão séria em sua face. Ela se virou e trotou para o último convidado que ainda permanecia em sua residência; pois ambos prometeram que permaneceriam para uma conversa em particular.

— Aqui estamos, a sós para conversarmos. Sem interrupções, nem ouvidos enxeridos. Quer que eu comece ou que o senhor comece, Capitão? — ela já esperava que ele se autoproclamaria para dar a primeira palavra da conversa.

— É preferível que a senhorita comece, Nossa Hospitaleira Aprendiz da Princesa. — disse Stubborn com uma surpreendente educação.

Twilight ficou surpresa; uma súbita mudança de comportamento vindo dele. — P-pois muito bem, obrigada. — ela sentou e limpou a garganta, olhando para Stubborn na suspeita. — Após muita conversa com minhas amigas Rarity e Rainbow Dash, cheguei à conclusão que deveria agradecê-lo… pelo que fez por mim quando eu havia desmaiado pelo meu demasiado esforço.

— Fiz aquilo porque não havia mais ninguém para ajudá-la, Nossa Desesperada Aprendiz da Princesa. — disse Stubborn — Ninguém estava preparado para aquilo e você colocou todos numa situação muito desconfortável…

— Eu sei, Capitão, eu sei. — Twilight ergueu o casco, cortando-o — Por favor, não me venha com esses assuntos moralistas pois já escutei o suficiente vindo de minhas próprias amigas, as quais o senhor as enviou para me acudir quando eu mais precisava de atenção. Mas estou agradecendo o senhor porque minha amiga Rainbow Dash pediu para fazê-lo, não porque o senhor merece.

Ele apertou os olhos, aparentemente confuso — “Não mereço”?

— Sim. — respondeu ela com um aceno com a cabeça — Eu sei que o senhor fez toda aquela cena pra cima de mim de propósito; para me ensinar alguma coisa de um forma bruta e moralista. O senhor estava ciente do que estava fazendo naquela hora; diferentemente de mim, que não havia percebido pois estava meio fragilizada. Eu realmente estava com a guarda baixa mas só percebi depois de muito atrito entre nós. Entendo que aquilo foi necessário para eu aprender com alguns erros de minha parte, mas isso não quer dizer que houve apenas erros meus. Não concorda?

Stubborn não mudou de expressão, mas escutava atentamente aquela unicórnio em seu desabafo. — Concordo. — admitiu ele explicitamente.

Twilight contorceu-se por dentro; sua irritação crescente escapou num aperto entre os lábios — Seu… falso! Então você realmente sabia do que estava fazendo!? Grrr!! — grunhiu ela em seus pensamentos.

Twilight suspirou, tentando descontrair — Devo dizer: se não tivesse agido daquela forma para me ensinar, merecia meu sincero agradecimento. Mas não vou mentir pro senhor, Capitão. Aprendi muita coisa com aquilo, mas ainda assim foi bruto demais.

— Compreendo. — respondeu ele, inexpressivo.

— Mas tenho o direito de saber e espero que me responda: Por que fez aquilo? E como conseguiu fazer aquilo?

Stubborn encarou aquela unicórnio, que olhava para ele com uma expressão séria. Não de uma forma raivosa, mas atenta. Ele apenas suspirou, mas respondeu-a com uma voz grave:

— Como fiz aquilo não posso lhe dizer, apesar de Vossa Julgadora Aprendiz da Princesa dizer que merece ter esse direito. O que eu sabia só cabe a mim dizer, mas não direi. Vejo, escuto e conheço coisas que vão além do que Vossa Inteligentíssima Aprendiz da Princesa desejaria saber, mas não merece; para o seu bem. O que sei sobre Vossa Interessante Aprendiz da Princesa é somente o necessário e o que todos conhecem: Uma pônei com habilidades surpreendentes em magia e heroína de Equestria. Derrotou dois grandes e temíveis seres malignos que ansiavam cobrir nosso Reino com escuridão e caos. Possui um poder oculto que vai além de todas as expectativas, sejam elas para o bem… ou para o mal. Você, Twilight Sparkle, é mais desejada do que pensa.

