Sem Palavras para Descrever – Livro I – Cap. 1 – Empolgação

Livro I - Cap. 1 - Empolgação

Autor: Grivous

Gênero: Normal, Triste, Drama, Romance

Sinopse: ”Em alguns dias, um show será apresentado na pequena cidade de Ponyville, como o último show da carreira musical de uma musicista muito famosa de Canterlot: Octavia. Twilight Sparkle e suas amigas ficaram encarregadas de aprontar os preparativos para o Grande Evento. Os fantasmas de seu passado continuam assombrar a jovem musicista, a ponto de isolar-se do mundo e daqueles que ama. Num único evento, cheio de reviravoltas e grandes emoções, ela está para descobrir algo muito mais do que apenas o fim…”

LIVRO I :

Apresentação

Prólogo

Capítulo 2 – Cascos e Coices

Capítulo 3 – Desinformado e Desinteressado

Capítulo 4 – Convidado ou Intruso?

Capítulo 5 – Casa da Mãe Joana

Capítulo 6 – Recuperação

Capítulo 7 – Algo a mais

Capítulo 8 – Amanhã

LIVRO II:

Capítulo 1 – Caminhada

Capítulo 2 – Muffin

Capítulo 3 – Companhia

Capítulo 4 – Mudanças

LIVRO III:

Capítulo 1 – Ausência

———-

 

Equestria — Vila dos Pôneis. 13 de Fevereiro, 09:43 da manhã.

Seis meses atrás…

O sol reluzente da manhã estava um pouco mais alto que a montanha mais alta de Ponyville.

Era um dia bem típico aos gentis cidadãos do vilarejo. Esse dia, porém, tinha um sabor diferente no ar; de empolgação. Os pacíficos pôneis estavam com uma vibrante, e bem visível, energia. Eles corriam e trotavam por todo o lugar, fazendo seus afazeres muito rápido. Eles não paravam nem um segundo para respirar ou nem mesmo para uma limonada geladinha. Uma unicórnia roxa em especial no meio da praça central apontava com seu casco, dando tarefas e funções para os pôneis agitadíssimos.

— “Algum pégaso precisa limpar o céu!” — exclamou a unicórnia roxa enquanto olhava para o alto.

A unicórnia era a Twilight Sparkle. Uma jovem unicórnia com uma longa crina nas cores roxo escuro, roxo normal e rosa misturadas em mexas e olhos de cor violeta. Ela falava diretamente com um pégaso em pleno ar.

— “Rainbow!” — exclamou Twilight, apontando para Rainbow Dash, um pégaso azul com uma crina média com as cores indêtincas ao do arco-íris e olhos lilás, que voava por perto. — “Chame alguns pégasos com você e dê um jeito nessas nuvens!”

— “Xá comigo!” — disse Rainbow Dash com o casco em sua testa. Ela apontou para três pégasos que estavam perto dela e voaram em direção ao céu. — “Vamulá, galera!”

Twilight olhava ao redor enquanto trotava pela entrada de Ponyville, até que viu duas pôneis na tentiva erguer um banner, puxando-o com as cordas entre os dentes. O chifre de Twilight começou a brilhar, dando-lhes um “cascozinho”. O banner finalmente ficou de pé e as duas pôneis sorriram para Twilight, agradecidas.

— “Muito obrigada, Senhorita Sparkle!” — disse uma das duas.

— “Não há de quê, meninas. Eu só–” — Twilight olhou para o banner e leu em voz alta.

— “Hã? ‘Bem-vinda à Ponyville, Octav’ ?!” — Twilight levantou uma sobrancelha de sua testa. — “O que houve com o resto do nome?”

— “Não conseguimos colocar ele todo…” — explicou a outra pônei de crina encaracolada azul-marinho.

— “Não podemos erguer um banner que diz ‘Bem-vinda à Vila dos Pôneis, Octav’!” — acusou Twilight enquanto apontava para a pônei que tinha respondido. — “Nosso convidado é um músico, não um matemático acadêmico!”

As duas pôneis se entreolharam, confusas. — “Como é?” — perguntaram em coro.

Twilight bateu o casco na testa, exasperada — “Ai, deixa pra lá! É melhor nós abaixarmos esse banner e tentar de novo.”

As duas pôneis viraram os olhos, já era a terceira vez que elas ergueram esse banner e vão ter que descê-lo de novo. O chifre de Twilight brilhou mais uma vez.

De repente, uma corrente de ar invadiu a entrada da Vila dos Pôneis, fazendo o banner cair mais rápido do que deveria. Twilight percebeu que o banner caía rápido demais, ela deu meia volta e tentou fugir do banner mas era inútil.

Bonc!

As duas pôneis estavam em choque, com os cascos em suas bocas. Elas podiam ouvir a voz de Twilight debaixo do banner. — “Auuu… Isso não pode estar acontecendo…”

Indo direto ao Sugarcube Corner, perto da praça central de Ponyville, uma pônei de uma coloração rosa adentra a loja saltitando alegremente. Ela estava muito animada.

Uma voz feminina veio de dentro do Sugarcube Corner. Parecia bastante histérica.

— “Pinkie! Até que enfim! Por onde você andou, afinal?!”

