Fanfic, Fanfics nacionais

Introspectana

Autor: Bolchen

Gênero: aventura, dark, comédia

Sinopse: 100 anos se passaram após os eventos abordados em MLP:FIM, em uma Equestria decadente e pós-futurista. Introspectana é uma pônei simples que deseja o melhor pro mundo e pra todos. Mas até onde ela irá para conseguir esse mundo que ela tanto quer?

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Comics estrangeiras, Fanfic

As Crônicas de Equestria

Autor: SleepingSpirit

Gênero: Normal; Romance; Relacionamento; Aventura.

Sinopse: Quando o pegasus Starray finalmente aposta uma corrida com a famosa Rainbow Dash, ambos acabam no hospital. Mesmo recebendo alta, Starray não poderá voltar para casa tão cedo devido aos ferimentos e ossos quebrados, e acaba fazendo amizades em Ponyville. Mas seriam algumas delas mais do que isso?

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Crônica 1: Um voo, uma queda (One flew, One fall)

Crônica 2: Para a casa (To home)

Crônica 3: Uma casa distante (A faraway fome)

Crônica 4: Brilhar (Shine) 

Fanfic, Fanfics nacionais

Sem palavras para descrever – Livro II – Cap.03 – Companhia

Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

Capítulo 8 – Amanhã

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

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Equestria — Canterlot — Avenida dos Famosos, 13 de Fevereiro, 17:56.

A noite não poderia estar mais linda do que hoje.

O céu resplandecia os inúmeros vagalumes estelares, camadas grossas e finas de algodão negro cobriam as aparições de algumas delas pois nem todas têm o privilégio de serem observadas a olho-nu por criaturas sonhadoras. Nenhuma ave voava no céu escuro, era difícil enxergar. Criaturas noturnas tomavam o lugar deles nessa abóboda das trevas. Morcegos; corujas; falcões; seres caçadores.

Felizmente nenhuma dessas aparições são vistas em Canterlot. Elas evitam esses lugares por não haver nada de interesse: comida.
O céu de Canterlot não demonstrava ameaças, nem o chão de sua cidade. Apenas pôneis andavam pelas ruas. Eles voltavam de suas jornadas excessivas de trabalho. Os olhares puxados, os rostos duros e sólidos, pernas retas que seguravam o cambalear chamativo. Nem um “boa noite” ou “até amanhã” eram pronunciados, como se fosse errado dizer isso para os outros.

Os passos lentos e graciosos de uma certa pônei cinzenta ecoavam entre outros trotes da rua. A pônei carregava uma enorme caixa protetora de seu contrabaixo em seu lombo, o objeto balançava levemente para os lados, conforme seu flanco flutuava durante seus trotes macios.

Essa pônei olhava para os outros pôneis que andavam junto a ela e para aqueles que andavam contra ela. A chance de dizer “Boa noite” nessas horas era nula, dificilmente respondiam de volta. Tão difícil que suas esperanças de receber uma resposta se esvairaram; era inútil insistir num feedback em uma grande comunidade de pôneis que já se acostumara a não realizá-lo durante um longo tempo de silêncio noturno.

Um pônei vermelho chegava em direção oposta a ela.
— “Boa noite, senhor.” — ela arriscou.

Um grunhido surdo veio dele. E foi sua única resposta. Não importa quantos grunhidos ela recebia, ninguém irá morrer por desejar uma “boa noite”. Talvez se ela tentasse novamente com um pouco mais de ânimo?

Uma unicórnia branca que carregava uma mochila grande em seu lombo estava se aproximando rapidamente. Ela usava magia para flutuar um livro diante de seu rosto, olhos ligeiros corriam pelas linhas, assim como seus trotes corriam pelo chão. Será a presa perfeita?

— “Boa noite, dona!” — acho que foi ânimo demais numa frase.

A unicórnia cambaleou um pouco por causa do leve susto, mas se recuperou e olhou para a pônei cinzenta com um olhar atônico.

— “Opa, oi! Hã… Boa noite, Srta. Octavia! Você me assustou um pouco…” — sua respiração estava meio acelerada, mas ela não demonstrava cansaço.
— “Perdão, dona…” — a pônei cinzenta deixou um espaço em branco em sua voz ao gesticular gentilmente com o casco.
— “Glass.” — ela assentiu rapidamente com a cabeça e olhou para os lados com os olhos, nervosa.
— “Perdão, Dona Glass. Me impolguei um pouco, essa noite está muito quieta… O silêncio me deixa um tanto agoniada.”
— “Que é isso, querida.” — Glass saltitava com seus cascos para cima e para baixo, impacientemente. — “Não precisa se desculpar! Ahm… Com o tempo você se acostuma! Desculpe a pressa, mas preciso resolver alguns esquemas do trabalho.”

Octavia ergueu uma sobrancelha, — “Como assim? Não está indo para sua casa?”

— “Bem, estou, sim… Ahm… Mas, ainda assim, tenho assuntos pendentes que não deu para resolver no trabalho e tenho que tirar o atraso em casa”.
— “Dona Glass…” — Octavia fechou os olhos e abaixou levemente a cabeça. — “Você não tem que se esforçar demais, desse jeito–”

— “Perdão, Srta. Octavia!” — ela a interrompeu. — “Eu realmente ADORARIA falar mais um pouco com a senhorita, mas eu estou com muita pressa mesmo! E quero terminar isso o quanto antes. A…” — ela pensou um pouco, olhando para cima. — “… A gente se vê por aí… algum dia.”
Claro que não iriam. — “Mas, Dona Gla–”
— “AI, MEU DEUS! O QUE É AQUILO?!!” — A únicórneo bradou num tom assustado, levantou seu casco e apontou para algo atrás de Octavia.
Octavia olhou para trás rapidamente. Assustada com o desespero da unicórneo, parecia ser algo sério. Octavia olhou em volta, esqueirando o ambiente com os olhos e com a cabeça. Não havia nada. Só a estrada vazia e o outro lado da rua.

