Sem palavras para descrever – Livro I – Cap.2 – Cascos e coices

Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 1 – Empolgação

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

Capítulo 8 – Amanhã

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

___________________________

Equestria — Ponyville, 13 de Fevereiro, 19:54.

O sol já descansara do seu dia de trabalho em iluminar os caminhos das criaturas habitantes de Equestria. Todos agradeciam a Princesa Celestia por erguer o Sol com sua magia para os auxiliar em suas rotinas diurnas e por descer o Sol para terem o merecido descanso noturno. A Lua já surgia dentre as densas nuvens; era a Princesa Luna, retomando a sua antiga tarefa de erguer o pálido satélite após o descanso do astro incandescente. O Sol já se foi, mas o céu ainda tinha uma cor alaranjada antes de se escurecer por completo.

Os pássaros retornavam para os ninhos enquanto os morcegos tomavam os lugares deles no céu. Coelhos, esquilos, cervos, todos se escondiam da noite escura para se proteger dos animais que atacavam durante a noite. Lobos, ursos, onças, todos com fome.

A maioria conseguia se esconder. Mas sempre havia os ousados. Durante a caça dessas criaturas vorazes para saciar suas fomes, rolavam algumas brigas e lutas entre si pois nunca dividiam os restos ou mesmo a maior parte da presa. Era cada um por si. E nenhum deles estavam dispostos a ficar sem nenhuma comida para comer.

As brigas eram muito violentas, tão violentas que acabavam com um oponente perdendor. E os que morriam nessas brigas, os outros aproveitavam de sua carne.

É a Cadeia Alimentar. A Supremacia do Mais Forte. A Queda do Mais Fraco. É assim que esses animais viviam nessa floresta em que todos, sejam pôneis ou outros animais místicos, evitavam de entrar ou chegar perto: A Floresta Alforriada.

Ponyville é a cidade mais próxima da Floresta. Os habitantes não se preocupavam por estarem tão perto da floresta pois as criaturas não saem de lá. Elas tem tanto medo de sair como os pôneis tem medo de entrar. Enquanto ambos dos lados não invadiam um ao outro, nada de ruim acontecia.

O dia caiu, a noite se ergueu. Os pôneis de Ponyville já acendiam as luzes das ruas, iluminando a noite estrelada da Princesa Luna. Alguns pôneis andavam ainda pelas ruas, mas porque estavam indo para casa após uma longa jornada de trabalho com os preparativos para o grandiosíssimo evento que ocorrerá na vila. Todos estavam excitados com o evento, mas também estavam mortos de cansaço. Suas patas ralavam no chão, elas estavam pesadas. Seus olhos quase caídos e orelhas deitadas, mas com um sorriso satisfeito em seus rostos. Eles estavam realmente cansados, mas, apesar de tudo, sentiam que valia a pena todo o esforço.

A Prefeita estava na Praça da Central, dispensando os últimos pôneis que insistiam em continuar o trabalho por mais algumas horas. Eles eram insistentes e esforçados.

— “Srta. Prefeita,” — falou um pônei um tanto maior que a mesma, ele possuía um tronco largo, uma pelagem marrom, sua crina refletia uma cor dourada apesar da noite, seu capacete protetor era amarelo e seu colete era laranja. — “Não se preocupe conosco. Faremos o serviço por mais algumas horas e…”

— “Não, senhor!” — a Prefeita apontou o casco para ele, — “Os senhores já fizeram o bastante para um dia. Vocês não paravam nem para um lanche! Vocês devem estar famintos por não se alimentarem direito e por terem executado diversas tarefas.”

— “Está tudo bem, Srta. Prefeita, nós não estamos com–”

A barriga dele roncou. Alto.

— “Ô, caceta, tinha que ser logo agora?!” — Pensou ele. O pônei marrom estava imóvel e tentou olhar para os lados com os olhos, torçendo para que ninguém tenha o ouvido. Mas a Prefeita levantou um sorriso malicioso no canto de sua boca.

— “Caçarolas… Ela ouviu…”

— “Senhor… Eu entendo que o senhor e seus colegas querem nos ajudar. Mas não posso deixá-los continuar prejudicando a si mesmos desse jeito. Por favor, vá para casa e descanse. Amanhã vocês podem continuar o que pararam. Não tem problema.”

As palavras dela eram gentis. Ele tinha que admitir que não estava mais aguentando e estava louco para comer uma bela torta de framboesa que a ponêi em seu lar já deve estar preparando neste exato momento.

