Colunas, Tutoriais

Novo tutorial para desenhar pôneis

Dica: comece desenhando seguindo o tutorial e depois tente desenhar sem olhar quantas vezes você puder, até ficar parecido com a ilustração acima. Faça isso com todo tutorial que você encontrar. Lembre-se que apenas a prática constante lhe ajudará a aperfeiçoar e desenvolver seu próprio estilo de desenho!

1) DESENHANDO AS FORMAS BÁSICAS

Os pôneis têm as cabeças muito grande, e os corpos ligeiramente na forma cilíndrica. Desenhe um grande círculo para a cabeça e dois pequenos para o torso/tronco. Ajuste o círculo menor (onde vai ficar o flanco), de forma que ele toque o segundo círculo maior situado abaixo da cabeça, a exemplo da figura:

2) CRIANDO AS FORMAS

Adicione um pequeno cilindro para o pescoço/garganta, e algumas linhas guia ao redor do torso (veja na figura abaixo as linhas em vermelho) para ajudá-lo a se orientar na hora de desenhar as pernas. Depois, no círculo menor, faça duas pequenas circunferências levemente ovais lembrando uma gota, para representar o flanco do pônei. Já para as orelhas, faça conforme demonstra a figura abaixo:

3) POSICIONANDO O ROSTO

Pôneis fêmeas possuem um pequeno nariz e olhos muito grandes. A maioria dos pôneis tem os olhos padronizados (com design parecido, variando apenas a cor). Pesquise seu personagem favorito para definir que tipo de olho você quer, mas antes faça as linhas guia tanto para os olhos como para o nariz, a exemplo das linhas em vermelho na figura:

4) DESENHANDO O ROSTO

Pôneis possuem nariz pontiagudo que faz uma curva entre o pescoço e a parte inferior da cabeça, além de uma curva muito acentuada para definir a boca, e cílios muito grandes:

5) DESENHANDO AS PERNAS

As pernas dos pôneis possuem formas extremamente simples. Desenhe um cilindro meio curvado (veja as linhas vermelhas abaixo, em ambos os lados as curvas devem estar na mesma direção) e certifique-se de que o cilindro seja mais largo na parte inferior, próximo do casco do que na superior, perto do ombro. Geralmente, os pôneis de MLP não possuem cascos desenhados. Já para as pernas traseiras, adicione uma curva na parte de trás do joelho para representar o conjunto flanco/perna. Observe na figura abaixo que você começa desenhando as pernas de trás bem na extremidade inferior dos círculos em forma de gotas (que são os flancos).

6) COMO DEVE FICAR O DESENHO ATÉ AQUI

Veja abaixo que muitas mudanças deverão ser feitas nessa etapa, a partir daqui serão feitos os contornos do pônei.

7) DESENHANDO OS CONTORNOS

Siga suas linhas guia para conectar as formas desenhadas até agora. Observe que não há nenhuma junta nas pernas da frente, é como se elas fossem uma só, diferente das traseiras que possuem uma pequena saliência na parte de trás, situada entre o flanco e parte inferior da perna. Adicione uma pequena curva no meio da orelha, e faça a parte de trás da cabeça (nuca) um pouco menos curvada (veja que a linha preta está um pouco mais afastada da azul). Adicione grandes pupilas para os olhos, e um ou dois pequenos pontos brancos que irão representar os brilhos deles.

8) LIMPANDO O DESENHO

Apague as linhas guia do esboço, veja abaixo como deve ficar:

9) DESENHANDO O CABELO/CRINA E CALDA

Na figura abaixo, o autor escolheu uma forma bem complexa para o cabelo, cheio de curvas. Observe que a crina tem que passar a ideia de volume, então a parte superior do cabelo (contorno de cima) deve ser desenhado afastado da cabeça, enquanto que a linha inferior (contorno debaixo) deverá “invadir” um pouco o interior da cabeça, passando pela testa (veja abaixo).

10) FINALIZANDO A CRINA

Observe que a linha do contorno da cabeça, na região da testa ainda está visível e essa parte deve ser apagada, assim como na parte de trás do pescoço.

11) LIMPANDO E COLORINDO OS CONTORNOS

O autor coloriu as linhas em azul usando um editor de imagem (que pode ser o  Photoshop, SAI, Gimp, etc). Não é necessário se você for desenhar somente no modo tradicional (com lápis de cor).

12) COLORINDO O DESENHO

Escolha uma cor de sua preferência, o autor escolheu azul com olhos verdes. A maioria dos pôneis não possuem variações de cores na pele, sendo geralmente apenas uma cor, mas nada impede de criar um pônei malhado, por exemplo.

13) ADICIONANDO SOMBREAMENTO

Os pôneis de MLP não possuem muito sombreamento, então apenas escureça um pouco a perna direita traseira para gerar efeito de profundidade. E adicione faixas em tons escuros e claros para os olhos, que vai passar a ideia de brilho com variação de luzes (gradiente). Não precisa ser igual ao do autor, ele exagerou na quantidade de tons.

14) A MARCA ESPECIAL

Como já é de conhecimento de todos, as marcas especiais denotam a personalidade dos pôneis, assim como seus talentos, interesses e hábitos. Normalmente as marcas não possuem contornos e podem ou não combinar com a cor do pônei. No caso do desenho do autor, está combinando com a cor dos olhos, mas existem exceções, como por exemplo Applejack, cuja cor de sua marca especial (três maçãs) não combina com o resto do corpo dela.

Autor: LazyCat

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Fanfic, Fanfics estrangeiras

Cobertores

Título original: Blankets

Autor: Patchwork-Inkblot

Gênero: Romance, Slice of Life

Tradução: Lucas T.

Sinopse: Em uma noite de inverno, Twilight acorda após um pesadelo e revela a Spike seu temor de que um dia ele possa ir embora, quando adulto.

_________

“Twilight, eu tenho que ir.”

Não, por favor, não essas palavras. Ainda não era hora. Ele não estava tão alto assim, honestamente! Ele ainda era o mesmo que sempre esteve dentro da biblioteca.

Twilight tentava falar, mas não conseguia escutar as próprias palavras. Era como se estivesse abafada por cobertores de nevoeiro, onde nenhum pônei, nem mesmo Spike, podia ouvi-la. Ela suplicou, lamentou, e mesmo sentindo as lágrimas escorrendo em seus olhos, não conseguia pronunciar um único som.

Ele se virou de costas para ela, esticando suas enormes asas. As sombras delas pareciam cobrir toda Ponyville. Twilight sentia seu corpo se mover para frente, correndo em direção do gigantesco dragão. Ela estava gritando, gritando qualquer razão legítima que ela pudesse arranjar para convencê-lo a ficar. Sem ele, confissões nunca mais seriam feitas, festas de aniversário nunca mais seriam realizadas, a biblioteca não seria a mesma de antes, cheias de poeira, que envolveriam seu coração como um livro intocado.

Ela estava tão perto agora, talvez Spike a ouviu chamando, talvez ela tivesse uma chance! Havia apenas um pequeno espaço separando ela do dragão. Se ela pudesse apenas tocá-lo com seus cascos ele iria se virar e pegá-la com suas garras.

No entanto, com uma única batida de suas grandes asas, Twilight foi arremessada para trás com uma ventania muito forte. O corpo dela capotou e se arrastou no solo sem vida, pegando sujeira enquanto rolava. Cada folha desolada em cima de sua biblioteca voava por todas as direções, transformando o que antes era seu lar feliz em nada mais do que uma árvore esqueletica. Os vidros das janelas estilhaçavam para dentro, com o som de corações se quebrando, cobrindo o interior com cacos de vidro intransitáveis.

Quando a poeira baixou, Twilight olhou para o céu com os olhos nublados para ver uma sombra escura gradualmente desaparecendo no horizonte.

Ele se foi. Voou para longe e ela nunca mais o veria novamente.

Spike era…

“Spike.”

Na fria atmosfera de seu quarto, Twilight Sparkle saltava debaixo de uma pilha de cobertores, ofegando nuvens de vapor no ar gelado. Ela acariciava os cascos sobre seu corpo descoberto, em seguida os levando até os olhos para esfregar o sono deles, mas parava na sensação de um calor distinto escorrendo pelo rosto. Não foi nenhuma surpresa ela ter chorado, mas definitivamente não havia conforto depois de um pesadelo.

Um suspiro trêmulo emanava das imagens fragmentadas de seu sonho. O simples pensamento deles, a possibilidade deles realmente acontecerem lhe trouxe os piores arrepios do qual nem mesmo o mais terrível dos invernos poderia fazê-lo.

Aquele pesadelo não poderia ser verdadeiro, era demais para a unicórnio roxo suportar. Por isso Twilight fez o que qualquer égua sensata faria, pelo menos em sua opinião, ela encontrou alguém para conversar. Ou melhor, acordou um dragão para conversar.

Twilight saía de seus cobertores, antes de soltar um sussurro para uma cesta no chão com mais cobertores amontoados, próximo de sua cama.

“Spike?”

Ela chamava, ainda sem resposta. Twilight esperava, batendo seus cascos juntos antes de sussurrar novamente. “Spike? Está acordado?” Ela olhava para a pilha de cobertores deslocando um sorriso na expectativa, esperando ver espinhos verdes seguidos por uma cabeça escamosa e roxa emergindo do fundo do mar de pano.

No entanto, a única resposta que veio foi: “Não.”

O sorriso de antecipação caiu de seu rosto e viu-se substituído por um olhar irritado. Twilight soltou um suspiro agravado e começou a se contorcer sob a pilha montanhosa de seus cobertores. Ao longo de seus invernos em Ponyville, Twilight tinha aprendido algumas lições importantes. Primeiro, no inverno não importa quantas runas de calor serão colocados nos ramos da casa, o frio sempre encontrará uma maneira de penetrar. Uma vez que ela estava totalmente sob seus cobertores, Twilight levantou-se de sua cama, formando uma montanha disforme de pano em cima de seu colchão. Uma magia sendo emanada podia ser ouvida sobre os edredons enquanto uma energia lilás levava até a cabeça de Twilight uma capa para se proteger do frio. Vestida, Twilight saltou de sua cama e imediatamente lamentou o que estava prestes a fazer.

A segunda lição que aprendeu ao longo da temporada gelada, os pisos ficavam frios. Uma vez que ela tinha se preparado contra as ondas de frio que se erguiam em suas pernas do chão, ela fez seu caminho em direção à cesta enrolada por cobertores, onde os observava subindo e descendo levemente, significando que o dragão estava dormindo. A visão foi suficiente para trazer um doce sorriso sobre a pequena irritação que ela teve com a resposta de antes. “Spike.”Ela sussurrou. “Está acordado?”

A única resposta que emanou da pilha de cobertores no cesto foi um gemido descontente e algo sobre uma casa feita de sorvete.

“Bem, sim e não.” Twilight murmurou para si mesma. Depois de uma espera calma de quatro segundos, ela estendeu o casco e golpeou a cesta.

Depois de tanto sacudir o cesto, os cobertores começaram a se levantar, revelando um abatido e perturbado Spike. Ele piscava com seus olhos turvos dando a Twilight motivo suficiente para sorrir para o seu sucesso.

“Oh, Spike, você acordou.” Twilight gorjeou, um sorriso infantil subia em seus lábios.

Spike olhou para ela, ganhando a compostura, juntamente com um brilho constante em formação nos seus olhos. “A questão é por que?” Ele perguntou resmungando enquanto olhava para um relógio pendurado na parede. “Ainda é pouco mais de meia-noite.” Suspirou.

Twilight olhava para Spike com seus olhos suplicantes. “Eu tive um pesadelo.” Spike apenas olhou com a boca semi-aberta. Twilight não podia segurar uma risadinha enquanto o dragão levava uma das garras na testa.

