Sem palavras para descrever – Livro II – Cap.04 – Mudanças

vinyl

Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

Capítulo 8 – Amanhã

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

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Equestria — Canterlot  — Casa da Srta. Octavia, 13 de Fevereiro, 18:28.

A sopa estava uma delícia. Uma sensação rara que Vinyl não saboreava em seus dias matutinos em requentar comida pronta no forno; elas ficavam molhadas, chochas e até sem gosto. Um horror para todos os tipos de bocas. Para quem não sabia nem fritar ovo frito e queimava alfaces na frigideira, ela tinha que se virar com esses tipos de produtos alimentícios. Para sua sorte, sua queridíssima amiga cinzenta a convidava para um tête-à-tête entre elas e para se deliciar com a maravilhosa comida de seu mordomo tesudo.

Vinyl espreguiçou-se na cadeira após a refeição, ela suspirava em satisfação com sua barriga cheia. Octavia terminou de enxugar seus lábios com um guardanapo de papel e o descansou em cima de seu prato. Ela suspirou também satisfeita; em seguida, começou a puxar os pratos usados e levá-los até a pia da cozinha. Vinyl assentiu com a cabeça em agradecimento por levar seu prato.

Ao adentrar-se a cozinha, não demonstrou dificuldades em achar a pia de alumínio — apesar de não passar por lá frequentemente — e descansou a louça suja dentro dela, auxiliando nos afazeres de seu mordomo para amanhã. A quantidade de pratos não era muito grande; eram apenas os dois pratos e duas taças usadas, mas os dois primeiros ainda estavam meio melados com os restos pastosos da sopa cremosa de White Glove. Octavia sabia que, se os deixassem assim até amanhã de manhã, esses restos ressecariam nos pratos. Para evitar isso, ela abriu a torneira da pia e passou uma ducha de água em cada um. E encheu-os até a boca, deixando-os de molho.

Tendo feito isso, Octavia retornou para a Sala de Jantar, onde ela acreditava que sua amiga a esperava pela sua presença. Mas acabou encontrando o cômodo sem pônei nenhum. Ela achou estranho Vinyl sumir de repente, então achou melhor procurá-la pela casa silenciosa. Octavia atravessou a mobiliada sala e foi em direção ao corredor. Ele estava ligado com a Sala de Jantar — onde Octavia estava —, a Sala de Troféus e a saída da casa.

Dando uma espiada entre as batentes do corredor, Octavia encontrou sua pálida amiga fuçando sua estante da outra sala. Ela atravessou o corredor aos trotes macios, passando pela batente com uma placa dourada no topo, cujo estava denominado “Sala de Troféus”. Ela se perguntava o que Vinyl estaria fazendo em seu recanto de prêmios e conquistas. Talvez procurando alguma inspiração ou motivação para conseguir grandes prêmios, ou tentando descobrir a essência do sucesso de sua amiga cinzentamente talentosa.

— Awnn! Tavy tá tão lindinha nesta foto! Tão piquerrucha e inocente! Abraçando aquele mini Violoncelo!

Vinyl estava segurando uma antiga foto de Octavia quando ela era uma pequena potranca. Aquela foto foi do seu primeiro instrumento que ganhou de seus pais, Sr. Maior e Srta. Menor. Naquele dia estavam comemorando a conquista da pequenina Octavia na integração no Colégio Equestriano de Música (CEM), onde passou os seguintes anos praticando e estudando música. Por causa disso, precisava-se de um instrumento pessoal. No colégio, eles possuíam instrumentos doados para os alunos usarem durante os semestres sem problemas. Bastava registrar seu nome no histórico e marcar o dia de devolução com o responsável, mas tinham que devolver no prazo limite e, pelo menos, ainda inteiro. Caso contrário, pagaria uma taxa por cada dia extrapolado do combinado. Mas o Sr. Maior e a Srta. Menor acreditavam que o músico deveria ter seu próprio instrumento, por uma razão mais pessoal; mais emocional. Afinal, cada músico se identifica com determinado instrumento com o passar dos anos e acaba se afeiçoando com ele ao longo de sua jornada musical. Como presente, deram para a pequenina Octavia um pequeno Contra-baixo, como seu primeiro instrumento pessoal e que o usará pelo resto de seus estudos.

Essa foto foi tirada pelo fotógrafo Head Shot, um talentoso pégaso fotógrafo. Sua assinatura e declaração encontravam-se escondidas atrás da foto, qual era guardada dentro da pequena moldura de madeira verde-oliva. Ele já havia passado desta para melhor há uns cinco anos, quando Octavia soube da triste notícia. Octavia não lembrava muito de seu rosto quando pequena, mas recordava e muito de sua paixão por fotos e paisagens. Suas imagens, de talentosos artistas a deslumbrantes paisagens, tanto abertas como fechadas, ainda permanecem em museus, na memória e nas páginas de livros históricos das bibliotecas de Equestria. Isso consolava Octavia. Ela estava feliz que, pelo menos, ele não havia sido guardado no fundo da gaveta das memórias dos cidadãos equestrianos, como muitos que ela recordava foram; e novas velhas caras estão começando a sofrer disso.

Octavia se lembrava daquele dia da foto com o pégaso perfeccionista ao montar todo o equipamento. Ele trotava de um lado para outro, fazendo o possível para que a foto saísse perfeita ou satisfatoriamente aceitável.

— Vire um pouco mais para esquerda, minha pequena. Não o corpo, só a cabeça! Isso! Mais um pouco… mais… Isso tá estranho, talvez– Uma luz aqui para iluminar o ambiente! Está muito escuro! Vamos trazer o tripé… aqui! Não, não! Aqui está melhor! Um pouquinho mais baixo… mais baixo… mais um tiquinho… pronto! Ê, diacho! Tá bambo! Alonga mais a perna dele para fixar! Posicione o boom logo ali, em cima da cabeça da… da… Octavia, isso! Perfeito! Vamos agora calibrar o foco da câmera. Um giro aqui… e uma meia-lua pra esquerda… e– Ei! Porquê trouxemos o boom?! Não estamos gravando nada, tirem ele daí!

A pequenina Octavia não conseguia segurar sua risadinha, — Ô, bichinho. Todo atrapalhado…

— Não se mexa, Tavy. A foto já vai estar pronta rapidinho. — disse uma voz reconhecível.

A pequenina pônei cinzenta olhou para um rosto obscurecido pela luz do holofote atrás dela. Ela o reconheceu pela sua escondida aparência e sorriu. Ao assentir com a cabeça, endireitou seu corpo e enrolou seus cascos ao redor do Contrabaixo. Head Shot parou a circulação de pôneis técnicos ao erguer de seu casco para o alto. A pequena Octavia percebeu isso e partiu para olhar diretamente para a câmera do fotógrafo, cujo o rosto estava obscurecido por um pano preto. Ele acenou com o casco levemente para a esquerda. Octavia entendeu isso como um pedido e virou um pouco sua cabeça para aquele sentido. Head Shot parou bruscamente seu casco, assim como a cabeça da pequenina modelo. Ela estava de pé, com os dois cascos posteriores abraçando o pequeno Contra-baixo e segurando o curto arco. Sua crina era — e ainda é — longa e escura, a franja cobria sua testa acinzentada e terminava perto de seus grandes olhos púrpuras. Seu doce sorriso fazia muitas bocas sorrirem e outras narinas suspirarem enquanto seus olhos cor-de-uva faziam os corações se derreterem. Tão pequena e tão grande ao mesmo tempo. Estava para começar a sua longa jornada para o mundo da música, assim como seus pais começaram. Inúmeras músicas surgirão, muitas delas premiadas e consagradas; novos pôneis conhecerá, assim como novas amizades florescerão.

De certa forma, Octavia se sentia feliz com tudo isso acontecendo. Sua vida estava para mudar, do bom para o ótimo. E, quem sabe, do ótimo para melhor?

— Olha o passarinho! — e um grande flash expandiu em sua visão.

Vinyl ainda segurava a fotografia bordada. Ela se derretia pelo rosto fofo e pequeno de sua amiga monocromática. A modelo da foto, agora mais velha, aproximava-se sorrateiramente por trás de Vinyl com surdos trotes no chão de madeira irrequieta. Ela revelou-se contradizendo o recente comentário sobre a foto.

— Na verdade, isso é um Contrabaixo, Vinyl. Violoncelos são menores e sustentados por uma curta vareta de metal em baixo deles.

Vinyl se virou e olhou  para sua amiga com alegria — Oi, Tavy! Bah, sempre confundo os dois! Mas os sons deles são os mesmos, não dá para diferenciar!

Octavia deu uma risadinha — Tudo bem, Vinyl. É normal confundir ambos os instrumentos. A diferenciação pelos sons é que o Violoncelo alcança notas tanto agudas como graves. Já o Contrabaixo é excelente para notas graves e pesadas. Ele, como diz seu nome, executa sons para preencher o fundo vazio “por baixo” dos instrumentos agudos como Violino ou mesmo a Flauta. Eles ficam quase imperceptíveis aos ouvidos, mas se prestar bastante atenção, é possível ouvi-los. Quando misturados, formam uma melodia simples, mas belíssima.

— Pois misturar ruídos é comigo mesmo! É só pegar um tum-ts-dum aqui, um tcheco-tcheco ali e mais um gigantesco boom-boom, acompanhado de show de luzes e lasers para fazer uma balada linda de tocar e dançar! E se for ao ar livre, ia ser uma rave de abrir cratera no chão de tantos pôneis pulando! Uhu!

— Mas precisa de toda essa balburdia para fazer um show de música?

— Minha filha! Até parece que tu não me conhece! Em meus shows, corcéis e éguas tem que bater cabeça, sacudir as madeixas! Tem que se sentir jovem de novo! É o que eu digo: Veio pra balada, tem que sentir a parada!

— Ai, ai, Vinyl. Você é uma figura, mesmo.

— Querida, eu sou única e poderosa. Assim como você e qualquer pônei neste mundão vasto e verde.