Twiligh já estava impaciente com aquela ladainha toda de “O Escolhido”; “Aquele que vai puxar o mal pela raiz”; “dissipar todo a maldade de Equestria” que Stubborn estava criando para ela. Ela já sabia de tudo isso, com exceção de todos aqueles títulos imaginários e fantasiosos sobre “Poderes Ocultos”. Isso não passava de um mito, uma parábola. Ficar elogiando e limpando os cascos dos pôneis depois de humilhá-los e pisoteá-los é uma estratégia arcaica e sem fundamentos; ela não cairia nessa nem mesmo se ele estivesse sendo realmente honesto naquele momento.

Ele deve saber de muita coisa; Twilight percebia isso. E também se sentia indignada de ele não lhe contar o que realmente sabia sobre ela para ter feito aquele jogo com seus sentimentos. Mas aquele jogo realmente a ajudou muito, em controlar logicamente suas emoções e não prejudicar mais quem está perto dela. Ela não sabia se continuava com aquilo, indo até o fundo disso, mas também queria saber o que ele tinha a dizer sobre o lado dele da conversa.

— E quanto ao “Por quê”? Isso, ao menos, pode me dizer?

— Posso, mas não preciso. — respondeu ele — Vossa Detalhosa Aprendiz da Princesa já deve estar sabendo e muito disso, já que disse que suas amigas a aconselharam.

Twilight gruniu, juntamente com um suspiro forte. Stubborn estava mesmo enrolando para contar o que sabe. E parece que não irá contar a ela nem sob ameaça; se fosse possível. Mas, parando para pensar, ele tinha razão. O que suas amigas tinham dito e aconselhado a ela sobre as atitudes presunçosas e brutas de Stubborn realçavam o significado do “por quê aquilo tudo”. Justamente para eliminar de vez as ações orgulhosas de Twilight naquela e nas próximas noites. Mas, para isso, ele contava com a ajuda das amigas de Sparkle. Ao que tudo indicava, deu certo. Ela, de certa forma, deixou de ser “aquilo” que ela era e estava deveras pronta para enfrentar seu próximo teste.

— Mas ainda não entendo uma coisa: — disse Twilight Sparkle. — por que dessa brutalidade? Quero dizer, o senhor entrou aqui com anseio de conseguir inimizades e falta de confiança de seus companheiros, ou seja, nós. Ao meu ver, isso não é estratégia deveras inteligente para um Capitão, ainda menos para um General. Ainda não me esqueci do trombicão que o senhor deliberadamente causou a minha amiga Rainbow Dash e das suas palavras grosseiras sobre minha mentora.

— Deveras, não é, Nossa Jeitosa Aprendiz da Princesa. — concordou ele, mas alavancou o tom em seguida — Mas a senhorita não é nenhum Capitão ou General para dizer o que cegamente sabe o que é ser um deles. Sobre esse assunto em particular, não direi mais nada.

Twilight nada respondeu; apenas o encarou, meio irriquieta.

Stubborn mudou o tom, agora mais calmo — Quanto a minha brutalidade, esse sou eu agora. Ou adequa-se ou fique fora do caminho. Não tenho que me importar o que Nossa Orgulhosa Aprendiz da Princesa acha que é certo ou o que é errado. O certo é não me perguntar mais nada sobre isso e o errado é continuar a acusar-me de bruto e alteiro contra sua amiga, sendo que Vossa Esquecida Aprendiz conseguiu ser pior.

 Twilight olhou bem para aquele corcel barrento, tentando entender suas últimas frases — “Consegui ser pior”? “Eu contra a Rainbow Dash”? O que ele quis dizer com isso? — pensou ela.

Então ela lembrou. Percebeu no o que Stubborn estava se referindo entre elas. Um atrito, causado por Sparkle contra sua amiga quando ela estava tentando relaxá-la e acalmá-la por causa do atraso da Prefeita a reunião. Ela lembrou das palavras meio ríspidas que disse; lembrou também do rosto celeste e selvagem da pégaso quando sentiu algo formigar em seu peito pela sua desforra; e se lembrou do triste destino do pequeno banquinho de madeira quando ela descontou toda sua raiva nele. Essas lembranças estavam causando remorso a Twilight, algo que Stubborn já esperava.

Sparkle bufou irritada; “Como ele sabia disso?! Ele não estava aqui quando aconteceu… ou estava? O quê mais ele deve saber?”, ela se perguntou.

