Sem palavras para descrever – Livro III – Cap.1 – Ausência

Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

Capítulo 8 – Amanhã

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

——

Equestria — Canterlot, 13 de Fevereiro.

Duas horas horas atrás, antes da reunião na Biblioteca…

O Sol abaixava sua altitude conforme passavam os minutos de seu tempo. As sombras das montanhas e das árvores aumentavam seu tamanho e volume sobre a planície terrena. O brilho quente que antes iluminava os cantos mais escuros de Equestria estava agora se apagando, oferecendo seu lugar a fria escuridão da noite.

Um grandioso castelo se pendurava na encosta de uma montanha, assistindo as luzes se desfazerem diante de suas janelas. Do altar mais alto do magnífico castelo, dois seres majestosos encaravam o Sol recuando-se para o outro lado das montanhas. Um brilho pálido esbanjava da testa de um deles, enquanto o outro expandia uma cor negra-azulada. Os dois seres se encontravam um ao lado do outro, de olhos fechados, inteiramente focados no que estavam fazendo.

O Sol deixou os céus, a Lua tomou já o seu lugar. O brilho amarelado não existe mais naquele momento. Foi tomado pela luz branca do luar.

Os brilhos em suas testas cessaram. Os dois seres soltaram um longo suspiro.

— “Minha cara irmã,” — indagou um deles, revelando uma voz doce e suave — “Sentimo-nos muito honradas em, novamente, retomarmos a nossa tarefa em revezar o dia e a noite de Equestria.”

A unicórnia escura mais jovem falou com a unicórnio adulta de pelagem pálida como a neve ao seu lado. A crina ondulada da unicórnia mais velha tinha as cores rosa, verde e azul-claros, que reluziam um leve brilho mesmo estando noite. Apesar de não ventar naquele altar, sua crina balançava harmonicamente, como se tivesse vontade própria. Ela sorriu para a unicórnio de pelagem azul-escura, ao seu lado.

— “Também estou feliz que você esteja mais uma vez ao meu lado, querida Luna. E que você está quase se adaptando a Nova Era de hoje.”

A unicórnia fechou a cara e abriu suas asas, revelando que não era exatamente um unicórnio; mas sim, uma alicórnio.

— “O que queres dizer com isso, cara irmã? Tu crês que ainda não estejamos adaptadas o suficiente a essa Nova Era?! O quê mais precisamos aprender sobre ela?!”

A unicórnio branca soltou uma risadinha e, de repente, abre um pouco sua asa esquerda, alisando suavemente a bochecha de Luna, que agora abaixou suas asas. A unicórnio pálida, também, era uma alicórneo.

— “Ah, minha querida irmãzinha. Não se preocupe com isso. Muito tempo ainda terá pela frente para se adaptar. Agora que terminamos, entremos para conversamos mais a respeito.”

A alicórneo pálida ergueu-se do chão, suas asas abriram para uma relaxante esticada. Um suspiro reconfortante e ela se virou, entrando no castelo. Luna fez o mesmo e a seguiu em seguida, com passos mais ligeiros.

O quarto em que elas adentraram era o quarto particular da alicórneo branca. Era espaçoso e cheios de lembranças. Pergaminhos guardados, estatuetas e bustos dos mais importantes cidadãos de Equestria, sejam de agora ou de há muito tempo, retratos e bordados pendurados ou encostados nas paredes do cômodo. Um enorme carpete circular se encontrava no centro do quarto, com um desenho grande de uma estrela. A cama estava num canto, entre dois criados-mudos. A lareira ficava mais para o lado direito da cama, com muitas almofadas em frente ao mesmo. Sua mesa de trabalho, a escrivaninha, ficava perto de uma janela, onde podia ver pequenos vilarejos por ela.

A alicórneo branca andava e falava a frente de Luna. A mesma só escutava.

— “Nessa Nova Era, Luna, nossa cultura mudou muito enquanto você esteve… ausente.”

Luna suspirou, — “Sim, irmã. Nós entendemos.” — e sentou no carpete no meio da sala.

A alicórneo branca caminhou até uma escrivaninha. Com um brilho em seu chifre, abriu a primeira gaveta e tirou dela vários pergaminhos abertos, colocando-os em cima da mesa.

— “E com isso, muitos dos nossos cidadãos já nos deixaram com o passar das décadas, mas outros tomaram os seus lugares, como seus descendentes. E com esses descendentes, surgiam mentes maravilhosas e criativas, com novos olhares e novos sentimentos. Essas mentes moldaram a cultura e a tradição da antiga geração que desenvolveu-se para o que é hoje.”

Luna movimentava sutilmente os olhos para os lados, tentando assimilar o que sua irmã mais velha havia lhe dito.

— “Mas, cara irmã, para onde os nossos antigos cidadãos foram? Por que não ficaram com esses “descendentes” que tu falas?”

A alicórneo branca levitou o pote de tinta para perto de si, já abrindo a tampa. Ela sabia que, agora, teria que tomar cuidado com o que fala para não ferir os sentimentos de sua irmã mais nova.

— “Eles ficaram bastante tempo com seus descentes, querida Luna. Tinham que ensinar à esses descentes o que o mundo espera deles e o que eles teriam de fazer para enfrentá-lo. Foram anos de aprendizagem até que eles finalmente adquiriram idade e amadurecimento para cuidarem de si mesmos. É nesse momento em que eles recebem o seu descanso eterno, pois cumpriram sua missão de vida. Oferecendo amor, compreensão e ensinamentos à eles.”

Luna ergueu uma sobrancelha, — “ ‘Descanso’? Eles se aposentaram?”

A alicórneo branca levitou uma pena e mergulhou a ponta algumas vezes no pote de tinta. Com uma única frase, ela resumiu tudo o que disse.

— “Eles faleceram, Luna.”

Luna, finalmente, entendeu o que sua irmã estava tentando dizer. A alicórneo branca não queria responder dessa maneira e tentava explicar com palavras mais suaves, mas acabava usando expressões complicadas demais para Luna.