— Hm, não creio muito nesse pensamento. Há vários outros músicos que tocam os mesmos instrumentos que eu ou você e, nem por isso, podemos ser chamadas de únicas. Uns tocam bem e vivem disso; outros tocam bem e não se sentem bons o bastante. A diferença é que alguns conseguem… outros infelizmente, não.

— Conseguem o quê?

— Se dar bem na vida; ser reconhecido; ficar famoso. Não é possível chegar até este nível de vida sem ser respeitado e reconhecido pelos outros. Infelizmente, não é assim que funciona. Eu mesma eu não me sentiria bem não sendo reconhecida pelo quê faço.

— Tavyzinha, querida! Não só basta ser melhor em tudo, saber de tudo e conhecer tudo para ter uma vida ótima e saudável. Do que adianta um pônei que passou a vida estudando tudo sobre tudo e ele não sabe o que é ter companhia? Ou amizade? Ou o que é paixão? Ou o quê você veio fazer nesse mundo? E por quê? Não dá, amiga! Simplesmente, não dá! Ele sabe onde fica o norte, sabe como chegar lá, mas desconhece o que tem lá. Ele precisa primeiramente descobrir quem você é de verdade.

Essa última parte que sua amiga disse chamou sua atenção.

— “Descobrir quem você é de verdade”? — pensou Octavia.

Os olhos cor-de-uva da pônei cinzenta olharam para unicórnio pálida com admiração, mas logo caíram levemente para os pés da estante com frustração. Octavia sentia falta disso. Tanto que ela sentiu um comichão desconfortável em seu flanco nu. Seus olhos não seguiram o comichão, mas sua mente já visualizava seu quadril na cor mais natural que ela via em anos sobre seu corpo: cinzento.

E só.

Sem cores adicionais, nem desenhos lineares e muito menos caricaturescos. Apenas uma porcaria de um flanco cinzento, nu e vazio. Com raiva de si mesma, seus lábios torceram para conter qualquer regato maldito que escorresse de seus olhos contra sua vontade, e, com vergonha, sacudiu discretamente sua charmosa cauda negresca para esconder seu flanco direito, de certos olhos magenta-sangrentos.

Ela conteve a mágoa com êxito e um suspiro; só uma esdrúxula vitória que, na verdade, era apenas uma escrupulosa derrota adiada.

— Não é necessário todo o mundo saber quem você é para ser reconhecido. — continuou Vinyl, despertando Octavia de seu rápido devaneio. — Eu mesmo a reconheço como melhor musicista que já existiu, Tavy!

Octavia necessitava muito de um elogio naquele momento. Isso a alegrou um pouco e a fez desviar seus pensamentos negativos. Ela sentiu suas bochechas arderem um pouco — A-agradeço pelas maravilhosas palavras… mas você diz isso porque você é minha amiga, Vinyl.

— É por isso mesmo? Será? — Vinyl franziu uma sobrancelha para sua amiga.

— E não seria? — perguntou Octavia, dando de ombros.

— E se eu não fosse sua amiga? E se eu fosse alguém que você nunca conheceu, nunca viu mais gordo ou irresistível, e aparecesse na sua frente dizendo “Octavia, A Majestosa! — Vinyl começou a gesticular caricaturamente, como se fosse uma grandiosa atriz pastelão — Você é a melhor e mais linda musicista que existe em toda Equestria! Eu te amo com todo o meu coração! Case comigo!”, ainda assim a opinião desse cidadão valeria mais do que a minha?

— Não! Claro que não, Vinyl! — ela sacudiu ambos dos cascos horizontalmente, negando o máximo possível — É… É complicado explicar isso. Eu…

— Tudo bem, Tavy. Tudo bem. — Vinyl aprochegou para perto de Octavia e afagou-a num abraço amigável — Não quero deixá-la confusa, nem perdida. Só quero ajudá-la.

— Sério? Pois não está fazendo efeito e dispenso esse remédio!

— Tá legal, tá legal, me desculpe. — Vinyl terminou o abraço com uma palmadinha amigável em seu ombro. — É que, às vezes, sinto que você não está bem, Tavy.

— Mas eu estou bem, Vinyl. — Octavia segurou o casco de Vinyl gentilmente — Não precisa se preocupar comigo–

— Mas eu me preocupo, sim! — Vinyl agarrou subitamente a pata de sua amiga com os dois cascos brancos, segurando-os nervosamente — Sou sua amiga e você é uma das pôneis mais queridas por mim! Quero apenas o seu bem.

— Assim como eu quero o seu, Vinyl. — Octavia acalmou a tensão de Vinyl ao abaixar ambos os cascos — Te digo novamente: eu estou bem. Sério. O quê que houve, Vinyl? Desculpe pela indelicadeza, mas tem algo te incomodando ao meu respeito? Faz semanas que está desse jeito, tão ligada ao que eu faço ou desfaço. Estou me sentindo muito desconfortável com essa situação que está criando.

— Tá bom, Tavy. Tá bom. Me desculpe. Realmente estou meio intrometida, me perdoe. Você… sabe como eu sou em relação à isso.

— Sei, sim, Vinyl.

 “E sei também que algo a incomoda. Está escrito explicitamente nessa sua cara sedosa e nevalesca. Nunca te vi assim, Vinyl. Uma pônei independente; onde manda e desmanda em sua vida; sem nem um pingo de medo de errar e com extrema coragem para resolver seus erros ocorridos. Quanta segurança em você… e quanta falta dela em minha parte. Eu devia estar orgulhosa, mas também sinto muita inveja. Mas nunca a vi fragilizada desse jeito, até agora. Parece ser sério. Gostaria que me falasse o que te aflige. Alguma hora você não deve aguentar e abrir esse seu cadeado pulsante.”

 — Gostaria de te perguntar uma coisa, Tavy. — disse Vinyl, olhando para a estante — Nada pessoal, só uma curiosidade.

— Sim, claro. O quê é?

— O quê pretende fazer daqui a alguns anos, amiga?

— Daqui a alguns anos? — Octavia pousou seu casco sobre o queixo, pensativa — Hm… Não sei bem o certo. Pretendia viajar, conhecer outros lugares–

— Viajar? — exclamou Vinyl, virando-se bruscamente para ela — Mas isso é o que você mais tem feito em sua vida toda!

— Sim, é verdade. Passei por vários lugares em Equestria, mas a diferença destas viagens é que nunca tive a chance de conhecer esses lugares por mim mesma. Eu não passava mais do que dois dias num lugar para, imediatamente, estar em um outro. E, em seguida, ficar em mais uma estadia temporária e seguir para um outro lugar. Sinto remorso até hoje por causa disso.

— Hu-hum. Verrrrdade. — brincou Vinyl, dando ênfase no R com um sotaque sulista conhecido.

— Quando você tinha dito sobre “descobrir quem eu sou de verdade”, — continuou Octavia; seus olhos púrpuras deram uma olhada rápida para seu flanco cinzento e vazio, escondido pela sua cauda — acredito que será um excelente ponto de partida para começar. Quem sabe o quê posso encontrar durante essas viagens e o quê eu posso aprender com elas?

Vinyl apertou os olhos e apontou-lhe um casco — Ei, não tinha um cara que tinha feito esse mesmo tipo de coisa?

Octavia pensou por um momento, tentando identificar quem Vinyl poderia estar se referindo. Sem ideias, arriscou-se perguntar — Um cara? Quem?

— Era um bicho doido aí, se não me falha a minha humilde memória… — disse Vinyl ao sacolejar suavemente com o casco — Viajou para vários lugares… Conheceu um monte de pôneis e aprendeu uma ruma de coisas… Publicou vários livros como… como o“Terras Férteis Pra Lá De Absurdas”…

— Ah, tá falando de… Foreign Eye, aquele diplomata?

— Esse mesmo, amiga! — exclamou Vinyl — Eu li esse livro dele. Menina, o lugar deve ser mágico, pelo jeito que ele descreve mil maravilhas sobre aquele reino. Um verde lindo que vai até onde a vista alcança, frutas doces e coquetéis de vários tipos, muitas festas e danças. Enfim: Ma-ra-vi-lho-so. Me deu até vontade de dar uma passada lá, se minha agenda permitisse. Já leu esse livro dele, Tavy?

— “Terras Férteis Pra Lá De Absurdas”? Hm, não. Receio que não. Estão falando bastante sobre esse escritor nos intervalos lá na Gravadora. Li em uma revista que recebeu boas críticas com o livro“Rio Grande e Sulista”. Mas infelizmente não cheguei a ler nenhum dos livros dele.

— Pois, então, lê esse livro, menina! Depois que terminá-lo, ‘cê vai ficar doida com aquele reino e, com toda fé no coração, vai ser o primeiro lugar de sua lista de viagens!

— Hum, providenciar-lo-ei.

Vinyl olhou para Octavia com suspeita. Seus olhos magenta estavam novamente cerrados e o nariz pálido apontava-lhe seu rosto cinzento; alguma coisa chamou sua atenção. Octavia percebeu isso nela e arriscou perguntar, um pouco constrangida — … O quê foi, Vinyl? Algo de errado?

— Isso aí tá certo? — ela apontou-lhe o casco.

— Isso”? Isso o quê?

— Esse troço aí! O… o “Providenciarei-lo-laei-rei”.

— Ah… Sim, sim. Claro. — Octavia limpou um pouco a garganta — Mas me conta, Vinyl…

— Oi? — Vinyl já ficou com a postura reta, preparada para qualquer pergunta.

— Você também tem planos para o futuro? Alguma viagem, alguma mudança ou alguma loucura de sua parte?

A unicórnio pálida levou seu casco para os olhos — Vixi, amiga, nem te conto! Eu–

— Ué, então, não conta. — Octavia deu um sorriso maroto.

Vinyl a encarou por um momento, mas terminou com uma risadinha.

— Eu trabalho muito com essa minha carreira de DJ. — continuou Vinyl — Baladas, raves, adoro de paixão! Nada me deixa mais morta de feliz que isso! Mas o saco é que essa felicidade só existe enquanto eu trabalho. Digo, quando não estou trabalhando, sinto um buraco em algum lugar, entende?