— “Ah, oi, Bon-bon! Eu estava trotando aqui perto mas eu vi a Rainbow Dash e me lembrei que eu queria perguntar alguma coisa para ela que simplesmente surgiu em minha cabeça assim que a vi! Ela parecia estar muito ocupada porque ela tentou fugir sem mesmo responder a minha pergunta! Que grosseria! É uma grosseria não responder as perguntas dos pôneis quando eles perguntam a você, sabe? Imagine que eu ia pedir para ela sumir com uma nuvem eletrificada que estava perto da casa da Berry Punch e ela simplesmente foge? Então eu tentei seguí-la mas ela não desistia de fugir! Bom… No final, quem acabou desistindo fui eu porque a Twilight disse para eu parar de brincar e começasse a ajudar os pôneis da cidade para a grande grande dia! É amanhã, não é? Isso é tão emocionante! A violoncelista mais famosa de Canterlot! AQUI! Aliás, porquê ela está vindo para cá? É o último show dela, claro, mas porque ela escolheu a Ponyville? Há, tipo, centenas melhores lugares para fazer o grande estupendo show como ela está desejando fazer. E ela está vindo para cá de Canterlot! Canterlot, cê acredita?! Porquê ela não faz o grande gigantesco show dela lá? Eu gostaria de ir lá mais uma vez! É um incrível, engraçado, maravilhoso, lindo, estupendo, cheiroso e enorme lugar para se fazer a maior grande gigantesca festa do mundo! O que você realmente acha disso, Bon-bon?”

Silêncio. Podia ouvir alguém murmurando de dentro do Sugarcube Corner.

— “Hã… Bon-bon? Você está b–?” — Pinkie Pie foi interrompida por alguma coisa que bloqueou suas palavras de saírem de sua boca.

— “Apenas. Pegue. A farinha. Da dispensa.” — murmurou Bon-bon.

— “Tudo bem que beren–!” — Pinkie foi interrompida de novo.

— “Sem. Uma palavra.”

Dentro do Canto do Cubo de Açúcar, estavam: Pinkie Pie, uma jovem pônei cor de rosa com uma longa e bagunçada crina rosa-magenta e olhos azuis, pegando a farinha de dentro da despensa com a boca dela; Bon-bon, uma jovem pônei de cor amarelo esverdado com uma crina média e cacheada nas pontas de cores azul e rosa misturadas e olhos azuis, pegando uns biscoitos assados no fogão com um pano-de-prato em sua boca; Sra. Cup Cake, uma pônei adulta de cor azul claro com um topete médio de cores rosa-choque e rosa claro misturadas e olhos roxos, amassando uma bola de massa com um rolo; E seu marido, Sr. Carrot Cake, um pônei adulto de cor âmbar com uma uma curta crina alaranjada e olhos verdes, cortando algumas frutas para fazer uma deliciosa salada.

A entrada da loja estava vazia. Pinkie Pie, Sr. e Sra. Cake e Bon-Bon estavam na cozinha, fazendo muitos doces, comida, bebidas, e–

— “Cupcakes! São tão gostosos!” — Pinkie Pie começou a cantar quando ela jogou um pouco de farinha pro ar. — “Cupcakes! São saborosos! Cupcakes! Não sejam tão gulosooooss!”

— “Mmffhgg!” — tentou indagar Bon-Bon, mas estava segurando com a boca uma fôrma com biscoitos.

Bon-Bon largou a fôrma em cima da mesa que estava perto dela e olhou para Pinkie Pie. Ela não podia deixar Pinkie fazer o que bem entender na cozinha, não enquanto todos estavam tentando fazer comida e doces para todo mundo e com urgência.

— “Pinkie! Pare! Você está fazendo a maior bagunça! E NÃO SE ATREVA A LAMBER ESSA ESPÁTULA!!”

Daqui alguns dias, virão pôneis de todos os lugares: Pôneis de Canterlot, de Appleloosa, Manehattan, Cloudsdale, Trottinhan, enfim pôneis de toda a Equestria.

Pôneis famosos também estarão em Ponyville, tudo precisava estar bem apresentável e cheio de delícias para os visitantes(por que eles tem dinheiro; e esse dinheiro precisa ser gasto em alguma coisa, certo?).

Um pouco além do Canto do Cubo de Açúcar, nos deparamos com a praça central da cidade outra vez. Lá, Twilight Sparkle(que coisa azulada é aquela em cima da cabeça dela?) estava conversando com a Prefeita, uma pônei adulta cor de caqui com um topete médio das cores cinza claro e escuro e dois olhos azulados.

A unicórnia roxa parecia muito nervosa. Muito, muito nervosa. Além do mais, há algum pônei que não está nervoso nessa cidade?

— “Ai, Srta. Prefeita! Tem certeza de que está tudo bem? Digo, tudo está perfeitamente perfeito, mas e se não estiver perfeitamente perfeito o suficiente para ela? Ela vai estar chegando aqui dentro de alguns dias!”

— “Acalme-se, Srta. Sparkle!” — disse a Prefeita na tentativa de relaxar a agitada pônei roxa. — “Tudo está indo bem! Não precisa entrar em pânico.”

— “Pânico!? QUEM está em pânico?! Quem poderia estar em pânico quando a musicista mais famosa de Canterlot está vindo para cá, PARA CÁ, para realizar o último show de sua carreira!!?”

A Prefeita suspirou, esfregando o casco em sua testa.

— “Olha o stress, Twilight Sparkle.” — uma voz suave e feminina adentrou-se aos ouvidos das duas pôneis, — “Acalme-se antes que derreta a sacola de gelo… de novo.”

Surgiu perto delas uma pônei branca com uma longa e cacheada crina roxa, trotando elegantemente de sua chiquérrima loja de roupas, o Carousel Boutique.

Twilight olhou para o pequeno saco de gelo amarrado em sua cabeça. Ela abaixou levemente a cabeça, um pouco constrangida. Twilight levantou os olhos agora em direção ao pônei branco que se aproximava até ela elegantemente.

— “Desculpa, Rarity…” — começou Twilight Sparkle a se desculpar, com um tom meio tímido em sua voz — “Eu só estou–”

— “Nós TODOS estamos nervosos, minha querida!” — exclamou Rarity, sacudindo seu casco gentilmente. — “Mas ficando nervosa não vai resolver nada! Só irá arruinar esse seu belo e jovem rostinho!”