Ele suspirou, — “Está bem, Srta. Prefeita. Agradeço pela sua gentileza. Pode considerar que aceitarei sua proposta–”

O corcel mal terminou de falar e um de seus colegas saiu de uma moita em que estava escondido. O ser corria em disparada por entre as obras em direção a sua casa e começou a berrar aos seus outros colegas de trabalho, sem olhar para trás:

— “Aí, galera! Liberou geral! Vam’bora antes que ele mude de idéia!!”

O grupo de trabalhadores que estava ainda trabalhando no palco, na mesma hora, soltaram suas ferramentas e cada um tomou seu rumo. Num piscar de olhos, a praça estava deserta.

O pônei marrom soltou mais um suspiro, — “Ai, ai… esses bunda-moles…”

— “Bom, acho que não dá mais para continuar por hoje…” — disse o pônei marrom.

— “Vá descançar, senhor. Você precisará de um ótimo repouso para amanhã nos ajudar mais bem disposto. Acredito que seus colegas também vão estar bem dispostos amanhã.”

Ele riu com desdém.

— “Se houvesse uma corrida entre esses bundas-moles e uma tartaruga até Canterlot, a tartaruga já teria ido e voltado de lá e eles ainda estariam aqui escolhendo qual caminho é mais lento!”

A Prefeita apertou os lábios. Estava vindo. Aquele sentimento, aquela vontade de gargalhar, borbulhando cada vez mais. Ela encarava o pônei marrom, que já olhava para ela com um olhar safado.

Ela cobriu a boca com o casco e soltou uma risadinha. Com um ar satisfeito, o pônei marrom deu um sorriso maroto.

— “Está bém, Srta. Prefeita. Vou fazer isso. Vejo a senhorita amanhã de manhã, então.”

— “Muit– Caham!” — ela limpou a garganta, — “Muito bem. Que as Princesas Celestia e Luna te guiem, senhor.”

— “Ah, desejo o mesmo para senhora.”

O pônei marrom finalmente seguiu seu caminho, para casa. A Prefeita permaneceu olhando para as costas do pônei marrom, certificando que ele vá mesmo para casa descançar. Ela era a responsável pelo bem estar de todos os pôneis, residentes ou não, em Ponyville. Ela é quem supervisiona os projetos, avalia os resultados, checa as possibilidades existentes e certifica se todos estejam sãos e salvos em suas casas. Ele, o ponêi marrom e seus colegas, eram os últimos a saírem do local.

— “Tudo certo até agora.”

A Prefeita arrumou sua crina com seu casco, descontraindo um pouco. Já está até um tanto tarde. As estrelas já piscavam felizes por aparecerem finalmente no céu. A Lua em si está divina, seu brilho era incrível apesar de não ser seu.

— “A Princesa Luna fez um excelente trabalho.”

Quantas estrelas. Dezenas de estrelas. Milhares. Talvez até bilhões. A quantidade era infinita, mas pouco importa a quantidade. O que importava era a qualidade. A noite estava linda. Tão linda que a Prefeita sentou no chão para admirá-la um pouco mais.

Fazia tempo que ela não sentava para admirar a noite. Era tanto trabalho, tantos afazeres, tantas coisas para pôr em ordem e tantos pôneis para ajudar… que acabava não sobrando a necessária atenção para si mesma. A Prefeita evitava ter animais ou plantas em casa por não ter tempo de cuidá-las. As plantas acabavam morrendo de sede e os animais acabavam sendo entregues para outras famílias. É triste viver em um local fechado sem você sentir a presença de um ser vivo convivendo com você.

Que noite linda. O vento soprava, era úmido e frio. Refrescava a mente perturbada e expelia para longe os problemas encravados, como a sujeira que escorre entre os fios de cabelo em água corrente. Que noite.

Ela bocejou, o sono já estava batendo a porta.

— “Ééé… já está na hora de eu ir também… sinto que minha cama já está até me chamando.”

Ela deu uma risadinha, — “Hehe! ‘Cama me chamando’. Não sei onde eu tiro esses devaneios. Acho que estou saindo tanto com a Srta. Pie que acabo…”

Ela parou. Infelizmente, ela lembrou-se de um compromisso ainda pendente naquela noite. E nesse, ela não podia faltar de jeito nenhum.

— “Ai, carambolas…” — ela deu com o casco na testa. — Esqueci que tenho que reunir com a Srta. Sparkle e suas amigas para debater a abertura do evento, quem são os convidados especiais, quem irá cuidar deles… Ai, ai…”

A Prefeita girou o corpo e começou a trotar. Conforme ia avançando, a velocidade dos trotes aumentava.

— “Ai, que vergonha. A Srta. Sparkle deve estar me esperando até agora!”