— “Mas heim?” — Octavia virou a cabeça ao encontro de Glass, — “Dona Glass, o quê–?!” — quando se depara com o nada.

Octavia piscou os olhos, assimilando que a unicórneo simplesmente desapareceu enquanto ela olhava para trás. Olhou rapidamente em volta, e viu uma pônei de pelagem branca correndo rua abaixo.

Octavia suspirou, descepcionada e raivozamente.

— “Tudo bem! Eu nem queria conversar mesmo!” — Octavia bradou raivosamente no meio da rua. Os pôneis que estavam por perto trocavam olhares entre eles e ela.

— “Ora, porra…!” — resmungou entre os lábios.

Girou sua cabeça, esvoaçando sua longa crina para o outro lado de seu ombro e trotou em direção a sua casa, irritada.

— “Onde já se viu?! Mas que falta de educação! Largando-me aqui, falando com a poeira e nem para fazer uma despedida educada!” — Octavia deu uma baforada com as narinas.

— “É impossível viver desse jeito, com todos ignorando todos. Mais preocupados com o próprio nariz do que com o bem estar dos outros. Trazendo trabalho para casa é muita irresponsabilidade e falta de vergonha na cara! Assuntos do trabalho tem que ser resolvidos no ambiente de trabalho!”
Seus passos se aceleraram, o contra-baixo em seu lombo balançava no vai-e-vem, vai-e-vem, repetidamente.
— “Ao invés de trabalhar duro e levar a sério a vida, ficam no “bembão”,” — ela sacolejou os ombros ao ritmo da palavra “bembão”. — “com o papo pro ar enquanto há metas e objetivos a serem tomados! Pôneis competentes tem que ser responsáveis naquilo que fazem! Ficar levando trabalho não resolvido para casa ocupa o seu tempo livre, sua disposição para coisas pessoais, como ler aquele livro que você sempre quis ler! Como cuidar do seu animal de estimação! Como se divertir com os amigos! Como participar do crescimento dos seus fil–!”
Ela parou. O breque foi brusco; repentino. Seu contra-baixo, impulsionado pela inércia, inclinou um pouco para frente e voltou para o seu lugar em seguida.
Octavia sentiu a brisa fria da noite percorrer pelas suas costas, como um manto fino de algodão. Ele empurrava sua sombria crina para frente de seu rosto, deslizando pelos seus ombros e pescoço. O abraço que esse sopro da natureza fazia em seu lombo era seco, mas frio; intocável, mas sensível.

As árvores das casas não se mexiam muito, suas folhas mais secas e mais mortas caiam de seus galhos até pelo mais fraco e estúpido sopro. As moribundas folhas já esparramadas pelo chão se arrastavam pelo concreto duro e áspero, arranhando o solo com um som irritante das pontas de suas garras. Os postes ascenderam suas lâmpadas, apagando mortalmente o brilho espacial das estrelas de sua curta vista.

Merda. Aquela sensação voltou. Sensação de solidão, de abandono. Uma falta de um calor equino; um aperto no peito, sufocante. A luz em cima dela não era quente. Era uma luz morta, que só estava ali para existir, não para marcar presença. A escuridão existia por trás dessa luz, só estava oculta. Essa luz moribunda, era o que impedia a passagem das sombras. A cabeça estava pesada, como se pesasse feito chumbo. Ela caia lentamente com o efeito da gravidade, feito um coqueiro que intortava com seu côco de 1 tonelada.
Seu rosto estava coberto com sua crina, que balançava na brisa com anseio, como uma pipa desesperada por uma bolsa de ar que a levantasse daquele mundo surreal.
Os pôneis que passavam por ela apenas a ignoravam. Friamente, um por um, passavam por ela. Sem perguntar nada, nem mesmo olhar para ela. Era como se ela fizesse parte do ambiente, algo que não merecia tamanha atenção, como uma moita com flores murchas ou uma pedra coberta de musgo verde.
Ela permaneceu lá. Parada, com a cabeça relativamente baixa.

Muda.

Imóvel.

Abandonada.

Equestria – Canterlot – Casa da Octavia, 13 de Fevereiro, 17:58.

O mordomo White Glove estava na cozinha preparando o jantar para sua patroa, Srta. Octavia. O fogão estava ligado com uma panela grande cozinhando alguma espécie de sopa. White Glove estava em uma mesa central quadrada, cortando cenouras e pimentões com um cortador mecânico. Ele olhava para o relógio pendurado perto da porta que levava a Sala de Jantar.
— “São 17:58. Ela já deve estar saindo da gravadora.” — White Glove juntou os legumes fatiados em um pote de plástico e o levou até perto da panela com sua boca. Despejou os legumes dentro da sopa e a fechou com a tampa.
— “Pronto. Deixo a sopa esquentando. Vou logo preparar a mesa.”
Num salto para trás, o mordomo foi ao encontro com o carrinho cheio pratos e taças. Ele empurrou o carrinho com o peito, deslocando-o de sua posição até a Sala de Jantar.
A Sala de Jantar não era tão grande, nem mesmo a mesa preenchia o quarto. Para quê ter uma mesa tão grande para apenas um pônei aproveitá-la? A mesa não cabia nem oito pôneis. No máximo cinco: quatro para os lados e um para o centro.