“Twilight.” Ele murmurou em meio à palma que deu em seu próprio rosto.

“Foi realmente assustador, Spike. Você era enorme e…”

“Twilight, você não acha que é um pouco velha pra isso, assim como eu?”

“Mas, Spike…” Twilight respondeu, se estabelecendo na frente da cesta.

“Sério Twi.” Spike suspirou, fechando os olhos e se aconchegando em volta de seu nicho quente. “Você mesma disse que sonhos não são para temer.” Com isso, a maior parte da cabeça de Spike desapareceu no meio dos cobertores, deixando apenas as cristas verdes expostas.

Twilight suspirou desanimada e começou a cutucar o chão com o casco, olhando ansiosamente para as pontas verdes que estavam expostas no ar frio.  Como se sentisse os olhos dela sobre ele, Spike virou-se e soltou um rosnado preocupado. Ele não queria acordar, mas Twilight o colocou em uma situação onde sua honra como o assistente número um de Equestria estava em risco. Se ele não estivesse lá por Twilight, que tipo de dragão ele seria?

Então ele se levantou, derrubando a pilha de cobertores no chão frio, antes que Twilight se sentasse sobre eles. “Tudo bem.” Ele suspirou, esperando Twilight começar a falar. No entanto, Twilight apenas olhou para o chão e bateu seus cascos juntos, com sentimento de culpa. Um gesto que fez Spike voltar a levar a mão na testa. “Vamos Twilight, eu acordei por você e estou aqui por você. Pode falar.”

Ela olhou por baixo de sua franja com o lábio inferior ligeiramente saliente sob a superior. “Mas…” ela murmurou. “Eu acordei você e…”

“Vamos Twi, vá direto ao ponto.”  Spike a interrompeu antes de esperar calmamente por uma resposta.

“Bem, você foi embora.”

“Embora?” Perguntou Spike, já confuso.

“Você tinha asas.” Ela acrescentou rapidamente, olhando para Spike ainda confuso.  “Você também era enorme. Muito maior do que naquele dia que te fiz crescer durante o teste de admissão.” Spike estremeceu um pouco com a memória angustiante, mas se manteve em silêncio por causa de Twilight. “Tudo o que você disse foi… Twilight, eu tenho que ir… e você voou sem nem mesmo me ouvir!” Depois de sua breve sinopse Twilight baixou a cabeça novamente, fungando as memórias fictícias.

Spike soltou um suspiro e se levantou, colocando levemente suas mãos no focinho da unicórnio roxo. “Twilight…” Ele disse com um sorriso. “Você é uma boba.”

O gracejo de Spike levou Twilight com sua atitude desesperada para um rápido, “Ei!” e antes que ela pudesse falar algo, Spike cutucou o nariz dela com uma das garras.

“Honestamente Twilight, eu já disse milhares de vezes que não vou a lugar nenhum.”

Twilight levou fortemente o ar pelas narinas, antes de olhar para o jovem dragão. “Mesmo?” Ela perguntou, com lágrimas escorrendo em seus olhos.

“Mesmo.” Spike garantiu para a unicórnio. “Mesmo se um dia eu ficar grande demais para dormir em minha cesta, ainda assim ficarei por perto. Celestia sabe que você mal consegue cuidar de si mesma sem mim.” Ele riu um pouco. “Quem mais vai acordar toda manhã para fazer café já que você nem conseguiu usar o fogão direito?”

“Isso foi só uma vez.” Twilight murmurou.

Você teria um colapso completo de quase tudo em Equestria se eu não estivesse por perto.” Spike interrompeu seu sorriso confiante e respirou rapidamente. “E eu ficaria sozinho sem você.” No final de seu discurso, Twilight puxou Spike para um abraço, descansando o focinho em seu ombro. “Eu ficaria sozinha sem você também.” Ela o abraçou mais forte.

“Twilight,” Spike engasgou. “Ar! Preciso de ar!” Twilight rapidamente o liberou do abraço. No entanto, no momento em que Spike tocou o chão frio, ele pulou devolta para ela, a abraçando com força e se deliciando com seu calor. “Gelado! gelado!” ele gritou com os dentes rangendo, fazendo Twilight rir um pouco.

“Se sente melhor?” perguntou Spike, liberando Twilight do abraço. Os olhos de Twilight se abriram um pouco antes dela deixar seu olhar cair no chão, batendo seus cascos juntos, nervosamente. “Sim…” ela disse. “Mas…” Ela parou, murmurando coisas inaudíveis.

“Mas o que?

Twilight olhou diretamente nos olhos de Spike, sem uma pitada de comédia em seu comportamento e pediu: “Posso dormir na sua cama?” Por um tempo, tudo ficou em silêncio por toda a casa. Surpreso, Spike abriu a boca como se fosse dizer algo, mas fechou enquanto se virava para olhar sua cesta, retornando novamente para ela. Ele tentava dizer algo. Eventualmente, porém, ele desistiu e jogou sua garra na testa com um estrondo audível. Twilight, ao ver seu olhar incrédulo de trás de suas garras, gritou: “É sério!”

“Twilight!” Spike gemeu. “É uma cesta que mal cabe em mim, não há uma chance de que, mesmo sozinha, você se encaixaria nessa coisa.”

“Então, então,” Twilight olhava em torno de seu quarto enquanto sua mente procurava uma solução. “Então você dorme na minha cama.” Ela declarou isso cutucando Spike no peito.

O Olhar incrédulo de Spike se opôs sobre seu rosto antes que ele gesticulasse, concordando. “Tudo bem, eu vou…”

“Não.” Twilight o interrompeu, levitando o dragão com sua mágica. Ela virou-se para a sua cama, preparando uma trajetória em sua mente, e pulou em cima de seu colchão. Spike foi puxado para o peito dela enquanto uma pilha de cobertores caía em cima dos dois. Vendo que eles estavam em total escuridão embaixo dos cobertores, Twilight iluminou seu chifre com uma explosão suave de magia roxa para ver seu assistente número um olhando para ela. Twilight correspondeu com um sorriso e um beijo na testa do dragão. “Obrigada, Spike.” Ela murmurou.

Spike respondeu com um simples “Tudo bem”, antes de se estabelecer no abraço de Twilight. Enquanto ele fechava os olhos, sentiu um casco em seu focinho, voltando a abrir os olhos e ver Twilight com um beicinho.

“E o meu?” Twilight perguntou, indignada.

Spike rolou seus olhos esmeraldas antes de fechá-los e inclinar-se para frente, pressionando seus lábios na testa de Twilight, a beijando com as bochechas vermelhas. “Então, podemos dormir agora?” Ele se restabeleceu na posição de antes para ver Twilight já quase caindo no sono.

Eu nunca vou te deixar, Twi.” No momento em que as palavras saíram de sua boca, ele sentiu Twilight puxá-lo para mais perto dela, com seus batimentos cardíacos se encontrando entre seus peitos, onde os dois puderam finalmente dormir em paz, especialmente Twilight, com um sorriso aliviado.

Ele estava bem ali, enrolado em volta dela e a mantendo quente no inverno. Ele sempre estará lá para ajudá-la, para ler com ela, para dançar com ela ou para rir com ela, e ele estaria sempre lá para amá-la.

Spike não vai a lugar nenhum, nunca.

Fanfic, Fanfics nacionais

Sem palavras para descrever – Livro I – Cap.3 – Desinformado e Desinteressado

Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

Capítulo 8 – Amanhã

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

—–

Equestria – Ponyville, 13 de Fevereiro, 20:12.

“F-Foreign… Eye?!” — repetiu Twilight Sparkle, ainda não acreditando no que estava acontecendo bem a sua frente.

Twilight estava em frente a sua casa, a Biblioteca, em Ponyville. Dentro da biblioteca, estava ocorrendo uma reunião para o Grande Evento que acontecerá nos próximos dias. Cada dia está contado, tudo precisa estar nos conformes. Esse é o trabalho dela, organizar tudo. Mas será que ela dará conta de tudo sozinha?

No momento, ela está parada diante do recém-visitante de sua humilde moradia, Foreign Eye.

— “Peraí!” — Twilight ergueu o casco, — “Foreign Eye, Foreign Eye?! O Foreign Eye?”

— “Depende… Estamos falando do mesmo pônei?” — o pônei de terno tenta ser amigável com uma piada simpática, mas Twilight está emocionada demais para acompanhar sua piadinha.

— “Ai, minha nossa, minha nossa! É você mesmo!” — Twilight já pulava de emoção ao redor dele, — “Não acredito que estou falando com o senhor neste exato momento! Sou sua maior fã! Li e reli todos os seus livros!”

— “Sério? Você leu meus livros?” — obviamente se fazendo de bobo.

— “SIM!” — Twilight deu um passo a frente, seu sorriso ia de orelha a orelha, — ““As Milhas de Clousdale”, “Appleloosa É Logo Ali Adiante”, “Rio Grande e Sulista”, “Terras Férteis Para Lá de Absurdas!”, TODOS ELES! São simplesmente geniais! Você viajou para tantos lugares! Conheceu tantas culturas! Falou com milhares de pôneis e criaturas místicas! Ser o Conselheiro e Diplomata oficial do Reino das Terras Férteis em Canterlot não é para qualquer um! É um cargo respeitadíssimo e de alta consagração!”

— “Ah, é mesmo? Por que você acha isso?” — ele se mostrou surpreso pelo último comentário acrescentado pela unicórnio cor de lavanda.

Foreign dificilmente encontrava pôneis que leram dois ou mais de seus vários livros publicados. Cada livro representava um lugar diferente, uma cultura diferente, pôneis diferentes e, principalmente, opiniões diferentes. Não eram abrangentes, eram mais específicos e atraía gostos e interesses de diferentes indivíduos. Essa unicórnio roxa demonstrou ser a primeira de raras fãs a ler todos os seus livros de uma vez. É por causa dessa experiência de vida que Foreign resolveu implantar nesses livros. Pôneis de qualquer idade poderiam aprender e vivenciar o que ele absorveu durante sua vida de viagens e descobrimentos. Para terem uma visão mais aberta e sonhadora do mundo enorme e ainda misterioso que reservava para eles, um dia, explorarem por si só.

Com isso, figuras importantes de sua cidade natal o consagraram como Conselheiro e Diplomata Oficial do reino em que nasceu, o Reino das Terras Férteis. Seu cargo era dificilmente discutido por entre seus fãs; eles existiam apenas para discutir o conteúdo daqueles textos. Seu título era apenas para negócios, não havia necessidade de discuti-lo em uma conversa amigável ou em um debate entre jovens fanáticos por suas obras.

Essa pônei era, deveras, interessante.

— “Por que eu acho isso?!” — Twilight encarou-o, incrédula. — “Simplesmente porque sim! Todo dia você tem que viajar de cidade em cidade para participar de reuniões e eventos cerimoniais, reuniões com grandes políticos e outros diplomatas, pôneis famosos. Nossa! São tantos pôneis e criaturas que você deve ter conhecido ao longo da vida! Posso ver isso nos livros que escreveu! Deve ser impressionante conhecer tantos pôneis em vários lugares!”

— “É… e deixar para trás tantos rostos…” — Murmurou Foreign, com uma expressão chamativa de tristeza.

— “Heim? Como?” — Twilight se virou para Foreign, preocupada com a súbita mudança de tom do pônei de terno.

Foreign Eye limpou a garganta, tentando disfarçar, — “Hã… Digo… A-a Princesa Celestia me enviou para Ponyville para participar de uma reunião que iria acontecer às 20:00, precisamente. Só para confirmar: a senhorita é a aprendiz de sua majestade, Srta. Twilight Sparkle, de que ela tanto fala?”