O barulho dos cascos da Prefeita estavam altos, o som ecoava nas ruas vazias de Ponyville. Os vizinhos não se incomodavam com isso, mas a Prefeita evitava de andar mais rápido que já estava.

A praça central ficou vazia, só se ouvia o som dos cascos estalando no chão, que ia diminuindo aos poucos.

Silêncio.

Equestria — Ponyville — Biblioteca de Ponyville, 13 de Fevereiro, 19:59.

A biblioteca de Ponyville; é um lugar cheio de livros, obviamente.

Livros que desejam manifestar a sabedoria e o conhecimentos que guardam. Lugares majestosos, culturas surpreendentes, biologia infinita, é um conhecimento sem fim. Dezenas, centenas, talvez até milhares de livros dentro de um só lugar em Ponyville. Desde capa dura até as lisas, de grossas até rasgadas. Todos os tipos de tamanho e grossura. Centenas de assuntos, milhares de especulações, registradas em folhas de papéis por intelectuais(ou amadores) para que não sejam esquecidos tanto as memórias do autor quanto o autor em si.

Livros de História, de Geografia, de Matemática, de Biologia, de Ficção, de Não-Ficção, de Auto-Ajuda, de Culinária, de Aeronáutica, de Magia, de Poções, de Química, de Alquimia. As opções são mundanas e diversas.

Para o consolo dessas solitárias pilhas de papéis mofados, eles não estavam sozinhos. Havia dois importantes indivíduos que cuidavam delas com muito amor e carinho pelo conhecimento:

Spike, o Office-Boy da Biblioteca.  Um dragão de escamas roxo e verde ofuscante, possuía dois olhos esmeraldas e dois longos caninos que escapavam de seus lábios, visíveis. Ele é quem cuidava da organização primárias dos livros, de acordo com o gênero, matéria, assunto, número e autor. Tudo cronológicamente, numéricamente, genéricamente, “assuntamente” e “autoralmente” organizado. Ele era muito bom nisso, consegueia achar qualquer livro em questão de segundos. Há quem diga que Pinkie Pie compete com ele, mas isso são rumores; não vêm ao caso.

Além da organização dos livros, ele é quem mantía tudo limpo e arrumado. Os livros empoeirados, era ele quem tirava a poeira. Estantes com teias de aranhas, era ele quem as expulsava de seus cantos. Se havia algum item, seja guardanapo, lenço, cobertor, toalha de mesa, qualquer coisa irregular ou fora do lugar, ele imediatamente dava uma ajeitada.

Alguns se perguntavam “por que todo esse esforço para deixar tudo arrumado e organizado?”.

Acontece que ele divide o espaço da biblioteca com uma pônei que ele conviveu durante sua vida inteira. Uma pônei que sempre o cuidou, o alimentou e o ensinou tudo sobre a sociedade e o livre-arbítrio. Em todas as maravilhosas brincadeiras, em todos os momentos oportunos, em todas as prazerosas memórias e lembranças que compartilhava, sua melhor amiga e irmã-postiça, Twilight Sparkle, estava lá. Apoiando e compartilhando. Observando e participando.

Twilight Sparkle era a moradora da biblioteca. Ela era quem mandava e desmandava dentro daquele lugar empilhado de livros organizadamente limpos. Na visão de outros pôneis, Spike era comparado a um secretário pessoal de Twilight Sparkle. Mas Spike não enxergava dessa maneira. Não.

Twilight Sparkle era, praticamante, como uma irmã mais velha para ele. Uma tutora, uma mentora, uma guia, alguém que lhe orientava e lhe ensinava os caminhos da vida. E Twilight não abusava(muito) de Spike. Ela sabia quando era hora de descanso e quando era hora de trabalho. Spike ainda era um bebê-dragão, ela não podia forçá-lo trabalhar até tarde nem tão cedo. Ter um bebê-dragão tem suas responsabilidades e seus cuidados. E Twilight os respeitava fielmente.

Ainda era noite, Spike estava na cozinha preparando alguns petiscos para os convidados na casa. A visita se encontrava na sala de estar, eram cinco pôneis bem reconhecidos, estavam apenas conversando enquanto esperavam outros convidados que não estavam presentes no momento.