Rarity apontava para o rosto da Twilight; ela tinha um olho-roxo e um saco de gelo amarrado em sua cabeça.

— “E quanto mais nervosa você fica, mais estressada você se torna. E quanto mais estressada você se torna, mais cabelos brancos e peles enrugadas começarão a aparecer!” — Rarity colocou seu casco em seu peito demostrando uma feição de nojo em seu rosto, — “Argh! Que horror!”

A Prefeita ergueu uma sobrancelha, encarando diretamente para Rarity. As linhas em seu rosto estavam cobertas, mas ainda assim visíveis, com uma detalhada maquiagem para escondê-las e a cor pálida de sua crina não demonstrava timidez diante dos pôneis; apenas intimidação sobre a Rarity.

— “A-haha…!” — Rarity limpou a garganta e olhou desconfortavelmente para a Prefeita. — “Digo… Sem ofensas, né, Srta. Prefeita…?” Rarity sorriu falsamente para a Prefeita.

— “Não ofendeu…” — replicou a Prefeita, obviamente ela estava ofendida.

— “Agora, Srta. Sparkle, se você está tão preocupada com a nossa organização, podemos rever a lista de afazeres da semana para a chegada do nosso ilustre convidado.”

A Prefeita lentamente apontou para a fazenda Sweet Apple Acres. Twilight seguiu o casco da Prefeita com o olhar, virando a cabeça.

— “Applejack e sua família estão catando e catalogando cada maçã de sua fazenda para que possamos fazer os melhores receitas de maçã para o grande show.”

A pônei com a pelagem cor de caqui então ergueu seu casco, apontando para o céu; A cabeça de Twilight acompanhou o casco da Prefeita até o expansivo azul.

— “Em seguida: Todos os pégasos estão em alerta. Eles não deixarão nenhuma tempestade interromper o Grande Evento que irá acontecer daqui alguns dias.”

— “Vamulá, meninas! Mexam essas asas COM GOSTO!” — bradou Rainbow Dash para as três pégasos que estão com ela no céu, desmanchando as nuvens.

A Prefeita descansou seu casco no chão, agora gesticulou o mesmo para o Sugarcube Corner, que estava próximo a elas. Twilight continuou seguindo o casco da Prefeita com olhares e viradas com a cabeça. As gotículas de gelo que escorria entre a crina de Twilight agora ficavam voando pelo ar a cada virada de cabeça dela. Rarity também acompanhava junto com ela.

— “Pinkie Pie, Bon-Bon e Sr. e Sra. Cake” — continou a Prefeita. — “estão fazendo o melhor deles tentando fazer o máximo de comida, bebida e doces para o Grande Dia.”

De repente, uma voz fina e perturbada bradou de dentro do Canto do Cubo de Açúcar.

— “PARE DE LAMBER A PORCARIA DA ESPÁTULA, PINKIE!”

Pinkie Pie, com uma rápida resposta, disse — “Mas está coberta de chocolate! Eu PRECISO lambê-la!”

Os sons de cascos e talheres de cozinha caindo ao chão encheram a cozinha. Haverá problemas… e não é preciso ser adivinho para prever isso.

— “Muito bem, agora já chega, Pinkie Pie!” — Bon-Bon, com um puxão, arrebentou seu avental, largou suas ferramentas de trabalho culinário e começou a correr atrás de Pinkie Pie, com o nariz bufando.

Uma segunda leva de sons de cascos se juntou à confusão: Ambos barulhos soavam cada vez mais alto e cada vez mais rápido. Como nenhuma delas saíram para a entrada do estabelecimento ou para fora do mesmo, é dedutível de que elas estejam correndo em círculos; em volta de uma mesa.

— “Ei, ei, ei! Não seja tão Sra. Egoísta da Silva Souza, Bon-Bon!”

O número de utensílios caindo aumentou, e, com ele, o volume das vozes. Que bagunça está acontecendo dentro daquela cozinha…

— “Pinkie! Me dá essa espátula! AGORA!”

A pônei rosa não desistia. Aquela espátula coberta de chocolate valia mais do que ouro para ela.

— “Mas eu quero lambe-ê-ê-ê-ê-êêêê-lá!!”

A Sra. Cake não podia aguentar mais aquele caos dentro daquela cozinha e começou a exclamar para as pôneis problemáticas:

— “MENINAS, POR FAVOR, PAREM COM ISSO ANTES QUE VOCÊS DERRUBEM–”

Com um baixo(porém audível) “Pluf”, uma nuvem branca espessa começou a sair pela janela do Canto do Cubo de Acúcar. O caos havia acabado… por enquanto.

Twilight levou seu casco aos seus olhos, esfregando-os, — “Oh, Pinkie…” Pensou Twilight.

— “Como eu tinha dito,” — Murmurou a Prefeita enquanto ajeitava seu branco topete com um dos cascos. — “Estão fazendo o melhor.”

Ela tossiu alto, tentando chamar a atenção das duas, — “Bom, vamos seguir em frente. Sobre nossos convidados: Derpy Hooves é a única pônei responsável nesta área. Ela está enviando cada convite aos seus respectivos destinatários em cada casa de Ponyville e de toda Equestria.”

— “Ah, que óti– Esperaí, “a única responsável”?!” — Twilight girou bruscamente a cabeça, olhando para ambas Prefeita e Rarity, atônica. — “Não tem mais nenhum? E ela pretende enviar TODOS os convites em TODA Equestria?! E SOZINHA?!”

— “Sim.” — responderam a Prefeita e a Rarity em coro.