O carrinho parou ao lado. O mordomo colocou a trava de segurança nas rodas e começou a organizar a mesa para sua patroa. Um por um, ele colocou os pratos com fundo, temperos, guardanapos, taças, tudo em seu respectivo lugar e ocupando sua principal função na mesa.
— “Mesa posta. Sopa cozinhando. Tudo nos conformes!” — o mordomo olhou para o relógio: 18:00 pm. — “Ela já deve estar chegando…”

A campaninha tocou. Ele virou a cabeça na direção que veio a melodia, incrédulo.
— “Mas heim? Srta. Octavia tem a chave da casa, não precisaria tocar a campainha…” — White Glove deixou o carrinho de lado e trotou em direção a porta.

— “Mas se não é ela, então quem poderia ser? E ainda a esta hora da noite?”

White Glove passou pela porta que ligava a um curto corredor estreito. A porta de entrada se encontrava no meio dele. Havia alguns vasos de tamanho médio de plantas e as paredes de madeira deixavam um ambiente rústico aos convidados. Mas que convidado é esse por trás dessa porta?

Suspeitando da situação, mas ainda assim ele decide ir ao encontro desse indivíduo. White Glove trotou lentamente para perto da porta. Casco por casco, um atrás do outro, muito cauteloso. Ao aproximar-se, ele ergueu o casco para a maçaneta reta de metal. — “A falta que um olho mágico me faz…” — , pensou ele, tristemente.

Seu casco virou a maçaneta. Num estalo, o mordomo abriu a porta, para encontrar a suposta visita misteriosa daquela noite. Antes que pudesse reagir, o ser o avançou brutalmente para cima dele! White Glove tentou reagir a esse atentado contra sua pessoa, mas acabou sendo atingido por um rápido e imprevisível abraço.

— “Tavy, minha linda! Como é que cê tá, coração?! É sua amigona aqui te dando aquele abraço não-homossexual entre amigas!”
O mordomo cambaleou para trás por causa do impulso do abraço. Ele se recuperou um pouco e começou a reconhecer o convidado. Ou melhor, “a” convidada.
A pônei que estava o abraçando era uma unicórnia branca. Ela usava óculos escuramente roxos, cuja sua utilidade era, até então, desconhecida. Sua crina arrepiada e pontudamente azul com mechas mais claras esfregava no peito do mordomo enquanto o mesmo só esperava ela acabar com toda aquela encenação.
— “Func, func…” — ela sentiu o cheiro do mordomo. — “Esse perfume é muito forte para ser da Tavy… e muito másculo para ser do Whity…”
White Glove rolou os olhos, — “ “Whity”… era só o que me faltava…” — pensou ele.

O mordomo ergueu delicadamente os óculos escuros da unicórnia com o casco.

— “Quem sabe, sem isto, consiga enxergar melhor à noite?”

A unicórnia teve seus óculos escuramente roxos levantados por cima de seu pequeno chifre branco. Ela ergueu bruscamente a cabeça para trás, com as patas em cima do paletó preto do mordomo. Ela o olhou de cima para baixo, como se estivesse escaneando robóticamente seu corpo com seus olhos magenta brilhantes.

Para o azar do mordomo, aqueles olhos ofuscantes brilharam mais ainda e um sorriso se alargou dos lábios daquela unicórneo pálida. Até parecia que o momento saiu de ótimo para melhor do que nunca.

— “Tesudo! Saudade de ti, mordomo lindão!” — ela apertou mais ainda o abraço, que forçou um pouco a saída de ar dos pulmões do mordomo.

— “Ugh! Vinyl, digo… Srta. Scratch,” — White Glove tentava apartar o abraço apertado, implorando por espaço para respirar. — “já pedi para vossa senhorita não me chamar de “Tesudo”…”

— “Mas você é o meu mordomo tesudo favorito! Isso é o que é!” — Vinyl largou o mordomo. O mesmo tomou um pouco de ar, se recompondo.

— “Essa carinha linda não mudou em nada!” — ela esfregou os cascos posteriores nas bochechas do mordomo. — “Sempre jovem, sempre bochechudo. Até parece que você não envelhece nunca!”

White Glove não demonstrou nenhuma reação em seu rosto. Estava mais mudo que um criado-mudo.

Após um longo suspiro para recuperar o fôlego perdido, ele ergueu os cascos e removeu os da Vinyl de suas bochechas, — “Srta. Scratch, não faz nem uma semana que a senhorita visitou Srta. Octavia…”

Ele sentou no chão brevemente e esfregou o paletó que Vinyl sujou com os cascos dela. — “Há dois dias atrás mesmo vocês tomaram um café da manhã no jardim!”

— “Ai! Detalhes, detalhes! Pfft!” — Vinyl sacolejou seu casco esquerdo ligeiramente, ignorando-o. — “O que importa é que senti saudade de vocês…”

Vinyl sentou-se no chão. White Glove ainda limpando seu paletó recém-encardido, deu uma espiada para cima com os olhos. Vinyl, percebendo seu olhar, cruzou sensualmente suas patas posteriores, sendo que uma subia pelo seu braço lentamente, enquanto curvava sua cabeça um pouco para baixo. Aqueles cascos lisos e brancos, a luz da varanda refletia sua cor um tanto que demais, mas seus olhos sanguinários eram o pisca-alerta de sua carroceria; tinham luz própria, o que até assustava.

White Glove via aquela cena toda, mas seu paletó recebia mais carinho e atenção.

Aqueles olhos magenta fixaram no rosto de White Glove, dando lentas piscadas, — “E… decidi visitar Tavy e você…”

White Glove não demonstrou nenhuma reação, — “Ah, é mesmo?”