Octavia reflete por alguns segundos e assentiu com a cabeça — “Compreendo.”

— Pois: Esse buraco é preenchido por meus amigos queridos. Como você; o Tesudo; a Lyra; Frederic, aquele safado; a Flute; o Dante; e muitos outros lá na Gravadora. Me sinto realizada!

 O Tesu– White Glove? — pensou Octavia com extrema suspeita. — Ela o considera como amigo? Que… estranho. Não, ela deve estar tramando alguma coisa, só pode. Por quê mais ela citaria seu nome no meio dessa conversa? Não tem nada haver uma coisa com outra! O quê está tramando, Vinyl?

 A pônei cinzenta ouviu cada palavra daquela unicórnio cor-de-nevasca, mas parece que ainda falta alguma coisa. Ela ainda não explicou aonde quer chegar com aquele discurso todo.

— Mas…? — perguntou ela.

— Ainda assim, alguma coisa perfura lá dentro! — Vinyl pousou bruscamente seu casco sobre o peito e olhou para Octavia com seus olhos magenta-vermelhos — Uma necrose, um carrapato miserável que não larga de mim! Eu sinto isso, mas… mas é difícil de explicar!

— Pois, para mim, está mais do que óbvio, Vinyl. — a cinzenta respondeu secamente — E eu acredito que você também já sabe o que é.

— Sim, eu sei o que é. — Vinyl suspirou tristemente — É isso que vem me incomodando ultimamente. Como minha nova meta neste futuro, vou acabar com essa agonia. Mas, tirando isso… eu posso dizer que sou feliz: Tenho um bom emprego, um sustentável emprego; amigos que me amam; mas não me sinto completa ainda! Não estou sendo egoísta, estou?!

Octavia encarou com seus olhos púrpuras-de-uva a face de sua amiga nevalesca. Ela se sentia triste, isso se podia perceber. Mas é uma tristeza mais profunda, quase invisível. Ela se sentia só, mesmo que fosse uma coisa mínima mas, ainda assim, para Vinyl, era algo muito sufocante. Octavia tomou um pequeno fôlego; pois agora vem o discurso dela.

— Bem, a dramatização que você está causando quanto ao assunto faz parecer um pouco exageradamente egoísta. — disse ela finalmente. — Pois como você declara: Você é feliz. Tem um bom emprego; muitos e bons amigos que demonstram seu amor por você; não passa por nenhuma dificuldade financeira ou momentânea; mas, ainda assim, isso não é o suficiente para você e se sente triste mesmo assim.

— Mas eu não estou triste! — rosnou Vinyl na defensiva — Nunca disse que eu estava triste por isso!

— Mas é isso que está demonstrando com essa dramatização toda, Vinyl, querida.

— Desculpe, Tavy, mas eu não estou fazendo drama. Não estou me jogando no chão e dando coice em tudo que vejo pela frente, na doida. É apenas… uma sensação angustiante para mim que estou sentindo e estou te contando, esperando que você compreendesse. — e cruzou os braços e bufou pelas narinas, como uma criança emburrada. — Aposto que o Tesudo ou o Dante me compreenderiam melhor…

— Sim, Vinyl. Me desculpe. Claro que compreendo. — Octavia tomou um casco de Vinyl e o massageou suavemente — Tanto que fico feliz que tenha juntado coragem e humildade para me contar esse seu sentimento. Sei que é muito difícil para você se abrir para alguém.

— “Humildade”? — Vinyl levantou uma sobrancelha.

— Sim. “Humildade”. — Octavia redestacou essa palavra para ela — Quando você começou a expressar suas recentes emoções, fiquei realmente surpresa. Sinceramente. Eu sempre te vi como uma pônei de atitude; firme e robusta — no bom sentido, claro —. Odeia ficar de mimimi e sempre levanta o astral de todos os pôneis quando estão na fossa. Quando algo dá errado, você chuta o pau da barraca e consegue resolver as coisas na lata. Sempre invej–… admirei isso em você.

Agora Vinyl estava surpresa com sua amiga cinzenta. Vinyl sempre via Octavia como alguém chique. Dificilmente se via Octavia sair de sua pose endurecida de seriedade. Vinyl também a via como uma pônei de estupenda habilidade. Ela achava incrível como ela conseguia transformar qualquer nota em uma melodia de derreter corações de pedra. Tudo o que tocava virava harmonia em seu Contra-baixo. Que inveja ter essa facilidade.

Vinyl suspirou com um sorriso amigável no rosto — Todo pônei tem inveja, Tavy. Isso é normal. Aposto que até naquele corpo másculo do Tesudo tem um tiquinho inveja de alguma coisa. — e descansou o casco-em-neve no ombro cinzento de sua amiga — Não estou dizendo que é uma coisa boa. É um sentimento ruim, negativo, sim. Mas isso é uma coisa sua e somente. Só você pode lidar com ela, seja para o bem ou para o mal.

Vinyl, com o casco livre, apontou em seu próprio peito, para o peito de Octavia e para o mundo ao redor delas, conforme mudava os sujeitos em sua frase — “Tudo depende de mim, de você e das nossas reações. Você é uma pônei especial, Octavia. Você ainda não sabe mas, um dia, vai descobrir.” — e terminou com uma piscadela.

Octavia amou esse comentário dela. Deste rosto alvacento, um sorriso harmonioso surgiu dentre essas bochechas jovens.

— Obrigada, Vinyl–

— Hiperlink! — bradou repentinamente Vinyl ao erguer seu casco pra cima de forma brusca, assustando um pouco sua amiga Octavia. — Como está o Tesudo? Ele tá bem e tudo mais?

Novamente. Inacreditável. Sua pálpebra cinzenta apertou pela ousadia e seus lábios se contorceram pela insistência. Naquele momento, Octavia não estava aguentando mais. Mas será o impossível?! Vinyl tem sempre que fazer questão de incluir seu mordomo em qualquer assunto. Vamos falar de salada? White Glove cozinha bem. Mas que vestido lindo! White Glove consegue remendá-lo a qualquer hora. Essa sela ficou divina em você! Corcéis como White Glove deveriam pirar numa égua com uma sela dessa. Essa parede ficaria melhor com uma cor mais escura ou mais clara? Ficaria melhor com uma cor mais White Glove. Acho que vou precisar de duas luvas brancas novas… Hmm, gulosa, heim? Chega! Já basta, agonia!

Mas ela não pode tomar as primeiras conclusões — apesar de parecerem explicitamente óbvias — , precisa saber a sacada de Vinyl. Por que ela retomou o assunto depois de algum tempo? E, assim, do nada? Qual é a sua jogada para sua pessoa? Se Octavia deseja descobrir, ela teria que entrar no jogo dela. Calma e respeitosamente.

— Bom, — começou Octavia com um tom mais calmo possível — acredito que ele esteja indo bem.

— Bem em que sentido? — Vinyl perguntou sem tirar os olhos da estante, fuçando entre os prêmios e suas declarações.

— Bem… no horizontal, na diagonal. O quê preferir.

— Tsc! Falando sério, Tavy!

— Tá bom, tá bom. No sentido de estar bem, creio eu. — Octavia procurava algo mais a dizer, mas isso era bem difícil; para a sua surpresa. — Ele… não reclama de nada. Deixa a casa bem limpa. Prepara ótimas refeições todos dias…

— E?

— E só isso.

— Como assim “só isso”?! — havia irritação inesperada em sua voz.

— Deveria ter algo mais? — Octavia se impôs num tom de repreensão, relembrando-a em que residência ela se encontra.

Vinyl limpou a garganta, constrangida — Desculpe, Tavy. Mas, quando perguntei como ele se passa, perguntei se ele está saudável e coisas do tipo.

— Hum… — ela refletiu por um breve segundo, ela queria aproveitar esse inesperado tópico para matar de uma vez esse mito em sua cabeça — Mas por que esse interesse, Vinyl? Me explica isso direito, por favor.

— Ué, não estávamos falando sobre planejamentos pro futuro?

— Sim, e…?

— Pois bem. Você planeja viajar, sair por aí, puxar uma palha, uma rede e tal. Isso é você, tudo bem. Eu apoio total e fielmente sua ideia, vai te fazer bem pacas!

— Mas…? — já era óbvio que Vinyl estava enrolando com os entretantos para mancamente chegar aos finalmentes nesse discurso.

— Mas, vendo por um outro lado, o quê será do Tesudo? Ele vai continuar vivendo com você?

Cheque. O cavalo foi posto em formação e o rei precisa ser resgatado da derrota. Octavia precisaria de um contra-ataque para restabelecer a soberania ou simplesmente se render à lança do cavaleiro.

— Bom… — disse Octavia finalmente, tentando enrolar um pouco para pensar, — O contrato dele ainda estará valendo por mais 1 ano. Mesmo depois da minha turnê, ele passará a trabalhar aqui por uns meses. Mas, depois disso… não tenho certeza.

— Mas você não perguntou nada a ele?

— Não, Vinyl, não perguntei. Por que eu deveria perguntar? A vida é dele! Eu não tenho nada haver com isso; não tenho que me intrometer!

— Você não estaria se intrometendo, estaria demonstrando preocupação! Ele trabalha para você há mais de oito anos!

— E ele pode continuar trabalhando, mas não mais para mim! Ele pode oferecer seus serviços à outros pôneis e pode até ganhar mais por experiência. Não é o fim do mundo!

— Mas ele já recebeu ofertas bem mais gordas de outros pôneis enquanto ele trabalhava para você, Tavy. Lembra da oferta da Photo Finish ou da Saphire Shores? E não era salário para servir de mordomo, mas para servir como Leão-de-Chácara delas; Guarda-Costas! Elas sabiam de seu porte físico e de seu antigo emprego, assim como você sabia, pois está escrito no currículo dele.

Octavia torceu um pouco os lábios — Sim, Vinyl. Eu sei.

— Ele podia ter aceitado, Tavy. Podia. E ele está aqui até hoje.