As orelhas de Luna abaixaram levemente, acompanhando um triste suspiro.

— “Per… Perdoe-nos, querida irmã.” — Luna fez uma pausa, — “Fomos muito infantis por não enxergarmos algo tão óbvio…”

Luna ainda se lembra dos seus antigos cidadãos quando ela ainda morava em Equestria ao lado de sua irmã. Tantos rostos, tantos pôneis, tantas criaturas… que agora não existem mais. Um milênio havia se passado, ela já começara a raciocinar quantas gerações de pôneis e criaturas haviam passado perante sua “ausência”.

A alicórneo branca virou a cabeça para a Luna, ela estava de cabeça já baixa.

Ela suspirou, — “Tentei ser mais gentil, Luna… De verdade.”.

— “Não se culpe, Luna. Lembre-se de que eles tiveram ótimos momentos e de que valeu a pena de passar tudo o que aprenderam para seus familiares mais jovens e inexperientes. Eles viveram bem suas vidas enquanto puderam.” — ela tomou um último fôlego. — “Eles foram felizes. E, agora, estão recompensados.”

Luna se sentia triste e com raiva por ter feito falta em seu reino por um milênio inteiro e não ter acompanhado seu desenvolvimento. Apesar de estar a maior parte do tempo ao lado de sua queridíssima irmã, Luna gostava de se separar dela por um momento para aprender o cotidiano deles. A cultura; a sociedade; e a lidar com seus súditos em seu reino.

Ela conhecia pôneis jovens, jovens sonhadores e cheios de energia quando ela estava presente. Como também conhecia os mais velhos, calmos e sábios. A balanço que havia entre esses jovens e velhos era o que mais Luna apreciava em acompanhar. O mais velho, o sábio, sempre ensinando ao mais jovem tudo o que sabe e o que aprendeu em sua vida como pônei. O mais jovem, sempre questionando os mais velhos e enxergando o mundo de uma forma que o mais velho achava uma tolice ou surreal.

E por mil anos, ela ficou ausente disso. E não pôde se despedir dos que já foram e nem pôde cumprimentar os que já haviam chegado. Muitas gerações se foram e tantas outras apareceram. E, por mil anos, ela não estava lá.

Luna ergueu a cabeça bruscamente e se levantou-se do chão, numa posição ameaçadora para cima de sua irmã mais velha. Seus olhos já estavam molhados e suas sobrancelhas cerradas. Sua emoção era bem visível e difícil de se ignorar.

— “ ‘Recompensados’ ?!” — sua voz ficou grave e estridente, muito diferente da anterior. Esta estremecia a sala e emanava uma rajada de vento forte enquanto pronunciava — “O que há de recompensa nisso, irmã?! Desde quando a morte é a recompensa da vida?! Nós não entendemos tua lógica! Como podes dizer e pensar que nossos antigos cidadãos estavam felizes com suas mortes?! Por acaso, tu vistes se eles estavam sorrindo quando suas vidas se esvairaram de seus corpos?!”

“Princesa Luna!”

A voz da alicórneo branco sobrepujou a de Luna, sendo mais grave e poderosa. Tão forte que estremeceu o quarto inteiro, deixando cair alguns quadros e enfeites de seus lugares. Nem mesmo Luna pôde combater contra o grande tremor provocado pela voz poderosíssima de sua irmã mais velha: ela se desiquilibrou e foi forçada a sentar-se novamente no chão.

Luna ficou quieta; muda. Ela se congelou com a reação de sua irmã.

A alicórneo branca estava de costas para a alicórneo escura. Infelizmente, Luna não podia ver o rosto de sua irmã mais velha. Ela não sabia se sua irmã estava com raiva ou se estava ofendida com suas palavras, mas ao ouvir o fungar de seu nariz, denunciou sua emoção.

Ela estava chorando.

Não…

Segurando o choro.

A alicórneo branca tomou um longo suspiro ao erguer levemente a cabeça e controlou sua intonação antes de começar um novo discurso.

Ela fechou os olhos e soltou o ar dos pulmões, — “O que eu quis dizer, Luna, foi que nossos antigos cidadãos estavam felizes por saberem que seus descendentes vão viver em seu nome. Com os ensinamentos que eles aprenderam, com os conselhos que obtiveram de seus parentes mais velhos. Eles sabiam que seus descendentes viverão suas vidas com coragem e determinação, sem ter o medo de falhar, enfrentando seus obstáculos que encontrarão adiante.” — sua respiração ficou mais calma e menos nervosa, — “Estavam felizes por acreditar que seus descendentes viverão suas vidas e ensinarão a próxima geração o que ela espera. Sentiram o dever cumprido.”

Luna abaixou a cabeça mais uma vez, ressentindo de sua reação ainda infantil perante a situação. Uma verdadeira princesa não deveria demonstrar tanto sentimentalismo dramático. Uma princesa deve estar imponente, confiante e impenetrável. Um único momento de fraqueza, como essa demonstração de raiva de Luna, a revelaria como um ser demolível, frágil. Bastava uma emoção, seja de raiva, de tristeza, ou de medo, e tudo desabava.

— “Mil perdões, irmã. Sentimos muito por distorcer tuas sinceras palavras. Mas…”

— “De novo, não se culpe, Luna.” — a alicórneo fez brilhar mais uma vez seu chifre, levitando a pena enquanto escrevia num pergaminho — “Eu sei que você está sentindo falta de nossos antigos cidadãos e que você esperava encontrá-los ainda aqui entre nós mas… Sinto muito.”

Luna suspirou, com olhos focados no chão.

A carta foi terminada. A alicórneo branca iluminou seu chifre um pouco mais e a carta desapareceu.

— “Mas você verá que os cidadãos dessa Nova Era não são tão diferentes.” — ela virou a cabeça para Luna, que olhava tristemente para o tapete qual estava sentava, —  “Você viu os sorrisos em seus rostos quando souberam que você retornou para o nosso reino.”