— “Sim, sim.” — Vinyl acenou suavemente a cabeça, sem tirar os olhos entre-abertos de White Glove, — “Tem problema se eu me adentrar?” — ela perguntou em um tom sensual, ao manipular seu casco em direção a porta atrás dele.

Pode-se dizer que, para uma unicórneo chifruda, suas qualidades corporais não eram de jogar fora ou de fingir estar ignorando. Com aquela pelagem mais branca que a luz; crina mais rebelde que qualquer revista fajuta de potras adolescentes; olhos sangrentos e irresistíveis; pescoço e lombo ornamentais delicados, qualquer um iria cair em suas artimanhas selvagemente atraentes. Esse mordomo era um alvo fácil para essa faminta predadora; ele estava pronto para morder sua isca mortal.

— “Tem problema, sim. Você vai sujar o chão com esses cascos sujos se não limpá-los no carpete.”

Ou, talvez, não tão fácil assim.

Vinyl deu um soquinho leve no peito de White Glove, — “Ai! Tesudo! Deixe de ser mau, bicho chato! Até parece que sou tão casco-frio assim! Oxi!” — ela se levantou do chão e começou a limpar seus cascos no carpete, emburrada.

White Glove se levantou do chão e deu espaço para Vinyl adentrar-se ao resinto — “Isso foi uma afirmação ou uma indagação?”

Vinyl olhou para ele, com as sobrancelhas serradas, — “Ha ha ha. Engraçadinho…” — girou a cabeça e trotou para dentro do corredor, com a cara fechada e lábios apertadamente frustados.

Após a derrotada unicórneo branca adentrar-se no aposento, White Glove fechou a porta aos poucos. Vinyl já estava dentro da Sala de Estar, admirando o ambiente. Cômodo não muito grande, nem muito espaçoso. Os móveis rústicos de cores sóbrias e quadros com paisagens ao crepúsculo e noturnas preenchiam a beleza do local. A mesa pronta não era larga, estava tudo bem organizado e posicionado para um jantar digno de uma pônei.

Uma pônei?

Vinyl percebeu somente agora e atreveu-se a perguntar, — “Ué? Por quê só há um prato na mesa?”

White Glove trotou em disparada para perto do carrinho e começou a colocar um segundo prato para Vinyl, — “Perdão, Srta. Scratch. Não sabia que viria para um jantar com Srta. Octavia e não providenciei um segundo prato para a senhorita.”

Vinyl apertou os olhos, — “Heim? Não, não! Não foi isso que quis dizer! Por quê só tinha um prato nessa mesa para a Tavy? Voc– Hã… ninguém janta com ela?”

O mordomo terminou de colocar o segundo prato e a taça na mesa para Vinyl. Ele pensou um pouco antes de responder, — “Receio que não, Srta. Scratch.”

— “Ué, mas por quê?”

— “Porque sempre foi assim. Não vejo o por quê desse espanto.”

A unicórnia rebelde apertou os lábios, assimilando o que acabou de ouvir de White Glove. Vinyl Scratch era uma das melhores amigas de Octavia. E uma das poucos que eram mais próximas. Ela sentia quando Octavia estava feliz e quando ela não estava. Vinyl visita sua amiga cinza por saber que isso fazia ambas felizes.

Para Vinyl, essa felicidade era duradoura. Ela adorava e muito sua amiga. Só que este era temporário para sua amiga bicromática, por mais que ela ame demais sua pálida companheira rebelde. Vinyl sempre sentia que algo faltava na vida de Octavia. Algo não estava equilibrado por aqui; estava desproporcional.

Vinyl limpou a garganta — “Tá certo então…” — ela se sentou na cadeira já preparada pelo mordomo, — “Se é isso que você realmente diz…” — pensou.

White Glove empurrou a cadeira que Vinyl havia sentado com o peito, aproximando-a da mesa. Vinyl apoiou os cotovelos sobre a mesa, juntou os cascos e pousou os lábios sobre eles, pensativa.

O mordomo chegou ao lado de Vinyl, avisando — “Vou até cozinha preparar um suco de uva tinto para as duas. Quando Srta. Octavia chegar, irei serví-las.”

Vinyl respondeu apenas com um aceno com sua cabeça.

— “Com licença.” — , White Glove virou as costas e partiu-se em direção a sala dos fogões e panelas prateadamente brilhantes.

Discretamente,Vinyl bisbilhotou as costas de White Glove no canto dos olhos. Seu interesse não está em olhar para suas costas e muito menos para vigiá-lo de alguma coisa. Seu real interesse era o abaixar de seus olhos magenta para uma parte “mais chamativa” do que suas costas.

— “Ê, pedaço de mau caminho…” — sussurrou para si mesma, mordendo o próprio lábio de leve. — “A Tavy não sabe a sorte que tem…”

Vinyl deixou de lado seus sonhos fantasiosos e partiu a olhar para o prato com a cadeira vazia ao seu lado, pensativa — “Octavia janta sozinha toda noite… Me pergunto se ela já pensou em arranjar alguém para si…”

Vinyl descançou a bochecha em seu casco, com o cotovelo apoiado na mesa, e suspirou, — “Tsc! Ficar dando uma de atriz romântica de novela dá nisso!”

Ela jogou o casco para o alto, descontraindo. — “Essa secura de chove-não-molha dela, pelo visto, vai loooonge.”

— “ “Secura”, é? Falou o deserto de Appleloosa tal afronta!” — uma voz alta e fina veio por trás de Vinyl, que se sobressalteou da cadeira e olhou bruscamente para trás.
Octavia estava parada lá, olhando maliciosamente para a Vinyl, como se estivesse esperando toda aquela encenação óbvia daquela unicórnia prevísivel com correria, abraços, slowmotion e “saudades!”, “saudades!”, “saudades!”.
Dito e feito. Vinyl na mesma hora saltou-se da cadeira, soltando um ruído alto de madeira arranhando o chão, e pulou para perto de Octavia, cheia de emoção.
— “Tavyzinha! Minha filha! Como é que cê tá, coração?! Que saudades!” — Vinyl abraçou Octavia.