— Se ele está aqui, é por escolha dele, Vinyl. Não é problema meu, a vida é dele; ele que a viva do jeito que ele deve achar certo. Eu não tenho que me preocupar com isso, ele sabe se cuidar.

— Mas eu me preocupo com ele, pois o considero meu amigo. Isso vale para você; pro Dante; pra Lyra; pra Flute; então, vale para ele também. Você não o considera seu amigo?”

Octavia já viu onde ela queria chegar. “Amigo”. É uma palavra bem específica, e difícil de aceitar, nessa sociedade que muda constantemente; assim como seus valores. Octavia considerava os nomes citados por Vinyl como seus amigos legítimos, pois os conheceu há muito tempo. Tanto no CEM quanto na Gravadora. Foram anos de convivência e alegria para formarem laços tão fortes um com o outro. Mas essa pergunta de sua amiga Vinyl a pegou de jeito. Ela sentia dificuldade de responder. Podia ser qualquer outra pergunta, mas essa era sufocante. Essa pressão Octavia não queria presenciar novamente; ela não queria fazer mal a sua amiga, mas essa sua amiga estava fazendo mal a ela. Então, não há por que se sentir ruim com isso depois.

— Não é a primeira vez que você me perguntou isso hoje, Vinyl. E eu já havia respondido, caso não lembra: Ele é o meu mordomo. E eu sou sua patroa. Tudo que há entre nós é, apenas, respeito mútuo.

— Essa é a sua opinião, Tavy. Ela não vale por dois.

— Ao que parece, ela não vale pra você.

Isso já estava deixando Vinyl irritada. Essa pônei é muito teimosa! Ela não dá o braço a torcer nem por uma pergunta simples. De alguma forma, esse assunto é extremamente difícil de ser discutido com aquela cinzenta. Ela não se abre, nem para sua melhor amiga! Afinal, o que é amizade se você não se abre para o(a) seu(ua) amigo(a) quando o assunto é sobre amizade?

— Ai, Tavy! É tão difícil assim de responder?! — Vinyl esfregou os cascos no rosto, irritada — É isso que me preocupa, Tavy. Você não abre comigo! O quê há com você? Me fala!

Seja o que for que Vinyl queria que ela respondesse, Octavia não queria; pois nada a obrigava a isso. — Olha,Vinyl, você me desculpe. — Octavia ergueu-se bruscamente do chão, já em quatro patas; numa posição superior e repreensiva. Ela olhava furiosa para Vinyl — Eu não estou com cabeça para isso. Não tenho porque responder essas perguntas sendo que já havia as respondido. Você não aceita as minhas respostas como válidas. Isso é desrespeitoso e não aceito isso em minha casa! Não quero mais saber desse assunto! Se você vai continuar nesse assunto e desrespeitando a minha vontade, por favor, que se retire agora. — e terminou com o casco esticado em direção à porta.

Contra-ataque executado com sucesso. A Rainha matou o Cavalo. Vinyl olhava surpresa para Octavia. Seus olhos magenta-vermelhos estavam meio atônicos e suas sobrancelhas estavam levantadas. Ela não esperava por isso: estava sendo enxotada da casa de sua melhor amiga! Ela sabia que estava puxando um assunto desconfortável para sua amiga cinzenta, mas acabou sendo uma jogada perigosa demais. Vinyl não podia evitar; ela queria saber o que a incomodava. E isso, de alguma forma, estava ligada ao seu mordomo. Ou, pelo menos, era essa a sua suspeita. Houve vários momentos como esse entre elas quando Vinyl puxava seu mordomo em assuntos pessoais; ela realmente suspeita que há algo por trás disso — e isso a deixava mais curiosa; e preocupada, pois o assunto refere-se aos seus dois bons amigos e seus possíveis destinos —. Mas essa era a primeira vez que atingiu o seu limite: sua expulsão.

O silêncio pairava ao redor delas por um breve momento. Octavia ainda olhava com repreensão em seus olhos púrpuras contra os magenta-sangrentos surpresos de Vinyl.

Qual deveria ser a resposta de Vinyl agora?

Deveria ela continuar? Se ela continuar, com certeza terão uma longa noite de debates e troca de palavras grosseiras entre elas. A noite estava ótima para as duas amigas: um delicioso jantar; uma noite em companhia agradável entre amigos; risadas, sorrisos e abraços amigáveis trocados. Tudo arruinado por apenas uma única discussão negativa que estaria por vir.

Vinyl não entendia muito bem qual seria a relação entre esses seus dois amigos. Eles viviam a um bom tempo juntos e o Tesudo não quer trabalhar em mais nenhum lugar a não ser na casa de sua patroa, Octavia. Então eles podem ser considerados amigos; ou próximos a isso; ou há algo realmente intrigante entre eles que ela não estava vendo. Mas Octavia não admitia; e Vinyl nunca puxou esse assunto como Tesudo. Tudo o que lhe resta, no momento, é a opinião desta teimosa pônei cinzenta.

Ou deve ela deixar para lá e tomar seu rumo?

Sem dúvida, seria a melhor coisa para se fazer. Esse assunto não iria continuar, não aconteceria a remota discussão, nenhuma das duas sairiam feridas emocionalmente e ambas teriam uma noite mais amena de sono do que elas teriam se acontecesse o contrário. Também não há porque essas duas ficarem trocando espinhos por causa desse assunto. Era o direito de Octavia não continuá-lo. Se ela não se sente confortável com isso, Vinyl teria que acatar e respeitar sua decisão.

Ela queria saber; queria muito saber o que se passa entre esses dois, mas ao mesmo tempo, não queria prejudicar ambas e ambos. Essas duas mulas poderiam ter esse assunto discutido com mais calmaria e boa vontade. Mas sem esses elementos importantes para um debate, acaba virando uma discussão desgostosa e pouco produtível.

Vinyl apenas suspirou com tristeza — Tens razão, Tavy. Eu… estou muito intrometida hoje. E já está tarde e temos trabalho na Gravadora amanhã. É melhor eu e você termos logo uma boa noite de sono, antes que ela fique ruim de verdade. — ela ergueu-se lentamente do chão, com a cabeça levemente baixa, mas chamativa.

Vinyl trotou surdamente para o corredor e Octavia a seguiu em seguida. Chegando a porta de madeira escura com vidrais coloridos, Vinyl apoiou com o casco a maçaneta dourada e pressionou-a, abrindo a porta num clique, além de um ranger enferrujado da dobradiça. Do lado de fora, sob um céu negro e estrelado, a unicórnio de crina rebeldemente azul estava de costas para a pônei cinzenta, que segurava a porta a espreita.

— Tavy… — Vinyl virou seu corpo esbranquiçado e ficou de frente para sua amiga.

— Sim, Vinyl? — seu tom ainda estava irritado.

— Me desculpe se, em algum momento, eu a desrespeitei.” — disse Vinyl numa voz triste — Realmente, não foi minha intenção…

— Foi, sim, sua falsa…! Você sabia, sim, e não queria parar. — pensou Octavia ao torcer um pouco os lábios.

— De qualquer forma, espero que me perdoe. Sei que nenhuma de nós deseja passar a noite furiosa uma com a outra. Então, quero que saiba que não me sinto ofendida com esta… saída. Apenas quero o seu bem.

A expressão de Octavia não mudou, continuou séria até o fim. Típico dela.

— Tenho permissão para dar “Boa Noite”? — e esticou os braços brancos, com um sorriso torto em seu rosto maroto.

Como resposta, só uma sobrancelha foi erguida daquela face cinzenta. — Sério que você quer apelar para isso? Hunf, é nesses momentos que te odeio tanto, Vinyl… porque eu acabo acatando o que você quer! — que terminou com um rolar dos olhos.

Octavia trotou para fora do recinto para oferecer um abraço e uma boa noite de despedida à sua amiga esbranquiçada. A outra, por outro lado, foi ao encontro dela aos pulinhos alegres.

Apenas um abraço, “Boa Noite” e acabou. Não duraria nem 5 segundos, se seu humor permitisse. Elas se abraçaram levemente; Octavia já iria terminar seu abraço, até que Vinyl deu um beijo curto em sua bochecha cinzenta.

— Boa noite, Octavia. Durma bem! — Vinyl disse logo em seguida; o rosto de Octavia inflamou.

— Boa noite! — ela rosnou entre os dentes; seguido de um forte relincho como se estivesse soltando fogo pelas ventas.

Octavia virou as costas e entrou em sua casa. Ela queria quebrar aquela porta ao arrebentá-la contra sua batente, mas, obedecendo à ordem de sua santa consciência, apenas fechou-a silenciosamente.

Vinyl só pôde sorrir tortamente — Parece que forcei mesmo a barra… hehe

A unicórnio se levantou de onde estava e se espreguiçou, esticando as patas traseiras e dianteiras — Hmm… Bom, agora não adianta voltar atrás. Melhor eu ir andando, tenho uma longa noite para dormir já que vou ter que aguentar essa teimosa o dia inteiro amanhã. — e terminou com uma risadinha.

Vinyl atravessou a portinhola de metal do jardim e fechou-a em seguida. E assim tomou seu rumo para a esquerda, indo em direção oposta a alguns pôneis que ainda andavam pela rua noturna de Princesa Luna. Vinyl trotava deverasmente alegre durante sua volta ao seu cafofo; ela admirava esta noite linda. Estrelada, quase sem nuvens. Os postes de lamparina atrapalhavam um pouco a visualização das mais pequeninas, mas as mais “presença” se destacavam com seus incandescentes brilhos longínquos.

Uma pena que sua amiga cinzenta esteja um pouco ocupada para poder apreciar essa noite maravilhosa.