Os olhos de Twilight, na mesma hora, brilharam. — “A Princesa fala de mim em suas reuniões? E com figuras famosas de Equestria?!” — pensou ela.

Uma certa elevação de ego preencheu no peito dessa pônei roxa. Não é todo dia que um nome é dito pela Princesa com tanta honra e importância. Ainda mais quando este é comentado com outros pôneis famosíssimos de Equestria. Afinal, ela é a aprendiz favorita — para não dizer particular… — da governante diurna de Equestria, Princesa Celestia. É de se ter orgulho de um cargo desse, sim. Isso se esse orgulho não subir a cabeça como em certos pôneis chifrudos e roxos conhecidos.

Twilight ergueu o casco ao peito, com o focinho avantajado, — “Caham! Mas é claro! Meu nome é Twilight Sparkle–”

— “E meu nome é Rarity!“ — Rarity aparece de supetão, empurrando a Twilight bruscamente para o lado. A mesma quase se desequilibrou. — “A estilista mais famosa e elegante de toda Ponyville! Um garanhão charmoso como você obviamente já deve ter ouvido falar desse esplendendoríssimo nome…” — Rarity gesticulou o casco gentilmente para Foreign Eye, com um olhar sedutor de seus diamantes azuis oculares.

— “Mais do que encantado.” — Foreign Eye beijou levemente o casco de Rarity. — “Ouvi falar muito de você, Srta. Rarity.”

— “Oh! A carreira de grande estilista é tão sofrida!” — Rarity pousou o casco sobre a testa, falando num tom melancólico — “Pôneis de toda Equestria passam em minha loja só para encomendar serviços dessa pobre e esforçada estilista! Mas nunca comentam sobre seu digníssimo trabalho suado e … peraí!” — Rarity virou o rosto e olhou perplexa para o visitante, — “Já ouviu falar de mim?! Mesmo?! Como?!

Rarity demonstrou-se realmente surpresa por uma figura tão importante como Foreign saber o nome de uma simples pôneizinha moradora de Ponyville.

— “Como assim “como”?” — ele ergueu uma sobrancelha, — “A Srta. Shores não parava de se exibir com aquela roupa de grife brilhante que a senhorita havia criado. Toda vez que alguém ia perguntar as horas, ela respondia seu nome como a criadora daquela roupa… moderna.

Rarity ficou boquiaberta, — “…S-sa-s-sa-saphire Shores??!!” — seus lábios tremiam e se esforçavam em pronunciar palavras, mas era muito difícil, — “S-se-s-se-sério?! Mesmo??!!

— “Sim, claro!” — disse Foreign Eye num tom animado, e acrescentou, — “Não só a Srta. Shores como o Sr. Pants, também. Não sei o que a senhorita causou a ele, sinceramente. Nunca o vi falar de alguém com tanta emoção! Uns dias atrás, quando cheguei em Canterlot, me encontrei com ele. Eu disse que procurava um lugar para visitar… Um lugar que eu não conhecesse em Equestria. Sr. Pants, na mesma hora, me indicou Ponyville como uma das minhas primeiras paradas. E comentou também de uma pônei em específico que morava na cidade.” — ele olhou agora para o rosto de Rarity, erguendo uma sobrancelha e um sorriso malicioso em sua bochecha, — “Diga-me… Será que a senhorita arrumou um grande partido?”

Sorte que Rarity não havia dado a atenção à última frase dele; ela estava imóvel, como se estivesse petrificada. As causadoras dessa petrificação momentânea nessa elegante unicórnio pálida foram as duas primeiras novas: seu nome sendo pronunciado pelas duas importantes figuras da moda, Saphire Shores, e da sociedade canterlotiana, Fancy Pants.

Sua crina balançava com o vento, seu olhar vazio e meio passivo tornava a situação um tanto delicada. Ou até mesmo perigosa para a própria unicórnio de crina roxa encaracolada. Se ela tivesse ouvido esse último comentário de Foreign, ela possivelmente não iria suportar o ataque de emoção e estaria a caminho do hospital.

Twilight chegou perto de sua amiga pálida, um pouco preocupada, — “Hã… Rarity? Você está–”

Rarity agarrou os ombros de Twilight, ficando de focinho-a-focinho com ela e exclamando, — “SAPHIRE SHORES FALOU DE MIM! E FANCY PANTS TAMBÉM!!” — ela deu um grito esganiçado de emoção quando agarrou a cabeça de Twilight, espremendo-a num abraço apertado e desesperado.

Twilight lutava pela liberdade de sua traquéia, que estava bloqueada pelo abraço enforcador de Rarity. Os olhos diamantes da unicórnio branca brilhavam de um jeito que jamais brilharam antes. Era emoção demais para um dia só.

A voz de Rarity ficou meio esganiçada no começo, — “É BOM DEMAIS PARA SER VERDADE!! Não acredito que após séculos de trabalho duro e esforço valeram a pena para essa pobre e corajosa pônei de Ponyville com seu sonho de ser a maior estilista de toda Equestria– Não!” — Rarity afastou Twilight pro lado, olhando para as estrelas e o luar no céu, — “De todos os tempos!” — Rarity gesticulou suavemente seu casco para frente de seu rosto. Seus olhos azuis-diamantes ofuscavam de felicidade e êxtase.

Twilight tossiu um pouco, massageando a garganta meio irritada pela chave-de-braço de Rarity, — “T-tá ceeerto…” — comentou ela, erguendo uma sobrancelha.

“Os petiscos já estão servidos!” — berrou uma voz masculina, num tom infantil, de dentro da biblioteca, — “Estão sobre a mesa! Já podem cair de boca!”

Applejack inclinou-se na porta, colocando a cabeça para fora do recinto. — “Rériti tá viajâno na maionése ôtra véiz?” — AJ parou no meio da porta e olhou para a Rarity se estrebuchando de ansiedade, — “Há! Si essa daí arrumô um partido dos bão, eu cômo meu chapér!”

“É O QUÊ?!?!” — uma voz escarrada saiu de dentro da biblioteca. Esta pareceu irritada com o último comentário do ambiente.

Um corisco roxo com listras esverdeadas passou por entre as pernas de Applejack, assustando a mesma.

— “Arrê égua!” — por reflexo, ela fecha as pernas e dá um passo para o lado, olhando para o chão, meio perdida. — “Quêfoisso, seu!?”

Ao correr os olhos pelo chão, ela imaginou para onde seguiria aquele corisco que passou por ela. Applejack olhou para frente e encontrou seu real dono.

Spike, vestindo um chapéu de confeiteiro e um avental brancos, estava em frente à Rarity, com os braços e as pernas abertas, olhando agressivamente para Foreign Eye. Para um bebê-dragão, ele sabia intimidar quando o assunto envolve alguma coisa valiosa para ele; ou algum pônei.

— “Pode ir tirando o cavalinho da chuva!” — disse Spike com as sobrancelhas serradas e mostrando os dentes pequeninos para Foreign, — “Ela é minha, compadre! Arréda o pé daqui!”

“Spike!” — intrometeu-se Twilight com um tom irritado, — “O que pensa que está fazendo?! Onde estão seus modos?”

— “Estão todos aqui: Modo agressivo, modo predador mortífero e modo “vou arrancar a pele de seu corpo feito casca de banana!”

Twilight acionou sua magia com um brilho de seu chifre e puxou uma das escamas — ideologicamente em serem as orelhas — do dragãozinho.

— “Ai, ai, ai, Twilight! Para com isso! Ai! Isso dói!!” — Spike deu pulinhos para o lado até parar perto de Twilight, sendo que a mesma estava com um olhar repreensivo.

— “Pssht! Comporte-se! — Twilight virou para Foreign, — “Eu sinto muito, Sr. Eye…!” — ela estava sem jeito, — “Spike não é sempre assim. Ele só está um tanto… emocionalmente ativo.

Twilight brilha o chifre mais um pouco e deu um último puxão na orelha do Spike, soltando um audível “SNAP”, — “Ai, ai! Tá bom, tá bom! Já entendi! Eu sou um dragãozinho mau, mau!” — disse Spike, esfregando sua escama dolorida.

— “Isso mesmo. E arrependa-se do que fez com nosso ilustre convidado!” — terminou Twilight.

— “Bah!” — Spike cruzou os braços, emburrado, e bufou com o nariz, soltando um pouco de fumaça cinza.

— “Mais uma vez, me perdoe pelo comportamento dele, Sr. Eye! Espero que não esteja ofendido…” — Twilight cruzou suavemente os cascos, com a cabeça um pouco baixa.

— “Não, não! Não fiquei ofendido!” — ele sacolejou os cascos, negando. — “Aliás… Eu queria mesmo pedir desculpas ao… Spike, certo?”

— “… Hã?” — Spike olhou para ele, levantando a cabeça.

— “É. Queria pedir desculpas por achar que a Srta. Rarity arranjou um bom partido.” — Foreign coçou um pouco a nuca, descontraindo-se, — “Espero que não tenha ficado ofendido…”

— “Bom, dã! Claro que fiquei ofendido! Cê acha que eu iria fazer aquilo à toa?!”

Twilight deu uma patada de leve na nuca de Spike.

— “Ai! Pô, Twilight! Já deu, né?”

Twilight retrucou fechando a cara, em repreensão. Spike bufou com o nariz novamente. O pequeno dragão virou-se para o Foreign, segurando seu chapeuzinho de confeiteiro com seus pequenos dedos pontiagudos.

— “Certo… Hã… Aceito suas desculpas, senhor.” — Twilight cutucou Spike com o cotovelo, — “E… me desculpe pelo meu comportamento… rude, impulsivo e emocionalmente descontrolado…” — Spike olhou para Twilight no canto do olho.

Twilight sorriu alegremente pela resposta de Spike. O dragãozinho só pôde rolar os olhos.

— “Rarity é minha amiga e gosto muito dela.” — Spike explicou-se, olhando levemente para baixo, — “Eu… meio que tenho muito respeito por ela e pelo seu esforço no que faz… como eu me esforço no que faço.” — ele torceu um pouco o chapéu com suas mãozinhas, — “Se acontecesse alguma coisa a ela… eu–”

Um som abafado alastrou-se aos ouvidos de Spike. Ele olhou para a fonte do som e encontra Rarity caída no chão, meio tonta e com um sorriso meio-torto em seu rosto.

— “Ih, danou-se! Deu uma birola na Rériti.” — exclamou Applejack, com uma risadinha em meio à frase.

“Rarity!!” — Spike correu ao seu socorro, deixando Twilight e Foreign de lado por um breve momento.

Twilight ia repreendê-lo na mesma hora por deixar o convidado no vácuo, mas antes que ela pudesse impor sua voz sobre o pequeno dragão, Foreign a impediu ao descansar o casco em seu ombro. Twilight virou seu rosto bruscamente para o dono do casco. Ele olhava para ela calmamente, indicando para que não fizesse nada e que apenas esperasse e observasse, pacientemente. A unicórnio roxa apreciou o suave sorriso daquele jovem corcel. Era calmo e um tanto travesso. Os olhos marrons sombrios de Foreign focavam em seu rosto lavanda juvenil, observando do queixo até o chifre. Twilight se sentiu um tanto desconfortável por aqueles olhos estarem analisando ela tão… atenciosamente. Tanto que a própria dona deste rosto desviou-o da visão desse corcel, com um tom rosado em suas bochechas.

Twilight ficou meio sem jeito, mas pareceu entender o recado e voltou a olhar para Spike, que agora segurava gentilmente o rosto de Rarity.

— “Rarity! Você está bem, Rarity?!” — Spike estava muito preocupado com ela. Ele descansou sua cabeça sobre as coxas dela, atencioso.