Mais do que uma típica visita de amigos, era uma importante reunião que não poderia ser adiada nem cancelada. A reunião era sobre os preparativos para o grande evento. Na visita, encontravam-se os responsáveis por determinadas áreas do evento:

Rarity, uma charmosa pônei de cor branca, com atraentes olhos azuis e uma crina cacheadamente roxa. Ela era responsável pela decoração e pelos visitantes. As fitas tinham que estar bem laçadas, os guardanapos bem dobrados, copos bem posicionados, cadeiras e mesas bem contadas, nada deveria passar despercebido por ela. Orientar os visitantes era outro trabalho dela. Muitos pôneis da alta sociedade como os de Canterlot que virão aqui e precisariam de alguém sofisticado e generoso para guiá-los durante o evento.

Pinkie Pie, uma divertida pônei cor-de-rosa, olhos eletricamente azuis e uma crina fofamente rosa-escuro. Ela era quem cuidava dos quitutes, comidas, doces, petiscos, bebidas, lugares na mesa, cozinheiros e festas. Ela era, praticamente, a “dona da festa”. Está com fome ou quer se divertir? Procure Pinkie.

Applejack, uma dedicada pônei alaranjada, olhos esmeralda ameaçadores e uma crina loira como os raios de sol. A chefe do roçado e dos ingredientes para os quitutes. Todas as maçãs da vila eram feitas por ela e por sua família. Tudo era totalmente orgânico e estavam nesse ramo a gerações. São os experts das maçãs e suas sementes. Pinkie e Applejack estavam, na maior parte do tempo, trabalhando juntas para fazer com que suas áreas estejam produzindo. Pois sem ingredientes da Fazenda Maçã Doce, não haveria comida para serem feitas no Sugar Cube Corner.

Applejack e Pinkie estavam, no momento, tirando suas dúvidas quanto aos seus departamentos, para que coordenem a hora de trazer da Fazenda Maçã Doce e levar até ao Sugar Cube Corner os ingredientes necessários.

Applejack se sentia honrada em estar nessa área, ela era muito esforçada e bem séria quando o assunto é trabalho e cooperação. E Pinkie se sentia muito feliz em receber ajuda de sua amiga, AJ. Ela até acreditava que os doces e os aperitivos ficavam mais deliciosos por saber que AJ e sua família estavam se esforçando pra valer.

E por última, Rainbow Dash, uma atlética pégaso azulada com olhos rosa escuros penetrantes, sua crina multicolorida demonstrava ser uma pônei “fora do normal”, um ser diferente do grupo. Além de ser responsável pelo controle do clima de Ponyville, ela também foi convidada a trabalhar na segurança da vila durante o evento. Ou seja: trabalhar como Secretária de Segurança.

Qual a importância disso?

Rainbow Dash não acreditava no que via e ouvira ao ser convidada para esse cargo, essa área era onde os maiores ídolos dela pertenciam. Os mais ágeis e incríveis voadores de Equestria, a elite da Força Aérea Equestriana.

— “Os… Wonderbolts… AQUI!” — disse Dash, soltando um gritinho esganiçado de emoção.

— “Ixi, mió tomá banho di água fria pra baxá êssi fogo, minina!” — exclamou Applejack, olhando para sua amiga excitada.

— “Nhé, nhé, nhé pra você, AJ!” — Rainbow dash cruzou os braços e mostrou a língua.

— “Ói qui arranco essa língua numa dentada!”

Rainbow Dash arregalou os olhos e recolheu a língua por reflexo. As duas não segurar seus risos e riram juntas. Applejack rindo da reação de sua amiga e Rainbow Dash rindo dela mesma por cair nessa traquinagem da AJ.

— “Ahahaha! Arre, Rêinbou. É séri qui num pódi si segurá? Só farta ocê sortá essis isganido fino na frente delis! Eita, comédia das boa!”

— “Ha-ha-ha. Pode rir, AJ. Isso não vai acontecer NUNCA.” — Dash relinchou e cruzou os braços, — “Eu sei me controlar muito bem, visse?”

— “Num só vi como ôvi!” — AJ levantou um sorriso maroto.

— “Blééé.” — Dash mostrou mais uma vez a língua.

Mais risadas. Era um momento caloroso entre amigas. Todos estavam curtindo e rindo apesar do trabalho que esse grande evento esteja consumindo desses esforçados pôneis. Mas tudo valia a pena. Uma grande recompensa não pode ser ganha sem um grande esforço para conquistá-la. E nem sempre quem se esforça a conquistá-lo, consegue conter suas frustrasções e acaba criando, ao invés de harmonia, caos.

— “Isso não é hora de ficar brincando!” — Twilight apareceu do nada e bateu os cascos sobre mesa, fazendo ela tremer toda.

As duas deram um salto no susto e cessaram as risadas. AJ não gostou nada daquilo.