— Um beijo… Um beijo amigável! Na bochecha! — , ela repetia, furiosa e rosnadamente, ainda não acreditando na audácia daquela miliante. Já não bastava ela querer forçar um abraço de despedida após esse ultrajante desrespeito em sua pessoa e em sua própria casa, ela ainda ofereceu um beijo na bochecha! E não era um beijo de despedida, não; era um beijo de desculpas! Vinyl sentia remorso por desrespeitá-la, sendo que aquela chifruda duas-caras sabia disso mas, ainda assim, ela quis continuar com aquilo. A culpa é dela, não de Octavia. E, como “desculpas” pelo desacato, forçou esse abraço e deixou a cinzenta ainda mais furiosa com aquele beijo. Só para ela se sentir ainda mais culpada de tê-la expulsado de sua casa!

—  Você é ridícula, Vinyl! Que raiva! — ela pensava repetidamente enquanto atravessava o curto corredor e subia a escada em espiral para o seu quarto, estatelando as tábuas de madeira com seus cascos ruidosamente.

— Idiota, idiota, idiota, idiota! — ela blasfemava em sua cabeça várias vezes.

Ela fechou a porta de seu quarto, agora com toda liberdade, num estrondo e relinchou forte. Como uma tentativa de afogar sua irritação, ela trotou pesadamente em direção ao seu banheiro e ligou o chuveiro com uma patada reta e afiada. Ela sentia sua cabeça queimar; parecia que ia explodir. Sem pensar duas vezes, mergulhou-a adentro na limitada cascata de água que saía de seu chuveiro. Péssima ideia.

Ela recuou ligeira e destranbelhadamente, e afastou sua cabeça daquele líquido gélido aos ofegos — Ahr…! Ahr…! Águafriafriafri–!

Octavia não viu a folgada pedra de sabão no piso e pisou bem em cima dela. Sua pata traseira voou para baixo de sua barriga, forçando-a a sentar-se no chão de maneira rude. Malditos sejam sabonetes alheios que adoram ficar deitados no chão nas horas mais indesejáveis como essa para ver a desgraça dos outros.

Sua crina estava molhada; a água fria continuou a atingí-la provocadamente; seu peito ardia por ter sido rude com sua amiga ao expulsá-la; e agora seu parachoque traseiro doía tanto como sua irritação por tudo isso que estava acontecendo. Ela não aguentou:

— Ahhh!! Porcaria, Vinyl! Eu te odeio, sua idiota! — finalmente ela preguejou com esforço.

Seu grito enfadonho ricocheteou pelo banheiro de ladejos brancos inteiro, como uma bala perdida que voa sem destino por todos os ares. Fino, agudo e estremecido. Seus tímpanos tremeram em angústia pelo horrível som que se formou no cômodo. Para aliviá-los, Octavia teve que deitar-se naquele chão frio e molhado do box e tampar os ouvidos com os próprios cascos. E ela permaneceu lá, toda dolorida e com raiva até o limite que seu corpo poderia aguentar. Era pressão demais.

— Grrrr…! — ela babulciou baixinho e desceu seus cascos para o rosto, escondendo sua mágoa e soluços surdos.

Terminado o banho — depois de muito esforço para alcançar a chave que muda a temperatura do chuveiro — Octavia pôde sair do banheiro completamente revigorada. O vapor quente da água aquecida expurgou todas as impurezas que estavam dentro dela e agarrada a ela. O pêlo unimonocromático de seu rosto brilhava pela luz amarelada da lamparina a óleo que iluminava seu quarto escuro. Seu corpo estava coberto por um roupão rosa de seda-fina, mas, ainda assim, não escondia sua mais atual beleza. Sua crina sombria estava embrulhada por uma singela toalha, mas podia-se sentir uma deliciosa essência de margaridas; suas favoritas. Inocência; paz; e pureza. Juventude; sensibilidade; e amor inocente. Características aparelhadas a ela e suas amadas flores. Aos trotes macios, ela avançou em harmonia para a penteadeira com um espelho grande num canto da sala, de costas para a porta de entradas e saídas ao longe. Octavia subiu sobre a cadeira e sentou-se de frente para o espelho e seus instrumentos. Seus grandes olhos púrpuras encararam o vidro com desgosto. Não importava quantos banhos tomava, quantos cheiros de margaridas sentia, quantas vezes ela teria que olhar para aquele rosto jovem e atraente; ela se sentia ridícula e egoísta.

— Como você pode ser assim, bela Octavia, se você não se sente assim? — ela suspirou tristemente.

Octavia ergueu os cascos e desenrolou a toalha de sua crina. Ela estava molhada e pesada, mas, em compensação, sua crina estava meio úmida, quase seca. Ela pendurou a toalha molhada no cabideiro ao lado da penteadeira e puxou uma gaveta logo em seguida. Encontrou uma escova cuja tinha uma tira de elástico larga para enrolar em seu casco, impedindo de escorregar ou cair durante o uso, e um lenço branco quadrado. Ao fechar a gaveta, colocou ambos em sua frente, vestiu a escova com a tira enrolada em seu casco e puxou suavemente sua crina negra para cima do ombro. Delicada e habilidosamente, escovou suas mechas longas e lisas com toque gracioso; os pêlos da escova deslizou entre as fios da pônei cinzenta como um tronco seco em uma corredeira rápida e enegrecida.

Octavia se sentia mais calma agora; um dos seus momentos especiais era esse: Escovar sua crina. Ao escovar sua crina, ela, além de relaxar os músculos do corpo com ondas suaves e uma massagem enigmática em suas madeixas, podia parar o mundo ao seu redor e refletir. Refletir em quê? Em que se tem dúvida; em que se procura por respostas; em que se pensa sobre si e sobre outros; e entre outras coisas que a mente pode levar.

Esta escova fazia ela se sentir bem. Um utensílio morto modificado de madeira e plástico fazia um ótimo trabalho, diferentemente de certos pôneis pálidos chifrudos e rebeldes com olhos vermelhos irritantes; que só causavam feridas para depois soprar.

Está aí um assunto bom para refletir neste momento agora de calmaria e lógica: Vinyl.

Octavia grunhiu com desdém, ainda irritada com a ousadia daquela enxerida. — Vinyl está irritantemente estranha. O quê diabos ela queria com aquelas perguntas?

— Está muito mais do que óbvio que há possibilidades de ela estar explicitamente apaixonada White Glove. Ela não parava de perguntar sobre ele, mesmo nos momentos em que ele não tinha nada haver com o assunto! Perguntava se ele estava bem, se tinha boa saúde, se ele era feliz… e ainda se preocupava com o futuro dele! Tá na cara!

— Mas Vinyl é uma pônei imprevisível. Difícil é de se saber suas verdadeiras intenções. Ela afirma e reafirma que não tem nada com meu mordomo; nem mais, nem menos. Até mesmo admitiu que ela o via apenas como amigo.

Octavia suspirou irritada — Isso é tão irritante. — resmungou.

— Sem falar que Vinyl perguntava para mim como se ela soubesse de tudo sobre ele! Sua felicidade, seus desejos, suas ambições. Claro que não, oras! Ele era meu mordomo, mas não é motivo para me meter em seus assuntos pessoais! Só porque moramos no mesmo teto, não significa que nos relacionamos do jeito que Vinyl pensa! Patrão é patrão; empregado é empregado. Ponto final!

Octavia relaxou um pouco, lembrando também de outros assuntos — Mas… como Patroa, devo dizer que sou responsável pelo bem estar do empregado… Mas não creio que ele seja, bom… infeliz! Não reclamava de sua vida trabalhando naquela casa, nem do sálario, muito menos do desconforto. Sempre o via de bom-humor, com um sorriso doce toda manhã; seus olhos não mostravam olheiras de noites mau-dormidas além de um céu azul límpido; seu corpo nem era fino, era bem robusto para um corcel majestoso daquele porte e lombo…

Octavia piscou os olhos repetidamente e apertou-os. Saiu de um transe maluco que ela nem sabia de onde tinha vindo. Ela voltou a escovar sua crina.

— Mas, então, por que Vinyl estava pensando o contrário? Será… que ele não é feliz?

Suas escovadas suaves afrouxaram a velocidade. Ela voltou a encarar-se no espelho.

— Mas… se ele não é feliz… o que o está fazendo infeliz? — ela suspirou, quase tendo um relapso em sua memória — Será que… é por minha causa?!

Claro que ela pode estar exagerando como toda mente feminina faz quando se depara com uma situação sobre sua digníssima pessoa. Mas Octavia devia lembrar que ele conviveu com ela havia anos. Ele tinha sua vida e ela tinha a dela. Nunca houve diferença no que faziam que o outro percebesse uma mudança. Até que uma certa unicórnio pálida intrometida entrou no meio do campo e provocou uma “mudança”; e foi bem no meio do jantar de hoje.

Vinyl abruptamente convidou o mordomo de sua amiga cinzenta a juntar-se a elas no jantar. Era um jantar informal, entre a patroa e sua amiga. Ele poderia ter dito “não”, assim ele seguiria de volta para sua vida e elas para as delas. Tudo nos conformes e como sempre foi e seria. Mas ele também poderia ter dito “sim”, aceitando o convite daquela audaciosa unicórnio chifruda. Isso seria, sim, uma mudança explícita de comportamento; que Octavia iria perceber. Nunca aconteceu isso antes e poderia ter acontecido naquele jantar. Mas não aconteceu; como também não “não aconteceu”. A situação naquela hora estava entre o “sim” e o “não”.

O empregado podia ter dito “não”, como também podia ter dito “sim”. Mas ele não disse nem isso, nem aquilo. Ficou entre os dois; ficou em dúvida.

— Se White Glove não queria dizer “não”, então ele queria dizer “sim”. Mas ele não disse “sim”… por que ele se conteve? Por que ele se conteria em dizer “sim”? Por medo? Mas por quê?!

Octavia pensava mais e mais sobre o que aconteceu naquele jantar; ela até parou de pentear sua crina, com os cotovelos sobre a penteadeira.

Tudo soava muito estranho. White Glove em dúvida, Vinyl tramando mudanças em sua vida; preocupação desnecessária e exagerada da mesma. Nossa, como isso era irritante… e intrigante.

É óbvio que seu mordomo não tinha nada com aquela chifruda destrambelhada — ao menos, ela não percebeu isso —. Octavia deu uma bufada irritada pelas narinas.