— “Mas, mas, mas…! Isso…!” — As palavras não saiam da boca de Twilight. Como é possível um pônei fazer isso tudo? Ela acredita que nem Rainbow Dash, ou nem mesmo os próprios Wonderbolts, seriam capazes de tal proeza. Ela, sim, era um pônei um tanto… peculiar.

— “Há algum problema, Twilight, querida?” — Rarity olhava para ela, estranhando a surpresa de Twilight.

— “Não! Claro que não, Rarity! Por quê haveria?! Ha…hahaha… haha…!”

A Prefeita e a Rarity se entreolharam, confusas e um pouco assustadas.

— “Mas… Caham! … quem é Derpy Hooves? Eu não me recordo muito bem dela desde que vim a Vila dos Pôneis(ou nem mesmo ouvi falar dela)…”

A Prefeita voltou a apontar seu casco para o céu, acima da cabeça de Twilight. Twilight encarou um pouco a Prefeita, confusa. Mas, mesmo assim, ela ergueu a cabeça para o céu e viu um ponto de cores cinza e amarelo voando na abóbada azulada. Um pégaso de cor cinza, com uma crina média amarelada, voando com uma sacola marrom cheia em suas costas. Era o que Twilight via no céu.

Por algum motivo, parecia que aquele pégaso estava pegando algum tipo de impulso porque estava voando alto, e mais alto. E mais alto.

— “O que ela está pensando em fazer? Será que…” — Twilight tenta olhar para onde Derpy estava “mirando”.

Fazendo os cálculos de cabeça, Twilight calcula o ângulo em que a pônei cinza se encontrava, em que direção ela está “mirando” e de onde o vento está ventando, ela descobre onde seria o possível “alvo” de Derpy: A casa da Fluttershy.

— “Não… Ela não va–” — Antes que ela terminasse, a pégaso cinza colidiu com o teto da casa da Fluttershy.

CRASH!

— “Aimêdeusminhanossasinhoradospôneis! Ela atravessou a casa da Fluttershy!” — a unicórneo roxa começou a trotar em círculos, desesperada, — “Minha santa Celestia! Ela pode ter se machucado! Ou ter morrido! Ou ter machucado Fluttershy! Ou ela e a Fluttershy terem se machucado e morrido! Temos que chamar alguém! Temos que–”

Twilight olhou para a Rarity e para a Prefeita. Ambas quietas, paradas, sem nenhuma reação ao acontecido.

— “Por quê estão paradas?! O que as impedem de–”

As duas calmamente apontaram. Twilight lentamente olhou para aonde as duas apontaram, o que seria o telhado da casa da Fluttershy.

Do buraco do telhado da casa, uma pégaso cinzendo reapareceu, saindo perfeitamente intacto dele. Sem nenhum aviso prévio, ela se preparou para mais um impulso. E com um giro rápido, mergulhou descontrolavelmente e colidiu com mais uma casa. Uma voz jovem em resposta podia ser ouvido de dentro de sua casa, gritando:

— “MEU TELHADO!”

Mais uma vez, Twilight levou seu casco diretamente em sua testa. Desta vez, foi forte o suficiente para fazer um “clop” alto.

— “AI!” — Sobressaltou Twilight, esquecendo da dor de cabeça. — “Porcaria! Ai, essa doeu muito…”

— “Calma, Twilight.” — Rarity chegou divinamente para perto da Twilight, acariciando seu ombro de leve. — “Precisa tomar cuidado com essa cabeça. O que você viu é completamente normal…”

— “ ‘Normal’?! Imagine se não fosse…!” — Pensou Twilight, esfregando um pouco a cabeça dolorida.

— “CAHAM!” — A Prefeita chamou atenção das duas, com um som muito esquisito de sua garganta.

Rarity e Twilight viraram a cabeça ao encontro da Prefeita.

— “E…!” — sua impaciência demonstrava que não aguentava mais tantas interrupções durante seus discursos, — “… É claro, a Srta. Rarity está–”

“Sim!” — Rarity interrompeu, entrando em cena com o casco sobre o peito, sentindo os holofotes imaginários apontando para ela, — “Eu estou fazendo todas as decorações para quando a nossa ilustremente chiquérrima convidada chegar! Sweetie Belle e suas amigas companheiras estão… me ajudando um pouco. Hehe” — O olho da Rarity soltou uma pequena e involuntária piscada.

Numa apararição mais rápido que um corisco, três pequeninos pôneis apareceram do nada. A irmã mais nova de Rarity, Sweetie Belle, uma pequena unicórnea branca com uma crina curta das cores rosa e roxa claras e olhos verdes; A irmã mais nova de Applejack, Applebloom, uma pequena pônei com uma crina média com mechas avermelhadas, pêlo amarelado e olhos cor de mel; e, por fim, Scootaloo, uma pequena pégaso com uma crina de cor fúcsia, uma pelagem alaranjada e olhos púrpuras.

    Coletivamente em coro, elas são:

— “CUTIE MARK CRUSADERS! AGORA DESIGNERS DE DECORAÇÕES! YAY!”

— “WHOA-HAAA!! MENINAS!”

Num piscar de olhos, as três pequeninas sumiram, correndo para dentro do Carrousel Boutique.

— “EI! Esperem…! GRRR! Essas meninas são incontroláveis!” — disse Rarity, bufando pelo nariz, — “Como Fluttershy consegue?!”

Twilight apenas rolou os olhos.

— “CAHAM. Enfim, Srta. Sparkle,” — continuou a Prefeita após a interrupição, — “Não há necessidade para tal preocupação! Apesar dos possíveis obstáculos que apresentam em nossa atual rotina de afazeres para o Grande Dia, tudo está prosseguindo agradavelmente, na minha sincera opinião. Isso era o que eu mais esperava de você, Srta. Sparkle. Essa é a SUA área; VOCÊ é quem organizou tudo!”