Para a surpresa de todos, o dragãozinho começou a executar os primeiros-socorros. Certificou-se da respiração da unicórnio branca ao colocar o ouvido em seu focinho; contou os segundos ao pressionar dois dedos no pescoço de Rarity, medindo a pressão sanguínea; olhou para as pupilas azuis dela, checando se estavam dilatadas.

Apesar de ser um bebê-dragão, ele demonstrava total controle da situação. Até demais. Foreign Eye olhava surpreso para o que aquele pequenino estava fazendo com tamanha precisão e atenção. Era surpreendente, até mesmo para aquele diplomata.

— “Tá tudo bem cum ela, Spáiki.” — Applejack chegou perto dos dois, — “Ela só tevi uma birolinha di nada. Logo, logo, ela acóirda e tará tudo di boa.”

— “S-sério mesmo? Verdade?” — a voz do Spike arranhou um pouco no começo. Ele segurava gentilmente a nuca de Rarity.

— “Ara mais essa!” — Applejack acariciou a cabecinha do Spike, — “Tô tão certa qui, o dia im qui eu tivé errada, galinha cria dentê!”

Spike achou meio esquisita a frase encorajadora de AJ, mas sentiu que compreendeu a confiança daquela pônei loira. Ela estava sempre certa, de fato. O que podia esperar do Elemento da Honestidade? Ele podia se acalmar a partir de agora.

— “Ufa… Ainda be–!” — Spike deu um sobressalto, se lembrando que deixou o Sr. Eye a ver navios durante seu socorro e olhou discretamente para trás.

Foreign estava em pé. Não muito longe dele, mas estava perto. Ele não estava demonstrando nenhuma reação, nem mesmo uma expressão em seu rosto. Aquilo deixou o Spike preocupado. — “Será que ele está bravo? Eu… não pude evitar! A Rarity…” — pensou ele, suando um pouco frio.

Spike pousou a cabeça de Rarity suavemente no chão, ergueu-se e andou timidamente até o convidado da noite, torcendo um pouco o chapéu que tinha em mãos.

— “Hã… Desculpe, Sr. Eye.” — Spike nem olhava para ele, seus olhos estavam no chão. — “Eu… eu…”

— “Compreendo, jovem dragão.” — Foreign apalpou gentilmente a cabeça de Spike, — “Não é todo pônei ou criatura que faz esse tipo de coisa a um outro ser de uma espécie diferente. Ainda mais de uma forma atenciosa como você demonstrou agora.”

Spike olhou para cima, encontrando o rosto alto de Foreign. Sua face estava em um aspecto calmo e bem sorridente, para a surpresa do jovem réptil.

O dragãozinho podia sentir calmaria daquele corcel na lenta respiração que fazia e no manuseio suave de seu casco sobre sua cabeça. Apesar das escamas duras e porosas de Spike impedirem de ele sentir alguma dor ou massagem, o calor; a energia que transmitia no toque daquele jovem pônei era…

— “Você é um tipo especial, Spike.” — continuou o corcel elegante — “Posso ver claramente que Srta. Rarity arranjou alguém melhor…”

Spike ficou olhando para Foreign por alguns breves segundos. — “Ela arranjou?” — pensou ele. Estava assimilando o que aquele pônei havia lhe dito, mas não entendia bem o que ele quis dizer com aquilo.

— “Hihi, você ainda vai entender, Spike…” — Twilight agarrou Spike pelo ombro e esfregou sua bochecha com a dele, com um sorriso no rosto — “Um dia, vai entender…”

Spike corou um pouco e olhou para o lado, terminando de espremer e girar aquele chapéu torcido e violado. Twilight deixou o dragãozinho em seus pensamentos e trotou para perto de Rarity, com um ar preocupado.

— “Acho melhor já levar a Rarity para dentro. Depois desse… hã… “piripaque” ela precisará urgentemente de um copo d’água com açúcar.” — Twilight acionou a magia de seu chifre para levitar a unicórnea emocionalmente desacordada, — “AJ, importa-se de convidar nosso visitante, em seguida?”

— “Oxi, craro qui num, Tualáiti! Pódi dêxá cumigo!” — Applejack ajeitou seu chapéu para trás, confiante.

Twilight agradeceu e trotou para dentro com a Rarity, levitando-a no ar através de magia. Spike percebeu que a pônei roxa adentrou-se a biblioteca com a unicórnio flutuante e correu atrás, em passos saltitantes e ligeiros, — “Ei, Twilight! Espere por mim!”

Applejack deu espaço para Spike passar. Então, ela virou-se para Foreign, apontando-lhe o casco.

— “Bas tarde, Nhô Aiê…” — ela começou já com uma apresentação amistosa, — “Si voismecê num si aperreiar cum minha prêgunta…”

— “Imagina! Pode perguntar, Senhorita…” — Foreign deixou um longo espaço no fim da frase.

— “Applejack.” — respondeu a pônei loira, com um certo tom de orgulho em sua voz, — “Êssi é meu nómi. Már respeito qui o sinhô é todo cordiar i queira mi chamá di um forma tamém cordiar,” — AJ piscou para Foreign, — “podi mi chamá sem pôbrema di “Sinhá Applejack”.”

— “ “Sinhá”? ” — Foreign ergueu uma sobrancelha, — “É casada, Srta. Applejack?”

— “Oxênte! É nada, meu fío!” — Applejack gargalhou um pouco com a observação dele, — “Gosto di sê chamada ansim pois é o qui sô. Uma pônei fêrta e indepêdenti, pois num é macho qui mi sigura! E ai deli si tentá! Vai recebê um baita di um “Sai fora, fubá!” — e AJ interpretou um coice de leve com suas patas traseiras.

Foreign riu junto a ela. Ele imaginou aquela situação na cabeça e nunca pensou quão hilária ela seria. Ele tomou nota em um canto de suas memórias ao devanear-se entre seus pensamentos.

Ao voltar a si, percebeu que Applejack havia aproximado dele com um olhar malicioso. O diplomata hesitou um pouco, com uma leve suspeita de suas intenções, mas permitiu a aproximação. AJ falando um tom baixo, perguntou:

— “Már, cá entri nóis. I ocê, meu fío?” — AJ cutucou Foreign com o cotovelo, — “Cê num tá pendurado numa árvrê cum arguém, heim?”

— “Valei-me nossas Princesas! Não, não, Srta. Applejack!” — Foreign sacudiu os cascos, negando. — “Não estou, no momento, com ninguém e, definitivamente, não quero me envolver com nenhum pônei de jeito nenhum e–.”

Applejack o cortou, incrédula, — “Cumé?!” — ela olhou torto para ele. Aj achou muito estranho aquele tipo de negação em sua frase, ainda mais para um corcel jovem como ele. — “Como ansim?! Pruquê ocê num qué?! O qui qui ti impédi, afinar?!”

Foreign ficou com um nó na garganta por um momento. As perguntas que ela fez no ambiente ele não queria responder e temia aqueles tipos de perguntas; ele as evitava a todo custo de outros pôneis. Mas agora era difícil escapar ou desviar do assunto.

Ele virou os olhos discretamente ao redor, juntando as palavras para responder a pônei que o encurralou. Aqueles olhos esmeraldas eram intimidadores, difíceis de esquivar e de ignorar. Eles estavam mirando sobre ele de uma forma ameaçadora, esperando qualquer reação inapropriada para apertar o gatilho.

— “N-não foi o que eu quis dizer, Srta. Applejack…” — Foreign limpou a garganta. — “Estou, no momento, numa viagem de negócios. Vim aqui para participar no evento para depois voltar para meu reino. Não estou aqui para relacionamentos íntimos ou algo do gênero! Apenas estou cumprindo o meu dever estabelecido pelo governo de meu reino. Por favor, não me entenda mal!”

Applejack encarou Foreign, desconfiada. Em seu tom, parecia que ele suplicava pelas desculpas da pônei loira. Só faltava ele se deitar no chão e pedir desesperadamente por suas súplicas. O diplomata parecia ser bem sincero em suas palavras. AJ sentiu que ele não estava mentindo; cheirava mentiras a quilômetros de distância. Ela se convenceu, mesmo que soasse meio exagerado vindo de alguém tão importante como aquele pônei.

Applejack ajeitou o chapéu, descontraindo um pouco da situação, — “Tsc! Dêxa quieto… Tá tudo bem, Nhô Aiê.” — ela sacolejou suavemente com o casco para Foreign, — “Discurpa si fui num arregaço cum sinhô. Fui meio indelicada cum as prêgunta i, sem querê, o acusei sem ninhum mutivo.”

— “Não,” — seu tom estava sério, — “eu que peço desculpas. Não fui bem claro quando–”

— “Nhô Aiê…” — Aj o cortou ao elevar seu tom, — “Fui eu qui errei ao lançá essas prêgunta contra o sinhô. Quem tem qui pidí discurpa sô–”

— “Perdão,” — Foreign também a cortou. O rosto daquela pônei loira avermelhou com aquele corte, — “mas, sinceramente, fui eu que errei ao não expressar-me direi–”

— “Dêxi di nóia, criatura!” — Applejack tapou a boca de Foreign com o casco. AJ odiava ser cortada em suas frases, não havia coisa que mais enfurecia ela do que isso. — “Sô eu qui errei i sô eu qui tem qui pidí discurpa! O sinhô num tem obrigação di pidi discurpa pru algo qui num fêiz!”

Aqueles olhos esverdeados daquela pôneizinha miravam selvagemente no rosto do visitante. Eram assustadores, mas demonstravam coragem; perseverança. Aquela pônei loira era justa e verdadeira quando disse aquelas palavras. Odiava mentir e desmentia quem se atrevia a blasfemar contra a verdade. Assumia suas responsabilidades e seus erros, nunca colocava nos ombros de outros. Isso era ser justo; ser verdadeiro.

O diplomata estava, novamente, surpreso com aquela pônei alaranjada. Sua reação e o forte senso de justiça o deixou espantado. Ele nunca viu isso em pônei algum, mesmo nas inúmeras viagens que fez ao longo de sua jornada. Nada o deixava mais intrigado do que sentimentos fortes dos pôneis que ele conhecia.

Ele percebia que cada pônei era único em suas ações, em seus comportamentos e em suas ideologias; ele estava vendo isso bem em sua frente.

Foreign suspirou pelo nariz e afastou suavemente o casco de Applejack de sua boca, — “Tens toda razão, Srta. Applejack. Não devo pedir perdão por algo que não fiz… Mas a senhorita compreende o que eu quis dizer anteriormente?”

— “Már é craro! Cumpriendo perfeitamente, seu!” — Applejack assentiu com a cabeça, confirmando, — “Aqui– Digo… No Sweet Apple Acres, acuntéci a mermíssima coisa.” — ela coçou um pouco o nariz, — “Na fazenda, trabaia eu, mermão, minha maninha e minha vó. Eu e mermão trabaiamo, már trabaiamo duro para ter uma boa safra di maçã todo semestri! É tantu trabaio qui gostariamo di dá uma cérta atenção pra uns cérto relacionamento…”

Applejack ergueu os olhos com a cabeça, ela observava as estrelas brilhando fracas e as nuvens escuras lentamente se movimentando, — “Sabi… num devêmo ficar tantu tempu vivêno nos sonhos amoroso. Um ispaço especiar deveria estar preenchêno no coração… e na vida di cada pônei.”

Foreign deu uma rápida olhada para o céu noturno. Ele queria acompanhar a filosofia que a pônei loira estava proporcionando a ele.

AJ continuou o discurso, sem tirar os olhos dos astros brilhantes, — “Num é saudáver ficá sozín por muito tempu. Isso dêxa os pônei doenti… por dentro.”