— Então… se o problema não é com Vinyl para ele ter aquela reação… seria mesmo comigo? Mas o quê eu fiz… ou não fiz para ele ter tido aquela reação?

Octavia olhava para o espelho com uma certa atenção a sua profundidade. Seu reflexo estava nele, assim como sua realidade estava para fora dele. Mas a figura cinzentosa daquele vidro perdia-se aos poucos conforme ela se perguntava repetidamente. E repetidamente e sumindo. E sumindo e repetidamente. Ela não ligava mais para a imagem não-projetada naquele espelho. Pouco importava; ela continuava se perguntando e a resposta não vinha. Ela fechou os olhos para tentar uma melhor concentração. Nada. Além do espelho ficar mais escuro, o quarto todo ficou escuro. Ela bufou. A pergunta ainda pairava em sua cabeça inchada de irritação. A tensão em seus músculos diminuía conforme ela tentava relaxar e se concentrar melhor. Ela se sentiu zonza no começo, mas sentia que estava chegando perto da resposta. Octavia continuou a repetir as perguntas em seus pensamentos. “Por quê ele não disse “não”? Por quê? O quê fiz para ele não ter dito “não”?”

— Eu poderia ter dito “não”… Mas e você? Queria que eu dissesse “não”? — uma voz masculina sussurrou em seus pensamentos.

Aquela voz deu um calafrio repentino em suas costas. Uma sensação assustadora e quente. De repente, o rosto de um corcel cor-de-creme estava projetado em sua frente. Este rosto era familiar; tremendamente familiar. Ele tinha uma crina curta e sombria como a noite. Seus olhos faiscavam em um tom azul celeste. Esses olhos… Octavia se sentia um inseto atraído pelas luzes daqueles olhos incandescentes. Mas para sua infelicidade, os olhos daquele corcel estavam tristes; melancólicos. Aquilo apertou o peito dela, como se uma cobra o estrangulasse até parar de pulsar. Foi uma dor levemente forte, ela se sentiu triste. O olhar daquele corcel a estava matando por dentro. Ela cobriu os olhos para tentar aliviar a tristeza em seu peito, mas o rosto dele precisava de atenção, caso o contrário, ele sumiria. Ela não queria que ele sumisse. Ela voltou a olhar para ele. A dor só piorou quando ela se deu conta em quem era aquele choroso corcel diante dela. Olhos azuis, crina negra, pêlos cremosos. Ficou mais claro quem era quando sentiu um cheiro familiar; como se sentisse havia anos: Seu mordomo.

Octavia acordou repentinamente. Sua cabeça ergueu de forma brusca, olhando ao redor como se estivesse cercada por vários indivíduos, mas só havia móveis e um quarto vazio de pôneis, tirando ela. Seu coração batia rápido e forte como nunca antes. Ela olhou para o espelho e encontrou novamente seu próprio reflexo. Outro susto! Quase fazendo ela cair da cadeira, mas conseguiu se requilibrar ao segurar pela base da penteadeira. Seu rosto estava molhado de suor frio e, por causa disso e acrescentando a adrenalina, sua crina ficou cheia de frizz e dura pela posição que ela encontrava: de bruços sobre a penteadeira, sonhando. Sua bochecha estava avermelhada e com uma marca estranha. Parece que ela adormeceu por vários minutos. Sem falar de uma estranha linha brilhante que saia do canto de sua boca. Havia uma minúscula poça de água onde ela estava de bruços; ela babou durante o sono.

— Eca… — pensou ela, enojada pelo tamanho da poça salivástica. Octavia empunhou o lenço que ela deixou em cima da penteadeira e enxugou seus beiços — Octavia, até quanto mais você vai se afundar desse jeito?

Sua visão estava ficando embaçada novamente, ela estranhou e olhou para o espelho. Lágrimas. Ela rosnou de raiva, apesar de seu peito ainda doer um pouco.

— Novamente! Que ódio! Porque isso acontece?! — pensou Octavia. — Sempre que fico triste?! — ela esfregou o lenço em seus olhos e em suas bochechas, irritada — E por que eu estou triste agora? Foi… por causa do sonho? Mas por que aquilo? O que me fez pensar daquela maneira?

Octavia parou de enxugar seu rosto repentinamente. Ela sentiu algo diferente; um cheiro. Ela farejou um cheiro familiar… o mesmo cheiro que ela sentiu quando sonhou com…

Mas de onde está vindo esse cheiro, ela se perguntou. Esse quarto pertence a ela; pertence ao cheiro dela. Por que haveria o cheiro… dele aqui? Ela se perguntava repetidamente essas coisas até que se deu conta de algo que ela havia ganho ontem; algo que não a pertencia. Ela olhou para o lenço em seus cascos com relutância. Para tirar essa dúvida de uma vez, Octavia deu uma pequena cheirada no lenço. No mesmo instante, ela afastou o lenço, jogando-o sobre a penteadeira como se fosse um aracnídeo terrível e feio. Octavia tampou suas narinas com o casco livre, embasbacada. — O lenço! O cheiro está vindo do lenço! O lenço de White Glove! Mas o que ele faz aqu–?!

Então ela se lembrou. Ontem, numa noite escura sem Lua, ela havia recebido um lenço branco de White Glove quando ela… estava ocupada com seu último concerto particular. Ela acabou ficando com ele pelo resto da noite e esqueceu de devolvê-lo ao seu dono. Mas esse lenço deixou de ser sua salvação para ser uma espécie de incomodo. Aquele recente sonho com seu mordomo a incomodou um pouco. Pela primeira vez, ela sonhou com ele; e ele estava anormalmente diferente como de costume. Ela nunca o viu daquele jeito; parecia que ele iria chorar, mas não chorou. Podia, mas não queria; ou não podia, mas queria. Por que ele estava triste em seu curto sonho? Octavia começou a fazer esta dúvida uma relação com aquele assunto de sua pálida amiga unicórnio. “White Glove está bem? Ele é feliz?”. Será que aquela chifruda intrometida estaria certa? Algo o está fazendo infeliz? Ou alguém? Mas o quê? Ou quem?

Octavia sacudiu desesperadamente sua cabeça. Era pensamento demais, rápido demais e pressão demais para pensar em tudo isso acontecendo; e tudo ao mesmo tempo. Ela descansou os cotovelos sobre a penteadeira e pousou os cascos sobre a cabeça, massageando-a delicadamente. Isso estava deixando-a nervosa e irritada. Ela não sabia bem o porquê disso, mas estava causando algum efeito sobre ela. E isso a incomodava muito.

— Vinyl, sua mula cornífera! — disse ela, aos resmungos baixos entre seus lábios torcidos — Quando eu te encontrar amanhã, eu te esgano!! Não quero ver tua cara por um mês!

Ela xingava e resmungava sua “amiga”. Foi culpa dela que estava acontecendo aquilo tudo. Ela não queria que estivesse acontecendo isso, mas infelizmente foi inevitável.

Octavia olhou levemente para baixo. Em cima da penteadeira estava o lenço de White Glove; bem diante dela. Ela relinchou forte e o deixou ali mesmo. Vestiu novamente a escova em seu casco e penteou sua crina mais uma vez, dando um rápido trato nela já que ficou bagunçada. Octavia jogou a escova na penteadeira, sem se importar com o barulho oco que ela proporcionou. Ela pouco se lixava agora, a irritação a dominou, mas ela fazia um último esforço para não deixar se levar por ela. Aos resmungos e grunhidos, trotou duramente para sua cama e se jogou em cima dela, espalhando uma ou duas almofadas pelo chão. Ela puxou um travesseiro grande e enterrou sua cabeça sob ele. Lá ela continuou com os resmungos e gemidos. Octavia se sentia nervosa com a situação toda, irritada por estar sendo derrotada pelas suas frágeis emoções e triste por nunca estar por cima quando elas são fragilizadas. O que ela queria agora era dormir e esquecer esse dia. Amanhã será um novo dia, com novas novidades e novos caminhos… ou o mesmo dia como qualquer outro; com os mesmos caminhos cheios de pedras e mesmas situações melancólicas e cinzentas como ela. Octavia não se importou com a fraca luz da lamparina amarelada em seu quarto. É sempre bom ter alguma luz no meio da escuridão; uma saída para ela seguir.

Ela finalmente adormeceu.

Fim do Capítulo Quatro

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My Little Rock Band – 2°Edição – Parte 3

Como hoje é meu aniversário quem ganha presente são vocês :D, estou lançando finalmente a continuação da minha Fancomic My Little Rock Band.Para ver as partes anteriores dessa edição e para ver também a edição anterior,é só clicar nos link a baixo:

2º Edição – Parte 1

2º Edição – Parte 2

My Little Rock Band – 1º edição (todas as partes)

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A fazendeira e a maçã

 Applejack

Conta a história, que uma fazendeira bem sucedida,
ano após ano, ganhava o troféu “Maçã de Ouro” na
feira de agricultura de Manehatan. Não dava outra;
ela chegava à exposição com sua maçã e saía com a
faixa azul no peito.
E seu produto era cada vez melhor.

Em uma dessas ocasiões, um repórter ao
entrevistá-la após mais um prêmio, ficou intrigado com
a informação da fazendeira, de que compartilhava a
semente de sua maçã – de tanta qualidade – com seus
vizinhos.

“Porque a senhora compartilha a sua melhor
semente com seus vizinhos quando, a cada ano, eles
estão competindo com o seu produto?” – quis  saber o
repórter.

A fazendeira pensou por alguns instantes, e
respondeu:

“Você não sabe, mas o vento apanha o pólen da
macieira e o leva de campo em campo. Se meus
vizinhos cultivarem maçã inferior, a polinização
degradará continuamente a qualidade da minha colheita. Por
isso, se eu quiser cultivar maçã boa, de qualidade,
eu tenho que ajudar meus vizinhos a cultivarem maçã
boa e de qualidade também.”

A fazendeira estava atenta à conexão da vida: a
maçã cultivada por ela só poderia melhorar se o
produto do vizinho também tivesse a qualidade
melhorada.