Luna se lembrava. E muito bem desse dia.

Princesa Luna mergulhou em seus pensamentos, a procura de memórias armazenadas em sua mente. Aquele dia; aquele evento que ocorreu meses atrás, de fato, se tornou algo muito precioso para ela, reservado em um lugar especial, não na sua cabeça; mas no seu coração.

Em Ponyville, uma pacata vila do interior, que antes a havia rejeitado por sua aparência medonha e atitude malígna de Nightmare Moon, abriu seus braços para o seu retorno ao trono como Princesa Luna, a irmã mais nova de Princesa Celestia, no reino de Equestria.

Houve canções, músicas, dança e muitas brincadeiras naquele dia. As risadas e a alegria eram de preencher buracos dos mais perfurados corações. Foram coisas que ela não tinha visto à mil anos e que aquilo a fez matar a saudade.

Ao entardecer daquele dia, Luna retomou sua antiga tarefa de erguer a Lua e escurecer o céu de Equestria. Mas ela teve um medo inicial de que seus súditos novamente rejeitariam sua bela obra estrelada, como sempre fizeram; mesmo depois de mil anos passados. Ainda assim, Luna desfez o dia e obscureceu seu reino, dando boas vindas à noite.

Um suspiro decepcionante e um pensamento negativo pairou em Luna, — “Não importa das mais belas noites, das mais brilhantes estrelas, da mais ofuscante Lua que nós fazemos… Nunca iremos receber o mesmo amor que desejávamos receber desde… desde–” — uma lágrima quase escorreu de seus olhos, essa nascente odiada e recheada de rejeição escorria pelo seu rosto azul-sombrio.

Mas não. Vozes abafadas em conjunto podiam ser ouvidas de sacada de seu quarto. Luna ergueu sua cabeça bruscamente e olhou em volta, tentando localizar de onde vinham a fonte desses seres sussurrantes.

— “Hã? Há cidadãos em perigo? Como isso é possível?!” — , Luna enxugou as lágrimas e levantou-se do chão, com suas asas abertas. Algo estava errado e diferente naquela noite. — “Guardas! Guardas!” — ela exclamou.

Dois guardas terrestres com uma vestimenta escura, nervosos, saíram do quarto da Princesa para a sacada onde ela estava. As cores roxo e azul escuro de suas armaduras brilhavam suavemente por causa da luz do luar.

— “Princesa! O quê houve?!” — perguntou um dos guardas noturnos, com os olhos correndo pela sacada.

— “Escutai vós esses sons!” — A Princesa ergueu o casco para o horizonte, olhando fixamente para os guardas. — “Queremos que descubram qual e onde é a fonte desses ruídos! São sons que nunca ouvimos antes! Queremos tua real revelação!”

Os dois guardas olharam em volta, com as orelhas abanando para todos os lados. Eles tentavam ouvir qualquer ruído ou som que a Princesa está indicando para eles.

— “Princesa…” — começou o outro guarda, já olhando para ela, — “Que ruído é esse que Vossa Majestade fala?”

O segundo guarda a sua direita deu uma cotovelada no peito de seu companheiro. — “Ai!”

— “Como assim?” — Luna demonstrou-se preocupada. — “Vós não escutais?”

Luna podia ainda ouvir esses sussurros pelos seus ouvidos. Soavam como um vento rápido minuano. Ela olhava para o horizonte de sua sacada, com as orelhas em pé e atentas aos sons. Os guardas se entreolharam, confusos.

Eram vozes que ela nunca ouvira durante suas noites de escuridão. Eram macias; meio silenciosas, mas calorosas.

— “Temos que descobrir de onde vêm esses sons e se vossos donos estão em perigo!” — Princesa Luna, sem pensar duas vezes, abriu suas enormes asas e levantou vôo, mergulhando do alto da sacada em sua torre.

Os guardas correram para sua sacada, apoiando-se na ponta dela, — “Princesa! Espere!” — um guarda gritou, mas foi em vão. Ela já estava longe para ouvir seus avisos.

O segundo guarda ao seu lado cutucou seu ombro, — “Quando a Princesa disse “Temos que descobrir”, ela se referia a nós dois?”

O primeiro deu uma patada em sua nuca, fazendo o capacete roxo escuro dele deslocar-se um pouco para frente, — “Ai!” — o mesmo ergueu os cascos para sua nuca, com dor.

Luna voava em uma velocidade surpreendente. Suas manobras por entre os edifícios de Canterlot não estavam enferrujadas. Ela voava rápido, assim como seus olhos e ouvidos que circulavam por todos os lados, atentos.

— “Não, não podem estar em perigo.” — Luna desviou de alguns prédios, ela ainda ouvia os sons. Mas esses ruídos não eram desesperadores como ela havia pensado, — “O quê serão esses sons?”

A adrenalina corria pelo seu peito, no grande anseio de encontrar essas vozes. Luna teve que diminuir a velocidade entre os prédios. As vielas e alas entre as casas ecoavam sons para todos os lugares ao redor dela. Ela ficou perdida, teve que parar para pensar no que fazer.

Até que uma idéia surgiu.

Princesa Luna olhou para o céu, — “Talvez lá de cima fique melhor para nós escutarmos!” — num bater de asas rápido, ergueu-se em direção ao céu noturno, visando em observar melhor a cidade do alto e concentrar-se na real fonte desses sons.

No mais alto céu de Canterlot, ela olhou em volta. Incrivelmente, esses sons viam de todos os lados. Ela se perdia dando várias voltas em torno de si mesma. Isso era inútil, ela pensou. Parou o que estava fazendo e decidiu deitar-se na nuvem cinzenta mais próxima.

Luna fechou os olhos e partiu-se a se concentrar apenas nos sons que ela ouvia naquela noite. Eram sussurros fracos, mas ela se esforçava para ouví-los atentamente. Sua irmã mais velha lhe disse uma vez sobre esse fenômeno, ocorria sempre durante o dia. Mas Luna discordava dela dizendo que era ridículo, ela nunca ouvira esses sons esquisitos durante a noite.