Foreign desviou o olhar para baixo, sentindo as palavras cruas e mal-passadas. Ele estava aceitando o que ela estava dizendo.

— “I, às vêiz… isso pódi durá pra sempri e nunca acabá. I pódi perdurá até dipois da vida…”

Foreign encolheu suas orelhas, refletindo em seus pensamentos enquanto ouvia a voz da pônei alaranjada ecoar em seus ouvidos. Ele torceu um pouco os lábios, retraindo o que ele não queria expressar abertamente. O discurso de AJ, de alguma forma, estava fazendo um efeito inesperado para ele.

— “Portantu…” — Applejack deu uma patada brusca nas costas de Foreign. Foi tão forte que fez ele se desequilibrar, quase indo de encontro ao chão. Com reflexos rápidos, ele pôde se segurar com os cascos posteriores. — “Dêxe di dirigir essa novela das oitcho e vá arrumá uma fêmea das boa qui o satisfáça!”

Foreign ergueu-se para a posição reta sentada com um impulso. Ele ajeitou a gravata, apertando um pouco e puxou um pouco para trás o topete. Suas bochechas estavam um pouco quentes no começo por causa da idéia de AJ. Não era algo ruim a ponto de jogar fora e deixar de pensar nisso. Qualquer um adoraria agir com essa ideia em mente.

Mas ele, não.

— “Vou pensar no caso…” — claro que não vai.

Ele estava decidido. Nada o faria mudar de pensamento. Seus ideais já aderidos no passado não o permitem de acatar o que lhe foi proposto agora.

Applejack torceu o lábio, — “Êta, bixo teimoso dos Tártaro…!” — pensou ela ao suspirar pelas narinas.

A pônei caipira era uma pônei de morais. Ela sabia que todo pônei merece ter uma vida boa e saudável. Tanto no trabalho quanto nos relacionamentos entre amigos, parentes e pôneis mais íntimos. Sem esse equilíbrio, o indivíduo pode se perder em sonhos não-concretos e até se sentir incompleto; sentir um vazio por dentro. Ela odiava esse tipo de sentimento. Sentir-se sozinha ou que faltava uma parte que precisava ser preenchida em seu peito; uma falta de calor eqüino; uma carícia íntima.

Ela sabia o que era isso; essa sensação… ela sentia até hoje.

Applejack levantou um sorriso malicioso indiscreto no canto da boca, — “Már dêxi está, jacaré… qui a lagoa há di secá.”

— “Perdão, Sinhá Apple…” — Foreign voltou a olhar para ela, — “Mas qual foi mesmo sua pergunta?”

AJ virou a cabeça para ele, confusa — “Prêgunta? Qui prêgunta?”

— “Aquela pergunta que a senhorita iria me propor… logo no começo.”

Applejack levou um casco ao seu queixo, pensativa, — “Prêgunta… Prêgun– AH! SIM!” — ela se lembrou num estalo em sua memória, — “Pelo qui ôvi qui a Tualáiti tinha dito uns tempin atrás… foi o sinhô quem iscreveu aquelis livro… hã… “Épóluça É Logo Ali Adiantí” i “Terras Fértir Pra Lá Di Absurda”?”

Foreign assentiu com a cabeça, — “Sim, clar–”

— “Már minino! Qui coisa boa, seu!” — expressou AJ num tom feliz e animado. Foreign se assustou um pouco com a reação da pônei loira.

— “Cê num tem ideia quão loco seus livro são!” AJ aproximou-se um pouco de Foreign, demonstrando-se atenciosa, — “Meu primo mi indicô essis livro pra mói di mim ler eles e mi emocionei pur dimais!”

— “Seu primo?”

— “Sim! Brébârn, di Épóluça!” — a pônei loira sacudiu sua cabeça positivamente, — “O cabra dévi di tê ficado doido quando ti viu rodiando pela cidadi. O sinhô devi di conhece–”

— “O Breaburn?!” — indagou Foreign com intusiasmo, — “Há! Aquele cara é hilário! Ele me apresentou Appleloosa de cima em baixo, virou do avesso as histórias que ele conhecia sobre o lugar! Quase fiquei com dor de cabeça com tantas informações que ele me passava.”

— “É. Ele é um pôco exagerado…”

— “Um pouco?” — Foreign olhou para AJ, bradando uma sobrancelha erguida para ela.

— “Tá… mêi exagera–“

— “Meio?!” — sua sobrancelha podia cutucar a cabeça de Aj de tão erguida que estava.

Applejack ergueu os cascos, derrotada, — “Tá bão! Tá bão, criatura! Ele é um absurdo di exagêro, um istêrotópico… ister… instró…” — ela se esforçava pronunciar uma palavra.

— “Estereótipo?” Completou Foreign, ajudando-a.

— “Isso mêrmo!” ela apontou-lhe o casco. — “Isteriôtipo!”

Os dois riram juntos. A pônei alaranjada mesmo não se aguentava e já escorria finas lágrimas de seus olhos.

— “Hahaha! Haha… Már… Már falâno sério agora…” — Applejack enxugou os olhos e limpou a garganta, — “O sinhô foi passá uns tempo lá, né? Ficô quantus dias lá, qui mau lhe pregunte?”

— “Dias?” — perguntou ele num tom meio irônico, — “Nossa… fiquei por lá por mais de um mês! Estava numa missão diplomática para ajudar o povo de Appleloosa com um problema local… um problema de posse.”

— “Heim? Di póssi? Como ansim?”

— “Pelo que Sr. Breaburn me contou, Appleloosa é uma cidade de habitantes pioneiros, pôneis desbravadores que andavam por toda Equestria a procura de um lugar próprio para ficar e contruir uma vila, com sua própria renda, que são as macieiras.”

— “Hu-hum” — Applejack já ouvira aquela história dezenas de vezes pelo seu primo. Ou, pelo menos, fingia que ouvia; aquela boca não fechava nem um instante para conter o córrego de palavras.

Foreign tomou um pequeno fôlego, — “Só que, ao fincar a placa da cidade no local, pouco tempo depois descobriram que não eram os únicos que viviam por ali. Lá vivia uma antiga tribo aborígene de búfalos selvagens que, onde Appleloosianos plantavam e colhiam suas maçãs, eles faziam sua tradição milenar de debandada.”

“Tribo di búfalos?” — pensou AJ, — “Tradição milênar di debandada? Será qui eli tá falâno di–?”

— “Isso gerou um constante conflito entre as tribos e os Appleloosianos. Os habitantes da colônia não podiam mudar as árvores de lugar, pois era o único lugar fértil perto deles. E os búfalos insistiam que aquela passagem por onde as árvores foram plantadas era sagrada para sua tradição de debandada e que elas não podiam ficar lá por muito tempo.” — Foreign esfregou sua nuca com o casco, meio triste, — “Tentei o meu máximo para que houvesse algum acordo de paz entre as duas comunidades, mas… não havia nenhuma maneira de convencer ambos os lados. Os búfalos eram muito crentes em suas tradições e os Appleloosianos precisavam daquele lugar para viver.”

Applejack ficou um pouco reluta consigo mesma. A pônei laranja podia ver que ele estava bastante decepcionado por ter falhado em uma missão. AJ não se esquecera da última vez que visitou Appleloosa e do que havia feito lá com suas amigas. Ela queria uma brecha para poder contar a ele o que sabia.

— “Quando voltei para meu reino, escrevi aquele livro pensando que podia conseguir algum apoio popular para que haja um acordo entre os habitantes de Appleloosa e as tribos indígenas. Isso retardou um pouco a ideia dos búfalos tomarem suas terras de volta a força, mas eu temo o dia em que esse conflito se tornar algo muito perigoso para ambas comunidades e–”

— “Már essi conflito já acunteceu, Nhô Aiê…” interroupeu Applejack.

Foreign cerrou as sobrancelhas por um momento. Ele focava seus olhos ao chão, mas seu rosto girou bruscamente, olhando para égua alaranjada com temor em seus olhos, — “C-como? O quê disse?!” — ele temeu ter ouvido corretamente, perguntou esperando ter uma confirmação mais concreta.

— “Os búfalo já atacarô Épóluça uns tempo atráis. Os habitanti num quiriam cunversa cos índio. Os búfalo se enfezaram e avisarô a elis que iam atacá.”

Seu medo tornou-se realidade, e da pior maneira possível: ele não sabia que já havia ocorrido essa tragédia. — “Minha nossa…!” — ele levantou bruscamente a cabeça em direção a pônei laranja, com um olhar perplexo. — “Como eu não soube–! O-o que aconteceu depois?” — Foreign focou sua atenção nas palavras da pônei loira, seu tom era de muita preocupação. AJ percebeu isso e teria que tomar cuidado com o que falará para não desesperá-lo.

— “Num se avéxi, não, meu fio!” — sacudiu um pouco os cascos, pedindo calma, — “Pódi ficá tranqüilo que num acunteceu nada di ruim!”

— “Mas o que aconteceu?! Os Appleloosianos–”

— “Elis tão in pêrfeito istado, Nhô Aiê.” — ela descançou os cascos nos ombros do elegante pônei bege, tentando diminuir a tensão nele. — “Hôve uma briguinha pequena, már agora elis tão in sintonia, num tão mais brigâno por póssi di terra. Elis decrararô paz entri elis.”

O pônei de terno estava surpreso; perplexo, por assim dizer. Não sabia se as palavras daquela fêmea alaranjada eram verdadeiras, sem ao menos um carimbo ou uma testemunha local para declarar a redundância do ocorrido. O seu olhar fiel esmeralda gritavam a verdade, mas não tinham sua confirmação concreta; sua concretização.

Ele viu de perto as ríspidas trocadas de olhares e palavras entre aqueles habitantes. Um mês de trabalho árduo governamental naquele povoado e sem sucesso e resultados. Uma paz foi concretizada entre eles, sem sua presença ou seu auxílio diplomático, sem uma resposta governamental e que só aquela égua de uma cidade interiorana sabia disso?

— “Isso… está muito confuso… e inesperado para mim…” — declarou ele.

— “Num si avéxi, Nhô Aiê. Eu cunheço um pônei certo pra ti contá tintin por tintin!”

Foreign apertou os olhos com o casco em seu rosto, — “Pelo amor das princesas, Sinhá Applejack, não me diga que terei que falar com Sr. Breaburn para–!”

— “Oxênte, não, não!” — respondeu ela, rindo um pouco. — “Cunheço um pônei mió e menus tagarela qui eli.”

— “Hm… a senhorita?” — a pergunta saiu sem querer. Foreign apertou os lábios, sabendo que foi tarde demais para contê-la.

AJ o lançou um olhar suspeito, não sabia se era um pequeno elogio ou uma leve ofensa. Mas compreendeu que a ansiedade daquele pônei por querer se aprofundar nessa súbita mudança cultural de Appleloosa o deixou mais escorregadio que um lago congelado. Essa nova informação, para Foreign Eye, era deveras preciosa para uma futura atualização em seu livro, “Appleloosa É Logo Ali Adiante”, que agora se tornou uma obra incompleta e desatualizada no mercado literário. Ele só ficaria na cidade por alguns dias, até o fim do Grande Dia. Durante esse tempo, ele adoraria tirar um pequeno pedaço de seu precioso tempo para atualizar-se e para conhecer mais sobre os habitantes dessa sua nova estadia temporária, Ponyville.

Applejack só podia sorrir para aquele maroto, — “Gradecida pelo… elogio. Más num é cumigo, num. É cum–”

Applejack ficou em silêncio por um momento. Foreign ainda tinha esperanças pela resposta e esperou ansiosamente, até começar a ouvir trotes ocos e rápidos vindo por trás dele. A pônei laranja olhava para além das costas de Foreign, por cima de seus ombros. Foreign virou um pouco o corpo, tentando localizar para onde AJ estava olhando.