— “Arri égua, Tualáiti! Pricisava fazê isso?!” — o casco estava em seu peito, o coração tinha acelerado um pouco no susto.

— “É CLARO!” — ela virou a cabeça para a Applejack, — “Estamos na maior crise e vocês ficam rindo como se não ligassem para o que está acontecendo!”

Applejack ficou encarando a Twilight, confusa.

— “Hã….. Qui crisi, Tualáiti?” — Ela ergueu uma sobrancelha.

— “VIU?! NEM VOCÊ SABE!” — Twilight apontou o casco para AJ, sacudindo-o freneticamente em frente ao seu rosto.

— “Ara, é craro, creuza!” — AJ desviou o casco de Twilight para o lado, — “Si ocê mi falá, eu vô tá sabêno, oxênte!”

Twilight bufou e virou-se, trotando até a janela da sala mais próxima.

— “É, Twilight. Qualé a de mesma? O que te incomoda tanto, afinal?” — perguntou Rainbow Dash, estranhando o comportamento de seu amiga.

— “Bota para fora, meu bem.” — entrou Rarity na conversa, balançando gentilmente seu casco, — “Não deixe esse sentimento te abalar dentro de você! Compartilhe conosco sua angústia, amiga.”

Twilight fechou os olhos e tomou um longo fôlego. Ela vai ter que explicar de novo sua frustação.

— “Eu marquei essa reunião para às 08:00 da noite. Queria resolver todos os assuntos nessa reunião, não quero que tudo vá por água a baixo após vários dias de esforço de todos os pôneis da cidade… e de fora!”

— “Mas Twilight…” — Rarity tentou chamar a atenção de seu amiga ansiosa, mas foi em vão.

— “Mas para que a reunião aconteça, precisamos da Prefeita para podermos dar ínicio a ela! Eu não sei o que ela está fazendo para demorar tanto! Daqui a pouco, vai ser tarde demais e não iremos conseguir resolver tudo…”

— “Twilight…” — insistiu Rarity.

— “Onde é que ela se meteu?!”

— “Twilight!” — Rarity praticamente berrou no quarto.

— “Quié?!” — Twilight virou a cabeça para a Rarity, soltando uma baforada pelo nariz, irritada.

— “São só 8:06…” — Rarity apontou para o relógio da sala.

— “É POR ISSO MESMO!”

Rainbow Dash deu com o casco na testa, — “Afê, Twilight! Francamente…”

— “Máis qui minina máis cumpricada, seu!” — AJ ajeitou o chapéu um pouco para trás, — “Senta teu rabo aí i sussega o faxo! Ela já devi di tá a caminho daqui.”

— “Como é que vou me acalmar se ela está super-hiper-mega-atrasada desse jeito!? Onde já se viu!? Isso não é nem um pouco profissional da parte dela… E ela ainda se diz Prefeita…”

Applejack olhou torto para Twilight. Ela já estava començando a não controlar o que diz e pode ser que ela piore a situação de vez. Ela deixou passar, por enquanto. AJ deu um sinal para a Rarity com o erguer de sua sobrancelha e olhando em seguida para Twilight com os olhos, discretamente pedindo para ficar de olho nela.

Rarity assentiu com a cabeça, confirmando para Applejack.

— “Twilight precisa de férias!” — afirmou Pinkie Pie no fundo, levantando o casco pro alto, — “Ela tá nervosinha, nervosinha de pedra!”

— “Eu. Não. Preciso. De férias!”

— “Intonci fica quieta duma vez, diacho! Ficá nervosa du jêto qui tu tá num vai dá im nada.”

— “É, Twilight, sente-se aqui com a sua turma, com as patas pro ar…” — Rainbow bateu as asas levemente, flutuando deitada no ar, — “… um suquinho, um solzinho… só de boíssima.”

Twilight olhou para Rainbow flutuando no ar, com a cara fechada. Ela não gostava muito da atitude preguiçosa da Rainbow. Às vezes a irritava profundamente. Twilight não queria descançar, não queria esquecer suas responsabilidades, não queria perder tempo sentada sem fazer nada. Ela se sente uma inútil fazendo isso. E Rainbow Dash não estava ajudando em nada, mas ela até que estava; Twilight que não via isso. Apenas aumentava o estresse da pônei roxa.

E ela já não aguentava mais.

— “Isso é típico de você, Rainbow…” — A voz da Twilight saiu com o peso de uma Ursa Menor, de tão pesada.

Rainbow Dash parou no ar e encarou Twilight. O tom que ela usou em sua frase foi o suficiente para chamar a atenção da atlética pégaso azul.

— “O que você quer dizer com isso?”