Twilight sentiu seu rosto corar, ela esqueceu completamente de que ela é quem fez e está fazendo toda a organização para o Grande Dia.

— “É… Acho que a senhora tem razão, Prefeita… é que… é difícil relaxar em momentos estressantes como esse. Mas… é… eu acredito que está tudo bem, mesmo.”

— “Sim, tudo.” — reafirmou a Prefeita, reconfortando Twilight com uma esfregadinha leve na cabeça.

Rarity veio logo em seguida, esfregando o rosto na bochecha de Twilight. — “Não se preocupe, Twilight, nós todas estamos aqui. Para ajudar e realizar o nosso trabalho!”

— “Sim, você está certa, Srta. Rarity! Devemos dar o nosso melhor para um agradável resultado para todos os pôneis. Confiando nos corações e na força de vontade de cada pônei, podemos qualquer coisa.”

A Prefeita fez uma breve pausa.

— “Nós confiamos em você, Twilight Sparkle. Você confia em nós?”

Twilight olhou surpresa para Prefeita, ela não acreditou no que acabara de ouvir.

— “Ela… me chamou de Twilight?”, pensou ela.

Twilight Sparkle sentia uma vibração diferente do que estava sentindo agora pouco. Uma sensação de segurança e bem-estar pairou ao redor dela. A confiança e a atitude voltou a fluir de dentro dela graças às calorosas e reconfortantes palavras da Prefeita e da Rarity.

— “Sim, eu confio em cada pônei em Ponyville…” — Twilight não pôde se conter da alegria que ela sentia naquele momento. Um calor gostoso era sentido em seu coração, um aperto no peito; como se fosse um abraço.

— “Obrigada…” — pensou Twilight Sparkle quando abaixou levemente a cabeça, lágrimas discretamente começaram a encher os olhos dela, — “Muito obrigada, fico muito feliz perto de pôneis como vocês…”

Twilight Sparkle, finalmente, estava calma e sentimentavelmente segura. A Prefeita gentilmente encostou o casco por baixo do queixo de Twilight e ergueu levemente o rosto dela.

—  “Tudo certo, então. Nós temos agora de voltar aos nossos afazeres. Todos os pôneis, incluindo nós duas, devemos nos preparar para a chegada da Srta. Octavia!”

Twilight e Rarity sorriram de excitação. Daqui alguns dias será um estupendo momento para os cidadãos da Vila dos Pôneis. E para um pônei em particular…

A janela da cozinha do Canto do Cubo de Açúcar abriu num estalo, deixando esvoaçar outra camada de farinha pelo ar.

— “EI, TWILIGHT!” — uma pônei rosa coberta de farinha e com a crina toda bagunçada(mais do que normalmente é) apareceu na janela, toda selerepe e falando num tom infantil, — “Essa cozinha tá uma maior BAGUNÇA! Essa é a bagunça mais bagunçada de todas as bagunças que já vi em minha vida!”

— “Hã… Legal, Pin–”

— “MAS nós já conseguimos fazer um monte de doces, bolos, tortas, cupcakes, biscoitos, bolinhos, doces, sucos… Eu disse ‘doces’ de novo? EI! O que vocês estão fazen–”

Pinkie Pie encarou Twilight Sparkle totalmente surpresa. E foi o suficiente para deixar Twilight um pouco preocupada para o quê ela está encarando.

Twilight arriscou perguntar, — “Hã… Sim, Pinkie? Há… algum problema?”

— “Você não deveria ter somente um chifre, Twilight?” — Pinkie Pie olhava para o galo na cabeça de Twilight, agora visível por que o gelo dentro do pacote já derreteu todo.

Equestria – Canterlot. 13 de Fevereiro, 12:34 da tarde.

Canterlot. Uma das grandiosas cidades em Equestria. Um lugar cheio de artesãos; feiticeiros mágicos e encantados; e pôneis famosos a cada metro quadrado nas ruas.

Alguns pôneis andavam pelas ruas da cidade, rindo e conversando, felizes e bem-humorados, assim como deve sempre ser. E porquê eles não deveriam estar? Eles estão cercados pelo melhor do melhor. A Praça Central tem um belíssimo parque de vida selvagem, cheio de pássaros, coelhos, tartarugas e entre outros animais; um enorme lago cristalino com patos, gansos e vários tipos diferentes de peixes e outros seres aquáticos; era divino o lugar. Essa cidade é o paraíso dos pôneis e um sonho para todos os pôneis sonhadores.

Princesa Celestia e Princesa Luna, juntas em seu palácio, formam o ponto central de Canterlot. A base de operações dos Wonderbolts, da FAE, permanece perto do palácio. Dentro da base de operações, no Corredor da Fama, permanecem os retratos dos mais importantes e lendários integrantes dos Wonderbolts da atualidade, consagrados pelos grandes feitos realizados pelos povos de Equestria. Dentre eles, são destacados o formidável Blizzard, a brilhante Misty, o eternamente faminto Soarin, a poderosa Spitifire, o apropriadamente denominado Blast, e o motorizado Tyco.

 Pôneis famosos e “modernos” como Photo Finish, Hoity Toity e, claro, Shappire Shores, todos vivem em suas luxuosas e gigantescas mansões, apenas à alguns metros dos monumentos celébres: A Praça Central, o Castelo das Princesas, e a base de operações dos Wonderbolts. Essas casas luxuosas são(naturalmente) as primeiras da rua principal, e essas mesmas casas formam o início de um expansivo corredor urbano denominado “Avenida dos Famosos”.

Poucos pôneis conseguem comprar uma casa nessa rua. E pouquíssimos são presenteados com uma casa nessa rua, nem que seja a última; localizada na ponta da Avenida.

E o pônei presenteado com uma casa em meio dessa rua recheada de famosos e pôneis importantes foi, é claro, Octavia.