Ele via que algum pônei se aproximava rapidamente. Seus passos eram largos, mas não ligeiros; ela não estava correndo, só andando rápido. Uma pônei de uma pelagem de caqui escurecida vinha do final da rua, por onde dava a Praça Central, para ao encontro deles. Sua crina pálida estava um pouco desarrumada pelos passos apressados e em seu rosto escorria pequenas linhas brilhantes.

Applejack, na mesma hora, acenou para ela — “Sinhá Prefeita! Ocê chegô!”

A pônei de caqui parou bruscamente para perto deles, empurrando alguns cascalhos ao raspar o chão sob seus cascos. Ela respirava forte, mas não tão desesperada. — “Boa noite… Srta. Applejack! … Es… Espero que…” — Fazia tempo que ela não andava tão rápido. Aquela caminhada fez bem para ela; percebeu que deveria fazer isso mais vezes, para sua própria saúde.

— “Muié, sussega i pega um fôlego.” — Applejack ergueu o casco para ela, — “Forçá cunversa dessi jeito num facilita, só atrasa.”

A Prefeita assentiu com a cabeça e sentou brevemente para pegar um pouco de ar que sentia falta. Fechou a boca e começou a respirar devagar e profundo pelas narinas, enchendo e esvaziando o peito. Respirou e expirou; respirou e expirou; respirou e expirou. Ela ergueu o casco para ajeitar um pouco seu topete meio declinado para o lado; a brisa que perambulava pela noite ia contra a pônei de caqui no caminho, deixando sua crina torta e desalinhada. A Prefeita recuperou seu fôlego aos poucos, mas ainda sentia partículas aquosas por entre seus pêlos, e, em seu corpo sem vestimentas, não há nenhum item guardado para expurgar esse pequeno desconforto.

Durante um suspiro, um lenço agarrado por uma mandíbula veio ao encontro dos olhos azul-escuros dela. A Prefeita deu um relapso repentino pelo leve susto e seguiu aqueles dentes brancos para encontrar o rosto de Foreign Eye, agora fitando seus olhos azul-celestes sobre o rosto atônico da pônei de caqui. A face da Prefeita estava desarmada pelo sorriso maroto do pônei cordial.

A Prefeita deu duas piscadas lentas e seu rosto ficou rosado. Applejack percebeu isso e deu uma risadinha disfarçada por uma tosse. A pônei de caqui limpou a garganta e estendeu o casco por baixo do lenço. Foreign deixou-o cair levemente para Prefeita e a mesma agradeceu. Ele respondeu com aceno com a cabeça e outro sorriso.

Foreign olhou para AJ, ela esperava pacientemente a recuperação da Prefeita. Applejack percebeu que o pônei de terno a encarava e olhou de canto do olho para ele. Foreign aproveitou a pequena atenção que conseguiu dela e apontou para a Prefeita com os olhos. AJ levantou uma sobrancelha. Ele sacudiu levemente a cabeça, apontando novamente para a Prefeita. A pônei loira olhou para a pônei de crina grisalha e para o pônei elegante. Ela olhou novamente para os dois. E de novo.

As sobrancelhas da pônei loira se ergueram subitamente; a ficha havia caído finalmente. AJ entendeu e se lembrou do antigo assunto que ela deixou pendurado com o Foreign sobre o evento em Appleloosa. Ela sacudiu a cabeça, negando.

Não. Não era com ela com quem Foreign Eye poderia obter informações sobre o evento de Appleloosa.

Foreign só podia fechar a cara e bufar, como um pequeno potro faria quando não conseguia seu doce mais precioso do alto da estante. Applejack deu uma pequena risadinha.

A Prefeita esfregava o lenço em seu rosto enquanto tentava explicar-se pelo atraso a reunião, — “Mil perdões, Srta. Applejack. Estava na Praça Central, dispensando os últimos pôneis que ainda trabalhavam no palco… e acabei esquecendo da reunião de hoje à noite. Desculpe por chegar tão tarde–”

— “O qui impórta é qui a sinhá chegô.” — Applejack ergueu o casco para Prefeita, — “Cum a sua chegada, já pôdemo dar início a reunião. Num pricisa di–”

— “Mas Srta. Sparkle fez questão de que a reunião começasse às 8:00 da noite. Foi o que todas nós combinamos. Acredito que já é muito mais do que havíamos marcado. Se eu me atrasei, é porque foi uma irresponsabilidade da minha parte.”

— “Már a sinhá tava ocupada na Praça Central. Num pudía fazê nada pra–”

— “Não importa.” — seu tom ficou duro e seu rosto demonstrava irritação, escondendo o real sentimento: Indignação.

AJ apertou uma pálpebra inferior de um de seus olhos esmeraldas pela elevação do tom e pela segunda interrupção da pônei de caqui. A pônei loira não admitia que nenhum pônei a interrompesse.

— “Temos de ser profissionais e rígidas quanto a nossas tarefas.” — continuou a prefeita, — “A Srta. Sparkle deve estar muito magoada com meu atraso e de ter atrapalhado o início da reunião.”

Ela tinha razão. Twilight ficara fora de si quando a Prefeita estava seis minutos atrasada. Imagina agora que são quase 20:30 da noite! A noite voava e nem AJ havia percebido o tempo que havia passado. Twilight deveria estar louca de nervosismo á esta hora.

Applejack esfregou o casco em sua nuca, — “Vê, Sinhá Prefeita… A Tualáiti–”

“Sra. Prefeita?”

Uma voz veio por trás de Applejack e de Foreign Eye. Todos os pôneis presentes viraram seus rostos para a origem daquela pergunta. Twilight Sparkle estava na porta, encarando todos do lado de fora. O tempo que ela estava ali, parada e atenta, era incerto.

“Ih… Vai começá agora…” — pensou AJ, ajeitando o chapéu um pouco para baixo, na tentativa de evitar ver a próxima cena.

Foreign, com o movimento dos olhos, percebeu a reação da Applejack à presença da unicórnio da cor de lavanda; uma reação percebível de desconforto. Isso o intrigou e o fez voltar sua atenção para a unicórnio, que estava entre a saída e a entrada da Biblioteca.

A Prefeita engoliu um pouco seco, ainda com o lenço meio úmido de Foreign sobre o casco. Ela deu um pequeno sobressalto, lembrando-se do lenço branco em cascos e o estendeu para o seu dono. Foreign se virou para ela e olhou para o casco sob o lenço. Ele apenas ergueu o casco, gesticulando para que ela ficasse com ele sem problemas. Então, a Prefeita o guardou dentre o seu colarinho branco em seu pescoço e o ajeitou para que não ficasse aparecendo por fora. A pônei de caqui voltou a olhar para a unicórnio roxa na porta.

— “Boa noite, Srta. Sparkle.”

— “Boa noite, Srta. Prefeita. Sabe que está… um pouco atrasada para a reunião, não sabe?”

Twilight não esboçava nenhuma reação. Nem de raiva ou de calmaria. Apenas um rosto neutro. Isso deixava a Prefeita na dúvida de seus presentes sentimentos e mais ainda nervosa.

A Prefeita suspirou, — “Sim, peço desculpas pelo atraso, Srta. Sparkle, mas o motivo pelo meu atraso era que estava dispensando os últimos operários da construção do palco na Praça Central e acabei me distraindo do horário.”

— “Isso não é desculpa, Srta. Prefeita.” — respondeu Twilight numa voz seca, — “Eles sabem que o turno deles tem um horário de saída. Não deveriam estar saindo tão tarde da noite.”

— “Sim, Srta. Sparkle. Não deveriam.” — A Prefeita levantou-se do chão, agora já olhando para a Twilight da mesma altura que ela, — “Mas eles se sentiam motivados para continuar o trabalho até mais tarde. Apesar do cansaço, eles queriam continuar porque, de alguma forma, valia a pena para eles. Apesar da remuneração apertada e o grande esforço de pôr todas as estruturas em pé em poucos dias, sabiam que iriam ganhar algo a mais no final. Não materialmente, mas sentimentalmente.” — ela puxou um pequeno fôlego pelas narinas, — “Por isso peço que não desconte neles, Srta. Sparkle. Não há motivos de–”

Twilight ergueu uma brusca sobrancelha, — “Descontar?” — perguntou ela num tom surpreso, — “Por que eu faria isso?!”

A Prefeita ficou em silêncio por um momento até levantar o assunto do tópico novamente, — “Porque eles me atrasaram para a reunião?”

— “Foi o que eu tinha dito, Srta. Prefeita: Isso não é desculpa. É uma obrigação.”

A pônei de caqui inclinou um pouco a cabeça para o lado, não tendo certeza se entendeu o que aquela unicórnio quis dizer. Foreign, próximo ao lado esquerdo ds Prefeita, preferiu ficar como espectador. Já a Applejack, arriscou-se perguntar:

— “É o quê, Tuálaiti?”

— “Sim. É obrigação deles saírem neste horário porque é o melhor para todos. Não queremos que os operários que estão construindo as estruturas fiquem desgastados com todo esforço que fazem e que não fiquem fazendo o trabalho muito depressa. Algum pônei pode se machucar durante o processo!”

— “É o que eu disse para eles.” — acrescentou a Prefeita, — “Demorei um pouco para convencê-los. Por isso me atrasei.”

— “E por isso que não é desculpa.” — Twilight deslocou-se da porta em direção a Prefeita, com trotes macios e calmos. — “Você estava fazendo seu trabalho, sua obrigação: cuidando da saúde deles e não o deixarem afobados com o trabalho. Não é motivo para culpá-los de quererem fazer o serviço deles ou de você querer fazer o seu.”

Twilight Sparkle aproximava a cada passo de casco. A Prefeita não sabia o que vinha depois e permaneceu dura, para aguentar qualquer discurso moral que a pônei da cor de lavanda poderia proporcionar a ela. Mas suas intenções não eram essas; o rosto daquela devoradora de livros estava calmo demais. A unicórnio conseguiu aproximar-se da pônei de caqui sem assustá-la. Estavam frente a frente, mas não muito próximas.

Twilight sorriu e ergueu o casco sobre o ombro da Prefeita, acariciando-a suavemente, — “Por isso não se estresse, Srta. Prefeita. O importante é que a senhora e o nosso convidado chegaram e, então, podemos dar início a nossa reunião!” — ela apontou com a cabeça o Foreign a sua direita.

A Prefeita seguiu com os olhos até onde Twilight a orientou com a cabeça; no pônei elegante ao seu lado. Ele a respondeu com um sorriso pequeno ao assentir com a cabeça.

A Prefeita só pôde suspirar de alívio. A sensação era como se tivesse acabado de descarregar uma mochila grande e pesada das costas, dando liberdade aos músculos da tensão gravitacional das preocupações.

— “Ufa, Srta. Sparkle. Achei que tivesse ficado magoada ou mesmo irritada com meu atraso…”

— “Irritada? Eu? Nãããão! Por que eu ficaria irritada com isso– AI!!”

Twilight virou a cabeça e, por trás dela, encontra Applejack olhando séria. AJ acabou de dar uma patada em seu flanco. O motivo era óbvio: a pônei laranja odeia mentiras. E ela não admitia que suas amigas mentissem para ela ou mesmo para quem não merecia.

Twilight suspirou, — “Certo. Admito que, no começo, fiquei… digamos… um tiquinho irritada com seu atraso, Srta. Prefeita.”

Applejack chamou a atenção da Prefeita ao sacudir os braços, atrás de Twilight. A pônei de caqui olhou sem mexer a cabeça por trás da unicórnio roxa. Para a surpresa dela, a pônei laranja fazia caretas de raiva caricaturais hilários: torcia os lábios, mostrava os dentes frontais, cerrava as sobrancelhas, esbugalhava e revirava os olhos. E ainda gesticulava com as patas uma espécie de espumas imaginárias saindo pela boca.