— “É típico de você ficar com o papo pro ar,” — continuou Twilight, olhando para a pégaso azulada por baixo, mas não tirando seu olhar sério dela — “só no bembão, sem se importar com nada e com ninguém…”

— “Você se diz a pônei mais atlética da vila mas não faz juz ao que diz. Você nunca fez. O que você está me dizendo neste exato momento prova isso. Você é egocêntrica e se acha demais para fazer parte de um time.” — pausa, — “Os Wonderbolts jamais aceitariam pôneis com atitutes tão presunçosas e relaxadas.”

O silêncio prevalesceu na sala. Twilight e Rainbow Dash se encaravam ferozmente.

— “Tenso……..” — comentou Pinkie Pie bem baixinho.

Rarity e AJ se entreolharam, perguntando-se mentalmente o que fariam agora. Rainbow Dash ficou calada e desceu até o chão bem devagar, sem tirar os olhos da Twilight. Muita coisa passou pela cabeça daquela pégaso azulada, ela não esperava essa reação de sua amiga, ainda mais naquela hora. Aquelas palavras eram uma ameaça à Rainbow. Ela ficou muito irritada com aquilo. A pégaso azulada andou lentamente até unicórnia cor-de-lavanda, cada trote de seus cascos ecoava pela sala, assim como suas palavras conforme elevava seu tom ameaçador.

— “Você tem muita coragem para falar assim na minha cara, sua nerdzinha escrota de meia tige–”

— “Podem parar vocês duas!” — Rarity, num salto, intrometeu-se no meio das duas como uma faca que dividia duas partes da manteiga. Sua encaracolada crina balançou suavemente ao girar seu rosto, olhando diretamente para Rainbow Dash, com o corpo de lado para as duas pôneis presentes.

— “Rarity.” — A voz da Rainbow era pesada, Rarity podia sentir o impacto de suas palavras em seu rosto, — “Saia da frente. Essa cabeçuda vai se arrepender de—”

— “Não, Rainbow Dash!” — Rarity bateu com o casco no chão, — “Você não vai fazer nada. Ela só está meio emocional e falou por falar. Por favor, não leve a sério.”

— “Não levar a sério?!!” — Rainbow indagou tão alto que ecoou na sala inteira.

— “Cê realmente acha que vou ficar calada diante de uma estupidez dessa?!” — Rainbow apontou o casco para Twilight, ela estava atrás da Rarity, e abaixou ele em seguida. — “Depois de tanto que ajudei, de tanto que me esforcei para o “Grande Dia Idiota de Todas as Vidas dos Pôneis” acontecer como todos os outros em Ponyville e AINDA VOU TER QUE ESCUTAR UMA MERDA DESSA?!! É UM ABSURDO! Você tem muita cara-de-pau de virar para mim com essas palavras, Twilight!”

O casco de Rainbow Dash voou por entre a Rarity e apontou ferozmente para Twilight, sua tremulação causada pela adrenalina estava bem visível.

— “É muito fácil você ficar apenas dando ordens aos outros pois você não precisa executar trabalhos pesados e exaustivos para suar essa sua pelagem de prada “A-la-Canterlot” para fazer acontecer! Quem é a presunçosa e relaxada aqui?! Você aponta os defeitos dos outros mas não tem capacidade para assumir e admitir seus próprios defeitos! Você se acha realmente ‘perfeita’, ‘a mais fodinha de todas’, blé, blé, blé! Você é uma merdinha com ego do tamanho desse seu cabeção que se acha melhor que todo mundo!” — seu rosto estava torcido entre raiva e mágoa. Seu queixo cerrado e olhos molhados não eram ignoráveis. Seu peito doeu dolorosamente no esforço de concluir sua angustia. — “Q-que quebre uma perna, sua idiota cabeçuda!”

— “Já chega, Rainbow Dash!” — Rarity colocou o casco no peito de Rainbow e pressionou para frente, afastando-a. — “Apenas se acalme, querida! É tudo que lhe peço! Cascos e coices não vão levar as coisas para melhor. Foi com cascos e coices que organizamos tudo?”

Rainbow Dash encarava furiosamente Twilight. Com seu olhar predador, irritados e brilhantes, suas sobrancelhas e dentes cerrados, e sua respiração forte parecia que estava soltando fogo pelas ventas, demonstrava que ela estava pronta para dar o bote. Ela podia pular pra cima de Twilight a qualquer momento.

— “Rainbow Dash?” — Rarity a chamou mais uma vez.

Rainbow virou o rosto para Rarity. A pônei branca estava com um olhar sério.