Isso preocupou Celestia, mas ela pediu para que Luna prestasse mais atenção toda vez que erguesse a Lua.

— “Será que era isso que nossa irmã queria nos dizer? Esses sons…”

As vozes ficavam mais claras conforme Luna se concentrava em ouví-las. Ela apertou um pouco os olhos, aumentando a concentração.

Das vozes sussurrantes, ela conseguiu ouvir claramente boa parte delas. Frases completas vinham em ondas, cada onda formava uma imagem em sua mente de cada pônei que as pronunciavam:

“Linda noite, querida…”

“É mesmo, nunca vi um céu tão estrelado em toda minha vida…”

“Uau! O que nossa Princesa Luna fez é surpreendente! Que céu magnífico!”

“É de encher água nos olhos…”

“Pai, quantas estrelas há nesse céu? Nunca vi tantas e tão juntas…”

“Ah, filhão. É difícil dizer… A Princesa Luna caprichou tanto nessa maravilha que contar quantas estrelas há nesse céu que demoraríamos milênios para descobrir…”

“Ufa! Pensei que a noite nunca iria chegar! Essas plantas já estavam desesperadas por um descanso noturno! Salve, Princesa Luna, por essa noite maravilhosa!”

“Estrelas no céu, estrelas nos jardins. Uma combinação majestosa de nossa Princesa.”

“Obrigado, Princesa. Pela maravilhosa noite que você nos agraciou hoje.”

“Amém!”

“Ei, amor… Será que a Princesa está feliz com seu trabalho?”

“Heh! Claro que está, querida… claro que está…”

Princesa Luna abriu os olhos de uma forma brusca; encontrou-se novamente em cima de uma nuvem cinzenta. Sua respiração estava meio ofegante e finas linhas aquosas escorriam em seu rosto negro. O que foi aquilo tudo, ela perguntou para si mesma.

Ela não sabia o que acabara de ocorrer em seus pensamentos, muito menos do que acabara de ouvir desses sons andarilhos. Mas uma coisa ela tinha certeza: Eram palavras de amor, de adoração.

Pela primeira vez em mais de mil anos, ela ouviu amor em sua solitária noite de trevas. Aquilo a envolveu como um abraço, um calor latente aqueceu em seu peito como nunca antes. Isso a assustou de início, mas logo percebeu que era quente, caloroso, aconchegante. Ela deitou naquela nuvem e apreciou cada segundo desse calor espiritual.

Um líguido fino deslizou de suas pálpebras; uma lágrima. Mas aquela não era de solidão; de angústia; de inveja; ou mesmo de ódio. Essas categorias mundanas não existiam mais em sua alma.

Não.

Eram de alegria; felicidade; reconhecimento. Eram lágrimas de compaixão e adoração. As primeiras lágrimas felizes que ela expurgou daqueles olhos, acostumados com a tristeza e a lamúria.

— “Então eram esses sons que nossa queridíssima irmã ouvia durante seus mandatos diurnos…” — ela fungou um pouco, — “Que… coisa magnífica… tão… linda e… apaixonante…”

E naquela nuvem ela ficou. Só por uma noite, ela ficou apenas apreciando aquelas vozes amorosas. Naquela nuvem, tomando uma cor mais clara, mais rosa. Aquela noite, tempo noturno do reino das trevas, era uma noite de amor; de apaixonados.

Só por uma noite, ela quis apreciar cada momento daquele calor.

Só por uma noite…

Princesa Luna voltou a si de seus pensamentos. Ela levantou a cabeça de forma brusca, como se tivesse acordado de um sonho. De um sonho magnífico, do qual ela jamais esqueceria.

A alicórnia de pelarem azul-sombrio estava de volta ao centro do quarto de sua irmã, Princesa Celestia, sentada em cima de um tapete circular grande. Ela estava se lembrando aos pouco de onde estava, antes de estranhamente ter adormecido durante seus pensamentos.

Luna olhou para as costas de sua irmã, que escrevia em sua escrivaninha, e levantou um leve sorriso no canto de sua boca, — “Acreditamos em tuas palavras, querida irmã. Esses cidadãos, apesar de parecerem muito diferentes, possuem o mesmo amor e compaixão das gerações anteriores, ou até muito mais. Nós sentimos que aprenderemos muito com eles!”

— “Sua força de vontade me alegra, Luna.” — a alicórneo branca sorriu. — “Você está crescendo tão rápido… Eu sempre me esqueço que você não é mais aquela pequenina potra que não conseguia nem pronunciar meu nome direito.”

Ela riu enquanto continuava a falar, — “Era sempre “Tia”, “Tia”, “Tia”. Hihihi! Era uma gracinha!”

Luna corou e cruzou suas patas, envergonhada, — “Ai, Celestia. Também não é pra tanto, né?”.

Celestia deu mais uma risada. Luna ficou mais vermelha ainda.

— “Queríamos dizer,” — Luna limpou a garganta ao colocar a pata perto da boca. Ela empinou o nariz ao sacudir sua crina pro alto, — “Ainda temos muito o que aprender, querida irmã. Deixarei teu cômodo particular agora. Estamos famintas e precisamos nos alimentar. Tu vens em seguida, irmã?”

A pena ainda levitava perto de Celestia, escrevendo alguma coisa em um rolo de pergaminho, que também flutuava por causa da magia de seu chifre.

— “Só terminando algumas linhas. Mas, Luna, você sabe que não precisa mais continuar a usar o “Nós” e o “Tu” em suas frases. O mesmo vale para a nosso antigo “grito” quando nos indagamos aos nossos súditos. Era isso que eu me referia antes quando disse que estava quase se adaptando à essa Nova Era. Em nossos cidadãos de hoje, não se usa mais esse tipo de conversação e eles não compreenderão o uso deles em seus futuros discursos ou mesmo em suas conversas diárias. Você pode até assustá-los com isso.”