— Pois muito bem, Capitão Stubborn. — disse Twilight, tentando conter o tom nervoso — Compreendo que o senhor não pode e não pretende me contar o que sabe — por algum motivo… — mas já disse o que queria dizer ao senhor. Agora, o que o senhor tem a me dizer?

Stubborn adotou uma postura reta e encarou a unicórnio de cima — O que tenho a dizer é de extrema importância, Srta. Sparkle. Tanto vindo de mim como vindo de Nossa Preocupada Princesa. É um assunto extremamente restrito aos outros. Apenas eu; as Princesas; Spitfire, Capitã dos Wonderbolts; e você sabem disso. E ninguém mais pode saber. A senhorita tem minha atenção?

Twilight ficou meio resoluta por um momento. — “Extrema importância”? — pensou ela — Princesa Celestia está tão preocupada assim? Por que só agora ele está me chamando pelo meu nome? Seu comportamento está assustadoramente diferente. Estou começando a entender quando Rainbow Dash disse antes que ele não parecia o mesmo, quando se ofereceu a me ajudar. Isso tudo soa muito estranho; ainda mais vindo dele.

— Peralá! — Twilight ergueu o casco contra ele, na defensiva — O que me garante que o quê o senhor está me dizendo é verdade? Pode ser que o senhor tentou me dar alguma lição, até me ajudou quando eu estava desacordada, mas isso não quer dizer que confio completamente no senhor! Sua brutalidade explícita e o desrespeito em minha casa me alerta que você não é digno de confiança! Só porque o senhor “supostamente conversou” com a Princesa, não quer dizer que eu deva beijar o seu casco e dizer Amém!

— Deveras, não. — respondeu ele sem se alterar. Essa sua calmaria irritou Twilight, como se ele esperasse que ela tivesse essa reação. — Somente palavras não vão convencê-la. Muito menos atitudes pois já demonstrei o quê sou.

— Exatamente! — retrucou ela.

— Mas devo lembrá-la do motivo que de eu estar aqui: A Princesa me enviou aqui. Para quê? Para te ensinar, essa é uma das outras verdades. Além de que, se não me engano, ela fez um documento oficial, comprovando que sou um membro do grupo responsável pelo evento; de que conversei com ela; e de que ela sabe quem eu sou.

Isso era verdade; mais que verdade: um fato. Twilight teve que aceitar esse argumento dele. Stubborn estava começando a convencê-la. O seu cartão oficial como membro do grupo e seu nome na carta enviada pela própria Princesa comprovavam que ele estava dizendo a verdade; e sendo honesto — apesar de tudo —. Twilight também não pode esquecer de sua alta hierarquia militar: Capitão-General de Equestria. De fato, ele conhecia a Princesa e ela o enviou para dar suporte; de algum jeito que ela desconhecia.

— E antes que esqueça, Srta. Sparkle: a senhorita deve-me sua atenção, já que eu lhe entreguei a minha.

Para tudo! Twilight olhou bem para aquele meliante. Ele estava confiante de que, depois daquela revelação, ela faria tudo o que ele quisesse. Estava errado; aquilo, para ela, foi a gota d’água.

— “Atenção”?! O senhor não me deu atenção alguma! Não respondeu direito nenhuma das minhas perguntas! Minto! Desviou de minhas perguntas com respostas inúteis! E ainda quer a minha total atenção depois de sua esdrúxula atenção?!

— Minha atenção foi digna, Nossa Incompreensível Aprendiz da Princesa. Ouvi todas as suas perguntas e respondi todas elas; respeitosamente e de total conhecimento obtido para mim sobre elas.

— Mentiroso! — rosnou ela, apontando o casco novamente para o focinho dele. — Você sabe muito mais do que isso, isso eu sei! Só não quer responder!

— Como eu tinha dito: Só sei o que é necessário saber; mais nada além disso. — disse ele sem tirar os olhos de seu rosto, ignorando totalmente seu casco cor-de-lavanda em riste — Devo destacar que quem estava a procura de respostas era a Nossa Curiosa Aprendiz da Princesa. E fomentei sua curiosidade. Apesar de ser a minha vez de falar, a curiosidade continuou em Nossa Inquieta Aprendiz da Princesa; e ela ainda quer saber mais e mais. Então, se me permite, gostaria de continuar ter sua atenção, já que as respostas que procura só eu posso lhe oferecer no momento.