— “Foi, Rainbow Dash?” — Rarity perguntou uma última vez.

Rainbow Dash relinchou com força, irritada. Com muito esforço, Dash respondeu:

— “Não…” — virou a cabeça pro lado e relinchou mais uma vez.

— “Sente-se e se acalme, amiga. Beba um golinho d’água que, já, já, você esquece tudo…”

Rainbow Dash ficou parada por um momento. Ela ordenava que suas patas fosse até a cadeira, mas o que elas queriam era meter porrada em alguém, em específico. Ela não aguentava mais segurar suas patas, algo tinha que ser feito.

A pégaso olhou em volta rapidamente e avistou um banquinho atrás dela. Num movimento rápido e feroz, ela deu um coice no banquinho que voou rápido para uma estante de livros.

O movimento foi tão rápido que as outras não acompanharam o coice da Rainbow e nem o impacto do objeto com a estante. O banquinho, pela incrível força que foi inserida em sua massa, arrebentou-se em vários pedaços. A estante recuou um pouco para trás e voltou para frente, deixando cair alguns livros. O som do impacto foi alto, todos olharam para a Rainbow e o que ela fez ao banquinho, agora em pedaços. Twilight arregalou os olhos, perplexa com a força que ela fez ao objeto para deixá-lo nesse estado, em fragalhos.

Um pensamento horrível veio na mente de Twilight ao ver o estado do banquinho. Poderia ter sido ela aquele banquinho.

Dash finalmente controlou suas patas e andou até a cadeira. Ela encarava Twilight de longe, sendo que a mesma olhava para Rainbow Dash, assustada.

Rarity suspirou aliviada. E ficou feliz que Rainbow conseguiu se controlar. Se ela não tivesse se controlado, aquela força teria sido investida em algo mais… vivo.

— “E quanto a você, Twilight Sparkle…” — Rarity virou o corpo, olhando para a pônei roxa, — “Eu realmente esperava mais de você.”

Twilight virou a cabeça, olhando para Rarity. Ela ergueu a sobrancelha, fingindo não entender o que Rarity estava indagando.

— “Como?”

— “É isso mesmo que você ouviu!” — Rarity deu com o casco no chão. — “O que há com você para ser tão rude e estúpida com sua amiga, Rainbow Dash?”

Foi a emoção do momento que a descontrolou, ela nem lembra mais qual era o motivo da irritação. Foi meio que…. por impulso. Twilight olhava para Rarity de cima para baixo, procurando o que dizer de volta.

— “Eu… Eu…”

— “A sua atitude foi estúpida, Twilight Sparkle! A mais inteligente e sensata do grupo se rebaixando desse jeito para chifrar suas amigas, por uma coisa tão inútil, tão supérflua?!”

Twilight abaixou a cabeça levemente. Ato normal de alguém que se sente arrependido com o que fez, e uma válvula de escape para tal situação que encurrala os arrependidos contra a parede. Twilight virou um pouco a cabeça para Rainbow Dash, ela via que Dash estava meio calada e com o queixo sobre os braços em cima da mesa. Pinkie Pie fazia de tudo para alegrá-la, com piadinhas, caretas, barulhos esquisitos e tortas na cara.

Nada a alegrava.

Twilight olhou agora para a Applejack, a pônei mais sincera da vila. A pônei terrestre loira olhava furiosa com seus olhos esmeralda para a unicórnia roxa. Seu rosto era de pura mágoa e repulsa pela estúpida atitude com sua amiga pégaso. Ela não esperava isso de Twilight, nunca sequer pensou que ela faria uma coisa dessas, ainda mais com sua própria amiga.

Twilight olhou novamente para Rarity; ela ainda estava séria, como sempre, e não desviava o olhar por um minuto sequer.

— “Vamos, Twilight Sparkle!” — insistiu a unicórnia pálida ao dar alguns trotes para frente, aproximando-se de Twilight, sendo que a mesma se afastava instintivamente,  — “Me explica! Ou você é tão cabeça-dura que não admite mesmo os seus erros ou vai me dizer que não aprendeu NADA e esqueceu TUDO que a Prefeita te falou esta manhã!?”

Twilight congelou. Rarity percebeu que ela ficou imóvel e parou de andar na mesma hora. A unicórnia roxa ficou com um olhar meio vago, se lembrando do que houve hoje de manhã, na Praça Central de Ponyville. Onde a Prefeita estava conversando com ela; aconselhando ela; reconfortando ela.

“Devemos dar o nosso melhor para um agradável resultado para todos os pôneis. Confiando nos corações e na força de vontade de cada pônei, podemos qualquer coisa.”