Luna riu, — “Haha! Irmã, tu já estás à exagerar. Nossos súditos não devem ser tão frágeis assim!”

— “Queria acreditar em você, irmã…” — e num movimento sutil, Celestia assina a carta flutuante.

A porta bateu. Ambas as irmãs olharam para porta.

— “Deve ser um dos nossos guardas…” — , pensou Celestia — “Entre, por favor.”

A porta abriu em um estalo, entrou no cômodo um pônei cinza adulto com uma armadura lilás-escura. Seus olhos amarelos eram instingantes, como os de uma cobra. Ele, antes de começar a pronunciar suas palavras, olhou para as princesas, certificando de que não as incomodava.

— “Perdão incomodá-las, minhas princesas, mas o jantar já está servido…”

— “Incomodo algum, meu caro Greybloom.” — respondeu Celestia. — “Já estamos a caminho de lá.”

— “E…” — continuou Greybloom — “… seus três convidados já estão a suas esperas.”

Celestia refletiu por um breve momento e acentiu com a cabeça, — “Claro. Obrigada por nos avisar, caro Greybloom.”

O guarda real fez uma breve reverência, — “Estarei do lado de fora se precisar, Princesa.” — e fechou a porta num estalo.

Luna se vira para sua irmã mais velha, — “ “Convidados”, irmã?”.

— “Sim, Luna. Há algum problema?”

— “Quem são esses convidados? Não lembro de termos sido avisadas de que teríamos convidados no nosso jantar.”

Celestia percebeu sua intonação em “nosso”. Luna não gostou nem um pouco de ter ficado fora dos assuntos, sejam eles pessoais ou reais. Uma pequena reunião marcada, no meio do jantar entre elas, e somente elas, e Princesa Luna não foi avisada disso?

— “Foi de última hora, querida irmã.” — respondeu Celestia. — “Aquela carta que mandei agora pouco foi enviada para esses convidados, preciso muito falar com eles sobre uns assuntos. Umas providências que farei para um grande evento que acontecerá em alguns dias.”

— “Ah, sim… o último show de uma pônei conhecida pelo seu surpreendente talento musical.” — pensou Luna, — “Mas por quê Celestia está preocupada com um simples show de música?”.

— “E não se preocupe,” — continuou Celestia. — “Essa pequena reunião não irá atrapalhar nosso jantar. Só terei uma breve conversa com eles, nada mais. E, assim que terminarmos, iremos para o Grande Salão. E, claro, seria uma indelicadeza minha convocar eles para uma reunião importante no meio da noite sem oferecer as comodidades da casa, não?”

Luna relinchou, “Claro, irmã. Tu estás certa quanto a isso. Não nos importamos que haja convidados em nossa mesa, mas o que nos incomoda é quem são esses convidados. Acreditamos que não conhecemos nenhum deles…”

— “Mas acredito que já ouviu falar deles. Ou mesmo já leu a respeito de alguns.”

Luna levantou uma sobrancelha, mas ela não disse nada de volta. Ela já duvidou demais das palavras de sua queridíssima irmã mais velha hoje. Duas vezes já bastam, uma terceira seria um exagero. Luna não gosta de ficar contra sua irmã, ela queria voltar a apoiá-la, como antes. Não há por que duvidar de mais nada naquela noite.

— “Muito bem!” — Luna deu com o casco no chão, — “Que sigamos nosso caminho à essa reunião! Já que é algo breve, que terminemos de uma vez. Nossos estômagos proclamam por boa refeição!”

Celestia deu risada, — “Claro, Luna. Claro.”

A alicórnia pálida enrolou o pergaminho com sua magia e, num brilho extra em seu chifre, a carta desapareceu, — “A última carta da noite.” — pensou Celestia. — “Isto é… se depender do que resolvermos no fim da reunião…”.

Celestia se levantou e virou o corpo em direção à porta, acompanhando à direita de Luna.

A porta imediatamente abriu. O guarda real, Greybloom, estava abrindo caminho para as princesas, ele ouviu seus passos chegando a porta e, imediatamente, tomou a iniciativa.

Ao passarem pela porta, as princesas agradeceram ao guarda por abrir a porta e por ter esperado por elas. O guarda acentiu com a cabeça, confirmando o agradecimento.

As princesas atravessavam um comprido corredor. Ele estava pouco iluminado pelas velas, mas podiam-se ver belos quadros, cortinas bordadas e vidraças coloridas para compor as paredes peladas dos corredores. Cada vidraça ilustrava uma figura diferente. De um outro tempo, de uma outra história, marcado pelas gerações. Luna passava por elas quase todos os dias quando visitava o cômodo particular de sua irmã e sempre se esquecera de perguntar as histórias incrustadas naquelas vidraças históricas em formas e cores.

A irmã mais nova olhou para sua irmã mais velha, ao seu lado. Seu rosto olhava para frente, mas ela via que os olhos de Celestia moviam suavemente para os lados. Ela refletia, dentro de seus pensamentos enquanto andava.

— “Irmã…” — Luna disse suavemente.

— “Hã?” — Celestia acordou e olhou para Luna, em seguida. — “Sim, Luna?”

Mas ela parou de falar. Lembrou que estavam indo à uma breve reunião para, depois, jantar no Grande Salão. Ela percebeu que, se perguntasse sobre as histórias por trás dessas vidraças, teriam uma longa noite de contos e estórias. Aquela não era uma boa hora para perguntar, e forçar só leva ao estresse, tanto para sua ocupada irmã mais velha quanto para si própria.

— “Há algum problema, Luna?” — Celestia agora olhava para o rosto Luna.

Luna piscou e olhou para Celestia, gaguejando um pouco. — “N-não… não é nada. Só um… um pensamento que passou por nossa cabeça, mas não era deveras importante.”

Celestia estranhou, mas voltou a olhar para frente.