Octavia retribuiu o abraço, colocando um casco nas costas da amiga.

Por via das dúvidas, Vinyl puxou uma pequena mecha da crina longa e escura de sua amiga e deu aquela fungada desesperadora, — “Hum! Esse é o cheiro mofado e cheio de desejo que eu conheço!” — agora ela tinha certeza que abraçou a pônei certa.

Octavia pretendeu dar um tapinha de leve nas costas dela, mas preferiu apenas ignorar, — “Vinyl, até anteontem a gente tomou chá no jardim…”

Vinyl se afastou um pouco, apertando os olhos e sacudindo o casco freneticamente, — “Ai, ai, ai! Detalhes, detalhes, detalhes! Tá que nem o Tesudo lá, se ligando apenas nesses detalhes não-necessários e pouco produtivos!”
Octavia suspirou, — “Vinyl, Sr. Glove já disse que não gosta de ser chamado assim. Ele se sente envergonhado desse jeito…”
— “Pfft! Bobagem, amiga!” — Vinyl pousa o casco no ombro dela, — “Ele simplesmente ADORA ser chamado assim por mim. Né, Tesudo?!”
— “Não!” — respondeu White Glove na cozinha.
Octavia soltou uma risadinha, cobrindo timidamente com o casco. Vinyl, por outro lado, fechou a cara.
— “Bah! Ele não sabe de nada!” — Disse Vinyl, — “Sou eu que tem que nortear esse coitado sempre.”
— “Deixe disso, Vinyl. O que importa é que você tá aqui para me fazer compania no jantar.” — Octavia sentou brevemente no chão, segurou os ombros de Vinyl e distribuiu dois beijos ligeiros nos dois lados das bochechas dela.
— “Blé, blé, blé!” — Vinyl se afastou de Octavia, limpando as bochechas, — “Quéisso, Tavy! Ói… não me leve a mal… mas sabe que não sou esse tipo de pônei que você tá pensando…”
Octavia só a encarava, com um sorriso no rosto e balançando a cabeça.
— “Eu gosto é de “garanhão”, saca? De pôneizudos parrudos e bem-dotados, mesmo!”
Octavia colocou o casco em sua testa e o massageou suavemente, meio constrangida, — “Vinyl, isso foi só um comprimento formal e…”
— “Tá, tá, amiga! Só tô brincando com você! Fique chateada, não… Olhe que eu choro!” — Vinyl apontou o casco para o focinho de Octavia, com um olhar falsamente sério em seus olhos magentosos, — “Olhe que eu choro contigo, e nós duas nos choramos, e ficamos nessa melação que sai de baixo e nhénhénhé!”
Octavia não parava de sorrir desde que chegou. Era isso que Vinyl queria, fazê-la sorrir o tempo todo. Não chegar do trabalho com a cara fechada ou irritada com o dia-a-dia cansativo do trabalho. Isso deixa qualquer um desgastado; cansado; derrotado. Nada como uma boa companhia para compartilhar essa maravilhosa noite. Era isso que Octavia realmente necessitava naquele momento.
— “Senhoritas pomposas…” — declarou-se o mordomo, surgindo do nada, — “A sopa está pronta. Podem tomar seus lugares.”
— “Oba! Sopa! Uhu!” — Vinyl trotou alegremente para sua cadeira ao lado da última cadeira na ponta da mesa.
Octavia veio logo atrás, com trotes mais macios e calmos. Ela não precisava ir com tanta pressa. A comida ainda estava vindo, não vai simplesmente sair correndo pela mesa e suicidar-se pulando a janela.

A pônei  de crina escura se juntou a sua amiga pálida em sua cadeira e esperaram pelo mordomo com sopa preparada.
No mesmo momento, White Glove empurrava o carrinho com o peito para perto das duas. Destampando a panela, um cheiro forte espalhou-se pelo cômodo, deixando Vinyl com água na boca.
Vinyl esfregou os cascos, — “Hummmm, Tesudo do meu coração. Esse cheiro está DI-VI-NO!”
— “Obrigado pelo elogio, Srta. Scratch.” — White Glove assentiu com a cabeça, agradecendo.
— “Deixe de frescura, Tesudo, e me chame de “Vinyl”, oras bolas!”
— “Não, obrigado, Srta. Scratch.”
— “De “Tesuda”, então? Aí formaríamos um casalzinho fofo!” — Vinyl levantou um sorriso.
White Glove ficou em silêncio por uns ligeiros segundos, — “Não, obrigado, Srta. Scratch.”
— “De “Fofucha”?”
— “Não, Srta. Scratch.”
— “De “Bibêlo”?”
— “Não, Srta. Scratch.”
— “De “Poderosa”, então!”
— “Se é para escolher nomes, posso chamá-la de “Matraca”?” — o mordomo sorriu maliciosamente.
— “Tsc! Ah, vá!” — Vinyl levantou bruscamente o casco, praticamente mandando-o “se catar”.
Octavia não se aguentou e riu mais uma vez. Não só da derrota de Vinyl, mas principalmente de quê ela não vai esquecer nunca esse nome.

White Glove despejou, com uma concha segurada pela sua boca, a sopa nos pratos das duas senhoritas. Primeiro, no prato de Srta. Octavia. Ela agradeceu ao mordomo e ele respondeu com um aceno com a cabeça. Depois, encheu o prato de Srta. Scratch. Vinyl fez um som agudo de beijo com os lábios. White Glove ergueu uma sobrancelha e agradeceu com um aceno com a cabeça.