A voz ecoou na cabeça de Twilight, foi tão penetrante que tudo ao redor dela ficou em silêncio, que só a voz em sua mente era audível naquele momento.

Twilight agora se deu conta na besteira que ela fez, no erro que ela cometeu. Ela deu uma lenta piscada reflexiva, olhando um pouco para baixo. Até que levantou a cabeça e olhou para Rainbow Dash, ainda ferida com as ações recentes de Twilgiht.

— “O quê deu em mim naquela hora?” — Perguntou Twilight para si mesma, em seus pensamentos, — “Que situação… Eu não devia ter feito isso, eu… eu…”

A porta bateu, tem alguém do lado de fora querendo entrar. Twilight e Rarity olharam para a porta, assim como todos presentes na sala. Mas rapidamente Rarity virou para Twilight, esperando ainda por algum resposta da mesma, se ao menos se sente arrependida de ter feito aquilo à Rainbow.

A unicórnia roxa virou lentamente para o rosto pálido de sua amiga, olhando em seus olhos cor de sáfira. Ela não podia mentir para Rarity, dizendo que não se arrepende de nada. Ela SABIA que fez algo errado e seria muito egoísta e mais estúpido ainda da parte dela mentir desse jeito. Mentir não melhora as coisa, só deixam ela do jeito que estão ou até pioram.

Twilight apenas virou o rosto com a cabeça um pouco baixa, indo até a porta. Rarity suspirou e virou o corpo, trotando até sua cadeira.

Pensativa, a unicórnia de sedosas crinas roxas concluiu — “Tudo bem, Rarity. Ela não admite publicamente mas sabe que fez algo errado. E isso é o suficiente.”

Rarity sentou na cadeira e, com o casco, ajeitou elegantemente sua crina para o lado do rosto.

Twilight abriu a porta. Ela limpou sua garganta e tomou um fôlego antes de começar a falar.

— “Srt. Prefeita, ainda bem que chegou. Estamos doidas para começar a reunião e…”

Twilight parou de falar.

Applejack e Rarity estranharam. As duas inclinaram suas cabeças um pouco para o alto para verem quem era a figura do lado de fora que fez Twilight Sparkle ficar sem palavras. Rainbow Dash pouco se importou quem estava lá fora e Pinkie Pie ainda estava se esforçando para alegrá-la.

— “Desculpe…” — Twilight finalmente falou, — “Eu pensei que fosse outro pônei… que eu estava esperando, mas… hã… posso ajudá-lo em alguma coisa, senhor?”

O pônei do lado de fora era de uma aparência bem sofisticada. Usava um terno cinza com uma gravata vermelha, sua pelagem tinha uma cor creme e sua crina dourada escura fazia uma curva para trás, um topete básico. Seus olhos brilhavam azul perante ao luar, ele olhava para Twilight Sparkle com atenção.

— “Sim, minha jovem!” — o pônei falou, sua voz era suave e um tanto brincalhona, — “Sei que parece meio besta perguntar isso, mas aqui é a biblioteca?”

Twilight acentiu com a cabeça, — “Sim, é sim. Mas ela, no momento, está fechada. O senhor teria que voltar pela manhã se–”

— “Desculpe por interrompê-la, mas… a senhorita é a Twilight Sparkle?”

Twilight congelou. Ela olhou bem para o estranho, tentando lembrar se ela já o viu em algum lugar.

— “Como ele–?” — ela se perguntou mentalmente.

Ela tinha certeza de que nunca viu aquele pônei cor-de-creme em lugar algum. Aliás, sua aparência é vagamente familiar… Não como se ela tivesse conhecido ele de algum lugar ou de algum tempo atrás, mas… era como se ela tivesse o visto em algum lugar. E como ele sabia seu nome?

— “S-sim. Sou eu, sim.”

— “Boa noite, Srta. Sparkle.” — o pônei cor-de-creme assentiu com a cabeça cordialmente e ofereceu seu casco para Twilight, — “Sou Foreign Eye e venho do Reino das Terras Férteis à pedido de Princesa Celestia e Princesa Luna para auxiliá-la durante todo o evento que virá. Fui informado de que haveria uma reunião para a programação do Grande Evento hoje às 8:00 da noite na Biblioteca da Ponyville e vim para participar dela, se não se importar, claro.”

Twilight Sparkle ficou boquiaberta. Não acreditou no que estava havendo, não estava acreditando com quem ela estava falando naquele exato momento.

— “Foreign… Eye?!”

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4 pensamentos sobre “Sem palavras para descrever – Livro I – Cap.2 – Cascos e coices

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