— “Nós não podemos ficar sempre dependentes dos conselhos de nossa irmã.” — Pensou Luna. — “Amanhã mesmo iremos visitar a biblioteca para fazermos uma profunda pesquisa. Mostraremos para nossa irmã que estamos adaptando a essa Nova Era!”

Luna ergueu um pouco a cabeça, confiante com sua decisão para amanhã. Mas, subitamente, o silêncio que persistia no corredor foi quebrado por vozes que vinham do fim do corredor. Vozes altas e conflitantes. Umas ameaçavam as outras.

As duas princesas aceleraram seus passos em direção às vozes, que ficavam cada vez mais nítidas conforme se aproximavam.

— “…Acalme-se, Stubborn. — começou uma voz feminina a discussão, era bastante familiar para muitos. — Até parece que vai tirar o pai da forca com toda essa sua agitação!!”

— “É o caralho, Spitfire! Eu vou é tirar isso a limpo! — uma voz grossa tomou conta do corredor, era velha e escarrada. — Não aceito esse tipo de incompetência, ainda mais numa hora como essa!”

— “Não há porque se enraivecer por causa disso, senhor.”  — uma voz masculina mais jovem intrometeu-se no meio das duas mais velhas. — “A Princesa queria, de alguma forma, falar conosco. Afinal, as cartas foram enviadas para nós três. Deve ser importante…”

— “Não se meta, seu mequetrefe. Se não sobra para você também!”

— “Stubborn! Pare com isso! Estou avisando!”

— “Ó, Spitfire! A esquina tá logo na entrada do castelo. Vá ver se eu tô lá!”

— “Argh!”

Luna não se aguentava mais dessa estranha agitação no fim do corredor, — “O quê estava havendo lá?” — , pensou ela.

— “Irmã? O que em nome de Equestria…?”

— “Também não compreendo, Luna. Eram para estar nos esperando no Grande Salão…”

— “Hã? Essas vozes em conflito… são dos nossos convidados?” —  disse Luna, incrédula, ao erguer uma sobrancelha.

As duas princesas foram ao encontro dessas vozes. Chegando ao perto do fim do corredor, há uma bifurcação para outros dois corredores. Um para a esquerda e um outro para a direita. Antes que elas pudessem chegar no final, os donos dessas vozes nervosas surgiram no corredor da direita, indo ao encontro delas.

— “Eu mereço uma explicação concreta sobre– Ah! Aí estão elas!” — indagou um pônei adulto de pelagem marrom escuro ao apontar para as duas princesas.

O pônei vestia um uniforme militar preto com algumas insígnias douradas no peito. Sua crina era um tanto bagunçada, deslumbrava uma cor cinzenta. Seus olhos amarelos fintaram nas duas princesas, que foram surpreendidas pelo grupo.

— “Saudações, altezas.” — Os dois pôneis que acompanhavam o pônei militar fizeram uma breve reverência, abaixando suas cabeças.

— “Spitfire, Foreign Eye, Capitão Stubborn.” — Celestia citou os nomes em cada lance com a cabeça, — “Fico feliz que aceitaram o convite tão repentino…” — Ela levantou um sorriso calmo.

Spitfire, líder do Esquadrão D e Capitã-Chefe da Força Aérea Equestriana, os Wonderbolts. A crina flamejante de laranja e amarelo marcava sua presença e transmitia claramente seu curto temperamento. Ela usava um collant azul-claro com algumas estampas amarelas na forma de raios, era o uniforme oficial dos Wonderbolts.  Bastante conhecida por sua grande habilidade aérea e atingir velocidades incríveis em segundos, ela era umas das pégasos mais jovens a conquistar um cargo tão alto em séculos. Há quem diz que ela conseguia ultrapassar a barreira do som! Rumores é que não faltam em qualquer lugar.

Foreign Eye, Conselheiro e Diplomata oficial do Reino das Terras Férteis em Canterlot. Usava as cores padrão de um terno: cinza e gravata vermelha. Sua pelagem cor-de-creme escura e olhos marrons penetrantes davam mais destaque que seu terno cinzento em seus clientes. Sua crina não era tão longa, era curta e fazia uma curva para trás, como um pequeno topete, enrolado em volta de seu chifre. Viajante e muito perspicaz, seus conhecimentos e experiências adquiridos ao longo de sua vida, através de lugares e povos que ele visitou, estão registrados em vários livros que escreveu.

“As Milhas de Clousdale”, “Appleloosa É Logo Ali Adiante”, “Rio Grande e Sulista”, “Terras Férteis Para Lá de Absurdas!” e entre muitos outros.

Aparentemente, esses três indivíduos foram convidados pela Princesa Celestia para uma pequena reunião no Grande Salão, mas alguma coisa os incomodou para não esperarem lá e irem eles mesmos ao encontro delas.

— “… E peço perdão se eu os interrompi de alguma coisa importante–”

— “Claro que não, Nossa Alteza!” — Spitfire respondeu, interrompendo Celestia sem querer. — “Basta chamar que estaremos aqui num piscar de olhos! Independentemente do que estivermos fazendo!”

— “Na verdade, não viemos aqui por que Vossa Majestade nos convocou…” — Stubborn engrossou sua voz. — “Mas por falta de competência da senhorita.”

Celestia ficou calada. Luna olhou torto e cerrou seus lábios para Stubborn, — “O quê faz esse ser pensar que pode falar assim com minha irmã?”.

Spitfire, na mesma hora, deu uma cotovelada em Stubborn.

— “Porra, Stubborn! Mais respeito com a Princesa!” — sussurrou ela no canto da boca, entre os dentes, para Stubborn.

Stubborn apenas virou a cabeça e disse, — “Fique calada se você não tem nada de útil a dizer, Spitfire.”

Spitfire ficou vermelha e relinchou forte, enfurecida. Ela olhou para as princesas e apenas virou o rosto pro lado, engolindo sua raiva.

— “Poderia explicar-se, Capitão?” — perguntou Celestia com um tom calmo.

— “Como Nossa Majestade disse, Nossa Humilde Princesa nos convocou para uma curta reunião em seu castelo.”