O mordomo descançou a concha dentro da panela e a fechou com a tampa, — “Bom apetite, as duas. Se me derem licença, irei deixá-las a sós para apreciarem o jantar.”
White Glove virou o corpo contra as duas, ele tinha a certeza de quê seu serviço como mordomo naquele momento estinguiu-se. Quando deu os primeiros passos em direção a cozinha, passagem para o seu quarto, uma pergunta inesperada veio por trás dele, — “White… por quê não vem jantar com a gente?”

O mordomo parou por um instante. Octavia olhou para Vinyl e, de relance, olhou para o pônei imóvel. Ela percebeu que ele havia ficado imóvel diante da pergunta.
Ele não queria intrometer-se no meio de um jantar entre amigas e amigos de Srta. Octavia. Era uma coisa pessoal, íntima de sua patroa. De alguma forma, ele se sentiu meio desconfortável com a pergunta e confuso no quê responder a essa dúvida.

Ele tem que rejeitar. Um jantar entre amigos é um jantar entre amigos. White Glove sabia que deveria rejeitar, afinal, ele é o mordomo. Seu trabalho é satisfazer as vontades de sua patroa sem intrometer-se em sua vida pessoal. Mas uma pergunta que ele nunca havia pensado antes atravessou sua cabeça: Ele deve aceitar?

— “Como assim? Por quê isso é uma opção?” — pensou White Glove, confuso por essa idéia, simplesmente, brotar em sua mente.

— “Não, isso é um jantar entre amigos da Srta. Octavia. Sou o seu mordomo, não devo intrometer-me.”

— “White?” — ele sabia que a pergunta não vinha de sua patroa; vinha da visita.

Ele não entendia; pela primeira vez, ele escutou de Vinyl seu nome sendo pronunciado corretamente de seus lábios pálidos. Por quê ela escolheu essa situação para chamá-lo pelo seu nome? Será uma apelação sentimental para tentar manipulá-lo? Ou será que ela estava sendo sincera no que estava propondo?

Há algo de estranho nessa jogada dela; e ela estava ainda esperando pela resposta.

White Glove suavemente virou a cabeça para o lado, olhando levemente para baixo, contra as duas senhoritas. Ele mexeu os lábios para pronunciar-se quando foi interrompido.

— “Vinyl, Sr. Glove está cansado, foi um dia longo para ele.” — Era a Srta. Octavia, pousando o casco sobre o da Vinyl, — “Vamos deixá-lo ir descançar…”

— “Mas isso é só um jantar, oras!” — ela virou-se para Octavia. — “Que mal há nisso?”

— “Vinyl, “ — A voz de Octavia ficou mais dura. — “deixe-o em paz.”

Vinyl olhou séria para Octavia, com uma sobrancelha em pé. Deveria acatar ou tentar forçar? A unicórnia pálida de crina rebelde era apenas a visita, não tinha nenhum poder especial dentro de um teto que não lhe pertence. Ela decide apenas encostar-se na cadeira lentamente, em silêncio, sentindo-se derrotada mais uma vez.

Octavia retirou seu casco sobre a de Vinyl e virou-se para o mordomo, — “Desculpe-me pelo comportamento de minha amiga Vinyl, Sr. Glove. Já pode ir.”

Houve um breve momento sem respostas. O mordomo parecia em transe.

Finalmente, White Glove assentiu com a cabeça, demonstrando-se compreensivo e tomou seu rumo em direção a cozinha. Vinyl apenas ficou olhando para White Glove trotando no meio da cozinha até seu quarto no outro cômodo.

Ela esperou ouvir o clique da porta de seu quarto.

*Clique*

— “Tavy!” — Vinyl foi a primeira a falar, sobressaltando do encosto da cadeira e sussurando para a Octavia, — “O quê foi isso? Por quê não o deixou jantar com a gente?”

— “ “O quê foi isso” pergunto eu!” — mesmo sussurrando, a voz de Octavia permaneceu dura. — “Sr. Glove teve um longo dia e merecia um descanço! Você fica incomodando-o para jantar conosco mesmo sabendo que ele não queria!”

— “Ele não queria ou você não queria?”

Octavia não gostou da intonação de Vinyl nesses dois pronomes. Octavia não esboçou nenhuma reação, mas seu tom demonstrava sua irritação — “Onde quer chegar com isso?”

— “Tavy, eu sou sua amiga.” — Vinyl pousou os cascos sobre o peito, demonstrando sensata, — “Sei o que se passa por aqui…”

— “Sabe, é?” — perguntou Octavia num tom sarcástico, desafiando-a.

— “O suficiente, posso dizer…” — Vinyl olhou nos olhos de Octavia, — “Como amiga, adoro passar meus momentos com você.”

Vinyl descançou o casco sobre o da Octavia, — “Como amiga, eu tento fazê-la se sentir a pônei mais feliz do mundo. Mas eu não convivo o tempo todo com você. Está além de meus limites!”

— “Então, por quê nem vem morar aqui comigo? Temos um quarto de hóspedes sobrando e–”

— “Tavy, pelo amor de Cadence! Eu sou um ser livre! — Vinyl ergueu os cascos um pouco para o alto, até a altura de seu rosto, e, num abre e fecha com eles, sinalizou um “entre aspas” nas palavras selecionadas, — “ “Livre” no sentido de “selvagem”!”