Esse exemplo vale para todos, e em diversas
dimensões da vida.
Quem escolhe estar em paz, deve fazer com que seus
vizinhos também estejam em paz.
Quem quer viver bem, deve ajudar os outros para que
também vivam bem. E quem quer ser feliz, deve fazer de
tudo para que os outros também encontrem a
felicidade. O bem estar de cada um está ligado ao bem
estar de todos.

Autor Desconhecido

Dia das Mães

twilight

Autor: Moabite

Gênero: Slice of Life

Tradução: Drason

SINOPSE: Twilight se esforça para encontrar um presente significativo para o Dia das Mães.

—————-

Twilight Sparkle caminhava ansiosamente pelo shopping de Canterlot, observando atentamente cada loja antes de ir para outra. Spike a seguia, embora as vezes tinha que andar apressado para acompanhar a unicórnio roxo.  Eles estavam fazendo isso há horas e os pés do dragão já estavam bem doloridos.

“Ohhh.” Twilight gemia. “O que em Equestria pode ser bom para a Princesa?”

“Tem uma loja bem ali do lado vendendo camas.” Respondeu Spike cansado. “Acho que ela gostaria de uma cama. Talvez eu possa testar para ela e ver se está tudo ok.”

“Concentre-se, Spike. Eu preciso encontrar a princesa hoje e ainda não achei um presente que… você sabe…” Twilight corou.

Spike suspirou. “Tem certeza que quer continuar com isso, Twi? Dizendo à Princesa sobre seus sentimentos?”

Twilight olhou para o dragão aborrecida. “Sim, tenho. Eu guardei meus sentimentos por muito tempo e hoje…” Ela apontou o casco para uma loja que tinha uma placa em forma de coração acima da entrada e que dizia: “diga que a ama com flores!”

“…hoje é o dia em que devo dizer a ela.”

Spike encolheu os ombros. “Tubo bem, eu só estava perguntando. Mas estamos nesse shopping desde manhã, e estou cansado e com fome.”

Seu estômago roncou alto.

Ou melhor.” Ele continuou. “Estava com fome há muitas horas atrás, agora estou faminto! Posso comprar pelo menos uma joia, por favor Twi?” 

Twilight estava prestes a dizer não, mas uma alfinetada de sua consciência a deteve. A ansiedade sobre sua confissão para a Princesa havia feito má companhia para ela nesta viagem, e Spike vinha sofrendo as consequências desde que eles tinham saído de Ponyville.

“Tudo bem Spike.” Ela respondeu. “Mas seja rápido, tem uma lanchonete para dragões logo ali.”

Sem precisar falar duas vezes, Spike correu cantarolando até as pedras preciosas como uma criança tentando escolher o sabor dos sorvetes. Twilight, por sua vez, observava com um olhar cansado as joias penduradas na parte de trás. Eles passaram pelos melhores joalheiros de Canterlot desde manhã, e naquela altura Twilight estava duvidando que pudesse encontrar algum presente que realmente lhe agradasse.

Ela não conseguiu achar nada que combinasse com a Princesa, mas sua imaginação cansada ainda a cutucava para não desistir de encontrar algo. Ela olhou para trás e se deparou com um colar de ouro pesado com quatro topázios na cor púrpura embutidos nele. Era bom, ela pensou, mas não perfeito. Um presente dado com amor precisa ser perfeito. Sua imaginação a cutucou novamente e as cores do colar nadaram e mudaram. Ela engasgou e acenou com entusiasmo para a vendedora.

Você faz modificações?” Ela perguntou. A vendedora, uma pônei cinza de meia idade, acenou positivamente.

Pode, por favor, pegar aquela?” Twilight apontou para o colar de ouro que havia visto. “E mudar três das pedras para essas?” Ela apontou para um rubi. “E aquela?” Em seguida, apontou para uma safira. “E essa!” Por fim, apontou para uma granada verde nas mãos de Spike. Ele olhou aborrecido, mas ela não notou.

“Claro que posso.” Disse a joalheira. “Farei isso em uma hora e tudo vai custar quatrocentos e cinquenta bits.”

Twilight hesitou. “Quatrocentos e cinquenta…” Ela ia dizer alguma coisa, mas parou.

Não pode fazer por quatrocentos?” A unicórnio roxo perguntou.

Quatrocentos e quarenta.” Granadas são difíceis de encontrar.

“Eu vi uma cesta cheia delas em alguns joalheiros de Lenore esta manhã, além do mais você vai ter que cortar essas pedras para encaixar no colar e por isso vai ter muitas sobras para usar em outros.”

“Certo, quatrocentos e trinta e cinco então. As sobras que restarem vão ser difíceis de vender.”

“Feito.”

Twilight dançava alegremente no local. “Sim! Finalmente! Essa vai ser perfeita para ela! Vamos Spike, deixe a vendedora trabalhar em paz!”

Parado, Spike olhava para suas mãos vazias depois que Twilight pegou a joia. Em seguida ele observou a unicórnio sair da loja cantarolando.

O castelo estava quieto. Muitos dos funcionários estavam aproveitando o feriado e só uns poucos ficaram de plantão. Celestia estava em seus aposentos folheando a copia de um exemplar conhecido como “Contos de Equestria”. Eram brochuras escritas por vários autores que ela adorava ler em seus momentos de folga, e até mandava suas próprias estórias para publicação. Ela estava deitada em uma cama feita de almofadas no chão, com um copo de vinho ao seu lado, e o livro encostado em um suporte de madeira envernizado.

Do lado de fora, Twilight levantava o casco para bater na porta, mas hesitava. O colar, agora embalado e embrulhado para presente, estava em suas costas e parecia ficar mais e mais pesado, pelo simples fato do que ele significava para Twilight. Ela abaixou o casco novamente e correu de volta para um pilar perto do final do corredor onde Spike esperava impacientemente.

“…trinta e sete, trinta e oito, trinta e nove eeeeeeee.. você voltou de novo.” O dragão disse. “No entanto, você está melhorando. Foram quase quarenta segundos antes de você amarelar de novo.”

Twilight olhou para ele. “Eu sei! Eu sei! Estou nervosa.”

“Twilight…” Spike ia falar alguma coisa, mas a unicórnio o interrompeu.

“É só que eu não sei o que dizer, não sei como ela vai reagir e realmente não quero estragar a relação que temos agora.”

Spike tentava falar novamente, mas Twilight continuava, sua voz ganhando velocidade com o medo e a frustração que sentia.

Talvez eu não esteja pronta. Talvez seja melhor deixar como está. Nós podemos continuar sendo amigas assim, certo? Foi só uma ideia boba, não sei no que estava pensando.”

Ela olhou para Spike sorrindo. “Vamos embora Spike. Você deve estar com fome, pode ficar com isso.” Ela colocou a caixa de presentes nas mãos de Spike. “Não é mais importante.“

Spike estava faminto e o simples pensamento das gemas fazia seu estomago roncar, mas enquanto ele olhava, uma lágrima se formou no olho de Twilight e rolou pelo seu rosto, traindo seu sorriso falso. Ele balançou a cabeça tristemente.

“Tudo bem, Twilight. Se você tem certeza que é o que você quer, vamos.”

Ele subiu em suas costas e os dois trotaram em direção à saída. Ao passarem pela porta de Celestia, pela última vez, Twilight escutou um rangido fraco. Ela parou e inclinou-se em direção à porta, seu nervosismo foi temporariamente abafado pela curiosidade. Mas o chiado não era mais nem forte nem fraco quando ela se aproximou da porta, até que percebeu que estava vindo de Spike. Ele estava escrevendo algo na caixa de presente que Twilight lhe dera.

“O que você está fazendo?” Ela perguntou.

Spike estendeu o presente para que Twilight pudesse ver. Dizia:

Com todo meu amor,

Twilight Sparkle.

Antes que ela pudesse reagir, Spike respirou fundo e deu um enorme jorro de chamas verde sobre a caixa, que evaporou em uma nuvem de fumaça que fluía através do ar, indo para debaixo da porta de Celestia.

Twilight observava assustada quando o último fiapo da fumaça desaparecia de vista. Spike, por sua vez, desmontou das costas da unicórnio e bateu com força na porta, saindo correndo logo em seguida.

“Entre.” Disse uma voz além da porta.

Twilight pensou brevemente em fugir, mas agora que Celestia estava com o presente, ela não tinha mais escolha. A unicórnio engoliu seus medos e abriu a porta. Princesa Celéstia estava deitada em suas almofadas com o presente ainda embrulhado entre os cascos. O suor estava se formando na testa de Twilight enquanto Celestia olhava confusa para a mensagem na caixa, já que a letra era de Spike e não dela.

“Olá Twilight!” Disse a princesa. “É para mim?”

Corando, Twilight respirou fundo e balbuciou trêmula. “Sim, Princesa.”

Celéstia desamarrou o grande laço e abriu a caixa. Seus olhos arregalaram quando ela estendeu o casco e tirou com cuidado o colar. Ele brilhava tão forte que fazia reflexos nas paredes.

É lindo.” Ela se virou para Twilight, ainda incerta de suas intenções. A pônei roxo engoliu seco, fechou os olhos e começou a falar.

“Eu… eu preciso lhe dizer uma coisa. Eu preciso falar sobre tudo o que você fez por mim, todo o tempo que passamos juntas aqui neste lugar… significou muito para mim. Muito mais do que eu já disse. Quando passei um tempo com você, eu senti que tinha algo mais do que apenas uma mentora. E eu queria te dizer hoje o que você significou para mim.“

Twilight baixou o chifre e levitou o colar dos cascos de Celestia. Ela desabotoou o clipe, o passou em torno do pescoço da Princesa e o abotoou novamente, com as gemas repousando sobre o peito de Celestia.

Feliz dias das mães.” Twilight finalizou.

Princesa Celestia envolveu seus cascos dianteiros sobre os ombros da unicórnio e a abraçou com força. Lágrimas de alegria corriam abaixo de ambos os rostos.

Oh Twilight…” Ela disse. “Minha Twilight.”