Apesar de sua fama músical, Octavia vivia modestamente em uma casa com apenas dois andares e um simples, mas impecável, jardim com flores e moitas geometricamente cortadas. No recinto do jardim havia algumas margaridas, uma fileira de rosas e tulipas e um cantinho especial somente para as papoulas. No portão da frente, havia três significativas caixas de correio. O primeiro estava completamente e eternamente cheio de cartas; nele estava escrito “Fãs”. Na segunda caixa de correio estava escrito “Patrocinadores”. Não estava tecnicamente cheio, mas uma significativa pilha de várias cartas habitava o interior dele. E, na terceira caixa de correio, estava o mais longo título dentre as três, “Família/Amigos” e estava vazio.

Espere… “Vazio”? Mas por quê estaria vazio?

Houve um ruído. Era um som natural, mas ao mesmo tempo artificial: Esse som não veio da natureza, nem de um choramingo de um cão, nem de uma súbita mudança do vento, nem de uma forma oral. Não é de nenhum som produzido pela vida urbanizada e civilizada que se encontrava ao redor daquele jardim.

Não. O que ouvimos foi uma triste nota de um violoncelo, habilmente tocado e pronunciado com uma distinta melancolia.

Este som de outro mundo, estranhamente, veio de dentro da casa. Passando pela porta de entrada, nos deparamos com um pequeno corredor estreito, espaço suficiente para dois pôneis passarem ao mesmo tempo. No fim do corredor, há uma escada em espiral que leva para o segundo andar. À direita, uma grande sala, com uma lareira cheia de cinzas, umas poltronas baixas, um tapete grande, uma longa prateleira de livros de música, algumas pinturas e um toca-discos grande. Uma sala como sempre dever ser: Uma apropriada sala de estar.

A esquerda do corredor estreito, há uma pequena sala com uma placa dourada no topo da porta que dizia “Sala dos Troféus”. A pequena sala, quase com um escritório, havia uma escrivaninha, papéis(inteiros, amassados, molhados, queimados e em pedaços) dentro de uma lixeira, mais quadros e uma prateleira gigantesca que cobria uma parede inteira. Ele estava cheio de troféus e medalhas de todos os tipos. Todos estavam denominados com um título, entre eles havia “Melhor Música do Ano”, “Melhor Músico Estreante do Ano”, “Melhor Canção Solo do Ano” e muitos e muitos outros “Melhores do Ano”.

Porém, podemos ver que há um troféu especial na prateleira. Conscientemente colocado no centro de todos os troféus na prateleira. Por algum motivo, era muito importante e muito querido.

Uma fotografia.

Da Octavia como uma jovem poneizinha, com seus pais ao redor, abraçando-a. Todos estavam muito felizes… ou apenas aparentavam ser. Ao lado da fotografia, uma espécie de papel velho e empoeirado estava sentado em aberto para todos lerem. Nele está escrito à boca:

“Querida Octavia,

Eu, diretora do Colégio Equestriano da Música(CEM), Loud Noise, tenho o orgulho e o prazer em lhe entregar esse certificado de autenticidade. Você, como proprietária desse certificado, foi provado que você está dedicado a viver e amar o mundo da música e da exuberante melodia. Nós, os professores da CEM, afirmamos através da sua dedicação à arte e ao conhecimento no campo da música, e estendemos a você nossos agradecimentos e nossos parabéns. Eu pessoalmente ofereço a você minha benção de que, um dia, você será conhecida e reconhecida como a grande musicista que és. Nosso conselho de despedida: Ame tua família e acredite naqueles que te cercam, sejam amigos ou colegas. Em algum lugar no meio destes, há sempre um casco amigo.

Boa sorte!

Loud Noise.”

O som de um violoncelo encobria todos dos cantos da casa. Se tivéssemos que sentir as paredes, nós sentiríamos as paredes de madeira da casa vibrarem com o toque profundo das notas dos acordes do violoncelo. Cada nota, estava sendo tocado em maior tom. Dó maior, Ré menor, Mi maior. O ar estava pesado; espesso; uma sensação um tanto desconfortável que dificultava a respiração.

Subindo para o segundo andar pela escada em espiral no final do corredor estreito, o som do violoncelo ficava cada vez mais audível; estamos chegando perto da fonte do som. Chegando no segundo andar, as paredes vibravam mais do que quando estávamos na Sala dos Troféus e a fonte dessa vibração estava vindo no quarto mais próximo da escada à direita.

Adentrando ao quarto, não havia nada de anormal nele. Uma cama, duas mesinhas de cabeceira de cada lado, um sofá simples, uma cômoda, um armário de roupas. Praticamente um quarto normal; mas neste quarto, habitava uma pônei que seria muito difícil de classificar como normal.

Octavia. Sentada em uma cadeira baixa, tocando seu violoncelo. Uma jovem e atraente pônei cinza. Seus cabelos longos carbonizados pareciam um tanto embaraçados; alguém não conseguiu dormir direito naquela noite. Seus olhos de cores ainda desconhecidas estava fechados, demonstrando profunda concentração durante seu concerto particular.

Octavia é um perfeita imagem de postura e foco, uma pônei que não falava a menos que tinha algo relevante para dizer e, mesmo assim, quando as palavras não variavam ou eram insuficientes, ela procurava outros meios de transmitir seus pensamentos.

Um exemplo de outro meio de comunicação que ela usaria é o seu violoncelo. Octavia estava sozinha no quarto mas era evidente de que ela não estava sozinha… em seus pensamentos.

Ela estava tocando intensamente, como se estivesse tocando em uma orquestra ou em um concerto.