A Prefeita fez o que pôde para conter uma risadinha, discretamente torcendo um pouco os lábios para dentro da boca. Já Foreign, em sua diagonal esquerda, pôs um casco em frente sua boca e deixou escapulir alguns risos abafados.

Twilight não prestou atenção nas risadas e olhava diretamente para a Prefeita, — “Mas foi porque eu queria que começássemos logo a reunião. Essa reunião era importan– digo, é importante para o evento, pois envolve não só os pôneis envolvidos com a construção e organização do evento, mas também envolve os que virão para o evento e, principalmente, para a organização dele. Nesta reunião iríamos discutir tudo o que ocorrerá no evento todo.”

A Prefeita assentiu com a cabeça, — “Compreendo, Srta. Sparkle.”

— “Ótimo!” — Twilight juntou os cascos, dando num surdo “clop”. Seu tom alegre se elevou assim como seu sorriso. Em seguida, gesticulou o casco em direção à porta atrás dela, — “Podemos dar início a reunião! Venha! Vamos entrando, Srta. Prefeita!”

— “S-sim! Claro.” — A pônei de caqui acompanhou a unicórnio da cor de lavanda para dentro da biblioteca.

Foreign seguiu o caminho delas com a cabeça, até elas adentrarem ao quarto cheio de livros. O que aquele pônei elegante acabou vendo não foi nada demais. Por causa reação de Applejack a uns momentos atrás, ele esperava que acontecesse algum tipo de tiroteio de palavras entre as duas. Mas tudo até que acabou bem. Até demais.

Foi quando ele olhou para a pônei laranja que complicou um pouco a compreensão do momento. Applejack estava de pé, com as patas um pouco afastadas, olhando para a porta da biblioteca com um olhar atônito e surpreso. Até sua boca estava entre aberta.

— “Sinhá Applejack?” — ele perguntou, preocupado. — “Aconteceu alguma coisa?”

— “Si acunteceu?” — ela se virou para o pônei elegante, — “Acunteceu foi nada! I isso é muito bão!”

Applejack estava feliz demais da conta. Foreign ficou até surpreso com a felicidade dela. Ela saiu de uma sensação desconfortável para, algo que se possa dizer, um alívio inesperado.

— “É?”

— “Oxi! Pur dimais, seu!” — AJ passou o casco em sua testa, tirando restos de suor frio que escorria por ela, — “Vixi! I eu pensâno qui ia sê um arranca-rabo qui só entri essas duas, mar saiu mió du qui eu isperava! Tualáiti tava num nervosismo qui sai dêbaxo lá dentru! Pudia até queimar os trasêro di uns dragão di tantu fôgo qui saía di suas venta!” — Applejack jogou o casco bruscamente, ainda olhando para a porta, — “Essa Tualáiti! Di uma hora para ôtra, vira de uma criança nervosa para uma moça jeitosa! Aquêli puxãozinho nas orêia serviu pra árguma coisa, no finar!”

“Nervosismo de Twilight? Puxão na orelha?” — pensou Foreign ao olhar para a porta com uma certa atenção, — “Entendo…” — seu rosto ficou meio sério de repente. O sorriso nervoso em suas bochechas se encolheu para uma expressão lisa. Ele se lembrara; do que havia ocorrido.

— “Ah! Seu Aiê.” — a pônei laranja chamou sua atenção.

Foreign voltou de seus pensamentos e tirou a porta de sua atenção para dar-lhe à Applejack.

— “Hã? Sim?”

— “É cum ela mêrmo.”

Ele ergueu uma sobrancelha, — “Heim? Ela?”

— “Suíííím! Ela mêrmo!”

Foreign olhou para a porta e olhou para Applejack em seguida, tentando juntar as peças. Olhou para a porta mais uma vez e voltou o olhar para a pônei loira.

— “Sobre a aquele evento?” — perguntou ele ao apontar para a porta.

— “Ahãm.” — respondeu AJ.

— “Hã… Em Appleloosa?”

— “Eita, fêrro. Tá difícir girar essas engrenági? Tô lhi dizêno! É ela mêrmo, seu!” — Aj deu uma patada pesada no ombro de Foreign, quase o desequilibrando novamente.

Ele consegue se ajeitar após a patada — “É. Hehe. Fico feliz que encontrei alguém para que possa me esclarecer o que ocorreu naquele evento. Fico muito agradecido, Sinhá Applejack.”

— “I eu fico filiz qui o sinhô vai tê suas resposta em breve. Aproveite seu tempo cum Tualáiti. Ocêis vão si dá bem i muito!”

— “Assim espero…” — fingiu ele, mas fazendo o possível para não soar muito egocêntrico.

— “Agora móvi essis flanco qui eu queru ti apresentá ao resto da manada, Nhô Aiê!” — Applejack foi a primeira a seguir na frente, atravessando a porta da biblioteca.

Foreign Eye se levantou e passou um breve momento encarando a biblioteca. De cima em baixo. A aparência arbórea da estrutura dá a impressão de ela ser pequena, mas sua altura ainda assim não se deixa enganar. É uma árvore bem grande. Foreign abaixou a cabeça e devaneou, olhando para a porta.

Ele pensava naquela potra roxa qual a égua de cabelos loiros o indicou. Ela parece ser inteligente, ao julgar que vive em uma biblioteca. Cercada por informações e ensinamentos. Ele não sabia deduzir a quanto tempo ela vivia naquela árvore, mas isso não era importante. Sua aparência jovem e compenetrada era apreciadora de muitos olhos, mas desses olhos que a encaravam ela não se importava. Olhos não a atraiam, apenas informações; conhecimentos; algo bem mais afundo.

— “Psst!”

Foreign deu uma piscada rápida e encontrou Applejack parada em frente à porta, olhando para ele. Ela tentava segurar uma pequena risada. AJ o encontrou imóvel em frente à porta, parado feito uma estátua, meio que viajando em um lugar bem longe de seus pensamentos. “Faltava cair uma gota de saliva”, pensou ela ao segurar outra risadinha.

O potro de terno sacudiu levemente a cabeça e ajeitou sua crina para trás, tentando manter sua compostura já fragilizada.

A pônei caipira lançou um olhar malicioso para o garanhão civilizado e sacudiu sua cauda ao girar o corpo, para adentrar-se novamente ao recinto. Ela apenas o estava provocando. Ele bufou, deixando escapar uma risada.

Mas ele se perguntava o porquê da Applejack não lhe contar a história de Appleloosa ela mesma. Não seria mais fácil do que apenas jogá-lo em cima de outra pônei para isso?

Ele coçou a nuca. Sentia-se um pouco incomodado com o que aquela égua alaranjada está planejando para ele… Se é que era só para ele.

Foreign deixou esse pensamento de lado. Aquilo não era deveras importante para se gastar tempo tentado descobrir do que se tratava. Não agora. Tinha coisas mais importantes para resolver naquela noite. Foreign ergueu a cabeça e trotou para dentro da biblioteca, seguindo Applejack logo atrás. A porta se fechou num estalo surdo com a fechadura.

A rua estava, finalmente, vazia de pôneis.

Fanfic, Fanfics estrangeiras

Irmão

Título original: Brother

Autor: Martian

Gênero: Slice of Life

Sinopse: Nunca se entregue quando sua família estiver contando com você.

—–

A respiração assoviava por entre os rígidos dentes cerrados, uma nuvem de gelo pairava sob sua cabeça baixa. A crina de Mac estava grudada em seu pescoço, molhada com o gelo derretido e quebradiço do frio. Ele sentia o peso dos cascos como se fossem feitos de chumbo. Cada passo causava dor, uma dor que nunca havia experimentado antes. O jovem pônei vermelho foi andando através da pesada e molhada neve que se estendia até seus joelhos, já nem sabendo mais há quanto tempo caminhava.  Dias talvez, embora tivesse ficado escuro apenas há pouco tempo… ou agora há pouco?

Um outro passo, e a sensação de um prego sendo cravado em seus cascos. A carcaça do trenó sobre seus ombros, muito gelada, rangia enquanto caminhava. Outro passo, puxava com força, mantendo o trenó em movimento. Ignorava a dor e os calafrios. De novo. De novo. Passo. Um casco na frente do outro. Não podia parar. O trenó parecia que pesava 10 toneladas, sentia como se tentasse arrastar um celeiro, uma cidade inteira.

Macintosh segurou firme os arreios para outro impulso, mas não se movia. Ele gemeu e tentou novamente, juntando cada força que conseguia reunir para levantar seu casco congelado alto o suficiente para passar pela neve, mas em vez disso as duas pernas dianteiras dobraram. Em seguida, ele cambaleou e caiu, afundando na neve macia, acolhedora e estranhamente quente…

Big Mac e Applejack passaram, a convite, um tempo na luxuosa casa dos tios Orange em Fillydelphia. Macintosh já esteve lá em outras ocasiões, mas para Applejack foi a primeira vez. As multidões, a agitação e o grande barulho da cidade foi assustador e emocionante: muitas coisas para ver e fazer, e tantos pôneis para ela conhecer. A cidade deixaria uma impressão de excitação e energia em sua jovem mente.

Mas eles precisavam partir. A casa estava chamando e o tempo excepcionalmente quente de janeiro estava chegando ao fim, anunciado pelas nuvens mais escuras começando a se formar no distante horizonte. Se os dois esperassem muito tempo para partir, levaria semanas, talvez meses para que as estradas estivessem limpas e seguras para viajar. Mac estava confiante, porém, logo depois de um café da manhã e boas despedidas, eles já estavam saindo.

O trenó nada mais era do que uma das carroças da fazenda improvisada, com as rodas substituídas por pranchas estreitas e onduladas para deslizar na neve. Sendo uma família pragmática, também colocaram um pequeno telhado de madeira, mas útil para manter Applejack protegida da neve, que ficava no trenó coberta por uma pilha de cobertores e mantas.

Macintosh, mesmo muito jovem, já estava sendo chamado de “Big Mac” por mais da metade dos Ponyville. Ele ficou mais alto do que os pôneis com o dobro da sua idade, graças ao desenvolvimento dos seus músculos durante o trabalho pesado. Ele sempre puxou carroças e arados muito mais pesados do que ele, e na maioria das vezes cheios de maçãs, que aumentava ainda mais o peso. Um trenó que tinha como passageira uma pequena égua que estava na altura do joelho de um gafanhoto, como vovó dizia, não era um desafio para ele, mesmo sendo uma caminhada de meio dia ou doze horas.

A estrada estava cheia de neve marcadas com rastros de outros cascos e carroças que passaram por ela. Estava um pouco escorregadio para caminhar, mas pelo menos as pranchas de trenó deslizavam fácil. Applejack era uma fonte de conversas estridente, falando sobre tudo e qualquer coisa que lhe vinha à mente. Tendo apenas quatro anos, suas conversas não faziam muito sentido e muitas vezes apenas tentava gracejar e blefar para tentar impressionar o irmão com a extensão de sua sabedoria mundana. Paciente, o estóico Macintosh apenas sorria para confortá-la e a deixava continuar.

A estrada acabava através da floresta, com grande parte das árvores quase sem nenhuma folha: troncos esqueléticos agora suplicando ao céu para trazer a primavera de volta. Seus desejos silenciosos, porém, foram zombados: o céu visto através de seus ramos era um branco ondulando que combinava com o terreno nevado, mantendo o calor do sol acima, e o ar frio na superfície pairando abaixo de zero. Estava fácil para Applejack pegar um resfriado, mas Macintosh era atento ao lembrar a potranca de ficar bem debaixo dos cobertores. O frio era um pequeno problema para ele: o trabalho de andar e puxar foi suficiente para aquecer seu corpo de dentro para fora.