— “Sim…” — confirmou Princesa Celestia.

— “Pois sabemos que,” — continuou Stubborn, — “quando recebemos uma carta de Nossa Humilde Princesa, significa algo realmente importante para nos convocar nessa hora tão tarde da noite.”

— “E a carta continha informações sobre a reunião, exatamente como a escrevi–”

— “Sim.” — interrompeu Stubborn, elevando seu tom. — “Poderia conter informações sobre essa reunião… se tivesse alguma coisa escrita nela.”

— “Como?” — Celestia levantou uma sobrancelha. Ela não compreendeu o significado daquela frase de Stubborn.

Spitfire deu um passo a frente, — “Bom, Nossa Majestade… A carta que Nossa Alteza nos enviou meio que… Hã…”

Stubborn tirou, com sua boca, um pergaminho enrolado de dentro de sua roupa. Ele desenrolou o papel e o lançou ao chão, em frente para Celestia.

— “Está em branco.” — completou Stubborn. — “Não tem nada escrito nela.”

Celestia não estava entendo. Como aquela carta poderia estar em branco? Ela tinha certeza de que escreveu tudo que tinha que conter na carta e executou os feitiços de Duplicação e de Teletransporte corretamente. Algo estava errado… mas ela não entendia onde. A menos que…

— “Essa não…” – pensou Celestia, – ”Será que…?”

Celestia lembrava de ter puxado o pote de tinta para sua pena, mas não lembrava de ter lido o rótulo direito antes de usá-lo. Ela acreditava que, ao invés de tinta que ela tinha levitado da gaveta, ela levitou um pote de tinta invisível. Deve ser por isso que a carta estava em branco.

— “Então quer dizer que…” — Lembrou Celestia mais uma vez, da segunda carta que ela enviou. — “Oh, céus…” — ela brevemente fechou os olhos, um pouco envergonhada pelo que fez e que poderia ter evitado se tivesse prestado mais atenção.

— “Capitão Stubborn,” — começou Celestia, num tom melancólico, — “peço perdão pelo ocorrido. Garanto-lhe que não irá ocorrer novamente.”

— “Acho bom, Nossa Majestade. Seria muita irresponsabilidade de sua parte se ocorresse isso o tempo todo.”

Spitfire deu outra cotovelada no ombro de Stubborn. Foreign Eye apenas rolou os olhos e suspirou. Luna cerrou seus olhos e apertou os lábios, começando a se irritar de verdade com a atitude desse indivíduo.

Celestia assentiu com a cabeça, — ”Sim. Deveras seria. Antes que possamos ir para o Grande Salão para conversar mais a respeito, gostaria de conversar com Sr. Eye em particular.”

Foreign Eye assentiu com a cabeça, — “Sim, Vossa Majes–”

— “O que é de tão secreto que não pode ser compartilhado com o Comandante- General do B.O.T.E., Nossa Humilde Princesa?” — cortou Stubborn feito uma navalha em manteiga, metendo-se no meio da conversa.

Spitfire ia abrir a boca para mandar Stubborn parar com essas suas atitudes imponentes, mas uma voz mais sonora intrometeu-se.

— “Não te metas em assuntos reais, Capitão. Se sabes o quê é bom para tua “humilde” saúde.” — A voz estridente de Luna voou diretamente para Stubborn, a crina dele esvoaçou um pouco por causa do vento propagado pela sua voz.

Stubborn apenas levantou o casco para ajeitar sua boina, sem tirar os olhos de Luna.

— “Vá dormir, criança. A conversa entre adultos não chegou no berçário ainda.”

Os olhos de Spitfire arregalaram, — “Você ficou louco?!!” — foi a única coisa que veio em sua mente.

Princesa Luna deu uma patada forte no chão, fazendo todo o corredor tremer pela enorme força projetada, criando algumas rachaduras por baixo de seu casco. Seus olhos começaram a brilhar ofuscamente com uma luz branca e sua crina estremeceu freneticamente. Apesar do corredor ser fechado, uma suspeita ventania começou a circular pelo mesmo, parecendo que um tufão havia adentrado pelas alas do castelo.

Luna nunca se sentiu tão desrespeitada em sua vida. Quem é aquele mortal e quem ele pensa que é para falar desse jeito com uma divindade como ela? Uma punição severa e dolorosa deve ser executada por tal afronta contra a realeza. Ele deve pagar pelo que disse.

— “Quem tu pensas que és para virar essas palavras contra a realeza?!” — A voz de Luna ficou mais grave e poderosa, fazendo com que a ventania que estava no corredor ficasse mais forte do que antes. O som de sua voz misturava com gritos de vários pôneis, como se uma multidão estivesse gritando todos ao mesmo tempo, — “É uma afronta revoltante e desrespeitosa que não tolerarei vinda de um ser como você!”

Stubborn não se mexeu, ele ainda estava de pé e firme enquanto os outros dois convidados tentavam permanecer no chão por causa da forte ventania no estreito corredor. Stubborn deu um passo a frente, em direção a Luna.

— “É bom você baixar essa pose majestosa, Princesa. Não tenho medo de você ou do que você pode fazer. Já vivi coisas piores que você nem sonha em viver.” — ele deu mais um passo, ficando frente a frente para ela, — “Você não vai fazer alguma diferença.”

Princesa Luna olhou no fundo dos olhos do mortal. Apesar de estar quase tomada pela irritação do mesmo, ela conseguia sentir uma estranha conexão nos olhos de Stubborn. Aqueles olhos… Que olhos eram aqueles?! Que sensação é essa que causavam em Luna? Como é que ele…?!

Luna deu um passo para trás; um curto e assustado passo. Por causa disso, ela sentiu ainda mais raiva do que antes. Um mero mortal fazendo uma princesa como ela recuar?!

Seu destino estava selado. Os olhos de Luna brilharam ainda mais, seu chifre começou a borbulhar faíscas e suas asas abriram de uma forma ameaçadora, aparentemente deixando-a maior do que antes.