Vinyl juntou os cascos e começou argumentar as consequências que haveria ela como colega de casa com Octavia, — “Sou uma desleixada dos infernos! Minhas roupas ficarim jogadas pra tudo quanto é lado. Meu quarto seria pior do que a sala em fator de bagunça. Eu ia encher os seus ouvidos com as “reverberações” da minha mesa de Dj… Menina!” — Ela pertou os olhos com o casco esquerdo na testa. — “Você iria se suicidar se morasse tu mais eu!”

Octavia riu um pouco, — “Mas ainda assim, não entendo o que isso tem haver com Sr. Glove e do por quê a insistência de incluí-lo nesses assuntos…” — ela parou um pouco para refletir, — “… Por acaso… Vinyl, minha querida amiga…”

Vinyl estranhou a fala mansa de Octavia e a encarou de cima em baixo, — “Quié…?”

Octavia descançou novamente o casco sobre o da Vinyl, inclinou-se para perto de sua amiga, e lançou-a uma pergunta que ela nunca esperarava em escutar de Octavia; até aquela noite:”Vinyl Scratch… Você está apaixonada pelo Sr. Glove?”

Vinyl, na mesma hora, ergueu os cascos pro alto, jogando o da Octavia um tanto pra longe, — “É o quê?! Vira essa boca para lá, Discord! Por Celestia e seus guardiões celestiais, até parece!” — essa pergunta até a fez arrepiar a espinha. — “Arre! Vê se eu tenho cara para ficar andando por aí de casco dado com um bicho desses?!”

Octavia juntou os cascos, olhou para Vinyl com uma sobrancelha erguida e um sorriso incrédulo em sua boca. Seu rosto transmitia “Sério mesmo que tenho que responder isso?”.

Vinyl bufou com o nariz, — “Tá bom, tenho cara, sim. Mas, não, Tavy! Não tenho nada com esse bom cidadão aí!”

— “Aham… me engane que eu gosto…”

— “Sim, não tenho mesmo! Apesar daquele corpo duro de garanhão, pernas tunadas, cascos sólidos… e… pescoço carnudo… e aquele flanco ambulante…” — Vinyl apertou os lábios e soltou um suspiro de desejo.

Vinyl Scratch admirava White Glove por sua incrível paciência e por, principalmente, não cair facilmente pelos seus truques maliciosos como outros pôneis futilmente caíam. Ficar olhando não tira pedaço, ela sempre dizia.

Queria ela conviver com alguém com um porte físico como o de White Glove. — “Eu ia morder aquele “corpitcho” esbelto feito chiclete! Há!” — E ela sabia que White Glove não sentia nada por ela, muito menos demonstrou isso. Aliás, ele fazia questão de deixar claro que ele não queria nada com ela.

Ele a respeitava como melhor amiga de Octavia, e ela o respeitava como um ser digno para alguém muito melhor do que ela mesma. E Vinyl sabia muito bem quem iria ser melhor do que ela para ele…

Octavia rolou os olhos enquanto Vinyl se deliciava em sua imaginação.

Vinyl percebeu seu devaneio e se recompôs na cadeira — “… M-mas não tenho nada com ele. Não, ele simplesmente não faz o meu tipo. É pouco feijão e arroz pra essa mulinha aqui carregar!” — Vinyl jogou a crina para o alto, com o focinho avantajado.
— “Haha! Claro, claro…”
Vinyl achou meio precipitado, mas ela decidiu aproveitar da situação atual e arriscou-se começar um assunto anterior que ela teve com White Glove… só que, agora, com a vítima das noites solitárias.

— “Mas quando cheguei aqui hoje… o Tesudo tava preparando a mesa e vi que só havia um prato na mesa…” — Vinyl olhou para Octavia. — “Tavy…”
Octavia apoiou os cotovelos sobre a mesa e tampou os olhos com seus cascos, um pouco envergonhada, — “Mil perdões, Vinyl… Não sabia que você iria me visitar hoje. O Sr. Glove mesmo não pensava em colocar um segundo prato para–”
— “Mas é isso mesmo que me veio a cabeça…”

Vinyl se sobressaltou um pouco ao lembrar da sopa a sua frente com a palavra “prato” — “Eita, é mesmo! A sopa!” — pensou ela.

Ela assoprou um pouco e tomou um gole da sopa. Sua língua ao tocar o caudo da sopa, começou a dançar dentro de sua boca. Viny fechou os olhos e lambeu os beiços, apreciando o gosto. Estava deliciosa, fazia tempos que ela não tomava uma sopa tão gostosa e cremosa como aquela. Mas ela não podia desviar o assunto.

Vinyl se recompôs e continou o assunto — “… e–” — limpou a garganta, — “… queria te perguntar uma coisa, se não for muito inconveniente para você.”

Octavia tomou um gole da sopa e limpou o beiço com um guardanapo em seu casco, — “Não, não, Vinyl. Pode perguntar sem problemas.”
— “Então…” — Vinyl inclinou lentamente para mais perto da Octavia. Num tom sério, ela perguntou — “Por acaso, quando eu não estou, você janta sozinha?”
Octavia tentou assimilar a pergunta, mas não sabia o quê responder, — “N-não entendi sua pergunta, Vinyl. Poderia ser mais clara?”
— “Se havia apenas um prato na mesa, foi porque nenhum de vocês dois sabiam que eu estava vindo. Mas se eu não tivesse vindo, só teria um prato na mesa mesmo assim.”
Octavia acompanhou o raciocínio de sua amiga, mas não entendia a onde ela queria chegar com aquilo. — “E…?” — foi o que ela pôde soltar como pergunta.

— “Se havia apenas um prato na mesa, é porque você janta sozinha toda noite. Por quê você janta sozinha, Tavy? O Tesudo não faz companhia para você?”