Ele já tinha feito meio caminho até sua casa antes da neve começar a cair.

Applejack estava cantando músicas de inverno com sua pequena voz, fazendo o seu melhor para obter cada nota corretamente, ou onde ela achava estar correta. Mas ela esquecia a maioria das palavras com qualquer música que estava tentando cantar. Ela nunca foi uma boa cantora, mas não foi por falta de coração; seu ânimo e bom humor convenceu até Macintosh a cantar uma de suas canções bobas com ela, para sua alegria. Parecia que nenhum dos irmãos realmente podia cantar e quem passava na estrada teria que tapar os ouvidos. No entanto, seus cantos não eram para o público, apenas algo entre irmão mais velho e irmã mais nova.

Ele ainda estava cantarolando a melodia baixinho para si mesmo quando Applejack balbuciava em admiração, vendo os flocos pesados ​de neve ​começando a cair.  Seus olhos verdes estavam arregalados, seguindo a queda do floco até o chão. Ela tentou se esticar para pegar o próximo floco com seu pequeno casco, mas o grande irmão percebeu e avisou gentilmente para se manter sob os cobertores. A respiração de Macintosh estava começando a congelar e ele podia sentir o cheiro do frio começar a se estabelecer no ar. A noite daria início ao inverno, e toda a umidade no ar iria puxar o calor para fora da irmã pouco a pouco, com ou sem cobertores. Os passos constantes do irmão mais velho aumentavam, lançando um olhar cauteloso para cima, observando o céu acinzentado com flocos caindo mais e mais para se juntarem aos primeiros no chão.

Em minutos, o mundo em torno dos dois tinha sido reduzido a um círculo não mais do que 20 passos de distância, e o resto de Equestria engolido pelo branco. Além estava apenas uma parede de neve flutuando com as mais básicas e vislumbres formas, era uma tempestade de neve, ou quase isso: não havia vento aqui, nenhum som, exceto o sussurro das pranchas do trenó deslizando, a respiração de Mac e do trote de seus cascos pisando na neve, tudo soando de alguma forma curiosamente distante e além. Foi uma sorte a estrada passar a maior parte do caminho através da floresta: uma vez tendo árvores dos dois lados, seria difícil se perder ou seguir o caminho errado.

Macintosh se preocupava apenas com o fato de não ter uma idéia real do tempo que esteve caminhando, ou quão perto eles estavam de casa. Não havia pontos de referência, nem sinais na estrada, nada senão a trilha sinuosa, que estava sendo rapidamente coberta de gelo. O trenó era adequado para a neve é claro, mas esse era o tipo de neve, molhada e pegajosa: excelente para fazer bolas de neve, mas grudava facilmente nas pranchas do trenó. Quanto mais profunda a neve ficava, mais difícil era para puxar: Macintosh teve que se esforçar um pouco mais para manter o ritmo.

Ele não desistiu, nem parecia que há muito estava caminhando, com a neve agora nos tornozelos. Ele já estava encharcado: cada floco que tocava sua pele tornava-se uma gota de água gelada, a crina encharcada da cabeça até o pescoço enviava gavinhas rasteiras de água gelada escorrendo para baixo de seus lados. O puxar do trenó o mantinha quente, mas a umidade e a temperatura caindo afastava o calor rapidamente, com o frio rastejando sob sua pele. Ele estava feliz pelo pequeno telhado que protegia AJ: sem ele, os cobertores teriam sido encharcados em segundos junto com ela, e Macintosh nem queria imaginar a irmã ficando doente. Ele olhou para trás, sobre um ombro para se tranquilizar ao observar AJ não fazendo nada errado, e foi um prazer vê-la sabiamente ficar confortavelmente envolto de mantas e cobertores, apenas um pouco do nariz, crina loira e sardenta espreitando, com seus lindos olhos verdes observando a magia de tudo. Applejack nunca tinha visto uma neve assim antes, senão atrás de uma janela bem perto de uma lareira.

Não havia nenhuma maneira de contar o tempo, mas com certeza estava escurecendo e a neve acelerava ainda mais esse processo. Os joelhos, afundando na neve pegajosa e molhada entorpecia seus cascos, o frio no ar era suficiente para derreter o gelo da neve no corpo de Macintosh.  Ele estava ofegante, com ardor nos olhos e os músculos tremendo, doloridos. O ritmo caiu para um rastejamento. Ele não sabia o quão longe estava de casa, até que encontrou o muro ao lado da estrada que marcava o limite da fazenda. Macintosh tinha pensado em abandonar o trenó, colocar AJ nas costas enrolada em seus cobertores e correr para sua propriedade, visando chegar o mais rápido possível, mas a neve ainda estava caindo, ainda muito molhada e gelada; o telhado do trenó era tudo o que a mantinha segura e seca.

Ele pensou em tentar fazer uma fogueira, mas teve que rejeitá-lo: a floresta estava toda molhada, nada iria queimar, e uma nevasca como esta poderia durar dias. Mesmo se eles fizessem um fogo, precisariam de um abrigo adequado e de algum recurso para manter o fogo aceso. Ele tinha que continuar caminhando, teve que se manter em movimento. Macintosh não podia parar…

Até que algo bateu contra sua cabeça. E de novo. Ele se sentia tão quente, como se o mundo inteiro fosse um banho quente, esquecendo-se até da dor. Uma terceira colisão, em seguida, um som. Familiar. Applejack. Provavelmente queria que ele saísse da cama para brincar. Macintosh não gostou muito da idéia: ele estava muito confortável. Tentou levantar um casco, mas não podia movê-lo. A testa de Macintosh franziu em uma careta quando ele tentou mexer. Uma quarta colisão, e esta foi dura o suficiente para deixá-lo meio louco. Ele tomou um fôlego para repreender a irmãzinha e sentir agonia no peito. Seus olhos se abriram.

Neve. Ele estava deitado sobre seu lado, com pesados ​​flocos brancos caindo por todos os lados, no escuro. Esse barulho de estalo: familiar, trêmula, assustada. Big Mac procurou com os olhos e encontrou a fonte, a crina loura e sardas, olhos grandes e redondos preocupados, com lágrimas. Applejack estava na neve ao lado dele caído no chão, com o pequeno corpo tremendo, tremendo, e dois cascos minúsculos em seu ombro, tentando sacudi-lo para acordá-lo. Ela queria que ele se levantasse, suplicando-lhe para se levantar, mas Macintosh só queria voltar a dormir. Ele se sentia tão quente.

A pequena Applejack começou a chorar, tentando empurrá-lo o mais forte que podia enquanto seus olhos começavam a se fechar novamente, implorando-lhe para não deixá-la. Macintosh queria acalmá-la gentilmente, para lhe dizer que só precisava descansar um segundo: uma pausa rápida para obter a sua força de volta. Ele queria dizer a ela que nunca iria deixá-la, mas algo no fundo de sua mente sabia que isso era mentira, que se ele se adormecesse novamente no meio da neve, deixaria sua irmã abandonada no frio.

O choque desse pensamento bateu em Macintosh como uma marreta, dirigindo um ponto incandescente em seu coração. De repente ele foi lutando, atirando os olhos abertos, o fluxo da respiração de seus dentes cerrados em suspiros enormes. Ele queria gritar, queria gritar com cada milímetro do seu ser em rebelião absoluta com aquele pensamento. Ele queria berrar de raiva contra as nuvens, contra a noite; Big Macintosh queria chutar o próprio céu por se atrever a ameaçar sua irmã.

Ele foi para cima novamente, os olhos quente com fúria contra o mundo, de si mesmo. Ele se livrou dos arreios do trenó, tirando as hastes de madeira como se fossem pedaços de lenha. Applejack estava tremendo em seus cascos, agarrando-se apertado, chorando, e o som que ela fazia estava torturando os ouvidos de Mac; o som dela assustada não era nada do que ele queria ouvir, a pior dor que poderia sentir.

Macintosh levou-a, então, para as colchas e cobertores enrolados em suas costas. Ele disse a ela para segurar firme, para ser valente, então se virou e correu pela neve, como um meteoro. Cada músculo de seu corpo gritava que havia vidro moído sob a pele, e sentia as articulações como se estivessem cheias de areia. Macintosh não conseguia sentir nada dos joelhos para baixo, mas isso não iria impedi-lo, nada o impediria agora. A ideia de que ele quase deixou Applejack sozinha deu a ele forças para lutar contra a tempestade. Big Macintosh teria caminhado através das paredes para mantê-la segura. Ele andaria através do fogo. Escalaria montanhas por mais altas que fossem se tivesse que fazê-lo.

Ele nunca abandonaria sua família.

Nunca.

Nunca.

O mundo era um borrão de neve, o tempo não tinha qualquer significado. Mac podia sentir o fardo às costas, os cascos pequenos apegados, o apertando, e isso era tudo o que importava. Seu mundo tinha encolhido para uma linha: havia a estrada à sua frente e o pequeno coração de sua irmã batendo em seu ombro. Nada mais importava.

Doía para respirar, cada suspiro era como respirar pingentes serrilhados. Ele podia sentir o gosto de sangue em sua língua, mas era distante, sem importância.

Havia uma cerca. Uma cerca. Familiar. Próxima, ele sabia que estava perto.

Big Macintosh não se lembrava passando pelo portão, não se lembrava de quem ele era… havia apenas o gelo cortando-o ao osso, os minúsculos batimentos cardíacos, e um pequeno quadrado de luz amarela quente logo à frente.

Luz. Uma janela. Ele tentou gritar, cambaleando para esse farol, a promessa de calor e de segurança para a irmã. Ele só poderia bufar, tentando recuperar o fôlego e não encontrá-lo. Ele estava tão frio…

Macintosh tinha lágrimas congeladas em suas bochechas, e em torno de sua boca aberta. Ele não conseguia sentir nada, o mundo estava se aproximando de um ponto de luz. Suas pernas não queriam ouvir, tudo o que ele podia fazer era ficar de pé. Tentou gritar, tentou gritar por ajuda, mas não podia respirar, não podia se mover…

Brilhante como um sino e mais alto do que qualquer coisa no mundo, Applejack gritou por sua avó. Nem a metade de um segundo depois, a luz inundou a escuridão da noite, uma figura enquadrada na porta aberta, a uns 10 passos de distância.

O alívio tomou conta de Big Macintosh, e no terreno nevado foi ajudado pela avó.

Algo batia contra sua cabeça. E de novo. Ele se sentia tão quente, como se o mundo inteiro fosse um banho quente. Uma terceira colisão, em seguida, um som. Familiar. Applejack. Provavelmente queria que ele saísse da cama para brincar. Mac gostou da idéia. Ele começava a se mexer, mas a agulha afiada de dor levado através de seu corpo o fazia arfar, com os olhos abertos sacudindo.

Ele estava na sala principal da casa, deitado em uma cama improvisada em frente ao fogo. Estava todo machucado, mas o mais importante era a pequena potranca loira com sardas olhando para ele, com seus olhos verdes a uma distância de cerca de meio casco. A intensidade do olhar poderia fazer qualquer outro pônei saltar e se recolher, mas não Big Macintosh. Ignorando a dor, ele levantou um grande casco até a crina da irmã.

Lágrimas brotaram dos olhos de Applejack que se jogou contra o pescoço do irmão em um abraço apertado o suficiente para estrangulá-lo. Ele não se importava. Não se importava de lavar as lágrimas contra sua pele. Ele não se importava com as lágrimas que sentiu molhar as próprias bochechas.

“Irmão!”