Em frente a ela, havia dois retratos pendurados na parede. Abaixo deles estavam cravadas duas placas douradas, os títulos que denominavam os quadros nas placas foram escritos em letra de boca em alta temperatura. Estavam escritos nas duas placas em nítido contraste: “Mamãe” e “Papai”.

Abaixo das incrições, as placas estavam sendo iluminadas por velas acesas, num típico ritual de honra e respeito… aos que não estão mais presentes. As velas eram a única fonte de luz mais abundante no quarto em um dia quase nublado. Não importa quantas velas estejam acesas no quarto, não expulsava a aparência fria e acinzentada do ambiente. O quarto estava mais cinzento que a própria Octavia, a combinação do ambiente com a cor da pelagem dela faziam-na camuflar-se perante o cinza da sala.

A luz do sol em sua janela invadia lentamente o quarto conforme quebravam as nuvens no céu; o quarto, finalmente, estava deixando a sua aparência acinzentada.

A luz do sol iluminou seu corpo; entre ela e a janela, os raios solares tornavam as partículas de poeira vísiveis a olho nu ao redor dela.

A música que Octavia escolheu para tocar era uma das suas canções proclamadas como “Melhores do Ano”. Uma canção feliz, alegre, compenetrada. Por quê ela o está tocando de uma forma triste e melancólica?

Octavia não ia parar de tocar a música. Ela não podia; ela queria terminá-la. Ela precisava terminar aquele solo.

O ar do ambiente no quarto estava pesado e o eco das vibrações do violoncelo incrustava nas paredes, no chão e no teto de sua casa. Pesado e triste. Seu rosto realizava uma intensa expressão enraivecida enquato pressionava o próprio queixo, forçando as lágrimas que quase escorriam de seus olhos de volta para dentro. Apesar de fazer o possível de esconder sua angústia, era inútil empurrar para dentro; era muito mais forte do que ela.

Ela mordeu o lábio e pressionou os olhos. Ela sufocou um suspiro, um soluço silencioso, mas não era o suficiente para interrompê-la de seu concerto: De um casco segurava o arco e do outro segurava o braço do violoncelo; as lágrimas que fluíam em seus olhos como uma nascente, ela tentava ao máximo retê-las.

— “Não… Se atreva a chorar agora…” — disse ela em seus pensamentos, — “Este… é o ultimo refrão.”

Como um pônei sendo torturado, seu corpo estava coberto de indesejadas tremulações. Mas ao contrário de uma tortura a base de dor, medo e desespero, com direito a sangue, cordas apertadas e ferros em brasa, esse tipo de tortura não podia rasgar aço, não podia cortar cordas, nem mesmo fazer sangue jorrar. Eram os acordes do violoncelo, quase vivo pelo som de suas notas executadas por Octavia.

Eram apenas Octavia e seu violoncelo, sozinhos no quarto com a melodia. A tortura era em sua mente, em sua alma, uma verdadeira tortura psicológica. Sem dor. Sem objetos. Sem sangue.

Octavia respirou estremecendo, quase como um gemido.

A última nota.

Octavia largou o arco em seu casco e começou a entrar em colapso com o chão, mas ela se pendurou sobre o violoncelo; o violoncelo a segurava de uma forma como seguraria um verdadeiro amigo.

Só agora a nascente pôde escorrer livremente pelo rosto de Octavia. As lágrimas escorriam levemente pelas bochechas de Octavia, indo ao encontro com o braço do violoncelo, deslizando algumas gotas sobre o braço do mesmo. Agora era o violoncelo que chorava junto a ela.

Octavia tentou usar suas esgotadas forças para se segurar-se no violoncelo. Não para se levantar, mas para abraçá-lo. Ela o apertava pelo tronco do violoncelo desesperadamente. Seu rosto esfregava carinhosamente o braço do viloncelo. A situação em qual ela se encontrava deve ser desconfortante para ela chegar ao ponto de abraçar um objeto frio e sem vida; abraçar um mero instrumento de madeira morta de um ser que já esteve vivo na natureza.

— “Mãe… Pai…” — as palavras ecoavam em sua mente, como um piano em lentas e delicadas notas.

Alguém bateu a porta. Octavia estremeceu e, num sobressalto, ergueu-se do violoncelo. Octavia olhou para a porta.

— “S-sim?” — ela gaguejou. — “Porcaria!” — resmungou ela baixinho enquanto massageava a garganta.

— “Madame?” — uma voz masculina veio do outro lado da porta, — “Tenho vossa permissão de adentrar em seu recanto particular?”

Octavia esfregou seus cascos no rosto para tentar enxugar suas lágrimas. Ela não queria que ninguém a visse nesse estado embaraçoso. Ela deu um longo suspiro, tentando controlar seu tom de voz, prejudicado com gaguejos e soluços.

— “… Sim, tem minha permissão.”

A maçaneta gritou no quarto. O som da porta se abrindo e fechando ecoou de uma forma patética pelo quarto, em comparação as notas do violoncelo.

Um pônei adulto cor de creme com uma crina escura portando olhos azuis adentrou-se no quarto de Octavia. Ele estava vestindo um terno preto simples, seus trotes eram precisos e sérios.

Era o seu mordomo, White Glove. A preocupação alastrou-se na sobrancelha direita do mordomo enquanto ele observava a respiração irregular e ofegante de sua patroa, mas ele continuou com sua tarefa.

— “Minha senhora? Novas cartas estavam no correio esta manhã. Gostaria de lê-las?”

Havia uma mochila nas costas do mordomo. Octavia olhou para o saco, pensativa. Depois olhou para o rosto do mordomo, os olhos dela estavam vermelhos e irritados.

O mordomo olhou discretamente com os olhos, sem mover a cabeça, para a parede em frente a Octavia: as velas estavam apagadas e em todas só restavam rastros de fumaça. Suspeitosamente as velas estavam sob os quadros dos pais dela, Sr. Maior e Sra. Menor.