— “Eu, Princesa Luna de Equestria, Guardiã da Noite e da Lua, vou puní-lo pelo desacato contra a realeza e –!!”

— “Princesa Luna, já chega.”

A voz de sua irmã mais velha, Princesa Celestia, intrometeu-se no conflito assim como seu casco que apartou os dois. Luna olhou para Celestia, com os olhos ainda brancos e brilhantes, e sua respiração forte e enraivecida.

— “Irmã. Não te intrometas.” — Luna retrucou, — “Não podemos ficar caladas ou imóveis diante dessa afronta desrespeitosa–”

— “Eu disse chega!” — Celestia descansou o casco no ombro de sua irmã, tentando acalmá-la. Sua voz não demonstrava nada, apenas… calmaria. — “Acalme-se. É tudo que lhe peço no momento.”

A ventania ainda não cessara do corredor. Crinas e roupas batendo e estalando nos corpos dos indivíduos, lentamente, diminuíam. O forte vento no corredor estava se transformando numa fria brisa, os olhos de Luna perdiam seu brilho pálido e seus lábios escondiam seus dentes cerrados conforme o tempo progredia.

Princesa Luna descontrolou-se por um momento, por um breve momento. Ela não sente nem um pingo de vergonha por isso, apenas raiva e frustração por uma Princesa ser desrespeitada dessa maneira por um reles mortal. Sua respiração ainda estava forte, sua raiva estava sendo descontada pelas poderosas baforadas de suas narinas.

Princesa Celestia abaixou o casco e virou-se para Stubborn.

— “O que vou pedir ao Sr. Foreign Eye é apenas um favor, Capitão Stubborn. Não é nada referente a reunião em si.”

— “Acredito…” — Stubborn relinchou. — “Se não é nada útil e de deveras importância para a reunião, então não presta para nada. Estarei esperando Nossas Humildes Princesas no Grande Salão para a reunião.”

Stubborn virou o corpo e caminhou para o fim do corredor. Antes de ele dobrar a esquerda do corredor, ele parou e, sem virar o rosto, bradou:

— “Spitfire! Mexa esse flanco mole de uma vez! Deixe de ser enxerida.”

— “Olha como fala comigo, sua mula-manca!” — Spitfire limpou a garganta e virou a cabeça para as Princesas, — “Erm, com licença e perdão, Vossas Excelências..”

Spitfire fez uma rápida reverência, trotou rapidamente para o fim do corredor e dobrou a esquerda. Pôde-se ouvir os dois discutindo e trocando xingamentos. Spitfire reclamava da atitute prepotente e maluca de Stubborn ao desrespeitar as princesas daquele jeito e Stubborn apenas respondia de ombros. Spitfire ficava fula com isso. Aqueles dois não tem jeito…

Celestia soltou um longo suspiro, a tensa situação finalmente se acalmou. Mas não para Luna; ela ainda não admitia a total falta de respeito daquele mortal insignificante. Como ele ousa ofender e desrespeitar uma autoridade máxima como a Princesa Celestia ou mesmo ela mesma?! Isso é algo que ninguém da realeza deveria permitir. Confrontar palavras tão afiadas e ameaçadoras contra a realeza era inaceitável; inadmissível; insensato.

— “Luna…?” — Celestia chamou calmamente sua irmã.

— “Hã?” — Luna piscou, — “Sim, querida irmã?”

— “Espero que não tenho ficado zangada ou irritada com o que ocorreu agora pouco.” — o tom que Celestia demonstrava era de preocupação. — “Por favor, não se incomode com–”

— “Não te preocupas, irmã.” — Disse Luna, com a voz mais calma. — “Entendemos o que queiras dizer. Não vamos mais ir contra tuas palavras. Só pedimos perdão pelo nosso descontrole…”

Celestia ficou em silêncio por um momento. Mas respondeu a Luna com um leve sorriso e levantou gentilmente o rosto de Luna com seu casco sob o queixo dela.

— “Não se culpe, Luna. Como já lhe disse: Não é culpa sua pelo descontrole. Isso se aprende com o tempo e dedicação no controle de suas emoções. Fico feliz que esteja amadurecendo a cada minuto que passa!”

Luna forçou um sorriso no canto de sua bochecha. Ela sabia que não está amadurecendo nada. Aquele descontrole poderia ter sido evitado; as palavras ameaçadoras de Stubborn começavam a se tornar realidade para Luna. E aquilo a incomodava muito.

Mas uma coisa a deixava realmente irriquieta.

Aquele reles mortal, de alguma forma, fez ela recuar. O seu olhar feroz e angustiante fez uma Princesa, um ser nobre da realeza, dar um passo assustado para trás. O que há por trás daqueles olhos? Por quê ela recuou por causa daqueles olhos? Qual a sua história?

Princesa Celestia e Foreign Eye começaram a trotar para frente de Luna. Celestia levantou levemente a cabeça, sinalando para Luna que os acompanhasse.

Luna, na mesma hora, deu um leve salto para frente, apressando o passo para o lado de Celestia. A conversa entre Celestia e Foreign Eye havia finalmente começado, mas conforme iam andando e ficando mais distante do seus locais de origem, suas vozes ficavam cada vez mais baixas pelo longo corredor. Os três indivíduos estavam indo calmamente para o Grande Salão. Seus trotes ecoavam pelo estreito corredor, assim como suas vozes; até cessarem de uma vez por todas, deixando para trás nada além da poeira e do silêncio vazio.

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4 pensamentos sobre “Sem palavras para descrever – Livro III – Cap.1 – Ausência

  1. Esse capitão Starbon não respeita nem a realeza ele é um mortal e as princesas eternas e imortais Celestia devia ter deixado Luna dar uma bela lição nele pra ele aprender a respeitar ! Além dele ter causado um grande desrespeito à Twilight e causado stresse a ela ! Agora uma coisa que tá errada é que pônei não chama palavrão !

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