Estrabismo

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Autor: Moabite

Gênero: Slice of Life

Tradução: Drason

SINOPSE: Derpy explica para sua filha por que seus olhos são diferentes.

———–

Derpy estava usando um pedaço de carvão para fazer o contorno imaginário de um lago cintilante. Ela estava enrolada em um cobertor no chão de sua sala de estar, saboreando esta breve oportunidade de desfrutar um de seus hobbies que mais gostava: desenhar. A poucos metros de distância, Dinky sentava-se em frente da lareira, segurando um de seus livros preferidos. Seus lábios se moviam em torno das palavras que lia.

O fogo da lareira fazia sombras nas paredes da sala, projetando no papel de parede alaranjado  figuras que dançavam e balançavam ao ritmo de uma música inaudível. A sombra do carvão parecia um barco balançando no mar agitado sob a tempestade, com relâmpagos dourados que surgiam através do reflexo da taça de cidra da Derpy. Uma segunda lenha acesa na cena projetava uma silhueta que se dividia em duas, em lados opostos na parede.

Derpy limpava o pó de carvão do papel, revelando um céu salpicado de estrelas brilhantes e uma enorme lua cheia.

Dinky começava a balançar a cabeça para cada sílaba que ela murmurava. Sua mãe reconhecia esse gesto como um sinal de que ela estava tendo dificuldade com alguma palavra.

“Soletre para mim, Dinky.” Ela disse.

Dinky puxou o livro para mais perto de seu rosto e colocou um casco na página, o levando da esquerda para a direita ao longo da estranha palavra.

“C-O-M-P-O-R-T-A-M-E-N-T-O”.

“Comportamento. Você sabe essa, Dinky. Por exemplo: estar bem comportada.”

“Eu sempre estou bem comportada.” Brincou Dinky.

Derpy sorriu e estendeu o casco para a cidra. De repente, sua visão duplicada fez o seu casco desastradamente bater contra a taça, derramando seu conteúdo sobre o tapete cor de creme. Ela reclamou em voz alta antes que pudesse parar. Então colocou seus dois cascos na boca e se virou para Dinky, que olhava para a mãe com os olhos arregalados, e o livro esquecido.

“Eu sinto muito, Dinky. Disse uma palavra feia. Nunca fale algo assim, mesmo que eu diga algumas vezes.”

Dinky ainda olhava assustada. “Mamãe, seus olhos ficaram todos engraçados.”

Derpy moveu um casco para o seu olho direito, cobrindo-o e reduzindo o número de Dinkys que ela estava vendo para apenas uma. Seu olho restante focava na jovem unicórnio, cujo rosto estava cheio de preocupação.

“Eu estou bem, Dinky. Sente-se aqui um pouco.”

A pegaso cinza batia suavemente no chão em frente a ela. Dinky obedientemente fechou o livro, o colocou ordenadamente na estante, antes de se sentar na frente de Derpy. Ela era uma boa filha e Derpy ficava triste ao vê-la chateada. Era melhor explicar esse problema agora do que deixá-la preocupada. Ela destampou seu olho novamente, que traiçoeiramente focava as cortinas enquanto o outro observava Dinky.

“Isso é chamado estrabismo, ou olho preguiçoso. Às vezes ele não se posiciona na direção certa, o que dificulta saber o quão longe as coisas estão de mim, como essa taça que acabei de derrubar. Tenho problemas para leitura também, mas os médicos estão tratando e com certeza vou melhorar, então não se preocupe.”

“Dói?”

“Não.” Ela mente.

Derpy tinha o tempo livre entre o final do seu expediente de trabalho e do horário que tinha para buscar Dinky na escola. Ela decidiu complementar sua renda com algum serviço com jornada de trabalho parcial na empresa de transportes chamada Boxy Brown. O salário de carteira não vinha sendo o suficiente nesses últimos meses.

Durante um dia de trabalho nessa empresa, sua amiga Raindrops a estava acompanhando para passar o tempo enquanto Derpy e outros funcionários carregavam uma carroça cheia de mercadorias em pleno voo. Depois que Raindrops falou uma piada, Derpy fechou os olhos e riu descontroladamente. Quando os abriu novamente, sua visão nadou. Ela teve um breve momento de desorientação e deixou cair uma caixa fortemente na parte de trás da carroça, a inclinando totalmente para trás. Os transportadores que seguravam o veículo gritaram enquanto lutavam para restabilizar o nível, mas já era tarde demais. Algumas das cargas começaram a deslizar ao longo das pranchas de madeira para a parte traseira.

Raindrops se atirou nas caixas e batia suas asas o mais rápido que podia, tentando impedi-las de deslizarem, mas cada vez mais peso vinha contra ela.

“Derpy!” ela gritou. “A rampa! Feche a rampa!

Derpy agarrou a rampa e a fechou rapidamente sobre a parte de trás da carroça. Ela estendeu o casco para o trinco, mas sem a percepção de profundidade, acabou errando o alvo por alguns centímetros. Ela não teria outra chance de tentar de novo antes que Raindrops escorregasse e se chocasse com a rampa, a abrindo novamente. As duas assistiram assustadas a carga caindo no vazio, direto para o chão.

O dono da empresa chamado Boxy as encarava com um olhar gelado e tudo que Derpy podia fazer era sorrir, se desculpando.

O seguro cobria os danos, por isso Boxy decidiu não cobrar as duas pelos estragos, mas ele não deixou Derpy voltar a trabalhar, com receio de que isso pudesse ocorrer novamente. Ela tinha ido para casa naquela noite chorando de frustração, amaldiçoando sua aflição, sua inutilidade.

Sim, às vezes machuca.

“Não, não machuca. É só um pouco de incômodo.”

“Como isso aconteceu?” Perguntou Dinky.

“Bem, neste caso é hereditário. Muitas pessoas de nossa família tiveram isso. Minha tia em Canterlot tinha, e meu avô também. É possível que você também tenha um dia, por isso que é tão importante tratar cedo. Sabe quando você costuma fazer seu exame na clínica, e a enfermeira Redheart coloca a luz em seus olhos?”

Dinky acenou. “Sim.”

“É exatamente para checar o estrabismo.”

“Eu não gosto de ir ao médico.” Dinky disse distraída.

Derpy bateu o casco bruscamente no chão. “Bem, você deve!”

Ela se arrependeu imediatamente enquanto Dinky se encolhia.

“Eu sinto muito, Dinky. Só não quero que você tenha os mesmos problemas que eu.”

No dia seguinte, o sol já estava se pondo, com as últimas luzes alaranjadas brilhando sobre as montanhas de Ponyville, enquanto Derpy descia para a rua principal da estação de correios. Sua corrida matinal havia sido particularmente intensa nesse dia, com quase o dobro do número de cartas e revistas para entregar do que o habitual. Nas capas das revistas tinha uma bela pegasus amarela com crina rosa, e Derpy tinha certeza que a conhecia, mas não se lembrava do nome.

Seus músculos estavam cansados e doloridos e ela bocejava intensamente. Nesse momento, seu olho direito apontava para o pico de uma montanha distante, enquanto o esquerdo permanecia em linha reta. Derpy descia em seu voo direto para o telhado dos correios, sem saber o quão perto poderia estar dele. Apavorada, ela se inclinou para a direita, em seu ponto cego, e uma de suas asas acabou atingindo o mastro da bandeira, sendo jogada dolorosamente para seu flanco. Sua outra asa se estabilizou por pouco tempo no ar, antes dela mergulhar desajeitadamente na rua movimentada.

Ela caiu no chão, inclinando a cabeça para baixo antes de bater o rosto na sujeira. Gemendo, ela levantou a cabeça. Através da visão dúplice, tomou conhecimento da multidão que se reunia ao redor. Alguns pôneis preocupados se ​​agaixaram na frente dela, dizendo para não se mover enquanto verificavam possíveis lesões. Um número de espectadores conteve-se, sussurrando uns com os outros. Muitos na parte de trás pareciam rir.

Derpy estava ciente da reputação que ganhou com sua falta de jeito, as pessoas boas a ajudavam, enquanto que outros faziam piadas. Era verdade que ela era diferente, mas alguns rumores sobre ela eram exagerados. Desde então, qualquer oferta que ela dava a alguns pôneis para ajudar com as tarefas eram educadamente recusada, como se houvesse o risco dela quebrar ou arruinar alguma coisa. Essa não era a vida que ela queria para a filha.

Chegando em casa, Dinky se aproximou dela, observando os olhos díspares de sua mãe e inclinando a cabeça intrigada com o olho direito que se recusava a acompanhar os movimentos da unicórnio. Eventualmente, Dinky se sentou.

“Mamãe, se um dia eu tiver estrapilho…”

“Estrabismo.” Derpy a corrigiu.

“Se um dia eu tiver estrabismo, você ainda vai me amar?”

A pégaso foi pega de surpresa. “Claro que ainda vou te amar Dinky! Nada nesse mundo vai me impedir de amá-la, filha.”

A unicórnio azulada se levantou e trotou até Derpy. Ela colocou os cascos dianteiros em volta do pescoço de sua mãe e a abraçou com força.

“Eu também sempre vou te amar.”

Derpy sorriu e a abraçou de volta. Elas mantiveram o abraço caloroso por um longo tempo antes de Derpy a liberar suavemente.

“Pode pegar o seu livro filha?”

Dinky pegou o livro da estante e voltou para Derpy, que agora estava deitada de lado com uma asa esticada. Dinky se aconchegou sob as penas macias de sua mãe e colocou o livro na frente dela.

“Ok.” Disse Derpy. “Vamos ler juntas. Eu vou ajudá-la com todas as palavras difíceis e você me ajuda se eu me perder na leitura, tudo bem?”

“Tudo bem!”

Na lareira, uma lenha rolava e caía, fazendo a sombra de um coração em chamas. As duas silhuetas que no começo estavam em lados opostos na parede, se tornaram uma novamente, clara e nítida.

Mais do que remédios e médicos, era o amor de Dinky que dava forças e confortava o coração de sua mãe.