White Glove já percebeu.

— “Ela não está se sentindo bem no momento,” — ele pensou, — “só um pônei cego e ignorante não entenderia o que ela está passando agora…”

— “Eu posso voltar mais tarde, se preferir, madame.” — White Glove girou o seu corpo para a porta mas olhava de relance para o rosto de Octavia.

Ela sacudiu sua cabeça e lançou o casco em direção ao mordomo, pedindo para esperar. No meio disso, ela soltou um agudo, — “Não!”

O mordomo parou. Octavia ficou vermelha de vergonha. Que estúpido “não” foi aquele, ela se perguntava em sua mente com o casco em sua boca.

Calmamente o mordomo virou a cabeça, — “Tem certeza, madame?” —  E então, gentilmente — “Eu estou um pouco preocupado com… seu bem-estar”

Ela olhou para baixo e levou seu casco direito ao seu peito enquanto o casco esquerdo segurava o braço do violoncelo. Depois de um breve momento, ela assentiu com a cabeça.

— “… Muito bem, então.” — disse White Glove. Ele virou seu corpo em direção a Octavia e puxou da mochila uma pilha grande de cartas amarradas com sua boca. Ele empilhou ordenadamente duas pilhas de cartas perto da Octavia.

— “Há algo mais em que eu possa fazer para a senhorita?”

Octavia refletiu por um momento, respirando mais devagar agora. Uma lágrima estava surgindo de seus olhos conforme ela devaneava, lembrando-se de seu mais recente concerto melancólico neste quarto.

White Glove, sem pensar duas vezes, puxou um lenço de seu bolso com a boca e ofereceu-o a Octavia.

 — “Madame?” — ele disse carinhosamente sério.

Octavia olhou para o lenço e olhou em seguida para os olhos do mordomo.

— “Por fuavor, madame. Acheite o lencho.”

Alguns segundos passaram. Octavia encarava o mordomo e o mordomo encarava sua patroa. As nuvens espessas surgiram e bloquearam os raios solares, levando embora as cores do ambiente. Os olhos dela devanearam novamente, desviando o olhar para o nada. Com uma respiração afiada, deixou cair o lenço e pisou um dos cascos no chão violentamente. Numa única pisada, todo o quarto estremeceu. Não foi um som patético como o da porta, foi até mais potente que os próprios acordes do violoncelo. Durante as vibrações nas paredes, provocadas pela forte pisada de White Glove, ele bradou:

— “Senhorita Octavia, por favor!” sua voz estava num tom assustadoramente sério.

Octavia olhou assustada para o White Glove. Ela não esperava esse tipo de reação de seu mordomo. Neste momento, ela estava realmente assustada.

— “Por favor, madame. Estou implorando.” — o mordomo pegou com sua boca o lenço do chão e, novamente, ofereceu-o a sua patroa.

A luz do sol voltou. Ela o encarou por um breve momente, até que, finalmente, ela estendeu o casco para o mordomo, aceitando o lenço.

— “Obrigado, madame.” — disse o mordomo, abaixando levemente a cabeça.

Octavia esfregou o lenço em seus olhos e sentia que o lenço expulsava todas as lágrimas de suas pálpebras. Era uma sensação de alívio para ela.

— “Vou perguntar novamente: Há algo mais que eu possa fazer pela senhora?”

Ela terminou de enxugar as lágrimas com o lenço e olhou novamente para o nada, pensativa. Ela assentiu com a cabeça. White Glove respondeu também com um assento com a cabeça e uma frase:

— “Como quiser, senhorita”

O mordomo se virou e trotou até a saída do quarto dela. Ele silenciosamente fechou a porta do quarto atrás dele, deixando Octavia mais uma vez sozinha  em seu recanto particular.

— “Ele é um bom mordomo,” — disse baixinho a Octavia com os olhos fechados. Ela soltou um longe suspiro, — “não o culpo por preocupar-se comigo. Ele está apenas fazendo o seu trabalho…”

Ela largou o braço do violoncelo e esfregou um pouco a testa, tentando descontrair a tensão.

— “Daqui alguns dias… minha carreira como–” — ela soluçou, — “… como música irá finalmente se extinguir…”

Octavia olhou para o seu tronco e começou a respirar fortemente. O tronco dela estava “vazio”. Não existia nada naquele tronco. Estava vazio.

Ela enxugou uma lágrima que acabara de escorrer em seu rosto, — “Acho que… esta é a melhor coisa a fazer… Não consigo mais viver dessa maneira…”

Octavia olhou de relance para as cartas empilhadas ao lado dela e percebeu algo sutil nas pilhas. White Glove fez questão de separar as cartas que estavam todas embaralhadas e escreveu em cada pilha seus respectivos assuntos: Patrocinadores, Fãs e Família/Amigos.

A pônei cinzenta, pela primeira vez no dia, sorriu.

— “Obrigada, White Glove…”

Octavia assentiu com a cabeça para a poeira, agradecida, enquanto uma última lágrima pingou de seu olho.

Do lado de fora do quarto, atrás da porta, permanecia uma figura suspeitamente familiar, seu rosto estava coberto por uma sombra, o que impedia de identificar seu rosto. Num instante, a figura sombria se ergueu do chão e, sem nenhum ruído, trotou para a escada em espiral, descendo para o primeiro andar.

Ele abaixou a cabeça tristemente. Ele não podia fazer nada para ajudá-la.

Com toda a clareza em sua mente, ele podia vê-la: O rosto de Octavia, encharcado de lágrimas, e ela lutando para conte-las, sem nenhum êxito.

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2 pensamentos sobre “Sem Palavras para Descrever – Livro I – Cap. 1 – Empolgação

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