Twilight Sparkle estava se estribuchando por dentro, ela queria arrancar a verdade de uma vez daquela boca barrenta e cheia de cadeados. Ela percebeu que não vai conseguir respostas desse jeito, de forma bruta e rude, e ele não irá colaborar a não ser do seu próprio jeito.

Não havia mais nada do que fazer. Ela sentou no chão e suspirou, incomodada e rendida. Ergueu sua cabeça e o encarou seriamente; ele tinha sua atenção.

Com um aceno positivo com a cabeça, Stubborn tomou um pequeno fôlego.

— Minha real missão para esta vila, Twilight Sparkle, é, não só para proteger os cidadãos desta vila para o que quer que seja ou está vindo silenciosamente, mas para proteger todos os cidadãos expostos a ela aqui. Não estou sendo dramático pois a Princesa me enviou justamente para te mostrar que o assunto é sério. Essa é a minha primordial responsabilidade. Mas, no momento, tenho uma outra; ordenada pela própria Princesa: Te ensinar. Mas, para isso, preciso de sua fiel colaboração.

Twilight pensou um pouco; assimilou bem o que ele havia dito. O que ele poderia ensinar para ela? O que, afinal, ele poderia saber que a própria Twilight não saberia? E que a própria Princesa não poderia ensinar?

No final, acenou com a cabeça positivamente — Claro, Capitão. Tem minha fiel colaboração. — mas ela o alertou com um casco em riste — Mas quero que saiba que não faço isso pelo senhor: faço pelas minhas amigas e pela Princesa, pelo bem de ambas.

Ele assentiu com a cabeça — Não duvido. — Stubborn tomou um novo fôlego, agora num tom mais sério — Vou explicar o plano aprovado pelas próprias Princesas. Não será fácil concluí-lo e exigirá de muita coisa de você. Até mesmo do que a senhorita não tinha, terá de usar de alguma forma. Será perigoso; muito. É isso que irá acontecer daqui em diante…

***

Não se ouvia murmuros pelo lado de fora. Não havia ninguém na calada da noite trevalesca da Princesa da Noite. Apenas luzes artificiais dos postes e árvores e arbustos tremeluzindo à leve brisa; galhos ricocheteando e folhas ondulando. Morcegos voavam em voos rasantes sobre insetos que passavam transeuntemente ou cantavam apaixonadamente.

A Biblioteca, diferentemente, não estava silenciosa; na verdade, estava bastante irriquieta. As luzes e sombras bruxelantes que vazavam das janelas diziam uma conversa; ou uma fervorosa discussão. Eram duas sombras; uma singela e uma monumental, ao que se pode dizer. Não se ouvia nada pelo lado de fora; os grossos troncos em sua estrutura arbórea conservavam o barulho interno; os zumbidos e folhagem dominavam os arredores. Porém as sombras não mais se mexiam.

Um brilho roxo, fraco e delicado, emanou da testa do pequenino vulto. E se intensificava aos poucos, preenchendo as paredes amareladas num tom lavanda. Ela crescia; aumentava; evoluía, de uma maneira assustadora. De repente, um forte clarão púrpura transbordou das janelas e frestas da biblioteca; junto com um estrondoso som abafado pelas grossas paredes. Ele cresceu e se expandiu tanto naquele cômodo que aderiu uma claridade pálida. Rápido como o feixe de luz; brilhante como a mais frondosa estrela. Em segundos, o clarão se enfraquecia e perdia sua arrebatadora existência, deixando restos de claridade cor-de-lavanda e faíscas ondulantes; felizes e satisfeitas.

Algumas janelas que existiam próximas a Biblioteca se abriram e seus residentes deram uma espiada por fora. Acharam estranho aquele suspeito clarão púrpura emergir do nada, assim como desapareceu. Tentaram descobrir de onde vinha olhando pros lados e comunicando com outros vizinhos em outras janelas. Ninguém entendeu também. Infelizmente, não conseguiram descobrir; nem ver mais nada naquela rua. Ao julgar pelas suas sonolentas expressões em seus rostos, não estavam surpresos com o clarão; acontecia tantas coisas bizarras e absurdas naquela pequena vila que um simples flash não era grande coisa. Já estava tarde; estava muito escuro. Resolveram esquecer o que aconteceu e tentar dormir novamente.

Fim do Capítulo Oito