Octavia admitia que Vinyl não era uma pônei tapada qualquer. Vinyl observava detalhes mais minuciosos e assimilava-os de uma forma incrível. Se sua paixão não fosse a sua carreira de DJ, ela seria uma tremenda de uma detetive. Ia pôr ladrões de doces e bolos no xilindró feito um cardume de peixes pêgos em uma rede de pesca.

A principal pergunta a pegou de jeito. Ultimamente ela não tem se dado conta em conhecer garanhões, nem mesmo em construir um relacionamento mais íntimo com eles. Sua vida corriqueira como Musicista e tantas idas-e-voltas na Gravadora e dos eventos formais ou importantes a fez meio que independente de ter alguém ao seu lado para acompanhá-la a qualquer canto.
Ela também tinha coisas mais importantes para tratar em sua vida pessoal que, esse problema, a impedia de ter relacionamentos sérios com pôneis; um problema um tanto… desconfortável.

Mas a última pergunta não fazia sentido para Octavia. Sr. Glove era seu mordomo, não havia motivos nus e crus para que ele jantasse em companhia a ela. Octavia não gostava do assunto que ia levar para o benefício de Vinyl; ela decidiu ficar na defensiva.

Octavia afastou-se de Vinyl e rolou os olhos diante da última pergunta, — “Ai, Vinyl. De novo essa história de incluir o Sr. Glove em tudo quanto é assunto? O que é que você tem com ele? Você não está mesmo apaixonada por ele?!”

— “Amiga, Tesudo e eu somos que nem água e óleo.” — Vinyl ergueu os dois cascos e os deixou perto um do outro. — “Nós, simplesmente, não combinamos! E, quando eu estou quente e ele decide juntar-se a mim,” — Vinyl junta os cascos, fazendo um som oco fechado. — “dá em merda. Me entende?”

Octavia não sabia se ria ou se ficava séria com aquele exemplo de Vinyl, mas ele decidiu permanecer neutra, — “Então por quê–”
— “Mas e quanto a você, Tavy?” — Vinyl a interrompeu de forma brusca. Ela aproximou-se de Octavia, apoiando-se sobre a mesa e a encarando ameaçadoramente de frente, — “Você tem alguma coisa com ele?”

Octavia ficou com uma postura reta na cadeira. Ela não esperava esse tipo de pergunta que Vinyl a propôs. E, também, nunca havia passado esse tipo de pensamento em sua cabeça. Não havia motivos; nunca houve. Octavia já começou a ficar irritada com essas acusações sem anexo sobre ela e seu mordomo. Vinyl não tinha autoridade nenhuma em questioná-la desse jeito em sua própria casa. Mas, ao mesmo tempo, Octavia não queria demonstrar-se dura com sua amiga. Desde que ela chegou, tudo o que Vinyl tinha feito foi fazê-la sorrir e rir de suas traquinagens.

E ela conseguia, com muito êxitos. Seria anti-diplomático e grosseria de sua parte comportar-se feito uma idiota com sua melhor amiga que apenas queria o seu bem.

Octavia decide não se aprofundar nesses pensamentos mundanos e, para não deixar sua amiga, que a encarava irritantemente, esperando, resolveu responder para Vinyl:

— “Se há alguma coisa entre nós, Vinyl, é apenas respeito mútuo. Ele é meu mordomo e eu sou sua patroa. Ele me respeita como tal, então devo respeitá-lo de tal forma.”
— “Então você só o vê como um mero mordomo, não é?” — Vinyl ergueu uma sobrancelha para Octavia, em um tom afiado e ameaçador.
— “Você fala como se isso fosse uma coisa despônei#… errada.” — Octavia tomou um outro gole da sopa, segurando o prato com os dois cascos.
— “Errado não digo… só injusto.” — Vinyl tomou um gole ligeiro da sopa.

Octavia bateu o prato de metal sobre a mesa de madeira e olhou ferozmente para Vinyl. Um som meio oco não preencheu o cômodo, mas não era ignorável.

Octavia fechou os olhos e suspirou, irritada. Ela aproximou-se de Vinyl e alertou-a num tom sério, — “Se você ainda quer jantar nessa casa, mude de assunto, Vinyl. Já deu por hoje.”

Octavia apontou o casco para Vinyl, a mesma olhada para ela de volta, — “Não há e não haverá nada do que você pensa entre nós. Ele tem sua função de ser meu mordomo, como eu tenho de ser sua patroa. Acabou esse assunto.”

— “Tá bom, tá bom, então. Se é assim que você prefere…” — Vinyl ergueu os cascos para altura dos ombros, uma expressão corporal de que estava desarmada e não apresentava mais ameaças.

— “Obrigada.” — Octavia retornou ao seu lugar e puxou seu prato para tomar um outro gole da sopa.

Vinyl se aproximou de sua sopa e sussurrou, — “Mas não por muito tempo…”

Octavia limpou o beiço com o guardanapo e virou o rosto para Vinyl, — “Como disse?”
— “Disse que faltava um tempero. Um salzinho. Poderia me passar o sal, Tavy?” — o disfarce saiu perfeito.
Octavia empurrou o sal para Vinyl, apesar de desconfiar um pouco dela.

As duas amigas continuaram o jantar em silêncio por um tempo. Ambas se sentiam um pouco arrependidas por terem chegado a tons ameaçadores e gestos agressivos uma com a outra.

Mas Vinyl, sempre tagarela, odiava o silêncio no ambiente mais que sua amiga, Octavia, e já começou a puxar outros assuntos para conversarem. Conversa a fora, risafas a parte. Isso é bom. Muito bom.

Companhia é sempre bom para as noites mais solitárias de Equestria. Octavia irá descobrir isso muito em breve. Não importa como.